Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Chet (Hamotzi Yayin)
גַּרְעִינִין, אוֹ גַרְאִינִין?

A dúvida sobre "caroços" se completa; mais duas dúvidas de vocalização; a baraita do leite, do colírio e do mel; a digressão agádica sobre nada ter sido criado em vão; os ditos populares de Rav Yehuda; e a Mishná retomada sobre o azeite

Shabbat 77b — a folha abre completando a dúvida interrompida ao final de 77a: "levantou-se a dúvida: ..." ganha sua continuação, sobre a vocalização de "caroços" (com álef ou com ayin), resolvida por Rava bar Ulá a partir de um versículo de Levítico; seguem-se duas dúvidas semelhantes, sobre a vocalização de "brasas escurecidas" e de "fechar os olhos do morto", cada uma resolvida por um versículo; uma baraita então trata das medidas do leite de mulher e da clara de ovo, usados para dissolver o colírio, e do mel, usado sobre a ferida, ambas encerradas sem solução (teiku); segue-se uma longa digressão agádica de Rav Yehuda em nome de Rav — nada no mundo foi criado em vão — com exemplos de criaturas pequenas que servem de remédio ou que causam temor às grandes; e uma série de ditos populares que Rav Yehuda transmitiu a Rabi Zeira sobre cabras e ovelhas, sobre o rabo do camelo e do boi, sobre o chifre do gafanhoto e a crista da galinha, e uma extensa lista de etimologias populares aramaicas para objetos domésticos — porta, escada, casa, assento, tijolo, cerca, jarro, cântaro, bacia, almofariz, pilão, veste, manto, cama, poço, lenço, palácio; e ainda que três criaturas ganham força com a velhice. A folha então retoma o texto da Mishná, sobre o azeite — a medida de untar um membro pequeno —, com a posição da escola de Rabi Yanai (o membro pequeno de um recém-nascido de um dia), uma objeção, e uma tentativa de identificar essa disputa com a controvérsia tanaítica entre Rabi Shimon ben Elazar e Rabi Natan; a folha se interrompe no meio da resposta a essa tentativa, cuja continuação chega apenas na primeira linha de 78a.

A folha abre sem qualquer novo raciocínio independente, mas completando exatamente a dúvida que 77a havia deixado cortada: "levantou-se a dúvida: ..." — sem que a pergunta em si fosse formulada — ganha aqui seu conteúdo: trata-se da vocalização exata da palavra hebraica para "caroços" (mencionada na Mishná de 76b, sobre os alimentos e suas cascas, caroços, talos e farelo), que pode se escrever com a letra álef ou com a letra ayin no meio. Rava bar Ulá resolve a dúvida citando um versículo de Levítico (27:18) sobre a redução do valor de avaliação de um campo — "venigra me'erkecha" —, que emprega a mesma raiz com ayin, indicando que "caroços" se relaciona à ideia de diminuição (pois são descartados, reduzindo o alimento). Seguem-se, no mesmo padrão, mais duas dúvidas de vocalização: sobre a palavra que descreve brasas "escurecidas" ou "ofuscadas" (numa baraita sobre assar carne antes do Yom Kipur), resolvida por Rav Yitzchak bar Avdimi com um versículo de Ezequiel sobre os cedros do jardim de Deus; e sobre a palavra que descreve "fechar os olhos" de um moribundo ou de um morto, resolvida por Rabi Chiya bar Aba em nome de Rabi Yochanan com um versículo de Isaías. Encerradas essas três dúvidas linguísticas, uma baraita retoma o tema das medidas do Shabat: o leite de animal tem a medida de um gole; o leite de mulher e a clara de ovo, usados para dissolver o colírio na vareta própria, têm a medida do que se coloca nessa vareta; e o colírio em si tem a medida do que se dissolve em água para os dois olhos — sobre o que Rav Ashi levanta uma dúvida (se a medida inclui apenas a dissolução, ou também o que gruda nos dedos), encerrada sem solução (teiku). Quanto ao mel, sua medida é o que se coloca sobre a ferida — mais precisamente, sobre a boca da ferida —, e Rav Ashi levanta nova dúvida (se isso inclui toda a boca da ferida, ou apenas sua parte superior), também encerrada em teiku. A partir daqui, a Guemará se abre numa longa digressão agádica: Rav Yehuda, em nome de Rav, ensina que tudo o que Deus criou em Seu mundo tem propósito — a lesma serve de remédio para a ferida, a mosca esmagada para a picada de vespa, o mosquito é o inimigo natural da serpente (que entra em seu nariz), a serpente serve de remédio para certa erupção de pele, e a aranha esmagada, para a picada de escorpião (entrando em seu ouvido). Uma baraita relacionada ensina os "cinco temores do fraco sobre o forte": o pequeno animal barulhento que afugenta o leão, o mosquito que aterroriza o elefante, a aranha que aterroriza o escorpião, a andorinha que aterroriza a águia (enfiando-se sob suas asas), e o pequeno verme que aterroriza o leviatã (entrando em seu ouvido) — citando um versículo de Amós. Segue-se um relato: Rabi Zeira encontrou Rav Yehuda de bom humor à porta da casa de seu sogro, e aproveitou para lhe perguntar uma série de curiosidades sobre o mundo natural — por que as cabras andam à frente do rebanho e depois as ovelhas (como na criação do mundo, primeiro a escuridão e depois a luz); por que a ovelha tem a cauda coberta e a cabra não (por sermos nós que nos cobrimos com a lã da ovelha); por que o rabo do camelo é curto (por comer espinhos) e o do boi é comprido (para espantar mosquitos nos pântanos); por que o chifre do gafanhoto é mole (para não se ferir e cegar entre os juncos) e por que a crista da galinha se ergue para cima (por habitar entre tábuas, protegendo os olhos da fumaça). A esse relato segue-se uma extensa coletânea de etimologias populares aramaicas para nomes comuns de objetos domésticos — porta, escada, prato de molho, casa, choupana, banco, tijolo, cerca, jarro, cântaro, ramo de murta para dançar diante da noiva, bacias de lavar, almofariz, pilão, veste, manto, capa, cama, poço seco, lenço dos sábios, palácio real — cada nome explicado por um jogo de palavras ou trocadilho popular; e uma baraita final, de que três criaturas ganham força à medida que envelhecem: o peixe, a serpente e o porco. Encerrada essa digressão, a Guemará retoma finalmente o texto da Mishná, em sua cláusula sobre o azeite: "o suficiente para untar um membro pequeno". A escola de Rabi Yanai precisa: o membro pequeno de um recém-nascido de um dia. Levanta-se uma objeção de uma baraita que parece entender a frase de outro modo (o membro pequeno de um adulto, ou o membro grande de um recém-nascido), à qual a escola de Rabi Yanai responde reinterpretando a própria baraita. A Guemará então tenta identificar essa disputa com uma controvérsia tanaítica explícita entre Rabi Shimon ben Elazar (que exige o membro pequeno de um recém-nascido) e Rabi Natan (que fala apenas em "membro pequeno", sem especificar); mas, ao testar essa identificação, a folha se interrompe no meio da resposta — "não, pois para todos os tanaítas, o membro pequeno de um recém-nascido de um dia, não..." — sem que a frase se complete. Sua continuação chega apenas na primeira linha de 78a, onde se esclarece que essa medida não se sustenta segundo nenhum dos dois tanaítas, e que a versão da escola de Rabi Yanai carece de fundamento.

