Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Zayin (Klal Gadol)
כִּמְלֹא פִי גָמָל

Rabi Elazar retoma a baraita de Rabi Shimon ben Elazar; a nova Mishná sobre as medidas mínimas para transportar forragem; e a Guemará que a elucida, com os relatos contraditórios de Rav Dimi e Ravin

Shabbat 76a — a folha abre retomando exatamente o ponto em que 75b se interrompera: a segunda cláusula da Mishná sobre o que é apto para ser guardado, "e tudo o que não é apto para ser guardado", que a Guemará agora desenvolve com o ensinamento de Rabi Elazar sobre a baraita de Rabi Shimon ben Elazar; segue-se uma nova Mishná com as medidas mínimas para transportar palha, palha de leguminosas, restolho, ervas e folhas de alho e cebola no Shabat, e a nota de que essas medidas não se combinam entre si; e a Guemará que a elucida, com a definição de "palha de leguminosas", os relatos contraditórios de Rav Dimi e depois de Ravin sobre a disputa de Rabi Yochanan e Reish Lakish (e a versão ainda invertida dessa mesma disputa), a resolução da aparente contradição entre as medidas de restolho, o ensinamento de Rabi Yosei bar Chanina sobre combinar as medidas mais leve e mais rigorosa, e a objeção final a partir da baraita sobre roupa, saco, couro e esteira — interrompendo-se em "disse Rava", cuja resposta só chega no início de 76b.

A folha abre retomando, sem qualquer interrupção temática nova, o ponto exato em que 75b havia se interrompido: a Mishná sobre "o que é apto para ser guardado" tem uma segunda cláusula — "e tudo o que não é apto para ser guardado, e não se guarda o equivalente a isso, e alguém o transportou no Shabat, não é responsável senão aquele que o guardou" — que 75b apenas citara de volta, sem desenvolvê-la. Aqui, Rabi Elazar explica exatamente essa cláusula: ela não está de acordo com a posição de Rabi Shimon ben Elazar, que ensinou, numa baraita, um princípio ainda mais específico — quando um objeto não apto para ser guardado se torna, por alguma razão pessoal, valioso para uma pessoa, que o guarda, e depois vem uma segunda pessoa e o transporta, é esta segunda pessoa, e não a primeira, quem se torna responsável, pela intenção da primeira. A Mishná de 75b, ao dizer que "não é responsável senão aquele que o guardou", pressupõe que só quem guardou o objeto — e mais ninguém — pode vir a ser responsável por transportá-lo; Rabi Shimon ben Elazar discorda: o valor atribuído por quem guardou o objeto "contamina", por assim dizer, qualquer pessoa que depois o transporte, tornando-a responsável mesmo sem ela mesma ter guardado nada. Com esta elucidação encerrada, a Guemará introduz uma nova Mishná, ainda dentro do mesmo Perek Zayin: as medidas mínimas para responsabilizar por transportar diferentes tipos de forragem animal no Shabat — palha, o equivalente ao que enche a boca de uma vaca; palha de leguminosas, o equivalente ao que enche a boca de um camelo; restolho, o equivalente ao que enche a boca de um cordeiro; ervas, o equivalente ao que enche a boca de um cabrito; folhas de alho e de cebola, frescas, o equivalente a um figo seco, e secas, o equivalente ao que enche a boca de um cabrito — com a ressalva de que essas medidas não se combinam umas com as outras, por não serem iguais entre si. A Guemará elucida, primeiro, o que é "palha de leguminosas": palha de espécies de leguminosas, segundo Rav Yehuda. Segue-se um caso complexo, relatado em duas versões sucessivas e contraditórias: Rav Dimi relatou que, quanto a quem transporta palha comum (o equivalente ao que enche a boca de uma vaca) com a intenção de alimentar um camelo, Rabi Yochanan dizia responsável e Reish Lakish dizia isento — e que Rabi Yochanan chegou a se retratar de um dia para o outro, ao que Rav Yosef aprovou a retratação (pois aquela quantidade não é apta para o camelo) e Abaye discordou (pois é apta para a vaca, o que bastaria). Mas quando veio Ravin, ele corrigiu o relato inteiro: na verdade, todos concordam que transportar palha comum, na medida da vaca, para um camelo, responsabiliza; a disputa real é sobre palha de leguminosas, na medida da vaca, transportada para uma vaca — e, quanto a este caso, foi transmitida ainda uma versão invertida das posições: Rabi Yochanan isento (pois comer sob pressão não se considera comer, já que o gado não costuma comer palha de leguminosas) e Reish Lakish responsável (pois comer sob pressão ainda se considera comer). A Guemará resolve, em seguida, uma aparente contradição entre a medida do restolho na Mishná (o equivalente à boca do cordeiro) e uma baraita que a dá como um figo seco: são a mesma medida. Quanto às folhas de alho e cebola, Rabi Yosei bar Chanina ensina que as duas medidas (fresca e seca) não se combinam para completar a medida mais rigorosa, mas se combinam para completar a mais leve. A folha then levanta uma objeção geral a este princípio — coisas de medidas desiguais, afinal, se combinam? — trazendo o caso, de outro contexto (a impureza por assento), em que roupa, saco, couro e esteira, de medidas desiguais entre si, se combinam uns com os outros segundo Rabi Shimon, pois todos são aptos para se tornarem impuros por assento; o que sugeriria que medidas desiguais podem, sim, se combinar plenamente. A folha se interrompe exatamente ao citar a resposta de Rava a esta objeção — "disse Rava:" — sem que a resposta em si apareça nesta folha; ela só chega na primeira linha de 76b.

