Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Chet (Hamotzi Yayin) → Perek Tet (Amar Rabi Akiva)
רוּחַ זוּהֲמָא שׁוֹלֶטֶת בּוֹ

A matrona explica sua impotência; Rav Huna manda seu filho a Rav Chisda; seixo, caco e ervas; o espírito de imundície; a Mishná do caco encerra o Perek Hamotzi Yayin; abre-se o Perek Amar Rabi Akiva

Shabbat 82a — a folha abre completando a fala interrompida da matrona feiticeira ao final de 81b, percorre ensinamentos práticos sobre a privada e as medidas do caco, registra o hadran do Perek Chet, e abre o Perek Tet com a Mishná de Rabi Akiva sobre a impureza da idolatria.

81b se encerrara aberta, no meio da pergunta retórica da matrona feiticeira aos sábios no barco: "o que posso fazer contra vós?" Confirma-se, pelo texto de Sefaria, que 82a completa essa fala: porque não se limpam com um caco, não matam piolho sobre a própria roupa, e não arrancam verdura para comer de um maço já amarrado pelo hortelão — três práticas vulneráveis à feitiçaria, das quais os sábios se resguardam. Segue-se um relato pessoal: Rav Huna pergunta a seu filho Rabá por que não frequenta Rav Chisda, cujos ensinamentos são afiados; Rabá responde que Rav Chisda só o faz sentar com "assuntos mundanos" — a saber, um ensinamento sobre como sentar-se na privada sem se ferir, para que os dentes do reto não se desloquem; Rav Huna replica: isso é a vida das criaturas, e não algo mundano — tanto mais razão para ires a ele. Rav Huna e Rav Chisda discordam sobre limpar-se com seixo ou caco; uma objeção é resolvida por Rafram bar Pappa, distinguindo as bordas lisas de utensílios. Uma disputa paralela, entre Rav Chisda e Rav Hamnuna, sobre seixo e ervas, é resolvida pela distinção entre ervas úmidas (que cortam a carne) e secas. Uma dúvida separa o espírito mau (o mau hálito) do espírito de imundície (o suor fétido) de quem precisa aliviar-se e não consegue; uma baraita apoia a segunda opinião. Seguem-se remédios práticos — de Rav Chisda, Rav Chanan de Neharde'a, Rav Hamnuna e dos sábios — para quem não consegue aliviar-se, com a anedota de Rav Yirmeya de Difti sobre o árabe que se levantava e sentava repetidamente; e a baraita de quem entra numa refeição fixa, que deve caminhar antes de se sentar. Uma nova Mishná — a última do Perek Hamotzi Yayin — fixa a medida mínima do caco para responsabilidade no transporte em Shabat, com a disputa entre Rabi Yehuda, Rabi Meir e Rabi Yosi, este último apoiado num verso de Isaías sobre atiçar fogo e tirar água de uma cisterna; a Guemará elucida a disputa com o ensinamento de Abaye sobre um grande incêndio. Registra-se então o hadran, a fórmula que encerra o Perek Chet, Hamotzi Yayin; e abre-se o Perek Tet, Amar Rabi Akiva, com sua Mishná: de onde se aprende que a idolatria transmite impureza por transporte, como a menstruada? Do verso "tu os lançarás como coisa impura, e lhe dirás: sai!" A Guemará relaciona essa Mishná com as leis de reconstrução de uma casa cuja parede era comum a um templo idólatra e que caiu — proibida, a menos que se recolha quatro amot dentro do próprio terreno.

Nota — a costura com a fala interrompida de 81b

81b se interrompera exatamente na pergunta retórica da matrona: "אֲמַרָה לְהוּ: מַאי אֶיעְבֵּיד לְכוּ?" — "disse-lhes ela: o que posso fazer contra vós?" — sem que se soubesse a resposta. A folha aqui abre com a continuação exata: "דְּלָא מִקַּנַּח לְכוּ בְּחַסְפָּא, וְלָא קְטִיל לְכוּ כִּינָּא אַמָּנַיְיכוּ, וְלָא שְׁלִיף לְכוּ יַרְקָא וַאֲכִיל לְכוּ מִכִּישָּׁא דְּאָסַר גִּינָּאָה" — "porque não vos limpais com um caco, e não matais piolho sobre vossas roupas, e não arrancais verdura para comer de um maço que o hortelão amarrou" —, revelando que a impotência da feitiçaria contra os sábios vinha justamente de sua fidelidade a essas práticas cuidadosas.

A costura se completa: por que a feitiçaria não tem poder sobre os sábios · מַאי אֶיעְבֵּיד לְכוּ

01"Porque não vos limpais com caco, não matais piolho sobre a roupa, nem arrancais verdura de maço amarrado"
A matrona (continuação)
דְּלָא מִקַּנַּח לְכוּ בְּחַסְפָּא, וְלָא קְטִיל לְכוּ כִּינָּא אַמָּנַיְיכוּ, וְלָא שְׁלִיף לְכוּ יַרְקָא וַאֲכִיל לְכוּ מִכִּישָּׁא דְּאָסַר גִּינָּאָה.

