Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
עֶשְׂרִים וָשֵׁשׁ שְׁנֵי שַׁלְוָתָהּ

Os vinte e seis anos de tranquilidade de Sodoma, a série de ensinamentos de Rav Chama bar Guria (telhados, sob quem viver, doenças, a tinta do céu, o jejum contra o sonho), a interrupção do estudo para Shemá e tefilá, e a nova Mishná sobre o alfaiate, o escriba e a vela

Shabbat 11a — o cálculo dos vinte e seis anos de tranquilidade de Sodoma antes de sua destruição, a partir dos catorze anos de guerra contra Kedorlaomer; a série de ensinamentos de Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav: não ter telhados mais altos que a sinagoga, com o caso de Rav Ashi e Mata Mechassya; viver sob ismaelita e não sob idólatra, sob idólatra e não sob chaver, sob chaver e não sob talmid chacham, sob talmid chacham e não sob órfão e viúva; toda doença menos a do intestino, toda dor menos a do coração, todo mal-estar menos o de cabeça, todo mal menos a mulher má; a impossibilidade de escrever a profundidade do coração dos reis, mesmo com todos os mares como tinta; o jejum contra o sonho mau sendo bom como fogo em estopa, mesmo em Shabat, com o episódio de Rav Yehoshua bar Rav Idi na casa de Rav Ashi; a discussão se, tendo começado o estudo de Torá, se interrompe para Shemá mas não para tefilá, e a baraita sobre o período de intercalação do ano em Yavne; e a nova Mishná, ainda dentro do Perek Alef, sobre o alfaiate que não deve sair com a agulha perto do anoitecer, o escriba com a pena, catar os piolhos da roupa, não ler à luz da vela, o chazan que verifica onde as crianças leem sem ler ele mesmo, e o zav que não deve comer com a zavá, com a baraita da Guemará sobre não ficar num domínio e beber no outro.

O daf abre concluindo o cálculo dos anos de Sodoma: contando os catorze anos de guerra contra Kedorlaomer mencionados no versículo, chega-se a vinte e seis anos de tranquilidade que a cidade desfrutou antes de ser destruída. Segue-se uma longa série de ensinamentos independentes, todos transmitidos por Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav: que nenhuma cidade deve ter telhados mais altos que sua sinagoga — com Rav Ashi relatando seu próprio cuidado em Mata Mechassya, e a Guemará discutindo por que essa cidade ainda assim foi destruída; que é preferível viver sob domínio ismaelita a viver sob idólatra, sob idólatra a viver sob um chaver (fariseu rigoroso em pureza), sob chaver a viver sob um talmid chacham, e sob talmid chacham a viver sob órfão e viúva; que é preferível qualquer doença menos a do intestino, qualquer dor menos a do coração, qualquer mal-estar menos o de cabeça, e qualquer mal menos uma esposa má; que nem todos os mares como tinta, os juncos como penas, os céus como pergaminho e toda a humanidade como escribas bastariam para registrar a profundidade do coração dos governantes. Segue-se o ensinamento de que o jejum contra um sonho mau é tão eficaz quanto fogo em estopa, e deve ser feito no mesmo dia, mesmo que seja Shabat — ilustrado pelo episódio de Rav Yehoshua bar Rav Idi, que recusou comer vitela na casa de Rav Ashi por estar jejuando devido a um sonho. A Guemará então discute se, tendo já começado a estudar Torá, a pessoa interrompe para recitar o Shemá (mas não para a tefilá), trazendo a baraita sobre os sábios que, ocupados com a intercalação do ano em Yavne, não interrompiam nem para Shemá nem para tefilá. O daf fecha com a nova Mishná, ainda dentro do Perek Alef, de Shabat: o alfaiate não deve sair com sua agulha perto do anoitecer de sexta-feira, nem o escriba com sua pena, por receio de esquecer e sair já em Shabat; não se deve catar piolhos das roupas nem ler à luz da vela; o chazan pode verificar onde as crianças estão lendo, mas ele mesmo não deve ler; e, por analogia, o zav não deve comer junto com a zavá, por causa do hábito que leva à transgressão — seguida pelo início da Guemará, que traz a baraita relacionada sobre não ficar parado num domínio bebendo de outro.

Os vinte e seis anos de tranquilidade de Sodoma · עֶשְׂרִים וָשֵׁשׁ שְׁנֵי שַׁלְוָתָהּ

01O cálculo dos vinte e seis anos de tranquilidade, a partir da guerra de Kedorlaomer
A Guemará
עֶשְׂרִים וָשֵׁשׁ, דִּכְתִיב: ״שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה שָׁנָה עָבְדוּ אֶת כְּדׇרְלָעוֹמֶר וּשְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה מָרָדוּ. וּבְאַרְבַּע עֶשְׂרֵה שָׁנָה וְגוֹ׳״

Vinte e seis (anos foi a tranquilidade de Sodoma antes de sua destruição), pois está escrito: "doze anos serviram a Kedorlaomer, e treze anos se rebelaram; e no décimo quarto ano", etc. (Bereshit 14:4-5).