Nota — a costura com a dúvida interrompida de 77a

77a se interrompera no meio de uma nova dúvida, cortada logo após a fórmula introdutória: "אִיבַּעְיָא לְהוּ: ..." — "levantou-se a dúvida: ..." — sem que a pergunta em si aparecesse. A folha aqui abre completando exatamente essa dúvida: "גַּרְעִינִין, אוֹ גַרְאִינִין" — "'caroços' (com ayin), ou 'caroços' (com álef)?" — referindo-se à palavra da Mishná de 76b sobre os alimentos e suas cascas, caroços, talos e farelo. Rava bar Ulá resolve a dúvida a partir de um versículo de Levítico.

01"Caroços" — a dúvida se completa; Rava bar Ulá resolve com um versículo de Levítico
A Guemará; Rava bar Ulá
גַּרְאִינִין, אוֹ גַרְעִינִין? אָמַר רָבָא בַּר עוּלָּא: וְנִגְרַע מֵעֶרְכֶּךָ.

"'Gar'inin' (com álef), ou 'gar'inin' (com ayin)?" Disse Rava bar Ulá: "'venigra me'erkecha'" (e diminuirá de tua avaliação — Levítico 27:18).

Nota

Ver a nota de costura acima: esta é a segunda metade da dúvida que 77a deixara cortada em "levantou-se a dúvida: ...". A palavra hebraica para "caroços", mencionada na Mishná de 76b entre os componentes descartáveis dos alimentos (cascas, caroços, talos, farelo), pode ser escrita com a letra álef ou com a letra ayin, duas grafias de pronúncia semelhante. Rava bar Ulá resolve a dúvida citando um versículo de Levítico sobre a redução do valor de avaliação de um campo consagrado — "venigra me'erkecha", com ayin, da raiz que significa "diminuir" — mostrando que a grafia correta é com ayin: os caroços recebem esse nome porque são jogados fora, diminuindo o alimento.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gar'inin" e "venigra"
גראינין - מתניתין דפרקין דלעיל חוץ מקליפתן וגרעיניהן: ונגרע - והגרעינין זורקין ונגרעין מתוך האוכל:

"'Gar'inin'" — a Mishná do capítulo anterior, "exceto suas cascas e seus caroços". "'Venigra'" — e os caroços são jogados fora e diminuídos de dentro do alimento.

02Nova dúvida: "brasas escurecidas" — Rav Yitzchak bar Avdimi resolve com um versículo de Ezequiel
A Guemará; Rav Yitzchak bar Avdimi
אִיבַּעְיָא לְהוּ: ״אוֹמְמוֹת״, אוֹ ״עוֹמְמוֹת״? אָמַר רַב יִצְחָק בַּר אַבְדִּימִי: ״אֲרָזִים לֹא עֲמָמֻהוּ בְּגַן אֱלֹהִים״.

Levantou-se a dúvida: "'ommot' (com álef)", ou "'ommot' (com ayin)"? Disse Rav Yitzchak bar Avdimi: "'os cedros não o ofuscaram no jardim de Deus'" (Ezequiel 31:8).

Nota

Nova dúvida do mesmo tipo, agora sobre a palavra que descreve brasas "escurecidas" ou "ofuscadas" — apagadas por fora mas ainda quentes por dentro —, tema relevante para uma baraita sobre assar carne antes do Yom Kipur, que exige brasas em chama viva, não meras brasas escurecidas. Rav Yitzchak bar Avdimi resolve a dúvida citando um versículo de Ezequiel sobre os cedros do jardim de Deus, que "não o ofuscaram" — isto é, nada os superou em beleza —, empregando a mesma raiz com ayin, no sentido de "escurecer" ou "ofuscar".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ommot" e "amamuhu"
אוממות - גבי גחלים מייתינן ליה בכיצד צולין גחלים יכול עוממות ת"ל אש אי אש יכול שלהבת כו': עממוהו - לא החשיכו מראיתו להיות הם נאים ממנו:

"'Ommot'" — trazemos essa questão, a respeito de brasas, no capítulo "Como se Assa" (65b): "poderia a baraita referir-se a brasas escurecidas? Foi ensinado 'fogo'. E se diz 'fogo', poderia referir-se a chama?" etc. "'Ofuscaram-no'" — não escureceram sua aparência, para que os cedros fossem mais belos do que ele.

03Nova dúvida: "fechar os olhos" do morto — Rabi Chiya bar Aba, em nome de Rabi Yochanan, resolve com um versículo de Isaías
A Guemará; Rabi Chiya bar Aba; Rabi Yochanan
אִיבַּעְיָא לְהוּ: ״מְאַמְּצִין״ תְּנַן, אוֹ ״מְעַמְּצִין״. אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: ״וְעֹצֵם עֵינָיו מֵרְאוֹת בְּרָע״.

Levantou-se a dúvida: ensinamos "'me'ametzin' (com álef)", ou "'me'ametzin' (com ayin)"? Disse Rabi Chiya bar Aba, disse Rabi Yochanan: "'e fecha seus olhos de ver o mal'" (Isaías 33:15).

