Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
שֶׁלֹּא יִלְקֶה הַכּוֹתֶל

A conclusão da Mishná da tigela e sua comparação com a bacia de Machshirin, os tefilin perto do anoitecer, a nova Mishná de não catar piolhos nem ler à luz da vela, e as proibições de Rabban Shimon ben Gamliel para o Shabat

Shabbat 12a — a conclusão da Mishná sobre virar a tigela na parede para não danificá-la, isenta de "quando for posta", e a objeção de que ela deveria se comparar à bacia da Mishná de Machshirin sobre a água que cai dentro dela; a resolução final entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon sobre melachá que não precisa de seu próprio propósito; a baraita da escola de Rabi Yishmael permitindo sair com tefilin perto do anoitecer da véspera de Shabat, a partir do dever de apalpá-los a cada hora, e a baraita de Chananya sobre apalpar as roupas; a nova Mishná: não se deve catar as roupas nem ler à luz da vela, com a dúvida se ambas as cláusulas temem que se incline a vela ou se apenas a leitura; as tentativas de prova a partir de duas baraitot, e a conclusão de que ambas temem a inclinação; a distinção de Rav Yehuda em nome de Shmuel e de Rava entre roupas de homem e de mulher, entre bnei Machoza e bnei Chaklayata, entre velhas e moças; as baraitot sobre não catar em domínio público por respeito, sobre esfregar e jogar fora o piolho sem matá-lo, e os costumes de Rabá, Rav Sheshet, Rava e Rav Nachman; a disputa de Bet Shamai e Bet Hillel sobre matar o piolho em Shabat; a série de proibições de Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabban Shimon ben Gamliel — não arranjar casamento de crianças, não matriculá-las para estudar ou aprender um ofício, não consolar enlutados nem visitar doentes em Shabat, segundo Bet Shamai, permitido por Bet Hillel; e a baraita com a fórmula de consolo ao visitar o doente em Shabat, e a disputa entre Rabi Yehuda, Rabi Yosei e Shevna, o homem de Jerusalém.

O daf abre concluindo a frase interrompida no fim de 11b: a Mishná sobre quem vira uma tigela sobre a parede para que a chuva não a danifique não está sujeita à lei de "quando for posta" — pois ali a pessoa não deseja de modo algum aqueles líquidos. A Guemará questiona a comparação, propondo que o caso deveria antes se equiparar à bacia da Mishná de Machshirin, onde a própria ação de não a virar já demonstra que a água caída dentro dela é considerada querida; a dificuldade é resolvida atribuindo as duas opiniões a Rabi Yehuda e Rabi Shimon, na disputa sobre melachá que não precisa de seu próprio propósito. Em seguida, o daf traz a baraita da escola de Rabi Yishmael permitindo sair com tefilin perto do anoitecer da véspera de Shabat — pois a pessoa está habituada a apalpá-los a cada hora, por um raciocínio a fortiori a partir do tzitz do Sumo Sacerdote — e a baraita de Chananya sobre apalpar as próprias roupas antes do anoitecer, à procura de algo esquecido nos bolsos. O daf então passa a uma nova Mishná: não se deve catar as roupas à procura de piolhos, nem ler à luz de uma vela, por receio de que a pessoa incline a vela para ver melhor. A Guemará investiga se ambas as cláusulas compartilham esse receio ou se a proibição de catar se deve, em vez disso, ao risco de matar um piolho, trazendo duas baraitot para dirimir a dúvida, e concluindo que ambas, de fato, temem a inclinação da vela — com a ressalva de Rav Yehuda em nome de Shmuel, e de Rava, distinguindo tipos de roupas e de pessoas para os quais essa preocupação com a confusão entre vestes masculinas e femininas se aplica ou não. Seguem-se baraitot sobre não catar em domínio público por respeito, sobre a forma correta de eliminar um piolho sem esmagá-lo, os costumes pessoais de vários sábios quanto a isso, e a disputa entre Bet Shamai e Bet Hillel sobre se é permitido matar um piolho em Shabat. O daf fecha com uma série de restrições de Rabi Shimon ben Elazar, em nome de Rabban Shimon ben Gamliel, sobre atividades que Bet Shamai proibia em Shabat — arranjar casamento de crianças, matriculá-las para o estudo ou para um ofício, consolar enlutados, visitar doentes — todas permitidas por Bet Hillel, e a baraita com a fórmula que se recita ao visitar um doente em Shabat, incluindo a disputa entre Rabi Yehuda, Rabi Yosei e o costume de Shevna, o homem de Jerusalém.

A conclusão: a tigela e a bacia de Machshirin · עֲרֵיבָה שֶׁיָּרַד דֶּלֶף לְתוֹכָהּ

01"Para que não se danifique a parede" não está em "quando for posta"
A Mishná (continuação); a Guemará
שֶׁלֹּא יִלְקֶה הַכּוֹתֶל — אֵינוֹ בְּ״כִי יוּתַּן״! מִי דָּמֵי? הָתָם לָא קָא בָּעֵי לְהוּ לְהָנֵי מַשְׁקִין כְּלָל, הָכָא קָא בָעֵי לֵיהּ לְהַאי כִּיס לְקַבּוֹלֵי בֵּיהּ זִיבָה.

"Para que não se danifique a parede" — (nesse caso, a água que cai sobre a tigela) não está (sujeita à lei de) "quando for posta" (pois a pessoa não deseja de modo algum esses líquidos, apenas os afasta). (A Guemará objeta:) É (mesmo) comparável (esse caso ao caso anterior, do zav e sua bolsa)? Ali (no caso da tigela virada para proteger a parede), (a pessoa) não deseja esses líquidos de modo algum; aqui (no caso do zav), ele deseja essa bolsa para recolher nela o fluxo (logo, o uso da bolsa é sim uma necessidade essencial, e a comparação de Rabi Zeira falha).

