Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
פָּטוּר אֲבָל אָסוּר

Isento mas proibido: a resposta de Rav Matna, as três exceções de Shmuel, e a pergunta de Rav a Rabi

Shabbat 3a — conclusão da sugya sobre a contagem de ações na Mishná

A Guemará conclui a resposta de Rav Matna, interrompida no fim de 2b: a Mishná só ensina "isento mas proibido" na parte final, sobre os dois últimos casos, mas não na primeira parte, sobre os quatro casos de responsabilidade e isenção individual — e essa assimetria é a própria dificuldade de Rav Matna. Discute-se então, a partir de um dito de Shmuel, se existe em todo o Shabat algo "isento e permitido", chegando-se às três exceções (caça de cervo, caça de cobra e abertura de abscesso), e por que Shmuel precisou mencioná-las. A Guemará volta à contagem de doze casos, explicando por que a Mishná computa apenas os que podem levar a responsabilidade por chatat, e traz uma baraita de Rabi sobre por que dois que realizam juntos um trabalho ficam isentos ainda que a melachá tenha sido concluída. O daf termina com uma pergunta independente de Rav a Rabi: se alguém carrega comida e bebida sobre um companheiro e o companheiro sai para a rua, quem é responsável pela saída?

A Guemará · הַגְּמָרָא

01A conclusão da resposta: a assimetria entre a primeira e a última parte da Mishná
Rav Matna
בָּבָא דְרֵישָׁא, פָּטוּר וּמוּתָּר לָא קָתָנֵי. אֶלָּא בָּבָא דְסֵיפָא, דְּפָטוּר אֲבָל אָסוּר — קַשְׁיָא.

Na cláusula inicial (da Mishná, sobre os dois primeiros casos), (o texto) não ensina "isento e permitido". Mas (quanto a) a cláusula final, em que (se diz) "isento, porém proibido" — é isso que é difícil (a distinção que Rav Matna estava prestes a fazer não resolve completamente a questão dos doze casos).

Nota

Este segmento completa a frase que terminou em aberto no fim de 2b ("concedido que..."). Rav Matna reconhece que, na primeira parte da Mishná — os dois casos em que um indivíduo age sozinho e é responsável enquanto o outro fica isento —, a Mishná não usa a expressão "isento e permitido", pois ali o isento simplesmente não fez nada. Mas na parte final, referente aos dois últimos casos, em que ambas as pessoas participam e ficam isentas, a Mishná usa a expressão "isento, porém proibido" — e é essa expressão, aplicada a uma ação real e completa, que gera a dificuldade retomada a seguir.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "cláusula inicial" e "cláusula final"
בבא דרישא - העני חייב ובעל הבית פטור ובעל הבית חייב והעני פטור דפטור מחטאת ומותר לכתחלה דהא לאו עקירה עבד ולא הנחה עבד [שהאחר] הניחה בידו:

"Cláusula inicial" — (os dois primeiros casos:) "o pobre é responsável e o dono da casa está isento", e "o dono da casa é responsável e o pobre está isento" — (nestes,) o isento está isento de chatat e é permitido de antemão, pois não realizou levantamento nem realizou deposição, já que foi o outro quem depositou o objeto em sua mão.

02A objeção: existe algo "isento e permitido" em todo o Shabat?
Shmuel
מִי אִיכָּא בְּכוּלֵּי שַׁבָּת ״פָּטוּר וּמוּתָּר״?! וְהָאָמַר שְׁמוּאֵל: כֹּל פְּטוּרֵי דְשַׁבָּת פָּטוּר אֲבָל אָסוּר, בַּר מֵהָנֵי תְּלָת דְּפָטוּר וּמוּתָּר: צֵידַת צְבִי, וְצֵידַת נָחָשׁ, וּמֵפִיס מוּרְסָא!

Acaso existe, em todo o Shabat, algo "isento e permitido"?! E não disse Shmuel: todas as isenções do Shabat são "isento, porém proibido", exceto estas três, que são "isento e permitido": a caça do cervo, a caça da cobra, e o esvaziar de um abscesso!

