Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
יָדוֹ שֶׁל אָדָם

A repreensão de Rabi Chiya, a resposta sobre carregar comida antes do anoitecer, e o status da mão da pessoa

Shabbat 3b — a dúvida de Abaye sobre a mão como karmelit, e quatro resoluções sucessivas de uma contradição entre baraitot

Rabi Chiya repreende Rav por ter feito uma pergunta fora do assunto que Rabi estudava, mas reconhece que a resposta de Rabi — de que quem é carregado com comida e bebida antes do anoitecer e as tira para a rua depois de escurecer é responsável — foi excelente, apoiada numa baraita. A partir daí, Abaye afirma como óbvio que a mão de uma pessoa, estendida para outro domínio, não é considerada nem domínio público nem domínio privado, e levanta a dúvida se ela se torna karmelit — a ponto de os Sábios proibirem trazê-la de volta. A Guemará tenta resolver essa dúvida a partir de uma contradição entre duas baraitot sobre a mão cheia de frutas estendida para fora, e propõe, uma após a outra, quatro distinções possíveis (altura acima ou abaixo de dez palmos; antes ou depois do anoitecer; agente involuntário ou deliberado; e decreto sobre o involuntário por causa do deliberado), cada uma sendo contestada e substituída pela seguinte, sem que a dúvida de Abaye chegue a uma resolução definitiva neste daf. No caminho, a Guemará também usa essa análise para tentar resolver a dúvida paralela de Rav Beivai bar Abaye sobre o pão colado ao forno.

A Guemará · הַגְּמָרָא

01A repreensão de Rabi Chiya a Rav
Rabi Chiya e Rav
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי חִיָּיא לְרַב: בַּר פַּחֲתֵי! לָא אָמֵינָא לָךְ, כִּי קָאֵי רַבִּי בְּהָא מַסֶּכְתָּא לָא תְּשַׁיְּילֵיהּ בְּמַסֶּכְתָּא אַחֲרִיתִי, דִּילְמָא לָאו אַדַּעְתֵּיהּ. דְּאִי לָאו דְּרַבִּי גַּבְרָא רַבָּה הוּא — כַּסֵּפְתֵּיהּ, דִּמְשַׁנֵּי לָךְ שִׁינּוּיָא דְּלָאו שִׁינּוּיָא הוּא.

Disse-lhe Rabi Chiya a Rav (filho de sua irmã): filho de grandes homens! Não te disse eu: quando Rabi está ocupado neste tratado, não lhe perguntes sobre outro tratado, para que (o assunto) não esteja em sua mente (e ele não saiba responder)? Pois se não fosse Rabi um grande homem, terias envergonhado-o, pois (ele teria sido forçado a) dar-te uma resposta que não é uma resposta (adequada).

Nota

Este daf abre com uma repreensão que retrocede à cena do final de 3a: Rav havia perguntado a Rabi sobre carregar comida e bebida sobre um companheiro, questão que nada tinha a ver com o tratado que Rabi estudava naquele momento. Rabi Chiya, tio de Rav, censura-o por isso: perguntar a um mestre sobre um assunto alheio ao que ele está estudando arrisca constrangê-lo, pois ele pode não ter o tema fresco na mente e responder de modo inadequado. Só o fato de Rabi ser um sábio de grandeza excepcional evitou o constrangimento.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "filho de grandes homens" e "não lhe perguntes"
בר פחתי - בן גדולים:

"Filho de grandes homens" — filho de (pessoas) importantes.

לא תשייליה - כלומר שאין לבו למס' זו שמא יתבייש:

"Não lhe perguntes" — ou seja, (quando) sua mente não está voltada para este tratado, para que não se envergonhe.

02Mas a resposta foi excelente: a baraita sobre carregar antes do anoitecer
הַשְׁתָּא מִיהַת שַׁפִּיר מְשַׁנֵּי לָךְ. דְּתַנְיָא: הָיָה טָעוּן אוֹכָלִין וּמַשְׁקִין מִבְּעוֹד יוֹם, וְהוֹצִיאָן לַחוּץ מִשֶּׁחָשֵׁיכָה — חַיָּיב, לְפִי שֶׁאֵינוֹ דּוֹמֶה לְיָדוֹ.

Agora, de qualquer modo, ele te respondeu bem. Pois foi ensinado (em uma baraita): se alguém estava carregado com comidas e bebidas ainda de dia, e as tirou para fora depois de escurecer — é responsável, pois (o caso) não é semelhante ao de sua mão.

