Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Alef · Halachá 3
דְּמַאי

Quem compra para semente é isento do demai, quem semeia tevel por esquecimento está perdoado, e o longo ciclo de histórias sobre Rabi Pinchas ben Yair

Perek Alef, Halachá 3

Esta terceira halachá do Perek Alef comenta a Mishná (citada na halachá anterior) que isenta do demai quem compra produto para semente, para animal, farinha para couros, e óleo para lâmpada ou para untar utensílios. A guemará explica que essa isenção vale tanto para o que tem semente perecível quanto para o que não tem, traz a distinção entre comprar para semente e pensar em comer, discute quem semeia tevel por esquecimento e o critério do que costuma ser recolhido de volta, e então se estende num longo e vívido ciclo de histórias sobre Rabi Pinchas ben Yair — sua jumenta que recusou comer cevada não dizimada até que a confirmassem dizimada, os ratos que devolveram grãos roubados, a pérola devolvida ao dono, a fonte que se recusou a fornecer água a quem não dizimava, seu confronto com o rico Ginai, e sua recusa altiva em ceder à autoridade do próprio Rabi — intercalado com os episódios do chassid que cavava poços e perdeu a filha, e de Rabi Chanina ben Dosa e Rabi Tarfon. Fecha com as regras de vinho e óleo destinados a usos não alimentares, o kilor de avodá zará, os limites geográficos de Gezib e Tzor para a obrigação do demai, e a discussão entre Rabi Yochanan e Rabi Hoshaya sobre a chalá do am ha'aretz e o meduma.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01A isenção de quem compra para semente vale tanto para semente perecível quanto para a que não perece; e a diferença entre comprar para semente e pensar em comer
Yerushalmi · Demai 1:3
מִכֵּיוָן שֶׁלְּקָחוֹ לְזֶרַע לֹא שַׁנְיָיא הִיא דָּבָר שֶׁזַּרְעוֹ כָלָה הִיא דָּבָר שֶׁאֵין זַרְעוֹ כָלָה. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן וְתַנִּי כֵּן לְקָחָן לְזֶרַע וְחִישֵּׁב עֲלֵיהֶן לַאֲכִילָה בָּאִין מַחֲשָׁבָה. לְקָחָן לַאֲכִילָה וְחִישֵּׁב עֲלֵיהֶן לְזֶרַע לֹא הַכֹּל מִמֶּנּוּ.

Halachá: Uma vez que a pessoa o comprou para semente, não há diferença entre ser isso uma coisa cuja semente se consome no próprio ato de germinar, deixando de existir como tal, ou ser uma coisa cuja semente não se consome (mantém-se reconhecível mesmo depois de plantada — em ambos os casos a isenção da Mishná se aplica igualmente, sem distinção quanto à natureza física da semente). Disse Rabi Yochanan: e assim foi ensinado também em uma baraita: se alguém os comprou (os grãos ou frutos) para semente e depois pensou sobre eles em usá-los para comida, o pensamento tem efeito e passa a valer a obrigação de dizimar como se fosse produto comprado para comer, visto que o pensamento de uso alimentar reverte a isenção original. Mas se os comprou para comida e depois pensou sobre eles em usá-los para semente, não é tudo dele (o pensamento sozinho não basta para isentá-lo — a isenção da compra para semente exige a intenção desde o início da aquisição, não bastando mudar de ideia depois de já ter comprado para comer).

02Não se semeia tevel, mas pode-se cobri-lo com terra junto de um gentio; quem semeia tevel por esquecimento está isento, e o critério do que costuma ser recolhido de volta
Yerushalmi · Demai 1:3
תַּנִּי אֵין זוֹרְעִין טֵבֵל וְלֹא מְחַפִּין טֵבֵל אֲבָל מְחַפִּין עִם הַגּוֹי טֵבֵל. הַשֹּׁכֵחַ וְזָרַע טֵבֵל פָּטוּר שֶׁכְּבָר אָבַד. בַּדָּבָר שֶׁאֵין דַּרְכּוֹ לְהִתְלַקֵּט אֲבָל בַּדָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לְהִתְלַקֵּט קוֹנְסִין אוֹתוֹ שֶׁיְּלַקֵּט אוֹתוֹ בְּלֹא צֶמַח. אֲבָל אִם צוֹמֵחַ נַעֲשֶׂה כַדָּבָר שֶׁאֵין דַּרְכּוֹ לְהִתְלַקֵּט.

