Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
לְחָצֵר אַחֶרֶת

O pátio diferente, a dúvida de Rav Beivai sobre o pão colado ao forno, e a mão do pobre estendida

Shabbat 4a — a resposta final de Rav Nachman a Rava, quatro tentativas de resolver a dúvida de Rav Beivai bar Abaye, e o início da sugya sobre a mão do pobre na Mishná

O daf abre completando a distinção deixada em aberto no final de 3b: Rav Nachman explica a Rava que devolver a mão cheia de frutas ao mesmo pátio é permitido, mas a um pátio diferente é proibido, porque só neste último a intenção de esvaziar a mão naquele lugar chegou a se realizar. A Guemará então retoma formalmente (guf) a dúvida de Rav Beivai bar Abaye sobre quem colou pão ao forno em Shabat por engano: pode retirá-lo antes de ficar responsável por chatat, ou por apedrejamento? Segue-se uma sequência de tentativas — de Rav Acha bar Abaye, Rav Sheila, Rav Sheshet e Rav Ashi — para determinar se o caso é de erro ou de ato deliberado, e o que exatamente os Sábios permitiram, até que Rav Acha filho de Rava ensina explicitamente a versão final: permitiram retirar o pão antes de chegar à proibição de apedrejamento. O daf então passa a uma nova unidade, ainda ligada à Mishná do início do tratado: por que o pobre que estende a mão para dentro da casa e a esvazia é responsável, se não houve um lugar de quatro por quatro tefachim sobre o qual pousar o objeto? Rabá atribui a Mishná a Rabi Akiva, que dispensa essa exigência, com base na disputa sobre quem lança de um domínio privado a outro passando pelo domínio público — e o daf termina no meio da explicação do princípio de Rabi Akiva, "o que é capturado no ar é como se estivesse pousado" (keluta).

A Guemará · הַגְּמָרָא

01Rav Nachman a Rava: para o mesmo pátio, permitido; para outro, proibido
Rav Nachman e Rava
כָּאן לְחָצֵר אַחֶרֶת. כְּדִבְעָא מִינֵּיהּ רָבָא מֵרַב נַחְמָן: הָיְתָה יָדוֹ מְלֵאָה פֵּירוֹת וְהוֹצִיאָהּ לַחוּץ, מַהוּ לְהַחֲזִירָהּ לְאוֹתָהּ חָצֵר? אָמַר לֵיהּ: מוּתָּר. לְחָצֵר אַחֶרֶת מַהוּ? אָמַר לֵיהּ: אָסוּר.

Aqui, (trata-se de devolvê-la) a outro pátio. (Isso é) como perguntou Rava a Rav Nachman: se sua mão estava cheia de frutas e ele a tirou para fora, o que (é a lei quanto) a trazê-la de volta para aquele mesmo pátio? Disse-lhe: é permitido. E a outro pátio, o que (é a lei)? Disse-lhe: é proibido.

Nota

Este segmento completa a frase deixada interrompida no final de 3b. A quinta e última distinção do daf anterior fica assim fechada: a baraita que permite devolver a mão trata de devolvê-la ao mesmo pátio de onde ela partiu; a que proíbe trata de devolvê-la a um pátio diferente. A Guemará traz o apoio direto para essa distinção na pergunta que Rava fez a seu mestre Rav Nachman, que respondeu exatamente nesses termos: para o mesmo pátio, permitido; para outro pátio, proibido.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; a formulação da pergunta e resposta de Rava e Rav Nachman é direta e acompanha o texto já explicado ao final de 3b.

02Por que a diferença? Porque ali a intenção não se realizou
וּמַאי שְׁנָא! לְכִי תֵּיכוּל עֲלַהּ כּוֹרָא דְּמִילְחָא. הָתָם, לָא אִיתְעֲבִידָא מַחְשַׁבְתּוֹ. הָכָא, אִיתְעֲבִידָא מַחְשַׁבְתּוֹ.

E qual é a diferença? (Explica isso) quando comeres sobre ela um cor de sal (ditado irônico, equivalente a "quando quiseres saber"). Ali (no mesmo pátio), não se realizou seu pensamento; aqui (em pátio diferente), realizou-se seu pensamento.