Nota

Apesar da repreensão, Rabi Chiya reconhece que a resposta de Rabi a Rav — de que carregar o corpo inteiro é equiparável a levantar um objeto, mesmo que o carregamento tenha começado antes do início do Shabat — está corretamente fundamentada em uma baraita independente. A baraita trata de um caso ainda mais amplo: mesmo que a pessoa já estivesse carregada com comida e bebida desde antes do anoitecer (portanto, sem ter realizado nenhum levantamento em Shabat), o simples ato de sair para a rua depois de escurecer, com o corpo em movimento, já constitui o levantamento do objeto — tornando-a responsável. Isso reforça a distinção do daf anterior: o corpo, que estava em repouso, e cujo movimento constitui levantamento, difere da mão, que nunca chega a ficar plenamente em repouso.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ainda de dia" e "não é semelhante à sua mão"
מבעוד יום - דהיינו דומיא דהטעינו חברו בשבת דהכא והכא ליכא עקירה דאיסור גביה:

"Ainda de dia" — isto é, semelhante ao caso de "seu companheiro o carregou" em Shabat (mencionado no daf anterior), pois tanto aqui quanto ali não há levantamento proibido da parte dele (mesmo assim, torna-se responsável ao sair).

שאינו דומה לידו - הפשוטה לפנים וגופו לחוץ ונתן חברו לתוכה:

"Não é semelhante à sua mão" — a (mão) que se estende para dentro, com o corpo do lado de fora, e o companheiro deposita (o objeto) nela.

03Abaye: a mão da pessoa não é nem domínio público nem domínio privado
Abaye
אָמַר אַבָּיֵי: פְּשִׁיטָא לִי יָדוֹ שֶׁל אָדָם אֵינָהּ לֹא כִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְלֹא כִּרְשׁוּת הַיָּחִיד. כִּרְשׁוּת הָרַבִּים לָא דָּמְיָא — מִיָּדוֹ דְעָנִי. כִּרְשׁוּת הַיָּחִיד לָא דָּמְיָא — מִיָּדוֹ דְּבַעַל הַבַּיִת.

Disse Abaye: é óbvio para mim que a mão de uma pessoa não é como o domínio público, nem como o domínio privado. Que não é como o domínio público — (prova) a partir da mão do pobre; que não é como o domínio privado — (prova) a partir da mão do dono da casa.

Nota

Abaye extrai uma conclusão a partir da Mishná estudada nos dafim anteriores. Se a mão do pobre, estendida ao domínio público e carregando um objeto, fosse considerada parte do domínio público, o dono da casa que a esvazia estaria transferindo um objeto do domínio público para o privado e seria responsável — mas a Mishná o isenta. Da mesma forma, se a mão do dono da casa, estendida ao domínio privado, fosse considerada parte do domínio privado, o pobre que a esvazia seria responsável por retirar do privado ao público — mas a Mishná também o isenta. Logo, a mão de uma pessoa, quando estendida a um domínio diferente daquele onde a pessoa está, não assume a condição desse domínio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a prova a partir da mão do pobre e do dono da casa
אמר אביי פשיטא לי - ממתניתין דידו של אדם הפשוטה לרשות אחרת אינה נזרקת אחר גופו לגמרי להיות כרשות שהוא עומד בה בין שהוא רשות היחיד בין שהוא רשות הרבים:

"Disse Abaye: é óbvio para mim" — a partir da nossa Mishná, que a mão de uma pessoa, estendida a outro domínio, não é totalmente arrastada atrás do seu corpo para ser como o domínio em que ele está, seja domínio privado, seja domínio público.

כרה"ר לא דמיא מידו דעני - דקתני מתני' דכי נטל בע"ה מתוכה פטור:

"Não é como o domínio público — a partir da mão do pobre" — pois a Mishná ensina que, quando o dono da casa toma (o objeto) dela, está isento.

וכרה"י לא דמיא - אם פשוטה לרשות הרבים:

"E não é como o domínio privado" — se (a mão) está estendida ao domínio público.

מידו דבע"ה - דקתני נטל עני מתוכה פטור:

"A partir da mão do dono da casa" — pois a Mishná ensina que, quando o pobre toma (o objeto) dela, está isento.