Foi ensinado: não se semeia tevel (produto do qual ainda não foram separados os dízimos — é proibido plantá-lo enquanto tevel), e não se cobre com terra sementes de tevel (o ato de cobri-las também conta como parte do processo de plantio, e por isso também é proibido); mas pode-se cobrir tevel com terra junto com um gentio (quando é o próprio gentio quem realiza o trabalho, ou faz parte dele, o judeu pode auxiliar sem que isso conte como seu próprio ato de plantio). Quem se esquece e semeia tevel está isento (não precisa desenterrar as sementes já plantadas), pois já se perdeu (o produto, uma vez semeado e brotando, deixa de existir na forma original, e não há mais como corrigi-lo separando dízimo do que já não existe como tal). Isso vale quanto a uma coisa que não costuma ser recolhida de volta (uma vez plantada, ninguém voltaria a desenterrá-la); mas quanto a uma coisa que costuma ser recolhida de volta (um tipo de semente que as pessoas de fato costumam desenterrar antes de germinar, por exemplo se plantada superficialmente), penalizam-no para que a recolha antes que brote (a lei não lhe concede a isenção automática do esquecimento, obrigando-o a desenterrar e corrigir o tevel, já que nesse caso ainda é fisicamente possível). Mas se já brotou, torna-se como a coisa que não costuma ser recolhida de volta (uma vez germinada, mesmo esse tipo de semente já não pode mais ser corrigida, e a isenção volta a valer).

03Rabi Yochanan sempre corrigia até mesmo um ovo ou um pequeno bocado, apesar da isenção da Mishná quanto a líquidos absorvidos
Yerushalmi · Demai 1:3
אָמְרוּ רִבִּי יוֹחָנָן כַּד הֲוָה אֲכַל אֲפִילוּ קוֹפָּד אֲפִילוּ בֵּיעָה הֲוָה מְתַקֵּן. אָמְרוּ לֵיהּ תַּלְמִידוֹי לֹא כֵן אִילְפָן רִבִּי עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר אֶת כָּל תְּבוּאַת זַרְעֶךָ. דּוּ חָשַׁשׁ לַמַּשְׁקִין שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן.

Disseram a respeito de Rabi Yochanan: quando comia, mesmo que fosse apenas um pequeno bocado seco, mesmo que fosse apenas um ovo, ele corrigia (separava o dízimo antes de comer, por rigor pessoal, mesmo em quantidades mínimas que a lei poderia dispensar). Disseram-lhe seus discípulos: não foi assim que Rebbi (Rabi Yehudá HaNassi) nos ensinou? "Certamente dizimarás toda a produção de tua semente" (Devarim 14:22 — e a palavra "semente" sugere que a obrigação bíblica se limita ao que efetivamente cresce da terra como grão, não a todo e qualquer alimento em quantidade ínfima). Ele (Rabi Yochanan, ao explicar seu próprio rigor) temia por causa dos líquidos que há neles (mesmo um pequeno bocado ou um ovo contêm líquidos que, uma vez absorvidos por outro alimento, poderiam tornar-se sujeitos à obrigação de dízimo de forma que passasse despercebida, e por isso preferia sempre corrigir).