Nota

O daf conclui o cálculo iniciado no fim de 10b, sobre a idade de Tzoar em comparação com Sodoma, chegando agora ao número de anos de tranquilidade que Sodoma desfrutou antes de sua destruição. A partir do versículo que narra a submissão das cidades da planície a Kedorlaomer por doze anos, seguida de treze anos de rebelião, e um décimo quarto ano em que Kedorlaomer e os reis aliados vieram guerrear contra elas, a Guemará calcula: doze anos de servidão mais treze de rebelião somam vinte e cinco anos, e no vigésimo sexto ano ocorreu a guerra em que Kedorlaomer foi derrotado (com a ajuda de Avraham, que resgatou Lot). Rashi explica que os vinte e cinco anos anteriores não são considerados de tranquilidade — servidão e rebelião envolveram sofrimento e conflito —, mas os vinte e seis anos restantes, contados a partir da derrota de Kedorlaomer até a destruição de Sodoma, é que constituem o período de paz e prosperidade que a cidade desfrutou, e que a tornou tão arrogante a ponto de merecer sua destruição.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vinte e seis, pois está escrito"
עשרים ושש דכתיב שתים עשרה שנה עבדו את כדרלעומר - אין זו שלוה וי"ג מרדו אין זו שלום שהיו בהן מלחמות הרי כ"ה שנים ושנת כ"ו נהרג כדרלעומר והיתה בשלוה כ"ו הנותרים מנ"ב:

"Vinte e seis, pois está escrito: doze anos serviram a Kedorlaomer" — isso não é tranquilidade; "e treze se rebelaram" — isso também não é paz, pois houve guerras entre eles; eis vinte e cinco anos. E no vigésimo sexto ano foi morto Kedorlaomer, e (Sodoma) esteve em tranquilidade pelos vinte e seis restantes, dos cinquenta e dois (anos totais de sua existência).

A série de ensinamentos de Rav Chama bar Guria · כׇּל עִיר שֶׁגַּגּוֹתֶיהָ גְּבוֹהִין מִבֵּית הַכְּנֶסֶת

02Não ter telhados mais altos que a sinagoga; o caso de Rav Ashi e Mata Mechassya
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav; Rav Ashi
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: כׇּל עִיר שֶׁגַּגּוֹתֶיהָ גְּבוֹהִין מִבֵּית הַכְּנֶסֶת לְסוֹף חֲרֵבָה. שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְרוֹמֵם אֶת בֵּית אֱלֹהֵינוּ וּלְהַעֲמִיד אֶת חׇרְבוֹתָיו״. וְהָנֵי מִילֵּי בְּבָתִּים, אֲבָל בְּקִשְׁקוּשֵׁי וַאֲבַרְוָרֵי לֵית לַן בַּהּ. אָמַר רַב אָשֵׁי: אֲנָא עֲבַדִי לְמָתָא מַחְסֵיָא דְּלָא חֲרַבָה. וְהָא חֲרַבָה! מֵאוֹתוֹ עָוֹן לֹא חָרְבָה.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: toda cidade cujos telhados são mais altos que (o telhado) da sinagoga acaba destruída, pois se diz: "para exaltar a casa de nosso D-us, e erguer suas ruínas" (Ezra 9:9). E isso se aplica às casas, mas quanto a torres e mirantes (que se sobressaem sem serem moradia), não há problema. Disse Rav Ashi: eu fiz com que Mata Mechassya não fosse destruída (por esse motivo, cuidando para que nenhuma casa ultrapassasse a sinagoga em altura). (Objeção:) mas ela foi destruída! (Resposta:) por causa desse pecado (especificamente), ela não foi destruída.

Nota

Inicia-se aqui uma longa cadeia de ensinamentos independentes, todos transmitidos por Rava bar Machseya na mesma linha de tradição (Rav Chama bar Guria, em nome de Rav) — o mesmo formato já visto em 10b. O primeiro ensinamento adverte que uma cidade cujas casas particulares se erguem mais alto que sua sinagoga está destinada, eventualmente, à destruição, pois isso inverte a ordem de prioridades: a casa de D-us deveria ser o edifício mais elevado e proeminente da cidade, símbolo de que o serviço divino ocupa o lugar mais alto na vida comunitária. A ressalva esclarece que a proibição vale apenas para residências comuns, não para estruturas como torres de vigia e fortificações, que servem a propósitos distintos e não competem simbolicamente com a sinagoga. Rav Ashi, que liderava a academia de Mata Mechassya, testemunha que cuidou pessoalmente para que nenhuma casa da cidade ultrapassasse a altura da sinagoga. A Guemará então observa (numa nota editorial posterior, pois Mata Mechassya de fato veio a ser destruída em outra época) que sua eventual destruição não se deveu a esse pecado específico, já que Rav Ashi havia zelado por evitá-lo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "exaltar a casa de nosso D-us", "torres e mirantes" e "Rav Ashi... Mata Mechassya"
לרומם בית אלהינו - ועל ידי כן זכינו לתת לנו גדר ביהודה:

"Para exaltar a casa de nosso D-us" — e por meio disso merecemos que nos fosse dado um resguardo em Yehudá.

קשקושי ואברורי - בירניות ומגדלים:

"Torres e mirantes" — fortalezas e torres (de vigia, que não são moradia comum).

רב אשי ראש ישיבה היה במתא מחסיא ומנעם מלהגביה בתיהם יותר מבהכ"נ:

Rav Ashi era chefe da academia em Mata Mechassya, e os impedia de erguer suas casas mais altas que a sinagoga.

03Sob quem viver: ismaelita, idólatra, chaver, talmid chacham, órfão e viúva
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: תַּחַת יִשְׁמָעֵאל וְלֹא תַּחַת נׇכְרִי. תַּחַת נׇכְרִי וְלֹא תַּחַת חַבָּר. תַּחַת חַבָּר וְלֹא תַּחַת תַּלְמִיד חָכָם. תַּחַת תַּלְמִיד חָכָם וְלֹא תַּחַת יָתוֹם וְאַלְמָנָה.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: (é preferível viver) sob (o domínio de) um ismaelita, e não sob um idólatra (gentio comum). Sob um idólatra, e não sob um chaver (companheiro, fariseu meticuloso em leis de pureza e dízimos). Sob um chaver, e não sob um talmid chacham. Sob um talmid chacham, e não sob um órfão e uma viúva.

Nota

Este ensinamento estabelece uma escala de preferência sobre sob a autoridade ou dependência de quem é melhor viver — indo, paradoxalmente, do que parece mais distante ao que parece mais próximo e virtuoso, mas que na prática implica maior risco. É preferível servir a um ismaelita a servir a um idólatra comum, pois o primeiro tende a ser menos hostil; é preferível servir a um idólatra a depender de um chaver, pois este último, sendo escrupuloso, pode ser mais severo em cobrar; é preferível depender de um chaver a depender de um talmid chacham, pois este, por seu prestígio, pode se sentir mais ofendido e reagir com mais rigor caso seja contrariado; e é preferível depender de um talmid chacham a depender de um órfão e de uma viúva, pois suas dívidas com D-us são cobradas com maior rigor — como Rashi explica em 10b, "pois sua lágrima é frequente" —, de modo que quem lhes causa dano ou prejuízo é punido com mais severidade do que quem prejudica qualquer outra pessoa.

04Toda doença menos a do intestino, toda dor menos a do coração
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: כׇּל חוֹלִי, וְלֹא חוֹלִי מֵעַיִם. כׇּל כְּאֵב, וְלֹא כְּאֵב לֵב. כׇּל מֵיחוֹשׁ, וְלֹא מֵיחוֹשׁ רֹאשׁ. כׇּל רָעָה, וְלֹא אִשָּׁה רָעָה.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: (é preferível sofrer) qualquer doença, e não uma doença do intestino. Qualquer dor, e não uma dor do coração. Qualquer mal-estar, e não um mal-estar de cabeça. Qualquer mal, e não uma mulher má.

Nota

Continuando a série, este ensinamento classifica sofrimentos por severidade, distinguindo entre um tipo comum (doença, dor, mal-estar, mal) e sua forma mais temida. Rashi explica que a doença do intestino é a mais grave porque consome e debilita o corpo lenta e progressivamente, ao contrário de outras doenças que vêm e passam; a dor de coração e o mal-estar de cabeça são os piores dentre suas respectivas categorias porque atingem órgãos centrais e vitais; e "mulher má" encerra a lista como o pior de todos os males, por afetar continuamente a paz doméstica e o bem-estar de quem convive com ela.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ismaelita", "idólatra", "chaver", "talmid chacham", "doença", "dor" e "mal-estar"
תחת ישמעאל - לשמשו:

"Sob um ismaelita" — para servi-lo.

ולא תחת נכרי - אדומים שהיו רשעי' יותר:

"E não sob um idólatra" — os edomitas, que eram mais perversos.

חבר - אומה מבני פרסיים:

"Chaver" — (aqui, no sentido de) uma nação dentre os persas.

