Talmud Bavli · Berachot · Daf 52, lado A · Perek Chet (Ellu Devarim)
נב ע״א

A Guemará conclui a explicação sobre a voz celestial e Rabi Yehoshua, examina baraitot sobre havdalá com um só copo e a exigência de copo para a Bênção Após as Refeições segundo Beit Shamai, e abre a sugya sobre lavar as mãos e misturar o copo com os decretos de pureza ritual de Beit Shamai e Beit Hilel

Berachot 52a · Perek Elu Devarim (continuação)

O daf abre concluindo a explicação, iniciada ao final de 51b, de por que seria necessário reafirmar que a lei segue Beit Hilel mesmo depois de uma voz celestial já ter decidido genericamente a seu favor: a resposta é que essa decisão específica foi dada por Rabi Yehoshua, que sustenta que não se dá atenção a vozes celestiais em matéria de lei. Em seguida a Guemará examina uma baraita sobre quem entra em casa na saída de Shabat com um único copo — que ordena vinho, luz, especiarias e depois havdalá — tentando identificá-la com Beit Shamai ou Beit Hilel, e a associa, através de uma baraita paralela de Rabi Yehudá sobre luz e especiarias, à opinião de Beit Shamai; depois questiona se essa mesma atribuição não poderia ser de Beit Hilel segundo Rabi Meir, resolvendo pela redação da Mishná e da baraita. A seguir surge uma dificuldade permanecendo em aberto sobre por que Beit Shamai inverteria a ordem entre entrada e saída do dia, respondida com o princípio de que antecipar a entrada do dia é preferível, mas atrasar sua saída também é preferível. A Guemará então questiona se Beit Shamai realmente exige um copo para a Bênção Após as Refeições, trazendo a Mishná sobre o vinho que vem depois da refeição, com objeções sobre a necessidade de provar o vinho, a medida mínima do copo da bênção, e a redação "se não há ali senão aquele copo" — resolvidas uma a uma —, até que uma baraita de Rabi Chiya parece contradizer a Mishná, o que se resolve postulando dois tannaim distintos dentro da própria escola de Beit Shamai. O daf fecha abrindo a Guemará sobre a segunda disputa da Mishná — lavar as mãos antes ou depois de misturar o copo — com a baraita completa dos sábios que expõe o raciocínio de pureza ritual de cada escola: o receio de que os líquidos por trás do copo, ou os líquidos nas mãos, se tornem impuros e retransmitam impureza, com a explicação de que as mãos são "segundas" em impureza e não geram uma "terceira" em alimentos não sagrados a não ser por meio de líquidos, e o princípio de que um utensílio não transmite impureza a uma pessoa.

1E é a opinião de Rabi Yehoshua, que disse: não se dá atenção a uma voz celestial
Bavli · 52a — Guemará (conclusão da explicação iniciada em 51b)
וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ הִיא, דְּאָמַר: אֵין מַשְׁגִּיחִין בְּבַת קוֹל.

— concluindo a segunda resposta deixada em aberto ao final de 51b, sobre por que seria necessário reafirmar aqui que a lei segue Beit Hilel mesmo depois de uma voz celestial já ter decidido genericamente a seu favor — e é a opinião (hi) de Rabi Yehoshua, que disse (deamar): não (ein) se dá atenção (mashgichin) a uma voz (bat) celestial (kol) — isto é, mesmo que uma voz celestial já tivesse proclamado que a lei segue Beit Hilel, essa proclamação em si não teria valor decisório para Rabi Yehoshua, que sustenta o princípio geral de que a lei não se decide por vozes celestiais; por isso esta decisão específica, a favor de Beit Hilel quanto à ordem entre a bênção do dia e a do vinho, precisa de fundamentação própria, independente de qualquer voz celestial.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
ור' יהושע היא – בבבא מציעא בתנורו של עכנאי בפ' הזהב (בבא מציעא ד' נט:):

"E é Rabi Yehoshua" — trata-se do mesmo Rabi Yehoshua mencionado em Bava Metzia, no episódio do forno de Achnai, no capítulo (befirkin) "Hazahav" (Bava Metzia 59b), onde Rabi Yehoshua declara, diante de uma voz celestial que apoiava Rabi Eliezer, que "não está nos céus" — a lei não se decide por vozes celestiais, mas pela maioria dos sábios.

Nota

A Guemará remete à célebre posição de Rabi Yehoshua, conhecida do episódio do forno de Achnai em Bava Metzia 59b, de que a halachá não se decide por vozes celestiais — o que explica por que a decisão a favor de Beit Hilel, aqui, precisou de fundamentação argumentativa própria, e não bastou a proclamação da voz celestial.

2E entendem Beit Shamai que a bênção do dia é preferível? Mas não se ensinou: quem entra em sua casa na saída de Shabat abençoa sobre o vinho, e sobre a luz, e sobre as especiarias, e depois diz a havdalá; e se não tem senão um copo, o deixa para depois da refeição e encadeia todas depois dela
Bavli · 52a — Guemará
וְסָבְרִי בֵּית שַׁמַּאי דְּבִרְכַּת הַיּוֹם עֲדִיפָא? וְהָתַנְיָא: הַנִּכְנָס לְבֵיתוֹ בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּת, מְבָרֵךְ עַל הַיַּיִן וְעַל הַמָּאוֹר וְעַל הַבְּשָׂמִים, וְאַחַר כָּךְ אוֹמֵר הַבְדָּלָה. וְאִם אֵין לוֹ אֶלָּא כּוֹס אֶחָד, מַנִּיחוֹ לְאַחַר הַמָּזוֹן וּמְשַׁלְשְׁלָן כּוּלָּן לְאַחֲרָיו.

E entendem (savrei) Beit Shamai que (de) a bênção (birkat) do dia (hayom) é preferível (adifá)? — isto é, a Guemará questiona a premissa de que Beit Shamai sempre prefira a bênção do dia à do vinho Mas não (veha) se ensinou (tanya): quem (hanichnas) entra em sua casa (leveito) na saída (bemotzaei) de Shabat (shabat), abençoa (mevarech) sobre (al) o vinho (hayayin), e sobre (veal) a luz (hamaor), e sobre (veal) as especiarias (habesamim), e depois (veachar cach) diz (omer) a havdalá (havdalá); e se (veim) não (ein) tem (lo) senão (ela) um copo (cos echad), o deixa (manicho) para depois (leachar) da refeição (hamazon) e encadeia (umeshalshelan) todas (kulan) depois dela (leacharav) — isto é, esta baraita, ao listar primeiro o vinho e só depois a havdalá, parece indicar que a bênção do vinho precede a do "dia" (a havdalá, que também santifica e distingue o dia), indo na direção de Beit Hilel, não de Beit Shamai.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
ומשלשלן – לשון שלשלת כלומר סודרן לאחר המזון:

"E encadeia (umeshalshelan)" — expressão (lashon) de corrente (shalshelet), isto é (kelomar), as ordena (sodran) depois (leachar) da refeição (hamazon).