04O episódio de Rabi Yirmeya e Rabi Zeirá: cada um temia que o outro tivesse comido tevel, e ambos haviam corrigido o produto
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי יִרְמְיָה שְׁלַח לְרִבִּי זְעִירָא חָדָא מְסָאנָא דִתְאֵנִים דְּלָא מְתַקְּנָא. וַהֲוָה רִבִּי יִרְמְיָה סְבַר מֵימָר מַה רִבִּי זְעִירָא מֵיכוּל דְּלָא מְתַקְּנָא. וַהֲוָה רִבִּי זְעִירָא סְבַר מֵימָר מַה אֵיפְשַׁר דְּרִבִּי יִרְמְיָה מְשַׁלְּחָה לִי מִילָּא דְּלָא מְתַקְּנָא. מַה בֵּין דֵּין לְדֵין אִיתַכְלָת טֵבֵל. לְמָחָר קָם עִימֵּיהּ אֲמַר לֵיהּ הַהִיא מְסָנָתָא דִּשְׁלַחְתְּ לִי אֶתְמֹל מְתַקְּנָא הֲוָת. אֲמַר לֵיהּ אָמְרִית מַה רִבִּי זְעִירָא מֵיכוּל מִילָּה דְּלָא מְיתַקְּנָה. אֲמַר לֵיהּ אוּף אֲנָא אָמְרִית כֵּן הֲוָה רִבִּי יִרְמְיָה מְשַׁלְּחָה לִי מִילָּה דְּלָא מְתַקְּנֵיהּ. רִבִּי אַבַּא בַּר זְמִינָא בְּשֵׁם רִבִּי זְעִירָא אָמַר אִין הֲווֹן קַדְמָּאֵי בְּנֵי מַלְאָכִים אֲנָן בְּנֵי נַשׁ. וְאִין הֲווֹן בְּנֵי נַשׁ אֲנָן חֲמֹרִין. אָמַר רִבִּי מָנָא בְּהַהִיא שַׁעֲתָא אָמְרִין אֲפִילוּ לַחֲמָרָתֵיהּ דְּרִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר לָא אִידְמִינָן.

Rabi Yirmeya enviou a Rabi Zeirá um cesto de figos que ele mesmo não havia corrigido ainda, isto é, do qual ainda não separara o dízimo antes de enviá-lo. E Rabi Yirmeya pensou consigo: será que Rabi Zeirá vai comer o produto sem estar corrigido? (Ele confiava que Rabi Zeirá separaria o dízimo antes de comer.) E Rabi Zeirá pensou consigo: como é possível que Rabi Yirmeya me envie algo que não está corrigido? (Ele presumiu, ao contrário, que Rabi Yirmeya já teria corrigido o produto antes de enviá-lo.) E assim, por causa dessa dupla suposição equivocada, quase aconteceu que entre um e outro o produto fosse comido como tevel — cada um esperando que o outro tivesse cuidado do dízimo, e nenhum de fato o fazendo antes de comer. No dia seguinte, Rabi Yirmeya se levantou diante dele (de Rabi Zeirá) e lhe disse: aquele cesto que te enviei ontem — estava corrigido? Disse-lhe Rabi Zeirá: eu pensei: será que Rabi Zeirá comeria algo que não está corrigido — e por isso eu mesmo o corrigi antes de comer, por precaução. Disse-lhe Rabi Yirmeya: eu também pensei assim — que Rabi Yirmeya (eu mesmo) não me enviaria a mim algo que não está corrigido — e por isso eu mesmo já o havia corrigido antes de enviá-lo, de modo que, felizmente, o produto foi corrigido duas vezes, por excesso de zelo mútuo, e não ficou, de fato, sem correção alguma. Rabi Aba bar Zemina, em nome de Rabi Zeirá, disse: se os antigos (as gerações anteriores) eram como filhos de anjos, nós somos filhos de homens comuns; e se eles eram filhos de homens comuns, nós somos como jumentos (em comparação com o rigor e a santidade das gerações passadas). Disse Rabi Maná: naquela hora (diante desse episódio de zelo excepcional) diziam: nem mesmo à jumenta de Rabi Pinchas ben Yair (famosa por seu próprio rigor extraordinário quanto ao demai, como os relatos a seguir demonstram) nos comparamos.

