A Guemará explica por que os Sábios fixaram "até a meia-noite" como cerca protetora para o Shemá noturno, mesmo que o prazo real, segundo a Torá, se estenda até a alva. Segue com a justaposição da bênção da redenção à oração da noite, a promessa de que quem recita o salmo Tehilá LeDavid três vezes ao dia tem garantido o Mundo Vindouro, os anjos Michael e Gabriel como defensores de Israel, e o preceito de reler o Shemá sobre a própria cama antes de dormir.
E se sustentam como Rabán Gamliel, que digam então (a mesma medida) de Rabán Gamliel!
"E se sustentam como Rabán Gamliel" — que entende "ao deitar-te" como todo o tempo em que as pessoas se deitam, o que inclui toda a noite.
"Que digam como Rabán Gamliel" — até que suba a coluna da alva.
O daf anterior encerrou com uma dificuldade lógica: se os Sábios interpretam "ao deitar-te" da mesma forma ampla que Rabi Eliézer, deveriam ter fixado o mesmo limite que ele. Este daf continua a mesma linha de raciocínio, mas invertendo a hipótese — talvez os Sábios interpretem o versículo, na verdade, como Rabán Gamliel, cuja opinião estende o tempo do Shemá até a própria alva. Se assim for, a dificuldade permanece, apenas trocando de interlocutor: por que então não disseram simplesmente "até a alva"?
Na verdade, sustentam como Rabán Gamliel, e o fato de dizerem "até a meia-noite" é para afastar o homem da transgressão. Como foi ensinado (numa baraita): os Sábios fizeram uma cerca para as suas palavras, para que não aconteça de um homem vir do campo à tarde e dizer: "irei para casa, comerei um pouco, beberei um pouco, dormirei um pouco, e depois recitarei o Shemá e orarei" — e o sono o arrebata, e ele acaba dormindo a noite toda. Mas (se souber que deve recitar até a meia-noite) o homem que vem do campo à tarde entra na sinagoga; se está habituado a ler (a Escritura), lê; e se está habituado a estudar (Mishná), estuda — e (então) recita o Shemá e ora, e come o seu pão, e abençoa.
"Da transgressão" — para que não confie na folga de tempo que ainda lhe resta, como foi ensinado.
"Kim'á" — um pouco.
A resposta da Guemará dissolve a dificuldade sem abandonar Rabán Gamliel: a lei de fato permite o Shemá até a alva, mas os Sábios anunciaram publicamente um limite mais cedo — a meia-noite — como medida preventiva. A baraita ilustra o perigo concreto: um trabalhador cansado, sabendo que tecnicamente tem a noite inteira, adiaria o cumprimento do preceito "só um pouco" e acabaria vencido pelo sono. Ao ouvir "até a meia-noite", ele se apressa a entrar na sinagoga assim que chega, aproveitando o tempo de estudo até a hora da oração, e só depois janta em paz.
E todo aquele que transgride as palavras dos Sábios é passível de morte.
A baraita conclui com uma advertência surpreendentemente severa para uma cerca meramente preventiva: quem a transgride — quem posterga o Shemá além da meia-noite confiando na margem técnica até a alva — é considerado passível de morte. É essa severidade incomum, desproporcional a uma simples medida de prudência rabínica, que a Guemará examinará a seguir.
O que há de diferente, que em todos os outros lugares não se ensina "passível de morte", e o que há de diferente aqui, que se ensina "passível de morte"?
A Guemará estranha a linguagem: outras cercas rabínicas — instituídas com o mesmo propósito de afastar o homem da transgressão — não vêm acompanhadas de uma pena tão grave. Por que, então, precisamente esta cerca, sobre o horário do Shemá noturno, mereceu tal ênfase?
Se quiseres, dize: por causa do risco de ser vencido pelo sono (contra a própria vontade). E, se quiseres, dize: para excluir a opinião de quem diz que "a oração da tarde (noite) é facultativa" — ensina-nos (esta baraita) que ela é obrigatória.