Nota

A Guemará traz uma baraita sobre a ordem das bênçãos na saída de Shabat com um único copo, que à primeira vista parece contrariar a suposição de que Beit Shamai prefira sempre a bênção do dia — pois lista o vinho antes da havdalá.

3Mas de onde que é de Beit Shamai? Talvez seja de Beit Hilel?!
Bavli · 52a — Guemará
וְהָא, מִמַּאי דְּבֵית שַׁמַּאי הִיא? דִּלְמָא בֵּית הִלֵּל הִיא?!

Mas (veha), de onde (mimai) que (de) é (hi) de Beit Shamai? Talvez (dilma) seja (hi) de Beit Hilel?! — isto é, a Guemará interrompe a própria objeção anterior, questionando a suposição de que essa baraita represente necessariamente a posição de Beit Shamai; talvez ela reflita, na verdade, a posição de Beit Hilel, e nesse caso não haveria contradição alguma

Nota

A Guemará questiona sua própria premissa: antes de basear uma objeção nesta baraita, é preciso primeiro estabelecer que ela de fato representa a posição de Beit Shamai, e não a de Beit Hilel.

4Não te ocorra tal coisa, pois se ensina "luz e depois especiarias", e quem ouviste que tem essa opinião? Beit Shamai, pois se ensinou: disse Rabi Yehudá: não discordaram Beit Shamai e Beit Hilel sobre a refeição, que é no início, e sobre a havdalá, que é no fim; sobre o que discordaram? Sobre a luz e sobre as especiarias. Beit Shamai dizem: luz e depois especiarias, e Beit Hilel dizem: especiarias e depois luz
Bavli · 52a — Guemará
לָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ, דְּקָתָנֵי מָאוֹר וְאַחַר כָּךְ בְּשָׂמִים, וּמַאן שָׁמְעַתְּ לֵיהּ דְּאִית לֵיהּ הַאי סְבָרָא — בֵּית שַׁמַּאי, דְּתַנְיָא אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: לֹא נֶחְלְקוּ בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל עַל הַמָּזוֹן שֶׁבִּתְחִלָּה וְעַל הַבְדָּלָה שֶׁהִיא בַּסּוֹף, עַל מָה נֶחְלְקוּ — עַל הַמָּאוֹר וְעַל הַבְּשָׂמִים. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: מָאוֹר וְאַחַר כָּךְ בְּשָׂמִים, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: בְּשָׂמִים וְאַחַר כָּךְ מָאוֹר.

Não (la) te ocorra tal coisa (salka dateach), pois (de) se ensina (katanei) "luz (maor) e depois (veachar cach) especiarias (besamim)", e quem (maan) ouviste (shemaat leih) a ele que (de) tem (it leih) essa (hai) opinião (sevará)Beit Shamai, pois (de) se ensinou (tanya): disse Rabi Yehudá: não (lo) discordaram (nechleku) Beit Shamai e Beit Hilel sobre (al) a refeição (hamazon), que (she) é no início (bitchilá), e sobre (veal) a havdalá (havdalá), que (shehi) é no fim (basof); sobre (al) o que (ma) discordaram (nechleku)? Sobre (al) a luz (hamaor) e sobre (veal) as especiarias (habesamim). Beit Shamai dizem (omrim): luz (maor) e depois (veachar cach) especiarias (besamim), e Beit Hilel dizem (omrim): especiarias (besamim) e depois (veachar cach) luz (maor) — isto é, esta baraita paralela de Rabi Yehudá confirma que a única disputa real está na ordem entre luz e especiarias, e que a opinião de "luz antes de especiarias" pertence especificamente a Beit Shamai; como a primeira baraita seguia essa mesma ordem, conclui-se que ela reflete, de fato, a posição de Beit Shamai.

Nota

A Guemará resolve a dúvida anterior: como a baraita de Rabi Yehudá atribui especificamente a Beit Shamai a ordem "luz e depois especiarias", e a primeira baraita seguia essa mesma sequência, confirma-se que ela representa a posição de Beit Shamai — mantendo, portanto, a objeção original de pé.

5Mas de onde que é de Beit Shamai e conforme Rabi Yehudá? Talvez seja de Beit Hilel e conforme Rabi Meir?!
Bavli · 52a — Guemará
וּמִמַּאי דְּבֵית שַׁמַּאי הִיא וְאַלִּיבָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה, דִּילְמָא בֵּית הִלֵּל הִיא וְאַלִּיבָּא דְּרַבִּי מֵאִיר?!

Mas de onde (umimai) que (de) é (hi) de Beit Shamai e conforme (vealibá de) Rabi Yehudá? Talvez (dilma) seja (hi) de Beit Hilel e conforme (vealibá de) Rabi Meir?! — isto é, a Guemará levanta uma nova dúvida: talvez a atribuição a Beit Shamai (em vez de Beit Hilel) na baraita de Rabi Yehudá dependa especificamente da opinião de Rabi Yehudá, e não seja unânime; talvez, segundo Rabi Meir, seja justamente Beit Hilel quem sustente a ordem "luz e depois especiarias", invertendo a conclusão anterior

Nota

Nova camada de dúvida: mesmo aceitando que a baraita de Rabi Yehudá atribui "luz antes de especiarias" a Beit Shamai, isso pode ser específico da leitura de Rabi Yehudá; talvez, segundo Rabi Meir, a mesma opinião seja atribuída a Beit Hilel.

6Não te ocorra tal coisa, pois se ensina aqui na Mishná: Beit Shamai dizem: vela e refeição, especiarias e havdalá, e Beit Hilel dizem: vela e especiarias, refeição e havdalá; e ali na baraita se ensina: se não tem senão um copo, o deixa para depois da refeição, e encadeia todas depois dela. Aprende-se disso que é de Beit Shamai e conforme Rabi Yehudá
Bavli · 52a — Guemará
לָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ, דְּקָתָנֵי הָכָא בְּמַתְנִיתִין, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: נֵר וּמָזוֹן בְּשָׂמִים וְהַבְדָּלָה, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: נֵר וּבְשָׂמִים מָזוֹן וְהַבְדָּלָה, וְהָתָם בְּבָרַיְיתָא קָתָנֵי אִם אֵין לוֹ אֶלָּא כּוֹס אֶחָד, מַנִּיחוֹ לְאַחַר הַמָּזוֹן, וּמְשַׁלְשְׁלָן כּוּלָּן לְאַחֲרָיו. שְׁמַע מִינַּהּ דְּבֵית שַׁמַּאי הִיא וְאַלִּיבָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה.

