88a se fechara no meio de uma frase: a réplica de Rava a um hereje que chamara Israel de "povo apressado" por ter dito "faremos" antes de "ouviremos" fora cortada logo depois da palavra "nós" (אֲנַן). 88b abre completando essa mesma fala: "nós que caminhamos em integridade, sobre nós está escrito: a integridade dos retos os guiará; aquelas pessoas que caminham em engano, sobre elas está escrito: a perversidade dos traidores os destruirá" — contrapondo a confiança incondicional de Israel ao cálculo desconfiado de quem primeiro barganha e só depois trai. Encerrado esse relato, a Guemará abre uma longa sequência de ensinamentos homiléticos em louvor à Torá e à entrega no Sinai, a maior parte deles de Rabi Yehoshua ben Levi. Primeiro, uma série de leituras do Cântico dos Cânticos e de outros versos sobre a intimidade entre Deus e Israel: a aceitação da Torá "com um olho", tornada plena "com dois olhos" quando de fato cumprida; a imagem da noiva insolente que se prostitui dentro do próprio dossel — referência ao pecado do bezerro de ouro —, com a nota consoladora de que o verso, ainda assim, preserva linguagem de afeto; e a baraita sobre os que são insultados e não insultam, ouvem sua própria vergonha e não respondem, agem por amor e se alegram nos sofrimentos. Seguem-se três ensinamentos sobre a força da palavra divina: que cada palavra saída da boca de Deus se dividiu em setenta línguas, como um martelo que se despedaça em muitas faíscas contra a rocha; e que as palavras da Torá são comparadas a um príncipe, com poder de matar e de dar vida — o que Rava aplica à distinção entre quem se aproxima da Torá "pela direita", para quem ela é droga de vida, e quem se aproxima dela "pela esquerda", para quem é droga de morte. Rabi Yehoshua ben Levi prossegue com a imagem das duas coroas amarradas a cada palavra divina, do buquê de mirra e do cacho de hena do Cântico dos Cânticos — lidos como a confiança de Israel no amado que a aflige, e o perdão pelo pecado do bezerro —, e com a explicação de Mar Zutra sobre o sentido de "karmei" como termo de ajuntar. Depois, a imagem das faces como um canteiro de bálsamo: cada palavra divina enchia o mundo de especiarias, e o vento que Deus tirou de Seus tesouros para fazer passar o aroma de uma palavra e dar lugar ao da seguinte. Segue-se o ensinamento sobre a alma de Israel, que saía do corpo a cada palavra divina e era revivida pelo orvalho da ressurreição futura, e sobre o recuo de doze mil — a distância dos acampamentos — a cada palavra, com os anjos do serviço conduzindo o povo de volta. A Guemará relata, então, a objeção dos próprios anjos do serviço, no momento em que Moshe subiu ao monte para receber a Torá: que faz um nascido de mulher entre eles, e por que dar um tesouro escondido havia centenas de gerações a carne e sangue? Deus ordena a Moshe que lhes responda ele mesmo, apoiado no Trono da Glória por temor de ser queimado pelo sopro das bocas dos anjos, e Moshe começa a enumerar os mandamentos da Torá, mostrando um a um que nenhum deles se aplica aos próprios anjos — descestes ao Egito? fostes escravizados a Faraó? tendes outros deuses? — e a folha se fecha, uma vez mais, em aberto, no meio dessa mesma enumeração, na pergunta sobre morar entre nações que adoram ídolos, cuja continuação — "ídolos" (avodá zará) — abre a folha 89a.
88a terminara cortada logo após a palavra "אֲנַן" ("nós"), no meio da réplica de Rava ao hereje que o chamara, junto com todo o povo de Israel, de "povo apressado", por terem dito "faremos" antes de "ouviremos" — precipitação, segundo o hereje, já que deveriam primeiro ter ouvido o conteúdo da Torá para só então decidir se a aceitavam. 88b abre em continuação direta dessa mesma fala, sem qualquer novo raciocínio independente: Rava contrapõe a integridade de Israel, que confiou sem reservas, à deslealdade de quem primeiro calcula e depois trai.