04A dúvida de Abaye: a mão se torna karmelit?
Abaye
בָּעֵי אַבָּיֵי: יָדוֹ שֶׁל אָדָם, מַהוּ שֶׁתֵּעָשֶׂה כְּכַרְמְלִית? מִי קַנְסוּהּ רַבָּנַן לְאַהְדּוֹרֵי לְגַבֵּיהּ, אוֹ לָא?

Levantou Abaye a dúvida: a mão de uma pessoa, o que (é a lei quanto) a tornar-se como karmelit? Acaso os Sábios a penalizaram, (proibindo) trazê-la de volta a si mesmo, ou não?

Nota

Se a mão estendida a outro domínio não é nem público nem privado, talvez os Sábios a tenham decretado como um domínio intermediário próprio — karmelit — precisamente porque deixou de estar "arrastada" atrás do corpo. A dúvida prática de Abaye: se alguém estende a mão cheia de um objeto a um domínio diferente do seu, os Sábios proibiram trazer essa mão de volta, como penalidade, do mesmo modo que proíbem tirar um objeto de uma karmelit real?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a dúvida e o conceito de karmelit
בעי אביי - השתא דחזינן דלאו בתר גופו שדינן לה לענין איחיובי מדאורייתא אלמא איפלוג רשותא מי אחמור עלה רבנן למיהוי כרמלית דהיכא דהושיט ידו מלאה לרשות אחרת לא יחזירנה אצלו ותהא כך פשוטה עד שתחשך דכיון דלאו בתר גופו גרירא נעשית לה רשות אחרת מדרבנן דגזור רשות מדבריהם לשבת שאסור להכניס ולהוציא ממנו לרה"י ולרה"ר ושמו כרמלית כדתניא בפרקין (דף ו.) ד' רשויות לשבת כרמלית לשון יערו וכרמלו שאינו לא הילוך תמיד לרבים ולא תשמיש רה"י:

"Levantou Abaye a dúvida" — agora que vemos que (a mão) não é lançada atrás do corpo quanto a tornar-se responsável por Torá, ficou (a mão) separada como (seu próprio) domínio. Acaso os Sábios a agravaram, para que se torne karmelit, de modo que, quando alguém estende sua mão cheia a outro domínio, não a traga de volta a si, e ela permaneça assim estendida até escurecer? Pois, já que não é arrastada atrás do corpo, torna-se um domínio à parte por decreto rabínico — (os Sábios) decretaram um domínio por suas próprias palavras para o Shabat, no qual é proibido trazer para dentro e tirar para fora, em direção ao domínio privado e ao domínio público, e seu nome é karmelit, como foi ensinado neste capítulo (adiante, 6a): há quatro domínios para o Shabat. Karmelit(termo relacionado a) "seu bosque e seu campo cultivado" (karmo), pois não é nem de trânsito constante para o público, nem de uso do domínio privado.

מי קנסוה - הואיל והתחיל בה באיסור:

"Acaso (os Sábios) a penalizaram" — visto que (a pessoa) começou com ela em proibição.

05Traz-se uma prova: a contradição entre duas baraitot sobre a mão cheia de frutas
תָּא שְׁמַע: הָיְתָה יָדוֹ מְלֵאָה פֵּירוֹת וְהוֹצִיאָהּ לַחוּץ, תָּנֵי חֲדָא אָסוּר לְהַחֲזִירָהּ, וְתָנֵי אִידַּךְ מוּתָּר לְהַחֲזִירָהּ. מַאי לָאו בְּהָא קָמִיפַּלְגִי? דְּמָר סָבַר כְּכַרְמְלִית דָּמְיָא, וּמָר סָבַר לָאו כְּכַרְמְלִית דָּמְיָא?!

Vem (e) ouve: se sua mão estava cheia de frutas e ele a tirou para fora — foi ensinado em uma (baraita) que é proibido trazê-la de volta, e foi ensinado em outra que é permitido trazê-la de volta. Acaso não é sobre isto que discordam: que um mestre entende que é como karmelit, e outro mestre entende que não é como karmelit?!

Nota

A Guemará tenta resolver a dúvida de Abaye a partir de uma contradição aparente entre duas baraitot: uma proíbe trazer de volta a mão cheia de frutas estendida para fora, e outra permite. A leitura mais simples seria que essa contradição reflete exatamente a dúvida de Abaye: o Tanna que proíbe considera a mão estendida como tendo assumido o status de karmelit (da qual não se pode retirar objetos livremente), enquanto o Tanna que permite considera que não.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento além do já citado nas notas anteriores; o raciocínio de Rashi sobre "vem e ouve" acompanha diretamente o texto da Guemará.