Nota

Terceira dúvida do mesmo tipo, agora sobre a palavra que descreve o ato de "fechar os olhos" de um moribundo ou de um morto — tema tratado adiante, no Perek HaShoel (151b), a propósito de se é permitido fechar os olhos de um moribundo no Shabat. Rabi Chiya bar Aba, em nome de Rabi Yochanan, resolve a dúvida citando um versículo de Isaías sobre o justo que "fecha seus olhos de ver o mal", empregando a mesma raiz com ayin.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "me'ametzin"
מאמצין - לקמן גבי עינים של מת בפ' שואל (שבת דף קנא:):

"'Me'ametzin'" — mais adiante, a respeito dos olhos de um morto, no Perek HaShoel (Shabat 151b).

Baraita: as medidas do leite, do colírio e do mel · חָלָב, קִילוֹר וּדְבַשׁ

04Baraita: leite de animal, leite de mulher, clara de ovo e colírio; a dúvida de Rav Ashi, em teiku
Baraita; Rav Ashi
תָּנוּ רַבָּנַן: הַמּוֹצִיא חָלָב שֶׁל בְּהֵמָה כְּדֵי גְמִיאָה. חָלָב שֶׁל אִשָּׁה וְלוֹבֶן שֶׁל בֵּיצָה — כְּדֵי לִיתֵּן בִּמְשִׁיפָא שֶׁל קִילוֹר. קִילוֹר כְּדֵי לָשׁוּף בְּמַיִם. בָּעֵי רַב אָשֵׁי: כְּדֵי שִׁיפָה, אוֹ כְּדֵי אֲחִיזָה וְשִׁיפָה? תֵּיקוּ.

Ensinaram os sábios: quem transporta leite de animal — o suficiente para um gole. Leite de mulher e clara de ovo — o suficiente para colocar na vareta de colírio. O colírio — o suficiente para dissolver em água. Perguntou Rav Ashi: o suficiente apenas para a dissolução, ou o suficiente para a pegada nos dedos e a dissolução? Fica sem solução.

Nota

Encerradas as três dúvidas de vocalização, a Guemará retoma o tema das medidas do Shabat com uma baraita: o leite de animal tem a medida de um gole (confirmando a cláusula da Mishná já discutida em 77a); o leite de mulher e a clara de ovo, usados para dissolver o pó de colírio sobre a vareta própria de aplicação, têm por medida o que se coloca nessa vareta; e o colírio em pó, por sua vez, tem por medida o que se dissolve em água suficiente para os dois olhos. Rav Ashi levanta uma dúvida final: essa medida de colírio inclui apenas o que efetivamente se dissolve para aplicação nos olhos, ou também o resíduo que gruda nos dedos de quem o manuseia? A dúvida fica sem solução (teiku).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bimshifa shel kilor", "kedei lashuf bemayim" e "kedei shifa o kedei achiza veshifa"
במשיפה של קילור - שרגילין לשופו בחלב של אשה: כדי לשוף במים - לשני עינים: כדי שיפה או כדי אחיזה ושיפה - מה שנדבק באצבעותיו לבד מה שנותן בעיניו:

"'Na vareta de colírio'" — pois costumam dissolvê-lo com leite de mulher. "'O suficiente para dissolver em água'" — para os dois olhos. "'O suficiente para a dissolução, ou o suficiente para a pegada e a dissolução'" — o que gruda em seus dedos, além do que coloca nos olhos.

05Baraita: o mel sobre a ferida; a dúvida de Rav Ashi, em teiku
Baraita; Rav Ashi
דְּבַשׁ כְּדֵי לִיתֵּן עַל הַכָּתִית. תָּנָא: כְּדֵי לִיתֵּן עַל פִּי כָתִית. בָּעֵי רַב אָשֵׁי: ״עַל כָּתִית״ — אַפּוּמָּא דְּכוּלַּהּ כָּתִית, אוֹ דִילְמָא אַמּוּרְשָׁא קַמָּא דְּכָתִית, לְאַפּוֹקֵי הוּדְרָנָא דְּלָא — תֵּיקוּ.

Mel — o suficiente para colocar sobre a ferida. Foi ensinado: o suficiente para colocar sobre a boca da ferida. Perguntou Rav Ashi: "sobre a ferida" — sobre a boca de toda a ferida, ou talvez apenas sobre a parte superior da ferida, excluindo sua margem ao redor, que não precisaria? Fica sem solução.

Nota

A Guemará passa à medida do mel, também mencionada na Mishná de abertura deste perek: o suficiente para colocar sobre uma ferida infeccionada (katit). Uma baraita precisa: sobre a "boca" da ferida — toda ferida sendo chamada, em linguagem talmúdica, de "boca". Rav Ashi levanta a última dúvida desta série: essa medida cobre toda a extensão da boca da ferida, ou apenas sua parte mais alta e central, excluindo a margem ao redor que já começou a cicatrizar? Também esta dúvida fica sem solução (teiku).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "apuma dechula katit" e "mursha kama"
אפומא דכולה כתית - וכל מכה קרויה פה: מורשא קמא - עליון של מכה:

"'Sobre a boca de toda a ferida'" — e toda ferida é chamada de "boca". "'A parte superior'" — o alto da ferida.

Digressão agádica: nada foi criado em vão · לֹא בָּרָא דָּבָר אֶחָד לְבַטָּלָה

06Rav Yehuda, em nome de Rav: a lesma, a mosca, o mosquito, a serpente e a aranha, cada qual com seu propósito
Rav Yehuda; Rav
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: כׇּל מַה שֶּׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּעוֹלָמוֹ לֹא בָּרָא דָּבָר אֶחָד לְבַטָּלָה. בָּרָא שַׁבְּלוּל — לְכָתִית. בָּרָא זְבוּב — לְצִירְעָה. יַתּוּשׁ — לְנָחָשׁ. וְנָחָשׁ — לַחֲפָפִית. וּסְמָמִית — לְעַקְרָב. הֵיכִי עָבֵיד לֵיהּ — מַיְיתֵי חֲדָא אוּכָּמָא וַחֲדָא חִיוָּרָא, וְשָׁלְקִי לְהוּ וְשָׁיְיפִי לֵיהּ.

Disse Rav Yehuda, disse Rav: tudo o que o Santo, bendito seja, criou em Seu mundo, não criou uma única coisa em vão. Criou a lesma — como remédio para a ferida. Criou a mosca — como remédio para a picada de vespa. O mosquito — como inimigo da serpente. E a serpente — como remédio para a chafefit (certa erupção de pele). E a aranha — como remédio para a picada de escorpião. Como se faz esse remédio de aranha? Trazem-se uma escura e uma clara, cozinham-nas, e untam-se com elas a picada.