...porque não vos limpais com um caco, e não matais piolho sobre vossas roupas, e não arrancais verdura para comer de um maço que o hortelão amarrou.

Nota

A explicação da matrona conecta-se diretamente às duas sugyot que dominarão o restante da folha: a proibição de Rabi Yochanan de limpar-se com um caco em Shabat (já discutida em 81b) e a atenção meticulosa dos sábios às práticas de higiene. Segundo ela, três hábitos populares descuidados — usar um caco para limpar-se, matar piolhos diretamente sobre as roupas do corpo, e arrancar verdura de um maço já amarrado (em vez de desatá-lo primeiro) — são justamente os pontos por onde a feitiçaria consegue agir sobre uma pessoa. Como os sábios evitam escrupulosamente essas três práticas, a feitiçaria da matrona não teve onde se apoiar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "delo mikanach lechu bechaspa", "velo ketil lechu kina amanaiychu" e "velo shelif lechu yarka"
דלא מקנחיתו בחספא - שאוכל לעשות לכם כשפים: ולא קטיל לכו כינא אמנייכו - ואין אתם הורגין כינה בבגדיכם: ולא אכיל לכו ירקא מכישא דאסר גינאה - אין אתם מוציאין שום וכרישא ובצל מאגודה שאוגדין הגננים ואוכלים אלא אתם מתירין האגודה תחילה ש"מ כל הני קשה לכשפים:

"'Porque não vos limpais com um caco'" — pois eu poderia fazer feitiçaria contra vós por meio dele. "'E não matais piolho sobre vossas roupas'" — e não matais o piolho em cima das próprias roupas. "'E não comeis verdura de um maço que o hortelão amarrou'" — vós não retirais alho, alho-poró e cebola de um maço que os hortelões amarram, comendo-o assim; antes, desatais o maço primeiro; conclui-se que todas essas coisas são difíceis para a feitiçaria (oferecem ponto de apoio à feitiçaria, quando feitas sem cuidado).

Rav Huna manda seu filho a Rav Chisda · כׇּל שֶׁכֵּן זִיל לְגַבֵּיהּ

02"Por que não frequentas Rav Chisda?" — "ele me faz sentar com assuntos mundanos" — "isso é a vida das criaturas! Tanto mais razão para ires"
Rav Huna; Rabá (seu filho)
אֲמַר לֵיהּ רַב הוּנָא לְרַבָּה בְּרֵיהּ: מַאי טַעְמָא לָא שְׁכִיחַתְּ קַמֵּיהּ דְּרַב חִסְדָּא, דִּמְחַדְּדָן שְׁמַעְתָּתֵיהּ? אֲמַר לֵיהּ: מַאי אֵיזִיל לְגַבֵּיהּ? דְּכִי אָזֵילְנָא לְגַבֵּיהּ מוֹתִיב לִי בְּמִילֵּי דְעָלְמָא. אָמַר לִי: מַאן דְּעָיֵיל לְבֵית הַכִּסֵּא לָא לִיתֵּיב בְּהֶדְיָא, וְלָא לִיטְרַח טְפֵי — דְּהַאי כַּרְכַּשְׁתָּא אַתְּלָת שִׁינֵּי יָתֵיב, דִילְמָא מִשְׁתַּמְטִי שִׁינֵּי דְכַרְכַּשְׁתָּא וְאָתֵי לִידֵי סַכָּנָה. אֲמַר לֵיהּ: הוּא עָסֵיק בְּחַיֵּי דִּבְרִיָּיתָא וְאַתְּ אָמְרַתְּ בְּמִילֵּי דְעָלְמָא?! כׇּל שֶׁכֵּן זִיל לְגַבֵּיהּ.

Disse-lhe Rav Huna a Rabá, seu filho: qual é a razão de não frequentares diante de Rav Chisda, cujos ensinamentos são afiados? Disse-lhe: para que eu vou até ele? Pois, quando vou até ele, ele me faz sentar com assuntos mundanos. Disse-me: quem entra na privada não deve sentar-se abruptamente, nem se esforçar demais — pois este reto (karkeshta) está apoiado sobre três dentes, e talvez se desloquem os dentes do reto e ele venha a correr perigo. Disse-lhe Rav Huna: ele se ocupa da vida das criaturas, e tu dizes que são assuntos mundanos?! Tanto mais razão para ires até ele.

Nota

Este breve relato pessoal ilustra, na prática, a mesma preocupação com a saúde do corpo que atravessa toda a sugya da privada iniciada em 81a-81b. Rabá, filho de Rav Huna, subestima o valor do ensinamento de Rav Chisda por considerá-lo um "assunto mundano" — uma instrução prática sobre como sentar-se na privada sem se ferir, e não um raciocínio jurídico complexo. Rav Huna corrige essa avaliação: um ensinamento que preserva a vida e a integridade física das pessoas não é "mundano" — é, ao contrário, ainda mais importante, e por isso Rabá deveria buscar Rav Chisda com mais frequência, não menos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "motiv li bemilei de'alma", "lo litev behadya" e "velo litrach tefei"
מותיב לי במילי דעלמא - מושיבני לפניו בדברי חנם שאינו תורה: לא ליתיב בהדיא - במהרה ובחוזק לפי שנפתח הנקב בחזקה וניתקין שיני הכרכשא ויוצאת: ולא ליטרח טפי - פדיימבר"א בלע"ז:

"'Ele me faz sentar com assuntos mundanos'" — ele me faz sentar diante dele com palavras vãs, que não são Torá. "'Não deve sentar-se abruptamente'" — rapidamente e com força, pois assim o orifício se abre com violência, deslocam-se os dentes do reto, e a carne interna sai de seu lugar. "'Nem se esforçar demais'" — em francês antigo (la'az), o termo para o ato de fazer força ao evacuar.

