Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Zayin (Klal Gadol)
קָא מַשְׁמַע לַן

Conclui-se o caso do juramento de expressão; o quinto acrescido da teruma; quem se perde no deserto e não sabe quando é Shabat; o sustento diário e o dia parcialmente conhecido; e a fonte bíblica, em dois versículos, para quem conhece o essencial do Shabat

Shabbat 69b — resolve-se a hipótese interrompida em 69a (que também o erro quanto à própria oferenda bastaria no juramento de expressão), com uma objeção de baraita que a atribui a Monbaz, e uma versão alternativa que a atribui aos sábios, refutando Abaye; Abaye traz um segundo caso paralelo sobre o quinto acrescido da teruma, resolvido por Rava; Rav Huna e Chiyya bar Rav discordam sobre a ordem de contar seis dias e guardar um, para quem se perdeu no deserto sem saber quando é Shabat, com a disputa resolvida por uma baraita explícita; Rava estabelece as regras de sustento diário desse viajante e do dia em que ele sabe apenas parcialmente quando partiu; e a Guemará retorna à mishná do início do perek, buscando a fonte bíblica, em dois versículos aparentemente redundantes, para a distinção entre quem conhece o essencial do Shabat e é responsável por uma só oferenda por vários Shabatot, e quem o esquece a cada vez — com Rav Nachman bar Yitzchak invertendo a leitura de Rav Nachman. A folha termina citando o próximo caso da mishná, "aquele que sabe que é Shabat", cuja explicação segue em 70a.

A folha abre concluindo o argumento de Abaye sobre o juramento de expressão (shevuat bitui): a suposição de que, por ser a oferenda nesse caso uma novidade sem paralelo na Torá, bastaria o erro quanto à própria oferenda para gerar responsabilidade — essa suposição é rejeitada ("isto nos ensina que não"). Uma baraita é então trazida como objeção: ela declara responsável quem sabia que o juramento era proibido, mas não sabia se por ele se trazia oferenda — exatamente o cenário que Abaye rejeitara; a Guemará resolve identificando essa baraita com a posição de Monbaz, e não com a dos sábios. Uma versão alternativa da mesma discussão mostra a inferência inversa, concluindo que a baraita reflete os sábios e refuta Abaye. Abaye traz então um caso análogo: o quinto acrescido pago por quem come teruma por erro também exige erro quanto à proibição, ainda que a violação dolosa da teruma seja punida com morte (por mão do Céu) e não com karet — pois "a morte ocupa o lugar do karet, e o quinto ocupa o lugar da oferenda", segundo Rava. A Guemará passa então a um caso concreto de erro quanto ao Shabat: Rav Huna e Chiyya bar Rav discordam sobre a ordem em que o viajante perdido no deserto, sem saber quando é Shabat, deve contar seis dias e guardar um como Shabat — se primeiro os dias da semana (como a criação do mundo) ou primeiro o dia de descanso (como Adam, o primeiro homem) —, disputa resolvida por uma baraita que confirma Rav Huna. Rava acrescenta duas regras práticas: quanto sustento preparar a cada dia (inclusive no dia designado como Shabat, distinguido pelo kidush e pela havdalá), e como tratar quem conhece parcialmente o dia da semana em que partiu de casa. A Guemará então retorna à mishná que abre o perek, buscando a fonte bíblica para a distinção entre "quem conhece o essencial do Shabat" (responsável por uma só oferenda, ainda que erre repetidamente) e quem o esquece a cada vez: dois versículos aparentemente redundantes — "e os filhos de Israel guardarão o Shabat" e "e guardareis os Meus Shabatot" — são lidos por Rav Nachman (em nome de Rabá bar Avuh) numa direção, e por Rav Nachman bar Yitzchak, que os inverte, na direção oposta. A folha termina citando o próximo caso da mishná, "aquele que sabe que é Shabat" — cuja explicação abre a folha seguinte, 70a.

O juramento de expressão: a hipótese é rejeitada · קָא מַשְׁמַע לַן

09A hipótese é rejeitada; objeção de uma baraita, atribuída a Monbaz
Guemará
קָא מַשְׁמַע לַן. מֵיתִיבִי: אֵיזוֹהִי שִׁגְגַת שְׁבוּעַת בִּיטּוּי לְשֶׁעָבַר — שֶׁאִם אָמַר ״יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁשְּׁבוּעָה זוֹ אֲסוּרָה, אֲבָל אֵינִי יוֹדֵעַ אִם חַיָּיבִין עָלֶיהָ קׇרְבָּן אוֹ לֹא״ — חַיָּיב! הָא מַנִּי? — מוֹנְבַּז הִיא.

