A Guemará resolve, primeiro, a ambiguidade da palavra "וְטָהֵר" ("e ficará puro") deixada em aberto no fim do daf anterior — mostrando que ela se refere à purificação do dia, não do homem. Depois, o daf entra numa longa sequência de baraitot aparentemente contraditórias sobre quando começa o tempo do Shemá noturno (o pobre, o kohen, "as pessoas"), e a Guemará precisa peneirar se essas opiniões realmente discordam ou apenas descrevem o mesmo horário com palavras diferentes — até fechar com a objeção de Rabi Yehudá a Rabi Meir sobre a imersão dos sacerdotes, resolvida pela definição de bein hashmashot de Rabi Yossei.
Talvez seja o início do seu esplendor (o começo do pôr do sol), e o que significa "e ficará puro"? — que o homem ficará puro?!
"Talvez seja o início do seu esplendor" — que o sol comece a raiar no oitavo dia, e o homem se purifique a si mesmo trazendo os seus sacrifícios, e só depois coma.
O daf 2a havia terminado com uma pergunta em aberto: de onde se sabe que "e se pôs o sol" significa o pôr do sol completo, e "e ficará puro" significa a purificação do dia? Este movimento abre 2b propondo a leitura oposta — que o versículo trataria, na verdade, do amanhecer seguinte e da purificação ritual da própria pessoa, não do dia. É a primeira das duas alternativas que a Guemará precisa descartar.
Disse Rabá bar Rav Sheila: se é assim, que o versículo diga "e ele se purificará"! O que significa "e ficará puro"? — que o dia ficou puro (esgotado), como dizem os homens: "pôs-se o sol e o dia se esgotou".
"Se é assim" — que este versículo, "e ficará puro", fosse uma expressão de mandamento (referida ao homem), então que o versículo dissesse "e ele se purificará" (na forma reflexiva) — o que é, então, "e ficará puro"?
"Esgotou-se" — no pretérito: retirou-se do mundo o sol.
Rabá bar Rav Sheila resolve a dúvida por análise gramatical pura: se "וְטָהֵר" se referisse ao homem, o texto teria usado a forma reflexiva "וְיִטְהָר". Como não usou, "ficará puro" só pode descrever o próprio dia, que "se esgota" com o pôr do sol — expressão que, segundo Rashi, era um dito popular da época.
No Ocidente (Eretz Israel) não haviam ouvido isto, de Rabá bar Rav Sheila, e levantaram a questão: este "e se pôs o sol" é o pôr do próprio sol, e o que significa "e ficará puro" — que o dia ficou puro? Ou talvez seja o início do seu esplendor, e o que significa "e ficará puro" — que o homem ficará puro?
Um raro momento em que a Guemará registra explicitamente uma diferença geográfica de conhecimento: os sábios da Babilônia já tinham a resposta de Rabá bar Rav Sheila; os de Eretz Israel — de onde vem o próprio Talmud Yerushalmi — não a conheciam, e por isso permaneceram com a mesma dúvida em aberto, precisando resolvê-la por outro caminho.
E depois a resolveram a partir de uma baraita. Visto que se ensina, na baraita, "um sinal para o assunto — a saída das estrelas", conclui-se disto que se trata do pôr do próprio sol, e o que significa "e ficará puro" — que o dia ficou puro.
"A partir de uma baraita" — que se ensina mais adiante, nesta mesma sugya: "desde a hora em que os sacerdotes entram para comer da sua terumá", e a prova para o assunto é a saída das estrelas — conclui-se disto que a sua expiação não os retém.
A dúvida levantada em Eretz Israel (Movimento 3) acaba sendo resolvida pela mesma baraita que o Bavli já vinha citando desde o fim do daf 2a — a que fixa a saída das estrelas como sinal do momento em que os sacerdotes comem da terumá. Assim, embora por caminhos diferentes (lógica gramatical na Babilônia, uma baraita em Eretz Israel), ambos os centros chegam à mesma conclusão: "ficará puro" refere-se ao dia, não ao homem.
Disse o Mestre: "desde a hora em que os sacerdotes entram para comer da sua terumá." E fazem uma contradição a partir de uma baraita: a partir de quando se recita o Shemá à noite? — desde que o pobre entra para comer o seu pão com sal, até a hora em que se levanta da sua refeição.