Nota

O daf abre concluindo a frase que ficara interrompida no fim de 11b: a Mishná, ao tratar de quem vira uma tigela sobre uma saliência da parede para que a chuva não a danifique, ensina que a água que assim cai não é considerada como tendo sido posta ali de propósito, pois a intenção da pessoa não é aproveitá-la, mas apenas proteger a parede — e, quanto a esses líquidos, ela não os deseja de forma alguma. Rabi Zeira havia trazido esse caso como prova de que "evitar sujeira" (aqui, evitar dano à parede) é considerado uma preocupação secundária, não essencial. Mas a Guemará agora questiona a força dessa comparação com o caso do zav: no caso da tigela, a pessoa realmente não quer a água de nenhuma forma — ela apenas a desvia; já no caso do zav, ele efetivamente deseja e precisa da bolsa para recolher o fluxo, tornando-a um objeto de uso essencial e não meramente incidental. A comparação, portanto, não é exata.

02A comparação correta: a bacia de Machshirin
A Guemará; a Mishná de Machshirin
הָא לָא דָּמְיָא אֶלָּא לְסֵיפָא: עֲרֵיבָה שֶׁיָּרַד דֶּלֶף לְתוֹכָהּ, מַיִם הַנִּיתָּזִין וְהַנִּצָּפִין אֵינָן בְּ״כִי יוּתַּן״, וְשֶׁבְּתוֹכָהּ הֲרֵי זֶה בְּ״כִי יוּתַּן״.

Este (caso do zav) não é comparável senão à (segunda parte da Mishná de Machshirin): uma bacia sobre a qual caiu goteira (de chuva) para dentro dela (sem que a pessoa a tivesse virado para se proteger — ela simplesmente a deixou como estava): as águas que se espalham (para fora, ao redor) e as que transbordam (por cima, quando a bacia já está cheia) não estão (sujeitas à lei de) "quando for posta"; mas as que (ficam) dentro dela, eis que estas estão (sujeitas à lei de) "quando for posta" (pois, ao não virar a bacia para impedir a entrada da água, a pessoa demonstrou que deseja recolhê-la ali).

Nota

A Guemará propõe que o verdadeiro paralelo para o caso do zav não é a primeira parte da Mishná (a tigela virada para proteger a parede, onde a água é totalmente indesejada), mas sim sua segunda parte, que trata de uma bacia sobre a qual simplesmente caiu a chuva da goteira, sem que a pessoa tivesse tomado qualquer ação para impedi-la. Nesse caso, a Mishná distingue: a água que se espalha para os lados ou transborda por cima da bacia não é considerada posta de propósito, pois não há evidência de que a pessoa a quisesse; mas a água que permanece dentro da bacia é considerada posta de propósito, precisamente porque a pessoa, tendo a bacia à disposição e podendo virá-la para impedir a entrada da água, optou por não o fazer — sua inação demonstra que deseja recolher aquela água. Da mesma forma, o zav, ao colocar a bolsa junto ao corpo em vez de deixar o fluxo cair livremente, demonstra por sua ação que deseja recolhê-lo ali, tornando o uso da bolsa uma necessidade real e essencial — assim como a água que fica dentro da bacia.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "para que não se danifique a parede", "é comparável?" e "não é comparável senão a esta"
שלא ילקה כו' - דהיינו אצולי טינוף לא חשיב ליה הך כפיי':

"Para que não se danifique (a parede)" — isto é, (o próprio ato de) evitar dano (à parede) não é considerado, para essa (forma de) virar (a tigela, como uma necessidade real quanto aos líquidos).

מי דמי - הא לא ניחא ליה בהנך משקין כלל וברצונו לא ירדו ונהי נמי דכפיית קערה חשיבא ליה אנן חשיבותא דמשקין בעינן וכפייה זו אינה אלא לגלות עליהן שאינו חפץ בהן אבל הכא לענין שבת אחשיבותא דהוצאה קפדינן והך הוצאה דכיס חשיבא דקא מיבעי ליה להציל על בגדיו:

"É comparável?" — pois (no caso da tigela) ele não deseja esses líquidos de modo algum, e por sua vontade eles não teriam caído; e ainda que virar a tigela lhe seja importante, nós precisamos da importância dos próprios líquidos, e esse ato de virar não serve senão para revelar sobre eles que ele não os deseja; mas aqui, quanto ao Shabat, nos preocupamos com a importância da própria retirada (do objeto), e esta retirada da bolsa é importante, pois lhe é necessária para proteger suas roupas.

הא לא דמיא - ע"כ אם להכשר זרעים באת לדמויה לא תדמיה אלא להך:

"Não é comparável" — forçosamente, se você veio compará-lo (o caso do zav) quanto à hechsher zera'im (a lei que torna sementes suscetíveis à impureza por contato com líquido desejado), não o compare senão a esta (segunda parte da Mishná de Machshirin).