"Por causa do risco de ser vencido pelo sono" — que o toma de assalto, levando-o a transgredir as palavras dos Sábios; por isso precisaram adverti-lo com mais rigor.
"De quem diz" — mais adiante, no capítulo "Tefilat HaShachar" (Berachot 27b).
A Guemará oferece duas explicações, ambas deslocando o peso da advertência: não se trata da gravidade intrínseca da transgressão, mas de uma preocupação prática. Primeira resposta: precisamente porque o sono pode vencer o homem involuntariamente, era necessário um alerta mais forte para mantê-lo vigilante. Segunda resposta: a linguagem severa serve para refutar, de passagem, a opinião (discutida mais adiante na massechet) de que a oração noturna seria apenas facultativa — a baraita ensina, ao contrário, que ela é obrigatória, e o rigor da pena reforça essa obrigatoriedade.
Disse o Mestre: "recita o Shemá e ora" (na baraita acima). Isto apoia Rabi Yochanan, pois disse Rabi Yochanan: quem é um filho do Mundo Vindouro? — Aquele que justapõe a (bênção da) redenção à oração da noite. Rabi Yehoshua ben Levi diz: as orações, no meio (entre as duas leituras do Shemá), é que as instituíram.
"Disse o Mestre: recita o Shemá" — o da noite, primeiro, e depois ora.
"Isto apoia Rabi Yochanan" — que diz que também à noite (a ordem é) Shemá e depois oração, para que se justaponha a redenção à oração. E não como Rabi Yehoshua ben Levi, que diz oração e depois Shemá.
"Aquele que justapõe" — e tanto mais pela manhã, pois a redenção principal do Egito ocorreu de manhã, como está escrito: "no dia seguinte à Páscoa saíram os filhos de Israel" (Números 33:3). E a justaposição da redenção à oração, Davi já a insinuou no livro de Salmos, pois está escrito: "D'us, minha rocha e meu redentor" (Salmos 19:15), e logo em seguida: "responda-te D'us no dia da angústia" (ibid. 20). E dizemos no Yerushalmi de Berachot (capítulo 1): a quem se assemelha aquele que não justapõe a redenção à oração? Ao amigo de um rei que veio e bateu à porta do rei; o rei saiu e o encontrou, mas ele já se havia afastado — também o rei se afastou. Em vez disso, que o homem se aproxime do Santo, Bendito Seja, e o agrade com louvores e elogios sobre a saída do Egito, e Ele se aproximará dele; e enquanto ainda está próximo dele, é o momento de pedir as suas necessidades.
"No meio, é que as instituíram" — entre as duas leituras do Shemá instituíram todas as orações do dia, pois considera que a oração da noite precede o Shemá.
A Guemará extrai da própria baraita uma prova incidental para um debate mais amplo: como a baraita descreve a ordem "recita o Shemá e ora" também para a noite, isso apoia Rabi Yochanan, que sustenta que quem justapõe a bênção da redenção (dita logo após o Shemá) à oração da noite garante para si um lugar no Mundo Vindouro. Isso contraria a posição de Rabi Yehoshua ben Levi, para quem a sequência diária das orações foi instituída "no meio" — ou seja, entre a leitura do Shemá da noite anterior e a da manhã seguinte —, o que implicaria rezar a oração da noite antes do Shemá, e não depois.
Em que se baseia o seu desacordo?
Estabelecida a divergência prática entre Rabi Yochanan e Rabi Yehoshua ben Levi, a Guemará busca a sua raiz teórica: qual é o princípio subjacente que os leva a ordenar de modo tão diferente o Shemá e a oração noturna?
Se quiseres, dize (que discordam sobre a interpretação de) um versículo; e, se quiseres, dize (que discordam sobre) um raciocínio lógico.
A Guemará responde com uma fórmula que abrirá duas explicações paralelas e independentes — uma baseada em lógica pura, outra na exegese de um mesmo versículo —, ambas capazes de sustentar sozinhas a divergência entre os dois amoraítas.