Seixo, caco e ervas: o que serve para limpar-se · צְרוֹר וָחֶרֶס וַעֲשָׂבִים

03Rav Huna: seixo, não caco; Rav Chisda: caco, não seixo; a objeção resolvida por Rafram bar Pappa — as bordas de utensílios
Rav Huna; Rav Chisda; a Guemará; Rafram bar Pappa
הָיוּ לְפָנָיו צְרוֹר וָחֶרֶס, רַב הוּנָא אָמַר: מְקַנֵּחַ בַּצְּרוֹר וְאֵין מְקַנֵּחַ בַּחֶרֶס, וְרַב חִסְדָּא אָמַר: מְקַנֵּחַ בַּחֶרֶס וְאֵין מְקַנֵּחַ בַּצְּרוֹר. מֵיתִיבִי: הָיוּ לְפָנָיו צְרוֹר וָחֶרֶס — מְקַנֵּחַ בַּחֶרֶס וְאֵין מְקַנֵּחַ בַּצְּרוֹר, תְּיוּבְתָּא דְרַב הוּנָא! תַּרְגְּמַהּ רַפְרָם בַּר פָּפָּא קַמֵּיהּ דְּרַב חִסְדָּא אַלִּיבָּא דְרַב הוּנָא: בְּאוֹגְנֵי כֵּלִים.

Se estavam diante dele um seixo e um caco: Rav Huna disse: limpa-se com o seixo, e não se limpa com o caco; e Rav Chisda disse: limpa-se com o caco, e não se limpa com o seixo. Objetaram: se estavam diante dele um seixo e um caco — limpa-se com o caco, e não se limpa com o seixo; é uma refutação de Rav Huna! Interpretou-a Rafram bar Pappa diante de Rav Chisda, de acordo com Rav Huna: trata-se de um caco tirado das bordas de utensílios.

Nota

Retoma-se aqui, de modo mais preciso, a disputa já implícita na proibição de Rabi Yochanan (81b) de limpar-se com um caco por causa do perigo. Rav Huna prefere o seixo, evitando o risco do caco; Rav Chisda prefere o caco, confiante em seu estatuto de utensílio. Uma baraita parece refutar Rav Huna ao preferir explicitamente o caco; Rafram bar Pappa salva sua posição limitando-a a um caco comum, perigoso — enquanto a baraita, ao preferir o caco, refere-se especificamente a um pedaço tirado da borda lisa e arredondada de um utensílio já quebrado, que não corta a carne como um caco de bordas ásperas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mekaneach batzeror", "ve'eino mekaneach bacheres", "mekaneach bacheres" e "be'ogenei kelim"
מקנח בצרור - בשבת אע"פ דלאו בר טלטול הוא בעלמא: ואינו מקנח בחרס - משום סכנה: מקנח בחרס - שיש תורת כלי עליה: באוגני כלים - שהם חלקים ואינן מקרעין את הבשר:

"'Limpa-se com o seixo'" — em Shabat, ainda que o seixo, em geral, não seja apto para ser transportado. "'E não se limpa com o caco'" — por causa do perigo. "'Limpa-se com o caco'" — pois o caco tem sobre si o estatuto de utensílio. "'Nas bordas de utensílios'" — que são lisas e não rasgam a carne.

04Rav Chisda e Rav Hamnuna: seixo, não ervas; ou ervas, não seixo — resolvido entre ervas úmidas e secas
Rav Chisda; Rav Hamnuna; a Guemará
הָיוּ לְפָנָיו צְרוֹר וַעֲשָׂבִים, רַב חִסְדָּא וְרַב הַמְנוּנָא, חַד אָמַר: מְקַנֵּחַ בַּצְּרוֹר וְאֵין מְקַנֵּחַ בָּעֲשָׂבִים, וְחַד אָמַר: מְקַנֵּחַ בָּעֲשָׂבִים וְאֵין מְקַנֵּחַ בַּצְּרוֹר. מֵיתִיבִי: הַמְקַנֵּחַ בְּדָבָר שֶׁהָאוּר שׁוֹלֶטֶת בּוֹ שִׁינָּיו הַתַּחְתּוֹנוֹת נוֹשְׁרוֹת! לָא קַשְׁיָא: הָא בְּלַחִין, הָא בִּיבֵשִׁין.

Se estavam diante dele um seixo e ervas: Rav Chisda e Rav Hamnuna — um disse: limpa-se com o seixo, e não se limpa com as ervas; e um disse: limpa-se com as ervas, e não se limpa com o seixo. Objetaram: quem se limpa com algo sobre o qual o fogo tem domínio, seus dentes inferiores caem! Não há dificuldade: isto fala das ervas úmidas, aquilo das secas.