Nota

Encerrada a série de baraitot sobre as medidas do Shabat, a Guemará abre uma longa digressão agádica. Rav Yehuda, em nome de Rav, ensina o princípio de que nada no mundo criado por Deus existe sem propósito, exemplificando com criaturas aparentemente insignificantes ou nocivas que, na verdade, servem de remédio ou cumprem função no equilíbrio natural: a lesma esmagada cura a ferida infeccionada; a mosca esmagada cura a picada de vespa; o mosquito é o inimigo natural da serpente (entrando-lhe pelo nariz, como Rashi explicará); a serpente serve de remédio para uma erupção de pele chamada chafefit; e a aranha esmagada — misturando-se uma escura e uma clara, cozidas e aplicadas — cura a picada de escorpião (a aranha entrando-lhe pelo ouvido).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shablul", "zvuv letzir'a", "lechafefit", "sememit" e "veshayfi"
שבלול - לימצ"א: לכתית - מניחה עליו: זבוב לצירעה - למי שעקצו צירעה כותש זבוב ומניחה עליו: לחפפית - מין שחין: סממית - אייראניא"ה בלע"ז: לעקרב - עקיצת עקרב כותש סממית ומניחה עליו: ושייף - ומושח:

"'Lesma'" — em francês antigo, limaça. "'Para a ferida'" — coloca-a sobre ela. "'Mosca, para a vespa'" — para quem foi picado por vespa, esmaga-se uma mosca e coloca-se sobre ele. "'Para a chafefit'" — um tipo de erupção de pele. "'Aranha'" — em francês antigo, araignée. "'Para o escorpião'" — para picada de escorpião, esmaga-se uma aranha e coloca-se sobre ele. "'E se unta'" — e se passa.

07Baraita: os cinco temores do fraco sobre o forte
Baraita; Rav Yehuda; Rav
תָּנוּ רַבָּנַן, חֲמִשָּׁה אֵימוֹת הֵן אֵימַת חַלָּשׁ עַל גִּבּוֹר: אֵימַת מַפְגִּיעַ עַל הָאֲרִי, אֵימַת יַתּוּשׁ עַל הַפִּיל, אֵימַת סְמָמִית עַל הָעַקְרָב, אֵימַת סְנוּנִית עַל הַנֶּשֶׁר, אֵימַת כִּילְבִּית עַל לִוְיָתָן. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: מַאי קְרָא — ״הַמַּבְלִיג שֹׁד עַל עָז״.

Ensinaram os sábios: cinco temores há, que ilustram o temor do fraco sobre o forte: o temor do mafguia sobre o leão, o temor do mosquito sobre o elefante, o temor da aranha sobre o escorpião, o temor da andorinha sobre a águia, o temor do kilbit sobre o leviatã. Disse Rav Yehuda, disse Rav: qual é o versículo? "'Que faz prevalecer a destruição sobre o poderoso'" (Amós 5:9).

Nota

Uma baraita relacionada continua o mesmo tema, mas invertendo a ênfase: em vez de remédios, agora se trata de temores — casos em que uma criatura pequena e fraca inspira medo numa criatura grande e forte. O mafguia (um pequeno animal de voz grande) assusta o leão, que teme se tratar de algo maior; o mosquito entra pelo nariz do elefante; a aranha entra pelo ouvido do escorpião; a andorinha se enfia sob as asas da águia, impedindo-a de abri-las; e o kilbit (um pequeno verme) entra pelo ouvido do leviatã. Rav Yehuda, em nome de Rav, ancora o princípio geral num versículo de Amós, sobre Deus, "que faz prevalecer a destruição sobre o poderoso".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mafguia", "yatush", "senunit", "kilbit" e "hamavlig shod al az"
מפגיע - חיה קטנה וקולה גדול ושומע וירא שתהא בריה גדולה ובורח: יתוש - נכנס לפיל בחוטמו וכן סממית לעקרב נכנס לו באזנו: סנונית - ארונדייל"א נכנסת תחת כנפי הנשר ומעכבו מפרישת כנפיו: כילבית - שרץ קטן ונכנס לדג גדול באזנו: המבליג שוד על עז - המחזיק שדוד על הגבור:

"'Mafguia'" — um animal pequeno, cuja voz é grande, e o leão ouve e teme que seja uma criatura grande, e foge. "'Mosquito'" — entra no elefante por seu nariz; e, do mesmo modo, a aranha ao escorpião, entra por seu ouvido. "'Andorinha'" — em francês antigo, arondele — entra sob as asas da águia e a impede de abrir suas asas. "'Kilbit'" — um pequeno verme, que entra no peixe grande por seu ouvido. "'Que faz prevalecer a destruição sobre o poderoso'" — que fortalece o destruidor sobre o forte.

Rabi Zeira e Rav Yehuda: ditos populares sobre o mundo natural e etimologias aramaicas · מַאי טַעְמָא

08Rabi Zeira pergunta a Rav Yehuda: por que as cabras vão à frente, por que a ovelha é coberta e a cabra não, por que o rabo do camelo é curto e o do boi é comprido
Rabi Zeira; Rav Yehuda
רַבִּי זֵירָא אַשְׁכַּח לְרַב יְהוּדָה דַּהֲוָה קָאֵי אַפִּיתְחָא דְּבֵי חֲמוּהּ, וְחַזְיֵיהּ דַּהֲוָה בְּדִיחָא דַּעְתֵּיהּ, וְאִי בָּעֵי מִינֵּיהּ כׇּל חֲלָלֵי עָלְמָא הֲוָה אָמַר לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: מַאי טַעְמָא עִיזֵּי מְסַגָּן בְּרֵישָׁא וַהֲדַר אִימְּרֵי? אֲמַר לֵיהּ כִּבְרִיָּיתוֹ שֶׁל עוֹלָם, דִּבְרֵישָׁא חֲשׁוֹכָא וַהֲדַר נְהוֹרָא. מַאי טַעְמָא הָנֵי מְכַסְּיָין וְהָנֵי מְגַלְּיָין? הָנֵי דְּמִכַּסִּינַן מִינַּיְיהוּ — מְכַסְּיָין, וְהָנֵי דְּלָא מִכַּסִּינַן מִינַּיְיהוּ — מְגַלְּיָין. מַאי טַעְמָא גַּמְלָא זוּטַר גְּנוּבְתֵּיהּ? מִשּׁוּם דְּאָכֵל כִּיסֵי. מַאי טַעְמָא תּוֹרָא אֲרִיכָא גְּנוּבְתֵּיהּ? מִשּׁוּם דְּדָיֵיר בְּאַגְמֵי, וּבָעֵי לְכַרְכּוֹשֵׁי בָּקֵי.

