Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Alef
יִסּוּרִין

Rav Nachman completa seu dito sobre o erudito da Torá, e a Guemará entra na grande sugya sobre o Yetzer Hará e as aflições do amor

Berachot 5a

Rav Nachman completa seu dito sobre o mérito de quem se dedica ao estudo da Torá, e a Guemará entra na grande sugya sobre o Yetzer Hará (a inclinação para o mal): a escada de recursos para combatê-lo — o próprio estudo de Torá, a recitação do Shemá, e a lembrança do dia da morte — e o poder protetor do Shemá contra demônios e aflições. O daf then desenvolve a extensa sugya sobre as "aflições do amor" e as três dádivas preciosas que D'us deu a Israel apenas através de sofrimento: a Torá, a Terra de Israel, e o Mundo Vindouro.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01O erudito da Torá é dispensado — mas Abaie exige ao menos um versículo
Bavli · 5a
אִם תַּלְמִיד חָכָם הוּא — אֵין צָרִיךְ. אָמַר אַבָּיֵי: אַף תַּלְמִיד חָכָם מִיבְּעֵי לֵיהּ לְמֵימַר חַד פְּסוּקָא דְרַחֲמֵי, כְּגוֹן: ״בְּיָדְךָ אַפְקִיד רוּחִי, פָּדִיתָה אוֹתִי ה׳ אֵל אֱמֶת״.

"Se é um erudito da Torá — não precisa" (recitar o Shemá sobre a cama, pois já está sempre ocupado com o estudo de Torá e é provável que adormeça envolvido em palavras de Torá). Disse Abaie: também o erudito da Torá precisa dizer ao menos um versículo de súplica, como: "em Tuas mãos entrego o meu espírito; Tu me redimiste, D'us, El de verdade" (Salmos 31:6).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
וְאִם תַּלְמִיד חָכָם הוּא – שֶׁרָגִיל בְּמִשְׁנָתוֹ לַחֲזוֹר עַל גִּרְסָתוֹ תָּמִיד, דַּיּוֹ בְּכָךְ.

"E se é um erudito da Torá" — que está habituado a repassar seu estudo constantemente, isso já lhe basta.

Nota

Este é o dito de Rav Nachman deixado inacabado no fim de 4b: quem já está permanentemente absorto em Torá, e adormecerá naturalmente em meio a ela, está dispensado de recitar o Shemá completo uma segunda vez sobre a cama. Abaie, porém, tempera essa dispensa: mesmo o erudito deve dizer ao menos um único versículo de súplica antes de dormir — o versículo "em Tuas mãos entrego o meu espírito", que Rashi liga à entrega confiante da alma a D'us no momento de adormecer.

02Incitar o bom instinto contra o mau instinto: a escada de quatro degraus
Bavli · 5a
אָמַר רַבִּי לֵוִי בַּר חָמָא, אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: לְעוֹלָם יַרְגִּיז אָדָם יֵצֶר טוֹב עַל יֵצֶר הָרַע, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רִגְזוּ וְאַל תֶּחֱטָאוּ״ אִם נִצְּחוֹ — מוּטָב, וְאִם לָאו — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִמְרוּ בִלְבַבְכֶם״. אִם נִצְּחוֹ — מוּטָב, וְאִם לָאו — יִקְרָא קְרִיאַת שְׁמַע, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל מִשְׁכַּבְכֶם״. אִם נִצְּחוֹ — מוּטָב, וְאִם לָאו — יִזְכּוֹר לוֹ יוֹם הַמִּיתָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְדֹמּוּ סֶלָה״.

Disse Rabi Levi bar Chama, disse Rabi Shimon ben Lakish: sempre deve o homem incitar o bom instinto contra o mau instinto, como está dito: "Tremei, e não pequeis" (Salmos 4:5). Se o subjugou — ótimo; e se não, que se ocupe da Torá, como está dito: "falai em vosso coração". Se o subjugou — ótimo; e se não, que recite o Shemá, como está dito: "sobre o vosso leito". Se o subjugou — ótimo; e se não, que se lembre do dia da morte, como está dito: "e calai-vos, Selá".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
יַרְגִּיז יֵצֶר טוֹב – שֶׁיַּעֲשֶׂה מִלְחָמָה עִם הַיֵּצֶר הָרָע.

"Que incite o bom instinto" — que trave guerra com o mau instinto.

וְדֹמּוּ סֶלָה – יוֹם הַדּוּמִיָּה הוּא יוֹם הַמָּוֶת, שֶׁהוּא דּוּמִיָּה עוֹלָמִית.

"E calai-vos, Selá" — é o dia do silêncio, que é o dia da morte, o silêncio eterno.

Nota

A menção do versículo "Tremei, e não pequeis" — já citado no fim de 4b como fonte da leitura do Shemá sobre a cama — leva a Guemará, por associação, a uma leitura homilética de todo o versículo de Salmos 4:5 como uma escada de recursos contra o Yetzer Hará (o mau instinto): primeiro, a luta interior direta ("tremei"); se isso falhar, o estudo de Torá ("falai em vosso coração"); se ainda assim falhar, a recitação do Shemá ("sobre o vosso leito"); e, como último recurso, a lembrança da própria mortalidade ("e calai-vos"), que sóbria o ímpeto do pecado ao recordar o silêncio final da morte.