שירד דלף לתוכה כו' - משנה היא במסכת מכשירין (פ"ד משנה ה) השנויה אחר הסיפא דהכופה את הקערה והכי תנן עריבה שירד הדלף לתוכה כו' הניחה שירד הדלף לתוכה מים הניתזין והצפים ב"ש אומרים בכי יותן וב"ה אומרים אינם בכי יותן נטלה לשופכה אלו ואלו מודים שהן בכי יותן ומ"מ יש לשמוע מהך סיפא כדגרסינן בספרים (וכב"ה) נתנה לעריבה זו שירד הדלף לתוכה אע"ג דאצולי טינוף הוא אפילו הכי מדלא כפאה גלי דעתי' דאחשבינהו לקבלן והוו חשובים אותן שבתוכה והך הוצאה נמי אחשבה לקבולי בהאי כיס האי זיבה אע"ג דבזיבה לא ניחא ליה אנן לחיובי אהוצאת זיבה לא מהדרינן אלא אהוצאת כיס:

"Sobre a qual caiu goteira para dentro dela etc." — é uma Mishná no tratado de Machshirin (capítulo 4, Mishná 5), ensinada depois da última parte sobre quem vira a tigela; e assim aprendemos: uma bacia sobre a qual caiu a goteira para dentro dela etc. — (se) a deixou (sem virar, e) caiu a goteira para dentro dela, as águas que se espalham e as que transbordam — Bet Shamai diz: estão (sujeitas a) "quando for posta"; e Bet Hillel diz: não estão (sujeitas a) "quando for posta". (Se) a tomou para esvaziá-la, ambos (Bet Shamai e Bet Hillel) concordam que estão (sujeitas a) "quando for posta". De qualquer forma, há que se ouvir dessa última parte, como se lê nos livros (a versão) — e (a lei é) como Bet Hillel — que (quando) colocou essa bacia (no seu lugar habitual), e caiu a goteira para dentro dela, ainda que seja (um caso de) evitar sujeira, mesmo assim, por não a ter virado, ele revela sua intenção de que as considera importantes para recolhê-las, e tornam-se importantes as que ficam dentro dela; e assim também esta retirada (da bolsa) a considera importante para recolher nesta bolsa aquele fluxo — e ainda que quanto ao fluxo em si ele não a deseje, nós não voltamos a exigir (a importância) da retirada do fluxo, mas sim da retirada da bolsa.

הניתזין - למרחוק:

"As que se espalham" — para longe.

והצפין - מלמעלה כשהיא מלאה:

"E as que transbordam" — por cima, quando (a bacia) está cheia.

אינן בכי יותן - דלא ניחא ליה בהו:

"Não estão (sujeitas a) 'quando for posta'" — pois ele não as deseja.

03A resolução final: Rabi Yehuda e Rabi Shimon
Abaie e Rava
אֶלָּא אַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ, לָא קַשְׁיָא: הָא רַבִּי יְהוּדָה, וְהָא רַבִּי שִׁמְעוֹן.

Mas Abaie e Rava, que dizem ambos: não é (uma verdadeira) dificuldade: esta (baraita que obriga o zav de três visões) é (a opinião de) Rabi Yehuda, e esta (baraita que trata do caso da tigela, isentando) é (a opinião de) Rabi Shimon.

Nota

Abandonando também a comparação com a bacia de Machshirin, Abaie e Rava propõem uma resolução diferente e definitiva: as duas fontes simplesmente refletem a conhecida disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon sobre melachá she-eina tzericha le-gufah — um trabalho proibido em Shabat realizado não para o propósito pelo qual a Torá o proíbe, mas para outro fim incidental. Rabi Yehuda responsabiliza plenamente por esse tipo de trabalho (e por isso, segundo ele, o zav que carrega a bolsa é responsável, ainda que seu desejo principal não seja o próprio fluido, mas apenas evitar sujeira); Rabi Shimon isenta (e por isso, segundo ele, tanto o caso da tigela quanto — hipoteticamente — o do zav estariam isentos, pois evitar sujeira ou dano não é o propósito "produtivo" do trabalho). Essa disputa entre os dois sábios, mencionada de passagem aqui, é desenvolvida com detalhe mais adiante no tratado, no capítulo Ha-Matzniyah.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "esta é a de Rabi Yehuda"
הא רבי יהודה - דאמר מלאכה שאינה צריכה לגופה שברצונו לא תעשה ואינו צריך לעיקר (תחלתה) [תכליתה] כי הכא שאינו צריך לזיבה זו שעל ידה בא הכיס הזה ואעפ"כ חייב עליה ופלוגתייהו בהמצניע (לקמן שבת דף צג:) גבי מוציא המת במטה חייב ואע"ג דהוצאת המת לא ניחא ליה ביה ור"ש פוטר:

"Esta é (a opinião de) Rabi Yehuda" — que diz: um trabalho que não é necessário para seu (verdadeiro) propósito, (realizado embora) por sua vontade não fosse feito, e (a pessoa) não precisa da finalidade principal, como aqui, (em que o zav) não precisa desse fluido, por causa do qual veio esta bolsa — ainda assim é responsável por ele; e a disputa entre eles (está) em Ha-Matzniyah (mais adiante, Shabat 93b), a respeito de quem retira o morto numa maca — (que segundo Rabi Yehuda) é responsável, ainda que a retirada do morto não lhe seja desejada em si mesma; e Rabi Shimon isenta.

Sair com tefilin perto do anoitecer · יוֹצֵא אָדָם בִּתְפִילִּין

04A baraita de Bet Rabi Yishmael: tefilin e o dever de apalpá-los
Baraita da escola de Rabi Yishmael; Rabá bar Rav Huna; Chananya; Rav Yosef
תָּנֵי דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: יוֹצֵא אָדָם בִּתְפִילִּין בְּעֶרֶב שַׁבָּת עִם חֲשֵׁיכָה. מַאי טַעְמָא? — כֵּיוָן דְּאָמַר רַבָּה בַּר רַב הוּנָא חַיָּיב אָדָם לְמַשְׁמֵשׁ בַּתְּפִילִּין כׇּל שָׁעָה וְשָׁעָה. קַל וָחֹמֶר מִצִּיץ: מָה צִיץ שֶׁאֵין בּוֹ אֶלָּא אַזְכָּרָה אַחַת אָמְרָה תּוֹרָה ״וְהָיָה עַל מִצְחוֹ תָּמִיד״ — שֶׁלֹּא יַסִּיחַ דַּעְתּוֹ מִמֶּנּוּ, תְּפִילִּין שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן אַזְכָּרוֹת הַרְבֵּה — עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה. הִלְכָּךְ מִידְכָּר דָּכֵיר לְהוּ. תַּנְיָא, חֲנַנְיָא אוֹמֵר: חַיָּיב אָדָם לְמַשְׁמֵשׁ בְּבִגְדוֹ עֶרֶב שַׁבָּת עִם חֲשֵׁכָה. אָמַר רַב יוֹסֵף: הִלְכְתָא רַבָּתִי לְשַׁבָּת.

