Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Bet · Mishná 2 de 10

A mesma esposa, ordem invertida, e a opinião de Rabi Shimon

שְׁנֵי אַחִים וּמֵת אֶחָד מֵהֶן וְיִבֵּם הַשֵּׁנִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná repete o caso da anterior, mas invertendo a ordem: agora o segundo irmão faz yibum com a viúva antes do nascimento do terceiro irmão. A lei permanece a mesma para os Sábios, mas Rabi Shimon discorda, sustentando que a ordem muda tudo.

Dois irmãos, e um deles morreu, e o segundo fez yibum com a esposa de seu irmão, e depois nasceu-lhes um irmão, e morreu — a primeira sai por ser esposa do irmão que não estava no mundo, e a segunda por ser sua rival. Se ele fez nela mamar, e morreu, a segunda faz chalitzá e não faz yibum. Rabi Shimon diz: ele faz yibum com qualquer uma delas que quiser, ou faz chalitzá com qualquer uma delas que quiser.A mishná repete palavra por palavra o caso anterior, mas invertendo a ordem dos eventos: aqui o segundo irmão já havia tomado a viúva do primeiro em yibum quando o terceiro irmão nasceu. Ainda assim, os Sábios (tanna kama) mantêm a mesma conclusão: como a Torá exige que os irmãos "morem juntos" para que o vínculo se estabeleça, e o terceiro nunca coexistiu com o primeiro, a viúva do primeiro permanece, para sempre, uma relação proibida em relação a ele — pouco importando se o yibum ocorreu antes ou depois de seu nascimento. Rabi Shimon discorda radicalmente: para ele, a ordem é decisiva. Como o segundo irmão já havia consumado o yibum antes do nascimento do terceiro, a viúva do primeiro já havia se tornado, naquele momento, esposa plena do segundo irmão — e o vínculo original com o primeiro irmão falecido já estava totalmente extinto antes mesmo de o terceiro irmão existir. Por isso, para Rabi Shimon, quando o segundo irmão morre, o terceiro se depara com duas esposas comuns do segundo, sem relação proibida alguma entre elas, e pode escolher livremente fazer yibum ou chalitzá com qualquer uma das duas.

שְׁנֵי אַחִים וּמֵת אֶחָד מֵהֶן, וְיִבֵּם הַשֵּׁנִי אֶת אֵשֶׁת אָחִיו, וְאַחַר כָּךְ נוֹלַד לָהֶן אָח, וָמֵת, הָרִאשׁוֹנָה יוֹצֵאת מִשּׁוּם אֵשֶׁת אָחִיו שֶׁלֹּא הָיָה בְעוֹלָמוֹ, וְהַשְּׁנִיָּה מִשּׁוּם צָרָתָהּ. עָשָׂה בָהּ מַאֲמָר, וָמֵת, הַשְּׁנִיָּה חוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, מְיַבֵּם לְאֵיזוֹ מֵהֶן שֶׁיִּרְצֶה, אוֹ חוֹלֵץ לְאֵיזוֹ מֵהֶן שֶׁיִּרְצֶה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:5
כִּי יֵשְׁבוּ אַחִים יַחְדָּו וּמֵת אַחַד מֵהֶם וּבֵן אֵין לוֹ לֹא תִהְיֶה אֵשֶׁת הַמֵּת הַחוּצָה לְאִישׁ זָר יְבָמָהּ יָבֹא עָלֶיהָ וּלְקָחָהּ לוֹ לְאִשָּׁה וְיִבְּמָהּ
Quando irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem ter filho, a esposa do falecido não se casará com estranho, fora da família; seu cunhado virá a ela, e a tomará para si por esposa, e fará yibum com ela.

Toda a disputa entre os Sábios e Rabi Shimon nasce de como se lê a exigência "morarem juntos" quando a ordem dos eventos se inverte. Os Sábios entendem que essa condição é fixa e permanente: se o terceiro irmão não coexistiu com o primeiro, a proibição vale para sempre, não importando o que aconteceu depois entre o segundo irmão e a viúva. Rabi Shimon, ao contrário, entende que a extinção do vínculo original — pelo yibum válido do segundo irmão — apaga retroativamente qualquer conexão da viúva com o primeiro irmão, de modo que ela chega ao terceiro irmão já como simples esposa comum do segundo, sem vínculo algum remanescente do primeiro casamento.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam codifica a halachá seguindo os Sábios contra Rabi Shimon: a proibição da esposa do irmão que não estava no mundo vale para sempre, seja qual for a ordem entre o nascimento do irmão mais novo e o yibum do irmão do meio.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Yibum VeChalitzá 6:17
כֵּיצַד. רְאוּבֵן שֶׁמֵּת וְהִנִּיחַ אִשָּׁה וְנָפְלָה לִפְנֵי שִׁמְעוֹן וְאַחַר שֶׁמֵּת רְאוּבֵן נוֹלַד לֵוִי. בֵּין שֶׁנּוֹלַד לֵוִי קֹדֶם שֶׁיִּבֵּם לָהּ שִׁמְעוֹן בֵּין שֶׁנּוֹלַד אַחַר שֶׁיִּבְּמָהּ, הֲרֵי אֵשֶׁת רְאוּבֵן עֶרְוָה עַל לֵוִי לְעוֹלָם. לְפִיכָךְ אִם מֵת שִׁמְעוֹן וְנָפְלָה זוֹ וְצָרָתָהּ לִפְנֵי לֵוִי שְׁתֵּיהֶן פְּטוּרוֹת מִן הַחֲלִיצָה וּמִן הַיִּבּוּם.