Nota

A Guemará contesta a ideia de que a primeira parte da Mishná descreveria algo "isento e permitido": segundo Shmuel, em todo o Shabat só existem três casos de isenção que são também plenamente permitidos de antemão — capturar um cervo já ferido que não pode fugir, matar uma cobra perigosa, e abrir um abscesso para aliviar a dor. Fora esses três, toda isenção no Shabat continua proibida por decreto rabínico, mesmo sem responsabilidade por chatat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "isento, porém proibido" e as três exceções
פטור אבל אסור - פטור מחטאת אבל אסור מדבריהם לכתחלה:

"Isento, porém proibido" — isento de chatat, mas proibido por palavras dos Sábios, de antemão.

צידת צבי וצידת נחש ומפיס מורסא - כולהו בפ' ר"א אומר האורג בסיפיה והתם מפרש טעמייהו מנא ליה בהו דפטור ומותר:

"A caça do cervo, a caça da cobra, e o esvaziar de um abscesso" — todos (explicados) no capítulo "Rabi Eliezer diz: o que tece", ao final, e ali se explica a razão deles, de onde se sabe que são isentos e permitidos.

מורסא - קויסטור"א:

"Mursa (abscesso)" — (em francês antigo,) coisture.

מפיס - עוצר שתפתח ותצא הליחה:

"Mefis (esvaziar)" — pressiona para que (o abscesso) se abra e saia o líquido.

03Resposta: Shmuel falava apenas das isenções com ação
כִּי אִיצְטְרִיךְ לֵיהּ לִשְׁמוּאֵל, פְּטוּרֵי דְּקָא עָבֵיד מַעֲשֶׂה, פְּטוּרֵי דְּלָא קָא עָבֵיד מַעֲשֶׂה אִיכָּא טוּבָא.

Quando isso foi necessário a Shmuel, (ele se referia) às isenções em que se realiza uma ação; (mas) isenções em que não se realiza (nenhuma) ação há muitas (e destas Shmuel não estava tratando).

Nota

A Guemará responde que o dito de Shmuel — de que só há três isenções permitidas de antemão — refere-se apenas aos casos em que a pessoa isenta realiza alguma ação (como nas três exceções). Mas quando a isenção decorre de a pessoa não ter feito absolutamente nada — como o dono da casa que apenas recebe o objeto que o pobre lhe entrega, sem levantar nem depositar nada —, essas isenções são numerosas e não contrariam o dito de Shmuel, pois nelas não há questão de proibição alguma: não se trata de um ato que possa ser proibido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a distinção entre isenções com e sem ação
כי איצטריכא ליה - לאשמעינן דפטור ומותר בהנך דאית בהו מעשה כגון הני תלת ותו ליכא:

"Quando isso foi necessário a ele" — para nos ensinar que são isentos e permitidos naqueles casos em que há ação, como estes três, e não mais que isso.

איכא טובא - כגון הנך דבבא דרישא:

"Há muitas" — como aquelas da cláusula inicial (da nossa Mishná, em que a pessoa isenta não realizou ação alguma).

04De qualquer modo, seriam doze: a resposta final sobre a contagem
מִכׇּל מָקוֹם, תַּרְתֵּי סְרֵי הָוְיָין! פְּטוּרֵי דְּאָתֵי בְּהוּ לִידֵי חִיּוּב חַטָּאת — קָא חָשֵׁיב, דְּלָא אָתֵי בְּהוּ לִידֵי חִיּוּב חַטָּאת — לָא קָא חָשֵׁיב.

De qualquer modo, seriam doze! (A Guemará responde:) As isenções que podem chegar a uma responsabilidade por chatat (em circunstâncias variadas), (a Mishná) as computa; as que não podem chegar a uma responsabilidade por chatat, (a Mishná) não as computa.

Nota

A Guemará retoma a disputa entre Rav Matna e Abaye, do fim de 2b, sobre se a Mishná deveria contar doze ou dezesseis casos. A resposta final: a Mishná só enumera as quatro isenções que, dependendo das circunstâncias (por exemplo, se a mesma pessoa tivesse feito tanto o levantamento quanto a deposição), poderiam ter se tornado casos de responsabilidade por chatat. As isenções que nunca poderiam gerar responsabilidade — como as do primeiro caso, em que o isento não fez literalmente nada — não entram na contagem da Mishná.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "as que podem chegar a responsabilidade" e a contagem de quatro
פטורי דאתי בהו לידי חיוב חטאת - כגון עקירות שהן תחלת המלאכה דאיכא למגזר דילמא גמר לה אבל הנחות לא מצי למיתי לידי חיוב חטאת דהא ליכא עקירה גבי האי וארבע דקתני בכל חד תרתי דחיובא ועקירה דפטורא דתרתי נינהו פשט העני ידו מלאה לפנים הא חדא או שנתן לתוכה בע"ה וידו של עני היתה ריקנית הא תרתי וכן באידך ורבותי' אומרים פשיטות יד לפנים [לגבי שניהם] בין מלאה בין ריקנית היא תחלת המעשה וההוא הוא דקחשיב דהוו להו תרתי בעני ותרתי בבע"ה כל חיוב ופטור במסכת שבת בחטאת קאי ובשוגג:

"As isenções que podem chegar a uma responsabilidade por chatat" — como os levantamentos, que são o início da melachá, a respeito dos quais há razão para decretar que talvez (a pessoa) a conclua; mas as deposições não podem chegar a uma responsabilidade por chatat, pois nelas não há levantamento por parte desta (pessoa). E os quatro que (a Mishná) ensina em cada (dos dois casos) são dois de responsabilidade e um levantamento de isenção — (totalizando) dois: o pobre estendeu sua mão cheia para dentro — eis um; ou o dono da casa depositou (o objeto) nela e a mão do pobre estava vazia — eis dois; e o mesmo no outro (caso). E meus mestres dizem: o estender da mão para dentro (por parte de ambos), seja cheia, seja vazia, é o início da ação, e é isso que (a Mishná) computa, de modo que são dois para o pobre e dois para o dono da casa. Toda responsabilidade e isenção em Massechet Shabat referem-se a chatat e a (uma transgressão cometida) por engano.

05Objeção: mas a melachá foi realizada entre os dois — e a baraita de Rabi
Rabi · Rabi Chiya bar Gamda
שְׁנֵיהֶן פְּטוּרִין, וְהָא אִתְעֲבִידָא מְלָאכָה מִבֵּינַיְיהוּ? תַּנְיָא רַבִּי אוֹמֵר: ״מֵעַם הָאָרֶץ בַּעֲשׂוֹתָהּ״, הָעוֹשֶׂה אֶת כּוּלָּהּ, וְלֹא הָעוֹשֶׂה אֶת מִקְצָתָהּ. יָחִיד וְעָשָׂה אוֹתָהּ — חַיָּיב, שְׁנַיִם וְעָשׂוּ אוֹתָהּ — פְּטוּרִין. אִיתְּמַר נָמֵי, אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר גַּמְדָּא: נִזְרְקָה מִפִּי חֲבוּרָה וְאָמְרוּ: ״בַּעֲשֹׂתָהּ״, יָחִיד שֶׁעֲשָׂאָהּ — חַיָּיב, שְׁנַיִם שֶׁעֲשָׂאוּהָ — פְּטוּרִין.

Mas ambos ficam isentos, e no entanto a melachá foi realizada entre os dois (pois juntos completaram a ação de transporte)? Foi ensinado (em uma baraita): disse Rabi: "do povo da terra, ao fazê-la" (Vayikrá 4:27)(refere-se a) quem a faz por inteiro, e não a quem faz parte dela. Um indivíduo que a fez — é responsável; dois que a fizeram — estão isentos. Foi dito também: disse Rabi Chiya bar Gamda: (uma tradição) foi lançada da boca de um grupo de Sábios, e disseram: "ao fazê-la" — um indivíduo que a fez é responsável, dois que a fizeram estão isentos.

Nota

A Guemará levanta uma dificuldade mais profunda: mesmo que a Mishná só conte as isenções que "poderiam" gerar responsabilidade, ainda resta explicar por que, quando duas pessoas juntas completam de fato uma melachá inteira — uma levantando, a outra depositando —, ambas ficam isentas, já que o trabalho foi realmente feito. A resposta vem de uma baraita: o versículo sobre a oferenda pelo pecado individual (Vayikrá 4:27) fala de "quem a fizer" no singular, entendido por Rabi como exigindo que o mesmo indivíduo realize a ação inteira, do início ao fim; quando dois a dividem entre si, nenhum dos dois é responsável, por mais que o resultado final seja idêntico ao de uma melachá completa feita por um só. A mesma regra é atribuída, de forma independente, a uma tradição transmitida por Rabi Chiya bar Gamda em nome de um grupo de Sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "do povo da terra, ao fazê-la"
מעם הארץ בעשותה - גבי חטאת כתיב:

"'Do povo da terra, ao fazê-la'" — está escrito a respeito da oferenda de chatat.