Não (la) te ocorra tal coisa (salka dateach), pois (de) se ensina (katanei) aqui (hacha) na Mishná (bematnitin), Beit Shamai dizem (omrim): vela (ner) e refeição (umazon), especiarias (besamim) e havdalá (vehavdalá), e Beit Hilel dizem (omrim): vela (ner) e especiarias (uvesamim), refeição (mazon) e havdalá (vehavdalá), e ali (vehatam) na baraita (bevaraita) se ensina (katanei): se (im) não (ein) tem (lo) senão (ela) um copo (cos echad), o deixa (manicho) para depois (leachar) da refeição (hamazon), e encadeia (umeshalshelan) todas (kulan) depois dela (leacharav). Aprende-se disso (shema mina) que (de) é (hi) de Beit Shamai e conforme (vealibá de) Rabi Yehudá — isto é, a Mishná coloca a refeição antes das especiarias segundo Beit Shamai, enquanto a baraita, ao dizer "o deixa para depois da refeição, e encadeia todas depois dela", também posterga a refeição para o meio da sequência, coincidindo estruturalmente com a formulação de Rabi Yehudá em nome de Beit Shamai, e não com a de Rabi Meir.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
לא סלקא דעתך – לאוקמי ברייתא כמתניתין דמתני' קתני מזון באמצע וברייתא קתני משלשלן כולן לאחריו כר' יהודה דאמר על המזון שבתחלה ומדקתני לרבי יהודה מאור ואח"כ בשמים בית שמאי היא:

"Não te ocorra tal coisa" — para estabelecer (leukmei) a baraita (beraita) como (ke) a Mishná (matnitin), pois (de) a Mishná (matnitin) ensina (katanei) a refeição (mazon) no meio (beemtza), e a baraita (uveraita) ensina (katanei) "encadeia todas depois dela (meshalshelan kulan leacharav)", como (ke) Rabi Yehudá, que (de) disse (amar) que (al) a refeição (hamazon) é (shebitchilá) desde o início — não disputada; e visto que (umideka) se ensina (tanei), segundo (le) Rabi Yehudá, "luz (maor) e depois (veachar cach) especiarias (besamim)" como (hi) de Beit Shamai.

Nota

A Guemará conclui, cotejando a estrutura da Mishná com a da baraita, que a atribuição a Beit Shamai é sólida e segue especificamente a formulação de Rabi Yehudá — não deixando margem para a leitura alternativa de Rabi Meir.

7E de todo modo é difícil. Entendem Beit Shamai que a entrada do dia é diferente da saída do dia: a entrada do dia, quanto mais a antecipamos, melhor; a saída do dia, quanto mais a atrasamos, melhor, para que não nos seja como um fardo
Bavli · 52a — Guemará
וּמִכׇּל מָקוֹם קַשְׁיָא. קָא סָבְרִי בֵּית שַׁמַּאי שָׁאנֵי עַיּוֹלֵי יוֹמָא מֵאַפּוֹקֵי יוֹמָא. עַיּוֹלֵי יוֹמָא, כַּמָּה דְּמַקְדְּמִינַן לֵיהּ עֲדִיף. אַפּוֹקֵי יוֹמָא, כַּמָּה דִּמְאַחֲרִינַן לֵיהּ עֲדִיף, כִּי הֵיכִי דְּלָא לֶהֱוֵי עֲלַן כְּמַשּׂוֹי.

E de todo modo (umikol makom) é difícil (kashiá) — isto é, mesmo confirmada a atribuição a Beit Shamai, permanece a dificuldade original: por que Beit Shamai, que na Mishná das seis disputas prefere a bênção do dia (o kidush) antes da do vinho na entrada de Shabat, aqui na saída de Shabat parece preferir o vinho antes da havdalá, invertendo sua própria lógica. Entendem (ka savrei) Beit Shamai que (shaanei) a entrada (ayolei) do dia (yoma) é diferente (shaanei) da (me) saída (apukei) do dia (yoma): a entrada (ayolei) do dia (yoma), quanto mais (kamá de) a antecipamos (makdeminan leih), melhor (adif); a saída (apukei) do dia (yoma), quanto mais (kamá de) a atrasamos (meacharinan leih), melhor (adif), para que (ki heichi de) não (la) nos seja (lehevei alan) como um fardo (kemasoi) — isto é, ao entrar no Shabat, é preferível acolher sua santidade o quanto antes, e por isso a bênção do dia precede a do vinho; mas ao sair do Shabat, é preferível retardar ao máximo sua despedida, como quem relutantemente se separa de um convidado querido, e não como quem se apressa a descartar um fardo — daí a bênção da havdalá vir só depois do vinho e das demais bênçãos, ao final de tudo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
ומ"מ קשיא – דברכת היין קדמה להבדלה: קדוש עיולי הוא והבדלה אפוקי היא:

"E de todo modo é difícil" — pois (de) a bênção (birkat) do vinho (hayayin) precede (kadmá) a havdalá (lehavdalá). "Kidush (kidush)" é entrada (ayolei hu), e a havdalá (vehavdalá) é saída (apukei hi).

Nota

A Guemará resolve a dificuldade com um princípio explicativo elegante: Beit Shamai distingue entre a entrada do Shabat, que se deve antecipar, e sua saída, que se deve retardar como sinal de apego — o que justifica a diferença de ordem entre o kidush (entrada) e a havdalá (saída) em relação ao vinho.

8E entendem Beit Shamai que a Bênção Após as Refeições precisa de copo? Mas não aprendemos: veio-lhes vinho depois da refeição, se não há ali senão aquele copo, Beit Shamai dizem: abençoa-se sobre o vinho e depois abençoa-se sobre a refeição — acaso não é que abençoa sobre ele e o bebe? Não, que abençoa sobre ele e o deixa
Bavli · 52a — Guemará
וְסָבְרִי בֵּית שַׁמַּאי בִּרְכַּת הַמָּזוֹן טְעוּנָה כּוֹס? וְהָא תְּנַן: בָּא לָהֶם יַיִן לְאַחַר הַמָּזוֹן, אִם אֵין שָׁם אֶלָּא אוֹתוֹ כּוֹס, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: מְבָרֵךְ עַל הַיַּיִן וְאַחַר כָּךְ מְבָרֵךְ עַל הַמָּזוֹן, מַאי לָאו דִּמְבָרֵךְ עִילָּוֵיהּ וְשָׁתֵי לֵיהּ? לָא, דִּמְבָרֵךְ עִילָּוֵיהּ וּמַנַּח לֵיהּ.