Nota

A Guemará pergunta, com uma expressão irônica, o motivo da diferença entre os dois casos, e responde com o conceito de intenção (machshavá): quando a pessoa estende a mão para tirar frutas para o mesmo pátio onde já está, sua intenção original era permanecer ali — o fato de a mão ter saído brevemente para fora não realiza nenhuma intenção nova, e por isso é permitido devolvê-la. Mas quando estende a mão para tirar as frutas destinando-as a outro pátio, sua intenção de transferir o objeto para lá já se cumpriu ao estender a mão — e por isso os Sábios temem que, se puder devolvê-la, em outra ocasião ele efetivamente lance o objeto ao domínio público.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "quando comeres sobre ela um cor de sal" e "sua intenção"
לכי תיכול עלה כורא דמילחא - בבדיחותא אהדר ליה כשתמדוד לי כור של מלח אומר לך טעמו של דבר לישנא אחרינא לכשתאכל עליה כור של מלח לא תוכל להשוותם זו לזו:

"Quando comeres sobre ela um cor de sal" — em tom de brincadeira lhe respondeu (Rav Nachman): quando me medires um cor de sal, (então) te direi o motivo da coisa. Outra explicação: quando comeres sobre ela um cor de sal, não conseguirás igualar uma coisa à outra (ou seja, é uma pergunta sem resposta simples, ou que exige muito tempo para explicar).

מחשבתו - שנתכוון לפנותה מחצר זה לא נתקיימה הלכך לא גזרו אבל לחצר אחרת נתקיימה מחשבתו וגזור דילמא זימנא אחריתי שדי להו לרה"ר:

"Sua intenção" — que teve a intenção de esvaziá-la (a mão) deste pátio não se realizou (quando devolve ao mesmo pátio); por isso não decretaram (proibição). Mas (quando pretendia esvaziá-la) para outro pátio, sua intenção se realizou, e decretaram (proibição), para que não suceda que, em outra ocasião, a lance ao domínio público.

03Retomando o assunto: a dúvida de Rav Beivai bar Abaye
Rav Beivai bar Abaye
גּוּפָא. בָּעֵי רַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי: הִדְבִּיק פַּת בַּתַּנּוּר הִתִּירוּ לוֹ לִרְדּוֹתָהּ קוֹדֶם שֶׁיָּבוֹא לִידֵי חִיּוּב חַטָּאת, אוֹ לֹא הִתִּירוּ?

(Voltando) ao assunto em si: levantou Rav Beivai bar Abaye a dúvida: se alguém colou pão ao forno, permitiram-lhe retirá-lo antes que chegasse a uma responsabilidade por chatat, ou não permitiram?

Nota

A expressão guf ("o assunto em si") sinaliza que a Guemará retorna, de modo formal e detido, à dúvida de Rav Beivai bar Abaye já mencionada de passagem ao final de 3b, para agora tratá-la com atenção própria, independentemente da tentativa anterior de resolvê-la a partir da mão estendida.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; o caso já foi explicado no comentário de Rashi ao final de 3b, sobre "colou pão ao forno" e "permitiram-lhe".

04Rav Acha bar Abaye a Ravina: como se entende o caso?
Rav Acha bar Abaye e Ravina
אֲמַר לֵיהּ רַב אַחָא בַּר אַבָּיֵי לְרָבִינָא: הֵיכִי דָּמֵי? אִילֵּימָא בְּשׁוֹגֵג וְלָא אִידְּכַר לֵיהּ, לְמַאן הִתִּירוּ?

Disse-lhe Rav Acha bar Abaye a Ravina: como se entende (o caso)? Se dissermos que (agiu) por engano e não se lembrou (de que era Shabat, antes de o pão assar), a quem permitiram (retirá-lo)?

Nota

Rav Acha bar Abaye desafia a própria formulação da dúvida: se a pessoa colou o pão por engano e não percebeu seu erro antes de o pão terminar de assar, ela nunca chegou a pedir permissão para retirá-lo — pois não sabia que havia algo a corrigir. A pergunta "permitiram ou não permitiram" só faz sentido para alguém que está ciente da situação e pode agir; por isso esse cenário não se encaixa na dúvida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não se lembrou" e "a quem permitiram"
ולא אידכר - קודם אפייה על שגגתו שהיא שבת או שמלאכה זו אסורה:

"E não se lembrou" — antes de assar, de seu engano, seja de que era Shabat, seja de que este trabalho é proibido.

למאן התירו - הא לא מסיק אדעתיה לבא לישאל על כך:

"A quem permitiram" — pois (a pessoa) não tem isso em mente para vir perguntar sobre o assunto.

05Se lembrou depois: não haveria responsabilidade mesmo assim
וְאֶלָּא לָאו דְּאִיהַדַּר וְאִידְּכַר, מִי מִחַיַּיב?! וְהָתְנַן: כׇּל חַיָּיבֵי חֲטָאוֹת — אֵינָן חַיָּיבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן שְׁגָגָה וְסוֹפָן שְׁגָגָה.

