Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
אַשְׁרֵי

A cerca protetora dos Sábios, a justaposição da redenção à oração, e a promessa de Tehilá LeDavid recitada três vezes ao dia

Berachot 4b

A Guemará explica por que os Sábios fixaram "até a meia-noite" como cerca protetora para o Shemá noturno, mesmo que o prazo real, segundo a Torá, se estenda até a alva. Segue com a justaposição da bênção da redenção à oração da noite, a promessa de que quem recita o salmo Tehilá LeDavid três vezes ao dia tem garantido o Mundo Vindouro, os anjos Michael e Gabriel como defensores de Israel, e o preceito de reler o Shemá sobre a própria cama antes de dormir.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01Se os Sábios seguem Rabán Gamliel, por que não disseram "até a alva"?
Bavli · 4b
וְאִי כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל סְבִירָא לְהוּ — לֵימְרוּ כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל.

E se sustentam como Rabán Gamliel, que digam então (a mesma medida) de Rabán Gamliel!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
וְאִי כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל סְבִירָא לְהוּ – דְּמַשְׁמַע לֵיהּ ״בְּשָׁכְבְּךָ״ כָּל זְמַן שֶׁבְּנֵי אָדָם שׁוֹכְבִים, וְיֵשׁ בִּכְלַל זֶה כָּל הַלַּיְלָה.

"E se sustentam como Rabán Gamliel" — que entende "ao deitar-te" como todo o tempo em que as pessoas se deitam, o que inclui toda a noite.

לֵימְרוּ כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל – עַד עַמּוּד הַשַּׁחַר.

"Que digam como Rabán Gamliel" — até que suba a coluna da alva.

Nota

O daf anterior encerrou com uma dificuldade lógica: se os Sábios interpretam "ao deitar-te" da mesma forma ampla que Rabi Eliézer, deveriam ter fixado o mesmo limite que ele. Este daf continua a mesma linha de raciocínio, mas invertendo a hipótese — talvez os Sábios interpretem o versículo, na verdade, como Rabán Gamliel, cuja opinião estende o tempo do Shemá até a própria alva. Se assim for, a dificuldade permanece, apenas trocando de interlocutor: por que então não disseram simplesmente "até a alva"?

02A resposta: uma cerca protetora contra o sono, explicada por uma baraita
Bavli · 4b
לְעוֹלָם כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל סְבִירָא לְהוּ, וְהָא דְּקָא אָמְרִי ״עַד חֲצוֹת״, כְּדֵי לְהַרְחִיק אֶת הָאָדָם מִן הָעֲבֵירָה. כִּדְתַנְיָא, חֲכָמִים עָשׂוּ סְיָיג לְדִבְרֵיהֶם, כְּדֵי שֶׁלֹּא יְהֵא אָדָם בָּא מִן הַשָּׂדֶה בָּעֶרֶב, וְאוֹמֵר: ״אֵלֵךְ לְבֵיתִי וְאוֹכַל קִימְעָא וְאֶשְׁתֶּה קִימְעָא, וְאִישַׁן קִימְעָא, וְאַחַר כָּךְ אֶקְרָא קְרִיאַת שְׁמַע וְאֶתְפַּלֵּל״, וְחוֹטַפְתּוֹ שֵׁינָה וְנִמְצָא יָשֵׁן כָּל הַלַּיְלָה. אֲבָל אָדָם בָּא מִן הַשָּׂדֶה בָּעֶרֶב, נִכְנָס לְבֵית הַכְּנֶסֶת, אִם רָגִיל לִקְרוֹת — קוֹרֵא. וְאִם רָגִיל לִשְׁנוֹת — שׁוֹנֶה, וְקוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע וּמִתְפַּלֵּל, וְאוֹכֵל פִּתּוֹ וּמְבָרֵךְ.

Na verdade, sustentam como Rabán Gamliel, e o fato de dizerem "até a meia-noite" é para afastar o homem da transgressão. Como foi ensinado (numa baraita): os Sábios fizeram uma cerca para as suas palavras, para que não aconteça de um homem vir do campo à tarde e dizer: "irei para casa, comerei um pouco, beberei um pouco, dormirei um pouco, e depois recitarei o Shemá e orarei" — e o sono o arrebata, e ele acaba dormindo a noite toda. Mas (se souber que deve recitar até a meia-noite) o homem que vem do campo à tarde entra na sinagoga; se está habituado a ler (a Escritura), lê; e se está habituado a estudar (Mishná), estuda — e (então) recita o Shemá e ora, e come o seu pão, e abençoa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
מִן הָעֲבֵירָה – שֶׁמָּא יִסְמוֹךְ עַל שָׁהוּת שֶׁיֵּשׁ לוֹ, כִּדְתַנְיָא.

"Da transgressão" — para que não confie na folga de tempo que ainda lhe resta, como foi ensinado.

קִימְעָא – מְעַט.

"Kim'á" — um pouco.

Nota

A resposta da Guemará dissolve a dificuldade sem abandonar Rabán Gamliel: a lei de fato permite o Shemá até a alva, mas os Sábios anunciaram publicamente um limite mais cedo — a meia-noite — como medida preventiva. A baraita ilustra o perigo concreto: um trabalhador cansado, sabendo que tecnicamente tem a noite inteira, adiaria o cumprimento do preceito "só um pouco" e acabaria vencido pelo sono. Ao ouvir "até a meia-noite", ele se apressa a entrar na sinagoga assim que chega, aproveitando o tempo de estudo até a hora da oração, e só depois janta em paz.