Se quiseres, dize (que discordam sobre) um raciocínio lógico: Rabi Yochanan sustenta que a redenção também ocorreu à noite, mas a redenção completa só se deu pela manhã. E Rabi Yehoshua ben Levi sustenta que, uma vez que ela só se completou pela manhã, não houve (ainda à noite) redenção completa.
"Não houve redenção à noite" — por isso, a redenção da noite não é considerada suficientemente importante para se voltar a ela justapondo a oração.
Pela via da lógica pura, o desacordo gira em torno de um fato histórico sobre o Êxodo: ambos concordam que a saída completa do Egito ocorreu pela manhã, mas Rabi Yochanan considera que o processo de redenção já havia começado na noite anterior — daí ser apropriado justapor a bênção da redenção também à oração noturna, celebrando esse início. Rabi Yehoshua ben Levi, por sua vez, entende que só a redenção plena e completa (a da manhã) merece tal justaposição; a fase noturna, sendo apenas preparatória, não tem peso suficiente para justificar a mesma prática à noite.
E, se quiseres, dize (que discordam sobre) um versículo — e ambos expuseram o mesmo versículo, pois está escrito: "ao deitar-te e ao levantar-te".
A segunda via localiza a raiz do desacordo não em fatos históricos, mas na leitura de um único versículo — o mesmo que já fundamentou, no daf 2a, a própria ordem "noite antes de manhã" na Mishná. Ambos os amoraítas partem dele, mas o interpretam de maneiras opostas.
Rabi Yochanan sustenta: o versículo equipara o deitar ao levantar; assim como no levantar (a ordem é) Shemá e depois oração, também no deitar (é) Shemá e depois oração. E Rabi Yehoshua ben Levi sustenta: o versículo equipara o deitar ao levantar (num sentido diferente): assim como no levantar (recita-se) o Shemá próximo à sua cama (isto é, logo ao acordar), também no deitar (recita-se) o Shemá próximo à sua cama (isto é, logo antes de deitar-se).
"Assim como no levantar, Shemá e depois oração" — pois pela manhã todos concordam que é preciso justapor.
A mesma equiparação textual entre "deitar" e "levantar" produz duas leituras opostas. Rabi Yochanan a entende como uma equiparação de sequência: assim como pela manhã todos concordam que se recita primeiro o Shemá e depois a oração (justapondo a redenção à oração), o mesmo padrão se aplica à noite. Rabi Yehoshua ben Levi a entende como uma equiparação de proximidade temporal ao ato físico: assim como pela manhã o Shemá é recitado o mais próximo possível do momento de se levantar da cama, à noite o Shemá deve ser recitado o mais próximo possível do momento de se deitar — o que, na prática, significaria recitá-lo por último, depois da oração, imediatamente antes de dormir.
Objetou Mar, filho de Ravina: "à noite, abençoa duas (bênçãos) antes dela e duas depois dela" (Mishná). E, se dizes que é preciso justapor (a redenção à oração), eis que não se está justapondo a redenção à oração, pois é preciso dizer (antes) "Hashkivenu" (faze-nos deitar em paz)!
Uma dificuldade concreta é levantada contra a posição de Rabi Yochanan, a partir da própria Mishná de abertura: à noite, recitam-se duas bênçãos depois do Shemá (e não apenas uma, como pela manhã) — a segunda delas sendo "Hashkivenu". Mas, se a bênção da redenção deve ser justaposta imediatamente à oração, como afirma Rabi Yochanan, a intercalação de "Hashkivenu" entre a redenção e a oração pareceria quebrar exatamente essa justaposição que ele exige.
Disseram (em resposta): uma vez que os Sábios instituíram (a bênção) "Hashkivenu", ela é considerada como uma extensão da própria redenção. Pois, se não disseres assim, como se poderia justapor pela manhã? Ora, não disse Rabi Yochanan: no início (da Amidá) diz-se "D'us, abre os meus lábios", e ao final diz-se "sejam agradáveis as palavras da minha boca" (Salmos 19:15)?