Ensinou a escola de Rabi Yishmael: pode sair uma pessoa com tefilin na véspera de Shabat perto do anoitecer (sem temer que se esqueça deles e os carregue depois de escurecer). Qual é a razão? Visto que disse Rabá bar Rav Huna: é obrigada a pessoa a apalpar os tefilin a cada hora (para verificar que ainda os traz postos). (E isso se deriva por) um raciocínio a fortiori a partir do tzitz (a lâmina de ouro na testa do Sumo Sacerdote): se o tzitz, que não tem senão uma única menção (do Nome divino), a Torá disse: "e estará sobre sua testa continuamente" (Êxodo 28:38) — para que não desvie sua mente dele; os tefilin, que têm muitas menções (do Nome), quanto mais e mais (exigem que não se desvie a mente deles)! Portanto, (a pessoa) certamente se lembra deles (a todo momento, e não há receio de esquecimento). Ensinou-se (numa baraita), Chananya diz: é obrigada a pessoa a apalpar sua roupa na véspera de Shabat perto do anoitecer (para verificar que não há nada esquecido nos bolsos, que a levaria a sair com isso para o domínio público). Disse Rav Yosef: é uma grande (e importante) lei para o Shabat.

Nota

A Guemará traz uma baraita da escola de Rabi Yishmael que parece, à primeira vista, contradizer a preocupação da Mishná com o alfaiate e sua agulha: por que, quanto aos tefilin, não há receio de que a pessoa se esqueça de tirá-los antes do anoitecer e acabe carregando-os para o domínio público depois de escurecido? A resposta é que a pessoa que usa tefilin tem o hábito constante de apalpá-los a cada hora, para confirmar que ainda estão em seu lugar — um dever derivado por raciocínio a fortiori do tzitz do Sumo Sacerdote, que a Torá exige permanecer constantemente na mente dele apesar de conter apenas uma menção do Nome divino; os tefilin, contendo muitas menções, exigem ainda mais atenção constante. Por isso, ao contrário do alfaiate distraído em seu trabalho, quem usa tefilin naturalmente se lembraria deles ao anoitecer. Numa baraita paralela, Chananya estende esse dever de verificação às próprias roupas na véspera de Shabat, para que não se esqueça algum objeto nos bolsos — um cuidado que Rav Yosef classifica como uma lei de grande importância prática para a observância correta do Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "perto do anoitecer", "'e estará sobre sua testa continuamente'", "apalpar a roupa" e "grande lei"
עם חשיכה - ולא חיישינן דילמא נפיק בהו משתחשך:

"Perto do anoitecer" — e não tememos que (a pessoa) saia com eles depois de já ter escurecido.

והיה על מצחו תמיד - קרא יתירא הוא להך דרשה דהא כבר קבע ליה מקום והיה על מצח אהרן:

"'E estará sobre sua testa continuamente'" — é um verso excedente (usado) para esta interpretação, pois já se havia estabelecido seu lugar (anteriormente no mesmo verso): "e estará sobre a testa de Aharon".

למשמש בבגדו - שלא יהא כרוך בשום דבר פן יוציאנו:

"Apalpar sua roupa" — para que não haja nada envolto (nela ou em seus bolsos), para que não venha a retirá-lo (inadvertidamente para o domínio público).

הלכתא רבתי - דבר גדול יש כאן להפרישו מאיסור שבת:

"Grande lei" — há aqui algo importante para afastar (a pessoa) da transgressão do Shabat.

Não catar as roupas nem ler à luz da vela · לֹא יְפַלֶּה אֶת כֵּלָיו

05A nova Mishná e a dúvida sobre seu fundamento
A Mishná; a Guemará; Rabi Eliezer
לֹא יְפַלֶּה אֶת כֵּלָיו כּוּ׳. אִיבַּעְיָא לְהוּ: לֹא יְפַלֶּה אֶת כֵּלָיו בַּיּוֹם שֶׁמָּא יַהֲרוֹג, וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר הִיא. דְּתַנְיָא, אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר: הַהוֹרֵג כִּינָּה בְּשַׁבָּת — כְּאִילּוּ הוֹרֵג גָּמָל. וְלֹא יִקְרָא לְאוֹר הַנֵּר שֶׁמָּא יַטֶּה. אוֹ דִילְמָא תַּרְוַיְיהוּ שֶׁמָּא יַטֶּה?!

"Não deve catar suas roupas (à procura de piolhos, à luz de uma vela em Shabat), etc." (início de nova Mishná). Levantou-se a dúvida entre eles: (será que a Mishná ensina que) "não deve catar suas roupas" (mesmo) de dia (quando não há vela, e a razão é) temendo que (ao encontrar um piolho, venha a) matá-lo, e é (essa a opinião de) Rabi Eliezer? Pois se ensina (numa baraita), disse Rabi Eliezer: aquele que mata um piolho em Shabat é como se matasse um camelo (isto é, transgride a proibição de matar um ser vivo, tal como se aplica a um animal grande). "E não deve ler à luz da vela" — temendo que (ao ajustá-la, venha a) inclinar (o recipiente de óleo, acendendo o pavio de modo proibido). Ou, então, talvez ambas (as cláusulas — tanto catar quanto ler — compartilhem o mesmo receio): que (a pessoa) venha a inclinar (a vela)?!