Mas então, não é que voltou e se lembrou (antes de assar)? (Nesse caso), acaso ficaria responsável? E não aprendemos: todos os responsáveis por chatat não são responsáveis, a menos que seu início seja engano e seu fim seja engano?

Nota

Rav Acha bar Abaye propõe a alternativa: talvez a pessoa tenha se lembrado do erro antes de o pão terminar de assar. Mas nesse caso, ele objeta, ela já não ficaria responsável por chatat de qualquer forma — pois a regra geral estabelece que a responsabilidade por uma oferta de pecado exige que o erro persista do início ao fim de toda a ação proibida; se a pessoa percebeu o erro no meio do processo, seu "fim" deixou de ser involuntário. Logo, tampouco esse cenário se encaixa na dúvida de "permitiram ou não permitiram para evitar uma responsabilidade que, de todo modo, não existiria".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "voltou e se lembrou" e "início e fim"
ואלא דאיהדר ואידכר - קודם אפייה:

"Mas então, voltou e se lembrou" — antes de assar.

מי מחייב - חטאת באפייתו:

"Acaso ficaria responsável" — por chatat, por seu ato de assar.

תחלתה וסופה - תחלת המלאכה וסופה לא נודעה לו שגגתו עד שנגמרה עבירה:

"Seu início e seu fim" — (que exige que) o início do trabalho e seu fim: (a pessoa) não tomou conhecimento de seu engano até que a transgressão se completasse (para que haja responsabilidade).

06Deve ser deliberado — mas então a expressão seria outra
אֶלָּא בְּמֵזִיד. ״קוֹדֶם שֶׁיָּבֹא לִידֵי אִיסּוּר סְקִילָה״ מִיבְּעֵי לֵיהּ!

Mas então, (o caso é de quem agiu) deliberadamente. (Mas nesse caso), "antes que chegasse à proibição de apedrejamento" deveria ele (ter dito)!

Nota

Se nem o caso de esquecimento nem o de lembrança a tempo se encaixam, resta que a pessoa agiu deliberadamente — sabendo que era Shabat e que colar pão ao forno é proibido. Mas nesse caso, objeta a Guemará, a formulação da dúvida original está errada: quem transgride deliberadamente uma melachá em Shabat não está sujeito a chatat (que é para o involuntário), mas à pena de apedrejamento (para quem age com testemunhas e advertência) ou, no mínimo, a uma transgressão plena da Torá com essa gravidade — por isso Rav Beivai deveria ter formulado a dúvida em termos de "proibição de apedrejamento", não de "responsabilidade por chatat".

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; o raciocínio é uma continuação direta da objeção anterior, já explicada.

07Rav Sheila: sempre por engano — e permitiram a outros
Rav Sheila
אָמַר רַב שֵׁילָא: לְעוֹלָם בְּשׁוֹגֵג, וּלְמַאן הִתִּירוּ — לַאֲחֵרִים.

Disse Rav Sheila: na verdade, (trata-se de quem agiu) por engano; e a quem permitiram — a outros.

Nota

Rav Sheila propõe uma solução que preserva a leitura original: o caso é realmente de quem agiu por engano e não percebeu o próprio erro — mas a dúvida não é sobre se essa pessoa pode pedir permissão para si mesma (pois de fato não sabe que há algo errado), e sim se um terceiro, que percebeu o erro do outro antes que o pão assasse, pode retirar o pão em lugar dele, para evitar que aquele chegue a uma responsabilidade por chatat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "a outros"
לאחרים - אחר שראה ובא לפנינו לישאל לרדותה קודם שיבא חבירו לידי חיוב חטאת:

"A outros" — outra pessoa que viu (o erro) e veio perante nós perguntar se pode retirá-lo, antes que seu companheiro chegue a uma responsabilidade por chatat.

08Rav Sheshet objeta: pode-se pedir que alguém peque por outro?
Rav Sheshet
מַתְקִיף לַהּ רַב שֵׁשֶׁת: וְכִי אוֹמְרִים לוֹ לָאָדָם ״חֲטָא כְּדֵי שֶׁיִּזְכֶּה חֲבֵירְךָ״?!

Objetou a isso Rav Sheshet: acaso se diz a uma pessoa "peca, para que teu companheiro se beneficie"?!

Nota

Rav Sheshet rejeita a solução de Rav Sheila: se retirar o pão do forno constitui, ainda que apenas por decreto rabínico, uma transgressão (shevut), não faz sentido que os Sábios tenham permitido que um terceiro — que não tem culpa alguma na situação — cometesse essa transgressão só para poupar o dono do pão de uma responsabilidade maior. O princípio geral é que não se pede a alguém que peque, ainda que minimamente, em benefício de outra pessoa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "peca, para que teu companheiro se beneficie"
וכי אומרים לו לאדם - צא וחטא איסור קל כדי שלא יתחייב חבירך עונש חמור:

"Acaso se diz a uma pessoa" — sai e comete uma transgressão leve, para que teu companheiro não se torne responsável por uma pena grave.