Nota

Uma disputa paralela à anterior, agora entre seixo e ervas. A objeção final introduz um terceiro elemento: coisas "sobre as quais o fogo tem domínio" — isto é, secas o bastante para arder — fazem cair os dentes inferiores, um risco distinto do corte. A resolução distingue as ervas úmidas, que cortam a carne mas não têm domínio do fogo sobre si, das ervas secas, inflamáveis e por isso mais perigosas de outro modo; cada opinião, na disputa original, falaria de um tipo de erva.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'eino mekaneach ba'asavim", "ve'eino mekaneach batzeror", "shinav noshrot" e "lachin"
ואינו מקנח בעשבים - שהעשבים לחים וחותכין את הבשר ורבותינו מפרשים משום תלישה ואיני יודע מהו דאי בעשבים מחוברין מי איכא מאן דשרי וכמדומה אני דמוקמי לה במחוברין ומקנח בהן בחיבורן: ואינו מקנח בצרור - דלאו בר טלטול הוא הלכך מקנח בעשבים כשהן במחובר ולא יזיזם ומשום שימוש במחובר לא מיתסר כדאמרי' בעירובין בפרק ג' (דף לד:) דלא אסרו אלא באילן ובקנים עוזרדין לפי שהן קשין: שיניו נושרות - שיני הפה מכרכשא: לחין - אין אור שולט בו:

"'E não se limpa com as ervas'" — pois as ervas úmidas cortam a carne; e nossos mestres explicam a razão por causa de arrancar algo preso ao solo em Shabat, mas não sei bem o que isso significa, pois, se as ervas estão presas ao solo, haveria quem permitisse tocá-las? E parece-me que se refere a ervas presas ao solo, e a pessoa se limpa com elas ainda presas. "'E não se limpa com o seixo'" — pois o seixo não é apto para ser transportado; portanto, limpa-se com as ervas quando estão presas ao solo, sem movê-las, e por usá-las presas ao solo isso não se proíbe, como se diz em Eruvin, capítulo três (34b), que só proibiram o uso em árvore e em canas de espinheiro, por serem duras. "'Seus dentes caem'" — os dentes da boca, e não os do reto (distinto do caso anterior). "'Nas úmidas'" — o fogo não tem domínio sobre elas.

O espírito mau e o espírito de imundície · רוּחַ רָעָה, רוּחַ זוּהֲמָא

05Rav Chisda e Ravina: espírito mau, ou espírito de imundície domina quem não consegue aliviar-se — a baraita apoia o espírito de imundície
Rav Chisda; Ravina; a baraita
הַנִּצְרָךְ לִפָּנוֹת וְאֵינוֹ נִפְנֶה, רַב חִסְדָּא וְרָבִינָא, חַד אָמַר: רוּחַ רָעָה שׁוֹלֶטֶת בּוֹ, וְחַד אָמַר: רוּחַ זוּהֲמָא שׁוֹלֶטֶת בּוֹ. תַּנְיָא כְּמַאן דְּאָמַר רוּחַ זוּהֲמָא שׁוֹלֶטֶת בּוֹ, דְּתַנְיָא: הַנִּצְרָךְ לִנְקָבָיו וְאוֹכֵל — דּוֹמֶה לְתַנּוּר שֶׁהִסִּיקוּהוּ עַל גַּב אֶפְרוֹ, וְזוֹ הִיא תְּחִלַּת רוּחַ זוּהֲמָא.

Quem precisa aliviar-se e não consegue: Rav Chisda e Ravina — um disse: um espírito mau (ruach ra'ah) domina sobre ele; e um disse: um espírito de imundície (ruach zuhama) domina sobre ele. Ensina-se numa baraita como quem disse que um espírito de imundície domina sobre ele, pois se ensina: quem precisa atender suas necessidades e come é semelhante a um forno que foi aceso sobre suas próprias cinzas — e este é o começo do espírito de imundície.

Nota

A dúvida distingue dois efeitos possíveis de reter as próprias necessidades: o espírito mau, explicado por Rashi como o mau hálito que sai da boca quando o excremento apodrece nos intestinos; e o espírito de imundície, um suor fétido que impregna todo o corpo. A baraita decide a favor da segunda opinião, comparando quem come nessa condição a um forno aceso sobre as próprias cinzas ainda quentes — uma imagem de sujeira acumulada sobre sujeira.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ruach ra'ah" e "ruach zuhama"
רוח רעה - ריח הפה שהזבל מרקב במעיים ויוצא ריח דרך פיו: רוח זוהמא - כל גופו מסריח בזיעה מסרחת שהריח נבלע בבשרו ובאבריו והוה בו לזיעה מזוהמת:

"'Espírito mau'" — o mau odor da boca, pois o excremento apodrece nos intestinos, e o odor sai pela boca. "'Espírito de imundície'" — todo o seu corpo cheira mal, com um suor fétido, pois o odor é absorvido em sua carne e em seus membros, e nele se transforma num suor imundo.