A Guemará resolve a objeção com um princípio: uma bênção instituída pelos Sábios como continuação natural de outra não constitui interrupção, mas é tratada como parte dela — "Hashkivenu" é vista como uma extensão da própria bênção da redenção, e não como algo intercalado entre a redenção e a oração. A prova vem de um paralelo matinal: mesmo pela manhã, onde todos concordam que há justaposição plena, os Sábios acrescentaram o versículo "D'us, abre os meus lábios" antes da Amidá — e ninguém considera isso uma quebra da justaposição.
Antes, ali (pela manhã), uma vez que os Sábios instituíram dizer "D'us, abre os meus lábios", isso é considerado como uma extensão da própria oração. Também aqui (à noite), uma vez que os Sábios instituíram dizer "Hashkivenu", isso é considerado como uma extensão da própria redenção.
(Nota de Rashi antecipada ao próximo bloco: "três vezes" — correspondendo às três orações diárias.)
A Guemará fecha o paralelo com simetria perfeita: assim como "D'us, abre os meus lábios" — acréscimo dos Sábios antes da Amidá matinal — é tratado como extensão da própria oração e não como interrupção da justaposição, "Hashkivenu" — acréscimo dos Sábios depois da bênção da redenção noturna — é igualmente tratado como extensão da própria redenção. Em ambos os casos, o acréscimo rabínico se funde, para efeitos de justaposição, com a bênção à qual está ligado, preservando a posição de Rabi Yochanan.
Disse Rabi Elazar, disse Rabi Avina: todo aquele que recita "Tehilá LeDavid" (Salmos 145) todos os dias três vezes tem garantido que é um filho do Mundo Vindouro.
"Três vezes" — correspondendo às três orações diárias.
Ainda associada à ideia de "quem é um filho do Mundo Vindouro" — expressão que Rabi Yochanan usara pouco antes para quem justapõe a redenção à oração — a Guemará traz agora uma segunda garantia do Mundo Vindouro, desta vez de Rabi Elazar em nome de Rabi Avina: recitar Tehilá LeDavid, o Salmo 145, três vezes por dia (número que corresponde, segundo Rashi, às três orações diárias). Este salmo é o que a tradição judaica chama de Ashrei, por começar sua recitação litúrgica com o versículo "Ashrei yoshvei veitecha" (Salmos 84:5), e sua promessa notável — garantia quase incondicional do Mundo Vindouro por meio de uma prática tão simples — leva a Guemará a investigar imediatamente o seu fundamento.
Qual é a razão?
A Guemará pergunta diretamente: o que há neste salmo específico que justifica uma promessa tão extraordinária? A resposta será buscada por eliminação, testando e descartando explicações antes de chegar à correta.
Se dirias: porque vem (organizado) segundo o alfabeto — que se diga então "Ashrei temimei darech" (Salmos 119), que vem (organizado) em oito faces (de cada letra)!
A primeira hipótese testada é a estrutura de acróstico alfabético de Tehilá LeDavid — cada versículo começa com a letra seguinte do alfabeto hebraico. Mas essa explicação, por si só, não pode ser suficiente: o Salmo 119 é ainda mais rigorosamente alfabético, repetindo cada letra em oito versículos consecutivos — e, no entanto, não recebeu promessa semelhante. Logo, deve haver outro fator.
Mas (se dirias): porque contém (o versículo) "abres a Tua mão" — que se diga então o "Hallel Hagadol" (Salmos 136), no qual está escrito "dá pão a toda carne"!
A segunda hipótese é o conteúdo do versículo "abres a Tua mão e satisfazes a todo ser vivo com favor" (Salmos 145:16), que celebra a providência divina universal. Mas também esta explicação, isolada, não basta: o "Hallel Hagadol" (Salmos 136) contém louvor equivalente — "dá pão a toda carne" — e também não recebeu tal promessa. É preciso, então, algo que combine os dois elementos.
Mas sim, porque possui as duas (qualidades juntas).