תלמיד חכם - אם יקניטנו יענישנו וכן יתום ואלמנה מפני שדמעתן מצויה:

"Talmid chacham" — se o irritar, ele o castigará; e o mesmo (vale, com maior razão, para) órfão e viúva, porque sua lágrima é frequente.

חולי - הוא חולי ארוך המנוונה והולך ומתיש כח כגון אשתא וחולי הראש:

"Doença" (do intestino) — é uma doença longa que vai definhando e enfraquecendo as forças, como a febre e a doença de cabeça.

כאב - הוא ההולך ובא כגון כאב שן כאב מכה:

"Dor" — é a que vem e vai, como dor de dente, dor de ferida.

מיחוש - חששא בעלמא לפי שעה וקל:

"Mal-estar" — mera indisposição passageira e leve.

05Nem todos os mares como tinta bastariam para a profundidade do coração dos reis
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav; Rav Mesharshiya
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: אִם יִהְיוּ כׇּל הַיָּמִים דְּיוֹ, וַאֲגַמִּים קוּלְמוֹסִים, וְשָׁמַיִם יְרִיעוֹת, וְכׇל בְּנֵי אָדָם לַבְלָרִין — אֵין מַסְפִּיקִים לִכְתּוֹב חֲלָלָהּ שֶׁל רְשׁוּת. מַאי קְרָאָה אָמַר רַב מְשַׁרְשְׁיָא: ״שָׁמַיִם לָרוּם וָאָרֶץ לָעוֹמֶק וְלֵב מְלָכִים אֵין חֵקֶר״.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: se todos os mares fossem tinta, e os pântanos (seus juncos, transformados em) penas, e os céus pergaminhos, e todos os filhos do homem escribas — não bastariam para escrever a profundidade do (coração do) governo (o alcance dos assuntos de Estado que ocupam o coração de um governante). Qual é o versículo? Disse Rav Mesharshiya: "os céus para a altura, e a terra para a profundidade, e o coração dos reis não tem (como ser) sondado" (Mishlei 25:3).

Nota

Este ensinamento hiperbólico ilustra a imensidão dos cuidados e preocupações que ocupam o coração de quem governa — impostos a arrecadar, guerras a travar, julgamentos a proferir, tudo simultaneamente e em um único dia, como explica Rashi. Nem toda a tinta dos mares, nem todas as penas feitas dos juncos dos pântanos, nem todo o pergaminho que os céus poderiam fornecer, nem toda a humanidade recrutada como escribas seriam suficientes para registrar por escrito a extensão dessas preocupações. Rav Mesharshiya ancora o ensinamento no versículo de Mishlei que compara a insondabilidade do coração dos reis à altura inatingível dos céus e à profundidade insondável da terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "a profundidade do governo"
חללה של רשות - עומק לבם שהוא צריך להיות לו לב לכמה מדינות למס הקצוב ולכמה מלחמות ולכמה משפטים והכל ביום אחד:

"A profundidade do governo" — a profundeza de seu coração, que precisa se voltar para tantas províncias, para o imposto fixado, para tantas guerras, para tantos julgamentos, e tudo isso em um único dia.

O jejum contra o sonho mau · יָפָה תַּעֲנִית לַחֲלוֹם כְּאֵשׁ לִנְעוֹרֶת

06O jejum é bom como fogo em estopa, mesmo em Shabat
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav; Rav Chisda; Rav Yosef
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: יָפָה תַּעֲנִית לַחֲלוֹם כְּאֵשׁ לִנְעוֹרֶת. אָמַר רַב חִסְדָּא: וּבוֹ בַּיּוֹם. וְאָמַר רַב יוֹסֵף: אֲפִילּוּ בְּשַׁבָּת.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: é bom o jejum contra um sonho (mau), como o fogo é para a estopa (consumindo-a por completo, assim o jejum anula o mau presságio do sonho). Disse Rav Chisda: e (deve ser feito) no mesmo dia (do sonho). E disse Rav Yosef: mesmo em Shabat.

Nota

Fecha-se a série de ensinamentos de Rava bar Machseya com este, sobre a eficácia do jejum como remédio contra o mau presságio de um sonho perturbador: assim como o fogo consome rapidamente e por completo uma mecha de estopa, o jejum tem o poder de anular ou mitigar o mal que um sonho ruim poderia augurar. Rav Chisda acrescenta que esse jejum, para ser eficaz, deve ser realizado no mesmo dia em que se teve o sonho, sem demora. Rav Yosef vai além, ensinando que esse jejum específico (chamado de "taanit chalom", jejum por sonho) é permitido mesmo em Shabat, apesar do jejum comum ser proibido nesse dia — pois a angústia do sonho mau justifica a exceção, e o próprio jejum, paradoxalmente, contribui para a tranquilidade e o prazer espiritual do Shabat ao dissipar a preocupação.

