Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Alef · Halachá 1 (primeira do tratado)
דְּמַאי

Os produtos leves quanto ao demai — origem abandonada, a disputa entre Rabi Yochanan e Reish Lakish, e a identificação de cada espécie

Perek Alef, Halachá 1 — primeira halachá de todo o tratado de Massechet Demai

Esta primeira halachá do Perek Alef abre todo o tratado de Massechet Demai com uma Mishná que lista os produtos considerados "leves quanto ao demai" — isto é, isentos até mesmo da suspeita de não terem sido dizimados, por se presumir que em sua maioria vêm de origem abandonada (hefker): os shitin, o fruto do lótus, a fruta da sorveira, os figos brancos e os de sicômoro, as tâmaras caídas, o funcho e a alcaparra, e, especificamente na Judeia, o sumagre, o vinagre e o coentro — com Rabi Yehudá restringindo cada uma dessas isenções a casos específicos. A guemará abre com o princípio de Rabi Yochanan, segundo o qual os sábios enumeraram esses produtos porque a maioria deles provém apenas de origem abandonada, examina a disputa entre Rabi Shimon ben Lakish (que restringe a isenção ao demai duvidoso, mas obriga o produto certamente não dizimado) e Rabi Yochanan (que os isenta em ambos os casos), estabelece o critério prático de saber se a maioria das pessoas do lugar guarda ou não guarda esse produto, e se a cidade tem maioria de judeus ou de gentios, identifica uma a uma as espécies da Mishná com as opiniões de Rabi Shimon bar Aba, Rabi Yossei e Rabi Ilai, distingue frutos precoces e tardios, traz o episódio de Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá repreendidos pelo guarda do pomar, discute as tâmaras caídas misturadas às boas, e fecha com as diferenças regionais entre Judeia e Galileia quanto ao funcho, ao coentro e ao vinagre.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

הַקַּלִּים שֶׁבִּדְמַאי הַשִׁיתִין וְהָרִימִין וְהָעֻזָּרְדִין וּבְנוֹת שׁוּחַ וּבְנוֹת שִׁקְמָה וְנוֹבְלוֹת הַתְּמָרָה וְהַגּוּפְנָן וְהַנִצְפֶּה. וּבִיהוּדָה הָעוֹג וְהַחוֹמֶץ וְהַכּוּסְבָּר. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כָּל הַשִּׁיתִים פְּטוּרוֹת חוּץ מִשֶּׁל דִּיֻפְרָא. וְכָל הָרִימִין פְּטוּרִין חוּץ מֵרִימֵי שִׁיקְמָנָה. וְכָל בְּנוֹת שִׁקְמָה פְּטוּרוֹת חוּץ מִשֶּׁל הַמְּסוּטָּפוֹת.

Mishná: Os produtos leves (mais brandos) quanto ao demai (produto comprado de um am ha'aretz, sobre o qual paira dúvida se os dízimos foram devidamente separados) são: os shitin (figos que crescem escondidos sob as folhas, e por isso raramente colhidos ou vendidos), o fruto do lótus (uma fruta silvestre semelhante à azeitona), a fruta da sorveira (árvore da família da roseira), os figos brancos e os de sicômoro, as tâmaras caídas (derrubadas da palmeira antes de amadurecer, ou apodrecidas), o gufnan (funcho silvestre) e a nitzpá (alcaparra). E, na Judeia especificamente, o sumagre, o vinagre e o coentro. Rabi Yehudá diz: todos os shitin são isentos, exceto os da árvore dyufra (que frutifica duas vezes ao ano, sendo por isso cuidada e não abandonada). E todos os frutos do lótus são isentos, exceto os do lótus de Shikmaná (um lugar específico onde esse fruto era valorizado e guardado). E todas as frutas da sorveira são isentas, exceto as que já racharam (pois, rachadas ainda na árvore, tornam-se doces o bastante para servir de alimento humano, e por isso são colhidas e guardadas).

A Halachá · הֲלָכָה א

01Rabi Yochanan: a razão da lista é a origem abandonada da maioria destes produtos
Yerushalmi · Demai 1:1
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן לְפִי שֶׁרוֹב הַמִּינִין הַלָּלוּ אֵין בָּאִין אֶלָּא מִן הַהֶבְקֵר לְפִיכָךְ מָנוּ אוֹתָן חֲכָמִים.