06Remédios práticos: levantar-se e sentar-se, afastar-se para os lados, apalpar com um seixo, distrair a mente — a anedota do árabe
Rav Chisda; Rav Chanan de Neharde'a; Rav Hamnuna; os sábios; Rav Acha bar Rava; Rav Ashi; Rav Yirmeya de Difti
הוּצְרַךְ לִיפָּנוֹת וְאֵינוֹ יָכוֹל לִיפָּנוֹת, אָמַר רַב חִסְדָּא: יַעֲמוֹד וְיֵשֵׁב, יַעֲמוֹד וְיֵשֵׁב. רַב חָנָן מִנְּהַרְדְּעָא אָמַר: יִסְתַּלֵּק לִצְדָדִין. רַב הַמְנוּנָא אָמַר: יְמַשְׁמֵשׁ בִּצְרוֹר בְּאוֹתוֹ מָקוֹם. וְרַבָּנַן אָמְרִי: יַסִּיחַ דַּעְתּוֹ. אֲמַר לֵיהּ רַב אַחָא בְּרֵיהּ דְּרָבָא לְרַב אָשֵׁי: כׇּל שֶׁכֵּן דְּכִי מַסַּח דַּעְתֵּיהּ לָא מִפְּנֵי! אֲמַר לֵיהּ: יַסִּיחַ דַּעְתּוֹ מִדְּבָרִים אֲחֵרִים. אָמַר רַב יִרְמְיָה מִדִּיפְתִּי: לְדִידִי חֲזֵי לִי הַהוּא טַיָּיעָא דְּקָם וְיָתֵיב וְקָם וְיָתֵיב עַד דְּשָׁפֵךְ כְּקִדְרָה.

Precisou aliviar-se e não consegue aliviar-se: disse Rav Chisda: que se levante e sente, se levante e sente. Rav Chanan de Neharde'a disse: que se afaste para os lados. Rav Hamnuna disse: que apalpe com um seixo naquele lugar. E os sábios dizem: que distraia sua mente. Disse-lhe Rav Acha, filho de Rava, a Rav Ashi: tanto mais isso é difícil, pois, quando distrai sua mente, não se alivia! Disse-lhe: que distraia sua mente de outros assuntos (mas permaneça atento a aliviar-se). Disse Rav Yirmeya de Difti: eu mesmo vi aquele árabe (tayaa) que se levantava e sentava, se levantava e sentava, até que despejou como uma panela.

Nota

Uma coleção de conselhos práticos, cada sábio propondo seu próprio remédio para o desconforto de não conseguir aliviar-se: repetir o movimento de levantar e sentar, mudar de posição, aplicar pressão local com um seixo, ou distrair a mente. A objeção de Rav Acha bar Rava capta uma tensão real: distrair-se completamente impediria o próprio ato; a resposta de Rav Ashi refina o conselho — distrair-se de outras preocupações, sem perder o foco da necessidade em si. A anedota final, contada por Rav Yirmeya de Difti, ilustra com humor o remédio de Rav Chisda (levantar e sentar repetidamente) sendo eficaz na prática.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'eino yachol lipanot", "yistalek litzedadin" e "tayaa"
ואינו יכול לפנות - שאין הנקב נפתח: יסתלק לצדדין - כשבדק עצמו בזוית זו יסתלק לזוית אחרת ויבדוק: טייעא - ישמעאל:

"'E não consegue aliviar-se'" — pois o orifício não se abre. "'Que se afaste para os lados'" — quando se examinou neste canto, que se afaste para outro canto e examine novamente. "'Árabe (tayaa)'" — um ismaelita.

07Baraita: quem entra numa refeição fixa deve caminhar antes de sentar-se, aliviar-se, e então retornar a seu lugar
A baraita (os sábios)
תָּנוּ רַבָּנַן: הַנִּכְנָס לִסְעוּדַת קֶבַע, יְהַלֵּךְ עֶשֶׂר פְּעָמִים שֶׁל אַרְבַּע [אַרְבַּע] אַמּוֹת, וְאָמְרִי לַהּ: אַרְבַּע פְּעָמִים שֶׁל עֶשֶׂר עֶשֶׂר אַמּוֹת, וְנִפְנֶה, וְנִכְנָס וְיֹשֵׁב בִּמְקוֹמוֹ.

Ensinaram os sábios: quem entra numa refeição fixa deve caminhar dez vezes de quatro amot cada uma; e alguns dizem: quatro vezes de dez amot cada uma; e alivia-se, e entra e senta-se em seu lugar.

Nota

Encerra-se aqui a sequência de conselhos práticos sobre a privada com uma recomendação preventiva: quem vai participar de uma refeição fixa — da qual seria uma vergonha ter que se levantar no meio para se aliviar — deve caminhar um pouco antes de se sentar à mesa, precisamente para verificar suas próprias necessidades e atendê-las com antecedência.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "haniknas lise'udat keva", "eser pe'amim" e "arba pe'amim shel eser eser"
הנכנס לסעודת קבע - וגנאי הוא לו אם יצטרך לעמוד מן הסעודה ולפנות: י' פעמים - ימתין בין פעם לפעם ויבדוק עצמו: ואמרי לה ד' פעמים של י' י' - דהכי עדיף טפי שהילוך מרובה מוריד הזבל לנקביו:

"'Quem entra numa refeição fixa'" — e é uma vergonha para ele se precisar levantar-se da refeição para aliviar-se. "'Dez vezes'" — que aguarde entre uma vez e outra, e se examine. "'E alguns dizem: quatro vezes de dez, dez'" — pois assim é preferível, já que caminhar mais faz descer o excremento até seus orifícios.