Isto nos ensina que não é assim. Levantam uma objeção: qual é o erro do juramento de expressão (shevuat bitui) quanto ao passado? É quando, se disse: "sei que este juramento é proibido, mas não sei se são responsáveis por ele com uma oferenda ou não" — é responsável! Segundo quem é isto? É segundo Monbaz.

Nota

Esta folha continua diretamente a suposição interrompida ao final de 69a: já que a oferenda pelo juramento de expressão é uma novidade sem paralelo em toda a Torá (não há outra proibição simples, sem karet, pela qual se traga oferenda pelo pecado), poder-se-ia pensar que bastaria também aqui o erro quanto à própria oferenda — como no caso geral de Monbaz — para gerar responsabilidade, sem exigir erro quanto à proibição do juramento em si. A resposta é que não: mesmo aqui, exige-se erro quanto à proibição mesma. A Guemará então traz uma objeção de uma baraita que fala do "erro quanto ao passado" — um juramento sobre algo já ocorrido (por exemplo, "comi" ou "não comi", quando na verdade o oposto é verdade) — e que declara responsável quem sabia que o juramento era proibido, mas não sabia da obrigação de oferenda: exatamente o cenário que a resposta de Abaye rejeitara. A Guemará resolve a dificuldade identificando esta baraita com a posição de Monbaz, que aceita o erro quanto à própria oferenda como suficiente, e não com a dos sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kama lan", "eizehu shevuat bitui leshe'avar" e "chayav"
קמ"ל - אביי דמודה רבי יוחנן בה דבעינן שגגת לאו דאי הזיד בלאו תו ליכא שגגה דבהא נמי פליגי רבנן אמונבז ואמרי דאין שגגת קרבן שגגה: איזהו שבועת ביטוי לשעבר - בשלמא להבא כגון שלא אוכל משכחת לה כגון שנתעלמה השבועה ואכל אלא לשעבר כגון שאכלתי והוא לא אכל אין כאן שוגג דאי כסבור שאכל בשעה שנשבע אינו חייב קרבן דתניא בשבועות (פ"ג דף כו.) האדם בשבועה פרט לאנוס כלומר האדם בשבועה שיהא אדם בשעת שבועה שתהא דעתו עליו בשעת שבועה ופרשינן לה התם לאפוקי כי האי גוונא ומהשתא לא משכחת שגגה אלא בקרבן: אמר יודע אני שאני נשבע לשקר - ונזהרתי על כך: אבל איני יודע כו' - דאי בנתעלמה ממנו אזהרת שבועה אין לך אונס בשעת שבועה כזה: חייב - אלמא מודו ביה רבנן דמיחייב אשגגת קרבן: הא מני מונבז היא - דאמר נמי בעלמא שמה שגגה אבל לרבנן דפליגי עליה לית להו ביטוי לשעבר דסברי כר' ישמעאל דאמר בשבועות אינו חייב אלא על העתיד לבא (שם דף כה.):

"Isto nos ensina" — a Abaye, que Rabi Yochanan concorda nisto, que exigimos erro quanto à proibição, pois, se agiu dolosamente quanto à proibição, já não há erro — e nisto também os sábios discordam de Monbaz, dizendo que o erro quanto à oferenda não se chama erro. "Qual é o erro do juramento de expressão quanto ao passado" — está bem quanto ao futuro, por exemplo "não comerei", encontra-se tal caso quando o juramento lhe foi esquecido e ele comeu; mas quanto ao passado, por exemplo "comi" — sendo que não comeu —, não há aqui inadvertência, pois, se ele pensava que havia comido no momento em que jurou, não é responsável por oferenda, como se ensina em Massechet Shevuot (26a): "o homem quanto ao juramento" — excluindo o coagido; isto é, "o homem quanto ao juramento" significa que seja uma pessoa consciente no momento do juramento, que sua mente esteja sobre ele no momento do juramento — e explicamos ali que isto exclui um caso como este; e, a partir de agora, só se encontra erro quanto à oferenda. "Sei que juro falsamente" — e me acautelei quanto a isso. "Mas não sei", etc. — pois, se lhe foi esquecida a advertência do juramento, não há coação como esta no momento do juramento. "É responsável" — logo, os sábios concordam que ele é responsável pelo erro quanto à oferenda. "Segundo quem é isto? É segundo Monbaz" — que também, em geral, diz que isso se chama erro; mas, segundo os sábios, que discordam dele, não há juramento quanto ao passado, pois sustentam como Rabi Yishmael, que diz, em Shevuot (25a), que só se é responsável pelo juramento referente ao futuro.