03Excurso: tudo o que foi dado a Moisés no Sinai — Escritura, Mishná e Talmud
Bavli · 5a
וְאָמַר רַבִּי לֵוִי בַּר חָמָא, אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ, מַאי דִּכְתִיב ״וְאֶתְּנָה לְךָ אֶת לֻחֹת הָאֶבֶן וְהַתּוֹרָה וְהַמִּצְוָה אֲשֶׁר כָּתַבְתִּי לְהוֹרֹתָם״. ״לֻחֹת״ — אֵלּוּ עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת, ״תּוֹרָה״ — זֶה מִקְרָא, ״וְהַמִּצְוָה״ — זוֹ מִשְׁנָה, ״אֲשֶׁר כָּתַבְתִּי״ — אֵלּוּ נְבִיאִים וּכְתוּבִים, ״לְהוֹרוֹתָם״ — זֶה תַּלְמוּד, מְלַמֵּד שֶׁכּוּלָּם נִתְּנוּ לְמֹשֶׁה מִסִּינַי.

E disse Rabi Levi bar Chama, disse Rabi Shimon ben Lakish: o que significa o que está escrito: "e te darei as tábuas de pedra, e a Torá, e o mandamento que escrevi, para os ensinar" (Êxodo 24:12)? "Tábuas" — estes são os Dez Mandamentos; "Torá" — esta é a Escritura (os cinco livros); "e o mandamento" — esta é a Mishná; "que escrevi" — estes são os Profetas e os Escritos; "para os ensinar" — este é o Talmude. Ensina que todos foram dados a Moisés desde o Sinai.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
זֶה מִקְרָא – חוּמָשׁ, שֶׁמִּצְוָה לִקְרוֹת בַּתּוֹרָה.

"Esta é a Escritura" — o Chumash, que é preceito ler na Torá.

זוֹ מִשְׁנָה – שֶׁיִּתְעַסְּקוּ בַּמִּשְׁנָה.

"Esta é a Mishná" — que se ocupem da Mishná.

זֶה גְּמָרָא – סְבָרַת טַעֲמֵי הַמִּשְׁנָיוֹת שֶׁמִּמֶּנּוּ יוֹצְאָה הוֹרָאָה. אֲבָל הַמּוֹרִים הוֹרָאָה מִן הַמִּשְׁנָה נִקְרְאוּ מְבַלֵּי הָעוֹלָם בְּמַסֶּכֶת סוֹטָה (דַּף כ״ב.).

"Este é o Talmude" — o raciocínio por trás dos motivos da Mishná, do qual saem as decisões práticas. Mas os que decidem halachá diretamente da Mishná (sem o raciocínio do Talmude) são chamados "destruidores do mundo", no tratado Sotá (22a).

Nota

Aproveitando a mesma cadeia de transmissão (Rabi Levi bar Chama em nome de Reish Lakish), a Guemará insere um excurso independente, sem relação direta com o Shemá: uma leitura de Êxodo 24:12 que identifica, em cada palavra do versículo, uma camada distinta da Torá Oral e Escrita — Dez Mandamentos, Chumash, Mishná, Profetas e Escritos, e o próprio Talmude — todas reveladas a Moisés no Sinai. É uma afirmação fundacional sobre a unidade e a origem comum de toda a tradição rabínica.

04A espada de dois gumes: o Shemá sobre a cama contra os demônios
Bavli · 5a
אָמַר רַבִּי יִצְחָק: כׇּל הַקּוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע עַל מִטָּתוֹ, כְּאִלּוּ אוֹחֵז חֶרֶב שֶׁל שְׁתֵּי פִיּוֹת בְּיָדוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״רוֹמְמוֹת אֵל בִּגְרוֹנָם וְחֶרֶב פִּיפִיּוֹת בְּיָדָם״, מַאי מַשְׁמַע? אָמַר מָר זוּטְרָא וְאִיתֵּימָא רַב אָשֵׁי: מֵרֵישָׁא דְעִנְיָנָא, דִּכְתִיב: ״יַעְלְזוּ חֲסִידִים בְּכָבוֹד יְרַנְּנוּ עַל מִשְׁכְּבוֹתָם״. וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״רוֹמְמוֹת אֵל בִּגְרוֹנָם וְחֶרֶב פִּיפִיּוֹת בְּיָדָם״.

Disse Rabi Yitzchak: todo aquele que recita o Shemá sobre a sua cama é como se segurasse uma espada de dois gumes em sua mão, como está dito: "louvores exaltados de D'us em suas gargantas, e espada de dois gumes em suas mãos" (Salmos 149:6). De onde se infere (que isto se refere ao Shemá)? Disse Mar Zutra, e alguns dizem Rav Ashi: do início da passagem, pois está escrito: "exultem os piedosos em glória, cantem alegremente sobre os seus leitos" — e está escrito depois: "louvores exaltados de D'us em suas gargantas, e espada de dois gumes em suas mãos".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
כְּאִלּוּ אוֹחֵז חֶרֶב שֶׁל שְׁתֵּי פִיּוֹת בְּיָדוֹ – לַהֲרוֹג אֶת הַמַּזִּיקִין.

"Como se segurasse uma espada de dois gumes em sua mão" — para matar os demônios (que rondam à noite).

מַאי מַשְׁמַע – דְּבִקְרִיאַת שְׁמַע.

"De onde se infere" — que isto trata da recitação do Shemá.