Rabi Zeira encontrou Rav Yehuda parado à porta da casa de seu sogro, e viu que seu ânimo estava alegre, e que, se quisesse perguntar-lhe sobre todos os espaços vazios do mundo, ele lhe responderia. Disse-lhe: por que razão as cabras caminham à frente do rebanho e depois as ovelhas? Disse-lhe: é como a criação do mundo, em que primeiro houve escuridão e depois luz. Por que razão estas (as ovelhas) são cobertas, e aquelas (as cabras) são descobertas? Estas, das quais nos cobrimos — são cobertas; e aquelas, das quais não nos cobrimos — são descobertas. Por que razão o rabo do camelo é curto? Porque come espinhos. Por que razão o rabo do boi é comprido? Porque habita nos pântanos, e precisa espantar os mosquitos.

Nota

A digressão continua num relato: Rabi Zeira encontrou Rav Yehuda de bom humor à porta da casa do sogro, e aproveitou o momento para lhe fazer uma série de perguntas curiosas sobre o mundo natural, cada uma respondida com uma explicação popular. Sobre a ovelha "coberta" e a cabra "descoberta": segundo Rashi, isso se refere literalmente à cauda gorda (aliá) da ovelha, que a cobre, e que a cabra não tem; mas a resposta dada por Rav Yehuda joga com a raiz "cobrir" em outro sentido — nós nos cobrimos com a lã da ovelha, e por isso ela é chamada "coberta", ao passo que não nos cobrimos com o pelo da cabra.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kol chalelei alma", "mesagyan bereish", "berisha chashocha", "mechasyan", "vehani megalyan", "hani demichasinan minaihu", "de'achla kisei" e "uve'i lecharkushei baki"
כל חללי עלמא - פירוש דברים הנעשים בכל חלל העולם: מסגיין בריש עדרא - מהלכות בראש העדר: ברישא חשוכא - סתם עזים שחורות סתם רחלות לבנות: מכסיין - בזנב: והני מגליין - העזים אין להם אליה: הני דמכסינן מינייהו - רחלים שאנחנו מתכסין מצמרן גם הן מכוסות: דאכלה כיסי - קוצים לפיכך זנבו קצר כדי שלא ידבקו בה הקוצים: ובעי לכרכושי בקי - להבריח היתושין:

"'Todos os espaços vazios do mundo'" — isto é, as coisas que ocorrem em todo o espaço do mundo. "'Caminham à frente do rebanho'" — andam à frente do rebanho. "'Primeiro a escuridão'" — em geral, as cabras são escuras (pretas); em geral, as ovelhas são brancas. "'Cobertas'" — pela cauda gorda. "'E estas são descobertas'" — as cabras não têm cauda gorda. "'Estas, das quais nos cobrimos'" — as ovelhas, de cuja lã nos cobrimos, também elas são cobertas. "'Porque come espinhos'" — por isso seu rabo é curto, para que os espinhos não se agarrem nele. "'E precisa espantar os mosquitos'" — para afugentar os mosquitos.

09O chifre do gafanhoto, a crista da galinha, e as primeiras etimologias populares: porta, escada, prato de molho, casa, choupana
Rabi Zeira; Rav Yehuda
מַאי טַעְמָא קַרְנָא דְקַמְצָא רַכִּיכָא? מִשּׁוּם דְּדָיְירָא בְּחִילְפֵי, וְאִי קַשְׁיָא — נָדְיָא וּמִתְעַוְּורָא. דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: הַאי מַאן דְּבָעֵי דְּלִיסַמְּיֵהּ לְקַמְצָא — לִשְׁלְפִינְהוּ לְקַרְנֵיהּ. מַאי טַעְמָא הַאי תִּימְרָא דְתַרְנְגוֹלְתָּא מִדְּלֵי לְעֵילָּא? דְּדָיְירִי אַדַּפֵּי, וְאִי עָיֵיל קֻטְרָא — מִתְעַוְּורָא. ״דַּשָּׁא״ — דֶּרֶךְ שָׁם. ״דַּרְגָּא״ — דֶּרֶךְ גַּג. ״מַתְכּוּלִיתָא״ — מָתַי תִּכְלֶה דָּא. ״בֵּיתָא״ — בֹּא וְאִיתֵּיב. ״בִּיקְתָּא״ — בֵּי עָקְתָא.

Por que razão o chifre do gafanhoto é mole? Porque habita entre os juncos, e, se fosse duro, tremeria ao bater neles e ficaria cego. Pois disse Shmuel: quem quiser cegar um gafanhoto, que lhe arranque os chifres. Por que razão a crista da galinha se ergue para cima? Porque as galinhas habitam entre as tábuas do galinheiro, e, se a fumaça entrasse em seus olhos, ficariam cegas. "'Dasha' (porta)" — "caminho para lá" (derech sham). "'Darga' (escada)" — "caminho para o telhado" (derech gag). "'Matkulita' (prato de molho)" — "quando terminará isto?" (matai tichle da). "'Beita' (casa)" — "vem e senta-te nela" (bo veitev bah). "'Bikta' (choupana)" — "casa de aperto" (bei aktza).