06Primeira resposta: acima ou abaixo de dez palmos
לָא, דְּכוּלֵּי עָלְמָא כְּכַרְמְלִית דָּמְיָא, וְלָא קַשְׁיָא: כָּאן, לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה. כָּאן, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה.

Não; para todos, (a mão) é equiparável a karmelit, e não é difícil: aqui, (trata-se de mão estendida) abaixo de dez (palmos); ali, acima de dez (palmos).

Nota

A Guemará rejeita a primeira leitura: na verdade, todos concordam que a mão estendida se torna como karmelit. A baraita que proíbe trazer de volta trata de uma mão estendida abaixo de dez palmos de altura, dentro do espaço aéreo do domínio público — ali a mão realmente assume o status de karmelit. A baraita que permite trata de uma mão estendida acima de dez palmos, fora desse espaço aéreo — ali o objeto não está nem no domínio público nem em karmelit, sendo permitido devolvê-lo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "abaixo de dez" e "acima de dez"
למטה מי' - רה"ר הוא קנסוה רבנן ושויוה כרמלית דלא ליהדרה:

"Abaixo de dez" — é domínio público; os Sábios a penalizaram e a tornaram como karmelit, para que não a traga de volta.

למעלה מי' - דאויר מקום פטור הוא כדתנן בהזורק (לקמן שבת ק.) הזורק ד"א בכותל למעלה מי' טפחים כזורק באויר ופטור דלא הוי רה"ר למעלה מי' הלכך לא קנסוה דלאו איסורא עביד:

"Acima de dez" — pois (esse) espaço aéreo é um lugar isento, como aprendemos em "o que lança" (adiante, Shabat 100a): quem lança quatro amot contra uma parede acima de dez palmos é como quem lança no ar, e está isento, pois não há domínio público acima de dez (palmos); por isso não o penalizaram, já que não cometeu proibição alguma.

07Segunda resposta: antes ou depois do anoitecer
וְאִיבָּעֵית אֵימָא: אִידֵּי וְאִידֵּי לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה וְלָאו כְּכַרְמְלִית דָּמְיָא, וְלָא קַשְׁיָא: כָּאן מִבְּעוֹד יוֹם, כָּאן מִשֶּׁחָשֵׁיכָה. מִבְּעוֹד יוֹם — לָא קַנְסוּהּ רַבָּנַן, מִשֶּׁחָשֵׁיכָה — קַנְסוּהּ רַבָּנַן.

E, se quiseres, diz: uma (baraita) e outra tratam de (mão estendida) abaixo de dez, e (a mão) não é equiparável a karmelit, e não é difícil: aqui, (trata-se de mão estendida) ainda de dia; ali, depois de escurecer. Ainda de dia — os Sábios não a penalizaram; depois de escurecer — os Sábios a penalizaram.

Nota

Uma segunda distinção possível, que dispensa o conceito de altura: ambas as baraitot tratam de mão estendida abaixo de dez palmos, e nenhuma das duas trata a mão como karmelit propriamente. A diferença está no momento: quando a mão foi estendida ainda de dia (antes do início do Shabat), nada de proibido foi feito, e os Sábios não penalizaram; quando foi estendida depois de escurecer, já em Shabat, há um elemento de proibição, e por isso os Sábios penalizaram, proibindo devolvê-la.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não é equiparável a karmelit" e as duas ocasiões
ואיבעית אימא אידי ואידי למטה מי' טפחים ולא ככרמלית דמיא - למהוי רשות לעצמה:

"E, se quiseres, diz: uma e outra (tratam de mão estendida) abaixo de dez palmos, e não é equiparável a karmelit" — a ponto de se tornar um domínio à parte.

כאן מבע"י - הושיטה מבע"י מחזירה משתחשך דלאו רשות לעצמה היא אלא בתר גופו גרירא:

"Aqui, ainda de dia" — se a estendeu ainda de dia, pode trazê-la de volta depois de escurecer, pois não é um domínio à parte, mas segue arrastada atrás do corpo.

