Beit Shamai diz: levanta-se da mesa ossos e cascas — com as próprias mãos, diretamente, ao final da refeição de Shabat, pois consideram que ossos e cascas não têm o estatuto de muktzê quando aptos para alimento animal — e Beit Hilel diz: retira-se a tábua toda e sacode-se — ergue-se a própria superfície da mesa, que é um utensílio, e move-se por meio dela, sem tocar diretamente nos ossos e cascas — retiram-se de diante da mesa migalhas menores que um azeitona — mesmo em pequena quantidade, imprópria para o consumo humano — e vagens de ervilha, e vagens de lentilha — as cascas vazias que sobram da leguminosa — porque são ração animal — e por isso não são muktzê, podendo ser removidas diretamente com a mão — a esponja, se tem alça de couro — uma peça de couro afixada à esponja, permitindo segurá-la sem tocar diretamente na parte absorvente — limpa-se com ela — a mesa, pois segurando-a pela alça não há risco de espremê-la e extrair líquido, o que constituiria a melachá de melabên (lavar/espremer) — e se não — tiver alça de couro — não se limpa com ela — por receio de que, segurando-a diretamente, os dedos a comprimam e dela escorra líquido — e os Sábios dizem: de um modo e de outro, é permitido movê-la em Shabat — discordando de Rabi Shimon quanto à esponja seca, considerando que não há preocupação real de espremê-la sem intenção — e ela não recebe impureza — pois a esponja não se enquadra em nenhuma das categorias de utensílios sujeitos à impureza ritual — nem madeira, nem tecido, nem saco, nem metal — e por isso, tratando-se de algo que nunca teve o estatuto de utensílio completo, seu movimento é permitido sem qualquer restrição adicional.
Com esta mishná se conclui o Perek Kaf-Alef, dedicado ao transporte indireto de itens muktzê que vêm anexados, sobrepostos ou misturados a algo permitido — do filho com a pedra na mão (mishná 1), passando pelo barril e a almofada (mishná 2), até a disputa de Beit Shamai e Beit Hilel sobre limpar a mesa (mishná 3).
Ração animal como critério de exceção ao muktzê. A mishná final do capítulo introduz um princípio central da lei de muktzê: itens que, por si mesmos, seriam considerados resíduos ou lixo — ossos, cascas, migalhas minúsculas — deixam de ser muktzê quando servem de alimento para animais, pois têm uma utilidade real reconhecida (Rambam, Hilchot Shabat 26:16). A disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre erguer a mesa toda ou apenas os ossos com a mão paralela-se à disputa mais ampla entre Rabi Yehudá e Rabi Shimon quanto à severidade do muktzê, retomada explicitamente pela Guemará. O caso da esponja, por fim, ilustra como a preocupação com uma melachá derivada — espremer líquido, aparentada a melabên — pode se dissipar quando o ato se torna incidental e não-intencional o suficiente aos olhos dos Sábios.
Como o Rambam codifica, em Hilchot Shabat, a regra geral de que tudo o que serve de ração animal pode ser movido em Shabat, incluindo ossos e cascas.
Os comentadores explicam a inversão de opiniões entre Beit Shamai e Beit Hilel apontada pela Guemará, e o raciocínio de "pessik reisheih" por trás da proibição da esponja sem alça.
"Beit Shamai diz: levanta-se da mesa ossos e cascas etc." — o que Beit Hilel permitiu, mover as cascas e os ossos, é porque são próprios para alimento animal. "Tábua" é uma tábua grande sobre a qual se coloca a mesa, para que caiam sobre ela as migalhas. "Vagens de ervilha" são as cascas das ervilhas.
"Esponja" é conhecida, e é como a lã que se faz na costa do mar e absorve a água, e se enxuga com ela. Sua "alça" — quando a esponja mencionada tem alça e se segura por ela, ela não se comprime nem se espreme ao enxugar com ela. E mesmo Rabi Shimon proíbe enxugar com ela quando não tem alça, pois ela se comprime e se espreme necessariamente; e em toda coisa necessária, Rabi Shimon concorda, ainda que não seja intencional — pois Rabi Shimon só permite o que não é intencional quando o efeito da melachá pode ocorrer ou não, como quando dizem "arrasta-se uma cama, cadeira ou banco, desde que não se tenha a intenção de fazer um sulco", pois é possível arrastá-lo sem fazer sulco; mas coisa necessária, não — e é o que dizem: "Rabi Shimon concorda no caso de pessik reisheih velo yamut" (é certo que ocorrerá, ainda que não se deseje). E a afirmação dos Sábios "de um modo e de outro" quer dizer: tanto se tiver alça, sendo permitido enxugar com ela, quanto se não tiver, é permitido movê-la em Shabat. E a halachá segue os Sábios.