Halachá: Disse Rabi Yochanan: porque a maioria destas espécies (as enumeradas na Mishná) não provém de outra fonte senão do hefker (abandono — são frutos que, por seu baixo valor ou dificuldade de colheita, os donos costumam deixar sem guardar, tornando-os efetivamente abandonados e, portanto, isentos de dízimo por não terem dono que os deva separar), por isso os sábios os enumeraram nesta lista de isenção.

02A disputa entre Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan: isenção só no demai, ou também no certamente não dizimado
Yerushalmi · Demai 1:1
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר לֹא שָׁנוּ אֶלָּא דְּמַאי אֲבָל וַדָּאִין חַיָיבִין. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר לָא שַׁנְיָיא בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי פְּטוּרִין. וְקַשְׁיָא עַל דְּרִבִּי יוֹחָנָן. לֹא שָׁנוּ אֶלָּא דְּמַאי הָא וַדַּאי חַיָיבִין. אָמַר רִבִּי לָא לְפִי שֶׁבְּכָל מָקוֹם וּמָקוֹם לֹא חָשִׁיב אֶלָּא דְּמַאי וְהָכָא לֹא אֲתִינָן אֶלָּא וַדַּאי.

Rabi Shimon ben Lakish disse: não ensinaram a isenção destes produtos senão quanto ao demai (a dúvida sobre se o am ha'aretz dizimou), mas os produtos certamente não dizimados são obrigados (quanto a estes, se soubermos com certeza que os dízimos não foram separados, mesmo os produtos desta lista devem ser dizimados por completo). Rabi Yochanan disse: não há diferença entre demai e certo não dizimadoambos são isentos (pois a razão da isenção é a origem abandonada do produto, e essa razão vale igualmente nos dois casos). E isto é difícil para a opinião de Rabi Yochanan: não ensinaram a isenção senão quanto ao demai? Eis que o produto certamente não dizimado deveria ser obrigado! Disse Rebbi La: porque, em todo lugar deste tratado, a Mishná não considera senão o demai (o termo "demai" é usado aqui apenas como título convencional do próprio tratado, sem excluir outros casos), e aqui de fato não viemos tratar senão do produto certamente não dizimado (a redação da Mishná usa "demai" por convenção terminológica do tratado, mas seu conteúdo real abrange também o caso certo).

03A Mishná de Achziv apoia Rabi Yochanan: nenhuma diferença entre demai e certo
Yerushalmi · Demai 1:1
מַתְנִיתָא מְסַיְיעָא לְרִבִּי יוֹחָנָן מִגְּזִיב וּלְהַלָּן פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. שַׁנְיָיא הִיא מִגְּזִיב לְהַלָּן בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי. אוּף הָכָא לָא שַׁנְיָיא בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי.

Uma Mishná apoia Rabi Yochanan: "de Achziv (cidade litorânea que marca o limite norte do território obrigado) e além (para fora da Terra de Israel), o produto é isento do demai." Ora, se ali não há diferença entre demai e certo não dizimado — de Achziv para além, ambos são isentos, sem distinção — também aqui (quanto aos produtos de nossa Mishná) não há diferença entre demai e certo não dizimado (o mesmo princípio de equiparação entre os dois casos se aplica).

04Uma baraita discorda de Reish Lakish: o critério real é se a maioria guarda o produto, resolvido pelo caso de "metade e metade"
Yerushalmi · Demai 1:1
מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ. אִם הָיוּ נִשְׁמָרִין חַיָיבִין עִיקָּרָן לֹא מִן הַהֶבְקֵר הֵן בָּאִין. פָּתַר לָהּ אַחַר רוֹב מְשַׁמְּרִין. אִתָא חֲמֵי אִם רוֹב מְשַׁמְּרִין דִּבְרֵי הַכֹּל חַיָיבִין בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי. אִם אֵין רוֹב מְשַׁמְּרִין דִּבְרֵי הַכֹּל פְּטוּרִין בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי. מֶחֱצָה עַל מֶחֱצָה לֵית יָכִיל דְּתַנֵּינָן מֶחֱצָה עַל מֶחֱצָה דְמַאי. אָמַר רִבִּי זְעִירָא לֹא סוֹף דָּבָר הַקַּלִּים שֶׁבִּדְמַאי אֶלָּא אֲפִילוּ דְמַאי עַצְמוֹ.