Nota

A Guemará retorna, após os dois excursos, ao tema central: o poder protetor do Shemá recitado sobre a cama. Rabi Yitzchak o compara a empunhar uma espada de dois gumes, capaz de repelir os demônios que rondam durante a noite. A prova textual é buscada não no próprio versículo citado, mas no versículo anterior do mesmo salmo — "cantem alegremente sobre os seus leitos" —, que ancora a "espada de dois gumes" precisamente no contexto de estar deitado na cama.

05O Shemá sobre a cama também afasta os demônios
Bavli · 5a
וְאָמַר רַבִּי יִצְחָק: כׇּל הַקּוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע עַל מִטָּתוֹ — מַזִּיקִין בְּדֵילִין הֵימֶנּוּ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְנֵי רֶשֶׁף יַגְבִּיהוּ עוּף״, וְאֵין ״עוּף״ אֶלָּא תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֲתָעִיף עֵינֶיךָ בּוֹ וְאֵינֶנּוּ״. וְאֵין ״רֶשֶׁף״ אֶלָּא מַזִּיקִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְזֵי רָעָב וּלְחֻמֵי רֶשֶׁף וְקֶטֶב מְרִירִי״.

E disse Rabi Yitzchak: todo aquele que recita o Shemá sobre a sua cama, os demônios se afastam dele, como está dito: "e os filhos de resheph elevam voo [uf]" (Jó 5:7). E "uf" não é senão a Torá, como está dito: "acaso porás teus olhos sobre ela, e ei-la que já não está" (Provérbios 23:5). E "resheph" não é senão os demônios, como está dito: "consumidos de fome, devorados por resheph, e destruição amarga" (Deuteronômio 32:24).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
וּבְנֵי רֶשֶׁף יַגְבִּיהוּ עוּף – הָעוּף מְסַלְּקָם מִמְּךָ.

"E os filhos de resheph elevam voo" — o voo (a Torá) os afasta de ti.

הֲתָעִיף עֵינֶיךָ בּוֹ – אִם תִּכְפֹּל וְתִסְגֹּר עֵינֶיךָ, בַּתּוֹרָה הִיא מִשְׁתַּכַּחַת מִמְּךָ.

"Acaso porás teus olhos sobre ela" — se piscares e fechares os teus olhos, na Torá ela se esquecerá de ti (a riqueza voa como a Torá pode ser esquecida).

קֶטֶב מְרִירִי – זֶה שֵׁם שֵׁד הַצׇּהֳרַיִם, בְּמַסֶּכֶת פְּסָחִים (דַּף קי״א:).

"Ketev meriri" — este é o nome do demônio do meio-dia, no tratado Pessachim (111b).

Nota

Um segundo dito de Rabi Yitzchak reforça o mesmo poder protetor do Shemá noturno, agora com uma nova prova textual construída por meio de uma leitura associativa entre três versículos: a palavra incomum "uf" (voar) em Jó é identificada com a Torá (que "voa" e se perde se não for revisada), e a palavra "resheph" é identificada com os demônios — de modo que o versículo de Jó passa a significar que a Torá afasta os demônios.

06Reish Lakish: o estudo de Torá também afasta o sofrimento
Bavli · 5a
אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: כׇּל הָעוֹסֵק בַּתּוֹרָה — יִסּוּרִין בְּדֵילִין הֵימֶנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְנֵי רֶשֶׁף יַגְבִּיהוּ עוּף״. וְאֵין ״עוּף״ אֶלָּא תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״הֲתָעִיף עֵינֶיךָ בּוֹ וְאֵינֶנּוּ״, וְאֵין ״רֶשֶׁף״ אֶלָּא יִסּוּרִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְזֵי רָעָב וּלְחֻמֵי רֶשֶׁף״.

Disse Rabi Shimon ben Lakish: todo aquele que se ocupa da Torá, os sofrimentos se afastam dele, como está dito: "e os filhos de resheph elevam voo". E "uf" não é senão a Torá, como está dito: "acaso porás teus olhos sobre ela, e ei-la que já não está". E "resheph" não é senão os sofrimentos, como está dito: "consumidos de fome, devorados por resheph".

Nota

Sobre o mesmo versículo obscuro de Jó, Reish Lakish oferece uma segunda leitura, paralela à de Rabi Yitzchak: em vez de "resheph" significar demônios, ele o interpreta como "sofrimentos" (yissurim) — de modo que o versículo ensina, agora, que o estudo de Torá afasta o sofrimento de quem a ela se dedica. Esta afirmação é a porta de entrada para toda a extensa sugya sobre o sofrimento que ocupará o restante do daf.

07Objeção de Rabi Yochanan: até crianças sabem que a Torá protege — a verdadeira lição é sobre quem pode estudar e não estuda
Bavli · 5a
אָמַר לֵיהּ רַבִּי יוֹחָנָן: הָא אֲפִילּוּ תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן, יוֹדְעִין אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֹּאמֶר אִם שָׁמוֹעַ תִּשְׁמַע לְקוֹל ה׳ אֱלֹהֶיךָ וְהַיָּשָׁר בְּעֵינָיו תַּעֲשֶׂה וְהַאֲזַנְתָּ לְמִצְוֹתָיו וְשָׁמַרְתָּ כׇּל חֻקָּיו כׇּל הַמַּחֲלָה אֲשֶׁר שַׂמְתִּי בְמִצְרַיִם לֹא אָשִׂים עָלֶיךָ כִּי אֲנִי ה׳ רוֹפְאֶךָ״. אֶלָּא: כׇּל שֶׁאֶפְשָׁר לוֹ לַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה וְאֵינוֹ עוֹסֵק — הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵבִיא עָלָיו יִסּוּרִין מְכוֹעָרִין וְעוֹכְרִין אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נֶאֱלַמְתִּי דוּמִיָּה הֶחֱשֵׁיתִי מִטּוֹב וּכְאֵבִי נֶעְכָּר״, וְאֵין ״טוֹב״ אֶלָּא תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי לֶקַח טוֹב נָתַתִּי לָכֶם תּוֹרָתִי אַל תַּעֲזֹבוּ״.