A última Mishná do perek: a medida mínima do caco · מַתְנִי׳ חֶרֶס

08Mishná: a medida do caco — entre uma tábua e outra (Rabi Yehuda), para atiçar o fogo (Rabi Meir), para receber um quarto de log (Rabi Yosi), com a prova de Isaías
Mishná
מַתְנִי׳ חֶרֶס — כְּדֵי לִיתֵּן בֵּין פַּצִּים לַחֲבֵרוֹ, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: כְּדֵי לַחְתּוֹת בּוֹ אֶת הָאוּר. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: כְּדֵי לְקַבֵּל בּוֹ רְבִיעִית. אָמַר רַבִּי מֵאִיר: אַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר, זֵכֶר לַדָּבָר: ״לֹא יִמָּצֵא בִמְכִתָּתוֹ חֶרֶשׂ לַחְתּוֹת אֵשׁ מִיָּקוּד״. אָמַר לוֹ רַבִּי יוֹסֵי: מִשָּׁם רְאָיָה? ״וְלַחְשׂוֹף מַיִם מִגֶּבֶא״.

MISHNÁ. Um caco: a medida mínima que gera responsabilidade por transportá-lo em Shabat é o suficiente para colocá-lo entre uma tábua e outra, palavras de Rabi Yehuda. Rabi Meir diz: o suficiente para atiçar com ele o fogo. Rabi Yosi diz: o suficiente para receber nele um quarto de log. Disse Rabi Meir: ainda que não haja prova para a coisa, há uma alusão à coisa: "não se achará em seus destroços um caco para atiçar fogo do braseiro" (Isaías 30:14). Disse-lhe Rabi Yosi: dali é a prova? "e para tirar água de uma cisterna" também está no mesmo verso.

Nota

Esta é a última Mishná do Perek Chet, Hamotzi Yayin, encerrando a lista de medidas mínimas de transporte iniciada com o vinho no começo do perek. Os três tanaítas discordam sobre a medida do caco, cada um propondo um uso de referência — encaixe entre tábuas, atiçar fogo, ou receber líquido —, e Rabi Meir busca apoio no verso de Isaías sobre a destruição total, que menciona um caco tanto para atiçar fogo quanto para tirar água de uma cisterna; Rabi Yosi contesta que a menção da segunda função no mesmo verso enfraquece, e não fortalece, a prova de Rabi Meir.

09Guemará: qual medida é maior? Pelo raciocínio, a de Rabi Yosi; pelo verso, a de Rabi Meir — Abaye: um grande incêndio
A Guemará; Abaye
גְּמָ׳ אִיבַּעְיָא לְהוּ: שִׁיעוּרָא דְרַבִּי מֵאִיר נְפִישׁ, אוֹ שִׁיעוּרָא דְרַבִּי יוֹסֵי נְפִישׁ? מִסְּבָרָא — שִׁיעוּרָא דְרַבִּי יוֹסֵי נְפִישׁ, וּמִקְּרָא — שִׁיעוּרָא דְרַבִּי מֵאִיר נְפִישׁ. דְּאִי סָלְקָא דַּעְתָּךְ שִׁיעוּרָא דְרַבִּי יוֹסֵי נְפִישׁ, לָיֵיט לַהּ בְּמָנָא זוּטְרָא, וַהֲדַר לָיֵיט לַהּ בְּמָנָא רַבָּה?! אָמַר אַבָּיֵי: מַתְנִיתִין נָמֵי לַחְתּוֹת אֵשׁ מִיקִידָה גְּדוֹלָה.

GUEMARÁ. Foi perguntado: a medida de Rabi Meir é maior, ou a medida de Rabi Yosi é maior? Pelo raciocínio, a medida de Rabi Yosi é maior; e pelo verso, a medida de Rabi Meir é maior. Pois, se te ocorresse que a medida de Rabi Yosi é maior, o profeta amaldiçoaria o povo com um utensílio pequeno, e depois voltaria a amaldiçoá-lo com um utensílio grande?! Disse Abaye: também a Mishná fala de atiçar fogo de um grande incêndio.