03A advertência da baraita: quem transgride é passível de morte
Bavli · 4b
וְכָל הָעוֹבֵר עַל דִּבְרֵי חֲכָמִים חַיָּיב מִיתָה.

E todo aquele que transgride as palavras dos Sábios é passível de morte.

Nota

A baraita conclui com uma advertência surpreendentemente severa para uma cerca meramente preventiva: quem a transgride — quem posterga o Shemá além da meia-noite confiando na margem técnica até a alva — é considerado passível de morte. É essa severidade incomum, desproporcional a uma simples medida de prudência rabínica, que a Guemará examinará a seguir.

04Por que esta cerca, e não outras, recebeu a advertência de morte?
Bavli · 4b
מַאי שְׁנָא בְּכָל דּוּכְתָּא דְּלָא קָתָנֵי ״חַיָּיב מִיתָה״, וּמַאי שְׁנָא הָכָא דְּקָתָנֵי ״חַיָּיב מִיתָה״?

O que há de diferente, que em todos os outros lugares não se ensina "passível de morte", e o que há de diferente aqui, que se ensina "passível de morte"?

Nota

A Guemará estranha a linguagem: outras cercas rabínicas — instituídas com o mesmo propósito de afastar o homem da transgressão — não vêm acompanhadas de uma pena tão grave. Por que, então, precisamente esta cerca, sobre o horário do Shemá noturno, mereceu tal ênfase?

05Duas respostas: o risco do sono involuntário, ou excluir quem considera a oração noturna facultativa
Bavli · 4b
אִיבָּעֵית אֵימָא מִשּׁוּם דְּאִיכָּא אוֹנֶס שֵׁינָה. וְאִיבָּעֵית אֵימָא: לְאַפּוֹקֵי מִמַּאן דְּאָמַר ״תְּפִלַּת עַרְבִית רְשׁוּת״, קָא מַשְׁמַע לָן דְּחוֹבָה.

Se quiseres, dize: por causa do risco de ser vencido pelo sono (contra a própria vontade). E, se quiseres, dize: para excluir a opinião de quem diz que "a oração da tarde (noite) é facultativa" — ensina-nos (esta baraita) que ela é obrigatória.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
מִשּׁוּם דְּאִיכָּא אוֹנֶס שֵׁינָה – הַתּוֹקַפְתּוֹ, לַעֲבוֹר עַל דִּבְרֵי חֲכָמִים, הֻזְקְקוּ לְהַזְהִירוֹ יוֹתֵר.

"Por causa do risco de ser vencido pelo sono" — que o toma de assalto, levando-o a transgredir as palavras dos Sábios; por isso precisaram adverti-lo com mais rigor.

מִמַּאן דְּאָמַר – לְקַמָּן בְּפֶרֶק תְּפִלַּת הַשַּׁחַר (בְּרָכוֹת דַּף כ״ז:).

"De quem diz" — mais adiante, no capítulo "Tefilat HaShachar" (Berachot 27b).

Nota

A Guemará oferece duas explicações, ambas deslocando o peso da advertência: não se trata da gravidade intrínseca da transgressão, mas de uma preocupação prática. Primeira resposta: precisamente porque o sono pode vencer o homem involuntariamente, era necessário um alerta mais forte para mantê-lo vigilante. Segunda resposta: a linguagem severa serve para refutar, de passagem, a opinião (discutida mais adiante na massechet) de que a oração noturna seria apenas facultativa — a baraita ensina, ao contrário, que ela é obrigatória, e o rigor da pena reforça essa obrigatoriedade.

06A ordem "Shemá e depois oração" apoia Rabi Yochanan contra Rabi Yehoshua ben Levi
Bavli · 4b
אָמַר מָר, קוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע וּמִתְפַּלֵּל. מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי יוֹחָנָן. דְּאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֵיזֶהוּ בֶּן הָעוֹלָם הַבָּא — זֶה הַסּוֹמֵךְ גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה שֶׁל עַרְבִית. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי אוֹמֵר: תְּפִלּוֹת בָּאֶמְצַע תִּקְּנוּם.

Disse o Mestre: "recita o Shemá e ora" (na baraita acima). Isto apoia Rabi Yochanan, pois disse Rabi Yochanan: quem é um filho do Mundo Vindouro? — Aquele que justapõe a (bênção da) redenção à oração da noite. Rabi Yehoshua ben Levi diz: as orações, no meio (entre as duas leituras do Shemá), é que as instituíram.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
אָמַר מָר קוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע – שֶׁל עַרְבִית תְּחִלָּה, וְאַחַר כָּךְ מִתְפַּלֵּל.

"Disse o Mestre: recita o Shemá" — o da noite, primeiro, e depois ora.

מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי יוֹחָנָן – דְּאָמַר עַרְבִית נָמֵי קְרִיאַת שְׁמַע וְאַחַר כָּךְ תְּפִלָּה, כְּדֵי שֶׁיִּסְמוֹךְ גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה. וְדֶלֹא כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי דְּאָמַר תְּפִלָּה וְאַחַר כָּךְ קְרִיאַת שְׁמַע.

"Isto apoia Rabi Yochanan" — que diz que também à noite (a ordem é) Shemá e depois oração, para que se justaponha a redenção à oração. E não como Rabi Yehoshua ben Levi, que diz oração e depois Shemá.