09Rav Ashi: sempre deliberado, antes da proibição de apedrejamento — a versão final
Rav Ashi e Rav Acha filho de Rava
אֶלָּא אָמַר רַב אָשֵׁי: לְעוֹלָם בְּמֵזִיד. וְאֵימָא: קוֹדֶם שֶׁיָּבֹא לִידֵי אִיסּוּר סְקִילָה. רַב אַחָא בְּרֵיהּ דְּרָבָא מַתְנֵי לַהּ בְּהֶדְיָא. אָמַר רַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי: הִדְבִּיק פַּת בַּתַּנּוּר הִתִּירוּ לוֹ לִרְדּוֹתָהּ קוֹדֶם שֶׁיָּבֹא לִידֵי אִיסּוּר סְקִילָה.

Mas (rejeitando a objeção), disse Rav Ashi: na verdade, (trata-se de quem agiu) deliberadamente; e diz (a dúvida assim): antes que chegasse à proibição de apedrejamento. Rav Acha filho de Rava a ensina explicitamente (nestes termos). Disse Rav Beivai bar Abaye: se alguém colou pão ao forno, permitiram-lhe retirá-lo antes que chegasse à proibição de apedrejamento.

Nota

Rav Ashi retoma a linha de raciocínio do segmento 6: o caso é realmente de quem agiu deliberadamente, e a formulação correta da dúvida — como aquele segmento já havia antecipado — é "antes que chegasse à proibição de apedrejamento", não "à responsabilidade por chatat". A Guemará confirma que Rav Acha filho de Rava, em sua tradição de ensino, já transmitia a dúvida exatamente com essa redação, fechando a discussão sobre a formulação correta, ainda que sem resolver se, de fato, permitiram ou não.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "explicitamente"
בהדיא - סקילה ובלשון פשיטותא ולא בלשון בעיא מתני רב אחא בריה דרבא מילתא דרב ביבי:

"Explicitamente" — (com o termo) "apedrejamento", e em tom afirmativo, não em tom de dúvida, Rav Acha filho de Rava ensina o dito de Rav Beivai.

De volta à Mishná · חֲזָרָה לַמִּשְׁנָה

10O pobre estendeu a mão: por que é responsável?
פָּשַׁט הֶעָנִי אֶת יָדוֹ: אַמַּאי חַיָּיב? וְהָא בָּעֵינַן עֲקִירָה וְהַנָּחָה מֵעַל גַּבֵּי מְקוֹם אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה, וְלֵיכָּא?

(A Mishná ensinou:) "estendeu o pobre sua mão (e o dono da casa tomou dela — é responsável)". Por que é responsável? E não precisamos de levantamento e deposição sobre um lugar de quatro por quatro (tefachim), e (aqui) não há?

Nota

A Guemará retorna à Mishná que abre o tratado (2a), especificamente ao caso em que o pobre estende a mão com um objeto para dentro da casa e o dono da casa toma o objeto dela, sendo o dono da casa responsável por ter "puxado" o objeto do domínio público ao privado. A dificuldade: para haver responsabilidade por transportar um objeto de um domínio a outro, a regra geral exige que o objeto seja levantado de um lugar de pelo menos quatro por quatro tefachim e pousado sobre outro lugar de quatro por quatro tefachim — mas a mão do pobre, estendida no ar, não constitui um "lugar" desse tipo. Como, então, pode haver responsabilidade?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lugar de quatro por quatro"
מעל גבי מקום ד' - דהוי חשוב למיהוי הנחתו הנחה ועקירתו עקירה וידו לאו מקום ד' הוא וקתני לה מתני' בין לעקירה בין להנחה דקתני ונתן לתוך ידו של בעל הבית הרי הנחה או שנטל מתוכה הרי עקירה:

"Sobre um lugar de quatro (por quatro)" — pois (esse tamanho) é o que se considera relevante para que sua deposição seja (uma) deposição e seu levantamento seja (um) levantamento; e a mão (da pessoa) não é um lugar de quatro (por quatro). E, no entanto, a Mishná a ensina tanto para levantamento quanto para deposição, pois ensina: "e (o pobre) depositou na mão do dono da casa" — eis (aí) uma deposição; "ou tomou dela" — eis (aí) um levantamento.