E entendem (savrei) Beit Shamai que (birkat) a Bênção Após as Refeições (hamazon) precisa (teuná) de copo (cos)? — isto é, a Guemará passa a questionar a nova premissa de que Beit Shamai exija um copo de vinho para a Bênção Após as Refeições Mas não (veha) aprendemos (tenan): veio-lhes (ba lahem) vinho (yayin) depois (leachar) da refeição (hamazon), se (im) não (ein) há ali (sham) senão (ela) aquele (oto) copo (cos), Beit Shamai dizem (omrim): abençoa-se (mevarech) sobre (al) o vinho (hayayin) e depois (veachar cach) abençoa-se (mevarech) sobre (al) a refeição (hamazon), acaso não é (mai lav) que (de) abençoa (mevarech) sobre ele (ilaveih) e o bebe (veshatei leih)? — isto é, a leitura simples da Mishná sugere que se abençoa sobre o copo de vinho e se bebe dele antes da Bênção Após as Refeições — o que implicaria que essa bênção final não requer, ela própria, um copo separado Não (la), que (de) abençoa (mevarech) sobre ele (ilaveih) e o deixa (umanach leih) — isto é, a Guemará reinterpreta: na verdade, abençoa-se sobre o vinho mas não se bebe imediatamente, guardando-o para depois, de modo que o mesmo copo sirva também para a Bênção Após as Refeições, confirmando que ela, de fato, requer copo segundo Beit Shamai.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
ברכה טעונה כוס – ברכת המזון דקתני מניחו לאחר המזון: והתנן – מתני' בפרקין: בא להן – כל ימות השנה קאמר: אחר המזון – ובתוך המזון לא בא להם וכשגמרו סעודתם בא להם לפני ברכת המזון: מאי לאו דשתי ליה – וה"ק ב"ש אם רצה מברך על היין ושותהו ואין צריך להניחו לברכת המזון:

"A bênção precisa de copo" — a Bênção (birkat) Após as Refeições (hamazon), sobre a qual (deka) se ensina (tanei) "o deixa (manicho) para depois (leachar) da refeição (hamazon)". "Mas não aprendemos" — a Mishná (matnitin) deste perek (befirkin). "Veio-lhes" — em qualquer (kol) dia (yemot) do ano (hashaná) se fala (kaamar). "Depois da refeição" — e durante (uvetoch) a refeição (hamazon) não (lo) lhes veio (ba lahem), e quando (uchshegamru) terminaram (gamru) sua refeição (seudatam) lhes veio (ba lahem) antes (lifnei) da Bênção (birkat) Após as Refeições (hamazon). "Acaso não é que o bebe" — e assim (vehachi) diz (kaamar): Beit Shamai — se (im) quiser (ratzá), abençoa (mevarech) sobre (al) o vinho (hayayin) e o bebe (veshotehu), e não (veein) precisa (tzarich) deixá-lo (lehanicho) para a Bênção (livrachat) Após as Refeições (hamazon).

Nota

A Guemará questiona se Beit Shamai realmente exige copo para a Bênção Após as Refeições, propondo uma leitura alternativa da Mishná — que se bebe o vinho logo após abençoá-lo — e a rejeita, mantendo a leitura de que o copo é deixado para servir também à bênção final.

9Mas não disse o mestre que quem abençoa precisa provar? — Que o prova nele mesmo. Mas não disse o mestre que seu provar é seu defeito? — Que o prova com sua mão
Bavli · 52a — Guemará
וְהָאָמַר מָר הַמְבָרֵךְ צָרִיךְ שֶׁיִּטְעוֹם! — דְּטָעֵים לֵיהּ. וְהָאָמַר מָר טְעָמוֹ פְּגָמוֹ! — דְּטָעֵים לֵיהּ בִּידֵיהּ.

Mas não (veha) disse (amar) o mestre (mar) que quem abençoa (hamevarech) precisa (tzarich) que (she) prove (yitom)? — isto é, há uma regra estabelecida de que quem abençoa sobre o vinho deve provar dele antes; se o copo é deixado intocado para a Bênção Após as Refeições, como se cumpre essa exigência de prova? — Que (de) o prova (taeim leih) nele mesmo — isto é, prova uma pequena quantidade, sem beber o copo por inteiro, deixando o restante para depois. Mas não (veha) disse (amar) o mestre (mar) que seu provar (teamo) é seu defeito (pegamo)? — isto é, há outra regra de que provar o vinho da boca o torna "defeituoso" — impróprio para servir ao copo da bênção, que precisa estar intacto e completo — Que (de) o prova (taeim leih) com sua mão (bideih) — isto é, a Guemará resolve: a prova é feita derramando um pouco do vinho na própria mão e provando dali, sem tocar a boca diretamente no copo, preservando assim sua integridade para a bênção posterior.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
טעמו פגמו – לברכת המזון ולקדוש ולהבדלה בפרק ערבי פסחים (פסחים ד' קה:):

"Seu provar é seu defeito" — para (le) a Bênção Após as Refeições (livrachat hamazon), e para (ule) o kidush (kidush), e para (ule) a havdalá (havdalá), no capítulo (beferek) "Arvei Pesachim" (Pessachim 105b).

Nota

Duas objeções sucessivas, ambas resolvidas: a exigência de provar o vinho é cumprida provando-o na própria mão, sem beber diretamente do copo — preservando-o intacto e não "defeituoso" para a bênção que se segue.

10Mas não disse o mestre que o copo da bênção precisa de medida, e ele o está diminuindo de sua medida? — Que ele tinha mais que sua medida
Bavli · 52a — Guemará
וְהָאָמַר מָר כּוֹס שֶׁל בְּרָכָה צָרִיךְ שִׁעוּר, וְהָא קָא פָּחֵית לֵיהּ מִשִּׁיעוּרֵיהּ! — דִּנְפִישׁ לֵיהּ טְפֵי מִשִּׁיעוּרֵיהּ.

Mas não (veha) disse (amar) o mestre (mar) que o copo (cos) da bênção (shel berachá) precisa (tzarich) de medida (shiur), e ele (veha) o está diminuindo (ka pachet leih) de sua medida (mishiureih)? — isto é, se uma porção do vinho já foi retirada para a prova na mão, o copo restante ficaria abaixo da medida mínima exigida para o copo da bênção — Que (de) ele tinha (nefish leih) mais (tefei) que sua medida (mishiureih) — isto é, a Guemará responde que o copo continha, desde o início, uma quantidade maior que a medida mínima exigida, de modo que mesmo após retirar a porção para a prova, ainda resta o suficiente para cumprir a medida do copo da bênção.

