87b se fechara no meio de uma frase: depois de trazer o ensinamento de Acherim sobre os quatro (ou cinco) dias fixos de diferença entre uma Atzeret e a seguinte, e entre um Rosh Hashaná e o seguinte — o que gerava uma última dificuldade calendárica tanto para Rabi Yosei quanto para os sábios —, a Guemará começara a responder: "para Rabi Yosei, sete meses deficientes fizeram," — cortado exatamente aí. 88a abre completando essa mesma resposta: "para os sábios, oito deficientes fizeram" — encerrando, assim, toda a longa cadeia de provas e contraprovas sobre os meses de Nissan, Iyar e Sivan no ano do Êxodo. A Guemará então traz mais uma prova, desta vez da baraita de Seder Olam, que calcula o primeiro dia de Nissan como véspera de Shabat (sexta-feira) — o que se mostra difícil para a posição de Rabi Yosei, e é resolvido atribuindo essa baraita, ao contrário, aos sábios. Encerrada a sequência de provas puramente calendáricas, a Guemará retoma um fio deixado havia algumas folhas: o relato de Rabi Yosei sobre os dias em que Moshe subiu e desceu do monte Sinai antes da entrega da Torá — no segundo dia do mês, no terceiro, e finalmente no quarto, quando desceu e não subiu mais, ocupando o quinto dia com a construção de um altar e a oferta de um sacrifício, e não tendo folga no sexto. A Guemará pergunta se essa falta de folga no sexto dia se deveu à própria entrega da Torá naquele dia — mas responde que não, que se deveu antes ao preparo para o Shabat, já que, segundo os sábios, esse sexto dia caiu numa sexta-feira; e cita o discurso de um galileu diante de Rav Chisda sobre a Torá tríplice entregue ao povo tríplice, por meio do terceiro filho, no terceiro dia, no terceiro mês. Seguem-se então quatro ensinamentos homiléticos sobre a entrega da Torá no Sinai: o de Rav Avdimi bar Chama bar Chasa, de que Deus suspendeu o monte sobre o povo como um barril invertido, ameaçando-os de morte caso não aceitassem a Torá — o que Rav Acha bar Yaakov lê como um fundamento para uma alegação de coação contra a validade da Torá, respondida por Rava com a observação de que o povo, ainda assim, tornou a aceitá-la de boa vontade nos dias de Assuero, por amor ao milagre de Purim; o de Chizkiya, sobre o versículo que descreve a terra "temendo e sossegando" ao ouvir do céu o juízo — lido como referência ao temor de que o mundo pudesse ser desfeito, e à tranquilidade que veio com a aceitação da Torá —, e a explicação de Reish Lakish de que Deus condicionara a própria existência da obra da criação à aceitação da Torá por Israel; o de Rabi Simai, sobre as duas coroas celestiais amarradas a cada israelita por terem dito "faremos" antes de "ouviremos", coroas perdidas no pecado do bezerro de ouro, tomadas por Moshe segundo Rabi Yochanan, e destinadas, segundo Reish Lakish, a serem devolvidas ao povo no futuro; e o de Rabi Elazar, sobre a voz celestial que se admirou de que o povo tivesse descoberto o segredo usado pelos próprios anjos do serviço, e o ensinamento de Rabi Chama bar Chanina sobre a macieira, cujo fruto precede as folhas, como símbolo da mesma antecipação. A folha se fecha, por fim, no meio de um relato: um hereje viu Rava tão absorto no estudo que os próprios dedos lhe sangravam sob a pressão da perna, e o repreendeu como parte de um "povo apressado" que aceitou a Torá antes de ouvir suas condições; Rava começa a responder — "Ele lhe disse: nós..." — e a frase é cortada, completando-se apenas no início de 88b.