זֶה הַסּוֹמֵךְ – וְכָל שֶׁכֵּן דְּשַׁחֲרִית, דְּעִיקַּר גְּאוּלַּת מִצְרַיִם בְּשַׁחֲרִית הֲוָה, כִּדְכְתִיב ״מִמָּחֳרַת הַפֶּסַח יָצְאוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל״ (בְּמִדְבָּר ל״ג:ג׳), וּסְמִיכַת גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה רָמְזָה דָּוִד בְּסֵפֶר תְּהִלִּים, דִּכְתִיב ״ה׳ צוּרִי וְגוֹאֲלִי״ (תְּהִלִּים י״ט:ט״ו) וְסָמִיךְ לֵיהּ ״יַעַנְךָ ה׳ בְּיוֹם צָרָה״ (שָׁם כ). וְאָמְרִינַן בִּבְרָכוֹת יְרוּשַׁלְמִי (פֶּרֶק א׳): מִי שֶׁאֵינוֹ סוֹמֵךְ גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה, לְמָה הוּא דוֹמֶה? לְאוֹהֲבוֹ שֶׁל מֶלֶךְ שֶׁבָּא וְדָפַק עַל פִּתְחוֹ שֶׁל מֶלֶךְ, יָצָא הַמֶּלֶךְ וּמְצָאוֹ שֶׁהִפְלִיג — אַף הוּא הִפְלִיג. אֶלָּא יִהְיֶה אָדָם מְקָרֵב לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֵלָיו, וּמְרַצֵּהוּ בְּתִשְׁבָּחוֹת וְקִלּוּסִין שֶׁל יְצִיאַת מִצְרַיִם, וְהוּא מִתְקָרֵב אֵלָיו, וּבְעוֹדוֹ קָרוֹב אֵלָיו יֵשׁ לוֹ לִתְבּוֹעַ צְרָכָיו.

"Aquele que justapõe" — e tanto mais pela manhã, pois a redenção principal do Egito ocorreu de manhã, como está escrito: "no dia seguinte à Páscoa saíram os filhos de Israel" (Números 33:3). E a justaposição da redenção à oração, Davi já a insinuou no livro de Salmos, pois está escrito: "D'us, minha rocha e meu redentor" (Salmos 19:15), e logo em seguida: "responda-te D'us no dia da angústia" (ibid. 20). E dizemos no Yerushalmi de Berachot (capítulo 1): a quem se assemelha aquele que não justapõe a redenção à oração? Ao amigo de um rei que veio e bateu à porta do rei; o rei saiu e o encontrou, mas ele já se havia afastado — também o rei se afastou. Em vez disso, que o homem se aproxime do Santo, Bendito Seja, e o agrade com louvores e elogios sobre a saída do Egito, e Ele se aproximará dele; e enquanto ainda está próximo dele, é o momento de pedir as suas necessidades.

בָּאֶמְצַע תִּקְּנוּם – בֵּין שְׁנֵי קְרִיאוֹת שְׁמַע תִּקְּנוּ כָּל תְּפִלּוֹת שֶׁל יוֹם, דְּקָסָבַר תְּפִלַּת עַרְבִית קוֹדֶמֶת לִקְרִיאַת שְׁמַע.

"No meio, é que as instituíram" — entre as duas leituras do Shemá instituíram todas as orações do dia, pois considera que a oração da noite precede o Shemá.

Nota

A Guemará extrai da própria baraita uma prova incidental para um debate mais amplo: como a baraita descreve a ordem "recita o Shemá e ora" também para a noite, isso apoia Rabi Yochanan, que sustenta que quem justapõe a bênção da redenção (dita logo após o Shemá) à oração da noite garante para si um lugar no Mundo Vindouro. Isso contraria a posição de Rabi Yehoshua ben Levi, para quem a sequência diária das orações foi instituída "no meio" — ou seja, entre a leitura do Shemá da noite anterior e a da manhã seguinte —, o que implicaria rezar a oração da noite antes do Shemá, e não depois.

07Qual é o fundamento do desacordo entre eles?
Bavli · 4b
בְּמַאי קָא מִפַּלְּגִי?

Em que se baseia o seu desacordo?

Nota

Estabelecida a divergência prática entre Rabi Yochanan e Rabi Yehoshua ben Levi, a Guemará busca a sua raiz teórica: qual é o princípio subjacente que os leva a ordenar de modo tão diferente o Shemá e a oração noturna?

08Duas vias possíveis: um versículo, ou um raciocínio lógico
Bavli · 4b
אִי בָּעֵית אֵימָא קְרָא, אִי בָּעֵית אֵימָא סְבָרָא.

Se quiseres, dize (que discordam sobre a interpretação de) um versículo; e, se quiseres, dize (que discordam sobre) um raciocínio lógico.

Nota

A Guemará responde com uma fórmula que abrirá duas explicações paralelas e independentes — uma baseada em lógica pura, outra na exegese de um mesmo versículo —, ambas capazes de sustentar sozinhas a divergência entre os dois amoraítas.

09A explicação lógica: a redenção do Egito começou à noite, mas só se completou de manhã
Bavli · 4b
אִי בָּעֵית אֵימָא סְבָרָא. דְּרַבִּי יוֹחָנָן סָבַר גְּאוּלָּה מֵאוּרְתָּא נָמֵי הָוֵי, אֶלָּא גְּאוּלָּה מְעַלַּיְיתָא לָא הָוְיָא אֶלָּא עַד צַפְרָא. וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי סָבַר כֵּיוָן דְּלָא הָוְיָא אֶלָּא מִצַּפְרָא — לָא הָוְיָא גְּאוּלָּה מְעַלַּיְיתָא.