Nota

A Guemará pergunta qual das duas medidas — a de Rabi Meir (atiçar fogo) ou a de Rabi Yosi (receber um quarto de log) — é maior. Pelo bom senso, receber líquido exigiria um caco maior do que apenas atiçar uma brasa; mas pelo verso de Isaías, a ordem das cláusulas (primeiro atiçar fogo, depois tirar água) sugeriria o oposto, pois um profeta que amaldiçoa não començaria pelo utensílio pequeno para depois amaldiçoar com um maior. Abaye resolve a tensão explicando que a Mishná de Rabi Meir também se refere a um grande incêndio, que exige um caco maior para não queimar a mão — igualando, assim, a medida de Rabi Meir à de Rabi Yosi.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mistabra shiura deRabi Meir nafish" e "amar Abaye matnitin"
מסתברא שיעורא דרבי יוסי נפיש ומקרא שיעורא דר' מאיר נפיש - אתקפתא היא כלומר לפי דבריהם נראה שרבי מאיר מחמיר דאמר לחתות בו אור ולא פי' שיעורא וחרס פורתא חזי לחדא גחלת ואילו לקבל רביעית מים נפיש שיעורא וכי מעיינת בקרא לחשוף מים זוטר דאי ס"ד לחשוף מים נפיש לייט לה שלא יותר בה אפילו כלי קטן והדר אמר כלי גדול וכי דרך המקללים כן: אמר אביי מתני' - דקאמר רבי מאיר לחתות אור מיקידה גדולה קאמר שאפילו גחלת קטנה אינו ראוי לחתות בה אלא בחרס גדול מפני שהוא נכוה:

"'Pelo raciocínio, a medida de Rabi Yosi é maior; e pelo verso, a medida de Rabi Meir é maior'" — é uma objeção; ou seja, segundo suas palavras na Mishná, parece que Rabi Meir é mais rigoroso, pois disse "para atiçar com ele o fogo" sem especificar a medida, e um caco pequeno já serve para uma única brasa; enquanto para receber um quarto de log de água a medida é maior. Mas, quando se examina o verso, "tirar água" indicaria um caco pequeno; pois, se te ocorresse que "tirar água" indica um caco grande, o profeta amaldiçoaria de modo que não sobrasse sequer um utensílio pequeno, e só depois diria que não sobraria um utensílio grande — e acaso é esse o costume de quem amaldiçoa? "'Disse Abaye: também a Mishná'" — pois, quando Rabi Meir diz "para atiçar o fogo", refere-se a atiçar fogo de um grande incêndio, caso em que mesmo uma pequena brasa não é apta para ser atiçada senão com um caco grande, porque a mão se queimaria com um pequeno.

10"Dali é a prova?" — corretamente disse Rabi Yosi; e Rabi Meir queria dizer: nem mesmo o que é sem importância sobrará
A Guemará
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: מִשָּׁם רְאָיָה. שַׁפִּיר קָאָמַר לֵיהּ רַבִּי יוֹסֵי לְרַבִּי מֵאִיר! וְרַבִּי מֵאִיר ״לָא מִיבַּעְיָא״ קָאָמַר: לָא מִיבַּעְיָא מִידֵּי דַּחֲשִׁיב לְאִינָשֵׁי דְּלָא לִישְׁתְּכַח לֵיהּ, אֶלָּא אֲפִילּוּ מִידֵּי דְּלָא חֲשִׁיב לְאִינָשֵׁי לָא לִישְׁתְּכַח לֵיהּ.

"Rabi Yosi disse: dali é a prova?" Corretamente lhe disse Rabi Yosi a Rabi Meir! E Rabi Meir dizia no sentido de "não é preciso dizer": não é preciso dizer que, quanto a algo que as pessoas consideram importante, não sobrará dele nada depois da destruição; mas mesmo quanto a algo que as pessoas não consideram importante, não sobrará dele nada.

Nota

A Guemará valida a objeção de Rabi Yosi contra a leitura simples do verso — de fato, mencionar a função de tirar água logo depois da de atiçar fogo sugere que ambas se referem a objetos pequenos e sem importância, não grandes. Mas reinterpreta a intenção original de Rabi Meir: ele não estava comparando as duas medidas dentro do verso, mas usando a lógica do "não é preciso dizer" — se o profeta profetiza que nem mesmo algo tão trivial quanto um caco para tirar água sobrará após a destruição, tanto mais não sobrará algo maior e mais valioso; a prova de Rabi Meir, assim entendida, permanece de pé.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shapir kaamar Rabi Yosi" e "afilu midi delo chashiv le'inashei"
שפיר קאמר ר' יוסי - דמדלייט לה בה ש"מ דחזי: אפילו מידי דלא חשיב - כגון לחשוף מים לא לישתכח בה ולעולם לא חשיב שיעורא אלא לחתות אור:

"'Corretamente disse Rabi Yosi'" — pois, do fato de o profeta amaldiçoar o povo mencionando este uso, conclui-se que um caco assim serve para tirar água, sendo relativamente grande. "'Mesmo algo que não é importante'" — como tirar água, não se achará sequer isso depois da destruição; e, na realidade, a medida fixada por Rabi Meir não é senão a de atiçar o fogo de uma pequena brasa, permanecendo a menor das três.

Fim do Perek Chet · Hamotzi Yayinהַדְרָן עֲלָךְ הַמּוֹצִיא יַיִן
Nota sobre a transição

Com a Mishná do caco e a discussão de sua medida mínima, encerra-se todo o Perek Chet, Hamotzi Yayin ("quem transporta vinho"), que se abrira em Shabat 76b com a Mishná sobre as medidas mínimas de vinho, leite, mel, azeite e água, e havia percorrido, ao longo de mais de cinco folhas, as medidas de corda, couro, pergaminho, tinta e outros materiais de escrita, a sugya das pedras da privada, a honra das criaturas, o campo lavrado, o parpisa, e a proibição de limpar-se com um caco. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula "Hadran Alach HaMotzi Yayin" ("Retornaremos a você, Hamotzi Yayin"), dita ao concluir o estudo de um capítulo. Sem qualquer interrupção no texto original, o daf prossegue imediatamente com a Mishná de abertura do capítulo seguinte.