87b terminara cortada no meio da resposta da Guemará sobre a última dificuldade calendárica levantada pelo ensinamento de Acherim: "לְרַבִּי יוֹסֵי שִׁבְעָה חֲסֵרִין עֲבוּד," ("para Rabi Yosei, sete meses deficientes fizeram,"), sem que a contagem correspondente para os sábios chegasse a ser registrada. 88a abre em continuação direta dessa mesma fala, sem qualquer novo raciocínio independente: "לְרַבָּנַן שְׁמוֹנָה חֲסֵרִים עֲבוּד" ("para os sábios, oito deficientes fizeram"). Com isso, a Guemará encerra toda a sequência de provas sobre quantos meses, entre Nissan do ano do Êxodo e o Nissan seguinte, foram cheios ou deficientes segundo cada uma das duas posições.
Continuando a resposta interrompida ao final de 87b: para os sábios, oito meses deficientes fizeram naquele período, entre o Nissan do Êxodo e o Nissan do ano seguinte — um a mais do que os sete deficientes segundo a contagem de Rabi Yosei, diferença que corresponde exatamente à diferença de um dia entre as duas posições quanto ao dia da semana em que Sivan se fixou.
Com essa frase, agora completa, a Guemará fecha toda a longa sequência de provas e contraprovas sobre os meses de Nissan, Iyar e Sivan no ano do Êxodo, iniciada ainda em 87a. A diferença de um mês deficiente a mais, na contagem dos sábios em relação à de Rabi Yosei, é o que absorve a diferença de um dia entre as duas posições sobre o dia da semana em que Sivan caiu — Rabi Yosei fixando-o num domingo, e os sábios, numa segunda-feira — mantendo, em ambos os casos, a compatibilidade com o princípio de Acherim de que há sempre quatro (ou cinco, em ano embolismado) dias fixos de diferença entre uma Atzeret e a seguinte.
"'Para os sábios, oito deficientes fizeram'" — e não havia, entre o Pêssach do ano anterior e o Pêssach deste ano, senão dois dias de diferença no dia da semana, e resulta daí que o Pêssach do ano anterior caiu numa véspera de Shabat (sexta-feira).
Vem e ouve outra prova, pois foi ensinado em "Seder Olam": quanto ao mês de Nissan em que Israel saiu do Egito — no décimo quarto abateram seus cordeiros de Pêssach, no décimo quinto saíram, e aquele dia era véspera de Shabat (sexta-feira). E visto que o primeiro dia do mês de Nissan foi véspera de Shabat — o primeiro dia do mês de Iyar caiu num domingo, e Sivan caiu numa segunda-feira — isso é difícil para Rabi Yosei , que sustenta que Sivan caiu num domingo, não numa segunda-feira! Diria-te Rabi Yosei: esta baraita, de quem é — é dos sábios , e por isso não me contradiz.
A Guemará traz uma nova baraita, agora da obra "Seder Olam", que fixa o décimo quinto dia de Nissan — e, portanto, o primeiro dia do mês — numa sexta-feira (véspera de Shabat). Contando a partir daí, o primeiro dia de Iyar cairia num domingo, e o primeiro dia de Sivan, numa segunda-feira — o que corresponde exatamente à posição dos sábios, mas contradiz a de Rabi Yosei, que fixa Sivan num domingo. A Guemará resolve essa dificuldade pelo mesmo recurso já usado repetidamente ao longo de toda essa sequência de provas, em 87a e 87b: atribui a baraita à posição contrária àquela que ela parece contradizer — aqui, à dos sábios, e não a Rabi Yosei —, de modo que a suposta contradição desaparece.
Não há comentário de Rashi da API do Sefaria correspondente a este segmento específico, sobre a baraita de Seder Olam. Não se inventa aqui nenhum texto de Rashi para preencher a lacuna.
Vem e ouve: Rabi Yosei diz: no segundo dia do mês de Sivan subiu Moshe ao monte e desceu; no terceiro subiu e desceu; no quarto desceu e não tornou a subir. Mas, uma vez que não subiu naquele dia, de onde desceu? Antes é preciso dizer: no quarto subiu e desceu, e não tornou a subir; no quinto construiu um altar e ofereceu sobre ele um sacrifício, no sexto não teve folga. Não seria isso , a falta de folga, por causa da entrega da própria Torá naquele dia?