Nota

Nova objeção resolvida: o copo tinha originalmente uma quantidade superior à medida mínima, absorvendo sem problema a pequena porção retirada para a prova.

11Mas não se ensina "se não há ali senão aquele copo"?! — Dois não há, e de um há mais
Bavli · 52a — Guemará
וְהָא אִם אֵין שָׁם אֶלָּא אוֹתוֹ כּוֹס קָתָנֵי! — תְּרֵי לָא הָוֵי וּמֵחַד נְפִישׁ.

Mas não (veha) se ensina (katanei) "se (im) não (ein) há ali (sham) senão (ela) aquele (oto) copo (cos)"?! — isto é, a própria redação da Mishná parece indicar que havia apenas um único copo de vinho disponível, sem excedente algum — Dois (terei) não (la)(havei) — isto é, não havia dois copos separados, e de um (mechad) há mais (nefish) — isto é, mas nada impede que esse único copo contivesse mais vinho do que a medida mínima de um copo de bênção; a expressão "aquele copo" refere-se à unicidade do recipiente, não à exatidão da medida de seu conteúdo.

Nota

A Guemará distingue entre a quantidade de copos disponíveis (apenas um) e a quantidade de vinho contida nesse único copo (que podia exceder a medida mínima), dissolvendo a objeção.

12Mas não ensinou Rabi Chiya: Beit Shamai dizem: abençoa-se sobre o vinho e o bebe, e depois abençoa-se a Bênção Após as Refeições!? Mas sim, são dois tannaim, e conforme Beit Shamai
Bavli · 52a — Guemará
וְהָא תָּנֵי רַבִּי חִיָּיא: בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים מְבָרֵךְ עַל הַיַּיִן וְשׁוֹתֵהוּ וְאַחַר כָּךְ מְבָרֵךְ בִּרְכַּת הַמָּזוֹן! אֶלָּא תְּרֵי תַּנָּאֵי, וְאַלִּיבָּא דְּבֵית שַׁמַּאי.

Mas não (veha) ensinou (tanei) Rabi Chiya: Beit Shamai dizem (omrim): abençoa-se (mevarech) sobre (al) o vinho (hayayin) e o bebe (veshotehu), e depois (veachar cach) abençoa-se (mevarech) a Bênção (birkat) Após as Refeições (hamazon)!? — isto é, uma baraita transmitida por Rabi Chiya contradiz diretamente toda a resolução anterior, afirmando explicitamente que se bebe o vinho por inteiro antes da Bênção Após as Refeições, sem deixar copo algum reservado para ela Mas sim (ela), são dois (trei) tannaim (tanaei), e conforme (vealibá de) Beit Shamai — isto é, a Guemará conclui que há, na verdade, duas tradições tanaíticas divergentes dentro da própria escola de Beit Shamai: uma (a da Mishná) que sustenta que a Bênção Após as Refeições precisa de copo, e outra (a de Rabi Chiya) que sustenta que não precisa — ambas legitimamente atribuídas a Beit Shamai, sem que se possa harmonizá-las.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
ה"ג אלא תרי תנאי אליבא דב"ש – תנא דמתני' ותנא דר' חייא תנא דרבי חייא אליבא דב"ש אמר אין ברכה טעונה כוס ותנא דמתניתין דלעיל דרבי יהודה אליבא דב"ש סבר ברכה טעונה כוס:

Assim (hachi) se lê (garsinan): "mas sim (ela), dois (trei) tannaim (tanaei) conforme (vealibá de) Beit Shamai" — o tanna (tana) da Mishná (dematnitin) e o tanna (vetana) de Rabi Chiya: o tanna (tana) de Rabi Chiya conforme (alibá de) Beit Shamai disse (amar) que a bênção (berachá) não (ein) precisa (teuná) de copo (cos), e o tanna (vetana) da Mishná (dematnitin) acima (dele'eil), de Rabi Yehudá, conforme (alibá de) Beit Shamai entende (savar) que a bênção (berachá) precisa (teuná) de copo (cos).

Nota

A Guemará resolve a contradição entre a Mishná e a baraita de Rabi Chiya postulando que ambas refletem tradições tanaíticas distintas dentro da própria escola de Beit Shamai, sem harmonização adicional possível.

13Beit Shamai dizem etc. [lava-se as mãos, e depois mistura-se o copo]
Bavli · 52a — Guemará (retomada da segunda disputa da Mishná)
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים וְכוּ׳.

Beit Shamai dizem (omrim) etc. — isto é, a Guemará retoma agora a segunda cláusula da Mishná, sobre lavar as mãos antes ou depois de misturar o copo de vinho, para desenvolver sua fundamentação através da baraita seguinte

Nota

Fórmula de transição: a Guemará cita o início da segunda disputa da Mishná para introduzir a baraita completa que a segue.

14Ensinaram os sábios: Beit Shamai dizem: lava-se as mãos e depois mistura-se o copo, pois se dirás mistura-se o copo primeiro, decreto que talvez se tornem impuros os líquidos que estão atrás do copo por causa de suas mãos, e voltem e tornem impuro o copo
Bavli · 52a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: נוֹטְלִין לַיָּדַיִם וְאַחַר כָּךְ מוֹזְגִין אֶת הַכּוֹס, שֶׁאִם אַתָּה אוֹמֵר מוֹזְגִין אֶת הַכּוֹס תְּחִלָּה, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִטָּמְאוּ מַשְׁקִין שֶׁאֲחוֹרֵי הַכּוֹס מֵחֲמַת יָדָיו, וְיַחְזְרוּ וִיטַמְּאוּ אֶת הַכּוֹס.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan), Beit Shamai dizem (omrim): lava-se (notlin) as mãos (layadayim) e depois (veachar cach) mistura-se (mozgin) o copo (et hacos), pois (she) se (im) dirás (atá omer) mistura-se (mozgin) o copo (et hacos) primeiro (techilá), é decreto (gezerá) que talvez (shema) se tornem impuros (yitamu) os líquidos (mashkin) que (she) estão atrás (achorei) do copo (hacos) por causa (mechamat) de suas mãos (yadav), e voltem (veyachzeru) e tornem impuro (viyetamu) o copo (et hacos) — isto é, se as mãos ainda não lavadas tocam o copo ao misturá-lo, algum líquido residual na parte externa do copo pode se contaminar pelo contato com as mãos impuras, e esse líquido, por sua vez, poderia retransmitir a impureza ao próprio copo; por isso Beit Shamai prescreve lavar as mãos antes de tocar no copo para misturá-lo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
גזרה שמא יטמאו משקין – שנפלו באחורי הכוס מחמת ידים דתנן (פרה פ"ח מ"ז) כל הפוסל את התרומה מטמא משקים להיות תחלה ויחזרו ויטמאו את הכוס וב"ש סברי אסור להשתמש בכוס שאחוריו טמאות כדלקמן:

"Decreto que talvez se tornem impuros os líquidos" — que (shenaflu) caíram (naflu) na parte de trás (baachorei) do copo (hacos) por causa (mechamat) das mãos (yadayim), pois (de) se ensina (tenan) (Pará 8:7): todo (kol) o que (hapossel) desqualifica (hapossel) a teruma (hatrumá) torna impuro (metamei) os líquidos (mashkin) para serem (lihiyot) "primeiros (techilá)" em impureza, e voltem (veyachzeru) e tornem impuro (viyetamu) o copo (et hacos), e Beit Shamai entendem (savrei) que (assur) é proibido (assur) usar (lehishtamesh) um copo (bechos) cuja parte de trás (sheachorav) está impura (temeot), como adiante (kideleikaman).

Nota

Abre-se a fundamentação da Guemará sobre a segunda disputa: Beit Shamai teme que as mãos ainda não lavadas contaminem líquidos residuais na parte externa do copo, os quais, por sua vez, poderiam retransmitir a impureza ao próprio copo.

15E que se tornem impuras as mãos por causa do copo!
Bavli · 52a — Guemará
וְלִיטַּמּוּ יָדַיִם לְכוֹס!

E que se tornem impuras (veliytamu) as mãos (yadayim) por causa (le) do copo (lechos)! — isto é, a Guemará questiona por que Beit Shamai se preocupa apenas com a possibilidade de as mãos contaminarem o copo (via os líquidos residuais), e não considera a possibilidade inversa: que o próprio copo, se impuro, contaminasse as mãos ao tocá-lo

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
וליטמו ידים לכוס – למה ליה דקאמר משקין שאחורי הכוס בלא משקין נמי מטמו ידים לכוס:

"E que se tornem impuras as mãos por causa do copo" — para que (lama leih) precisou dizer (dekaamar) "líquidos (mashkin) que estão atrás (sheachorei) do copo (hacos)"? Mesmo sem (bela) líquidos (mashkin) também (nami) se tornariam impuras (mitamu) as mãos (yadayim) por causa (le) do copo (lechos) — isto é, Rashi explica que a pergunta da Guemará é: por que Beit Shamai construiu seu decreto especificamente em torno dos líquidos residuais, se, mesmo sem eles, bastaria o contato direto entre a mão e o copo para contaminar a mão?

Nota

A Guemará questiona a formulação do decreto de Beit Shamai: se o copo é impuro, por que a preocupação recai apenas sobre os líquidos residuais, e não sobre o contato direto entre mão e copo?

16As mãos são segundas, e uma segunda não faz uma terceira em não sagrado senão por meio de líquidos
Bavli · 52a — Guemará
יָדַיִם שְׁנִיּוֹת הֵן, וְאֵין שֵׁנִי עוֹשֶׂה שְׁלִישִׁי בְּחוּלִּין אֶלָּא עַל יְדֵי מַשְׁקִין.

As mãos (yadayim) são segundas (shniyot) elas (hen) — isto é, por decreto rabínico, as mãos têm sempre o grau de impureza "segunda" (sheni), mesmo sem contato com nada impuro, e não (ein) uma segunda (sheni) faz (osse) uma terceira (shelishi) em não sagrado (bechulin) senão (ela) por meio (al yedei) de líquidos (mashkin) — isto é, segundo a lei da impureza ritual, um objeto de grau "segundo" não consegue, em alimentos comuns (não consagrados), transmitir impureza a um terceiro objeto, exceto através de líquidos, que têm uma sensibilidade especial à impureza; por isso, se a mão (segunda) tocasse diretamente o copo, o copo não se tornaria impuro — mas se houvesse líquido entre eles, esse líquido se tornaria "primeiro" e poderia, então, contaminar o copo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
אלא ע"י משקין – שהמשקין נעשין ראשונים מדרבנן וא"ת כלי אינו מקבל טומאה אלא מאב הטומאה הני מילי מדאורייתא וחכמים גזרו שיהו משקים ראשונים מטמאים כלי גזרה משום משקים זב וזבה שהן אבות הטומאה כגון רוקו ומימי רגליו:

"Senão por meio de líquidos" — pois (she) os líquidos (mashkin) se tornam (naasin) "primeiros (rishonim)" por decreto rabínico (miderabanan); e se (veim) dirás (tomar) que um utensílio (keli) não (eino) recebe (mekabel) impureza (tumá) senão (ela) de uma fonte (mei) primária de impureza (av hatumá), isso (hani milei) é (mideoraita) pela Torá (mideoraita), mas os sábios (vachachamim) decretaram (gazru) que (sheyehu) os líquidos (mashkin) "primeiros (rishonim)" tornam impuro (metamim) o utensílio (keli), decreto (gezerá) por causa (mishum) dos líquidos (mashkin) de um zav (zav) e uma zavá (zavá), que (shehen) são fontes primárias (avot) de impureza (hatumá), como (kegon) sua saliva (roko) e a água (umeimei) de seus pés (raglav) — eufemismo para urina.

Nota

Rashi explica a base legal da distinção: por lei da Torá, um utensílio só recebe impureza de uma fonte primária; mas os sábios decretaram, por precaução quanto aos fluidos de um zav ou zavá, que líquidos "primeiros" também transmitem impureza a utensílios — o que resolve por que a mão sozinha não contamina o copo, mas líquidos entre eles sim.

17E Beit Hilel dizem: mistura-se o copo, e depois lava-se as mãos, pois se dirás lava-se as mãos primeiro, decreto que talvez se tornem impuros os líquidos que estão nas mãos por causa do copo, e voltem e tornem impuras as mãos
Bavli · 52a — Guemará
וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: מוֹזְגִין אֶת הַכּוֹס וְאַחַר כָּךְ נוֹטְלִין לַיָּדַיִם. שֶׁאִם אַתָּה אוֹמֵר נוֹטְלִין לַיָּדַיִם תְּחִלָּה, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִטָּמְאוּ מַשְׁקִין שֶׁבַּיָּדַיִם מֵחֲמַת הַכּוֹס, וְיַחְזְרוּ וִיטַמְּאוּ אֶת הַיָּדַיִם.