Uma baraita discorda de Rabi Shimon ben Lakish: "se esses produtos eram guardados (vigiados pelo dono), são obrigados ao dízimo, mesmo sendo das espécies desta lista" — isto prova que sua origem presumida não é senão do hefker (e quando essa presunção é afastada por evidência concreta de que o dono os guarda, a isenção cai por completo, tanto no demai quanto no certo — contra a posição de Reish Lakish, que restringe a discussão apenas ao demai). A guemará resolve essa baraita: ela se refere ao caso de a maioria das pessoas do local guardar esse produto. Vem e vê: se a maioria guarda, é opinião de todos (tanto de Rabi Yochanan quanto de Rabi Shimon ben Lakish) que são obrigados, seja demai seja certo não dizimado. Se a maioria não guarda, é opinião de todos que são isentos, seja demai seja certo não dizimado. Mas o caso de metade guardando e metade não guardando, não se pode resolver assim, pois ensinamos em outro lugar: "metade e metade é demai" (nesse caso intermediário exato é que se manifesta a disputa real entre os dois amoraim). Disse Rabi Zeirá: não é só quanto aos produtos leves do demai que essa distinção de "metade e metade" se aplica, mas até quanto ao próprio demai comum, de qualquer outro produto.

05A cidade de maioria gentia ou judaica, e onde reside de fato a disputa entre os dois amoraim
Yerushalmi · Demai 1:1
תַּנִּי נִכְנַס לְעִיר שֶׁרוּבָּהּ גּוֹיִם סָפֵק רוֹב מְשַׁמְּרִין סָפֵק אֵין רוֹב מְשַׁמְּרִין דִּבְרֵי הַכֹּל חַיָיבִין בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי. נִכְנַס לְעִיר שֶׁרוּבָּהּ יִשְׂרָאֵל סָפֵק רוֹב מְשַׁמְּרִין סָפֵק אֵין רוֹב מְשַׁמְּרִין דִּבְרֵי הַכֹּל פְּטוּרִין בֵּין דְּמַאי בֵּין וַדַּאי. סָפֵק רוֹב גּוֹיִם סָפֵק רוֹב יִשְׂרָאֵל סָפֵק רוֹב מְשַׁמְּרִין סָפֵק אֵין רוֹב מְשַׁמְּרִין מַחְלוֹקֶת רִבִּי יוֹחָנָן וְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ.

Foi ensinado: se alguém entra numa cidade cuja maioria da população é gentia, e há dúvida se a maioria ali guarda o produto ou dúvida se a maioria não guarda, é opinião de todos que são obrigados, seja demai seja certo não dizimado. Se entra numa cidade cuja maioria é de Israel, e há dúvida se a maioria guarda ou dúvida se a maioria não guarda, é opinião de todos que são isentos, seja demai seja certo não dizimado. Mas se há dúvida se a maioria da população é gentia ou dúvida se a maioria é de Israel, e também dúvida se a maioria guarda ou dúvida se a maioria não guarda — este é exatamente o caso da disputa entre Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish (a dupla incerteza — de população e de costume de guardar — é o terreno próprio onde as duas opiniões amoraicas realmente divergem na prática).

06Rabi Shimon bar Aba identifica os shitin: os frutos que aparecem sob as folhas
Yerushalmi · Demai 1:1
אֵילּוּ הֵן הַשִּׁיתִים. רִבִּי שִׁמְעוֹן בְּרֵיהּ דְּרִבִּי אַבַּי אָמַר. אֵילּוּ שֶׁהֵן יוֹצְאוֹת מִתַּחַת הֶעָלִין.

A guemará passa agora a identificar, um a um, os produtos citados na Mishná. Quais são os shitin? Rabi Shimon, filho de Rabi Abba, disse: são aqueles figos que saem e crescem sob as folhas (escondidos da luz do sol, permanecendo por isso duros e não maduros na época da colheita, e assim não costumam ser colhidos junto com o restante, sendo efetivamente abandonados).