A Guemará retoma um fio deixado algumas folhas antes, sobre a cronologia dos dias entre a chegada do povo ao Sinai e a entrega da Torá. Segundo Rabi Yosei, Moshe subiu e desceu do monte no segundo e no terceiro dias de Sivan; no quarto dia desceu — e, como não teria sentido dizer que desceu sem antes ter subido, a Guemará corrige a leitura para "subiu e desceu" também no quarto; no quinto dia construiu um altar e ofereceu um sacrifício sobre ele (conforme Êxodo 24:4), e no sexto dia não teve tempo livre. A Guemará pergunta se essa falta de tempo livre no sexto dia não se deveria à própria entrega da Torá, que teria ocorrido nesse dia.
"'No segundo dia subiu Moshe'" — e ouviu "e vós sereis para Mim um reino de sacerdotes" (Êxodo 19:6), e desceu e o anunciou ao povo. "'No terceiro subiu'" — e ouviu a ordem da delimitação (hagbalá, a proibição de subir o monte ou tocar em seus limites), e desceu e a anunciou. "'No quarto desceu'" — para separá-los de suas esposas, em preparação. "'E não tornou a subir'" — até a entrega dos Dez Mandamentos, quando todos subiram juntos , num sentido figurado — todo o povo "subiu" de nível para recebê-la. "'Mas, uma vez que não subiu, de onde desceu?'" — pois a baraita disse "no quarto desceu", e não disse "subiu e desceu"; antes, diz-se: no quarto subiu e desceu, e não tornou a subir. "'E no quinto construiu um altar'" — como está escrito: "e construiu um altar ao pé do monte" (Êxodo 24:4). "'Não seria isso por causa da Torá?'" — não teve tempo livre para subir, pois todos juntos receberam os Dez Mandamentos nesse sexto dia.
Não — responde a Guemará —, a falta de folga no sexto dia não se deveu à entrega da Torá, mas sim por causa do labor de preparar-se para o Shabat , já que, segundo os sábios, aquele sexto dia de Sivan caiu numa sexta-feira. Expôs aquele galileu diante de Rav Chisda: bendito o Misericordioso que deu a Torá tríplice (Torá, Profetas e Escritos), ao povo tríplice (sacerdotes, levitas e israelitas), por meio do terceiro filho (Moshe, o terceiro nascido de sua mãe, depois de Miriam e Aharon), no dia terceiro (dos três dias de separação), no mês terceiro (Sivan). Segundo quem é isso? Segundo os sábios.
A Guemará responde que a falta de tempo livre de Moshe no sexto dia não se deveu à entrega da Torá em si, mas sim ao trabalho de se preparar para o Shabat — pois, segundo a posição dos sábios (que, ao contrário de Rabi Yosei, fixam a entrega da Torá no sexto de Sivan), esse sexto dia caiu justamente numa sexta-feira. Em seguida, a Guemará cita, a propósito, o discurso homilético de um pregador galileu diante de Rav Chisda, celebrando a tríplice coincidência da entrega da Torá — tríplice em seu próprio conteúdo (as três partes da Escritura), tríplice no povo que a recebeu (as três categorias de Israel), por meio do terceiro filho de sua mãe, no terceiro dos dias de separação, e no terceiro mês do ano. A Guemará nota que esse discurso, ao contar o "dia terceiro" como o sexto de Sivan, pressupõe a contagem dos sábios, e não a de Rabi Yosei.