Se quiseres, dize (que discordam sobre) um raciocínio lógico: Rabi Yochanan sustenta que a redenção também ocorreu à noite, mas a redenção completa só se deu pela manhã. E Rabi Yehoshua ben Levi sustenta que, uma vez que ela só se completou pela manhã, não houve (ainda à noite) redenção completa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
גְּאוּלָּה מֵאוּרְתָּא לָא הָוֵי – הִלְכָּךְ גְּאוּלָּה דְּאוּרְתָּא לָא חֲשִׁיבָא לְאַהְדּוּרֵי עֲלֵיהּ סְמִיכַת תְּפִלָּה.

"Não houve redenção à noite" — por isso, a redenção da noite não é considerada suficientemente importante para se voltar a ela justapondo a oração.

Nota

Pela via da lógica pura, o desacordo gira em torno de um fato histórico sobre o Êxodo: ambos concordam que a saída completa do Egito ocorreu pela manhã, mas Rabi Yochanan considera que o processo de redenção já havia começado na noite anterior — daí ser apropriado justapor a bênção da redenção também à oração noturna, celebrando esse início. Rabi Yehoshua ben Levi, por sua vez, entende que só a redenção plena e completa (a da manhã) merece tal justaposição; a fase noturna, sendo apenas preparatória, não tem peso suficiente para justificar a mesma prática à noite.

10A explicação por versículo: os dois leem "ao deitar-te e ao levantar-te" de formas diferentes
Bavli · 4b
וְאִיבָּעֵית אֵימָא קְרָא, וּשְׁנֵיהֶם מִקְרָא אֶחָד דָּרְשׁוּ, דִּכְתִיב ״בְּשָׁכְבְּךָ וּבְקוּמֶךָ״.

E, se quiseres, dize (que discordam sobre) um versículo — e ambos expuseram o mesmo versículo, pois está escrito: "ao deitar-te e ao levantar-te".

Nota

A segunda via localiza a raiz do desacordo não em fatos históricos, mas na leitura de um único versículo — o mesmo que já fundamentou, no daf 2a, a própria ordem "noite antes de manhã" na Mishná. Ambos os amoraítas partem dele, mas o interpretam de maneiras opostas.

11A justaposição em si, ou a proximidade máxima à cama
Bavli · 4b
רַבִּי יוֹחָנָן סָבַר: מַקִּישׁ שְׁכִיבָה לְקִימָה, מָה קִימָה — קְרִיאַת שְׁמַע וְאַחַר כָּךְ תְּפִלָּה, אַף שְׁכִיבָה נָמֵי — קְרִיאַת שְׁמַע וְאַחַר כָּךְ תְּפִלָּה. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי סָבַר: מַקִּישׁ שְׁכִיבָה לְקִימָה: מָה קִימָה — קְרִיאַת שְׁמַע סָמוּךְ לְמִטָּתוֹ, אַף שְׁכִיבָה נָמֵי — קְרִיאַת שְׁמַע סָמוּךְ לְמִטָּתוֹ.

Rabi Yochanan sustenta: o versículo equipara o deitar ao levantar; assim como no levantar (a ordem é) Shemá e depois oração, também no deitar (é) Shemá e depois oração. E Rabi Yehoshua ben Levi sustenta: o versículo equipara o deitar ao levantar (num sentido diferente): assim como no levantar (recita-se) o Shemá próximo à sua cama (isto é, logo ao acordar), também no deitar (recita-se) o Shemá próximo à sua cama (isto é, logo antes de deitar-se).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
מָה קִימָה קְרִיאַת שְׁמַע וְאַחַר כָּךְ תְּפִלָּה – דְּבְשַׁחֲרִית כּוּלְּהוּ מוֹדוּ דְּבָעֵי מִסְמָךְ.

"Assim como no levantar, Shemá e depois oração" — pois pela manhã todos concordam que é preciso justapor.

Nota

A mesma equiparação textual entre "deitar" e "levantar" produz duas leituras opostas. Rabi Yochanan a entende como uma equiparação de sequência: assim como pela manhã todos concordam que se recita primeiro o Shemá e depois a oração (justapondo a redenção à oração), o mesmo padrão se aplica à noite. Rabi Yehoshua ben Levi a entende como uma equiparação de proximidade temporal ao ato físico: assim como pela manhã o Shemá é recitado o mais próximo possível do momento de se levantar da cama, à noite o Shemá deve ser recitado o mais próximo possível do momento de se deitar — o que, na prática, significaria recitá-lo por último, depois da oração, imediatamente antes de dormir.

12Objeção de Mar, filho de Ravina: a bênção "Hashkivenu" interrompe a justaposição
Bavli · 4b
מֵתִיב מָר בְּרֵיהּ דְּרָבִינָא, בָּעֶרֶב מְבָרֵךְ שְׁתַּיִם לְפָנֶיהָ וּשְׁתַּיִם לְאַחֲרֶיהָ. וְאִי אָמְרַתְּ בָּעֵי לִסְמוֹךְ, הָא לָא קָא סָמֵךְ גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה, דְּהָא בָּעֵי לְמֵימַר ״הַשְׁכִּיבֵנוּ״!