Continuando a réplica interrompida ao final de 88a: nós, que caminhamos em integridade, sobre nós está escrito: "a integridade dos retos os guiará" (Provérbios 11:3); aquelas pessoas que caminham em engano , calculando e barganhando antes de agir, sobre elas está escrito: "e a perversidade dos traidores os destruirá" (Provérbios 11:3, o mesmo versículo).
Com essa frase, agora completa, Rava responde ao hereje que acusara Israel de precipitação: o povo que diz "faremos" antes de "ouviremos" não age por imprudência, mas por integridade — por confiar plenamente naquele em quem confia, sem calcular de antemão se será capaz de cumprir. Rava contrapõe essa integridade à conduta de "aquelas pessoas" — os enganadores, que primeiro barganham as condições e só depois, se lhes convém, cumprem, e do mesmo versículo de Provérbios extrai o destino de cada um dos dois grupos: os retos são guiados por sua própria integridade, os traidores são destruídos por sua própria perversidade.
"'Nós que caminhamos em integridade'" — caminhamos com Ele , com Deus, de coração íntegro, à maneira dos que agem por amor, e confiamos nEle que não nos imporia algo que não pudéssemos suportar.
Disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yonatan: o que significa aquilo que está escrito: "ravaste-me o coração, minha irmã, minha noiva, ravaste-me o coração com um de teus olhos" (Cântico dos Cânticos 4:9)? No início , quando meramente aceitastes a Torá sobre vós, foi com um de teus olhos; quando fizerdes , isto é, quando cumprirdes de fato os mandamentos, será com teus dois olhos. Disse Ulla: insolente é a noiva que se prostitui dentro de seu próprio dossel nupcial — referência ao pecado do bezerro de ouro. Disse Rav Mari, filho da filha de Shmuel: qual é o verso que alude a isso? "Enquanto o rei estava à sua mesa, meu nardo deu seu aroma, etc." (Cântico dos Cânticos 1:12). Disse Rav: e ainda assim há ali afeto para conosco, pois está escrito "deu" seu aroma, e não está escrito "cheirou mal". Ensinaram os sábios: os que são insultados e não insultam, ouvem sua própria vergonha e não respondem, agem por amor e se alegram nos sofrimentos — sobre eles a Escritura diz: "e os que O amam, como a saída do sol em sua força" (Juízes 5:31).
A Guemará abre uma sequência de leituras homiléticas do Cântico dos Cânticos e de outros versos, todas em louvor da relação entre Deus e Israel. Rabi Shmuel bar Nachmani, em nome de Rabi Yonatan, lê "ravaste-me o coração com um de teus olhos" como referindo-se à diferença entre a mera aceitação da Torá — "com um olho" — e seu cumprimento efetivo, futuro — "com os dois olhos". Ulla lembra o lado sombrio dessa mesma imagem nupcial: a noiva que, ainda no próprio dossel — isto é, Israel, ainda ao pé do Sinai —, já se voltou para o pecado do bezerro de ouro. Rav Mari e Rav suavizam essa acusação com uma leitura próxima do Cântico: mesmo relatando a vergonha de Israel, o verso escolhe uma linguagem afetuosa ("deu seu aroma", não "cheirou mal"), sinal de que o afeto divino persiste. A baraita final elogia, de modo mais geral, aqueles que sofrem insultos sem retribuí-los e se alegram no sofrimento por amor a Deus — qualidade que a Guemará, no contexto, atribui ao próprio povo de Israel.
