Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Guimel · Mishná 3 de 9

A cidade sem chuva enquanto a vizinhança recebeu

וְכֵן עִיר שֶׁלֹּא יָרְדוּ עָלֶיהָ גְשָׁמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do caso em que uma única cidade fica sem chuva enquanto as cidades ao redor recebem — situação que o profeta Amós já descreveu como sinal de maldição divina — e distingue a resposta da própria cidade da resposta de suas vizinhas, com uma disputa entre os sábios e Rabi Akiva.

E do mesmo modo, a cidade sobre a qual não caiu chuva, como está escrito: "E fiz chover sobre uma cidade, e sobre outra cidade não fiz chover; uma porção foi chovida etc." — aquela cidade jejua e clama, e todas as suas vizinhas jejuam mas não clamam. Rabi Akiva diz: clamam mas não jejuam.O verso de Amós descreve exatamente este cenário como um sinal divino direcionado: quando a chuva cai desigualmente entre cidades próximas, a cidade privada de chuva sofre uma calamidade específica, e por isso jejua e clama com toque de shofar; as cidades vizinhas que receberam chuva também jejuam, por solidariedade e porque dependerão de comprar mantimento da cidade afetada, mas não clamam, pois a calamidade não é diretamente delas. Rabi Akiva inverte a intensidade: as vizinhas devem clamar mas não jejuar, por não estarem elas mesmas sofrendo a falta de chuva.

וְכֵן עִיר שֶׁלֹּא יָרְדוּ עָלֶיהָ גְשָׁמִים, דִּכְתִיב (עמוס ד) וְהִמְטַרְתִּי עַל עִיר אֶחָת וְעַל עִיר אַחַת לֹא אַמְטִיר, חֶלְקָה אַחַת תִּמָּטֵר וְגוֹ', אוֹתָהּ הָעִיר מִתְעַנָּה וּמַתְרַעַת, וְכָל סְבִיבוֹתֶיהָ, מִתְעַנּוֹת וְלֹא מַתְרִיעוֹת. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, מַתְרִיעוֹת וְלֹא מִתְעַנּוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Amós 4:7-8
וְגַם אָנֹכִי מָנַעְתִּי מִכֶּם אֶת הַגֶּשֶׁם בְּעוֹד שְׁלֹשָׁה חֳדָשִׁים לַקָּצִיר, וְהִמְטַרְתִּי עַל עִיר אֶחָת וְעַל עִיר אַחַת לֹא אַמְטִיר, חֶלְקָה אַחַת תִּמָּטֵר וְחֶלְקָה אֲשֶׁר לֹא תַמְטִיר עָלֶיהָ תִּיבָשׁ. וְנָעוּ שְׁתַּיִם שָׁלֹשׁ עָרִים אֶל עִיר אַחַת לִשְׁתּוֹת מַיִם וְלֹא יִשְׂבָּעוּ, וְלֹא שַׁבְתֶּם עָדַי נְאֻם ה'.
E também eu vos retive a chuva, faltando ainda três meses para a ceifa; e fiz chover sobre uma cidade, e sobre outra cidade não fiz chover; uma porção foi chovida, e a porção sobre a qual não choveu secou. E vaguearam duas ou três cidades a uma cidade para beber água, e não se saciaram; e não vos voltastes a mim, diz o Eterno.

O verso de Amós já descreve, muitos séculos antes da mishná, o exato fenômeno regulado aqui — chuva concentrada sobre uma cidade e negada a outra — e o interpreta como advertência divina explícita, um chamado ao arrependimento que o povo não atendeu. A mishná cita este verso não apenas como fonte terminológica, mas como fundamento teológico da halachá: se a Escritura já identificou a distribuição desigual da chuva entre cidades vizinhas como sinal direcionado, então a cidade que sofre essa falta específica deve responder com jejum e clamor, tratando o evento como mensagem que lhe é dirigida. A continuação do verso, sobre cidades vizinhas que vagueiam em busca de água sem se saciar, explica por que também as cidades ao redor — que dependerão do comércio de mantimentos com a cidade seca — têm um papel de resposta, ainda que mais leve, na halachá que a mishná constrói sobre este texto profético.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica o motivo econômico da resposta das cidades vizinhas, e lembra que a halachá, como em todo este perek, não segue Rabi Akiva.

Bartenura · Taanit 3:3
וְכָל סְבִיבוֹתֶיהָ מִתְעַנּוֹת. שֶׁאוֹתָהּ הָעִיר שֶׁלֹּא יָרְדוּ בָהּ גְּשָׁמִים תֵּלֵךְ לִקְנוֹת תְּבוּאָה בָּעִיר שֶׁיָּרְדוּ בָהּ וְיִהְיֶה רָעָב:

"E todas as suas vizinhas jejuam" — porque aquela cidade sobre a qual não caiu chuva irá comprar mantimento na cidade sobre a qual choveu, e assim haverá fome também nesta, ao ver seus estoques consumidos pela cidade vizinha necessitada; por isso as cidades ao redor também jejuam, embora não clamem, já que a calamidade não é diretamente sua.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi conecta esta mishná à halachá geral de que a cidade sem chuva é tratada como maldita, remetendo diretamente ao verso de Amós citado no texto.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 19a — a leitura do verso de Amós como fundamento da halachá
ה"ג אותה העיר מתענה ומתרעת וכל סביבותיה מתענות ולא מתריעות – ולפיכך מתענות שאותה העיר שלא ירדו עליה גשמים תלך לקנות התבואה באותה העיר ויהיה בה רעב: שלא ירדו עליה גשמים דכתיב והמטרתי על עיר אחת ועל עיר אחת לא אמטיר וגו' – כגון שהמטיר בעיר זו ובחבירתה לא המטיר דקללה היא:

Esta é a versão correta do texto: "aquela cidade jejua e clama, e todas as suas vizinhas jejuam mas não clamam" — e por isso jejuam, porque aquela cidade sobre a qual não caiu chuva irá comprar o mantimento naquela outra cidade, e haverá fome também nela. "Sobre a qual não caiu chuva, como está escrito: e fiz chover sobre uma cidade, e sobre outra cidade não fiz chover, etc." — por exemplo, quando choveu nesta cidade e em sua vizinha não choveu — pois isso é maldição. Rashi ancora assim toda a halachá diretamente na leitura literal do verso de Amós: a assimetria da chuva entre cidades vizinhas não é acaso climático, mas sinal identificado como tal já pelo profeta.