Objetou Mar, filho de Ravina: "à noite, abençoa duas (bênçãos) antes dela e duas depois dela" (Mishná). E, se dizes que é preciso justapor (a redenção à oração), eis que não se está justapondo a redenção à oração, pois é preciso dizer (antes) "Hashkivenu" (faze-nos deitar em paz)!

Nota

Uma dificuldade concreta é levantada contra a posição de Rabi Yochanan, a partir da própria Mishná de abertura: à noite, recitam-se duas bênçãos depois do Shemá (e não apenas uma, como pela manhã) — a segunda delas sendo "Hashkivenu". Mas, se a bênção da redenção deve ser justaposta imediatamente à oração, como afirma Rabi Yochanan, a intercalação de "Hashkivenu" entre a redenção e a oração pareceria quebrar exatamente essa justaposição que ele exige.

13A resposta: "Hashkivenu" é considerada extensão da própria redenção
Bavli · 4b
אָמְרִי: כֵּיוָן דְּתַקִּינוּ רַבָּנַן ״הַשְׁכִּיבֵנוּ״ — כִּגְאוּלָּה אֲרִיכְתָּא דָּמְיָא. דְּאִי לָא תֵּימָא הָכִי, שַׁחֲרִית הֵיכִי מָצֵי סָמֵיךְ? וְהָא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: בַּתְּחִלָּה אוֹמֵר: ״ה׳ שְׂפָתַי תִּפְתָּח״, וּלְבַסּוֹף הוּא אוֹמֵר: ״יִהְיוּ לְרָצוֹן אִמְרֵי פִי״.

Disseram (em resposta): uma vez que os Sábios instituíram (a bênção) "Hashkivenu", ela é considerada como uma extensão da própria redenção. Pois, se não disseres assim, como se poderia justapor pela manhã? Ora, não disse Rabi Yochanan: no início (da Amidá) diz-se "D'us, abre os meus lábios", e ao final diz-se "sejam agradáveis as palavras da minha boca" (Salmos 19:15)?

Nota

A Guemará resolve a objeção com um princípio: uma bênção instituída pelos Sábios como continuação natural de outra não constitui interrupção, mas é tratada como parte dela — "Hashkivenu" é vista como uma extensão da própria bênção da redenção, e não como algo intercalado entre a redenção e a oração. A prova vem de um paralelo matinal: mesmo pela manhã, onde todos concordam que há justaposição plena, os Sábios acrescentaram o versículo "D'us, abre os meus lábios" antes da Amidá — e ninguém considera isso uma quebra da justaposição.

14O mesmo princípio se aplica nos dois casos: acréscimos rabínicos não interrompem
Bavli · 4b
אֶלָּא הָתָם כֵּיוָן דְּתַקִּינוּ רַבָּנַן לְמֵימַר ״ה׳ שְׂפָתַי תִּפְתָּח״ — כִּתְפִלָּה אֲרִיכְתָּא דָּמְיָא. הָכָא נָמֵי, כֵּיוָן דְּתַקִּינוּ רַבָּנַן לְמֵימַר ״הַשְׁכִּיבֵנוּ״ — כִּגְאוּלָּה אֲרִיכְתָּא דָּמְיָא.

Antes, ali (pela manhã), uma vez que os Sábios instituíram dizer "D'us, abre os meus lábios", isso é considerado como uma extensão da própria oração. Também aqui (à noite), uma vez que os Sábios instituíram dizer "Hashkivenu", isso é considerado como uma extensão da própria redenção.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
שְׁלֹשׁ פְּעָמִים – כְּנֶגֶד שָׁלֹשׁ תְּפִלּוֹת.

(Nota de Rashi antecipada ao próximo bloco: "três vezes" — correspondendo às três orações diárias.)

Nota

A Guemará fecha o paralelo com simetria perfeita: assim como "D'us, abre os meus lábios" — acréscimo dos Sábios antes da Amidá matinal — é tratado como extensão da própria oração e não como interrupção da justaposição, "Hashkivenu" — acréscimo dos Sábios depois da bênção da redenção noturna — é igualmente tratado como extensão da própria redenção. Em ambos os casos, o acréscimo rabínico se funde, para efeitos de justaposição, com a bênção à qual está ligado, preservando a posição de Rabi Yochanan.

15Tehilá LeDavid três vezes ao dia garante o Mundo Vindouro
Bavli · 4b
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר, אָמַר רַבִּי אֲבִינָא: כָּל הָאוֹמֵר ״תְּהִלָּה לְדָוִד״ בְּכָל יוֹם שָׁלֹשׁ פְּעָמִים — מוּבְטָח לוֹ שֶׁהוּא בֶּן הָעוֹלָם הַבָּא.

Disse Rabi Elazar, disse Rabi Avina: todo aquele que recita "Tehilá LeDavid" (Salmos 145) todos os dias três vezes tem garantido que é um filho do Mundo Vindouro.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
שָׁלֹשׁ פְּעָמִים – כְּנֶגֶד שָׁלֹשׁ תְּפִלּוֹת.

"Três vezes" — correspondendo às três orações diárias.