07Frutos precoces e tardios: antes de pôr guarda, ou depois de dobradas as esteiras — e as duas opiniões sobre a razão
Yerushalmi · Demai 1:1
הַבְּכִרוֹת וְהַמְּסוּיָיפוֹת הֲרֵי אֵילּוּ פְּטוּרוֹת. וְאֵילּוּ הֵן הַבְּכִירוֹת עַד שֶׁלֹּא הוֹשִׁיב שׁוֹמֵר. וּבְשׁוֹמֵר הַדָּבָר תָּלוּי. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בְּשֶׁאֵין בָּהּ כְּדֵי טַפֵּילַת שׁוֹמֵר. אֵילּוּ הֵן הַמְּסוּיָיפוֹת מִשֶּׁיְּקַפְּלוּ הַמִּקְצוֹעוֹת. רִבִּי לְעַיי אָמַר מִשּׁוּם רִבִּי לִיעֶזֶר הַבְּכִירוֹת הֲרֵי אֵילּוּ חַיָיבוֹת מִפְּנֵי שֶׁהֵן בְּחֶזְקַת מִשְׁתַּמְּרוֹת. רִבִּי יוֹסֵי בֵּין חַלְפוּתָא אָמַר הַשִּׁיתִין שֶׁבְּצִיפֹּרִין הֲרֵי אֵילּוּ חַיָיבוֹת מִפְּנֵי שֶׁהֵן בְּחֶזְקַת מִשְׁתַּמְּרוֹת.

Foi ensinado numa baraita: os frutos precoces (maduros antes de haver mercado para eles) e os tardios (que amadurecem depois de o dono já ter deixado o campo) são isentos (pois em ambos os casos são abandonados). E quais são os precoces? Até que o dono ponha um guarda no campo. Mas então a questão depende apenas do guarda (uma decisão individual e não um critério legal fixo)? Disse Rabi Yossei: o critério correto é quando o fruto ainda não vale a atenção de um guarda (e não simplesmente a presença ou ausência de um guarda posto). E quais são os tardios? A partir de quando dobram as esteiras (usadas para proteger e armazenar o produto no campo antes do transporte à casa — sinal de que a colheita principal já terminou). Rabi Ilai disse em nome de Rabi Eliezer: os frutos precoces são de fato obrigados (ao dízimo, contra a baraita anterior), porque se presume que são guardados (pois sempre há mercado para os primeiros frutos da estação, tornando-os valiosos o bastante para serem vigiados). Rabi Yossei ben Chalafta disse: os shitin de Tsipori (Séforis) são de fato obrigados, porque se presume que são guardados (ali, ao contrário do caso comum, havia uso específico para esses figos, tornando-os valiosos).

08O trabalhador que entra no campo já colhido, se o dono se ofende, é proibido por roubo
Yerushalmi · Demai 1:1
נִסְתַּיְיפוּ הַתְּאֵנִים וְהוּא מְשַׁמֵּר שָׂדֵהוּ מִפְּנֵי עֲנָבִים. עֲנָבִים וְהוּא מְשַׁמֵּר שָׂדֵהוּ מִפְּנֵי הַיֶּרֶק אִם נִכְנַס הוּא הַפּוֹעֵל וּבַעַל הַבַּיִת מַקְפִּיד עָלָיו אֲסוּרוֹת מִשּׁוּם גֶּזֶל.

Se terminou a colheita dos figos, e o dono guarda seu campo por causa de outra plantação, a saber, das uvas (ainda por colher); ou terminou a colheita das uvas, e o dono guarda seu campo por causa da hortaliça (ainda por colher) — se um trabalhador entra ali, nas partes já colhidas, para comer daquilo que sobrou, e o dono da casa se ofende com isso (objeta a essa entrada), esses restos são proibidos ao trabalhador por constituírem roubo (pois a permissão bíblica de o trabalhador comer vale apenas daquilo que ele está efetivamente colhendo; se o dono se opõe a que ele entre nas partes já colhidas, isso prova que o dono ainda reivindica direito de propriedade sobre todo o campo, inclusive o produto imaturo ainda em pé, o qual portanto não está abandonado nem isento de dízimo).

09Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá comem dos frutos tardios; o guarda grita, e a distinção do jardim fechado
Yerushalmi · Demai 1:1
עוּלָּא בַּר יִשְׁמָעֵאל בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן רִבִּי וְרִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי יְהוּדָה נִכְנְסוּ לוֹכַל בִּמְסוּיָיפוֹת וְצָוַוח בָּהֶן הַשּׁוֹמֵר וּמָשַׁךְ רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי יוּדָה אֶת יָדָיו. אָמַר לוֹ רִבִּי אֲכוֹל שֶׁכְּבָר נִתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מֵהֶן. רִבִּי יוֹחָנָן בְּעֵי צָוַוח וְאַתְּ אָמַר הָכֵן. אָמַר רִבִּי יוֹנָה יְאוּת הוּא מַקְשֵּׁי. וְהָא מַתְנִיתָא פְלִיגָא הַסִּיאָה וְהָאֵזוֹב וְהַקּוּרְנִית שֶׁבְּחָצֵר אִם הָיוּ נִשְׁמָרִין חַיָיבִין. הָא בְּגִינָּה אֲפִילוּ נִישְׁמָרִין פְּטוּרִין. תַּמָּן יָכוֹל הוּא לוֹמַר לוֹ הֲרֵי כָל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ לְפָנֶיךָ בְּרַם הָכָא כַּלְכָּלָה אַחַת הִיא וַאֲנִי מְשַׁמְּרָהּ לְבַעַל מְלַאכְתִּי.