"'Ravaste-me o coração' (לִבַּבְתִּנִי)" — aproximaste-me de Ti. "'No início'" — na aceitação da Torá, quando a aceitastes, é como se houvesse apenas um olho diante deles , os anjos; e ao final, quando a cumpristes, há dois. "'Insolente' (עֲלוּבָה)" — impudente, pois a raiz "עולבנא" é termo de impudência, e assim se diz também no tratado Guitin. "'Que se prostitui dentro de seu próprio dossel nupcial'" — como Israel, quando estava de pé no Sinai e logo depois fez o bezerro de ouro. "'À sua mesa' (בִּמְסִבּוֹ)" — em seu dossel nupcial. "'E ainda assim há ali afeto para conosco'" — embora o verso relate nossa vergonha, mostrou-nos linguagem de afeto, já que não está escrito "cheirou mal". "'Deu' (נָתַן)" — deixou seu bom aroma para outros. "'Os insultados que não insultam'" — outros vêm contra eles com impudência, mas eles não vêm contra outros. "'Agem por amor a Deus e se alegram nos sofrimentos'" — na vergonha que lhes sobrevém.
Disse Rabi Yochanan: o que significa aquilo que está escrito: "o Eterno dá a palavra, as mensageiras que anunciam a boa nova são uma grande hoste" (Salmos 68:12)? Isso ensina que toda palavra e palavra que saiu da boca do Poderoso (nome divino ligado à força) se dividiu em setenta línguas. Ensinou a escola de Rabi Yishmael: "e como um martelo que estilhaça a rocha" (Jeremias 23:29) — assim como este martelo se divide em quantas faíscas ao golpear a pedra, também toda palavra e palavra que saiu da boca do Santo, bendito seja, se dividiu em setenta línguas. Disse Rav Chananel bar Pappa: o que significa aquilo que está escrito: "ouvi, pois coisas principescas falo" (Provérbios 8:6)? Por que as palavras da Torá foram comparadas a um príncipe (nagid)? Para te dizer: assim como este príncipe tem poder para matar e para dar vida, também as palavras da Torá têm poder para matar e para dar vida.
Três ensinamentos, encadeados pela mesma imagem da força da palavra divina. Rabi Yochanan lê o verso dos Salmos sobre a palavra que "as mensageiras" anunciam como referindo-se à multiplicação de cada enunciado divino em setenta línguas — as setenta nações do mundo, cada uma recebendo a Torá em seu próprio idioma. A escola de Rabi Yishmael confirma essa mesma ideia por meio da imagem do martelo que, ao golpear a rocha, se estilhaça em muitas faíscas: assim como o golpe único produz múltiplos fragmentos, a palavra divina, embora proferida uma só vez, chegou dividida em setenta línguas. Rav Chananel bar Pappa acrescenta uma terceira comparação, entre as palavras da Torá e um príncipe (nagid): assim como o príncipe tem, por seu poder, a capacidade tanto de condenar à morte quanto de conceder a vida, também a Torá — cumprida ou transgredida — carrega esse mesmo poder dual.
"'Uma grande hoste'" — todas as nações , cada uma recebendo a Torá dividida em sua própria língua. "'Assim como um martelo'" — a rocha se divide por meio dele em muitas faíscas.
Isso é o que disse Rava: para os que se voltam para a Torá pela direita , estudando-a com força, boa vontade e santidade, ela é droga de vida; para os que se voltam para ela pela esquerda, ela é droga de morte. Outra explicação de por que a Torá é comparada a um príncipe, "nagid": "príncipes" (נְגִידִים) — toda palavra e palavra que saiu da boca do Santo, bendito seja, amarram-lhe duas coroas. Disse Rabi Yehoshua ben Levi: o que significa aquilo que está escrito: "um buquê de mirra é para mim meu amado, entre meus seios repousará" (Cântico dos Cânticos 1:13)? Disse a Congregação de Israel diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, ainda que meu amado me traga aflição e amargura, "entre meus seios repousará". "Um cacho de hena é para mim meu amado, nas vinhas de Ein Gedi" (Cântico dos Cânticos 1:14) — Aquele a quem tudo pertence me perdoa pelo pecado do cabrito (gedi, aludindo ao bezerro de ouro) que ajuntei para mim. O que indica que este "karmei" é termo de ajuntar? Disse Mar Zutra, filho de Rav Nachman, conforme aprendemos numa Mishná: a cadeira do lavandeiro sobre a qual se ajuntam (kormim) as roupas.