"Desde que o pobre" — que não tem candeia para acender na sua refeição.
A Guemará confronta a Mishná com uma nova baraita, que descreve o início do tempo do Shemá em termos completamente diferentes — não pelos sacerdotes e a terumá, mas pelo hábito do pobre, que janta cedo por não ter luz para iluminar a refeição. A questão que se abre é se isto é uma discordância real de horário, ou apenas outra forma de descrever o mesmo momento.
O final, certamente discorda da nossa Mishná. Quanto ao início — diremos que discorda da nossa Mishná?
"O final, certamente discorda da nossa Mishná" — pois se ensina aqui "até a hora em que se levanta da refeição", e isto não corresponde nem a Rabi Eliézer, nem aos Sábios, nem a Rabán Gamliel, pois interpreta "e ao deitar-te" como o início do tempo de deitar-se, e na nossa Mishná se ensinou "até o fim da primeira vigília".
A Guemará divide a baraita em duas partes. O final ("até se levantar da refeição") é claramente incompatível com qualquer das três opiniões da Mishná sobre o fim do prazo. Mas o início ("desde que o pobre entra para comer") ainda pode, em princípio, coincidir com o horário dos sacerdotes — é essa possibilidade que o próximo movimento examina.
Não: o pobre e o sacerdote têm um único horário.
"O pobre e o sacerdote" — o pobre, em todas as suas noites; e o sacerdote, impuro para comer da terumá. "Têm um único horário" — a saída das estrelas.
A Guemará conclui que o início da baraita não é uma discordância de fato: tanto o pobre (todas as noites, não só no Shabat) quanto o sacerdote impuro esperam pelo mesmo sinal — a saída das estrelas. A baraita apenas descreve o mesmo horário por meio de outro exemplo cotidiano.
E fazem uma contradição: a partir de quando se começa a recitar o Shemá à noite? — desde a hora em que as pessoas entram para comer o seu pão nas vésperas de Shabat — palavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: desde a hora em que os sacerdotes têm direito de comer da sua terumá; um sinal para o assunto — a saída das estrelas. E, ainda que não haja prova para o assunto, há uma alusão ao assunto, pois foi dito: "e fazíamos o trabalho, e metade deles empunhava as lanças desde a subida da alva até a saída das estrelas", e diz: "e teremos a noite para guarda, e o dia para trabalho".
"Nas vésperas de Shabat" — apressam-se para a refeição, pois tudo já está pronto.
"Que não há prova para o assunto" — de que o dia se completa com a saída das estrelas; mas há uma alusão ao assunto.
Esta baraita — a mesma que o Talmud Yerushalmi, na página anterior, também explora longamente para estabelecer a contagem de estrelas — reaparece aqui com um propósito diferente: mostrar Rabi Meir discordando explicitamente dos Sábios sobre o horário. Note-se que a "alusão" bíblica de Nechemia citada aqui pelos Sábios é textualmente idêntica à que o Yerushalmi já havia trazido no Movimento 4 da página 2a — mas ali servia para fixar a contagem de estrelas, e aqui serve para justificar o próprio marco do anoitecer contra a posição de Rabi Meir.
O que acrescenta "e diz"?
Uma pergunta breve sobre o estilo da própria baraita: por que ela não se contenta com o primeiro versículo de Nechemia, e sente necessidade de acrescentar um segundo ("e diz")? A resposta vem no movimento seguinte.
E se disseres que, desde que o sol se põe, já é noite, e eles trabalhavam até tarde e começavam cedo — vem e ouve: "e teremos a noite para guarda, e o dia para trabalho".
"Que trabalhavam até tarde" — e faziam o trabalho durante a noite, desde o pôr do sol até a saída das estrelas.
"E começavam cedo" — e se levantavam antes do dia, pois talvez o "dia" só comece com o nascer do sol, e eles começavam desde a subida da alva.
"Vem e ouve: 'e teremos a noite para guarda'" — visto que diz "e o dia para trabalho", conclui-se que o período que vai desde a subida da alva até a saída das estrelas é dia.