10Versão alternativa: a baraita reflete os sábios, e refuta Abaye
Guemará (lishna acharina)
(לִישָּׁנָא אַחֲרִינָא: מַנִּי? אִילֵּימָא מוֹנְבַּז — פְּשִׁיטָא, הַשְׁתָּא בְּכׇל הַתּוֹרָה דְּלָאו חִידּוּשׁ הוּא אָמַר שִׁגְגַת קׇרְבָּן שְׁמָהּ שְׁגָגָה, הָכָא דְּחִידּוּשׁ הוּא — לֹא כׇּל שֶׁכֵּן?! אֶלָּא לָאו רַבָּנַן הִיא, וּתְיוּבְתָּא דְאַבָּיֵי! תְּיוּבְתָּא.)

( outra versão desta discussão: segundo quem é isto? Se disseres que é segundo Monbaz — isso é óbvio: agora, em toda a Torá, onde não há novidade, ele disse que o erro quanto à oferenda se chama erro; aqui, onde há novidade, não seria assim com muito mais razão? Mas então, não é antes segundo os sábios, e isto é uma refutação conclusiva de Abaye? É uma refutação conclusiva.)

Nota

A versão alternativa inverte a lógica da primeira: em vez de perguntar "segundo quem é esta baraita" e responder "Monbaz" (como algo que precisa de esclarecimento), esta versão trata a atribuição a Monbaz como óbvia demais para ser a resposta pretendida — pois, se Monbaz já aceita o erro quanto à oferenda como suficiente em toda a Torá, onde tal oferenda não é novidade alguma, com muito mais razão o aceitaria no juramento de expressão, cuja oferenda é uma novidade sem paralelo. Sendo óbvia demais essa atribuição, a Guemará conclui que a baraita deve refletir a posição dos sábios — o que contradiz diretamente a afirmação de Abaye de que "todos concordam" (inclusive os sábios) que se exige erro quanto à proibição. Esta versão, portanto, termina em refutação conclusiva (teyuvta) da posição de Abaye, e não em harmonização.

O caso paralelo da teruma: o quinto acrescido · הַכֹּל מוֹדִים בִּתְרוּמָה

11Abaye: também na teruma se exige erro quanto à proibição; Rava explica por quê
Abaye; Rava
וְאָמַר אַבָּיֵי: הַכֹּל מוֹדִים בִּתְרוּמָה שֶׁאֵין חַיָּיבִין עָלֶיהָ חוֹמֶשׁ עַד שֶׁיִּשְׁגּוֹג בְּלָאו שֶׁבָּהּ. ״הַכֹּל מוֹדִים״ מַאן? — רַבִּי יוֹחָנָן. פְּשִׁיטָא! כִּי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן הֵיכָא דְּאִיכָּא כָּרֵת, הֵיכָא דְּלֵיכָּא כָּרֵת לָא! מַהוּ דְּתֵימָא: מִיתָה בִּמְקוֹם כָּרֵת עוֹמֶדֶת, וְכִי שָׁגַג בְּמִיתָה נָמֵי לִיחַיַּיב — קָא מַשְׁמַע לַן. רָבָא אָמַר: מִיתָה בִּמְקוֹם כָּרֵת עוֹמֶדֶת וְחוֹמֶשׁ בִּמְקוֹם קׇרְבָּן קָאֵי.

E disse Abaye: todos concordam, a respeito da teruma, que não são responsáveis pelo quinto acrescido a menos que se erre quanto à proibição contida nela. "Todos concordam" — quem? Rabi Yochanan. Isso é óbvio! Quando Rabi Yochanan falou assim, foi onde há karet; onde não há karet — não se aplicaria! Poderias pensar: a morte ocupa o lugar do karet, e, quando alguém errou também quanto à morte, também deveria ser responsável — isto nos ensina que não. Rava disse: a morte ocupa o lugar do karet, e o quinto acrescido ocupa o lugar da oferenda.