Rava conclui o ensinamento anterior sobre o duplo poder da Torá com sua própria formulação, já conhecida em outros contextos: para quem se dedica a ela com a força e a santidade da "mão direita", ela é remédio de vida; para quem se aproxima dela de modo distraído ou impuro — pela "esquerda" —, ela se torna remédio de morte. A Guemará traz então uma explicação alternativa da comparação com um "nagid": cada palavra divina recebe duas coroas amarradas. Rabi Yehoshua ben Levi retoma essa imagem das duas coroas com uma leitura homilética de dois versos do Cântico dos Cânticos: a Congregação de Israel afirma sua confiança no amado — Deus — mesmo quando este a aflige, e agradece Seu perdão pelo pecado do bezerro de ouro, aludido no verso por meio das palavras "cabrito" (gedi) e "vinhas" (karmei, lido por Mar Zutra como termo de ajuntamento, tal qual a cadeira do lavandeiro sobre a qual se recolhem as roupas).
"'Para os que se voltam pela direita'" — ocupados com toda sua força, e afadigados para conhecer seu segredo, como um homem que usa a mão direita, que é a principal. "'Amarram-lhe duas coroas'" — à palavra divina, que tinha substância concreta e era visível, conforme está escrito: "e viam as vozes" (Êxodo 20:15). "'Ainda que meu amado me traga aflição e amargura'" — referindo-se ao bezerro de ouro, do qual Aharon disse "tirai vossos enfeites de ouro". "'Entre meus seios repousará'" — Deus ordenou imediatamente que Lhe fizessem um Tabernáculo, para que Sua Presença Divina ficasse concentrada entre as duas varas da Arca, que apareciam no primeiro Templo como dois seios pressionando e projetando-se contra a cortina que ficava diante da entrada. "'Ein Gedi'" — o pecado do bezerro (egel), que é uma espécie de animal (gedi, cabrito); outra explicação: termo relacionado ao ídolo chamado Gad, dos idólatras que "põem mesa para Gad" (Isaías 65:11). "'Que ajuntei'" — que reuni quando desejei muitas divindades, conforme está escrito: "estes são teus deuses, Israel" (Êxodo 32:4). "'Sobre a qual se ajuntam'" — sobre a qual se recolhem as roupas; é uma tábua longa e perfurada com muitos furos, sob a qual se coloca o incenso, e as roupas se perfumam através dos furos; lê-se o termo "kormim" como termo de ajuntar.
E disse Rabi Yehoshua ben Levi: o que significa aquilo que está escrito: "suas faces são como um canteiro de bálsamo" (Cântico dos Cânticos 5:13)? Toda palavra e palavra que saiu da boca do Santo, bendito seja, encheu o mundo todo de especiarias. E, uma vez que já se enchera com a primeira palavra, para onde foi o aroma da segunda palavra? O Santo, bendito seja, fez sair o vento de Seus tesouros, e fazia passar as especiarias uma após a outra, como está dito: "seus lábios são lírios que gotejam mirra fluida" (Cântico dos Cânticos 5:13, mesmo versículo). (Não leias "שׁוֹשַׁנִּים" (lírios), mas "שֶׁשּׁוֹנִים" (que repetem, que estudam)).
Rabi Yehoshua ben Levi lê a descrição das faces do amado no Cântico dos Cânticos como um canteiro de especiarias, referindo-se ao efeito sensível de cada palavra divina proferida no Sinai: cada uma delas encheu o mundo inteiro de fragrância. Isso gera uma dificuldade prática — se o mundo já estava saturado de aroma após a primeira palavra, onde caberia o aroma da segunda? A resposta é que Deus, usando um vento tirado de Seus próprios tesouros, fazia o aroma de cada palavra "passar" — no sentido de ser levado, segundo Rashi, ao Jardim do Éden — abrindo espaço para o aroma da palavra seguinte. A Guemará ainda extrai desse mesmo versículo, por meio de uma leitura alternativa da palavra "שׁוֹשַׁנִּים" (lírios) como "שֶׁשּׁוֹנִים" (que repetem), uma alusão ao valor de estudar e repetir os ensinamentos.