"'Diante de Rav Chisda' (עֲלֵיהּ, literalmente "sobre ele")" — diz-se "עֲלֵיהּ" porque Rav Chisda estava sentado e o pregador estava de pé, e por isso fala dele como estando "acima" do que está sentado , o pregador de pé como que se elevando sobre o sábio sentado. "'A Torá tríplice'" — Torá, Profetas e Escritos. "'Ao povo tríplice'" — sacerdotes, levitas e israelitas. "'Por meio do terceiro'" — Moshe, o terceiro do ventre materno: Miriam, Aharon e Moshe. "'No dia terceiro'" — o terceiro da separação.
"E se puseram de pé ao pé do monte" (Êxodo 19:17) — disse Rav Avdimi bar Chama bar Chasa: isso ensina que o Santo, bendito seja, suspendeu sobre eles o monte como um barril invertido, e disse-lhes: se aceitardes a Torá, bem; e se não — ali será a vossa sepultura. Disse Rav Acha bar Yaakov: daqui vem um fundamento para uma grande alegação de coação contra a Torá. Disse Rava: apesar disso, voltaram a aceitá-la de boa vontade nos dias de Assuero, pois está escrito: "confirmaram e aceitaram os judeus" (Ester 9:27) — confirmaram o que já haviam aceitado , desta vez sem coação alguma, por amor ao milagre que lhes foi feito.
Rav Avdimi bar Chama bar Chasa ensina que o verso sobre o povo se colocando ao pé do monte deve ser lido literalmente: Deus arrancou o monte de seu lugar e o suspendeu sobre o povo como um barril invertido, ameaçando-os de morte caso recusassem a Torá. Rav Acha bar Yaakov extrai daí uma consequência jurídica: se a aceitação foi obtida sob coação, isso forneceria um fundamento (modaa) para alegar, mais tarde, que a aceitação não foi válida. Rava responde que, mesmo que a aceitação original no Sinai tenha sido coagida, o povo voltou a aceitar a Torá livremente, sem qualquer coação, nos dias de Assuero — motivados pelo amor ao milagre de Purim —, e o verso de Ester descreve essa segunda aceitação como a confirmação daquilo que já haviam aceito antes sob coação.
"'Ao pé do monte'" — literalmente, debaixo do monte. "'Barril' (גיגית)" — um tonel no qual se despeja e fermenta cerveja. "'Fundamento para uma grande alegação de coação'" — que, se Deus os convocasse a juízo perguntando: por que não cumpristes o que aceitastes sobre vós, teriam uma resposta: que a aceitaram sob coação. "'Nos dias de Assuero'" — por amor ao milagre que lhes foi feito.
Disse Chizkiya: o que significa aquilo que está escrito: "desde os céus fizeste ouvir juízo, a terra temeu e sossegou" (Salmos 76:9)? Se temeu, por que sossegou? E se sossegou, por que temeu? Antes: no início temeu, e ao final sossegou. E por que temeu? Conforme ensinou Reish Lakish. Pois disse Reish Lakish: o que significa aquilo que está escrito: "e foi tarde e foi manhã, o dia sexto" (Gênesis 1:31) — por que preciso do artigo definido no hebraico, "o" sexto, a mais , diferente dos outros dias, que não o têm? Isso ensina que o Santo, bendito seja, condicionou a existência de tudo com a obra da criação, e disse a ela: se Israel aceitar a Torá — vós subsistireis; e se não — Eu vos farei voltar ao caos e ao vazio (tohu vavohu).
Chizkiya lê o versículo dos Salmos sobre o juízo ouvido desde os céus como referindo-se à entrega da Torá: a terra primeiro temeu, e só depois sossegou. O motivo desse temor inicial, explica a Guemará por meio de Reish Lakish, está na leitura de um detalhe gramatical do relato da criação: apenas o sexto dia é descrito com o artigo definido ("o dia sexto"), diferente dos demais dias, que aparecem sem artigo ("um dia", "um segundo dia" etc.). Esse "o sexto" definido aponta, segundo Reish Lakish, para um sexto dia específico e futuro — o sexto de Sivan, dia da entrega da Torá — ao qual Deus vinculou a própria continuidade da obra da criação: se Israel aceitasse a Torá nesse dia, o mundo persistiria; caso contrário, retornaria ao caos primordial. Esse é o motivo do temor inicial da terra, que só se dissipou quando o povo, de fato, aceitou a Torá.