כאן משתחשך - הושיטה משחשיכה קנסוה ולא שתהא רשות לעצמה דא"כ אף מבעוד יום מיתסרא אלא קנסא בעלמא:

"Aqui, depois de escurecer" — se a estendeu depois de escurecer, penalizaram-no; e não é que (a mão) se torne domínio à parte, pois, se assim fosse, também (quando estendida) ainda de dia seria proibida — mas é apenas uma penalidade.

08Objeção: o contrário seria mais lógico
אַדְּרַבָּה, אִיפְּכָא מִסְתַּבְּרָא! מִבְּעוֹד יוֹם, דְּאִי שָׁדֵי לֵיהּ לָא אָתֵי לִידֵי חִיּוּב חַטָּאת — לִיקְנְסוּהּ רַבָּנַן. מִשֶּׁחָשֵׁיכָה, דְּאִי שָׁדֵי לֵיהּ אָתֵי בְּהוּ לִידֵי חִיּוּב חַטָּאת — לָא לִיקְנְסוּהּ רַבָּנַן.

Pelo contrário, o oposto é mais lógico! Ainda de dia, (quando), se a lançasse, não chegaria a uma responsabilidade por chatat — que os Sábios a penalizassem; depois de escurecer, (quando), se a lançasse, chegaria por elas a uma responsabilidade por chatat — que os Sábios não a penalizassem!

Nota

A Guemará contesta a lógica da distinção anterior: seria mais razoável o oposto. Se a mão foi estendida ainda de dia, largar o objeto não geraria responsabilidade por chatat (pois o levantamento ocorreu num dia comum) — aí os Sábios poderiam se dar ao luxo de penalizar, proibindo devolver a mão. Mas se foi estendida depois de escurecer, já em Shabat, largar o objeto geraria uma transgressão plena da Torá — e por isso os Sábios não deveriam penalizar, para não forçar a pessoa a violar uma proibição bíblica apenas para evitar uma proibição rabínica.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ainda de dia, se a lançasse"
מבע"י דאי שדי ליה - כלומר היכא דהושיטה מבעוד יום שאם תאסרנה להחזירה וישליך מידו החפץ כדי להקל טרחו לא אתי לידי חיוב חטאת דלא הוי עקירה בשבת אלא הנחה לחודיה ואיסורא דרבנן הוא דאיכא דעשה מקצתה וכדתנן שניהן פטורין אבל אסורין קנסוה רבנן שלא יחזירנה אבל היכא דהושיטה משחשכה דאי שדי ליה מידו על ידי קנס שתאסרנו להחזירה נמצא מתחייב חטאת אם שוגג הוא דעביד ליה עקירה והנחה לא קנסוה רבנן דמוטב שלא נקנסנו משנגרום לבא לידי חילול שבת דאורייתא ומדלא חיישת להכי תפשוט בעיא דרב ביבי דלא נמנעו חכמים מלהעמיד דבריהם מפני חשש שמא לא יעמוד האדם בהם ויעשה איסור חמור:

"Ainda de dia, se a lançasse" — ou seja, no caso de tê-la estendido ainda de dia, se (os Sábios) a proibissem de trazê-la de volta e (a pessoa) lançasse o objeto de sua mão para aliviar o esforço, não chegaria a uma responsabilidade por chatat, pois não houve levantamento em Shabat, apenas deposição isolada, sendo apenas proibição rabínica, já que fez parte da ação, como ensinamos: "ambos ficam isentos, porém proibidos" — (por isso) os Sábios a penalizaram, para que não a trouxesse de volta. Mas no caso de tê-la estendido depois de escurecer, se (os Sábios), por meio da penalidade, a proibissem de trazê-la de volta, resultaria em tornar-se responsável por chatat — se agiu sem querer —, pois (o lançamento) constitui levantamento e deposição (completos em Shabat); (por isso) os Sábios não a penalizaram, pois é melhor que não a penalizemos do que causarmos que se chegue à profanação do Shabat por Torá. E, do fato de não te preocupares com isto, resolve-se a dúvida de Rav Beivai, de que os Sábios não deixaram de manter suas palavras por receio de que a pessoa não as cumpra e cometa uma proibição grave.