Nota

As perguntas de Rabi Zeira continuam com o chifre mole do gafanhoto (para não se ferir ao roçar nos juncos onde habita, o que o cegaria, já que sua visão depende do chifre) e a crista ereta da galinha (protegendo os olhos da fumaça, ao dormir empoleirada entre as tábuas do galinheiro). Encerrado o relato, a Guemará encadeia uma extensa lista de etimologias populares aramaicas — jogos de palavras que explicam o nome de objetos cotidianos a partir de frases com sons semelhantes, começando por "porta" (caminho para lá), "escada" (caminho para o telhado), o prato onde se molha o pão (quando terminará isto — porque se come dele rapidamente, ou, alternativamente, muito lentamente), "casa" (vem e senta-te nela) e "choupana" (casa de aperto, isto é, estreita).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kamtza", "chilfei", "nadya umit'avra", "timra deternegolta", "matkulita", "matai tichle da", "beita" e "bikta"
קמצא - ארבה ול"נ קמצא [נמלה]: חילפי - ערבה: ואי קשיא נדיא ומתעוורא - ואם היתה קשה תנוד ותעקר כשתכה בעצים: ומתעוורא - יסתמו עיניה שמראות עיניה תלויה בה כדשמואל: תימרא דתרנגולא מידליא לעילא - ריס של עין התחתון כשעוצם עיניו עולה למעלה מן העליון ובשאר כל בריה העליון שוכב על התחתון: משום דדייר אדפי - שעולה בלילות על הקרשים והקורות צריך שיעלה התחתון על העליון מפני העשן שלא יכנס בעיניו: מתכוליתא - דבר שמטבילין בו כגון כותח או שאר ליפתן: מתי תכלה דא - לכשיכלה מה נאכל ול"נ מתי תכלה דא לפי שאינו כלה עד זמן ארוך שאינו נאכל אלא מעט מעט: ביתא בא ואיתיב - שדרך לישב בבית: בקתא - בית צר וקטן: בי עקתא - בית צר:

"'Kamtza'" — locusta; e alternativamente me parece que aqui "kamtza" significa formiga. "'Juncos'" — salgueiro. "'E se fosse duro, tremeria e cegaria'" — e se fosse duro, tremeria e se soltaria quando batesse nas árvores (juncos). "'E ficaria cego'" — literalmente, fechariam-se seus olhos, pois a visão de seus olhos depende do chifre, conforme a opinião de Shmuel. "'A crista da galinha se ergue para cima'" — a pálpebra inferior, quando a galinha fecha os olhos, sobe acima da superior; e em todas as demais criaturas, a superior repousa sobre a inferior. "'Porque habita entre as tábuas'" — pois sobe à noite sobre as tábuas e vigas, sendo necessário que a pálpebra inferior suba sobre a superior, por causa da fumaça, para que não entre em seus olhos. "'Matkulita'" — algo em que se molha o pão, como molho de coalhada ou outro condimento. "'Quando terminará isto'" — pergunta-se assim porque, ao ser molhado nele, o que se come termina depressa; e alternativamente me parece que se diz "quando terminará isto" porque não termina senão depois de muito tempo, pois não se come dele senão pouco a pouco. "'Casa: vem e senta-te'" — pois o costume é sentar-se na casa. "'Choupana'" — casa estreita e pequena. "'Casa de aperto'" — casa estreita.

10Mais etimologias populares: banco, tijolo, cerca, jarro, cântaro, ramo de murta, bacias, almofariz, pilão
Ditos populares
״כּוּפְתָּא״ — כּוּף וְתִיב. ״לִבְנֵי״ — לִבְנֵי בְנֵי. ״הוּצָא״ — חֲצִיצָה. ״חַצְבָּא״ — שֶׁחוֹצֵב מַיִם מִן הַנָּהָר. ״כּוּזָה״ — כָּזֶה. ״שׁוּטִיתָא״ — שְׁטוּתָא. ״מְשִׁיכְלָא״ — מָאשֵׁי כּוֹלָּא. ״מְשִׁיכְלְתָא״ — מָשְׁיָא כַּלְּתָא. ״אֲסִיתָא״ — חַסִּירְתָּא. ״בּוּכְנָה״ — בּוֹא וְאַכֶּנָּה.

"'Kufta' (banco)" — "dobra-te e senta-te" (kuf vetiv). "'Livnei' (tijolos)" — "para os filhos dos filhos" (livnei venei). "'Hutza' (cerca)" — "separação" (chatzitza). "'Chatzba' (jarro)" — "porque escava água do rio" (shechotzev mayim). "'Kuza' (cântaro)" — "como isto" (kazeh). "'Shotita' (ramo de murta)" — "loucura" (shtuta). "'Mashichla' (bacia grande)" — "lava a todos" (ma'ashei kola). "'Mashichleta' (bacia pequena)" — "lava a noiva" (mashya kalta). "'Assita' (almofariz)" — "a que falta" (chasirta). "'Buchna' (pilão)" — "vem e o baterei" (bo veakenu).

Nota

A coletânea de etimologias populares continua com objetos domésticos e utensílios: o banco de sentar (dobra-te e senta), o tijolo (que perdura por muitas gerações), a cerca de espinhos ou ramos de palmeira (mera separação, não construção permanente), o jarro de barro (que "escava" água do rio), o pequeno cântaro (algo de pouco valor — "isto vale tão pouco quanto isto"), o ramo de murta com que se dança diante da noiva (fazendo quem dança parecer um louco), as bacias grandes e pequenas de lavar-se (a grande, para todos; a pequena e bonita, reservada a pessoas importantes, como a noiva), o almofariz (que tem uma escavação incompleta) e o pilão com que se soca nele.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kufta", "kuf tiv", "livnei venei", "hutza", "chatzitza", "kuza", "kazeh", "shotita", "shtuta", "mashichla", "mashu kola", "mashichleta", "mashya kalta", "asita" e "buchna"
כופתא - מכתשת ל"א מדה לחטין ול"נ כמין גולם עץ עשוי לישיבה כמו כופת שאור שיחדה לישיבה דתניא בפסחים (דף מה:): כוף תיב - כפוף אותו ושב עליו: לבני לבני בני - מתקיים לדורות הרבה: הוצא - גדר קוצים או לולבים: חציצה - אינו דבר קיימא אלא חציצה בעלמא: כוזא - כלי חרס קטן: כזה - כלומר דבר מועט וקל כמו זהו מהו חשוב למלאותו לי מיינך במתנה: שוטיתא - בד של הדס שמרקדין בו לפני כלה: שטותא - נראה המרקד כשוטה: משיכלא - ספל גדול שהכל רוחצים ידיהם ורגליהם ממנו: משו כולא - רוחץ את הכל: משכילתא - ספל קטן ונאה: משיא כלתא - מיוחד לחשובים כמו כלה ואשה חשובה לרחוץ ממנו: אסיתא - מורטיי"ר: חסירתא - שחסר החקיקה מבפנים: בוכנא - עלי שכותשין בו:

"'Kufta'" — almofariz; outra explicação: medida para trigo; e ainda parece-me que se refere a uma espécie de tronco de madeira em bruto, feito para sentar-se, como "o bloco de fermento que alguém destinou para assento", conforme se ensina em Pessachim (45b). "'Dobra-te e senta'" — dobra-o e senta-te sobre ele. "'Para os filhos dos filhos'" — permanece por muitas gerações. "'Hutza'" — cerca de espinhos ou de ramos de palmeira. "'Separação'" — não é algo permanente, mas apenas uma separação simples. "'Kuza'" — um pequeno utensílio de barro. "'Como isto'" — isto é, algo pequeno e leve, como quem diz: "isto — o que vale? Encha-o para mim de seu vinho, de presente." "'Shotita'" — um ramo de murta com que se dança diante da noiva. "'Loucura'" — quem dança com ele parece um louco. "'Mashichla'" — uma bacia grande, na qual todos lavam as mãos e os pés. "'Lava a todos'" — lava a todos. "'Mashichleta'" — uma bacia pequena e bonita. "'Lava a noiva'" — reservada a pessoas importantes, como uma noiva ou mulher importante, para lavar-se nela. "'Assita'" — em francês antigo, mortier. "'A que falta'" — pois lhe falta talhar a escavação por dentro. "'Buchna'" — o pilão com que se soca.

11Últimas etimologias: veste, manto, capa, cama, poço, lenço, palácio; e três criaturas que ganham força com a velhice
Ditos populares; baraita
״לְבוּשָׁה״ — לֹא בּוּשָׁה. ״גְּלִימָא״ — שֶׁנַּעֲשָׂה בּוֹ כְּגֹלֶם. ״גּוּלְּתָא״ — גַּלִּי וְאִיתֵּיב. ״פּוּרְיָא״ — שֶׁפָּרִין וְרָבִין עָלֶיהָ. ״בּוֹר זִינְקָא״ — בּוֹר זֶה נָקִי. ״סוּדָרָא״ — סוֹד ה׳ לִירֵאָיו. ״אַפַּדְנָא״ — אַפִּיתְחָא דֵּין. תָּנוּ רַבָּנַן: שְׁלֹשָׁה כׇּל זְמַן שֶׁמַּזְקִינִין מוֹסִיפִין גְּבוּרָה, וְאֵלּוּ הֵן: דָּג, וְנָחָשׁ, וַחֲזִיר.

"'Levusha' (veste)" — "não há vergonha" (lo vusha). "'Gelima' (manto)" — "porque se torna nele como um corpo informe" (kegolem). "'Gulta' (capa)" — "descobre-te e senta-te" (gali veitev). "'Purya' (cama)" — "porque se frutificam e se multiplicam sobre ela" (parin veravin). "'Bor zinka' (poço seco)" — "este poço está limpo" (bor ze naki). "'Sudara' (lenço)" — "'o segredo de Deus é para os que O temem'" (sod Hashem lireav — Salmos 25:14). "'Apadna' (palácio)" — "à porta deste vêm todos" (el hapetach zeh). Ensinaram os sábios: três criaturas há que, à medida que envelhecem, aumentam em força — e estas são: o peixe, a serpente, e o porco.

Nota

A coletânea de etimologias populares se encerra com peças de vestuário e mobiliário: a veste externa (que evita a vergonha de mostrar as roupas rasgadas por baixo), o manto sem talhe de mangas (que faz de quem o veste um "corpo informe"), a capa que se retira antes de sentar (para não sujá-la ou desgastá-la), a cama (onde se frutifica e multiplica), o poço seco (cujas águas se esgotaram — "este poço está limpo, isto é, sem água"), o lenço com que se envolvem os sábios (associado ao versículo sobre "o segredo de Deus"), e o palácio real (para cuja porta vêm todos, seja para julgamento, seja para servir ao rei). Encerrada essa longa digressão, uma última baraita observa que três criaturas, ao contrário da maioria, ganham força com a velhice, em vez de perdê-la: o peixe, a serpente e o porco.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "levusha", "lo vusha", "kegolem", "gulta", "gali vetiv", "bor zinka", "naki", "sudara" e "apadna"
לבושא - חלוק עליון שקורין שרוק: לא בושה - למנוע הבושה שמכסה כל החלוקים התחתונים הקרועים ורעים: כגולם - שאין לו חיתוך אברים: גולתא - מקטורין נאה: גלי ותיב - כשהוא יושב מגלה עצמו שלא ישב עליו שלא ילכלכנו ולא ישופנו בקרקע וישיר שערו ויקרע ויבלה: בור זינקא - בור שיבשו מימיו קורין כן: נקי - חסר מימיו: סודרא - דרך תלמידי חכמים לעטוף סודר: אפדנא - טרקלין של מלכים. אפתחא - אל פתח זה יבאו הכל אם למשפט אם לשרת המלך:

"'Levusha'" — a túnica externa, chamada "sharuk". "'Não há vergonha'" — para evitar a vergonha, pois essa túnica cobre todas as túnicas inferiores rasgadas e ruins. "'Como um corpo informe'" — pois o manto não tem divisão de membros. "'Gulta'" — um sobretudo bonito. "'Descobre-te e senta'" — quando alguém se senta, descobre-se tirando o manto, para não sentar-se sobre ele, para não sujá-lo, nem esfregá-lo no chão, nem fazer cair seu pelo, rasgá-lo e desgastá-lo. "'Bor zinka'" — um poço cujas águas secaram, chamam-no assim. "'Limpo'" — isto é, sem suas águas. "'Sudara'" — é costume dos sábios envolverem-se num lenço. "'Apadna'" — o salão dos reis. "'À porta deste'" — a esta porta vêm todos, seja para julgamento, seja para servir ao rei.

A Mishná retomada: o azeite, medida de untar um membro pequeno · שֶׁמֶן כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן

12A escola de Rabi Yanai: o membro pequeno de um recém-nascido de um dia; objeção e resposta
A Mishná; Escola de Rabi Yanai
שֶׁמֶן כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן. אָמְרִי דְּבֵי רַבִּי יַנַּאי שֶׁמֶן כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן שֶׁל קָטָן בֶּן יוֹמוֹ. מֵיתִיבִי: שֶׁמֶן כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן, וְקָטָן בֶּן יוֹמוֹ. מַאי לָאו: אֵבֶר קָטָן דְּגָדוֹל, וְאֵבֶר גָּדוֹל שֶׁל קָטָן בֶּן יוֹמוֹ! אָמְרִי לָךְ דְּבֵי רַבִּי יַנַּאי — לָא, הָכִי קָאָמַר: שֶׁמֶן כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן, שֶׁל קָטָן בֶּן יוֹמוֹ.