07O episódio de Rav Yehoshua bar Rav Idi na casa de Rav Ashi
Rav Yehoshua bar Rav Idi; os da casa de Rav Ashi
רַב יְהוֹשֻׁעַ בְּרֵיהּ דְּרַב אִידֵּי אִיקְּלַע לְבֵי רַב אָשֵׁי. עָבְדִי לֵיהּ עִיגְלָא תִּילְתָּא. אֲמַרוּ לֵיהּ: לִטְעוֹם מָר מִידֵּי. אֲמַר לְהוּ: בְּתַעֲנִית יָתֵיבְנָא. אֲמַרוּ לֵיהּ: וְלָא סָבַר לֵיהּ מָר לְהָא דְּרַב יְהוּדָה? דְּאָמַר רַב יְהוּדָה: לֹוֶה אָדָם תַּעֲנִיתוֹ וּפוֹרֵעַ! אֲמַר לְהוּ: תַּעֲנִית חֲלוֹם הוּא. וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: יָפָה תַּעֲנִית לַחֲלוֹם כְּאֵשׁ לִנְעוֹרֶת. וְאָמַר רַב חִסְדָּא: וּבוֹ בַּיּוֹם. וְאָמַר רַב יוֹסֵף: אֲפִילּוּ בְּשַׁבָּת.

Rav Yehoshua, filho de Rav Idi, chegou (de visita) à casa de Rav Ashi. Fizeram para ele (um prato de) vitela de terceira (cria). Disseram-lhe: prove o senhor um pouco (desta comida). Disse-lhes: estou sentado em jejum. Disseram-lhe: e o senhor não considera aquilo (o ensinamento) de Rav Yehuda? Pois disse Rav Yehuda: a pessoa pode tomar emprestado seu jejum (adiá-lo) e pagá-lo (depois)! Disse-lhes: é jejum por sonho. E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: é bom o jejum contra um sonho, como o fogo é para a estopa. E disse Rav Chisda: e no mesmo dia. E disse Rav Yosef: mesmo em Shabat.

Nota

A Guemará narra um episódio que ilustra na prática o ensinamento recém-citado. Rav Yehoshua bar Rav Idi visitou a casa de Rav Ashi, onde lhe prepararam um prato especial de vitela de terceira cria (considerada a mais saborosa, por a rês já ter atingido maior maturidade sem perder a maciez). Convidado a experimentar, ele recusou, explicando que estava em jejum. Os anfitriões objetaram, lembrando-lhe do princípio de Rav Yehuda de que jejuns votivos podem ser adiados para depois — sugerindo que ele poderia comer naquele momento e jejuar em outro dia. Rav Yehoshua esclareceu que seu jejum era especificamente um jejum contra um sonho mau, que — como a Guemará repete, citando novamente o ensinamento de Rav (por Rava bar Machseya) e as adições de Rav Chisda e Rav Yosef — precisa ser feito exatamente no mesmo dia do sonho para ser eficaz, e por isso não podia ser adiado como um jejum comum, mesmo que fosse Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vitela de terceira"
עיגלא תילתא - שלישי לבטן שהוא משובח מפני שהבהמה בקטנותה אינה עדיין בכחה והולד ראשון ושני אינו בריא:

"Vitela de terceira" — terceira (cria) do ventre, que é mais apreciada, porque o animal em sua juventude ainda não está em sua força plena, e a primeira e a segunda cria não são (tão) saudáveis.

Interromper o estudo de Torá para Shemá e tefilá · וְאִם הִתְחִילוּ אֵין מַפְסִיקִין

08A objeção da Mishná: interrompe-se para Shemá, mas não para tefilá
A Mishná; Baraita; Rabi Yochanan
וְאִם הִתְחִילוּ אֵין מַפְסִיקִין, מַפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע. הָא תְּנָא לֵיהּ רֵישָׁא אֵין מַפְסִיקִין? סֵיפָא אֲתָאן לְדִבְרֵי תוֹרָה. דְּתַנְיָא: חֲבֵרִים שֶׁהָיוּ עוֹסְקִין בַּתּוֹרָה — מַפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע, וְאֵין מַפְסִיקִין לִתְפִלָּה. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא כְּגוֹן רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי וַחֲבֵירָיו שֶׁתּוֹרָתָן אוּמָּנוּתָן. אֲבָל כְּגוֹן אָנוּ, מַפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע וְלִתְפִלָּה.