09A dúvida paralela de Rav Beivai bar Abaye: o pão colado ao forno
Rav Beivai bar Abaye
וּמִדְּלָא קָא מְשַׁנִּינַן הָכִי, תִּפְשׁוֹט דְּרַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי. דְּבָעֵי רַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי: הִדְבִּיק פַּת בַּתַּנּוּר, הִתִּירוּ לוֹ לִרְדּוֹתָהּ קוֹדֶם שֶׁיָּבֹא לִידֵי חִיּוּב חַטָּאת, אוֹ לֹא הִתִּירוּ?

E, do fato de não distinguirmos assim, resolve-se (a dúvida) de Rav Beivai bar Abaye. Pois levantou Rav Beivai bar Abaye a dúvida: se alguém colou pão ao forno (em Shabat, por engano), permitiram-lhe retirá-lo antes que chegasse a uma responsabilidade por chatat, ou não permitiram?

Nota

A Guemará conecta a discussão anterior a uma dúvida análoga: alguém que, por engano, colou massa de pão à parede interna de um forno aquecido em Shabat — antes que o pão termine de assar (o que geraria responsabilidade plena por chatat) — pode retirá-lo, mesmo que retirar seja também proibido, porém apenas por decreto rabínico (por assemelhar-se à colheita, "rediá")? A questão de fundo é a mesma: pode-se violar uma proibição rabínica para evitar uma transgressão da Torá?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "colou pão ao forno" e "permitiram-lhe"
הדביק פת בתנור - בשבת בשוגג ונזכר שהוא שבת קודם שתאפה וקיימא לן (לקמן שבת דף קיז:) דרדיית הפת שבות היא שהיא חכמה ואינה מלאכה:

"Colou pão ao forno" — em Shabat, por engano, e lembrou-se de que era Shabat antes que (o pão) assasse; e sustentamos (adiante, Shabat 117b) que retirar o pão é shevut (proibição rabínica), pois é (apenas) habilidade e não melachá.

התירו לו - את האיסור מדבריהם וירדנה קודם שתאפה ויתחייב משום אופה שהוא אב מלאכה או לא התירו לרדותה ולהוציאה מן התנור:

"Permitiram-lhe" — a proibição por palavras deles, e (que) o retire antes que asse e se torne responsável por assar, que é uma av melachá (categoria principal de trabalho proibido); ou não permitiram retirá-lo e tirá-lo do forno.

10Tentativa de resolução: não permitiram — e a Guemará confirma
תִּפְשׁוֹט דְּלֹא הִתִּירוּ. הָא לָא קַשְׁיָא, וְתִפְשׁוֹט.

Resolve-se que não permitiram. (Mas) isso não é difícil, e (ainda assim) resolve-se.

Nota

A conclusão momentânea, retomando o raciocínio do segmento 8: já que os Sábios não penalizaram no caso da mão estendida depois de escurecer (para não forçar uma transgressão da Torá), por analogia também não deveriam ter permitido retirar o pão do forno antes de assar — ou seja, mantiveram a proibição rabínica mesmo correndo o risco de uma transgressão maior, contrariando a lógica de "isso não é difícil" aplicada aqui.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; o raciocínio é uma continuação direta do segmento anterior.

11Terceira resposta: involuntário ou deliberado
וְאִיבָּעֵית אֵימָא, לְעוֹלָם לָא תִּפְשׁוֹט, וְלָא קַשְׁיָא: כָּאן בְּשׁוֹגֵג, כָּאן בְּמֵזִיד. בְּשׁוֹגֵג — לָא קַנְסוּהּ רַבָּנַן. בְּמֵזִיד קַנְסוּהּ רַבָּנַן.

E, se quiseres, diz: na verdade, não se resolve, e não é difícil: aqui, (trata-se de quem agiu) por engano; ali, deliberadamente. Por engano — os Sábios não o penalizaram. Deliberadamente — os Sábios o penalizaram.

Nota

A Guemará retira a conclusão anterior e propõe uma terceira distinção, agora abandonando também a divisão entre "ainda de dia" e "depois de escurecer": a baraita que permite devolver a mão trata de quem a estendeu por engano, e ali os Sábios não penalizaram; a que proíbe trata de quem a estendeu deliberadamente, e ali os Sábios penalizaram. Com isso, a dúvida de Rav Beivai bar Abaye volta a ficar sem resolução a partir daqui.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "por engano" e por que a dúvida de Rav Beivai permanece
בשוגג לא קנסוה רבנן כו' - ודרב ביבי לא תפשוט מהכא לא לאיסור ולא להיתר דהאי דלא קנסוה בשוגג לאו משום חששא דדילמא שדי להו מידיה הוא אלא משום דלא עבד איסורא במזיד וחזרת ידו אינה אפילו שבות אי לא משום קנסא והכא לא קניס אבל רדיית הפת שבות הוא ונגזרה במנין ומשום קודם שיבא לידי חיוב חטאת לא בטלו גזירתם ולאיסור נמי לא תפשוט מדקנסו במזיד דהתם ליכא למיחש דילמא לישדינהו שיתחייב מיתת בית דין אבל הכא אי קנסינן ליה מלרדות על כרחיך יתחייב מיתת בית דין:

"Por engano, os Sábios não o penalizaram" — e (a dúvida) de Rav Beivai não se resolve a partir daqui, nem para proibir nem para permitir, pois o fato de não terem penalizado o involuntário não é por receio de que ele lance (o objeto) de sua mão, mas porque não cometeu proibição deliberadamente, e trazer a mão de volta não é sequer shevut, salvo pela penalidade — e aqui não penalizaram. Mas retirar o pão é shevut, decretado por votação (dos Sábios), e, por causa de (evitar que a pessoa chegue) a uma responsabilidade por chatat, não anularam o decreto deles. E, para proibir, também não se resolve a partir do fato de terem penalizado o deliberado, pois ali não há receio de que (a pessoa) a lance e se torne responsável por pena de morte por tribunal; mas aqui, se o penalizássemos (proibindo-o) de retirar, ele necessariamente se tornaria responsável por pena de morte por tribunal.

12Quarta resposta: decreto sobre o involuntário por causa do deliberado
וְאִיבָּעֵית אֵימָא, אִידֵּי וְאִידֵּי בְּשׁוֹגֵג, וְהָכָא בְּקָנְסוּ שׁוֹגֵג אַטּוּ מֵזִיד קָמִיפַּלְגִי: מָר סָבַר קָנְסוּ שׁוֹגֵג אַטּוּ מֵזִיד. וּמָר סָבַר לֹא קָנְסוּ שׁוֹגֵג אַטּוּ מֵזִיד.

E, se quiseres, diz: uma (baraita) e outra tratam de (quem agiu) por engano, e aqui discordam sobre se os Sábios penalizaram o involuntário por causa do deliberado: um mestre entende que os Sábios penalizaram o involuntário por causa do deliberado. E outro mestre entende que os Sábios não penalizaram o involuntário por causa do deliberado.

Nota

Uma quarta distinção: ambas as baraitot tratam de quem estendeu a mão por engano; a diferença é uma disputa teórica entre dois Tannaim sobre se os Sábios, ao decretarem proibições, incluem também o agente involuntário dentro do mesmo decreto que visa impedir o deliberado, para que este não se aproveite da situação. Quem sustenta que sim proíbe devolver a mão mesmo ao involuntário; quem sustenta que não, permite.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; o raciocínio acompanha diretamente o texto da Guemará, já explicado nos segmentos anteriores.

13Última resposta: mesmo pátio ou pátio diferente
וְאִיבָּעֵית אֵימָא, לְעוֹלָם לֹא קָנְסוּ, וְלָא קַשְׁיָא: כָּאן לְאוֹתָהּ חָצֵר,

E, se quiseres, diz: na verdade, não penalizaram, e não é difícil: aqui, (trata-se de devolver a mão) para aquele mesmo pátio, (mas para outro pátio próximo, é proibido).

Nota

A quinta e última distinção oferecida neste daf: na verdade, os Sábios nunca penalizaram o involuntário por causa do deliberado; a contradição entre as baraitot se explica de outro modo — a baraita que permite devolver a mão trata de devolvê-la ao mesmo pátio de onde partiu, situação em que não há elemento adicional de proibição, e por isso é permitido; a que proíbe trata de um pátio diferente e adjacente, para onde seria proibido lançar o objeto — daí a proibição. A frase é retomada e completada no início do daf 4a, e por isso este daf termina em aberto, no meio da distinção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "para aquele mesmo pátio"
לאותה חצר - שהוא עומד בתוכה מותר להחזירה אבל לחצר אחרת הסמוכה לה אסור לזורקם:

"Para aquele mesmo pátio" — em que (a pessoa) está — é permitido trazê-la de volta; mas para outro pátio próximo a ele, é proibido lançá-los.