Início do Perek Tet · Amar Rabi Akivaתְּחִלַּת פֶּרֶק ט · אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא

Nova Mishná: a idolatria transmite impureza por transporte, como a menstruada · אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא

11Mishná: Rabi Akiva — de onde se aprende que a idolatria transmite impureza por transporte, como a menstruada?
Mishná
מַתְנִי׳ אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא: מִנַּיִין לַעֲבוֹדָה זָרָה שֶׁמְּטַמְּאָה בְּמַשָּׂא כְּנִדָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תִּזְרֵם כְּמוֹ דָוָה צֵא תֹּאמַר לוֹ״ — מָה נִדָּה מְטַמְּאָה בְּמַשָּׂא, אַף עֲבוֹדָה זָרָה מְטַמְּאָה בְּמַשָּׂא.

MISHNÁ. Disse Rabi Akiva: de onde se aprende que a idolatria (avodá zará) transmite impureza por transporte (massá), como a menstruada (nidá)? Pois está dito: "tu os lançarás fora como coisa impura, e lhe dirás: sai!" (Isaías 30:22) — assim como a menstruada transmite impureza por transporte, também a idolatria transmite impureza por transporte.

Nota

Abre-se aqui o Perek Tet, cujo nome, "Amar Rabi Akiva" ("Disse Rabi Akiva"), vem de suas primeiras palavras. A Mishná estabelece, por uma gezerá shavá (analogia verbal) a partir do verso de Isaías, que objetos de idolatria transmitem impureza a quem os carrega, mesmo sem tocá-los diretamente — exatamente como ocorre com a menstruada, cuja impureza se transmite também por transporte (massá), e não apenas por contato direto. Segundo Rashi, este ensinamento é agrupado, na Mishná original, com outro tema semelhante — de onde se aprende que se pode lavar o bebê antes da circuncisão —, reunidos por sua semelhança formal, ainda que o assunto central do perek seja outro, como se verá adiante.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "matnitin amar Rabi Akiva minayin la'avodah zarah", "bemasa" e "tizrem kemo davah"
מתני' אמר רבי עקיבא מניין לעבודה זרה כו' - משום דבעי למיתני בהדייהו מניין שמרחיצין את המילה כייל להו להנך דדמיין לה: במשא - אדם הנושאה: תזרם כמו דוה וגו' - בעבודה זרה משתעי:

"'MISHNÁ: disse Rabi Akiva: de onde se aprende que a idolatria...'" — porque o Tana precisa ensinar, junto com isso, "de onde se aprende que se pode lavar o bebê para a circuncisão", ele reuniu nesta Mishná os ensinamentos que se assemelham a ele. "'Por transporte'" — a pessoa que a carrega. "'Tu os lançarás como coisa impura, etc.'" — o verso fala da idolatria.

12Guemará: a casa vizinha a um templo idólatra que caiu — proibido reconstruí-la, salvo recolhendo-se quatro amot
A Guemará
גְּמָ׳ תְּנַן הָתָם: מִי שֶׁהָיָה בֵּיתוֹ סָמוּךְ לַעֲבוֹדָה זָרָה וְנָפַל, אָסוּר לִבְנוֹתוֹ. כֵּיצַד יַעֲשֶׂה? כּוֹנֵס לְתוֹךְ שֶׁלּוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת וּבוֹנֶה.

GUEMARÁ. Aprendemos ali (numa Mishná de outro tratado): quem tinha sua casa próxima a um templo de idolatria, e ela caiu, é proibido reconstruí-la. Como deve proceder? Recolhe-se quatro amot dentro de seu próprio terreno, e constrói.

Nota

A Guemará começa a explorar o tema da idolatria trazendo, de outro tratado (Avodá Zará), uma Mishná relacionada: a parede de uma casa que servia também de divisória para um templo idólatra vizinho não pode ser reconstruída no mesmo lugar depois de cair, pois isso beneficiaria indiretamente o templo; o dono deve recuar quatro amot dentro de seu próprio terreno antes de reconstruir, garantindo que a nova parede não sirva, de modo algum, à estrutura idólatra. Esta folha termina aqui de forma fechada — a última frase, "recolhe-se quatro amot dentro de seu próprio terreno e constrói", completa o pensamento sem deixar nada em aberto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kotlo samuch la'avodah zarah" e "assur livnoto"
כותלו סמוך לעבודה זרה - שהיה אותו כותל מחיצה אף לבית עבודה זרה: אסור לבנותו - דקמהני לעבודה זרה:

"'Sua parede próxima a idolatria'" — pois aquela parede servia de divisória também para o templo de idolatria. "'É proibido reconstruí-la'" — pois ao reconstruí-la no mesmo lugar beneficiaria o templo de idolatria.