Nota

Abaye traz um segundo caso análogo ao do juramento de expressão: quem come teruma por engano paga um quinto acrescido ao seu valor (Levítico 22:14), e Abaye afirma que também aqui todos concordam que se exige erro quanto à própria proibição de comer teruma sem ser sacerdote. A Guemará novamente objeta que isso parece óbvio — pois comer teruma dolosamente não é punido com karet, mas com morte por mão do Céu, e Rabi Yochanan só dispensou o erro quanto à proibição onde há karet em jogo. A resposta é que se poderia pensar que a morte por mão do Céu ocupa, estruturalmente, o mesmo lugar que o karet ocupa em outras transgressões — e que, portanto, bastaria o erro quanto a essa morte (isto é, quanto à obrigação do quinto, análoga ao erro quanto à oferenda) para gerar responsabilidade, mesmo com dolo quanto à proibição simples da teruma. Isto é rejeitado: mesmo aceitando a analogia estrutural entre morte e karet, ainda se exige erro quanto à proibição em si. Rava confirma essa analogia dupla: a morte ocupa o lugar do karet, e o quinto acrescido ocupa o lugar da oferenda pelo pecado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hakol modim beteruma", "belav sheba" e "chomesh"
הכל מודים בתרומה - זר שאכל תרומה בשוגג משלם חומש על שגגתו דכתיב (ויקרא כ״ב:י״ד) ואיש כי יאכל קדש בשגגה אבל מזיד אין מוסיף חומש וחייב מיתה בידי שמים דכתיב (שם) ומתו בו כי יחללוהו וסמיך ליה וכל זר לא יאכל קדש: בלאו שבה - כסבור חולין ואין כאן לאו: מיתה - דכתיב בתרומה: במקום כרת - דשאר עבירות: וחומש - דשגגת תרומה במקום קרבן דשגגת שאר עבירות ולרבי יוחנן מיחייב חומש אשגגת מיתה:

"Todos concordam a respeito da teruma" — um israelita comum (zar) que come teruma por erro paga o quinto acrescido pelo seu erro, pois está escrito: "e um homem, se comer, por erro, coisa sagrada" (Levítico 22:14); mas se comeu dolosamente, não acrescenta o quinto, e é responsável por morte pela mão do Céu, pois está escrito: "e morrerão por causa dela, se a profanarem" (Levítico 22:9), e o versículo lhe é contíguo: "e nenhum israelita comum comerá coisa sagrada" (Levítico 22:10). "Quanto à proibição contida nela" — isto é, pensava tratar-se de comida comum, e não há aqui proibição. "Morte" — que está escrita a respeito da teruma. "No lugar do karet" — que rege as demais transgressões. "E o quinto acrescido" — ocupa o lugar da oferenda, de modo que o erro quanto à teruma está para a obrigação do quinto assim como o erro quanto às demais transgressões está para a oferenda; e, segundo Rabi Yochanan, seria responsável pelo quinto com o erro quanto à morte.

Quem se perde no deserto e não sabe quando é Shabat · הָיָה מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ אוֹ בַּמִּדְבָּר

12Rav Huna e Chiyya bar Rav discordam sobre a ordem: contar seis dias, ou guardar um primeiro
Rav Huna; Chiyya bar Rav
אָמַר רַב הוּנָא: הָיָה מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ אוֹ בַּמִּדְבָּר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵימָתַי שַׁבָּת, מוֹנֶה שִׁשָּׁה יָמִים וּמְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד. חִיָּיא בַּר רַב אוֹמֵר: מְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד, וּמוֹנֶה שִׁשָּׁה. בְּמַאי קָמִיפַּלְגִי — מָר סָבַר כִּבְרִיָּיתוֹ שֶׁל עוֹלָם, וּמָר סָבַר כְּאָדָם הָרִאשׁוֹן. מֵיתִיבִי: הָיָה מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵימָתַי שַׁבָּת מְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד לְשִׁשָּׁה. מַאי לָאו, מוֹנֶה שִׁשָּׁה וּמְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד?! לָא, מְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד וּמוֹנֶה שִׁשָּׁה.

Disse Rav Huna: aquele que ia pelo caminho ou pelo deserto, e não sabe quando é Shabat, conta seis dias e guarda um dia. Chiyya bar Rav diz: guarda um dia, e então conta seis. Em que discordam? Um mestre entende o assunto como a criação do mundo; e o outro mestre entende como Adam, o primeiro homem. Levantam uma objeção: aquele que ia pelo caminho e não sabe quando é Shabat "guarda um dia para seis". Não é isto dizer que ele conta seis e guarda um dia? Não; significa que ele guarda um dia e então conta seis.