E Beit Hilel dizem (omrim): mistura-se (mozgin) o copo (et hacos) e depois (veachar cach) lava-se (notlin) as mãos (layadayim), pois (she) se (im) dirás (atá omer) lava-se (notlin) as mãos (layadayim) primeiro (techilá), é decreto (gezerá) que talvez (shema) se tornem impuros (yitamu) os líquidos (mashkin) que (she) estão nas mãos (bayadayim) por causa (mechamat) do copo (hacos), e voltem (veyachzeru) e tornem impuras (viyetamu) as mãos (et hayadayim) — isto é, Beit Hilel inverte o raciocínio de Beit Shamai: se as mãos já lavadas tocassem no copo antes de misturá-lo, algum resíduo de água ainda nas mãos poderia se contaminar pelo contato com o copo (cuja parte externa se presume impura), e esse líquido contaminado retransmitiria a impureza de volta às próprias mãos recém-lavadas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
וב"ה אומרים כו' – בתוספתא ה"ג לה וב"ה אומרים אחורי הכוס לעולם טמאים דבר אחר תכף לנט"י סעודה למאי דחיישיתו שלא יטמאו הידים את אחורי הכוס לאו חששא היא שאפילו לכתחלה מותר להשתמש בכלי שאחוריו טמאים ותוכו טהור כגון זה שמטמא אחוריו מחמת משקין דאמרינן ביה בשמעתין תוכו טהור הלכך מוזגין ושותין את הכוס תחלה קודם נטילה שאם אתה אומר נוטלין לידים תחלה שמא יהו אחורי הכוס טמאין גזרה שמא לא יהו הידים נגובות יפה ממי הנטילה ויטמאו המשקין שבידים מחמת כוס והן נעשים תחלה ויחזרו ויטמאו את הידים ונמצא אוכל בידים מסואבות:

"E Beit Hilel dizem etc." — na Tosefta assim (hachi) se lê (garsinan) a ela (lah): e Beit Hilel dizem (omrim): a parte de trás (achorei) do copo (hacos) sempre (leolam) é impura (temeim); outra explicação (davar acher): imediatamente (techaf) à lavagem das mãos (lenetilat yadayim), a refeição (seudá) — isto é, deve-se comer logo após lavar as mãos, sem demora; quanto ao (lemai) que temem (dechayishitu) — que não (shelo) tornem impuras (yitamu) as mãos (hayadayim) a parte de trás (et achorei) do copo (hacos) — não (lav) é receio (chashasha), pois (she) mesmo (afilu) de início (lechatchilá) é permitido (mutar) usar (lehishtamesh) um utensílio (bechli) cuja parte de trás (sheachorav) é impura (temeim) e cujo interior (vetocho) é puro (tahor), como (kegon) este (ze), que (shemitamei) sua parte de trás se torna impura (achorav) por causa (mechamat) de líquidos (mashkin), sobre o qual (deamrinan bei) dizemos nesta sugia (bishmateta) que seu interior (tocho) é puro (tahor); por isso (hilkach) misturam (mozgin) e bebem (veshotin) o copo (et hacos) primeiro (techilá), antes (kodem) da lavagem (netilá); pois (shesheim) se (im) dirás (atá omer) lava-se (notlin) as mãos (layadayim) primeiro (techilá), talvez (shema) sejam (yehu) a parte de trás (achorei) do copo (hacos) impuras (temeim), decreto (gezerá) que talvez (shema) não (lo) estejam (yehu) as mãos (hayadayim) bem (yafé) secas (negovot) da água (mimei) da lavagem (hanetilá), e se tornem impuros (veyitamu) os líquidos (hamashkin) que (sheb) estão nas mãos (yadayim) por causa (mechamat) do copo (cos), e eles (vehen) se tornam (naasin) "primeiros (techilá)", e voltem (veyachzeru) e tornem impuras (viyetamu) as mãos (et hayadayim), e se acabe (venimtza) comendo (ochel) com mãos (beyadayim) contaminadas (mesoavot).

Nota

Rashi, citando a Tosefta, explica a lógica de Beit Hilel: como se aceita que a parte externa de um copo possa estar impura sem prejudicar seu uso (pois o interior permanece puro), não há receio em misturar o copo antes de lavar as mãos; o verdadeiro receio de Beit Hilel é o inverso — que mãos ainda úmidas da lavagem se contaminem ao tocar o copo, contaminando-se de volta.

18E que se torne impuro o copo por causa das mãos! — Um utensílio não torna impura uma pessoa
Bavli · 52a — Guemará
וְנִיטַּמֵּי כּוֹס לְיָדַיִם! — אֵין כְּלִי מְטַמֵּא אָדָם.

E que se torne impuro (veniytamei) o copo (cos) por causa (le) das mãos (yadayim)! — isto é, a Guemará pergunta, de modo simétrico à pergunta anterior sobre Beit Shamai: por que Beit Hilel não temeria também que o próprio copo, tocando as mãos, as tornasse impuras diretamente? — Não (ein) um utensílio (keli) torna impura (metamei) uma pessoa (adam) — isto é, a resposta é um princípio geral e assimétrico da lei de impureza: um utensílio (ainda que impuro) não tem o poder de transmitir impureza diretamente a uma pessoa (ou às suas mãos); apenas outra pessoa, um cadáver, ou certas fontes específicas de impureza podem fazê-lo — por isso essa preocupação simplesmente não existe do lado de Beit Hilel, ao contrário do lado oposto (mãos contaminando o copo), que é uma possibilidade real.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
ונטמי כוס לידים – למה לי משקין בידים אפי' ידים נגובות נמי יטמא כוס לידים וכיון דהכי הוא נהי נמי דבכוס שלפני המזון עביד ב"ה תקנתא דשותהו קודם נטילה כוסות הבאין בתוך המזון מה תהא עליהן הלא מטמאין את הידים: אין כלי מטמא אדם – כלומר כלי כזה שנטמא בולד הטומאה אינו מטמא את הידים דקיי"ל כרבנן דפליגי עליה דרבי יהושע במסכת ידים (פ"ג מ"א) בכלים שנטמאו במשקין ואומר את שנטמא באב הטומאה מטמא את הידים ושנטמא בולד הטומאה אינו מטמא את הידים שאין שני עושה שני ואע"פ שהספר מטמא את הידים אין למדים הימנו הלכך כוסות שבתוך המזון שהידים נגובין אינן מטמאין את הידים ואם תאמר פעמים שיש משקין תבשיל טופח על הידים אין תורת משקין עליו אלא תורת אוכל:

"E que se torne impuro o copo por causa das mãos" — para que (lama li) precisou dizer (dekaamar) "líquidos (mashkin) nas mãos (bayadayim)"? Mesmo (afilu) mãos (yadayim) secas (negovot) também (nami) tornaria impuro (yetamei) o copo (cos) as mãos (leyadayim) — isto é, se o contato direto bastasse, a formulação sobre líquidos seria desnecessária; e visto (vekeivan) que assim (dehachi) é (hu), ainda que (nehi nami), quanto ao copo (bechos) que vem antes (shelifnei) da refeição (hamazon), Beit Hilel faça (avid) a solução (takanta) de bebê-lo (deshotehu) antes (kodem) da lavagem (netilá), quanto aos copos (kosot) que vêm (habaim) durante (betoch) a refeição (hamazon), o que (ma) haverá (tehei) sobre eles (aleihen)? Acaso não (halo) tornam impuras (metamin) as mãos (et hayadayim)? "Não há utensílio que torne impura uma pessoa" — isto é (kelomar), um utensílio (keli) como este (kazé), que (shenitma) se tornou impuro (nitma) por uma descendência (bevlad) de impureza (hatumá), não (eino) torna impuras (metamei) as mãos (et hayadayim), pois (dekayeman) seguimos (kayeman) como (ke) os sábios (rabanan) que (depligi) discordam (alei) de Rabi Yehoshua no tratado (bemasechet) Yadayim (3:1), quanto a utensílios (bechelim) que se tornaram impuros (shenitmeu) por líquidos (bemashkin): e se diz (veomer) que aquele (et she) que se tornou impuro (nitma) por uma fonte primária (beav) de impureza (hatumá) torna impuras (metamei) as mãos (et hayadayim), e o que se tornou impuro (veshenitma) por uma descendência (bevlad) de impureza (hatumá) não (eino) torna impuras (metamei) as mãos (et hayadayim), pois (she) uma segunda (sheni) não faz (osse) uma segunda (sheni) — isto é, não gera outra impureza equivalente à sua.

Nota

A Guemará responde com um princípio assimétrico da lei de impureza: um utensílio não transmite impureza a uma pessoa (nem às suas mãos), o que explica por que Beit Hilel não temeria o copo contaminando as mãos, ainda que temesse o inverso.

19E que se tornem impuros os líquidos que estão dentro dele! — Aqui se trata de um utensílio cuja parte de trás se tornou impura por líquidos, cujo interior é puro e cuja parte de trás é impura, como se ensina: um utensílio cuja parte de trás se tornou impura por líquidos, sua parte de trás é impura
Bavli · 52a — Guemará
וְנִיטַּמֵּי לְמַשְׁקִין שֶׁבְּתוֹכוֹ! — הָכָא בִּכְלִי שֶׁנִּטְמְאוּ אֲחוֹרָיו בְּמַשְׁקִין עָסְקִינַן, דְּתוֹכוֹ טָהוֹר וְגַבּוֹ טָמֵא. דִּתְנַן: כְּלִי שֶׁנִּטְמְאוּ אֲחוֹרָיו בְּמַשְׁקִין אֲחוֹרָיו טְמֵאִים.

E que se tornem impuros (veniytamei) os líquidos (lemashkin) que (sheb) estão dentro dele (betocho)! — isto é, a Guemará pergunta ainda: mesmo que o copo em si não transmita impureza às mãos, por que não se teme que o vinho dentro do copo se torne impuro pelo contato com as mãos ao segurá-lo, contaminando assim a bebida que será consumida? — Aqui (hacha) se trata (askinan) de um utensílio (bichli) cuja parte de trás (achorav) se tornou impura (shenitmeu) por líquidos (bemashkin), cujo interior (detocho) é puro (tahor) e cuja parte de trás (vegabo) é impura (tamei), como (di) se ensina (tenan): um utensílio (keli) cuja parte de trás (achorav) se tornou impura (shenitmeu) por líquidos (bemashkin), sua parte de trás (achorav) é impura (temeim) — isto é, a Guemará esclarece que a impureza discutida é especificamente a que afeta apenas a parte externa (as costas) do copo, e não seu interior; por isso o vinho contido dentro do copo permanece protegido e puro, mesmo que a parte externa esteja impura por causa das mãos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 52a
כלי שנטמאו אחוריו במשקין – בכלי שטף קאמר דאילו כלי חרס אין מטמאין מגבן אפילו בטומאה דאורייתא: שנטמאו אחוריו במשקין – אין לך משקה שאינו ראשון לטומאה שאף אם נגע בשני עשאוהו חכמים תחלה: אחוריו טמאין – אף על פי שאין אדם וכלים מקבלין טומאה מן התורה אלא מאב הטומאה גזרו חכמים שיהו משקין מטמאין כלים מפני שמצינו משקה שהוא אב הטומאה לטמא אדם וכלים מה"ת כגון זובו של זב ורוקו ומימי רגליו גזרו על כל המשקין טמאין שיטמאו כלים:

"Um utensílio cuja parte de trás se tornou impura por líquidos" — fala-se (kaamar) de um utensílio (bichli) de metal (shetef) — sujeito a imersão, pois (dei) um utensílio (keli) de barro (cheres) não (ein) se torna impuro (metamin) por sua parte de trás (migaban), mesmo (afilu) por impureza (betumá) da Torá (mideoraita). "Cuja parte de trás se tornou impura por líquidos" — não (ein)(lecha) líquido (mashke) que (sheeino) não seja "primeiro (rishon)" em impureza (letumá), pois (sheaf) mesmo se (im) tocou (naga) em uma segunda (besheni), os sábios (chachamim) o fizeram (assauhu) "primeiro (techilá)". "Sua parte de trás é impura" — ainda que (af al pi) pessoas (adam) e utensílios (vechelim) não (ein) recebam (mekablin) impureza (tumá) pela Torá (min hatorá) senão (ela) de uma fonte primária (mei av) de impureza (hatumá), decretaram (gazru) os sábios (chachamim) que (sheyehu) líquidos (mashkin) tornam impuros (metamin) utensílios (chelim), pois (mipnei) encontramos (shematzinu) um líquido (mashke) que (shehu) é fonte primária (av) de impureza (hatumá) para tornar impuros (letamei) pessoas (adam) e utensílios (vechelim) pela Torá (min hatorá), como (kegon) o fluxo (zovo) de um zav (zav), e sua saliva (veroko), e a água (umeimei) de seus pés (raglav), decretaram (gazru) sobre todos (al kol) os líquidos (hamashkin) impuros (temeim) que (sheyetamu) tornem impuros (chelim) utensílios (chelim).

Nota

A Guemará conclui esta primeira parte da sugia sobre pureza ritual esclarecendo que a impureza em questão afeta apenas a parte externa do utensílio, deixando seu conteúdo interno protegido — com Rashi detalhando toda a base do decreto rabínico sobre líquidos como fonte de impureza para utensílios, remontando aos fluidos do zav e da zavá.