Nota

O daf passa a uma nova Mishná, que proíbe duas atividades em Shabat: catar as roupas à procura de piolhos e ler à luz de uma vela — ambas, presumivelmente, por receio de que a pessoa, buscando enxergar melhor, incline a vela e derrame ou aproxime demais o óleo, acendendo-o de modo proibido. A Guemará levanta uma dúvida quanto ao real fundamento da primeira proibição: seria ela motivada, como a segunda, pelo receio da inclinação da vela (aplicando-se apenas quando se cata à luz de uma vela, à noite)? Ou seria motivada por um receio totalmente diferente e mais amplo — o de que, ao encontrar um piolho durante a catação, a pessoa venha a matá-lo, uma transgressão de matar um ser vivo em Shabat, aplicando-se essa proibição mesmo de dia, sem vela alguma? Essa segunda leitura corresponderia à opinião extrema de Rabi Eliezer, citada numa baraita, segundo a qual matar um piolho em Shabat é uma transgressão da mesma gravidade que matar um camelo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "temendo que mate", "de dia também se trata" e "ambas temem a inclinação"
שמא יהרוג - וביום נמי עסקינן ולאור הנר דמתני' אלא יקרא קאי:

"Temendo que (venha a) matar" — e também de dia estamos tratando (nessa possibilidade); e "à luz da vela", (na Mishná,) refere-se apenas a "não deve ler".

כהורג גמל - כלומר דגדול מאד:

"Como quem mata um camelo" — isto é, (a transgressão) é muito grave.

או דילמא - לאור הנר דקתני אתרוייהו קאי ותרוייהו שמא יטה אבל ביום שפיר דמי:

"Ou, então, talvez" — "à luz da vela", que se ensina, refira-se a ambas (as cláusulas), e ambas (temam) que (a pessoa) venha a inclinar (a vela); mas de dia, (catar as roupas) seria perfeitamente permitido.

06Primeira tentativa de prova, rejeitada
A Guemará
תָּא שְׁמַע: אֵין פּוֹלִין וְאֵין קוֹרִין לְאוֹר הַנֵּר. מִי אַלִּימָא מִמַּתְנִיתִין?!

Venha (e) ouça (uma baraita): não se cata, e não se lê, à luz da vela (o que sugeriria que ambas as proibições dependem da vela, resolvendo a dúvida a favor da segunda opção). (Objeção:) é (essa baraita) mais forte (como prova) do que a própria Mishná (que já mencionava "à luz da vela" ligado apenas à leitura, sem resolver a dúvida)?!

Nota

A Guemará tenta trazer uma prova a partir de uma baraita que menciona explicitamente "à luz da vela" em conexão com ambas as proibições — catar e ler — o que sugeriria que ambas compartilham o mesmo fundamento (o receio da inclinação da vela), e não haveria proibição de catar durante o dia. Mas a tentativa é rejeitada: a formulação dessa baraita não é mais clara ou decisiva do que a da própria Mishná, que já apresentava essa mesma ambiguidade estrutural, permitindo tanto a leitura de que "à luz da vela" qualifica apenas a segunda cláusula quanto a de que qualifica ambas. Uma fonte igualmente ambígua não pode servir de prova decisiva para resolver a dúvida original.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "é mais forte do que a Mishná?"
מי אלימא ממתניתין - דקתני לאור הנר בסוף ואפ"ה מספקא לן דאיכא לפלוגי בהו ולמימר דלאור הנר אלא יקרא קאי הכא נמי איכא למימר דאין פולין אפילו ביום ולאור הנר אאין קורין קאי:

"É mais forte (como prova) do que a Mishná?" — pois (a Mishná) também ensina "à luz da vela" ao final (da frase), e ainda assim temos dúvida, pois há como distingui-las e dizer que "à luz da vela" se refere apenas a "não deve ler"; aqui também há como dizer que "não se cata" (se aplica) mesmo de dia, e "à luz da vela" se refere (apenas) a "não se lê".

07A prova decisiva: a baraita do sótão de Chananya ben Chizkiyah
A Guemará; baraita do sótão de Chananya ben Chizkiyah ben Garon
תָּא שְׁמַע: אֵין פּוֹלִין לְאוֹר הַנֵּר וְאֵין קוֹרִין לְאוֹר הַנֵּר, אֵלּוּ מִן הַהֲלָכוֹת שֶׁאָמְרוּ בַּעֲלִיַּית חֲנַנְיָה בֶּן חִזְקִיָּה בֶּן גָּרוֹן. שְׁמַע מִינַּהּ דְּתַרְוַיְיהוּ שֶׁמָּא יַטֶּה, שְׁמַע מִינַּהּ.

Venha (e) ouça: não se cata à luz da vela, e não se lê à luz da vela — estas são (algumas) das leis que se disseram no sótão de Chananya ben Chizkiyah ben Garon (onde se reuniram e decretaram diversas leis restritivas). Aprenda-se disso que ambas (as proibições compartilham o mesmo receio:) que (a pessoa) venha a inclinar (a vela) — aprenda-se disso (que essa é, de fato, a conclusão correta).