Disse-lhe Rabi Yochanan: isto, até as crianças da escola sabem, como está dito: "e disse: se ouvires atentamente a voz de D'us, teu D'us, e fizeres o que é reto aos Seus olhos, e deres ouvidos aos Seus mandamentos, e guardares todos os Seus estatutos, nenhuma das doenças que pus sobre o Egito porei sobre ti, pois Eu sou D'us, teu curador" (Êxodo 15:26). Mas sim: todo aquele que pode ocupar-se da Torá e não se ocupa — o Santo, Bendito Seja, traz sobre ele sofrimentos hediondos que o perturbam, como está dito: "emudeci em silêncio, calei-me quanto ao bem, e a minha dor se agravou" (Salmos 39:3). E "bem" não é senão a Torá, como está dito: "pois um bom ensinamento vos dei; a Minha Torá, não a abandoneis" (Provérbios 4:2).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
אֲפִילּוּ תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן יוֹדְעִין – שֶׁהַתּוֹרָה מְגִנָּה, שֶׁלָּמְדִין מִסֵּפֶר חוּמָשׁ ״אִם שָׁמוֹעַ תִּשְׁמַע״ וְגוֹ׳ ״כׇּל הַמַּחֲלָה״ וְגוֹ׳. וַאֲפִילּוּ הַקְּטַנִּים שֶׁלֹּא הִגִּיעוּ לְסֵפֶר אִיּוֹב, כְּבָר לָמְדוּ.

"Até as crianças da escola sabem" — que a Torá protege, pois já aprendem do livro do Chumash "se ouvires atentamente" etc., "nenhuma das doenças" etc. E mesmo as crianças pequenas, que ainda não chegaram ao livro de Jó, já aprenderam isso.

הֶחֱשֵׁיתִי מִטּוֹב – מִן הַתּוֹרָה.

"Calei-me quanto ao bem" — quanto à Torá.

וּכְאֵבִי נֶעְכָּר – מַכָּה עֲכוּרָה.

"E a minha dor se agravou" — uma ferida turva (agravada).

Nota

Rabi Yochanan objeta que o ensinamento de Reish Lakish, tal como formulado, é trivial: qualquer criança que estudou o Chumash já sabe que a Torá protege da doença, como o próprio versículo de Êxodo declara explicitamente. A verdadeira novidade de Reish Lakish, reinterpreta Rabi Yochanan, é mais severa: não apenas a Torá protege quem a estuda, mas quem tem a capacidade de estudá-la e se abstém é ativamente punido com sofrimentos hediondos — leitura que ele extrai de um versículo de Salmos sobre o silêncio e a dor agravada, associando "o bem" do qual o salmista se calou à própria Torá negligenciada.

08D'us se regozija ao dar a Torá — ao contrário de um vendedor comum
Bavli · 5a
אָמַר רַבִּי זֵירָא וְאִיתֵּימָא רַבִּי חֲנִינָא בַּר פָּפָּא: בֹּא וּרְאֵה שֶׁלֹּא כְּמִדַּת הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מִדַּת בָּשָׂר וָדָם. מִדַּת בָּשָׂר וָדָם, אָדָם מוֹכֵר חֵפֶץ לַחֲבֵירוֹ, מוֹכֵר עָצֵב, וְלוֹקֵחַ שָׂמֵחַ, אֲבָל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֵינוֹ כֵּן, נָתַן לָהֶם תּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל — וְשָׂמַח, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי לֶקַח טוֹב נָתַתִּי לָכֶם תּוֹרָתִי אַל תַּעֲזֹבוּ״.

Disse Rabi Zeira, e alguns dizem Rabi Chanina bar Papa: vem e vê que o atributo do Santo, Bendito Seja, não é como o atributo da carne e sangue. O atributo da carne e sangue: um homem que vende um objeto ao seu companheiro, o vendedor entristece-se e o comprador alegra-se; mas o Santo, Bendito Seja, não é assim — deu a Torá a Israel, e Se alegrou, como está dito: "pois um bom ensinamento vos dei; a Minha Torá, não a abandoneis".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
הַמּוֹכֵר עָצֵב – שֶׁפֵּירֵשׁ הֵימֶנּוּ דָּבָר חָשׁוּב כָּזֶה, וּמִתּוֹךְ דּוֹחֲקוֹ מְכָרוֹ.

"O vendedor entristece-se" — pois se separou de algo tão precioso, e por necessidade o vendeu.

וְשָׂמַח – שֶׁהֲרֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַזְהִירָם מִלַּעֲזוֹב אוֹתָהּ, וּמְשַׁבְּחָהּ לִפְנֵיהֶם בְּ״לֶקַח טוֹב״ אַחַר שֶׁנְּתָנָהּ לָהֶם.

"E Se alegrou" — pois o Santo, Bendito Seja, os adverte a não abandoná-la, e a louva diante deles como "bom ensinamento" mesmo depois de já a ter dado a eles.