Nota — a retomada da citação em aberto de 75b

75b não terminara com uma frase gramaticalmente cortada, mas com uma citação em aberto: ao elucidar a nova Mishná sobre "o que é apto para ser guardado", a Guemará chegara à sua segunda cláusula e a citara de volta — "e tudo o que não é apto para ser guardado" — sem chegar a desenvolvê-la. A folha aqui retoma exatamente esse ponto: o ensinamento de Rabi Elazar que abre 76a não é uma continuação gramatical de uma frase truncada, mas o desenvolvimento imediato, temático, daquilo que a folha anterior havia deixado apenas citado e em suspenso. É este o sentido em que 76a "continua" 75b — não pela sintaxe, mas pelo conteúdo.

Rabi Elazar elucida a segunda cláusula: a baraita de Rabi Shimon ben Elazar · הָא דְּלָא כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר

01"Isto não está de acordo com Rabi Shimon ben Elazar": o objeto guardado por um, transportado por outro, responsabiliza o outro pela intenção do primeiro
Rabi Elazar; baraita de Rabi Shimon ben Elazar
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: הָא דְּלָא כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר. דְּתַנְיָא, כְּלָל אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר: כׇּל שֶׁאֵינוֹ כָּשֵׁר לְהַצְנִיעַ, וְאֵין מַצְנִיעִין כָּמוֹהוּ, וְהוּכְשַׁר לָזֶה וְהִצְנִיעוֹ, וּבָא אַחֵר וְהוֹצִיאוֹ — נִתְחַיֵּיב זֶה בְּמַחְשָׁבָה שֶׁל זֶה.

Disse Rabi Elazar: isto não está de acordo com Rabi Shimon ben Elazar. Pois foi ensinado numa baraita: um princípio geral disse Rabi Shimon ben Elazar: tudo o que não é apto para ser guardado, e não se guarda o equivalente a isso, mas se tornou apto para este, e ele o guardou, e veio outro e o transportou — este se torna responsável pela intenção daquele.

Nota

Rabi Elazar elucida a segunda cláusula da Mishná citada de volta ao final de 75b, apontando que ela não está de acordo com a posição de Rabi Shimon ben Elazar. A baraita expõe a posição deste último com precisão: quando um objeto, por natureza não apto para ser guardado, se torna — por alguma razão pessoal e subjetiva — valioso para uma pessoa específica, que então o guarda, e depois uma segunda pessoa vem e o transporta no Shabat, é esta segunda pessoa, e não a primeira, quem se torna responsável por transportá-lo, e sua responsabilidade deriva precisamente da intenção da primeira pessoa (que havia atribuído valor ao objeto ao guardá-lo). A Mishná de 75b, ao formular "não é responsável senão aquele que o guardou", parece limitar a responsabilidade exclusivamente a quem guardou o objeto; Rabi Shimon ben Elazar, ao contrário, sustenta que essa responsabilidade pode recair sobre um terceiro que nunca guardou nada, desde que ele transporte um objeto que alguém antes valorizara e guardara.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "amar Rabi Elazar ha"
א"ר אלעזר הא - דקתני מתניתין דאינו כשר להצניע והצניעו אחר הוא מתחייב על הוצאתו וכל אדם פטורין דלא כר' שמעון בן אלעזר:

"'Disse Rabi Elazar: isto'" — que se ensinou na Mishná: para o que não é apto para ser guardado, se um outro o guardou, é esse mesmo que o guardou quem se torna responsável por transportá-lo, e todas as outras pessoas são isentas — isto não está de acordo com Rabi Shimon ben Elazar.