Nota

Ainda associada à ideia de "quem é um filho do Mundo Vindouro" — expressão que Rabi Yochanan usara pouco antes para quem justapõe a redenção à oração — a Guemará traz agora uma segunda garantia do Mundo Vindouro, desta vez de Rabi Elazar em nome de Rabi Avina: recitar Tehilá LeDavid, o Salmo 145, três vezes por dia (número que corresponde, segundo Rashi, às três orações diárias). Este salmo é o que a tradição judaica chama de Ashrei, por começar sua recitação litúrgica com o versículo "Ashrei yoshvei veitecha" (Salmos 84:5), e sua promessa notável — garantia quase incondicional do Mundo Vindouro por meio de uma prática tão simples — leva a Guemará a investigar imediatamente o seu fundamento.

16Qual é a razão para tal garantia?
Bavli · 4b
מַאי טַעְמָא?

Qual é a razão?

Nota

A Guemará pergunta diretamente: o que há neste salmo específico que justifica uma promessa tão extraordinária? A resposta será buscada por eliminação, testando e descartando explicações antes de chegar à correta.

17Não é só por ser alfabético — outro salmo é ainda mais alfabético
Bavli · 4b
אִילֵּימָא מִשּׁוּם דְּאָתְיָא בְּאָלֶף בֵּית, נֵימָא ״אַשְׁרֵי תְמִימֵי דָרֶךְ״ דְּאָתְיָא בִּתְמָנְיָא אַפִּין.

Se dirias: porque vem (organizado) segundo o alfabeto — que se diga então "Ashrei temimei darech" (Salmos 119), que vem (organizado) em oito faces (de cada letra)!

Nota

A primeira hipótese testada é a estrutura de acróstico alfabético de Tehilá LeDavid — cada versículo começa com a letra seguinte do alfabeto hebraico. Mas essa explicação, por si só, não pode ser suficiente: o Salmo 119 é ainda mais rigorosamente alfabético, repetindo cada letra em oito versículos consecutivos — e, no entanto, não recebeu promessa semelhante. Logo, deve haver outro fator.

18Não é só pelo sustento a toda criatura — o Hallel Hagadol também o contém
Bavli · 4b
אֶלָּא מִשּׁוּם דְּאִית בֵּיהּ ״פּוֹתֵחַ אֶת יָדֶךָ״, נֵימָא ״הַלֵּל הַגָּדוֹל״ דִּכְתִיב בֵּיהּ ״נֹתֵן לֶחֶם לְכָל בָּשָׂר״.

Mas (se dirias): porque contém (o versículo) "abres a Tua mão" — que se diga então o "Hallel Hagadol" (Salmos 136), no qual está escrito "dá pão a toda carne"!

Nota

A segunda hipótese é o conteúdo do versículo "abres a Tua mão e satisfazes a todo ser vivo com favor" (Salmos 145:16), que celebra a providência divina universal. Mas também esta explicação, isolada, não basta: o "Hallel Hagadol" (Salmos 136) contém louvor equivalente — "dá pão a toda carne" — e também não recebeu tal promessa. É preciso, então, algo que combine os dois elementos.

19A razão verdadeira: possuir as duas qualidades ao mesmo tempo
Bavli · 4b
אֶלָּא מִשּׁוּם דְּאִית בֵּיהּ תַּרְתֵּי.

Mas sim, porque possui as duas (qualidades juntas).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
דְּאִית בֵּיהּ תַּרְתֵּי – דְּאָתֵי בְּאָלֶף בֵּי"ת וְיֵשׁ בּוֹ שֶׁבַח הֲכָנַת מָזוֹן לְכָל חַי.

"Porque possui as duas" — pois vem organizado segundo o alfabeto, e contém o louvor da provisão de sustento a todo ser vivo.

Nota

Nenhuma das duas qualidades isoladamente é exclusiva de Tehilá LeDavid — mas nenhum outro salmo reúne ambas simultaneamente: a estrutura alfabética completa (do alef ao tav, sem repetições longas) e a declaração explícita da providência universal de D'us sobre toda criatura. É essa combinação única, e não qualquer elemento isolado, que fundamenta a extraordinária promessa associada à sua recitação diária.

20Por que falta a letra "nun" em Ashrei: ela contém a queda de Israel
Bavli · 4b
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מִפְּנֵי מָה לֹא נֶאֱמַר נוּן בְּ״אַשְׁרֵי״ — מִפְּנֵי שֶׁיֵּשׁ בָּהּ מַפַּלְתָּן שֶׁל שׂוֹנְאֵי יִשְׂרָאֵל, דִּכְתִיב: ״נָפְלָה לֹא תוֹסִיף קוּם בְּתוּלַת יִשְׂרָאֵל״.

Disse Rabi Yochanan: por que não se diz (um versículo com) a letra nun em "Ashrei"? — Porque nela estaria contida a queda dos que odeiam Israel (eufemismo para o próprio Israel), como está escrito: "caiu, não se levantará mais, a virgem de Israel" (Amós 5:2).

Nota

Um detalhe estrutural de Tehilá LeDavid chama a atenção de Rabi Yochanan: o acróstico alfabético pula a letra nun — não há versículo iniciado por ela. A explicação buscada não é gramatical, mas de conteúdo: a letra nun inicia, em Amós, um versículo de mau agouro sobre a "queda" (naflá) de Israel — "caiu, não se levantará mais, a virgem de Israel". Para não introduzir, ainda que indiretamente, essa nota de desespero num salmo dedicado a celebrar a bondade e a providência divina, Davi teria evitado, com inspiração profética, compor um versículo com essa letra.