O segundo versículo é necessário para fechar uma brecha: sem ele, poder-se-ia pensar que os construtores trabalhavam também depois do pôr do sol, o que tornaria a saída das estrelas um marco impreciso. O segundo versículo, ao chamar explicitamente todo aquele período de "dia" para fins de trabalho, confirma que "noite" só começa mesmo na saída das estrelas.
Ocorre-te pensar que o pobre e "as pessoas" têm um único horário. E se dizes que o pobre e o sacerdote têm um único horário — os Sábios seriam o mesmo que Rabi Meir?
"Ocorre-te pensar" — que a maioria das pessoas equivale aos pobres, isto é: "as pessoas" nas vésperas de Shabat e os pobres nos dias comuns teriam o mesmo horário.
Aqui a Guemará expõe uma tensão lógica: se o horário do pobre (Movimento 5) é igual ao do sacerdote (Movimento 7, já estabelecido), e agora se supõe que o horário do pobre também é igual ao das "pessoas" na véspera de Shabat (Movimento 8), então a posição dos Sábios (que seguem o sacerdote) coincidiria com a de Rabi Meir (que segue "as pessoas") — o que não pode ser, pois a baraita os apresenta como opiniões opostas.
Mas então conclui-se disto que o pobre tem um horário à parte, e o sacerdote tem um horário à parte. Não: o pobre e o sacerdote têm um único horário, e o pobre e "as pessoas" não têm um único horário.
A Guemará rejeita a primeira saída (separar pobre de sacerdote, o que desfaria a conclusão já obtida no Movimento 7) e, em vez disso, corrige a suposição do Movimento 11: o pobre e "as pessoas" não são, de fato, o mesmo horário. Assim, pobre = sacerdote (saída das estrelas), mas "as pessoas" na véspera de Shabat é um horário mais cedo — preservando a discordância real entre os Sábios e Rabi Meir.
Mas o pobre e o sacerdote têm um único horário? E fazem uma contradição: a partir de quando se começa a recitar o Shemá à noite? — desde a hora em que o dia se santificou nas vésperas de Shabat — palavras de Rabi Eliézer. Rabi Yehoshua diz: desde a hora em que os sacerdotes ficam purificados para comer da sua terumá. Rabi Meir diz: desde a hora em que os sacerdotes se imergem para comer da sua terumá. Disse-lhe Rabi Yehudá: e não é que os sacerdotes se imergem ainda de dia? Rabi Chanina diz: desde a hora em que o pobre entra para comer o seu pão com sal. Rabi Achai — e há quem diga, Rabi Achá — diz: desde a hora em que a maioria das pessoas entra para reclinar-se (à mesa).
"Desde a hora em que o dia se santificou nas vésperas de Shabat" — isto é, o crepúsculo (bein hashmashot), dúvida se é dia, dúvida se é noite; e, sendo dúvida, o dia se santifica por precaução.
"Desde a hora em que os sacerdotes se imergem" — isto é, antes do bein hashmashot, para que tenham, antes do bein hashmashot, o pôr do sol necessário; e assim dizemos no capítulo "Bameh Madlikin" (Shabat 35a), que o tempo da imersão é um pouco antes do bein hashmashot.
"E não é que os sacerdotes se imergem ainda de dia?" — Rabi Yehudá segue o seu próprio critério, pois disse em "Bameh Madlikin": o bein hashmashot, equivalente a meia milha de caminho antes da saída das estrelas, se chama bein hashmashot, e é uma dúvida; por isso, a imersão anterior a isso é ainda de dia, e não é tempo de deitar-se. E mais adiante se explica o que Rabi Meir lhe respondeu.
"Entram para reclinar-se" — há quem diga que se refere aos dias comuns, e há quem diga que se refere aos sábados; de todo modo, é o horário mais tardio (de todos).
Uma terceira baraita, ainda mais rica, reúne cinco opiniões tannaíticas num só lugar — Rabi Eliézer, Rabi Yehoshua, Rabi Meir (com a objeção de Rabi Yehudá incorporada), Rabi Chanina e Rabi Achai/Achá. A pergunta que abre o movimento retoma diretamente a conclusão do Movimento 7 ("pobre e sacerdote têm um único horário") para testá-la contra esta nova lista, que parece distinguir Rabi Chanina (o pobre) de Rabi Yehoshua (o sacerdote) como opiniões distintas.
E se dizes que o pobre e o sacerdote têm um único horário — Rabi Chanina seria o mesmo que Rabi Yehoshua!