Nota

Ainda associada ao mesmo versículo de Provérbios — "um bom ensinamento vos dei" —, a Guemará traz uma reflexão sobre a natureza da própria dádiva: diferentemente de um vendedor humano, que se entristece ao desfazer-se de algo valioso, D'us Se alegra ao dar a Torá a Israel, e continua a louvá-la diante deles mesmo depois de já tê-la entregado — sinal de que a dádiva não diminui Quem a concede.

09Diante do sofrimento, o exame de consciência — e, se nada for encontrado, a negligência da Torá
Bavli · 5a
אָמַר רָבָא, וְאִיתֵּימָא רַב חִסְדָּא: אִם רוֹאֶה אָדָם שֶׁיִּסּוּרִין בָּאִין עָלָיו — יְפַשְׁפֵּשׁ בְּמַעֲשָׂיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נַחְפְּשָׂה דְרָכֵינוּ וְנַחְקֹרָה וְנָשׁוּבָה עַד ה׳״. פִּשְׁפֵּשׁ וְלֹא מָצָא — יִתְלֶה בְּבִטּוּל תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַשְׁרֵי הַגֶּבֶר אֲשֶׁר תְּיַסְּרֶנּוּ יָּהּ וּמִתּוֹרָתְךָ תְלַמְּדֶנּוּ״.

Disse Rava, e alguns dizem Rav Chisda: se um homem vê que sofrimentos vêm sobre ele, examine as suas ações, como está dito: "examinemos e investiguemos os nossos caminhos, e voltemos a D'us" (Lamentações 3:40). Se examinou e não encontrou (transgressão que justifique o sofrimento), atribua-o à negligência do estudo de Torá, como está dito: "feliz o homem a quem D'us aflige, e de Sua Torá o ensina" (Salmos 94:12).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
פִּשְׁפֵּשׁ וְלֹא מָצָא – לֹא מָצָא עֲבֵירָה בְּיָדוֹ שֶׁבִּשְׁבִילָהּ רְאוּיִין יִסּוּרִין הַלָּלוּ לָבֹא.

"Examinou e não encontrou" — não encontrou em suas mãos transgressão pela qual estes sofrimentos mereceriam vir.

אַשְׁרֵי הַגֶּבֶר אֲשֶׁר תְּיַסְּרֶנּוּ יָּהּ וּמִתּוֹרָתְךָ תְלַמְּדֶנּוּ – שֶׁבִּשְׁבִיל יִסּוּרִין צָרִיךְ אָדָם לָבֹא לִידֵי תַּלְמוּד תּוֹרָה.

"Feliz o homem a quem D'us aflige, e de Sua Torá o ensina" — pois por meio dos sofrimentos o homem é levado a chegar ao estudo de Torá.

Nota

A Guemará muda de foco: do sofrimento como punição por negligenciar a Torá, passa ao sofrimento em geral, e prescreve um procedimento em duas etapas para quem sofre. Primeiro, o exame sincero da própria conduta, buscando a transgressão que justificaria o sofrimento como consequência natural. Se esse exame não revelar nenhuma falha específica, o sofredor deve então considerar a possibilidade de negligência no estudo da Torá — um padrão de vida insuficientemente dedicado, mesmo sem uma transgressão pontual identificável.

10E se nem isso for encontrado: são aflições do amor
Bavli · 5a
וְאִם תָּלָה וְלֹא מָצָא — בְּיָדוּעַ שֶׁיִּסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה הֵם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אֶת אֲשֶׁר יֶאֱהַב ה׳ יוֹכִיחַ״.

E se atribuiu (à negligência da Torá) e não encontrou (nem isso), sabe-se com certeza que são aflições do amor, como está dito: "pois a quem D'us ama, Ele repreende" (Provérbios 3:12).

Nota

A escada de Rava chega ao seu terceiro degrau: se nem a transgressão nem a negligência da Torá explicam o sofrimento, resta uma última possibilidade — e a mais surpreendente. Trata-se, então, de Yissurim Shel Ahavá, as "aflições do amor": um sofrimento que não é punição alguma, mas antes expressão do carinho de D'us por quem o sofre, semelhante à repreensão paterna descrita em Provérbios. É este conceito — o sofrimento como sinal de amor, e não de culpa — que a Guemará explorará pelo resto do daf.

11Rav Huna: a quem D'us deseja, Ele oprime com sofrimento
Bavli · 5a
אָמַר רָבָא, אָמַר רַב סְחוֹרָה, אָמַר רַב הוּנָא: כׇּל שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא חָפַץ בּוֹ — מְדַכְּאוֹ בְּיִסּוּרִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַה׳ חָפֵץ דַּכְּאוֹ הֶחֱלִי״.

Disse Rava, disse Rav Sechorá, disse Rav Huna: todo aquele em quem o Santo, Bendito Seja, deseja (delicia-Se), Ele o oprime com sofrimentos, como está dito: "e D'us desejou oprimi-lo com doença" (Isaías 53:10).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
וַה׳ חָפֵץ דַּכְּאוֹ הֶחֱלִי – מִי שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא חָפֵץ בּוֹ, מְחַלֵּהוּ בְּיִסּוּרִין.

"E D'us desejou oprimi-lo com doença" — aquele em quem o Santo, Bendito Seja, deseja, Ele o adoece com sofrimentos.