Nova Mishná: as medidas mínimas para transportar forragem · הַמּוֹצִיא תֶּבֶן כִּמְלֹא פִי פָרָה

02Mishná: palha, palha de leguminosas, restolho, ervas, folhas de alho e cebola — cada qual com sua medida, e sem se combinarem entre si
Mishná
הַמּוֹצִיא תֶּבֶן — כִּמְלֹא פִי פָרָה. עָצָה — כִּמְלֹא פִי גָמָל. עָמִיר — כִּמְלֹא פִי טָלֶה. עֲשָׂבִים — כִּמְלֹא פִי גְדִי. עֲלֵי שׁוּם וַעֲלֵי בְצָלִים, לַחִים — כִּגְרוֹגֶרֶת, יְבֵשִׁים — כִּמְלֹא פִי גְדִי. וְאֵין מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה מִפְּנֵי שֶׁלֹּא שָׁווּ בְּשִׁיעוּרֵיהֶן.

MISHNÁ. Quem transporta palha — o equivalente ao que enche a boca de uma vaca. Palha de leguminosas — o equivalente ao que enche a boca de um camelo. Restolho — o equivalente ao que enche a boca de um cordeiro. Ervas — o equivalente ao que enche a boca de um cabrito. Folhas de alho e folhas de cebola: frescas — o equivalente a um figo seco; secas — o equivalente ao que enche a boca de um cabrito. E não se combinam umas com as outras, porque não são iguais em suas medidas.

Nota

Sem qualquer fórmula de transição, a Guemará introduz uma nova Mishná, ainda dentro do mesmo Perek Zayin, que estabelece as medidas mínimas para responsabilizar por transportar diferentes tipos de forragem animal no Shabat. O princípio subjacente é que a medida mínima de um objeto depende do animal ao qual normalmente se destina: palha comum, que serve de alimento para vacas, tem sua medida fixada pelo que enche a boca de uma vaca; palha de leguminosas, mais apreciada e destinada a camelos, tem medida maior (o que enche a boca de um camelo, animal de boca maior); restolho, destinado a cordeiros, tem sua medida fixada pela boca do cordeiro; ervas, que servem tanto para cordeiros quanto para cabritos (animais de boca menor), têm a medida mais generosa ao guardião — o que enche a boca do cabrito, a menor das medidas. Folhas de alho e cebola, por servirem de alimento humano quando frescas, têm medida de um figo seco (a medida-padrão de alimento humano no Shabat); quando secas e destinadas a animais, a medida volta a ser a boca do cabrito. A Mishná fecha com uma ressalva importante: por serem medidas desiguais entre si, essas diferentes forragens não se combinam para completar, juntas, a medida responsabilizadora — um princípio que a Guemará examinará e matizará nos parágrafos seguintes.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "matnitin: atzah", "kimlo pi gamal", "amir", "pi taleh" e "lachin"
מתני' עצה - מפרש בגמרא: כמלא פי גמל - נפיש שיעורא מפי פרה אבל כמלא פי פרה לא מיחייב דהא לא חזו לפרה: עמיר - קשין של שבלין: פי טלה - נפיש מפי גדי הלכך עמיר דלא חזי לגדי לא מיחייב כמלא פי גדי עד דאיכא מלא פי טלה אבל עשבים הואיל וחזו בין לטלה בין לגדי מיחייב אפי' כמלא פי גדי: לחין - הראויין לאדם כגרוגרת דזה שיעור לכל מאכל אדם לשבת אבל כמלא פי גדי לא דלחים לא חזו לגדי:

MISHNÁ. "'Palha de leguminosas'" — explica-se na Guemará. "'O equivalente ao que enche a boca do camelo'" — a medida é maior do que a boca da vaca; mas o equivalente ao que enche a boca da vaca não responsabiliza para o camelo, pois isto não é apto para o camelo. "'Restolho'" — os caules das espigas. "'A boca do cordeiro'" — é maior do que a boca do cabrito; por isso, o restolho, que não é apto para o cabrito, não responsabiliza pelo equivalente ao que enche a boca do cabrito, até que haja o equivalente ao que enche a boca do cordeiro; mas as ervas, já que são aptas tanto para o cordeiro quanto para o cabrito, responsabilizam mesmo pelo equivalente ao que enche a boca do cabrito. "'Frescas'" — as que são aptas para o homem, a medida é um figo seco, pois esta é a medida para qualquer alimento humano no Shabat; mas o equivalente ao que enche a boca do cabrito não se aplica às frescas, pois as folhas frescas não são aptas para o cabrito.

A Guemará elucida a Mishná: os relatos de Rav Dimi e Ravin · מַאי עָצָה

03"O que é palha de leguminosas?"; o relato de Rav Dimi (retratado por Rabi Yochanan) e depois de Ravin, que corrige onde está a disputa real — e sua versão invertida
Rav Yehuda; Rav Dimi; Rabi Yochanan; Reish Lakish; Rav Yosef; Abaye; Ravin
מַאי עָצָה? אָמַר רַב יְהוּדָה: תֶּבֶן שֶׁל מִינֵי קִטְנִית. כִּי אֲתָא רַב דִּימִי, אֲמַר: הַמּוֹצִיא תֶּבֶן כִּמְלֹא פִי פָרָה לְגָמָל, רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: חַיָּיב, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר: פָּטוּר. בְּאוּרְתָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן הָכִי, לְצַפְרָא הֲדַר בֵּיהּ. אֲמַר רַב יוֹסֵף: שַׁפִּיר עֲבַד דַּהֲדַר, דְּהָא לָא חֲזֵי לְגָמָל! אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: אַדְּרַבָּה, כִּדְמֵעִיקָּרָא מִסְתַּבְּרָא, דְּהָא חֲזֵי לְפָרָה. אֶלָּא כִּי אֲתָא רָבִין, אָמַר: הַמּוֹצִיא תֶּבֶן כִּמְלֹא פִי פָרָה לְגָמָל, דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּחַיָּיב. כִּי פְּלִיגִי, בְּמוֹצִיא עָצָה כִּמְלֹא פִי פָרָה לְפָרָה. וְאִיפְּכָא אִיתְּמַר: רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר פָּטוּר, רֵישׁ לָקִישׁ אָמַר חַיָּיב. רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר פָּטוּר — אֲכִילָה עַל יְדֵי הַדְּחָק לֹא שְׁמָהּ אֲכִילָה. רֵישׁ לָקִישׁ אָמַר חַיָּיב — אֲכִילָה עַל יְדֵי הַדְּחָק שְׁמָהּ אֲכִילָה.

GUEMARÁ. O que é "palha de leguminosas"? Disse Rav Yehuda: palha de espécies de leguminosas. Quando veio Rav Dimi, disse: quem transporta palha, o equivalente ao que enche a boca de uma vaca, para um camelo — Rabi Yochanan disse: responsável; Rabi Shimon ben Lakish disse: isento. À noite, Rabi Yochanan disse assim; pela manhã, retratou-se. Disse Rav Yosef: fez bem em retratar-se, pois isto não é apto para o camelo! Disse-lhe Abaye: pelo contrário, é mais razoável como era ensinado no início, pois isto é apto para a vaca. Mas quando veio Ravin, disse: quem transporta palha, o equivalente ao que enche a boca de uma vaca, para um camelo — todos concordam que é responsável. Quando discordam, é a respeito de quem transporta palha de leguminosas, o equivalente ao que enche a boca de uma vaca, para uma vaca. E foi transmitida a versão oposta: Rabi Yochanan disse: isento; Reish Lakish disse: responsável. Rabi Yochanan disse isento — comer sob pressão não se chama comer. Reish Lakish disse responsável — comer sob pressão se chama comer.