Nota

Este é um novo cenário de erro quanto ao Shabat: alguém que viaja por um caminho isolado ou pelo deserto e perde a conta dos dias, não sabendo mais quando cai o Shabat. Rav Huna sustenta que ele deve contar seis dias comuns a partir do momento em que percebeu sua confusão, e só então guardar o sétimo como Shabat — seguindo o padrão da criação do mundo, em que os seis dias de trabalho vieram antes do descanso. Chiyya bar Rav discorda: ele deve guardar logo o primeiro dia como Shabat, e só depois contar os seis dias da semana — seguindo o padrão de Adam, o primeiro homem, que foi criado no sexto dia e, portanto, viveu o Shabat antes de completar uma semana de trabalho. A Guemará traz uma objeção de uma baraita, cuja formulação ambígua ("guarda um dia para seis") parece favorecer Rav Huna, mas é inicialmente reinterpretada para favorecer Chiyya bar Rav.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "moneh shisha", "kevriato shel olam" e "yom echad leshisha"
מונה ו' - מיום ששם אל לבו שכחתו ומשמר השביעי: משמר יום אחד ומונה ו' - וכל יום ששם אל לבו אינו משמר דשמא עשה מלאכה אבל יום המחרת משמר ולקמן מפרש דבהנך דאינו משמר לא עביד נמי מלאכה אלא כדי פרנסת היום: כברייתו של עולם - ימי חול נמנו תחלה: כאדם הראשון - שנברא בע"ש ויום ראשון למנינו שבת היה: יום אחד לששה - משמע לו' שעברו:

"Conta seis" — a partir do dia em que se deu conta de seu esquecimento, e guarda o sétimo. "Guarda um dia e então conta seis" — e, quanto a todo dia a partir daquele em que se deu conta, ele não o guarda como Shabat, pois talvez já tenha realizado trabalho naquele dia; mas, no dia seguinte, ele guarda; e adiante a Guemará explica que, nesses dias que ele não guarda, também não realiza senão trabalho suficiente para o sustento do dia. "Como a criação do mundo" — os dias comuns foram contados primeiro. "Como Adam, o primeiro homem" — que foi criado na véspera de Shabat, e o primeiro dia de sua contagem foi Shabat. "Um dia para seis" — dá a entender que se refere aos seis dias que já passaram.

13Nova objeção: uma baraita explícita confirma Rav Huna e refuta Chiyya bar Rav
Guemará
אִי הָכִי ״מְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד לְשִׁשָּׁה״ — ״מְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד וּמוֹנֶה שִׁשָּׁה״ מִיבְּעֵי לֵיהּ. וְעוֹד, תַּנְיָא: הָיָה מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ אוֹ בַּמִּדְבָּר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵימָתַי שַׁבָּת, מוֹנֶה שִׁשָּׁה וּמְשַׁמֵּר יוֹם אֶחָד, תְּיוּבְתָּא דְּרַבִּי חִיָּיא בַּר רַב! תְּיוּבְתָּא.

Se assim é, "guarda um dia para seis" — deveria dizer "guarda um dia e conta seis". E, além disso, ensina-se numa baraita: aquele que ia pelo caminho ou pelo deserto, e não sabe quando é Shabat, conta seis e guarda um dia — isto é uma refutação conclusiva de Rabi Chiyya bar Rav! É uma refutação conclusiva.

Nota

A Guemará rejeita a reinterpretação anterior por um motivo estilístico: se a baraita quisesse dizer que se guarda primeiro e depois se conta, deveria ter usado a formulação direta "guarda um dia e conta seis", e não a formulação invertida "guarda um dia para seis" — que naturalmente sugere que os seis dias já passaram antes. Além disso, uma segunda baraita, formulada sem ambiguidade ("conta seis e guarda um dia"), confirma explicitamente a posição de Rav Huna, refutando de modo conclusivo a posição de Chiyya bar Rav.

14Rava: o sustento diário, e o dia designado como Shabat
Rava
אָמַר רָבָא: בְּכָל יוֹם וָיוֹם עוֹשֶׂה לוֹ כְּדֵי פַרְנָסָתוֹ [בַּר מֵהָהוּא יוֹמָא]. וְהָהוּא יוֹמָא לֵימוּת?! דְּעָבֵיד מֵאֶתְמוֹל שְׁתֵּי פַרְנָסוֹת. וְדִילְמָא מֵאֶתְמוֹל שַׁבָּת הֲוַאי! אֶלָּא כָּל יוֹם וָיוֹם עוֹשֶׂה לוֹ פַּרְנָסָתוֹ, אֲפִילּוּ הָהוּא יוֹמָא. וְהָהוּא יוֹמָא בְּמַאי מִינְּכַר לֵיהּ? בְּקִידּוּשָׁא וְאַבְדָּלְתָּא.

Disse Rava: em cada dia e cada dia, o viajante prepara para si o tanto necessário para seu sustento, exceto naquele dia (designado como Shabat). Mas, naquele dia, morreria de fome?! Quer dizer que ele prepara, na véspera, duas porções de sustento. Mas talvez a véspera tenha sido, ela mesma, Shabat! Antes, em cada dia e cada dia, ele prepara seu sustento, inclusive naquele dia. E aquele dia, em que ele se distingue? Pelo kidush e pela havdalá.