Nota

Uma nova tradição, agora atribuída a Rav Huna, reforça o mesmo tema com uma prova textual diferente, extraída do quarto cântico do Servo Sofredor em Isaías: aquele em quem D'us Se deleita é justamente aquele que Ele aflige com sofrimento — confirmando que a aflição pode ser, paradoxalmente, sinal de eleição e não de rejeição.

12Ressalva: só quando aceito com conhecimento e boa vontade
Bavli · 5a
יָכוֹל אֲפִילּוּ לֹא קִבְּלָם מֵאַהֲבָה? — תַּלְמוּד לוֹמַר: ״אִם תָּשִׂים אָשָׁם נַפְשׁוֹ״, מָה אָשָׁם לְדַעַת, אַף יִסּוּרִין — לְדַעַת.

Poder-se-ia pensar que isto vale mesmo que não os tenha aceitado com amor? O versículo ensina: "se a sua alma constituir uma oferta de culpa" — assim como a oferta de culpa é (trazida) com conhecimento (voluntariamente), também os sofrimentos (devem ser aceitos) com conhecimento.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
אָשָׁם – קׇרְבָּן.

"Ashám" — oferenda (sacrifício).

נַפְשׁוֹ – מִדַּעְתּוֹ.

"A sua alma" — por sua própria vontade.

Nota

A Guemará qualifica a afirmação anterior: não basta que o sofrimento venha de D'us por amor — é preciso que o próprio sofredor o aceite conscientemente e de boa vontade, assim como a oferenda de culpa, no mesmo versículo de Isaías, é trazida voluntariamente e não por coerção. Um sofrimento sofrido com revolta ou negação não cumpre, aparentemente, a mesma função redentora.

13A recompensa de quem aceita: descendência, longevidade e sucesso no estudo
Bavli · 5a
וְאִם קִבְּלָם מַה שְּׂכָרוֹ: ״יִרְאֶה זֶרַע יַאֲרִיךְ יָמִים״. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁתַּלְמוּדוֹ מִתְקַיֵּים בְּיָדוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְחֵפֶץ ה׳ בְּיָדוֹ יִצְלָח״.

E se os aceitou (com amor e conhecimento), qual é a sua recompensa? "Verá descendência, prolongará os dias" (Isaías 53:10). E não somente isto, mas o seu estudo se conservará em suas mãos, como está dito: "e o desejo de D'us prosperará em sua mão".

Nota

A Guemará completa o versículo de Isaías 53:10, extraindo dele também a recompensa reservada a quem aceita o sofrimento com amor e conhecimento: além dos bens concretos — descendência e longos dias — o próprio estudo de Torá se consolida e permanece em suas mãos, um benefício espiritual duradouro que coroa a aceitação voluntária da aflição.

14Primeira definição no debate: aflições do amor são as que não impedem o estudo de Torá
Bavli · 5a
פְּלִיגִי בַּהּ רַבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי וְרַבִּי אַחָא בַּר חֲנִינָא. חַד אָמַר: אֵלּוּ הֵם יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה — כׇּל שֶׁאֵין בָּהֶן בִּטּוּל תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַשְׁרֵי הַגֶּבֶר אֲשֶׁר תְּיַסְּרֶנּוּ יָּהּ וּמִתּוֹרָתְךָ תְלַמְּדֶנּוּ״.

Divergem sobre isto Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Acha bar Chanina. Um deles disse: estas são as aflições do amor — toda aflição que não causa a negligência do estudo de Torá, como está dito: "feliz o homem a quem D'us aflige, e de Sua Torá o ensina".

Nota

A Guemará busca agora uma definição precisa do próprio conceito de "aflições do amor" — que tipo de sofrimento se qualifica como tal? Surge um debate entre dois amoraítas. A primeira opinião propõe um critério funcional: qualifica-se como aflição do amor todo sofrimento que, por mais penoso que seja, não impede o sofredor de continuar estudando Torá — pois o mesmo versículo de Salmos 94:12 já citado liga a aflição à continuidade do ensino da Torá.

15Segunda definição: as que não impedem a oração
Bavli · 5a
וְחַד אָמַר: אֵלּוּ הֵן יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה — כׇּל שֶׁאֵין בָּהֶן בִּטּוּל תְּפִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בָּרוּךְ אֱלֹהִים אֲשֶׁר לֹא הֵסִיר תְּפִלָּתִי וְחַסְדּוֹ מֵאִתִּי״.

E outro disse: estas são as aflições do amor — toda aflição que não causa a negligência da oração, como está dito: "bendito D'us, que não afastou de mim a minha oração, nem a Sua bondade" (Salmos 66:20).

Nota

A segunda opinião propõe um critério paralelo, mas centrado na oração em vez do estudo: qualifica-se como aflição do amor todo sofrimento que ainda permite ao aflito orar normalmente a D'us — apoiando-se no versículo de Salmos 66:20, em que o salmista agradece precisamente por não ter perdido a capacidade de orar apesar da sua aflição.

16Rabi Yochanan concilia: ambas são aflições do amor
Bavli · 5a
אָמַר לְהוּ רַבִּי אַבָּא בְּרֵיהּ דְּרַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא, הָכִי אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא, אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֵלּוּ וָאֵלּוּ יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה הֵן, שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי אֶת אֲשֶׁר יֶאֱהַב ה׳ יוֹכִיחַ״.