Nota

Este é um caso complexo de dois relatos sucessivos e mutuamente corretivos, comum na literatura talmúdica, quando sábios que viajavam da Terra de Israel para a Babilônia (aqui, primeiro Rav Dimi, depois Ravin) traziam versões de um mesmo debate. Primeiro, Rav Dimi relatara: quem transporta palha comum, na medida da boca de uma vaca, mas com a intenção de alimentar um camelo (cuja boca é maior), Rabi Yochanan responsabiliza e Reish Lakish isenta — e Rabi Yochanan chegou a mudar de posição de um dia para o outro (de responsável, à noite, para isento, pela manhã); Rav Yosef aprova essa retratação, pois aquela quantidade de palha comum não é, de fato, apta para satisfazer um camelo; Abaye discorda, defendendo a posição original de Rabi Yochanan, pois, ainda que insuficiente para o camelo, a quantidade transportada é apta para uma vaca, o que bastaria para considerá-la uma medida significativa (já que ela não "deixa de ser" a medida da vaca só porque foi levada para outro animal). Mas todo esse relato de Rav Dimi é corrigido pelo relato posterior de Ravin: na verdade, ninguém discorda de que transportar palha comum, na medida da vaca, para um camelo, responsabiliza — a disputa genuína está em outro caso, o de quem transporta palha de leguminosas (mais nobre, apreciada por camelos, mas não pela vaca senão sob pressão), na medida da boca de uma vaca, mas para alimentar a própria vaca. E, quanto a esse caso corrigido, ainda foi transmitida uma versão invertida das posições: Rabi Yochanan (agora) isenta, com base no princípio de que "comer sob pressão não se considera comer" — já que a vaca comeria palha de leguminosas apenas forçada pela fome, não é um alimento verdadeiramente "seu"; Reish Lakish responsabiliza, sustentando o princípio oposto, de que mesmo o comer sob pressão ainda conta como alimentação genuína.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gemara: hamotzi teven kimlo pi para", "deha chazi lefi para", "dechayav", "atzah" e "Rabi Yochanan amar patur"
גמ' המוציא תבן כמלא פי פרה - והוציאו להאכילו לגמל שפי גמל גדול מפי פרה: דהא חזי לפי פרה - הלכך שיעור חשוב הוא ולכל מי שיוציאנו לא פקע שיעוריה בהכי: דחייב - דהאיכא שיעורא דחזי לפרה הלכך כשר להצניע הוא ומצניעין כמוהו: עצה - לא חזיא לפרה אלא ע"י הדחק אלא לגמל הוא דחזי וזה הוציאו לפרה: רבי יוחנן אמר פטור - דהא לגמל דחזי ליה ליכא שיעורא ואי משום דלצורך פרה הוציאו ולגבה איכא שיעור אכילה ע"י הדחק לאו אכילה היא הלכך לא משערי' ליה בפרה:

GUEMARÁ. "'Quem transporta palha, o equivalente ao que enche a boca da vaca'" — e a transportou para alimentar um camelo, pois a boca do camelo é maior do que a boca da vaca. "'Pois isto é apto para a boca da vaca'" — por isso é uma medida significativa, e para qualquer um que a transporte, sua medida não deixa de valer por causa disso. "'Que é responsável'" — pois há nisto a medida que é apta para a vaca, por isso é apto para ser guardado, e se guarda o equivalente a isso. "'Palha de leguminosas'" — não é apta para a vaca senão sob pressão, mas para o camelo é que é apta, e este a transportou para a vaca. "'Rabi Yochanan disse isento'" — pois, quanto ao camelo, para o qual ela é apta, não há a medida necessária; e se o motivo é que a transportou por causa da vaca, e para ela há a medida, comer sob pressão não é considerado comer, por isso não se mede pela vaca.

04"Restolho, o equivalente à boca do cordeiro" — mas uma baraita diz "um figo seco"! São a mesma medida
A Guemará
עָמִיר כִּמְלֹא פִי טָלֶה. וְהָתַנְיָא כִּגְרוֹגֶרֶת! אִידֵּי וְאִידֵּי חַד שִׁיעוּרָא הוּא.

"Restolho, o equivalente ao que enche a boca de um cordeiro." Mas não foi ensinado numa baraita: o equivalente a um figo seco? Isto e isto são uma única medida.