(Ensina-se:) e se já começaram (a lavoura, por exemplo), não interrompem (para a tefilá do Minchá); (mas) interrompem para a leitura do Shemá. Mas não se ensinou na primeira parte (da mesma fonte) que não interrompem? (Resposta:) a última parte se refere às palavras de Torá (ao estudo, não à lavoura). Pois se ensinou: os chaverim (companheiros) que estavam ocupados com Torá interrompem para a leitura do Shemá, mas não interrompem para a tefilá. Disse Rabi Yochanan: isso só foi ensinado quanto a (sábios) como Rabi Shimon ben Yochai e seus companheiros, cuja (ocupação com a) Torá era sua profissão (exclusiva); mas quanto a (pessoas) como nós, interrompemos tanto para a leitura do Shemá quanto para a tefilá.

Nota

A Guemará retoma, por associação de temas ligados à interrupção de atividades, uma discussão sobre quando se deve parar o que se está fazendo para rezar. Uma fonte ensina que, tendo já começado certa atividade, não se interrompe para a tefilá, mas se interrompe para a leitura do Shemá — o que parece contradizer uma parte anterior da mesma fonte, que dizia simplesmente que "não se interrompe". A Guemará resolve identificando que a parte final trata especificamente de pessoas ocupadas com o estudo de Torá (não com trabalho comum): uma baraita ensina que estudiosos ocupados com Torá interrompem seu estudo para recitar o Shemá (cuja obrigação bíblica de "ao deitar e ao levantar" é mais premente), mas não interrompem para a tefilá (de origem rabínica). Rabi Yochanan qualifica esse ensinamento: ele vale apenas para sábios extraordinários como Rabi Shimon ben Yochai, cuja vida era inteiramente devotada ao estudo da Torá como ocupação exclusiva; para pessoas comuns, como a maioria dos sábios da época de Rabi Yochanan, deve-se interromper o estudo tanto para o Shemá quanto para a tefilá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não se ensinou... interrompem", "chegamos às palavras de Torá", "os chaverim interrompem" e "mas nós"
והא תנא ליה רישא אם התחילו אין מפסיקין - וגבי תפלה קיימינן ולמה ליה למיהדר למיתני ואין מפסיקין לתפלה:

"Mas não se ensinou na primeira parte que, se já começaram, não interrompem?" — e estamos tratando da tefilá; então por que precisaria repetir e ensinar de novo que não se interrompe para a tefilá?

אתאן לדברי תורה - ומילתא אחריתי נקט:

"Chegamos às palavras de Torá" — e (a fonte) trata de um assunto diferente (do primeiro).

חברים העוסקין בתורה מפסיקין - תורתן לקריאת שמע דזמנה דאוריי' ובשכבך ובקומך ואין מפסיקין לתפלה:

"Os chaverim ocupados com Torá interrompem" — (interrompem) seu estudo de Torá para a leitura do Shemá, pois seu tempo é de origem bíblica, (conforme) "ao te deitares e ao te levantares", mas não interrompem para a tefilá.

אבל אנו - הואיל ומפסיקין תורתנו לאומנתנו כ"ש שנפסיק לתפלה:

"Mas nós" — já que interrompemos nosso estudo de Torá por nossa profissão (comum, de trabalho), com muito mais razão interromperíamos para a tefilá.

09A objeção da baraita, e o período de intercalação do ano em Yavne
A Guemará; Rav Adda bar Ahava; os sábios de Hagronya; Rabi Elazar bar Tzadok
וְהָתַנְיָא: כְּשֵׁם שֶׁאֵין מַפְסִיקִין לִתְפִלָּה, כָּךְ אֵין מַפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע! כִּי תָּנֵי הַהִיא — בְּעִיבּוּר שָׁנָה. דְּאָמַר רַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה, וְכֵן תָּנוּ סָבֵי דְהַגְרוֹנְיָא אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בַּר צָדוֹק: כְּשֶׁהָיִינוּ עוֹסְקִין בְּעִיבּוּר הַשָּׁנָה בְּיַבְנֶה לֹא הָיִינוּ מַפְסִיקִין לֹא לִקְרִיאַת שְׁמַע וְלֹא לִתְפִלָּה.

Mas não se ensinou (em outra baraita): assim como não interrompem para a tefilá, tampouco interrompem para a leitura do Shemá?! (Resposta:) quando se ensinou aquilo, foi a respeito da intercalação do ano (cálculo do calendário, tarefa de importância excepcional). Pois disse Rav Adda bar Ahava, e assim ensinaram os anciãos de Hagronya (em nome de) Rabi Elazar bar Tzadok: quando estávamos ocupados com a intercalação do ano em Yavne, não interrompíamos nem para a leitura do Shemá nem para a tefilá.