Nota

Dessa vez, a Guemará traz uma baraita formulada de modo inequívoco: ela repete explicitamente "à luz da vela" em cada uma das duas cláusulas separadamente — "não se cata à luz da vela" e "não se lê à luz da vela" — deixando claro que ambas as proibições dependem igualmente da presença da vela e do receio de sua inclinação, sem qualquer ambiguidade estrutural que permita a leitura alternativa. Essa formulação clara resolve definitivamente a dúvida: a proibição de catar as roupas não decorre do receio de matar um piolho (que se aplicaria também de dia), mas exclusivamente do mesmo receio que motiva a proibição de ler — o de inclinar a vela ao tentar enxergar melhor. A proibição de catar, portanto, aplica-se apenas à noite, à luz de uma vela, e não durante o dia.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "venha e ouça"
ת"ש - דקתני לאור הנר בתרוייהו:

"Venha e ouça" — pois (esta baraita) ensina "à luz da vela" em ambas (as cláusulas, separadamente, tornando a prova decisiva).

08A distinção entre roupas: Rav Yehuda, Shmuel e Rava
Rav Yehuda em nome de Shmuel; Rava
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: אֲפִילּוּ לְהַבְחִין בֵּין בִּגְדּוֹ לְבִגְדֵי אִשְׁתּוֹ. אָמַר רָבָא: לָא אֲמַרַן אֶלָּא דִּבְנֵי מָחוֹזָא, אֲבָל דִּבְנֵי חַקְלָיָתָא מִידָּע יָדְעִי. וְדִבְנֵי מָחוֹזָא נָמֵי לָא אֲמַרַן אֶלָּא דִּזְקֵנוֹת, אֲבָל דִּילָדוֹת מִידָּע יָדְעִי.

Disse Rav Yehuda em nome de Shmuel: (a proibição de catar à luz da vela se aplica) mesmo (apenas) para distinguir entre sua roupa e a roupa de sua esposa (sem sequer procurar piolhos — já essa mera inspeção visual, à luz da vela, é proibida por receio de inclinação). Disse Rava: não dissemos (essa proibição) senão a respeito dos habitantes de Machoza (cujas roupas de homens e mulheres eram parecidas, e por isso exigiam exame cuidadoso à luz); mas quanto aos habitantes de Chaklayata (uma região rural), eles já (reconhecem suas roupas) conhecidamente (sem precisar de exame cuidadoso). E mesmo quanto aos habitantes de Machoza, não dissemos (a proibição) senão a respeito das (roupas) de mulheres velhas (que se pareciam com as roupas dos homens abastados); mas quanto às (roupas) de moças, eles já (as) reconhecem conhecidamente.

Nota

Rav Yehuda, em nome de Shmuel, estende ainda mais o alcance da proibição: mesmo a atividade aparentemente inócua de simplesmente distinguir sua própria roupa da roupa de sua esposa (por exemplo, ao amanhecer ou vestir-se no escuro) está incluída na proibição de examinar roupas à luz da vela, pelo mesmo receio de inclinação. Rava, contudo, qualifica essa extensão: ela só se aplica aos habitantes da cidade de Machoza, conhecida por seus moradores abastados e refinados, cujas roupas femininas e masculinas eram confeccionadas com tecidos e cortes semelhantes, exigindo exame cuidadoso para diferenciá-las; já os habitantes de regiões rurais como Chaklayata, cujas roupas de homens e mulheres eram claramente distintas pelo uso prático, não precisavam desse exame cuidadoso. E mesmo entre os habitantes de Machoza, essa dificuldade de distinção só se aplicava às roupas de mulheres mais velhas (cujo estilo mais sóbrio se assemelhava ao das roupas masculinas), enquanto as roupas de moças, mais distintivas, eram reconhecidas sem dificuldade.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bnei Machoza", "conhecidamente", "das velhas" e "mas das moças"
בני מחוזא - מפנקי ולא עבדי מלאכה ובגדיהם רחבים כשל אשה וצריכים עיון:

"Habitantes de Machoza" — (pessoas) refinadas, que não realizam trabalho (manual), e suas roupas (as dos homens) são largas como as de mulher, e precisam de exame cuidadoso.

מידע ידעי - שבגדי האנשים קצרין שעוסקין בשדות במלאכה ושל נשים רחבים בתי יד שלהן:

"Já (as) reconhecem conhecidamente" — pois as roupas dos homens são curtas, já que trabalham nos campos, com trabalho (manual), e as das mulheres são largas nas mangas.

דזקנות - קצרים במקצת ושל אנשים מעונגין רחבים ודומין זה לזה וגזרינן שמא יטה:

"Das (mulheres) velhas" — (suas roupas são) um pouco curtas, e as dos homens refinados (são) largas, e se assemelham umas às outras, e decretamos (a proibição) por receio de que venha a inclinar (a vela).

אבל דילדות - רחבים הרבה ואין של אנשים דומין להם:

"Mas das (mulheres) jovens" — (suas roupas são) muito largas, e as dos homens não se assemelham a elas.

Catar em domínio público, e a disputa sobre matar o piolho · אֵין פּוֹלִין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים

09Não catar em público por respeito, e a forma correta de descartar o piolho
Baraitot; Rav Yehuda (ou Rabi Nechemia); Aba Shaul; Rav Huna; Rabá; Rav Sheshet; Rava; Rav Nachman
תָּנוּ רַבָּנַן: אֵין פּוֹלִין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מִפְּנֵי הַכָּבוֹד. כַּיּוֹצֵא בוֹ אָמַר רַב יְהוּדָה, וְאָמְרִי לַהּ רַבִּי נְחֶמְיָה: אֵין עוֹשִׂין אַפִּיקְטְוִיזִין בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מִפְּנֵי הַכָּבוֹד. תָּנוּ רַבָּנַן: הַמְפַלֶּה אֶת כֵּלָיו, מוֹלֵל וְזוֹרֵק, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַהֲרוֹג. אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר: נוֹטֵל וְזוֹרֵק, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִמְלוֹל. אָמַר רַב הוּנָא: הֲלָכָה מוֹלֵל וְזוֹרֵק וְזֶהוּ כְּבוֹדוֹ, וַאֲפִילּוּ בַּחוֹל. רַבָּה מְקַטַּע לְהוּ. וְרַב שֵׁשֶׁת מְקַטַּע לְהוּ. רָבָא שָׁדֵי לְהוּ לְלָקָנָא דְמַיָּא. אֲמַר לְהוּ רַב נַחְמָן לִבְנָתֵיהּ: קִטְלָן וְאַשְׁמְעִינַן לִי קָלָא דְסָנְווֹתִי.