11Rabá: esta é a opinião de Rabi Akiva
Rabá
אָמַר רַבָּה: הָא מַנִּי? — רַבִּי עֲקִיבָא, דְּאָמַר לָא בָּעֵינַן מְקוֹם אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה. דִּתְנַן: הַזּוֹרֵק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הַיָּחִיד וּרְשׁוּת הָרַבִּים בָּאֶמְצַע, רַבִּי עֲקִיבָא מְחַיֵּיב, וַחֲכָמִים פּוֹטְרִים.

Disse Rabá: esta (Mishná), de quem é (a opinião)? De Rabi Akiva, que disse que não precisamos de um lugar de quatro por quatro. Pois aprendemos (em outra Mishná): quem lança de um domínio privado a outro domínio privado, com um domínio público no meio, Rabi Akiva considera responsável, e os Sábios isentam.

Nota

Rabá resolve a dificuldade atribuindo a Mishná do pobre e do dono da casa especificamente à opinião de Rabi Akiva, que, numa disputa paralela registrada em outra Mishná (adiante, 96b-97a), dispensa a exigência de um lugar de quatro por quatro tefachim tanto para o levantamento quanto para a deposição. Nessa outra Mishná, o caso é de alguém que lança um objeto de um domínio privado para outro domínio privado do lado oposto, passando pelo ar acima do domínio público que fica entre eles — e Rabi Akiva o considera responsável mesmo sem que o objeto tenha pousado em lugar algum no meio do trajeto, enquanto os Sábios o isentam exatamente por faltar essa deposição intermediária.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; a citação da Mishná paralela sobre quem lança de um domínio privado a outro é explicada no comentário ao segmento seguinte.

12A explicação: "o que é capturado no ar é como se estivesse pousado"
רַבִּי עֲקִיבָא סָבַר אָמְרִינַן ״קְלוּטָה כְּמִי שֶׁהוּנְּחָה דָּמְיָא״. וְרַבָּנַן סָבְרִי לָא אָמְרִינַן ״קְלוּטָה כְּמִי שֶׁהוּנְּחָה דָּמְיָא״.

Rabi Akiva entende que dizemos "o que é capturado (no ar) é equiparável a como se estivesse pousado". E os Sábios entendem que não dizemos "o que é capturado (no ar) é equiparável a como se estivesse pousado".

Nota

A Guemará explica o fundamento da disputa entre Rabi Akiva e os Sábios: Rabi Akiva sustenta o princípio de que um objeto, ao ser "capturado" (isto é, ao passar) pelo espaço aéreo de um domínio público, no ar, é tratado juridicamente como se tivesse sido pousado ali — mesmo sem contato físico real com um lugar de quatro por quatro tefachim. Por isso ele responsabiliza quem lança de um domínio privado a outro através do ar do domínio público. Os Sábios rejeitam esse princípio, exigindo sempre uma deposição real sobre um lugar apto para tanto — e por isso isentam nesse caso. Essa mesma lógica de Rabi Akiva, aplicada de volta ao caso do pobre e do dono da casa, explica por que a mão estendida no ar, mesmo sem constituir um lugar de quatro por quatro, é suficiente para gerar responsabilidade.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "capturado no ar"
קלוטה - החפץ הואיל ונקלט באוירה של רשות הרבים כמי שהונחה בתוכו הוא ואע"ג דלא נח:

"Capturado (no ar)" — o objeto, visto que foi capturado no espaço aéreo do domínio público, é como se estivesse pousado dentro dele, ainda que não tenha efetivamente repousado.

13Para dizer que é óbvio para Rabá... (continua em 4b)
לְמֵימְרָא דִּפְשִׁיטָא לֵיהּ לְרַבָּה דְּבִקְלוּטָה כְּמִי שֶׁהוּנְּחָה דָּמְיָא,

Para dizer que é óbvio para Rabá que, quanto ao (princípio de que o objeto) capturado (no ar) é equiparável a como se estivesse pousado...

Nota

O daf termina no meio de uma frase: a Guemará começa a questionar se, ao atribuir a Mishná do pobre e do dono da casa à opinião de Rabi Akiva, Rabá estaria pressupondo como certo e indiscutível o princípio de "capturado é como pousado" — uma pressuposição que, como se verá no início de 4b, é posta em xeque pela dúvida paralela de outro amora (Rabá levanta ele mesmo essa dúvida em outro contexto). A discussão sobre até que ponto esse princípio é consensual continua no daf seguinte.

Rashi · רַשִׁ״י
Nota

Sefaria não registra comentário de Rashi específico para este segmento; a frase é retomada e explicada no início de 4b.