Nota

A Guemará resolve uma aparente contradição entre a medida da Mishná para o restolho (o equivalente ao que enche a boca de um cordeiro) e uma baraita que dá, para o mesmo tipo de forragem, a medida de um figo seco. A resposta é simples: não são duas medidas diferentes, mas duas descrições equivalentes de uma única quantidade — o que enche a boca de um cordeiro corresponde, na prática, ao volume de um figo seco.

05Folhas de alho e cebola: Rabi Yosei bar Chanina — não se combinam para a medida mais rigorosa, mas se combinam para a mais leve
Rabi Yosei bar Chanina
עֲלֵי שׁוּם וַעֲלֵי בְצָלִים, לַחִים כִּגְרוֹגֶרֶת, וִיבֵשִׁים כִּמְלֹא פִי הַגְּדִי, וְאֵין מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה מִפְּנֵי שֶׁלֹּא שָׁווּ בְּשִׁיעוּרֵיהֶן. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בַּר חֲנִינָא: אֵין מִצְטָרְפִין לֶחָמוּר שֶׁבָּהֶן. אֲבָל מִצְטָרְפִין לַקַּל שֶׁבָּהֶן.

"Folhas de alho e folhas de cebola: frescas, o equivalente a um figo seco; e secas, o equivalente ao que enche a boca do cabrito; e não se combinam umas com as outras, porque não são iguais em suas medidas." Disse Rabi Yosei bar Chanina: não se combinam para completar a medida mais rigorosa entre elas; mas se combinam para completar a medida mais leve entre elas.

Nota

Rabi Yosei bar Chanina matiza a ressalva final da Mishná sobre folhas de alho e cebola. À primeira vista, "não se combinam umas com as outras" soaria absoluto: uma porção fresca e uma porção seca, juntas, jamais somariam uma medida responsabilizadora. Mas Rabi Yosei bar Chanina distingue: elas não se combinam para completar a medida mais rigorosa (a maior das duas, digamos a medida seca, se esta for maior) — pois a porção do tipo mais leve não é, aos olhos da medida mais exigente, tão significativa quanto uma porção adicional do próprio tipo rigoroso; mas se combinam, sim, para completar a medida mais leve — pois qualquer porção do tipo mais significativo (ainda que de categoria diferente) já basta, por si, para completar a medida menos exigente.

06"Mas coisas de medidas desiguais, acaso se combinam?" — a objeção a partir da baraita sobre roupa, saco, couro e esteira, segundo Rabi Shimon
A Guemará; baraita; Rabi Shimon
וְכֹל דְּלָא שָׁווּ בְּשִׁיעוּרַיְיהוּ מִי מִצְטָרְפִין? וְהָתְנַן: הַבֶּגֶד — שְׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה, וְהַשַּׂק — אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה, וְהָעוֹר — חֲמִשָּׁה עַל חֲמִשָּׁה, מַפָּץ — שִׁשָּׁה עַל שִׁשָּׁה. וְתָנֵי עֲלַהּ: הַבֶּגֶד וְהַשַּׂק, הַשַּׂק וְהָעוֹר, הָעוֹר וְהַמַּפָּץ — מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה. וְאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן: מָה טַעַם — מִפְּנֵי שֶׁרְאוּיִין לִיטַמֵּא מוֹשָׁב. טַעְמָא דִּרְאוּיִין לִיטַמֵּא מוֹשָׁב, אֲבָל אֵין רָאוּי לִיטַמֵּא מוֹשָׁב — לָא!

Mas tudo o que não é igual em suas medidas, acaso se combina? Mas não foi ensinado: a roupa — três dedos por três; e o saco — quatro por quatro; e o couro — cinco por cinco; a esteira — seis por seis. E foi ensinado a respeito disto: a roupa e o saco, o saco e o couro, o couro e a esteira — combinam-se uns com os outros. E disse Rabi Shimon: qual é a razão? Porque são aptos para se tornarem impuros por assento. Mas se a razão é que são aptos para se tornarem impuros por assento, então aquilo que não é apto para se tornar impuro por assento — não se combinaria!