A objeção é direta: nesta baraita, Rabi Chanina (que fala do pobre) e Rabi Yehoshua (que fala do sacerdote purificado) aparecem como duas opiniões distintas, listadas separadamente — algo que não faria sentido se, de fato, os dois horários fossem idênticos, como a Guemará havia concluído no Movimento 7.
Mas então, não se conclui disto que o horário do pobre é à parte, e o horário do sacerdote é à parte? Conclui-se disto.
Diante da nova baraita, a Guemará revê a conclusão anterior: o que parecia resolvido no Movimento 7 (pobre = sacerdote) precisa ser corrigido — são, de fato, dois horários distintos. É um exemplo do método dialético do Bavli: uma conclusão obtida a partir de uma fonte pode ser desfeita quando uma fonte adicional exige uma leitura mais fina.
Qual dos dois é mais tardio? É razoável que o do pobre seja mais tardio, pois se dizes que o do pobre é mais cedo, Rabi Chanina seria o mesmo que Rabi Eliézer. Mas então não se conclui disto que o do pobre é mais tardio? Conclui-se disto.
"E qual dos dois é mais tardio" — (de todos), o do pobre ou o do sacerdote. Assim lemos: se ocorre-te pensar que o do pobre é mais cedo, Rabi Chanina seria o mesmo que Rabi Eliézer.
Depois de estabelecer que os dois horários são distintos, a Guemará ainda precisa ordená-los. A prova é, de novo, por eliminação: se o horário do pobre fosse mais cedo que o do sacerdote, ele coincidiria com o horário de Rabi Eliézer (o mais cedo de todos, "quando o dia se santifica" no crepúsculo) — o que tornaria Rabi Chanina redundante com Rabi Eliézer. Como a baraita os lista como opiniões distintas, conclui-se que o horário do pobre é, na verdade, o mais tardio.
Disse o Mestre. Disse-lhe Rabi Yehudá: e não é que os sacerdotes se imergem ainda de dia?
A Guemará volta, agora, a um detalhe da baraita do Movimento 13 que ainda não havia sido examinado: a objeção de Rabi Yehudá à opinião de Rabi Meir, de que o tempo do Shemá começaria "quando os sacerdotes se imergem". Este movimento apenas cita novamente a objeção, preparando o terreno para a resposta de Rabi Meir nos dois movimentos seguintes.
Não falou bem Rabi Yehudá a Rabi Meir?
A Guemará reconhece a força da objeção: se os sacerdotes se imergem ainda de dia — antes mesmo do crepúsculo —, como pode Rabi Meir fixar esse momento como início do "tempo de deitar-se", que por definição é noturno? A pergunta prepara a resposta técnica do movimento final.
E Rabi Meir lhe disse assim: pensas que eu falo do teu bein hashmashot? Eu falo do bein hashmashot de Rabi Yossei, pois disse Rabi Yossei: o bein hashmashot é como um piscar de olhos — este entra e aquele sai, e é impossível fixá-lo com precisão.
O bein hashmashot segundo Rabi Yehudá é um caminho de meia milha antes da saída das estrelas; e segundo Rabi Yossei, é como um piscar de olhos antes da saída das estrelas. E Rabi Meir segue a opinião de Rabi Yossei; e, quando o sacerdote se imerge antes disso, já é próximo do escurecer, e chamamos a isso "tempo de deitar-se".
A resposta final resolve a tensão apontada em Rabi Yehudá: a objeção pressupunha a definição de bein hashmashot do próprio Rabi Yehudá (um período mais longo, de meia milha de caminhada). Mas Rabi Meir não segue essa definição — ele segue a de Rabi Yossei, para quem o crepúsculo é quase instantâneo, "como um piscar de olhos". Sendo assim, a imersão dos sacerdotes, mesmo "ainda de dia" segundo o critério de Rabi Yehudá, já está praticamente colada ao anoitecer segundo o critério de Rabi Yossei — e por isso pode, legitimamente, marcar o início do tempo de deitar-se. Com esta resposta técnica, o daf 2b se encerra.
Ver também no Talmud Yerushalmi. A halachá 1:1, correspondente a esta Mishná, já foi apresentada por completo.
Yerushalmi 1:1 →