"'Fazia passar uma após a outra'" — para o Jardim do Éden. "'Mirra fluida' (מוֹר עֹבֵר)" — por tê-las feito passar (הֶעֱבִירָן).
E disse Rabi Yehoshua ben Levi: toda palavra e palavra que saiu da boca do Santo, bendito seja, saiu a alma de Israel de seus corpos, como está dito: "minha alma saiu quando Ele falou" (Cântico dos Cânticos 5:6). E, uma vez que já saíra a alma deles com a primeira palavra, como receberam a segunda palavra? Fez descer Deus o orvalho com que no futuro há de ressuscitar os mortos, e os reviveu, como está dito: "chuva de dádivas farás cair, ó Deus, sobre Tua herança; quando ela estava exausta, Tu a restabeleceste" (Salmos 68:10). E disse Rabi Yehoshua ben Levi: toda palavra e palavra que saiu da boca do Santo, bendito seja, Israel recuou para trás doze mil (medida de distância, o comprimento de seus acampamentos), e os anjos do serviço os conduziam de volta (medadin), como está dito: "os anjos das hostes recuam (yidodun), recuam" (Salmos 68:13) — não leias "יִדֹּדוּן" (recuam), mas "יְדַדּוּן" (conduzem de volta).
Rabi Yehoshua ben Levi encadeia dois ensinamentos sobre o efeito físico avassalador de cada palavra divina sobre o povo. No primeiro, cada palavra fazia a alma de Israel deixar o corpo — leitura de um verso do Cântico dos Cânticos —, o que gera a mesma dificuldade de antes: se a alma já partira na primeira palavra, como o povo recebeu a segunda? A resposta é que Deus reviveu o povo com o próprio orvalho reservado para a ressurreição futura dos mortos. No segundo ensinamento, cada palavra fazia o povo recuar doze mil — a extensão de seus próprios acampamentos —, por temor da voz; os anjos do serviço, então, conduziam-nos de volta pouco a pouco, como uma mãe que guia os primeiros passos de seu filho, leitura obtida por meio de uma pequena permuta de vocalização na mesma palavra do versículo dos Salmos.
"'Chuva de dádivas'" — este versículo está escrito no livro dos Salmos a respeito da entrega da Torá. "'Doze mil'" — esta é a medida de seus acampamentos, e os que estavam próximos ao lugar de onde saía a palavra retrocediam, por temor da voz, até a extremidade do acampamento. "'Conduziam-nos de volta'" — ajudavam-nos a se aproximar pouco a pouco, pois estavam fracos, como uma mulher que conduz seu filho pela mão no início de seus passos. "'יִדֹּדוּן'" — indica que eles mesmos recuam. "'יְדַדּוּן'" — conduzem outros de volta.
E disse Rabi Yehoshua ben Levi: no momento em que Moshe subiu às alturas, disseram os anjos do serviço diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, que faz ali um nascido de mulher entre nós? Disse-lhes: veio para receber a Torá. Disseram diante Dele: um tesouro precioso, escondido contigo novecentas e setenta e quatro gerações antes de o mundo ser criado, Tu pretendes dá-lo a carne e sangue? "O que é o homem, que Te lembres dele, e o filho do homem, que o visites?" (Salmos 8:5). "Eterno, nosso Senhor, quão majestoso é Teu nome em toda a terra, cuja glória Tu colocaste sobre os céus!" (Salmos 8:2 e 8:10).