"Porque possui as duas" — pois vem organizado segundo o alfabeto, e contém o louvor da provisão de sustento a todo ser vivo.
Nenhuma das duas qualidades isoladamente é exclusiva de Tehilá LeDavid — mas nenhum outro salmo reúne ambas simultaneamente: a estrutura alfabética completa (do alef ao tav, sem repetições longas) e a declaração explícita da providência universal de D'us sobre toda criatura. É essa combinação única, e não qualquer elemento isolado, que fundamenta a extraordinária promessa associada à sua recitação diária.
Disse Rabi Yochanan: por que não se diz (um versículo com) a letra nun em "Ashrei"? — Porque nela estaria contida a queda dos que odeiam Israel (eufemismo para o próprio Israel), como está escrito: "caiu, não se levantará mais, a virgem de Israel" (Amós 5:2).
Um detalhe estrutural de Tehilá LeDavid chama a atenção de Rabi Yochanan: o acróstico alfabético pula a letra nun — não há versículo iniciado por ela. A explicação buscada não é gramatical, mas de conteúdo: a letra nun inicia, em Amós, um versículo de mau agouro sobre a "queda" (naflá) de Israel — "caiu, não se levantará mais, a virgem de Israel". Para não introduzir, ainda que indiretamente, essa nota de desespero num salmo dedicado a celebrar a bondade e a providência divina, Davi teria evitado, com inspiração profética, compor um versículo com essa letra.
No ocidente (Eretz Yisrael), explicam-no assim: "caiu, e não voltará a cair novamente — levanta-te, virgem de Israel." Disse Rav Nachman bar Yitzchak: mesmo assim, Davi voltou e lhe deu apoio por inspiração divina, como está dito: "D'us sustenta a todos os que caem" (Salmos 145:14).
"Mesmo assim" — embora tenha interrompido (o acróstico, omitindo) a letra nun por causa da queda nela contida, e não tenha querido aludir a ela, ele voltou e aludiu ao amparo dado imediatamente à queda.
A Guemará registra uma leitura alternativa vinda de Eretz Yisrael (o Yerushalmi), que suaviza o versículo de Amós lendo-o não como sentença definitiva, mas como promessa de recuperação: "caiu, e não voltará a cair novamente — levanta-te, virgem de Israel". Mesmo com essa leitura mais branda, Rav Nachman bar Yitzchak nota que Davi, embora tenha evitado compor um versículo com a letra nun, ainda assim garantiu, por inspiração profética, que o tema da queda de Israel receberia resposta: o versículo imediatamente seguinte no salmo, iniciado pela letra samech ("sof" — sustentar), declara "D'us sustenta a todos os que caem" — respondendo, mesmo sem a letra ausente, à preocupação que a motivou.
Disse Rabi Elazar bar Avina: maior é o que se diz a respeito de Michael do que o que se diz a respeito de Gabriel — pois, a respeito de Michael, está escrito: "e voou até mim um dos serafins" (Isaías 6:6); enquanto a respeito de Gabriel está escrito: "e o homem Gabriel, que eu vira na visão anteriormente, veio voando rapidamente" etc. (Daniel 9:21).
"E voou até mim" — num único voo, sem parar no meio do caminho.
"Veio voando rapidamente" (linguagem duplicada) — dois voos.
Encerrado o comentário sobre Tehilá LeDavid, a Guemará segue por associação temática — tendo mencionado "D'us sustenta a todos os que caem" e a queda de Israel — para um breve excurso sobre a hierarquia dos anjos, iniciado por Rabi Elazar bar Avina (nome semelhante ao Rabi Avina citado no Movimento 15, o que talvez tenha motivado a colocação aqui). A comparação entre dois versículos revela uma diferença sutil na linguagem: o versículo sobre o serafim identificado com Michael usa uma expressão de voo único e direto, "voou até mim", enquanto o versículo sobre Gabriel emprega uma construção duplicada, "voando, voou" (muaf biaf), sugerindo dois voos distintos — indicando que Michael, sendo superior, alcança seu destino com mais rapidez e eficiência que Gabriel.