"Azeite — o suficiente para untar um membro pequeno." Diziam na escola de Rabi Yanai: azeite, o suficiente para untar o membro pequeno de um recém-nascido de um dia. Objetaram: "azeite, o suficiente para untar um membro pequeno, e de um recém-nascido de um dia" — não é assim, ou seja: o membro pequeno de um adulto grande, e o membro grande de um recém-nascido de um dia? Dizem-te, em resposta, na escola de Rabi Yanai: não; assim a baraita quer dizer: azeite, o suficiente para untar um membro pequeno, isto é, o membro de um recém-nascido de um dia.

Nota

Encerrada a longa digressão agádica, a Guemará retoma finalmente o texto da Mishná deste perek, em sua cláusula sobre o azeite: a medida mínima para responsabilizar por transportá-lo no Shabat é "o suficiente para untar um membro pequeno". A escola de Rabi Yanai precisa: trata-se do membro pequeno de um recém-nascido de um dia — a menor unidade anatômica concebível, tornando essa a medida mais rigorosa (menor) entre as da Mishná. Levanta-se uma objeção a partir de uma baraita cuja formulação — "membro pequeno, e de um recém-nascido de um dia" — parece, à primeira leitura, referir-se a duas medidas distintas e alternativas: o membro pequeno de um adulto grande, ou o membro grande de um recém-nascido. A escola de Rabi Yanai responde reinterpretando a própria baraita: a frase não descreve duas alternativas, mas uma única medida — o membro pequeno, que é, precisamente, o de um recém-nascido de um dia.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ever katan", "degadol" e "lo ever katan"
אבר קטן - אחד מפרקי אצבע קטנה: דגדול - של אדם גדול והאי קטן אאבר קאי אי נמי אבר גדול של קטן והאי קטן אגברא קאי ולא אאבר: לא אבר קטן - וקטן אכולא מילתא קאי אבר קטן של גוף קטן:

"'Membro pequeno'" — uma das articulações do dedo mínimo. "'De um adulto grande'" — de uma pessoa grande, e este termo "pequeno" refere-se ao membro; ou, alternativamente, "o membro grande de um recém-nascido", e este termo "pequeno" refere-se à pessoa, e não ao membro. "'Não: é um membro pequeno'" — e o termo "pequeno" refere-se a toda a expressão: um membro pequeno de um corpo pequeno.

13"Digamos que é uma disputa tanaítica" — Rabi Shimon ben Elazar e Rabi Natan; a folha se interrompe na resposta
A Guemará; Rabi Shimon ben Elazar; Rabi Natan
לֵימָא כְּתַנָּאֵי? שֶׁמֶן כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן, וְקָטָן בֶּן יוֹמוֹ — דִּבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר. רַבִּי נָתָן אוֹמֵר: כְּדֵי לָסוּךְ אֵבֶר קָטָן. מַאי לָאו בְּהָא קָמִיפַּלְגִי: דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר סָבַר אֵבֶר קָטָן שֶׁל קָטָן, וְרַבִּי נָתָן סָבַר אֵבֶר קָטָן דְּגָדוֹל, אוֹ אֵבֶר גָּדוֹל דְּקָטָן. אֲבָל אֵבֶר קָטָן שֶׁל קָטָן בֶּן יוֹמוֹ — לָא. לָא, דְּכוּלֵּי עָלְמָא אֵבֶר קָטָן דְּקָטָן בֶּן יוֹמוֹ לָא, ...

Digamos que isso é como uma disputa tanaítica? "O azeite, o suficiente para untar um membro pequeno, e de um recém-nascido de um dia" — palavras de Rabi Shimon ben Elazar. Rabi Natan diz: o suficiente para untar um membro pequeno. Não é que nisto discordam: que Rabi Shimon ben Elazar entende tratar-se do membro pequeno de um recém-nascido, e Rabi Natan entende tratar-se do membro pequeno de um adulto grande, ou do membro grande de um recém-nascido; mas o membro pequeno de um recém-nascido de um dia — essa medida não valeria? Não; pois para todos os tanaítas, o membro pequeno de um recém-nascido de um dia, não... (a frase se interrompe aqui)

Nota

A Guemará tenta ancorar a disputa implícita (entre a leitura simples da baraita e a reinterpretação da escola de Rabi Yanai) numa controvérsia tanaítica explícita: Rabi Shimon ben Elazar exige o membro pequeno de um recém-nascido de um dia (a posição mais rigorosa), enquanto Rabi Natan fala apenas em "membro pequeno", sem especificar de quem — o que poderia significar tanto o membro pequeno de um adulto quanto o membro grande de um recém-nascido, ambos mais permissivos que a posição de Rabi Shimon ben Elazar. A Guemará então testa se essa identificação implica que, segundo Rabi Natan, a medida mais rigorosa (o membro pequeno de um recém-nascido) não seria válida — e começa a responder que não, "pois para todos os tanaítas, o membro pequeno de um recém-nascido de um dia, não..." — mas a folha se interrompe exatamente neste ponto, no meio da frase.

A folha se interrompe exatamente aqui, no meio da resposta à tentativa de identificar a disputa com uma controvérsia tanaítica — "não, pois para todos os tanaítas, o membro pequeno de um recém-nascido de um dia, não..." — sem que a frase se complete. A continuação chega na primeira linha de 78a: "וְלֵיתָא דְּרַבִּי יַנַּאי" — "e não há fundamento para a versão da escola de Rabi Yanai" —, esclarecendo que a medida do membro pequeno de um recém-nascido de um dia não se sustenta segundo nenhum dos dois tanaítas, e que a disputa entre eles é, na verdade, sobre outra questão (se o membro pequeno de um adulto e o membro grande de um recém-nascido são equivalentes ou não). A folha de 78a prossegue então perguntando "mai havei alah" — qual é, afinal, a lei — e resolve a questão com uma baraita adicional.