Nota

A Guemará traz uma segunda baraita que parece contradizer a primeira: esta afirma que, assim como não se interrompe para a tefilá, também não se interrompe para o Shemá — mesmo para estudiosos de Torá. A resolução é que essa segunda baraita trata de um caso especialmente urgente e excepcional: a intercalação do ano, isto é, a decisão do tribunal sobre acrescentar um mês extra ao calendário lunar para alinhá-lo às estações solares, tarefa que exigia concentração contínua e não podia ser interrompida sem risco de erro ou atraso, dado o prazo apertado em que a decisão precisava ser tomada e comunicada. Rav Adda bar Ahava traz o testemunho direto de Rabi Elazar bar Tzadok, transmitido pelos sábios de Hagronya, de que quando ele próprio participava dessas deliberações em Yavne, nem ele nem seus colegas interrompiam o trabalho nem para o Shemá nem para a tefilá — uma exceção justificada pela gravidade e urgência da tarefa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "a intercalação do ano"
עיבור שנה - שהיו עולים שבעה לעלייה ונושאין ונותנין אם השנה ראויה וצריכה להתעבר כדאמר בסנהדרין (יא:) על האביב ועל פירות האילן ועל התקופה:

"A intercalação do ano" — pois subiam sete (sábios) ao andar superior (da câmara de deliberação), e discutiam e debatiam se o ano era apropriado e precisava ser intercalado, conforme se diz em Sanhedrin (11b), a respeito do amadurecimento dos cereais, dos frutos das árvores, e da estação (do ano solar).

Nova Mishná: o alfaiate, o escriba e a vela · לֹא יֵצֵא הַחַיָּיט בְּמַחֲטוֹ סָמוּךְ לַחֲשֵׁכָה

10Nova Mishná do Perek Alef: o alfaiate, o escriba, os piolhos, a vela e o zav
Mishná
מַתְנִי׳ לֹא יֵצֵא הַחַיָּיט בְּמַחֲטוֹ סָמוּךְ לַחֲשֵׁכָה, שֶׁמָּא יִשְׁכַּח וְיֵצֵא. וְלֹא הַלַּבְלָר בְּקוּלְמוֹסוֹ. וְלֹא יְפַלֶּה אֶת כֵּלָיו, וְלֹא יִקְרָא לְאוֹר הַנֵּר. בֶּאֱמֶת אָמְרוּ, הַחַזָּן רוֹאֶה הֵיכָן תִּינוֹקוֹת קוֹרְאִין, אֲבָל הוּא לֹא יִקְרָא. כַּיּוֹצֵא בוֹ: לֹא יֹאכַל הַזָּב עִם הַזָּבָה, מִפְּנֵי הֶרְגֵּל עֲבֵירָה.

Não deve sair o alfaiate com sua agulha (presa à roupa) perto do anoitecer (de sexta-feira), para que não se esqueça e saia (já em Shabat, transgredindo a proibição de carregar de um domínio a outro). Nem o escriba com sua pena (de escrever). E não se deve catar os piolhos das roupas, nem ler à luz da vela. Em verdade disseram: o chazan (oficiante) pode ver onde as crianças estão lendo (na Torá, para saber por onde continuar no dia seguinte), mas ele mesmo não deve ler. Semelhante a isso: não deve o zav (homem com fluxo impuro) comer junto com a zavá (mulher com fluxo impuro), por causa do hábito que leva à transgressão.

Nota

O daf fecha com uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Alef, que trata de precauções tomadas perto do anoitecer da sexta-feira e de situações que, por hábito ou proximidade, poderiam levar à transgressão do Shabat ou de outras leis. O alfaiate não deve sair de casa com sua agulha presa à roupa perto do pôr do sol de sexta-feira, por medo de que, esquecendo-se da chegada do Shabat, continue a carregá-la e acabe transportando um objeto de um domínio a outro em Shabat; o mesmo se aplica ao escriba e sua pena. Não se deve catar os piolhos das roupas à luz do dia que antecede o Shabat perto do anoitecer, nem ler à luz de uma vela de azeite, por receio de que, ao ajustar a chama para melhor iluminação, se acabe acendendo o fogo em Shabat. Quanto ao chazan (oficiante da sinagoga, responsável por indicar aos alunos onde continuar a leitura semanal), ele pode verificar visualmente onde as crianças estão lendo à luz da vela, mas não deve ele mesmo ler ali, pela mesma preocupação. E, por analogia a este princípio de evitar situações que geram hábito e podem levar à transgressão, a Mishná acrescenta que o zav não deve comer junto à mesma mesa que a zavá, por medo de que a proximidade e o convívio constante gerem intimidade que leve a uma transgressão mais grave.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "para que não se esqueça", "catar piolhos", "ler à luz da vela", "o chazan", "semelhante a isso" e "por causa do hábito"
מתני' שמא ישכח ויצא - משתחשך:

Mishná: "para que não se esqueça e saia" — depois de escurecer.