Ensinaram os Sábios (numa baraita): não se cata (as roupas) em domínio público, por causa do respeito (devido diante de outras pessoas — mesmo em dia comum). Semelhante a isso, disse Rav Yehuda — e há quem diga (que foi) Rabi Nechemia: não se provoca vômito em domínio público, por causa do respeito. Ensinaram os Sábios: aquele que cata suas roupas (à procura de um piolho), esfrega-o (entre os dedos, para enfraquecê-lo) e o joga fora, contanto que não o mate. Aba Shaul diz: toma-o e joga-o fora, contanto que não o esfregue. Disse Rav Huna: a lei é (que se deve) esfregá-lo e jogá-lo fora, e isso (também) é (uma questão de) respeito (pessoal), e mesmo em dia comum (por decência, não apenas em Shabat). Rabá os cortava (em pedaços, para eliminá-los sem matá-los diretamente). E Rav Sheshet os cortava. Rava os jogava numa bacia de água (para afogá-los). Disse Rav Nachman às suas filhas: matem-nos, e façam-me ouvir o som de minhas (unhas raspando os piolhos entre si).

Nota

A Guemará traz uma série de baraitot e costumes relacionados ao ato de catar piolhos. A primeira baraita proíbe catar as roupas em domínio público — mesmo em dia comum — por respeito à dignidade pessoal diante de outros, comparando-se à proibição paralela de provocar vômito em público pelo mesmo motivo. A segunda baraita trata do método correto de descartar um piolho encontrado: segundo os Sábios, deve-se esfregá-lo entre os dedos, enfraquecendo-o sem matá-lo diretamente, e depois jogá-lo fora; Aba Shaul inverte a ordem, permitindo simplesmente jogá-lo fora, mas proibindo esfregá-lo. Rav Huna decide a favor da primeira opinião, acrescentando que esfregar e jogar fora também é uma questão de decência pessoal, praticada mesmo em dias comuns. A Guemará então relata os costumes pessoais de vários sábios amoraítas quanto a essa prática — cortá-los, afogá-los na água — culminando na observação bem-humorada de Rav Nachman, que instruía suas filhas a simplesmente matá-los, sem se preocupar com o método, desde que ele pudesse ouvir o som satisfatório do ato sendo realizado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "em domínio público", "por causa do respeito", "apiktevizin", "esfrega e joga fora", "os cortava" e "bacia"
ברה"ר - בחול:

"Em domínio público" — em dia comum.

מפני הכבוד - של עוברין שלא ימאסו:

"Por causa do respeito" — dos transeuntes, para que não sintam repugnância.

אפיקטויזין - הקאה גומיט"א בלע"ז כך מצאתי:

"Apiktevizin" — vômito, "gomite" (em francês antigo) — assim encontrei (registrado).

מולל וזורק - בשבת מולל להתיש כחן שלא יחזרו אליו ובלבד שלא ימלול בדוחק ויהרוג דסבירא ליה הריגת כינה שבות ואבא שאול כר"א ומחייב חטאת הלכך גזרינן מלילה שלא יהרוג:

"Esfrega e joga fora" — em Shabat, esfrega para enfraquecer sua força, para que não voltem a ele, contanto que não o esfregue com força e o mate, pois (este tanna) entende que matar um piolho é (apenas proibição de) shevut (rabínica); e Aba Shaul (segue a opinião) de Rabi Eliezer, e o considera responsável por (oferenda de) pecado; portanto, decretamos (a proibição de) esfregar, para que não venha a matar.

מקטע להו - הורגן ובשבת:

"Os cortava" — matava-os, e (isso) em Shabat.

לקנא - ספל:

"Lakna" — uma bacia.

10A disputa entre Bet Shamai e Bet Hillel sobre matar o piolho
Baraita: Rabi Shimon ben Elazar; Bet Shamai; Bet Hillel
תַּנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: אֵין הוֹרְגִין אֶת הַמַּאֲכוֹלֶת בְּשַׁבָּת, דִּבְרֵי בֵּית שַׁמַּאי. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין.

Ensinou-se (numa baraita), Rabi Shimon ben Elazar diz: não se mata o piolho em Shabat — palavras da Casa de Shamai. E a Casa de Hillel permite.

Nota

A Guemará traz, por fim, a formulação explícita dessa disputa como uma controvérsia entre as duas grandes escolas: segundo Bet Shamai, matar um piolho constitui uma transgressão proibida em Shabat, alinhando-se com a posição mais severa de Rabi Eliezer citada anteriormente. Bet Hillel, por sua vez, permite matar o piolho livremente, pois considera que um piolho, não se reproduzindo por acasalamento (mas surgindo, segundo a concepção da época, espontaneamente da sujeira ou do suor humano), não se enquadra na categoria de "ser vivo" cuja morte a Torá proíbe em Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "maakolet" e "permitem"
מאכולת - כינה:

"Maakolet" — piolho.