Ulá bar Ishmael disse em nome de Rabi Yochanan: Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá entraram para comer dos frutos tardios (no campo), e o guarda gritou contra eles; e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá retirou as mãos (parou de comer, por respeito ao protesto do guarda). Disse-lhe Rebbi: come, pois os donos já desistiram da posse destes frutos, tornando-os efetivamente abandonados por lei, mesmo que o guarda ainda proteste por hábito. Perguntou Rabi Yochanan: mas se ele gritou, como tu dizes assim (que já foram abandonados, se o próprio guarda ainda os reivindica ativamente)? Disse Rabi Yoná: com razão ele (Rabi Yochanan) questiona. E não discorda disso uma Mishná? "A hortelã-pimenta, o hissopo e a segurelha que estão no quintal, se eram guardados, são obrigados (ao dízimo, por serem tratados como hortaliça de uso doméstico)" — eis que, no jardim aberto (fora do quintal fechado), mesmo que guardados, essas plantas são isentas (pois, sendo ervas silvestres de baixo valor, tratam-se como abandonadas ainda que alguém as vigie ocasionalmente)! Ali (no caso do jardim aberto), o guarda pode dizer-lhe: "eis que o mundo inteiro está diante de ti (há fartura dessas ervas em toda parte, toma de outro lugar)"; mas aqui (no caso dos frutos tardios de nosso episódio), é um único cesto (uma quantidade limitada e específica), e eu o guardo para o meu patrão (por isso seu protesto tem peso legal real, e a atitude de Rabi Yochanan em questionar Rebbi está correta).

10As tâmaras caídas vendidas junto com as boas: fermentadas ou não, e a distinção final dos sábios
Yerushalmi · Demai 1:1
תַּנִּי רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי יוּדָה הַנּוֹבְלוֹת הַנִּמְכָּרוֹת עִם הַתְּמָרִים הֲרֵי אֵלּוּ פְטוּרוֹת. מַה שְׁתֵּי קוּפּוֹת זוּ בְצַד זוּ אוֹ זוּ עַל גַּבֵּי זוּ וְלָא שַׁנְיָיא הִיא זוּ בְצַד זוּ הִיא זוּ עַל גַּבֵּי זוּ. אֶלָּא כִּי נָן קַיָימִין בִּמְעֹרָבוֹת בְּשֶׁהִטִּילוּ שְׂאוֹר אוֹ בְּשֶׁלֹּא הִטִּילוּ שְׂאוֹר. רִבִּי מָנָא אָמַר בְּשֶׁהִטִּילוּ שְׂאוֹר אֲנָן קַיָימִין. אִם בְּשֶׁהִטִּילוּ שְׂאוֹר בִּפְנֵי עַצְמָן יְהוּ חַיָיבוֹת. לֵית יָכִיל דְּאָמַר רִבִּי יוֹחָנָן מִפְּנֵי שֶׁרוֹב הַמִּינִין הָאֵילּוּ אֵינָן בָּאִין אֶלָּא מִן הַהֶבְקֵר לְפִיכָךְ מָנוּ אוֹתָן חֲכָמִים. רִבִּי חֲנִינָא אָמַר בְּשֶׁלֹּא הִטִּילוּ שְׂאוֹר אֲנָן קַיָימִין. אִם בְּשֶׁלֹּא הִטִּילוּ שְׂאוֹר אֲנָן קַיָימִין אֲפִילוּ בִּמְעוֹרָבוֹת יְהוֹ פְטוּרוֹת. לֵית יָכִיל דְּתַנִּי רִבִּי יִשְׁמָעֵאל בֵּי רִבִּי יוֹסֵי אָמַר מִשּׁוּם אָבִיו אֶשְׁכּוֹל שֶׁבִּיכֵּר בּוֹ גַּרְגִּר יְחִידִי כּוּלּוֹ חִיבּוּר לְמַעְשְׂרוֹת. רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן אָמַר רִבִּי זְעִירָא וְרִבִּי הִילָא חַד אָמַר כְּהָדֵין וְחַד אָמַר כְּהָדֵין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים לֹא כְדִבְרֵי זֶה וְלֹא כְדִבְרֵי זֶה אֶלָּא אֶת שֶׁהִטִּילוּ שְׂאוֹר חַיָיבוֹת וְאֶת שֶׁלֹּא הִטִּילוּ שְׂאוֹר פְּטוּרוֹת.

