A geração do dilúvio não tem porção no mundo vindouro, e não comparecem em julgamento, como está dito: "Meu espírito não permanecerá no homem para sempre" — nem julgamento nem espírito. A geração da dispersão não tem porção no mundo vindouro, como está dito: "E o Senhor os dispersou dali sobre a face de toda a terra." "E o Senhor os dispersou" — neste mundo; "e dali os dispersou o Senhor" — para o mundo vindouro. — A mishná passa das figuras individuais às gerações inteiras. Sobre a geração do dilúvio, a exegese extrai da dupla ambiguidade da palavra "יָדוֹן" tanto a negação do julgamento futuro quanto a negação do próprio espírito vital que retornaria a eles na ressurreição. Sobre a geração da dispersão, a repetição do verbo "dispersar" no versículo é lida como referindo-se a duas dispersões distintas — uma neste mundo, outra no mundo vindouro.
Os homens de Sodoma não têm porção no mundo vindouro, como está dito: "E os homens de Sodoma eram maus e pecadores contra o Senhor, muitíssimo." "Maus" — neste mundo; "e pecadores" — para o mundo vindouro. Mas comparecem em julgamento. Rabi Nechemia diz: nem estes nem aqueles comparecem em julgamento, como está dito: "Por isso não se levantarão os ímpios em juízo, nem os pecadores na assembleia dos justos." "Por isso não se levantarão os ímpios em juízo" — esta é a geração do dilúvio; "nem os pecadores na assembleia dos justos" — estes são os homens de Sodoma. Disseram-lhe: não se levantam na assembleia dos justos, mas se levantam na assembleia dos ímpios. — A mesma dupla leitura ("maus" / "pecadores") aplicada aos homens de Sodoma extrai deles a exclusão do mundo vindouro, mas a mishná os distingue explicitamente da geração do dilúvio quanto ao comparecimento em julgamento — distinção que Rabi Nechemia rejeita, propondo, a partir de outro versículo, que ambos os grupos estão igualmente excluídos até do próprio julgamento; os Sábios respondem reinterpretando o versículo de Rabi Nechemia: os ímpios não se erguem junto aos justos, mas se erguem, sim, junto aos ímpios, preservando a distinção original.
Os espias não têm porção no mundo vindouro, como está dito: "E morreram os homens que trouxeram o relatório difamatório da terra, pela praga, diante do Senhor." "E morreram" — neste mundo; "pela praga" — para o mundo vindouro. A geração do deserto não tem porção no mundo vindouro e não comparece em julgamento, como está dito: "Neste deserto se consumirão, e ali morrerão" — palavras de Rabi Akiva. Rabi Eliezer diz: sobre eles está dito: "Ajuntai-Me os Meus piedosos, os que fizeram Meu pacto por sacrifício." — A morte dos espias por praga, distinta da simples morte comum, é lida como dupla punição — nesta vida e na vindoura. Já sobre a geração do deserto — os que saíram do Egito e morreram nos quarenta anos de peregrinação — a mishná registra uma controvérsia central: Rabi Akiva a exclui inteiramente do mundo vindouro, ao passo que Rabi Eliezer, apoiado num versículo dos Salmos sobre os que fizeram pacto por sacrifício, os considera piedosos com porção garantida.
A assembleia de Korach não está destinada a ressurgir, como está dito: "E a terra os cobriu" — neste mundo — "e pereceram do meio da congregação" — para o mundo vindouro — palavras de Rabi Akiva. Rabi Eliezer diz: sobre eles está dito: "O Senhor mata e faz viver, faz descer ao Sheol e faz subir." As dez tribos não estão destinadas a retornar, como está dito: "E os lançou para outra terra, como neste dia" — assim como este dia vai e não retorna, também eles vão e não retornam — palavras de Rabi Akiva. Rabi Eliezer diz: "como neste dia" — assim como o dia escurece e clareia, também as dez tribos, para quem agora está escuro, assim está destinado a clarear para elas. — Novamente a dupla ambiguidade de um versículo — aqui sobre a terra que engoliu o grupo de Korach — sustenta a posição de Rabi Akiva; Rabi Eliezer opõe um versículo diferente, sobre o poder Divino de reviver, entendendo-o como promessa de restauração até para a assembleia de Korach. Sobre as dez tribos exiladas por Sancheriv, a controvérsia se repete em torno da mesma expressão "como neste dia": Rabi Akiva a lê como imagem de irreversibilidade — o dia que passa não volta —; Rabi Eliezer a lê como imagem de alternância — a escuridão do dia cede à luz do dia seguinte —, prometendo assim eventual retorno.
Rambam observa, primeiramente, um princípio metodológico importante: toda controvérsia entre os Sábios que não desemboca em prática concreta, sendo apenas matéria de crença — como as controvérsias entre Rabi Akiva e Rabi Eliezer nesta mishná —, não admite que se determine a halachá conforme uma ou outra opinião. Explica, ainda, por que este assunto — quem tem e quem não tem porção no mundo vindouro — se insere precisamente aqui, depois do tratado das quatro penas capitais do tribunal: para que não se pense que quem é executado por uma dessas penas perde, por isso mesmo, sua porção no mundo vindouro. Ao contrário — como ensinou a mishná de abertura do perek — mesmo o condenado pelo tribunal humano conserva, em regra, sua porção; e o assunto retorna, então, ao propósito original do tratado, que é conhecer quem é executado e como.
Bartenura esclarece que, sobre a geração do dilúvio, a mesma expressão bíblica nega tanto o julgamento futuro quanto o próprio "espírito" — isto é, a vitalidade necessária para viver junto dos justos que têm porção. Sobre a geração do deserto e o versículo trazido por Rabi Eliezer, precisa que "os que fizeram Meu pacto por sacrifício" refere-se ao pacto selado no Sinai por meio de oferendas pacíficas, cujo sangue foi aspergido sobre o povo. E sobre as dez tribos, esclarece que "não estão destinadas a retornar" significa do lugar de seu exílio; e que a tradição de que Yirmiyahu as teria trazido de volta, sob o reinado de Yoshiyahu, refere-se apenas a uma parte delas, não a todas.
Rashi acompanha, linha a linha, cada exegese da mishná. Sobre a geração do dilúvio, precisa que o versículo lhes nega dois planos distintos: o comparecimento em julgamento e o próprio "espírito" para viver com os justos. Identifica a controvérsia de Rabi Nechemia como incidindo especificamente sobre a geração do dilúvio e os homens de Sodoma, e confirma que os Sábios, ao responderem, mantêm que ambos os grupos "vivem e são julgados" — isto é, comparecem, ainda que para serem sentenciados. Sobre a geração do deserto, identifica o "pacto por sacrifício" citado por Rabi Eliezer como o pacto do Sinai, selado com oferendas pacíficas. Sobre as dez tribos, precisa que foram exiladas por Sancheriv para Chalach, Chavor, o rio Gozan e as cidades da Média, e esclarece que a tradição de um retorno parcial promovido por Yirmiyahu não contradiz a mishná, pois refere-se apenas a uma parte delas.
Na Guemará que discute a sorte da assembleia de Korach, Rashi registra a posição de Rabi Yehudá ben Beteira — citada ali junto à controvérsia de Rabi Akiva e Rabi Eliezer registrada na mishná —, segundo a qual a palavra "וַיֹּאבְדוּ" ("e pereceram") não indica perdição definitiva, mas algo "perdido que ainda se busca": assim como Davi, no Salmo, se compara a uma ovelha perdida que Deus busca por misericórdia, também os filhos de Korach — que, segundo a tradição, não pereceram com o pai — são trazidos de volta ao mundo vindouro.