Nota

Rava estabelece uma regra prática para o viajante que já perdeu a conta do Shabat: em cada um dos seis dias comuns, ele pode realizar apenas o trabalho estritamente necessário para seu sustento daquele dia — mas não no dia que ele designou como Shabat, quando nenhum trabalho é permitido. A Guemará pergunta o óbvio: mas então, nesse dia designado, ele passaria fome? A resposta inicial é que, na véspera, ele prepara comida em dobro. Mas isso gera nova dificuldade: e se a própria véspera for, na realidade, o verdadeiro Shabat — nesse caso, preparar comida em dobro nela seria também uma violação do Shabat real. A Guemará corrige, então: na verdade, ele pode preparar sustento em todos os dias, inclusive naquele que designou como seu Shabat pessoal — pois o trabalho mínimo de preparar comida é permitido mesmo nesse dia, já que a proibição total do Shabat aplica-se apenas ao Shabat verdadeiro, que ele não pode identificar com certeza. Resta então perguntar: em que esse dia designado se distingue dos demais, já que nele também se permite algum trabalho de sustento? A resposta é que a diferença está nos rituais de kidush e havdalá, que ele recita para marcar o início e o fim daquele dia como seu Shabat pessoal, ainda que realize nele o trabalho mínimo necessário.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veההוא יומא lemut", "dilma me'etmol Shabat havai" e "bekidusha ve'avdalta"
וההוא יומא לימות - בתמיה: ודלמא אתמול שבת הוה - ונמצא מחלל שבת שלא לפקוח נפש: בקדושתא ואבדלתא - לזכרון בעלמא שיהא לו שם יום חלוק משאר ימים ולא תשתכח שבת ממנו:

"E, naquele dia, morreria de fome" — é dito com espanto. "Mas talvez a véspera tenha sido, ela mesma, Shabat" — e então ele se encontraria profanando o Shabat sem necessidade de salvar vidas. "Pelo kidush e pela havdalá" — apenas como lembrança, para que aquele dia tenha para ele um nome que o distinga dos demais dias, e o Shabat não seja esquecido por ele.

15Rava: quem conhece parcialmente o dia em que partiu
Rava
אָמַר רָבָא: אִם הָיָה מַכִּיר מִקְצָת הַיּוֹם שֶׁיָּצָא בּוֹ, עוֹשֶׂה מְלָאכָה כׇּל הַיּוֹם כּוּלּוֹ. פְּשִׁיטָא! מַהוּ דְתֵימָא: כֵּיוָן דְּשַׁבָּת לָא נָפֵיק, בְּמַעֲלֵי שַׁבְּתָא [נָמֵי] לָא נָפֵיק. וְהַאי, אִי נָמֵי בְּחַמְשָׁה בְּשַׁבְּתָא נָפֵיק — לִישְׁתְּרֵי לֵיהּ לְמֶיעְבַּד מְלָאכָה תְּרֵי יוֹמֵי — קָא מַשְׁמַע לַן זִימְנִין דְּמַשְׁכַּח שְׁיָּירְתָּא וּמִקְּרֵי וְנָפֵיק.

Disse Rava: se o viajante conhecia parcialmente o dia em que saiu de casa, então, todo dia com esse mesmo número de dias desde a saída, ele realiza trabalho o dia inteiro. Isso é óbvio! Poderias pensar: já que ele não saiu em Shabat, também não saiu na véspera de Shabat; e este, ainda que tenha saído, de fato, na quinta-feira, deveria ter permissão para realizar trabalho por dois dias seguidos — isto nos ensina que, às vezes, ele encontra uma caravana e é chamado, e sai mesmo na véspera de Shabat.

Nota

Rava trata de um caso ligeiramente menos incerto: o viajante não sabe qual dia da semana é hoje, mas se lembra de quantos dias se passaram desde que partiu de casa — por exemplo, sabe que hoje é o oitavo dia de viagem. Como certamente não partiu em pleno Shabat, ele pode concluir com segurança que o dia correspondente da semana (o oitavo dia de viagem, e todo múltiplo análogo) não é Shabat, e nele pode trabalhar o dia inteiro sem restrição. A Guemará pergunta o óbvio disso, e responde que havia razão para pensar diferente: já que ele certamente não partiu em Shabat, poder-se-ia presumir que também não partiu na véspera de Shabat (pois não é costume viajar às vésperas, por respeito ao Shabat que se aproxima) — e, nesse caso, ele poderia liberar-se para trabalhar em dois dias consecutivos (o dia da partida e o seguinte), já que nenhum dos dois seria Shabat. Rava ensina que essa suposição é falsa: às vezes o viajante parte na própria véspera de Shabat, por encontrar uma caravana de passagem e ser chamado a se juntar a ela — de modo que não se pode presumir com segurança que dois dias consecutivos estejam livres de Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "im hayah makir miktzat hayom" e "bema'alei Shabbeta"
אם היה מכיר מקצת יום שיצא בו - לא שזכר איזה יום בשבת היה אלא זכור שהיום יום שלישי ליציאתו או רביעי ליציאתו ומתוך כך ידע שמונה ליציאתו עושה מלאכה כל יום ח' וכן לעולם ודאי זהו יום שיצא בו וקים ליה דבשבת לא נפיק: במעלי שבתא נמי לא נפיק - דאין דרך לצאת מפני כבוד השבת ועל כן כל יום ח' וט' ליציאתו לישתרו דליכא לספוקינהו בשבת:

"Se conhecia parcialmente o dia em que saiu" — não que se lembrasse de qual dia da semana em relação ao Shabat era, mas que se lembra de que hoje é o terceiro dia desde sua saída, ou o quarto desde sua saída; e, por meio disso, sabe que a cada oitavo dia desde a saída ele realiza trabalho o dia inteiro, e assim para sempre: certamente este é o dia correspondente ao em que saiu, e é-lhe certo que não saiu em Shabat. "Também na véspera de Shabat não saiu" — pois não é costume sair, por respeito ao Shabat; e, por isso, tanto o oitavo quanto o nono dia desde sua saída deveriam ser permitidos, já que não há como colocá-los em dúvida quanto ao Shabat.

Retorno à mishná: a fonte de "conhecer o essencial do Shabat" · הַיּוֹדֵעַ עִיקַּר שַׁבָּת

16Rav Nachman, em nome de Rabá bar Avuh: dois versículos sobre "guardar o Shabat"
Rav Nachman; Rabá bar Avuh
הַיּוֹדֵעַ עִיקַּר שַׁבָּת: מְנָהָנֵי מִילֵּי? אָמַר רַב נַחְמָן אָמַר רַבָּה בַּר אֲבוּהּ: תְּרֵי קְרָאֵי כְּתִיבִי: ״וְשָׁמְרוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַשַּׁבָּת״, וּכְתִיב: ״וְאֶת שַׁבְּתֹתַי תִּשְׁמֹרוּ״. הָא כֵּיצַד? ״וְשָׁמְרוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַשַּׁבָּת״ — שְׁמִירָה אַחַת לְשַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה. ״וְאֶת שַׁבְּתֹתַי תִּשְׁמֹרוּ״ — שְׁמִירָה אַחַת לְכׇל שַׁבָּת וְשַׁבָּת.

"Aquele que conhece o essencial do Shabat" — de onde vêm estas palavras? Disse Rav Nachman, disse Rabá bar Avuh: dois versículos estão escritos: "e os filhos de Israel guardarão o Shabat" (Êxodo 31:16), e está escrito: "e guardareis os Meus Shabatot" (Levítico 26:2). Como se explica isto? "E os filhos de Israel guardarão o Shabat" — uma só guarda para muitos Shabatot; "e guardareis os Meus Shabatot" — uma guarda para cada Shabat e Shabat.

Nota

A Guemará retorna à mishná do início do perek (67a), que distingue entre "quem conhece o essencial do Shabat" mas erra quanto aos trabalhos individuais — responsável por uma só oferenda, ainda que tenha profanado vários Shabatot nesse erro contínuo — e outros casos em que se é responsável por cada Shabat separadamente. Pergunta-se a fonte bíblica dessa distinção. Rav Nachman, em nome de Rabá bar Avuh, resolve com dois versículos que, à primeira vista, parecem redundantes: um usa "Shabat" no singular ("e os filhos de Israel guardarão o Shabat"), e o outro usa "Shabatot" no plural ("e guardareis os Meus Shabatot"). A diferença gramatical é lida como base para duas regras distintas: o versículo no singular ensina que, nos casos que ele descreve, basta "uma guarda" (uma oferenda) mesmo para vários Shabatot profanados em erro contínuo; o versículo no plural ensina que, nos casos que ele descreve, cada Shabat individual exige sua própria "guarda" (oferenda separada).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mena hanei mile" e a leitura dos dois versículos
מנא הני מילי - שיש מחלל בשבתות הרבה וחייב אחת על כולן ויש מחללן וחייב על כל שבת: הכי גרסינן הא כיצד ושמרו בני ישראל את השבת שמירה אחת לשבתות הרבה ואת שבתותי תשמורו שמירה לכל שבת ושבת - דקרא קמא חדא שבת הוא דחשיב משמע שאינו מקפיד אלא על האחת והכא כתיב את שבתותי אכולהו קפיד ולא מסרן לשמירה אחת:

"De onde vêm estas palavras" — que há quem profana o Shabat em muitos Shabatot e é responsável por uma só oferenda por todos eles, e há quem os profana e é responsável por cada Shabat. Assim lemos, na resposta: "como se explica isto? 'E os filhos de Israel guardarão o Shabat' — uma só guarda para muitos Shabatot; 'e guardareis os Meus Shabatot' — uma guarda para cada Shabat e Shabat" — pois o primeiro versículo menciona um só Shabat, o que sugere que a Escritura não se preocupa senão com a unidade; e aqui está escrito "os Meus Shabatot" — preocupando-se com todos eles, sem entregá-los a uma única guarda.

17Rav Nachman bar Yitzchak objeciona e inverte a leitura
Rav Nachman bar Yitzchak
מַתְקִיף לַהּ רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: אַדְּרַבָּה, אִיפְּכָא מִסְתַּבְּרָא: ״וְשָׁמְרוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַשַּׁבָּת״ — שְׁמִירָה אַחַת לְכׇל שַׁבָּת וְשַׁבָּת. ״וְאֶת שַׁבְּתֹתַי תִּשְׁמֹרוּ״ — שְׁמִירָה אַחַת לְשַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה.

Rav Nachman bar Yitzchak objeciona: pelo contrário, o inverso é mais razoável: "e os filhos de Israel guardarão o Shabat" — uma guarda para cada Shabat e Shabat; "e guardareis os Meus Shabatot" — uma só guarda para muitos Shabatot.

Nota

Rav Nachman bar Yitzchak não contesta a estrutura da resposta — que os dois versículos ensinam, cada um, uma das duas regras —, mas inverte qual versículo ensina qual regra. Ele lê o versículo no singular ("o Shabat") como enfatizando exatamente o oposto: precisamente por mencionar "o Shabat" em singular, o texto estaria isolando cada Shabat individualmente, exigindo uma guarda própria para cada um; já o plural "Meus Shabatot" agruparia todos os Shabatot sob uma só guarda coletiva. Ambos os amoraim concordam que a distinção da mishná deriva da comparação entre esses dois versículos — divergem apenas quanto à direção da leitura.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ipcha mistabra"
איפכא מסתברא - ושמרו בני ישראל את השבת משמע שמירה אחת לשבת אחת ואת שבתותי תשמורו ב' שבתות ואינו מזהיר אלא על שמירה אחת ובין רב נחמן ובין רב נחמן בר יצחק לא פליגי אלא במשמעותא מאי דיליף מר מהאי קרא יליף מר מהאי אידך:

"O inverso é mais razoável" — "e os filhos de Israel guardarão o Shabat" dá a entender uma só guarda para um só Shabat; e "guardareis os Meus Shabatot" refere-se a dois ou mais Shabatot, e o versículo só adverte quanto a uma guarda; e, tanto Rav Nachman quanto Rav Nachman bar Yitzchak, não discordam senão quanto ao significado — o que um mestre deduz deste versículo, o outro deduz daquele outro.

O próximo caso da mishná, citado e adiado · הַיּוֹדֵעַ שֶׁהוּא שַׁבָּת

18A Guemará cita o próximo caso da mishná: "aquele que sabe que é Shabat"
Guemará
הַיּוֹדֵעַ שֶׁהוּא שַׁבָּת.

"Aquele que sabe que é Shabat..."

Nota

Tendo explicado a fonte bíblica para o primeiro caso da mishná ("aquele que conhece o essencial do Shabat"), a Guemará passa a citar o caso seguinte da mesma mishná — "aquele que sabe que é Shabat, e realiza muitos trabalhos" — para lhe buscar, do mesmo modo, a fundamentação. Esta citação é apenas o título (lemma) do novo caso: a pergunta sobre sua fonte, e a resposta de Rav Safra que a resolve, abrem já a folha seguinte, 70a.

Este último segmento é a citação do próximo caso da mishná (67a) que a Guemará passa a examinar: "aquele que sabe que é Shabat, e realiza muitos trabalhos em muitos Shabatot" — em contraste com o caso anterior, já explicado. A citação, em si, está gramaticalmente completa como lema; mas sua análise (a pergunta "מַאי שְׁנָא רֵישָׁא וּמַאי שְׁנָא סֵיפָא", "em que se diferencia o começo do fim da mishná", com a resposta de Rav Safra e a réplica de Rav Nachman) abre diretamente a folha seguinte, Shabat 70a, confirmada de forma independente via Sefaria.