Foi ensinado: Rabi Yossei bei Rabi Yehudá diz: as tâmaras caídas vendidas junto com as tâmaras boas são de fato obrigadas (a correção necessária do texto, pois a versão que preserva "isentas" contradiria toda a discussão seguinte). Isso vale tanto se são duas caixas, uma ao lado da outra, quanto uma sobre a outra? — e não há diferença entre uma ao lado da outra e uma sobre a outra (pois em ambos os casos o comprador pode distinguir e escolher apenas as boas). Mas nós estamos tratando aqui de tâmaras misturadas, quando começaram a fermentar ou quando não começaram a fermentar (o caso relevante é quando estão de fato misturadas, indistinguíveis). Rabi Maná disse: nós estamos tratando de quando começaram a fermentar (pois só então têm valor comercial, sendo usadas para fazer bebida de tâmaras). Mas então, objeta a guemará, se começaram a fermentar, deveriam ser obrigadas por si mesmas (mesmo sem mistura, já que têm valor)! Não se pode dizer isso, pois disse Rabi Yochanan: porque a maioria destas espécies não provém senão do hefker, por isso os sábios as enumeraram (a razão da isenção não é o valor comercial, mas a origem presumida; por isso mesmo fermentadas, continuam isentas quando não misturadas). Rabi Chanina disse: nós estamos tratando de quando não começaram a fermentar. Mas então, objeta a guemará novamente, se estamos tratando de quando não começaram a fermentar, mesmo misturadas deveriam ser isentas (por não terem valor algum)! Não se pode dizer isso, pois foi ensinado: Rabi Ishmael bei Rabi Yossei disse em nome de seu pai: um cacho de uvas do qual um único bago amadureceu primeiro, o cacho inteiro está ligado como um só para efeito de dízimos (um único fruto de valor torna todo o conjunto obrigado; do mesmo modo, tâmaras boas misturadas com caídas não fermentadas obrigam o todo). Rabi Yossei bei Rabi Bun disse: Rabi Zeirá e Rabi Ilá — um disse assim (como Rabi Maná) e outro disse assim (como Rabi Chanina). Mas os sábios dizem: nem segundo as palavras deste, nem segundo as palavras daquele, mas sim: as que fermentaram são obrigadas, e as que não fermentaram são isentas (a posição final, adotada na prática, distingue simplesmente pelo critério da fermentação, sem depender da questão da mistura).

11O gufnan é o funcho silvestre: por que é isento na Galileia e obrigado na Judeia
Yerushalmi · Demai 1:1
וְהַגּוּפְנָן שָׁמֵירָה. מַה בֵּין בִּיהוּדָה בֵּין בַּגָּלִיל. מִן מַה דְמַתְלִין לָהּ מְתַל בְּגָלִילָא. שׁוֹמֵרָה שְׁמַר מָרָהּ מִן מְתַל לָךְ עִם תַּבְלָיָיא. הָדָא אָמְרָה בְּגָלִיל פָּטוּר וּבִיהוּדָה חַיָיב.

E o gufnan é o shameirá (nome popular do funcho silvestre). Qual a diferença entre a Judeia e a Galileia quanto a ele? A partir do que se costuma dizer, em provérbio, na Galileia: "shameirá, que seu dono a guarde (um trocadilho popular que zomba da ideia de alguém se dar ao trabalho de vigiar essa planta) — quem te compararia contigo às verdadeiras especiarias cultivadas?" Isto ensina que, na Galileia (onde cresce silvestre e ninguém a cultiva de fato), é isento, mas na Judeia (onde, sendo mais árida, precisa ser cuidada para crescer, tornando-se planta de horta) é obrigado.