"Beit Shamai diz: levanta-se da mesa ossos e cascas" — na Guemará se diz que não nos apoiamos em nossa mishná tal como está redigida, mas a opinião está trocada: Beit Hilel diz que se levanta da mesa ossos e cascas, e Beit Shamai diz que se retira a tábua que tem o estatuto de utensílio, mas não se movem os ossos e cascas com as mãos — pois Beit Hilel segue Rabi Shimon e Beit Shamai segue Rabi Yehudá. Porém, Beit Hilel só permite ossos e cascas próprios para alimento animal, ainda que impróprios para alimento humano; mas se não são próprios nem mesmo para alimento animal, Beit Hilel concorda que é proibido movê-los, pois nesse caso até Rabi Shimon concorda.
"Retiram-se da mesa migalhas menores que um azeitona" — mesmo menores que um azeitona, e a razão, como se explica logo adiante, é que são próprias para alimento animal. "Vagens de favas" — as vagens em que cresce a leguminosa. "Alça de couro" — uma alça de couro para segurá-la por ela. "Não se limpa com ela" — pois, ao segurá-la, ela se espreme entre os dedos, e isso é pessik reisheih velo yamut (efeito certo, mesmo sem intenção), no qual Rabi Shimon concorda.
"De um modo e de outro" — tanto se tem alça de couro quanto se não tem, é permitido movê-la em Shabat quando está seca. "E ela não recebe impureza" — pois não é utensílio de madeira, nem tecido, nem saco, nem metal.
Na mishná: "retiram-se" — com as mãos, de sobre a mesa. "Ossos" — duros, que não são próprios nem para o cão — segundo Beit Shamai, que não considera muktzê. "E cascas" — de nozes, pois para Beit Shamai não há muktzê nesse caso. "E Beit Hilel diz: retira-se a tábua" — que tem o estatuto de utensílio, mas não se movem as cascas com as mãos, como Rabi Yehudá.
"Retiram-se de sobre a mesa" — sem especificação. "Migalhas menores que um azeitona" — e com mais razão as de um azeitona, como se explica adiante, que são alimento animal. "E vagens de ervilha" — as vagens da leguminosa em que ela cresce. "Alça de couro" — uma alça de couro para segurá-la por ela. "Limpa-se com ela" — a tábua. "Não se limpa com ela" — pois, ao segurá-la, ela se espreme entre os dedos. "Move-se em Shabat" — quando está seca. "E não recebe impureza" — pois não é utensílio de madeira, nem tecido, nem saco, nem metal.
Na Guemará: "não nos apoiamos" — não nos apoiamos em nossa mishná tal como está redigida, mas sua opinião está trocada, e Beit Shamai segue Rabi Yehudá etc. "É proibido descartá-los com a mão" — pois foi ensinado "retiram-se com as mãos" e não "lançam-nos fora".
O encerramento do Perek Kaf-Alef. Com esta mishná se conclui o Perek Kaf-Alef, dedicado ao transporte indireto de itens muktzê anexados, sobrepostos ou misturados a algo permitido: a criança com a pedra na mão e a cesta rota tapada por uma pedra, exemplificando a subordinação ao item principal (mishná 1); o barril inclinado e a almofada sacudida, técnica de "queda por consequência" que evita o toque direto no muktzê (mishná 2); e, por fim, a disputa de Beit Shamai e Beit Hilel sobre limpar ossos e cascas da mesa, e a esponja cuja alça de couro evita a preocupação de espremê-la (mishná 3). O Perek Kaf-Bet, a seguir, tratará da lei de sechitá — extrair líquidos de alimentos — e de outros detalhes finos do que é permitido preparar em Shabat para a própria refeição.