"'Juízo'" — a Torá. "'No início'" — antes de Israel dizer "faremos e ouviremos". "'Temeu'" — a terra temeu que talvez não a aceitassem, e o mundo voltasse ao caos e ao vazio, conforme ensinou Reish Lakish. "'E ao final'" — quando a aceitaram. "'O dia sexto'" — por que é diferente, que a Escritura escreve o artigo definido a mais, na conclusão da obra da criação? "'Isso ensina que Deus condicionou', etc." — "o sexto" com artigo definido indica o sexto específico, conhecido de outro lugar , do mesmo modo que, em geral, se diz (Chulin 91a) "a coxa habilidosa" com o mesmo tipo de referência específica; também aqui, "e foi tarde e foi manhã" da conclusão da obra da criação depende do —está vinculado ao— sexto dia, que é o seis de Sivan, no qual foi dada a Torá, o que se deriva também daqui, do artigo definido a mais.
Expôs Rabi Simai: no momento em que Israel antecipou "faremos" a "ouviremos" (dizendo "faremos e ouviremos", em vez de "ouviremos e faremos"), vieram seiscentos mil anjos do serviço, e a cada um de Israel amarraram duas coroas, uma correspondente a "faremos" e uma correspondente a "ouviremos". E, assim que Israel pecou (com o bezerro de ouro), desceram cento e vinte mil anjos destruidores e as arrancaram deles, como está dito: "e os filhos de Israel se despojaram de seus enfeites, desde o monte Chorev" (Êxodo 33:6). Disse Rabi Chama filho de Rabi Chanina: em Chorev os assumiram, em Chorev foram despojados deles. Em Chorev os assumiram — conforme dissemos; em Chorev foram despojados deles — como está escrito: "e os filhos de Israel se despojaram, etc." Disse Rabi Yochanan: e todas elas Moshe mereceu e tomou. Pois logo a seguir está escrito: "e Moshe tomou a tenda" (Êxodo 33:7 , lido aqui como referindo-se àqueles mesmos enfeites). Disse Reish Lakish: no futuro o Santo, bendito seja, as devolverá a nós, como está dito: "e os resgatados do Eterno voltarão, e virão a Sião com cântico, e alegria eterna sobre suas cabeças" (Isaías 35:10) — a alegria que já era deles desde sempre estará sobre suas cabeças.
Rabi Simai ensina que a antecipação do povo em dizer "faremos" antes de "ouviremos" — colocando a obediência antes até de conhecer o conteúdo da ordem — foi recompensada por anjos que tricotaram duas coroas para cada israelita, uma por cada uma dessas duas palavras. Essas coroas, porém, foram perdidas no pecado do bezerro de ouro, quando anjos destruidores desceram e as arrancaram; Rabi Chama bar Chanina nota o paralelismo entre o verso que descreve a aceitação delas e o que descreve a sua perda, ambos ligados ao monte Chorev. Rabi Yochanan acrescenta que foi Moshe quem, sozinho, recolheu todas essas coroas perdidas, e Reish Lakish conclui a série com uma nota de consolo: no futuro, Deus devolverá essas mesmas coroas ao povo, cumprindo a promessa de Isaías sobre a alegria eterna que estará sobre suas cabeças quando retornarem a Sião.
"'Duas coroas'" — do esplendor da Presença Divina (Shechiná). "'Cento e vinte mil'" — cada um dos anjos destruidores tomou uma coroa de volta. "'Assumiram'" — as coroas; e assim o verso indica: "seus enfeites, que tinham, desde o monte Chorev". "'Em Chorev foram despojados'" — pois o mesmo verso também indica: "e os filhos de Israel se despojaram de seus enfeites, desde o monte Chorev". "'E Moshe tomou'" — aquele mesmo enfeite; outra leitura: "a tenda" (אֹהֶל), termo relacionado a "quando Seu candeeiro brilhava" (בְּהִלּוֹ נֵרוֹ, Jó 29:3) — e isso era o brilho radiante do rosto de Moshe.