21A suavização do Yerushalmi, e o apoio de Davi ao versículo seguinte por inspiração divina
Bavli · 4b
בְּמַעְרְבָא מְתָרְצִי לַהּ הָכִי: ״נָפְלָה וְלֹא תּוֹסִיף לִנְפּוֹל עוֹד, קוּם בְּתוּלַת יִשְׂרָאֵל״. אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: אֲפִילּוּ הָכִי, חָזַר דָּוִד וּסְמָכָן בְּרוּחַ הַקֹּדֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר ״סוֹמֵךְ ה׳ לְכָל הַנֹּפְלִים״.

No ocidente (Eretz Yisrael), explicam-no assim: "caiu, e não voltará a cair novamente — levanta-te, virgem de Israel." Disse Rav Nachman bar Yitzchak: mesmo assim, Davi voltou e lhe deu apoio por inspiração divina, como está dito: "D'us sustenta a todos os que caem" (Salmos 145:14).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
אֲפִילּוּ הָכִי – אַף עַל פִּי שֶׁהִפְסִיק נוּ"ן מִפְּנֵי נְפִילָה שֶׁבָּהּ, וְלֹא אָבָה לְרַמְּזָהּ, חָזַר וְרָמַז סְמִיכַת הַנְּפִילָה תֵּכֶף לָהּ.

"Mesmo assim" — embora tenha interrompido (o acróstico, omitindo) a letra nun por causa da queda nela contida, e não tenha querido aludir a ela, ele voltou e aludiu ao amparo dado imediatamente à queda.

Nota

A Guemará registra uma leitura alternativa vinda de Eretz Yisrael (o Yerushalmi), que suaviza o versículo de Amós lendo-o não como sentença definitiva, mas como promessa de recuperação: "caiu, e não voltará a cair novamente — levanta-te, virgem de Israel". Mesmo com essa leitura mais branda, Rav Nachman bar Yitzchak nota que Davi, embora tenha evitado compor um versículo com a letra nun, ainda assim garantiu, por inspiração profética, que o tema da queda de Israel receberia resposta: o versículo imediatamente seguinte no salmo, iniciado pela letra samech ("sof" — sustentar), declara "D'us sustenta a todos os que caem" — respondendo, mesmo sem a letra ausente, à preocupação que a motivou.

22O anjo Michael é maior que Gabriel: um único voo contra dois
Bavli · 4b
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בַּר אֲבִינָא: גָּדוֹל מַה שֶּׁנֶּאֱמַר בְּמִיכָאֵל יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁנֶּאֱמַר בְּגַבְרִיאֵל, דְּאִילּוּ בְּמִיכָאֵל כְּתִיב: ״וַיָּעׇף אֵלַי אֶחָד מִן הַשְּׂרָפִים״. וְאִילּוּ גַּבֵּי גַבְרִיאֵל כְּתִיב: ״וְהָאִישׁ גַּבְרִיאֵל אֲשֶׁר רָאִיתִי בֶחָזוֹן בַּתְּחִלָּה מֻעָף בִּיעָף וְגוֹ׳״.

Disse Rabi Elazar bar Avina: maior é o que se diz a respeito de Michael do que o que se diz a respeito de Gabriel — pois, a respeito de Michael, está escrito: "e voou até mim um dos serafins" (Isaías 6:6); enquanto a respeito de Gabriel está escrito: "e o homem Gabriel, que eu vira na visão anteriormente, veio voando rapidamente" etc. (Daniel 9:21).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
וַיָּעָף אֵלַי – בִּפְרִיחָה אַחַת, וְלֹא הִרְגִּיעַ בֵּינְתַיִם.

"E voou até mim" — num único voo, sem parar no meio do caminho.

מֻעָף בִּיעָף – שְׁתֵּי פְּרִיחוֹת.

"Veio voando rapidamente" (linguagem duplicada) — dois voos.

Nota

Encerrado o comentário sobre Tehilá LeDavid, a Guemará segue por associação temática — tendo mencionado "D'us sustenta a todos os que caem" e a queda de Israel — para um breve excurso sobre a hierarquia dos anjos, iniciado por Rabi Elazar bar Avina (nome semelhante ao Rabi Avina citado no Movimento 15, o que talvez tenha motivado a colocação aqui). A comparação entre dois versículos revela uma diferença sutil na linguagem: o versículo sobre o serafim identificado com Michael usa uma expressão de voo único e direto, "voou até mim", enquanto o versículo sobre Gabriel emprega uma construção duplicada, "voando, voou" (muaf biaf), sugerindo dois voos distintos — indicando que Michael, sendo superior, alcança seu destino com mais rapidez e eficiência que Gabriel.

23De onde se sabe que "um dos serafins" é Michael?
Bavli · 4b
מַאי מַשְׁמַע דְּהַאי ״אֶחָד״ מִיכָאֵל הוּא?

De onde se infere que este "um" (dos serafins, em Isaías) é Michael?

Nota

A Guemará questiona a premissa da comparação anterior: o versículo de Isaías não menciona Michael pelo nome, apenas "um dos serafins". Como Rabi Elazar bar Avina sabe que se trata especificamente de Michael?

24A analogia verbal entre "um" e "um"
Bavli · 4b
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אַתְיָא ״אֶחָד״ ״אֶחָד״. כְּתִיב הָכָא ״וַיָּעׇף אֵלַי אֶחָד מִן הַשְּׂרָפִים״, וּכְתִיב הָתָם: ״וְהִנֵּה מִיכָאֵל אֶחָד (מִן) הַשָּׂרִים הָרִאשׁוֹנִים בָּא לְעָזְרֵנִי״.