Disse-lhes Rabi Abba, filho de Rabi Chiyya bar Abba: assim disse Rabi Chiyya bar Abba, disse Rabi Yochanan: umas e outras são aflições do amor, como está dito: "pois a quem D'us ama, Ele repreende".

Nota

Rabi Yochanan, transmitido por dois elos posteriores da cadeia, resolve a disputa por conciliação em vez de decisão: tanto o sofrimento que impede o estudo de Torá quanto o que impede a oração são, ambos, aflições do amor — pois o versículo de Provérbios 3:12 não estabelece nenhuma condição limitadora, apenas afirma que D'us repreende a quem ama.

17Então qual é a função do versículo sobre a Torá? Uma releitura: "Tu nos ensinas"
Bavli · 5a
אֶלָּא מַה תַּלְמוּד לוֹמַר ״וּמִתּוֹרָתְךָ תְלַמְּדֶנּוּ״ — אַל תִּקְרֵי ״תְלַמְּדֶנּוּ״, אֶלָּא תְלַמְּדֵנוּ. דָּבָר זֶה — מִתּוֹרָתְךָ תְּלַמְּדֵנוּ.

Mas então, que ensina o versículo "e de Tua Torá o ensinas"? Não leias "telamdenu" (o ensinas a ele), mas sim "telamdenu" (nos ensinas a nós). Este ensinamento — de Tua Torá Tu nos o ensinas.

Nota

Se Rabi Yochanan já unificou as duas categorias, resta explicar por que Salmos 94:12 menciona especificamente a Torá, e não a oração. A Guemará resolve com um jogo de leitura entre duas vocalizações quase idênticas da mesma palavra hebraica: em vez de "e de Tua Torá o ensinas" (a ele, o sofredor), lê-se "e de Tua Torá nos ensinas" (a nós, os que estudam esta mesma sugya) — o próprio versículo passa a ensinar, retoricamente, o valor redentor do sofrimento, e não apenas a descrevê-lo.

18Kal Vachomer do dente e do olho: sofrimento que purifica o corpo inteiro
Bavli · 5a
קַל וָחוֹמֶר מִשֵּׁן וָעַיִן. מַה שֵּׁן וָעַיִן שֶׁהֵן אֶחָד מֵאֵבָרָיו שֶׁל אָדָם — עֶבֶד יוֹצֵא בָּהֶן לְחֵרוּת, יִסּוּרִין שֶׁמְּמָרְקִין כׇּל גּוּפוֹ שֶׁל אָדָם — עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה.

(E isto se deriva por) inferência a fortiori (kal vachomer) do dente e do olho: assim como o dente e o olho, que são apenas um dos membros do homem, fazem com que o escravo saia para a liberdade (se o senhor os danifica), os sofrimentos, que purificam o corpo inteiro do homem, quanto mais (devem trazer benefício e purificação)!

Nota

A Guemará fundamenta o poder purificador do sofrimento com uma inferência a fortiori extraída da lei do escravo cananeu: se o dano a um único membro (dente ou olho) já basta para libertar o escravo, o sofrimento que afeta e purifica o corpo inteiro deve, com muito mais razão, ter o poder de purificar e libertar o homem de suas transgressões.

19Reish Lakish: a aliança do sal e a aliança do sofrimento
Bavli · 5a
וְהַיְינוּ דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ, דְּאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: נֶאֱמַר ״בְּרִית״ בְּמֶלַח, וְנֶאֱמַר ״בְּרִית״ בְּיִסּוּרִין, נֶאֱמַר ״בְּרִית״ בְּמֶלַח, דִּכְתִיב: ״וְלֹא תַשְׁבִּית מֶלַח בְּרִית״ וְנֶאֱמַר ״בְּרִית״ בְּיִסּוּרִין, דִּכְתִיב: ״אֵלֶּה דִבְרֵי הַבְּרִית״, מַה ״בְּרִית״ הָאָמוּר בְּמֶלַח — מֶלַח מְמַתֶּקֶת אֶת הַבָּשָׂר, אַף ״בְּרִית״ הָאָמוּר בְּיִסּוּרִין — יִסּוּרִין מְמָרְקִין כׇּל עֲוֹנוֹתָיו שֶׁל אָדָם.

E isto é o que disse Rabi Shimon ben Lakish: diz-se "aliança" a respeito do sal, e diz-se "aliança" a respeito dos sofrimentos. Diz-se "aliança" a respeito do sal, como está escrito: "e não farás cessar o sal da aliança" (Levítico 2:13); e diz-se "aliança" a respeito dos sofrimentos, como está escrito: "estas são as palavras da aliança" (Deuteronômio 28:69, após as maldições). Assim como a "aliança" dita a respeito do sal — o sal adoça a carne — também a "aliança" dita a respeito dos sofrimentos: os sofrimentos purificam todas as transgressões do homem.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
נֶאֱמַר בְּרִית בְּיִסּוּרִין דִּכְתִיב ״אֵלֶּה דִבְרֵי הַבְּרִית״ – אַחַר הַקְּלָלוֹת, נֶאֱמַר בְּמִשְׁנֵה תוֹרָה.

"Diz-se 'aliança' a respeito dos sofrimentos, como está escrito 'estas são as palavras da aliança'" — depois das maldições, dito em Devarim (Deuteronômio).

Nota

Reish Lakish encerra a fundamentação do poder purificador do sofrimento com uma gezerá shavá (analogia verbal) baseada na palavra "aliança" (berit): assim como o sal — também chamado "aliança" na Torá — adoça e torna comestível a carne crua, os sofrimentos — igualmente chamados "aliança", na passagem que segue as maldições de Devarim — purificam e "adoçam" o homem de todas as suas transgressões.