06A pergunta de Rav a Rabi: carregar comida e bebida sobre um companheiro
Rav e Rabi
בְּעָא מִינֵּיהּ רַב מֵרַבִּי: הִטְעִינוֹ חֲבֵירוֹ אוֹכָלִין וּמַשְׁקִין, וְהוֹצִיאָן לַחוּץ, מַהוּ? עֲקִירַת גּוּפוֹ כַּעֲקִירַת חֵפֶץ מִמְּקוֹמוֹ דָּמֵי, וּמִיחַיַּיב, אוֹ דִילְמָא לָא? אֲמַר לֵיהּ: חַיָּיב, וְאֵינוֹ דּוֹמֶה לְיָדוֹ. מַאי טַעְמָא? — גּוּפוֹ נָיַיח, יָדוֹ לָא נָיַיח.

Perguntou Rav a Rabi: (se) seu companheiro o carregou com comidas e bebidas, e ele (o carregado) as tirou para fora — o que (é a lei)? O deslocar de seu corpo é equiparável ao levantamento de um objeto de seu lugar, e (portanto) ele se torna responsável, ou talvez não? Disse-lhe: é responsável, e (o caso) não é semelhante ao de sua mão. Qual é a razão? — Seu corpo repousa (antes de se mover, e seu movimento equivale a um levantamento); sua mão não repousa (da mesma forma, e por isso o caso da mão é diferente).

Nota

O daf termina com uma pergunta nova e independente de Rav a Rabi, deixando para trás a discussão sobre a Mishná de "yetziot Shabat". O caso: alguém que estava parado dentro de um domínio privado é carregado por um companheiro com alimentos e bebidas, e então caminha, com o corpo todo, até o domínio público — terá ele "levantado" o objeto que carrega, tornando-se responsável pela saída, tal como se tivesse levantado o objeto com a própria mão? Rabi responde que sim, e é ainda mais claro que o caso da mão isolada (do primeiro caso da Mishná, em que a mão do pobre entra vazia e recebe o objeto): o corpo inteiro, antes de começar a andar, estava em repouso completo sobre o chão, de modo que o próprio ato de pôr-se em marcha já constitui o levantamento do objeto de seu lugar — o que não ocorre com a mão sozinha, que nunca chega a ficar plenamente "em repouso" antes de se mover.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "carregou-o" e a distinção entre o corpo e a mão
הטעינו חבירו - שהיה גופו ברה"י והטעינו חבירו דאיהו גופיה לא עקר מידי:

"Seu companheiro o carregou" — (o caso é de alguém) cujo corpo estava no domínio privado, e seu companheiro o carregou, de modo que ele mesmo não levantou nada (com as próprias mãos).

אוכלין ומשקין - אורחא דמילתא נקט דבר הצריך לשבת ודרך בני אדם להתעסק בהן בשבת:

"Comidas e bebidas" — (a Guemará) menciona o caso comum: coisa necessária para o Shabat, sendo costume das pessoas ocupar-se com elas no Shabat.

עקירת גופו - שעקר את רגליו מן הבית לאחר שנטען:

"O deslocar de seu corpo" — que ele levantou seus pés da casa, depois de ter sido carregado.

ואינו דומה לידו - הפשוטה לפנים וגופו לחוץ ונתן בע"ה לתוכה דפטור ביה תנא דמתני' אף לעני שהוציאה:

"E não é semelhante ao de sua mão" — a que se estende para dentro, com o corpo do lado de fora, e o dono da casa deposita (o objeto) nela, caso em que o Tanna da Mishná isenta até mesmo o pobre que a tirou (pois foi apenas a mão, não o corpo, que se moveu).

ידו לא נייח - הלכך כי הוציאה לא עקר מידי ואין דרך הוצאה בלא עקירה והנחה:

"Sua mão não repousa" — por isso, quando a tirou para fora, não levantou nada; e não há modo de saída sem levantamento e deposição.

גופו נייח - ע"ג קרקע והויא עקירה. ל"א ידו בתר גופו גרירא ל"ג דיתירא היא:

"Seu corpo repousa" — sobre o chão, e (seu movimento) constitui levantamento. Outra versão: sua mão segue seu corpo (no repouso e no movimento); (mas) não se lê assim, pois seria supérfluo.