12O coentro: por que é o inverso do funcho entre Judeia e Galileia
Yerushalmi · Demai 1:1
כּוּסְבְּרָה כּוּסְבָּרָתָא. מַה בֵּין בִּיהוּדָה בֵּין בַּגָּלִיל. מִן מַה דְמַתְלִין לָהּ מְתַל בְּדְּרוֹמָה. כּוּסְבְּרָה כּוּסְבָּרָתָה מִן מְתַלִיךְ עִם תַּבְלָיָיא. הָדָא אָמְרָה בְּגָלִיל חַיֶיבֶת וּבִיהוּדָה פְטוּרָה.

Kusberá é kusbaratá (o coentro silvestre, cujo nome popular deriva do coentro cultivado). Qual a diferença entre a Judeia e a Galileia quanto a ele? A partir do que se costuma dizer, em provérbio, no Sul (região da Judeia): "kusberá, kusbaratá (a silvestre se faz passar pela cultivada) — quem te compararia com as especiarias de verdade?" Isto ensina que, na Galileia (onde cresce apenas silvestre, sem cultivo, sendo por isso mais valorizada como novidade), é obrigado, mas na Judeia (onde já existe coentro cultivado de verdade, e o silvestre é desprezado por comparação), é isento.

13O vinagre da Judeia: por que era isento antigamente e obrigado agora, e a aparente contradição na posição de Rabi Yehudá
Yerushalmi · Demai 1:1
תַּנִּי אָמַר רִבִּי יוּדָה בָּרִאשׁוֹנָה הָיָה חוֹמֶץ שֶׁבִּיהוּדָה פָּטוּר מִן הַמַּעְשְׂרוֹת. שֶׁהָיוּ עוֹשִׂין יֵינָן בְּטָהֳרָה לִנְסָכִים וְלֹא הָיָה מַחְמִיץ וְהָיוּ מְבִיאִין מִן הַתֶּמֶד. וְעַכְשָׁיו שֶׁהַיַּיִן מַחְמִיץ חַיָיב. מֻחְלְפָה שִׁיטָּתֵיהּ דְּרִבִּי יוּדָה דְּתַנֵּינָן תַּמָּן הַמְּתַמֵּד וְנָתַן מַיִם בְּמִידָּה וּמָצָא כְדֵי מִידָּתוֹ פָּטוּר. וְרִבִּי יְהוּדָה מְחַיֵיב. וְכָא הוּא אָמַר הָכֵן. אָמַר רִבִּי לָא בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ עֲנָבִים מְרוּבּוֹת וְלֹא הָיוּ חַרְצָנִים חֲשׁוּבוֹת וְעַכְשָׁיו שֶׁאֵין עֲנָבִים מְרוּבּוֹת חַרְצָנִים חֲשׁוּבוֹת.

Foi ensinado: disse Rabi Yehudá: no começo (em tempos antigos), o vinagre da Judeia era isento dos dízimos, porque ali faziam seu vinho em pureza ritual, para as libações do Templo, e ele (esse vinho puro, de excelente qualidade) não azedava (não virava vinagre por si); e traziam o vinagre, em vez disso, do temed ("segunda água", vinho fraco feito da água posta sobre as cascas já espremidas, de pouco valor e por isso isento). Mas agora, que o próprio vinho de fato azeda, o vinagre é obrigado (pois hoje o vinagre vem do vinho verdadeiro, sujeito a dízimo). A guemará observa: está invertido o método de Rabi Yehudá, pois ensinamos ali (em outra Mishná): "quem faz temed e põe água em medida certa, e encontra o resultado igual à sua medida original, é isento (pois a água não absorveu sabor algum das cascas, mostrando que estas já estavam totalmente esgotadas); mas Rabi Yehudá o obriga (pois considera que a própria água misturada já conta como vinho diluído, sujeito à mesma regra do vinho, que sempre se bebe misturado com água)." E aqui ele diz assim (o oposto, tratando o temed como algo de baixo valor e isento)? Disse Rebbi La: no começo, havia uvas em abundância, e as cascas e caroços residuais, usados no temed, não eram consideradas de valor; e agora, que não há uvas em abundância, as cascas tornaram-se importantes (e por isso o temed de hoje, ao contrário do de antigamente, tem valor comercial suficiente para ser considerado vinho e obrigado ao dízimo — não há, portanto, contradição real na posição de Rabi Yehudá, apenas uma mudança nas circunstâncias econômicas entre as duas épocas).