ולא יפלה את כליו - מבער כנים מבגדיו דמתרגמינן בערתי פליתי (דברים כו) ולקמן (שבת יב.) מפרש טעמא:

"Nem catar os piolhos das roupas" — remover piolhos das vestes, pois traduzimos (o versículo) "consumi (biarti)" (por) "cateei (pilit)" (Devarim 26:13); e adiante (Shabat 12a) se explica a razão.

ולא יקרא לאור הנר - בספר שמא יטה הנר להביא השמן לפי הפתילה שידלק יפה ונמצא מבעיר בשבת:

"Nem ler à luz da vela" — num livro, para que não incline a vela a fim de trazer o azeite até o pavio, para que arda melhor, e acabe acendendo fogo em Shabat.

החזן - חזן הכנסת המקרא שבעה הקוראים בתורה ופעמים שאינו יודע היכן צריכין לקרות למחר ורואה היכן קורין תינוקות של בית רבן בשבת זו והן קורין בסדר לאור הנר בבית הכנסת ויודע שהיא פרשה של שבת זו ל"א חזן מלמד תינוקות ורואה היכן יתחילו למחר והיכא יסיימו פרשיותיהן:

"O chazan" — o oficiante da sinagoga que instrui os sete que leem na Torá, e às vezes não sabe onde devem ler no dia seguinte, e vê onde as crianças da escola estão lendo neste Shabat, e elas leem na ordem à luz da vela na sinagoga, e assim ele sabe qual é a porção deste Shabat. Outra explicação: o chazan ensina as crianças, e vê onde começarão no dia seguinte e onde terminarão suas porções.

כיוצא בו - לעשות הרחקה לעבירה אמרו:

"Semelhante a isso" — (a Mishná) falou (deste caso) para fazer um afastamento da transgressão.

לא יאכל הזב עם הזבה - וכ"ש טהור עם הזבה:

"Não deve o zav comer com a zavá" — e com muito mais razão (não deve) um puro comer com a zavá.

מפני הרגל עבירה - מפני שמתוך שמתיחדין יבא לבעול זבה שהיא בכרת:

"Por causa do hábito que leva à transgressão" — porque, por ficarem a sós juntos, ele acabará tendo relações com a zavá, o que acarreta karet (extirpação).

11Início da Guemará: a baraita sobre não ficar num domínio e beber no outro
A Guemará; Baraita
גְּמָ׳ תְּנַן הָתָם: לֹא יַעֲמוֹד אָדָם בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד וְיִשְׁתֶּה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְיִשְׁתֶּה בִּרְשׁוּת הַיָּחִיד. אֲבָל אִם הִכְנִיס רֹאשׁוֹ וְרוּבּוֹ לִמְקוֹם שֶׁהוּא שׁוֹתֶה — מוּתָּר.

Guemará: aprendemos ali (numa Mishná, em outro contexto): não deve a pessoa ficar parada no domínio privado e beber (estando com a cabeça ou a boca) no domínio público, nem (ficar) no domínio público e beber no domínio privado. Mas se introduziu sua cabeça e a maior parte de seu corpo no lugar onde bebe, é permitido.

Nota

A Guemará retoma, ainda no Perek Alef e por associação temática com a proibição de carregar objetos entre domínios (implícita no caso do alfaiate e do escriba na Mishná), uma baraita já conhecida de outro contexto (tratada com mais detalhe em Eruvin), sobre a proibição de a pessoa permanecer fisicamente em um domínio enquanto bebe algo situado no outro — por exemplo, ficar de pé dentro de casa (domínio privado) enquanto bebe água de um jarro situado na rua (domínio público), ou vice-versa. A preocupação é que, ao fazer isso, a pessoa poderia inadvertidamente carregar o líquido ou o recipiente de um domínio a outro, transgredindo a proibição de transporte em Shabat. A ressalva final esclarece que, se a pessoa introduzir a cabeça e a maior parte do corpo no domínio onde de fato está bebendo, a ação é permitida, pois nesse caso ela é considerada como estando, para efeitos práticos, naquele domínio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não deve a pessoa ficar parada"
לא יעמוד אדם - ברה"י ויושיט פיו וראשו לרה"ר לאחוז כלי ולשתות גזרה שמא יוציא הכלי אליו ונמצא מתחייב חטאת:

"Não deve a pessoa ficar parada" — no domínio privado, e estender sua boca e sua cabeça ao domínio público para segurar um utensílio e beber; (isso é proibido por) decreto, para que não traga o utensílio para si (por completo, transportando-o entre domínios), e acabe sendo culpado de uma oferenda de pecado.