Disse Rabi Yochanan: deriva-se por analogia verbal entre "um" e "um". Está escrito aqui: "e voou até mim um dos serafins"; e está escrito ali: "e eis que Michael, um dos príncipes principais, veio em meu auxílio" (Daniel 10:13).

Nota

Rabi Yochanan resolve a dúvida por meio de uma gezerá shavá — uma analogia verbal entre dois versículos que compartilham a mesma palavra incomum, "um" ('echad'). Como o livro de Daniel identifica explicitamente Michael como "um dos príncipes principais", a mesma palavra "um" no versículo de Isaías, referente a um serafim anônimo, é interpretada como aludindo ao mesmo Michael — "o único", num sentido especial de proeminência.

25Uma Tosefta fecha a hierarquia completa dos anjos e do Anjo da Morte
Bavli · 4b
תָּנָא: מִיכָאֵל — בְּאַחַת, גַּבְרִיאֵל — בִּשְׁתַּיִם, אֵלִיָּהוּ — בְּאַרְבַּע, וּמַלְאַךְ הַמָּוֶת — בִּשְׁמֹנֶה. וּבִשְׁעַת הַמַּגֵּפָה, בְּאֶחָת.

Foi ensinado (numa Tosefta): Michael — em um (voo); Gabriel — em dois; Eliáhu — em quatro; e o Anjo da Morte — em oito. Mas na hora de uma peste, em um (só voo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
בְּאַחַת – בִּפְרִיחָה אַחַת.

"Em um" — num único voo.

Nota

A Guemará conclui o excurso angelológico com uma baraita que sistematiza toda a hierarquia numa escala numérica de voos necessários para chegar ao destino: Michael, o mais elevado, em um só voo; Gabriel, em dois; o profeta Eliáhu, em quatro; e o Anjo da Morte, o mais lento em circunstâncias normais, em oito. A ressalva final é notável: em tempos de peste, quando a morte se espalha com velocidade avassaladora, até o Anjo da Morte alcança seu alvo num único voo — uma imagem que sublinha a gravidade extrema de uma epidemia.

26De volta ao Shemá: o preceito de recitá-lo também sobre a própria cama
Bavli · 4b
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: אַף עַל פִּי שֶׁקָּרָא אָדָם קְרִיאַת שְׁמַע בְּבֵית הַכְּנֶסֶת — מִצְוָה לִקְרוֹתוֹ עַל מִטָּתוֹ. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי: מַאי קְרָא — ״רִגְזוּ וְאַל תֶּחֱטָאוּ אִמְרוּ בִלְבַבְכֶם עַל מִשְׁכַּבְכֶם וְדֹמּוּ סֶלָה״.

Disse Rabi Yehoshua ben Levi: ainda que o homem já tenha recitado o Shemá na sinagoga, é um preceito recitá-lo (novamente) sobre a sua cama. Disse Rabi Yossei: qual é o versículo? — "Tremei, e não pequeis; falai em vosso coração, sobre o vosso leito, e calai-vos, Selá" (Salmos 4:5).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 4b
אִמְרוּ בִלְבַבְכֶם – אִמְרוּ מַה שֶּׁכָּתוּב עַל לְבַבְכֶם (דְּבָרִים ו׳).

"Falai em vosso coração" — dizei o que está escrito "sobre o vosso coração" (Deuteronômio 6, referência ao Shemá).

עַל מִשְׁכַּבְכֶם – שֶׁנֶּאֱמַר ״בְּשָׁכְבְּךָ״ (שָׁם).

"Sobre o vosso leito" — como está dito "ao deitar-te" (ibid.).

וְדֹמּוּ – בְּשֵׁינָה אַחֲרֵי כֵן.

"E calai-vos" — no sono, depois disso.

Nota

A Guemará retorna, por fim, ao tema central da massechet: mesmo tendo cumprido a obrigação de recitar o Shemá comunitariamente na sinagoga — a prática descrita já no Movimento 2 deste daf —, Rabi Yehoshua ben Levi ensina que ainda é um preceito à parte recitá-lo uma segunda vez, individualmente, sobre a própria cama, imediatamente antes de dormir. Rabi Yossei fundamenta esta prática em Salmos 4:5, lido palavra por palavra como alusão a três preceitos sucessivos: "falai em vosso coração" remete às palavras do Shemá gravadas "sobre o teu coração"; "sobre o vosso leito" remete ao momento de "deitar-te"; e "calai-vos" remete ao sono que se segue à recitação. Esta é a origem do que a tradição chama Kriat Shemá al HaMitá — a leitura do Shemá sobre a cama.

27Rav Nachman abre uma nova palavra — a sugya continua no daf seguinte
Bavli · 4b
אָמַר רַב נַחְמָן:

Disse Rav Nachman: (o daf termina aqui; a continuação do seu dito — sobre quem é considerado dispensado desta segunda recitação — abre o daf 5a.)

Nota

O daf 4b termina, como não raro ocorre no Talmud, no meio de um pensamento: a folha encerra-se com a atribuição "disse Rav Nachman", sem ainda revelar o conteúdo do seu dito. A continuação — que trata de quem está dispensado de repetir o Shemá sobre a cama, abrindo caminho para a discussão sobre o erudito da Torá e o versículo "em Tuas mãos entrego o meu espírito" — pertence já ao daf 5a.