De onde se infere que este "um" (dos serafins, em Isaías) é Michael?
A Guemará questiona a premissa da comparação anterior: o versículo de Isaías não menciona Michael pelo nome, apenas "um dos serafins". Como Rabi Elazar bar Avina sabe que se trata especificamente de Michael?
Disse Rabi Yochanan: deriva-se por analogia verbal entre "um" e "um". Está escrito aqui: "e voou até mim um dos serafins"; e está escrito ali: "e eis que Michael, um dos príncipes principais, veio em meu auxílio" (Daniel 10:13).
Rabi Yochanan resolve a dúvida por meio de uma gezerá shavá — uma analogia verbal entre dois versículos que compartilham a mesma palavra incomum, "um" ('echad'). Como o livro de Daniel identifica explicitamente Michael como "um dos príncipes principais", a mesma palavra "um" no versículo de Isaías, referente a um serafim anônimo, é interpretada como aludindo ao mesmo Michael — "o único", num sentido especial de proeminência.
Foi ensinado (numa Tosefta): Michael — em um (voo); Gabriel — em dois; Eliáhu — em quatro; e o Anjo da Morte — em oito. Mas na hora de uma peste, em um (só voo).
"Em um" — num único voo.
A Guemará conclui o excurso angelológico com uma baraita que sistematiza toda a hierarquia numa escala numérica de voos necessários para chegar ao destino: Michael, o mais elevado, em um só voo; Gabriel, em dois; o profeta Eliáhu, em quatro; e o Anjo da Morte, o mais lento em circunstâncias normais, em oito. A ressalva final é notável: em tempos de peste, quando a morte se espalha com velocidade avassaladora, até o Anjo da Morte alcança seu alvo num único voo — uma imagem que sublinha a gravidade extrema de uma epidemia.
Disse Rabi Yehoshua ben Levi: ainda que o homem já tenha recitado o Shemá na sinagoga, é um preceito recitá-lo (novamente) sobre a sua cama. Disse Rabi Yossei: qual é o versículo? — "Tremei, e não pequeis; falai em vosso coração, sobre o vosso leito, e calai-vos, Selá" (Salmos 4:5).
"Falai em vosso coração" — dizei o que está escrito "sobre o vosso coração" (Deuteronômio 6, referência ao Shemá).
"Sobre o vosso leito" — como está dito "ao deitar-te" (ibid.).
"E calai-vos" — no sono, depois disso.
A Guemará retorna, por fim, ao tema central da massechet: mesmo tendo cumprido a obrigação de recitar o Shemá comunitariamente na sinagoga — a prática descrita já no Movimento 2 deste daf —, Rabi Yehoshua ben Levi ensina que ainda é um preceito à parte recitá-lo uma segunda vez, individualmente, sobre a própria cama, imediatamente antes de dormir. Rabi Yossei fundamenta esta prática em Salmos 4:5, lido palavra por palavra como alusão a três preceitos sucessivos: "falai em vosso coração" remete às palavras do Shemá gravadas "sobre o teu coração"; "sobre o vosso leito" remete ao momento de "deitar-te"; e "calai-vos" remete ao sono que se segue à recitação. Esta é a origem do que a tradição chama Kriat Shemá al HaMitá — a leitura do Shemá sobre a cama.
Disse Rav Nachman: (o daf termina aqui; a continuação do seu dito — sobre quem é considerado dispensado desta segunda recitação — abre o daf 5a.)
O daf 4b termina, como não raro ocorre no Talmud, no meio de um pensamento: a folha encerra-se com a atribuição "disse Rav Nachman", sem ainda revelar o conteúdo do seu dito. A continuação — que trata de quem está dispensado de repetir o Shemá sobre a cama, abrindo caminho para a discussão sobre o erudito da Torá e o versículo "em Tuas mãos entrego o meu espírito" — pertence já ao daf 5a.