Nota

A Guemará levanta uma objeção geral ao princípio de Rabi Yosei bar Chanina (medidas desiguais não se combinam para a mais rigorosa): existe um precedente, de outro contexto — as leis de impureza por assento (moshav, a impureza transmitida pelo peso de um zav sentado sobre um objeto) —, em que uma baraita ensina que roupa (medida mínima: três por três dedos), saco (quatro por quatro), couro (cinco por cinco) e esteira (seis por seis) — todos de medidas diferentes entre si — se combinam uns com os outros para completar a medida de impureza. Rabi Shimon explica a razão: todos são aptos para se tornarem impuros por assento, e é essa aptidão comum, não a igualdade das medidas, que permite a combinação. A objeção então destaca a implicação inversa dessa mesma razão: se a combinação depende apenas da aptidão comum para a impureza por assento, então, no caso das folhas de alho e cebola (frescas e secas), que não têm essa aptidão comum específica em jogo, talvez devessem se combinar plenamente até a medida mais rigorosa também — contradizendo a distinção de Rabi Yosei bar Chanina entre "mais leve" e "mais rigorosa". A resposta a esta objeção, iniciada pela palavra "disse Rava", fica cortada exatamente aqui.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ein mitztarfin lechamur shebahen" e "mi mitztarfin"
אין מצטרפין לחמור שבהם - מי ששיעורו גדול הוי קל ואינו מצטרף להשלים שיעורו של חמור דהא לא חשיב כי ההוא אבל החשוב משלים את הקל לכשיעור תבן מצטרף עם עצה להשלי' פי גמל ועצה אין מצטרף עם התבן להשלים מלא פי פרה: מי מצטרפין - אפילו להשלים חמור את הקל: ג' על ג' - לטומאת מדרס הזב ליעשות אב הטומאה: הבגד והשק מצטרפין - שהבגד משלים שיעור השק שק עשוי מנוצה של עזים: ואמר ר' שמעון מה טעם - מצטרפין: הואיל וראויין ליטמא מושב - אם צירף משנים יחד לטלאי מרדעת של חמור כשיעורו לענין מושב הזב אם קצע משנים מהן ותקן טפח על טפח לישב עליו מיטמא ליה אב הטומאה במושב הזב דתניא המקצע מכולן טפח על טפח טמא מושב ואמרינן טעמא בפ"ק דסוכה הואיל וראוי לטלות על גבי חמור שאינו מקפיד אם הוא משני מינין:

"'Não se combinam para completar a mais rigorosa entre elas'" — aquilo cuja medida necessária é maior é considerado leve, e não se combina para completar a medida do tipo mais rigoroso, pois não é tão significativo quanto aquele; mas o tipo mais significativo completa o tipo mais leve até sua medida: a palha se combina com a palha de leguminosas para completar o equivalente à boca do camelo; e a palha de leguminosas não se combina com a palha para completar o equivalente à boca da vaca. "'Acaso se combinam'" — mesmo para completar o mais rigoroso com o mais leve. "'Três por três'" — para a impureza de assento do fluxo do zav, a fim de se tornar fonte de impureza. "'A roupa e o saco se combinam'" — pois a roupa completa a medida do saco; o saco é feito de pelo de cabra. "'E disse Rabi Shimon: qual é a razão'" — de que se combinam? "'Porque são aptos para se tornarem impuros por assento'" — se alguém uniu dois deles para fazer um remendo na sela de um jumento, na sua medida, quanto ao assento do zav; se cortou dois deles e preparou um palmo por palmo para se sentar sobre ele, ele se torna impuro como fonte de impureza pelo assento do zav — pois foi ensinado: quem corta, de qualquer um deles, um palmo por palmo, torna-se impuro como assento; e explicamos a razão no primeiro capítulo de Sucá: porque é apto para remendar sobre um jumento, que não se importa se o remendo é de duas espécies diferentes.

07"Disse Rava:" — a folha se interrompe
Rava
אָמַר רָבָא:

Disse Rava:

A folha se interrompe exatamente aqui, no meio da resposta de Rava à objeção sobre roupa, saco, couro e esteira. A continuação chega na primeira linha de 76b: "הָכָא נָמֵי, חַזְיָא לְדוּגְמָא" — "aqui também, é apto para servir de amostra" — completando a frase de Rava e resolvendo a objeção: mesmo sem a aptidão comum para a impureza por assento, um pequeno pedaço de tecido de qualquer um desses materiais é sempre apto para servir de amostra a um comerciante, e é esta aptidão comum e mais modesta — não a impureza por assento — que permite a combinação entre eles, sem que isso contradiga a distinção de Rabi Yosei bar Chanina quanto às folhas de alho e cebola.