20Baraita de Rabi Shimon bar Yochai: três dádivas preciosas dadas por meio de sofrimento
Bavli · 5a
תַּנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי אוֹמֵר: שָׁלֹשׁ מַתָּנוֹת טוֹבוֹת נָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְיִשְׂרָאֵל, וְכוּלָּן לֹא נְתָנָן אֶלָּא עַל יְדֵי יִסּוּרִין, אֵלּוּ הֵן: תּוֹרָה וְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וְהָעוֹלָם הַבָּא.

Foi ensinado (numa baraita): Rabi Shimon bar Yochai diz: três dádivas preciosas deu o Santo, Bendito Seja, a Israel, e todas elas Ele não as deu senão por meio de sofrimento. Estas são: a Torá, a Terra de Israel, e o Mundo Vindouro.

Nota

A Guemará conclui a fundamentação teórica com uma baraita célebre de Rabi Shimon bar Yochai, que sistematiza o princípio numa lista de três dádivas fundamentais concedidas a Israel — a Torá, a Terra de Israel, e o Mundo Vindouro —, todas elas, sem exceção, adquiridas apenas por meio de sofrimento. As três provas textuais para cada uma dessas dádivas seguirão nos movimentos seguintes.

21Prova para a Torá: "feliz o homem a quem D'us aflige"
Bavli · 5a
תּוֹרָה מִנַּיִן — שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַשְׁרֵי הַגֶּבֶר אֲשֶׁר תְּיַסְּרֶנּוּ יָּהּ וּמִתּוֹרָתְךָ תְלַמְּדֶנּוּ״.

A Torá, de onde (se prova)? Como está dito: "feliz o homem a quem D'us aflige, e de Sua Torá o ensina" (Salmos 94:12).

Nota

Para a primeira das três dádivas, a Torá, a Guemará traz a mesma prova já citada duas vezes neste daf (Movimentos 9 e 14): o versículo de Salmos 94:12 associa diretamente a aflição divina ao ensino da Torá, confirmando que ela não é adquirida sem sofrimento.

22Prova para a Terra de Israel: a repreensão paterna seguida pela boa terra
Bavli · 5a
אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, דִּכְתִיב: ״כִּי כַּאֲשֶׁר יְיַסֵּר אִישׁ אֶת בְּנוֹ ה׳ אֱלֹהֶיךָ מְיַסְּרֶךָּ״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״כִּי ה׳ אֱלֹהֶיךָ מְבִיאֲךָ אֶל אֶרֶץ טוֹבָה״.

A Terra de Israel, como está escrito: "pois, assim como um homem repreende o seu filho, D'us, teu D'us, te repreende" (Deuteronômio 8:5); e está escrito logo depois: "pois D'us, teu D'us, te traz a uma boa terra" (Deuteronômio 8:7).

Nota

Para a segunda dádiva, a Terra de Israel, a prova é buscada na justaposição de dois versículos consecutivos de Devarim: a repreensão paterna de D'us (versículo 5) é seguida imediatamente pela promessa da boa terra (versículo 7) — a proximidade textual estabelece a conexão causal entre a aflição e a herança da terra.

23Prova para o Mundo Vindouro: o caminho da vida são as repreensões da instrução
Bavli · 5a
הָעוֹלָם הַבָּא, דִּכְתִיב: ״כִּי נֵר מִצְוָה וְתוֹרָה אוֹר וְדֶרֶךְ חַיִּים תּוֹכְחוֹת מוּסָר״.

O Mundo Vindouro, como está escrito: "pois o mandamento é uma lâmpada, e a Torá é luz, e as repreensões da instrução são o caminho da vida" (Provérbios 6:23).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 5a
וְדֶרֶךְ חַיִּים – חַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא הֹוְיָין לוֹ תּוֹכְחוֹת מוּסָר לָאָדָם.

"E o caminho da vida" — a vida do Mundo Vindouro lhe advém através das repreensões da instrução.

Nota

Para a terceira e última dádiva, o Mundo Vindouro, a prova vem de Provérbios 6:23, onde "as repreensões da instrução" — entendidas como sofrimento pedagógico — são chamadas "o caminho da vida", expressão que Rashi identifica especificamente com a vida do Mundo Vindouro. Encerra-se assim, com as três provas completas, a demonstração da baraita de Rabi Shimon bar Yochai.

24Uma nova baraita começa: quem se ocupa de Torá e de atos de bondade
Bavli · 5a
תָּנֵי תַּנָּא קַמֵּיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן: כׇּל הָעוֹסֵק בְּתוֹרָה וּבִגְמִילוּת חֲסָדִים

Ensinou um tanná diante de Rabi Yochanan: todo aquele que se ocupa da Torá e de atos de bondade... (o daf termina aqui; a continuação — o que se ensina sobre quem reúne estas duas qualidades — abre o daf 5b.)

Nota

Encerrada a sugya das três dádivas, a Guemará introduz uma nova baraita, recitada diante de Rabi Yochanan, sobre o mérito de quem combina o estudo de Torá com atos de bondade (guemilut chassadim). Mais uma vez, o daf termina no meio da frase — a folha 5a se fecha exatamente no ponto em que a baraita apenas anuncia o seu sujeito, sem ainda revelar a conclusão, que pertence já ao daf 5b.