Rabi Yehoshua ben Levi narra a objeção dos próprios anjos do serviço no momento em que Moshe sobe ao monte para receber a Torá: sua presença ali, entre seres celestiais, é estranha, pois é "nascido de mulher" — um ser mortal, de carne e sangue. Ao saberem que ele vem para receber a Torá, os anjos protestam com mais força ainda: a Torá é um tesouro que esteve escondido junto de Deus por novecentas e setenta e quatro gerações antes mesmo da criação do mundo — cifra que Rashi deriva do total de mil gerações mencionado em Salmos 105:8, do qual apenas vinte e seis (de Adão até a entrega no Sinai) chegaram a ser efetivamente criadas —, e não seria digno entregar um tesouro tão antigo e precioso a uma criatura mortal. Os anjos reforçam sua objeção citando dois versos dos Salmos sobre a pequenez do homem e a majestade do nome divino, que, segundo eles, deveria permanecer nos céus, e não descer à terra.
"'Novecentas e setenta e quatro gerações'" — nos dois mil anos em que a Torá precedeu o mundo, essas gerações estavam destinadas a ser criadas, como está dito: "a palavra que ordenou para mil gerações" (Salmos 105:8); e o Santo, bendito seja, viu que o mundo não subsistiria sem a Torá por tanto tempo, e as fez passar sem as criar, dando a Torá apenas à vigésima sexta geração — eis que faltaram novecentas e setenta e quatro das mil. "'Quão majestoso é Teu nome'" — já é muito majestoso na terra, e não Te convém colocar Teu esplendor ali também, senão sobre os céus.
Disse-lhe o Santo, bendito seja, a Moshe: dá-lhes tu uma resposta. Disse Moshe diante Dele: Senhor do universo, temo que me queimem com o sopro de suas bocas. Disse-lhe: agarra-te ao Trono de Minha Glória, e dá-lhes tu mesmo a resposta. Como está dito: "que segura a face do trono, e estende sobre ele Sua nuvem" (Jó 26:9), e disse Rabi Nachum: isso ensina que o Onipotente estendeu sobre Moshe do brilho de Sua Presença Divina, e Sua nuvem sobre ele. Disse Moshe diante Dele: Senhor do universo, a Torá que Tu me dás, o que está escrito nela? "Eu sou o Eterno, teu Deus, que te tirei da terra do Egito." Disse-lhes Moshe, então, aos anjos: descestes ao Egito? Fostes escravizados a Faraó? Por que haveria a Torá de ser vossa! De novo perguntou Moshe: o que mais está escrito nela? "Não terás outros deuses." Entre as nações estais vós , ó anjos, morando, que adoram...
Diante da objeção dos anjos, Deus não responde Ele mesmo, mas ordena a Moshe que dê a resposta em Seu lugar. Moshe teme ser destruído pelo próprio fôlego dos anjos, e Deus o instrui a se agarrar ao Trono da Glória — apoio que, segundo Rabi Nachum, consistiu em Deus estender sobre Moshe o brilho de Sua própria Presença Divina e Sua nuvem, protegendo-o. Moshe então pergunta a Deus, mandamento por mandamento, o que está escrito na Torá, e usa cada resposta para argumentar diante dos anjos que nenhum desses preceitos lhes é relevante: "Eu sou o Eterno, teu Deus, que te tirei da terra do Egito" não se aplica a quem nunca desceu ao Egito nem foi escravizado; e a proibição de ter outros deuses pressupõe morar entre nações idólatras — pergunta que a folha corta exatamente na palavra "que adoram" (שֶׁעוֹבְדִין), sem chegar a nomear o que essas nações adoram. A continuação, confirmada via Sefaria, abre a folha 89a com a palavra "עֲבוֹדָה זָרָה" ("idolatria"), completando a pergunta de Moshe — "que adoram idolatria?" — e prosseguindo com o restante da enumeração dos Dez Mandamentos e das objeções correspondentes.
"'O Onipotente estendeu do brilho'" — a palavra "פַּרְשֵׁז" é um acróstico das iniciais de "פֵּירַשׂ שַׁדַּי זִיו" ("estendeu o Onipotente o brilho").