14A pergunta de Rabi Yirmeyá sobre o lótus de Shikmaná, e a dupla objeção não resolvida
Yerushalmi · Demai 1:1
רִבִּי הוּנָא אָמַר רִבִּי יִרְמְיָה בְּעִי לֵית הָדָא פְלִיגָא עַל רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ. וְיִרְבּוּ כָּל הָרִימִין עַל רִימֵי שִׁיקָמָא וְיִהְיוּ פְטוּרִין. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי תִּיפְתָּר בְּמָקוֹם שֶׁרוֹב מְשַׁמְּרִין. רִבִּי יוֹסֵי בִּרְבִּי בְּעִי וְאֵין כָּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ לְפָנָיו וְיִרְבּוּ כָּל הָרִימִין שֶׁבָּעוֹלָם עַל רִימֵי אוֹתוֹ הַמָּקוֹם וְיִהְיוּ פְטוּרִין.

Rabi Huná disse: Rabi Yirmeyá perguntou: isto não contradiz Rabi Shimon ben Lakish (que restringe a isenção da Mishná ao demai apenas, tratando o certamente não dizimado como obrigado)? Pois, segundo a Mishná, Rabi Yehudá isenta todo o lótus, exceto o de Shikmaná — mas por que deveria bastar a dúvida sobre a origem de um fruto específico para obrigá-lo por completo? Que todo o restante do lótus no mundo prevaleça, em quantidade, sobre o lótus de Shikmaná (sendo a grande maioria dos frutos desse tipo de origem abandonada), e portanto todo o lótus, incluindo dúvidas sobre sua procedência, deveria ser isento (pela regra de seguir a maioria)! Disse Rabi Yossei: explica-se essa exceção da Mishná restrita a um lugar onde, de fato, a maioria ali guarda esse fruto — não é uma questão de proporção geral, mas de que, sendo o lótus de Shikmaná objeto de comércio único e valorizado justamente naquele lugar, não há dúvida alguma de que os frutos ali encontrados são daquele local específico e guardado. Rabi Yossei birebi perguntou ainda: mas então, não está todo o mundo diante dele (o comprador poderia, em princípio, trazer lótus de qualquer lugar)? Que todo o lótus do restante do mundo prevaleça, em quantidade, sobre o lótus daquele lugar específico, e deveria, portanto, ser isento (a pergunta fica sem resposta explícita neste ponto, encerrando a halachá).

Nota

Esta primeira halachá de Massechet Demai abre com a Mishná que enumera os produtos "leves quanto ao demai" — presumidos, em sua maioria, de origem abandonada (hefker), e por isso isentos até da suspeita comum de não terem sido dizimados: os shitin, o fruto do lótus, a fruta da sorveira, os figos brancos e de sicômoro, as tâmaras caídas, o funcho e a alcaparra, e, na Judeia, também o sumagre, o vinagre e o coentro — com Rabi Yehudá restringindo cada isenção a exceções específicas (a árvore de duas frutificações anuais, o lótus de Shikmaná, e as frutas de sorveira já rachadas).

A guemará estabelece primeiro, com Rabi Yochanan, que a razão da lista é a presunção de origem abandonada da maioria desses produtos, e explora a disputa central entre ele e Rabi Shimon ben Lakish sobre se essa isenção vale apenas para o demai duvidoso ou também para o produto certamente não dizimado — resolvida, na prática, pelo critério de saber se a maioria das pessoas do lugar guarda ou não guarda o produto, e se a cidade tem maioria judaica ou gentia, sendo a dupla incerteza o terreno exato da disputa. Seguem-se as identificações práticas de cada espécie — os shitin como figos escondidos sob as folhas, segundo Rabi Shimon bar Aba; a distinção entre frutos precoces e tardios, com as opiniões contrárias de Rabi Yossei, Rabi Ilai em nome de Rabi Eliezer, e Rabi Yossei ben Chalafta; o princípio de que o trabalhador que entra em área já colhida contra a vontade do dono comete roubo; o episódio de Rebbi e Rabi Yossei bei Rabi Yehudá repreendidos pelo guarda, com a distinção de Rabi Yoná entre o jardim aberto e o cesto específico guardado para o patrão; a longa discussão sobre as tâmaras caídas misturadas às boas, entre fermentação e mistura, fechada pela posição final dos sábios; e, por fim, as diferenças regionais entre Judeia e Galileia quanto ao funcho e ao coentro, explicadas por ditados populares, a evolução histórica do vinagre da Judeia entre a pureza do vinho do Templo e o valor crescente das cascas de uva, e a pergunta não respondida de Rabi Yossei birebi sobre o lótus de Shikmaná frente à regra da maioria.