Disse Rabi Elazar: no momento em que Israel antecipou "faremos" a "ouviremos", saiu uma voz celestial (bat kol) e disse-lhes: quem revelou a Meus filhos este segredo que os anjos do serviço usam? Pois está escrito: "bendizei o Eterno, Seus anjos, poderosos em força, que fazem Sua palavra, para ouvir a voz de Sua palavra" (Salmos 103:20) — primeiro "que fazem", e depois "para ouvir". Disse Rabi Chama filho de Rabi Chanina: o que significa aquilo que está escrito: "como a macieira entre as árvores da floresta, etc." (Cântico dos Cânticos 2:3)? Por que foi Israel comparado a uma macieira? Para te dizer: assim como esta macieira — seu fruto precede suas folhas —, também Israel antecipou "faremos" a "ouviremos".
Rabi Elazar retoma o mesmo tema da antecipação de "faremos" a "ouviremos", agora com a reação de uma voz celestial que se surpreende ao ver que o povo descobriu, por conta própria, o mesmo padrão de conduta que os próprios anjos do serviço seguem — servir antes de perguntar, cumprir antes de questionar —, como o verso dos Salmos deixaria implícito ao mencionar "que fazem" antes de "para ouvir". Rabi Chama bar Chanina complementa com uma imagem botânica: a macieira, ao contrário da maioria das árvores, produz seu fruto antes de suas folhas — e essa singularidade serve de metáfora para a mesma antecipação de Israel, que aceitou cumprir a Torá antes mesmo de ouvir seu conteúdo.
"'Que fazem Sua palavra, para ouvir'" — prontos para fazer antes de ouvirem, e não à maneira dos demais servos, que primeiro ouvem o assunto para saber se são capazes de aceitá-lo sobre si ou não. "'Seu fruto precede suas folhas'" — assim é o seu costume , da macieira, e nisso ela se distingue das demais árvores: o brotar de seu fruto precede o de suas folhas.
Um certo hereje viu Rava tão absorto em estudar uma tradição (uma questão de Guemará), com seus dedos colocados debaixo da perna, pressionando-os , de tão concentrado, que seus dedos brotavam sangue. Disse-lhe: povo apressado, que colocastes vossas bocas antes de vossos ouvidos, ainda persistis em vossa precipitação! Antes devíeis ter escutado o que a Torá exigia; se fôsseis capazes de cumpri-la, tê-la-íeis aceitado, e se não, não a teríeis aceitado. Ele (Rava) lhe disse: nós...
Um hereje observa Rava tão profundamente absorto no estudo que, sem perceber, pressiona os próprios dedos sob a perna até sangrarem — sinal, aos olhos do narrador, da intensidade da concentração de Rava. O hereje aproveita para repetir uma crítica já conhecida contra o povo de Israel: por terem dito "faremos" antes de "ouviremos", agiram com precipitação, aceitando um compromisso antes de conhecer suas condições — deveriam primeiro ter ouvido o que a Torá exigia, e só então decidir se a aceitavam ou não, conforme fossem ou não capazes de cumpri-la. Rava começa a responder — "ele lhe disse: nós..." —, mas a frase é cortada exatamente aí, logo após a palavra "nós" (אֲנַן). A continuação, confirmada via Sefaria, abre a folha 88b: "que caminhamos em integridade, de nós está escrito: 'a integridade dos retos os guiará' (Provérbios 11:3); aquelas pessoas que caminham em engano, delas está escrito: 'a perversidade dos traidores os destruirá'" — a réplica de Rava ao hereje, contrapondo a integridade de Israel, que confia sem reservas, à deslealdade de quem primeiro calcula e depois trai.