מתירין - כדמפרש טעמא בפרק שמונה שרצים (לקמן שבת דף קז:) מאילים מאדמים דמשכן מה אילים פרים ורבים אף כל שפרה ורבה וכינה אינה פרה ורבה אלא מבשר אדם היא שורצת:

"Permitem" — conforme se explica a razão no capítulo "Shemoná Sheratzim" (mais adiante, Shabat 107b), a partir de (o verso sobre) "peles de carneiros avermelhadas" do Tabernáculo: assim como carneiros procriam e se multiplicam, também tudo (que se compara a eles deve) procriar e se multiplicar (para se enquadrar na proibição de matar); e o piolho não procria nem se multiplica (por acasalamento), mas surge da própria carne humana.

As proibições de Rabban Shimon ben Gamliel para o Shabat · אֵין מְשַׁדְּכִין אֶת הַתִּינוֹקוֹת

11Não arranjar casamentos, matricular crianças, consolar nem visitar doentes
Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabban Shimon ben Gamliel; Bet Shamai; Bet Hillel
וְכֵן הָיָה רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל: אֵין מְשַׁדְּכִין אֶת הַתִּינוֹקוֹת לֵאָרֵס, וְלֹא אֶת הַתִּינוֹק לְלַמְּדוֹ סֵפֶר וּלְלַמְּדוֹ אוּמָּנוּת, וְאֵין מְנַחֲמִין אֲבֵלִים, וְאֵין מְבַקְּרִין חוֹלִין בְּשַׁבָּת, דִּבְרֵי בֵּית שַׁמַּאי. וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין.

E assim costumava dizer Rabi Shimon ben Elazar em nome de Rabban Shimon ben Gamliel: não se arranja (o casamento) das crianças para desposá-las (oficialmente), nem (se matricula) a criança para ensiná-la (as Escrituras) ou para lhe ensinar um ofício, e não se consolam enlutados, nem se visitam doentes, em Shabat — palavras da Casa de Shamai. E a Casa de Hillel permite.

Nota

A Guemará traz uma lista adicional de atividades que Bet Shamai proibia realizar em Shabat, sempre por considerá-las semelhantes ao ato de "negociar" ou tratar de assuntos mundanos — algo incompatível com o espírito de descanso e santidade do dia: arranjar formalmente o casamento de uma criança (ainda que sem a finalização definitiva), matricular uma criança para começar seus estudos das Escrituras ou o aprendizado de um ofício, consolar os que estão de luto (pois isso traria tristeza, incompatível com a alegria do Shabat) e visitar os doentes (pelo mesmo motivo de preocupação e angústia que a visita costuma trazer). Bet Hillel discorda de toda essa lista e permite essas atividades, entendendo que arranjar um casamento e buscar o bem-estar de estudo, de aprendizado profissional, ou consolar e visitar os aflitos, não é considerado uma atividade mundana proibida, mas antes um ato de bondade compatível com o espírito do Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "e assim dizia Rabi Shimon ben Elazar", "não se arranja" e "e Bet Hillel permite"
וכן היה רבי שמעון בן אלעזר אומר - דבהני נמי פליגי ב"ש וב"ה:

"E assim costumava dizer Rabi Shimon ben Elazar" — pois também nestes (casos) Bet Shamai e Bet Hillel discordam.

אין משדכין - בשבת משום ממצוא חפצך:

"Não se arranja (casamento)" — em Shabat, por causa de (o verso) "não buscar teus próprios interesses" (Isaías 58:13).

וב"ה מתירין - דקא סברי חפצך ולא חפצי שמים:

"E Bet Hillel permite" — pois entendem (que o verso proíbe apenas) "teus próprios interesses", e não os interesses do Céu (que estas atividades representam).

ואין מנחמין - משום דמצטער עם המצטערין:

"E não se consolam (enlutados)" — porque (a pessoa) se entristece junto com os que estão entristecidos.

12A fórmula de visita ao doente em Shabat
Baraita; Rabi Meir
תָּנוּ רַבָּנַן, הַנִּכְנָס לְבַקֵּר אֶת הַחוֹלֶה אוֹמֵר: ״שַׁבָּת הִיא מִלִּזְעוֹק, וּרְפוּאָה קְרוֹבָה לָבֹא״. וְרַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: ״יְכוֹלָה הִיא שֶׁתְּרַחֵם״.

Ensinaram os Sábios (numa baraita): aquele que entra para visitar o doente (em Shabat) diz: "É Shabat, (quando é proibido) clamar (em lamento), e a cura está próxima de vir". E Rabi Meir diz: "(o próprio Shabat) é capaz de trazer misericórdia".

Nota

Tendo mencionado a permissão de Bet Hillel para visitar doentes em Shabat, a Guemará traz a fórmula de consolo apropriada a ser dita durante essa visita, ajustada ao caráter especial do dia: em vez das expressões costumeiras de lamento ou súplica urgente (impróprias para o Shabat, dia em que não se deve clamar em angústia), diz-se ao doente que, sendo Shabat — dia em que não se clama —, há um bom presságio de que a cura está próxima. Rabi Meir propõe uma formulação alternativa, atribuindo ao próprio caráter sagrado do Shabat um poder inerente de trazer misericórdia divina sobre o doente. O daf termina aqui, e a discussão sobre variações dessa fórmula — incluindo as posições de Rabi Yehuda, Rabi Yosei, e o costume de Shevna, o homem de Jerusalém — prossegue em 12b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "é Shabat, quando é proibido clamar" e "é capaz de trazer misericórdia"
שבת היא מלזעוק - צריך להרחיב דעתם בתנחומים שלא יצטערו:

"É Shabat, (quando é proibido) clamar" — é preciso alargar sua mente (a do doente e seus familiares) com consolos, para que não se entristeçam.

יכולה היא שתרחם - אם תכבדוה מלהצטער בה:

"É capaz de trazer misericórdia" — se a honrarem, (abstendo-se) de se entristecer nela (no Shabat).