Rambam esclarece expressamente o ponto que separa a nossa mishná da anterior: Reuven morreu e deixou uma esposa, que caiu diante de Shimon; depois que Reuven morreu, nasceu Levi — seja Levi nascido antes de Shimon fazer yibum com ela, seja nascido depois que ele já a tomou em yibum, a esposa de Reuven é, de todo modo, uma relação proibida para Levi para sempre. Por isso, se Shimon morre e ela e sua rival caem diante de Levi, ambas ficam isentas tanto da chalitzá quanto do yibum — a halachá segue os Sábios, e não a opinião individual de Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam explica por que a halachá não segue Rabi Shimon; Bartenura detalha o raciocínio de Rabi Shimon a partir da estrutura da mishná; Rashi, na Guemará, confirma que a opinião de Rabi Shimon se volta apenas contra a primeira cláusula da mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 2:2
מַה שֶּׁאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן חוֹזֵר עַל שְׁנֵי הַמַּאֲמָרִים, לְפִי סְבָרָתוֹ כְּשֶׁיִּבֵּם וְאַחַר כָּךְ נוֹלַד לָהֶם אָח אֵינָהּ אֵשֶׁת אָחִיו שֶׁלֹּא הָיָה בְעוֹלָמוֹ לְפִי שֶׁהוּא מְצָאָהּ בִּרְשׁוּת אָחִיו הַשֵּׁנִי, וְנִשּׂוּאֵי הָרִאשׁוֹן כְּאִלּוּ לֹא הָיוּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Rambam explica que a opinião de Rabi Shimon se aplica às duas cláusulas da mishná — tanto ao caso simples quanto ao caso do mamar — porque, segundo o seu raciocínio, quando o yibum já ocorreu antes do nascimento do terceiro irmão, este encontra a mulher já sob domínio legítimo do segundo irmão, e o primeiro casamento dela é como se nunca tivesse existido, apagado por completo pelo yibum válido que veio depois. Rambam encerra, como sempre, declarando que a halachá não segue Rabi Shimon, mas os Sábios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 2:2
מְיַבֵּם לְאֵיזוֹ שֶׁיִּרְצֶה. וּפוֹטֶרֶת חֲבֶרְתָּהּ. וְלָאו אַעָשָׂה בָּהּ מַאֲמָר קָאֵי, אֶלָּא אַרֵישָׁא קָאֵי דְּקָתָנֵי הָרִאשׁוֹנָה אֲסוּרָה וְכוּ׳, וְקָאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן כֵּיוָן שֶׁכְּשֶׁנּוֹלַד כְּבָר נִתְיַבְּמָה, וְלֹא הָיְתָה עַל זֶה בְּזִיקַת נִשּׂוּאֵי אָחִיו הָרִאשׁוֹן מֵעוֹלָם, מֻתֶּרֶת לוֹ.

Bartenura esclarece a que cláusula da mishná se dirige, precisamente, a opinião de Rabi Shimon: ele não está falando do caso final, do mamar, mas voltando à cláusula inicial, onde se ensina que a primeira mulher é proibida. Rabi Shimon discorda dessa própria afirmação: já que, quando o terceiro irmão nasceu, ela já havia sido tomada em yibum pelo segundo, ela nunca esteve, para o terceiro irmão, sob o vínculo do casamento do primeiro irmão — e por isso lhe é permitida como qualquer esposa comum de seu irmão falecido.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 18b
מַתְנִי׳ וּמֵת - הַמְיַיבֵּם: מְיַיבֵּם לְאֵיזוֹ שֶׁיִּרְצֶה - וּפוֹטֶרֶת חֲבֶרְתָּהּ, וְלָאו אַעֲשָׂה בָּהּ מַאֲמָר קָאֵי, אֶלָּא אַרֵישָׁא קָאֵי דְּקָתָנֵי הָרִאשׁוֹנָה יוֹצֵאת כוּ׳, וְקָאָמַר דְּכֵיוָן שֶׁכְּשֶׁנּוֹלַד כְּבָר נִתְיַבְּמָה וְלֹא הָיְתָה עַל זֶה בְּזִיקַת נִשּׂוּאֵי אָחִיו הָרִאשׁוֹן מֵעוֹלָם, מֻתֶּרֶת לוֹ.

Rashi, na abertura da Guemará sobre esta mishná, confirma que "e morreu" se refere ao segundo irmão, o que fez o yibum; e explica, como Bartenura, que a opinião de Rabi Shimon — que o terceiro irmão pode fazer yibum ou chalitzá com qualquer uma das duas mulheres — se dirige à primeira cláusula da mishná, não ao caso do mamar: como a viúva já estava plenamente casada com o segundo irmão antes de o terceiro nascer, ela jamais esteve, para este último, sob o vínculo do casamento do primeiro irmão, e por isso não há razão alguma para tratá-la como proibida.