05A jumenta de Rabi Pinchas ben Yair recusou comer cevada não dizimada mesmo após três dias sem comer, até que confirmassem que era corrigida
Yerushalmi · Demai 1:3
חֲמָרָתֵיהּ דְּרִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר גְּנָבוּנָהּ לִיסְטֵיֵי בְּלֵילִיָּא עָבְדָת טְמוּרָה גַבּוֹן תְּלָתָא יוֹמִין דְּלָא טַעֲמָא כְּלוּם. בָּתָר תְּלָתָה יוֹמִין אִיתְמַלְּכוּן מַחֲזָרָתָהּ לְמָרָהּ. אָמְרִין נִישְׁלְחִינָהּ לְמָרָהּ דְּלָא לִימוֹת לְגַבָּן וְתִיסְרִי מְעָרְתָא. אַפְקוּנָהּ. אָזְלַת וְקָמַת עַל תּוּרְעַת דְּמָרָהּ שׁוּרִיַית מְנַהֲקָה אֲמַר לוֹן פּוֹתְחוּן לַהֲדָא עֲלִיבְתָא דְּאִית לָהּ תְּלָתָא יוֹמִין דְּלָא טְעִימַת כְּלוּם. פָּתְחוּן לָהּ וַעֲלַת לָהּ. אֲמַר לוֹן יְהָבוּן לָהּ כְּלוּם תֵּיכוּל. יְהָבוּן קוֹמָהּ שְׂעָרִין וְלָא בְעִית מֵיכוּל. אָמְרוּ לֵיהּ רִבִּי לָא בְעִית מֵיכוּל. אֲמַר לוֹן מְתַקְּנָן אִינּוּן. אָמְרוּ לֵיהּ אִין. אֲמַר לוֹן וַאֲרֵימִיתֻן דְּמַיָין. אָמְרוּ לֵיהּ וְלֹא כֵן אִילְפָן רִבִּי הַלּוֹקֵחַ לְזֶרַע לִבְהֵמָה קֶמַח לְעוֹרוֹת שֶׁמֶן לְנֵר שֶׁמֶן לָסוּךְ בּוֹ אֶת הַכֵּלִים פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. אֲמַר לוֹן מַה נֵיעֲבִיד לְהָדָא עֲלִיבְתָא דְּהִיא מַחְמְרָה עַל גַּרְמָהּ סַגִּין. וַאֲרִימוּן דְּמַיָין וָאָכְלָת.

A jumenta de Rabi Pinchas ben Yair — ladrões a roubaram de noite. Ela ficou escondida entre eles três dias sem provar nada. Depois de três dias, os ladrões decidiram devolvê-la a seu dono. Disseram: enviemo-la de volta a seu dono, para que não morra entre nós e o mau cheiro nos suje a caverna (o esconderijo). Tiraram-na de lá. Ela foi e parou junto ao portão de seu dono, relinchando. Disse-lhes Rabi Pinchas: abram para esta pobrezinha, que já leva três dias sem provar nada. Abriram-lhe, e ela entrou. Disse-lhes: deem a ela algo para comer. Puseram diante dela cevada, e ela não quis comer. Disseram-lhe: Rabi, ela não quer comer. Disse-lhes: a cevada está corrigida (o dízimo já foi separado)? Disseram-lhe: sim. Disse-lhes: e vocês separaram também o dinheiro equivalente ao resgate do segundo dízimo, maasser sheni? Disseram-lhe: mas não foi assim que Rabi nos ensinou: "quem compra produto para semente, para animal, farinha para couros, óleo para lâmpada, óleo para untar com ele os utensílios, está isento do demai" (e portanto a cevada dada à jumenta, sendo comprada para animal, deveria estar isenta mesmo do dízimo do demai, sem necessidade do resgate do maasser sheni)? Disse-lhes: o que faremos a esta pobrezinha, que é rigorosa consigo mesma em excesso (mesmo isenta pela lei, ela mesma se recusa a comer sem que o dízimo completo, incluindo o resgate do maasser sheni, seja plenamente separado)? E separaram o dinheiro do resgate, e ela comeu.

06Dois pobres depositaram cevada com Rabi Pinchas ben Yair, que a plantou e colheu, e devolveu tudo carregado em camelos e jumentos
Yerushalmi · Demai 1:3
תְּרֵין מִסְכֵּינִין אַפְקְדוּן תְּרֵין סְאִין דִּשְׂעָרִין גַּבֵּי רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר זַרְעוֹן וְחַצְדּוֹן. וָאַעֲלוּן בְּעָיָין מֵיסַב שְׂעָרֵיהוֹן. אֲמַר לוֹן אַייתוּן גַּמְלָיָא וַחֲמָרָיָא וּסְבוּן שְׂעָרֵיהוֹן.

Dois pobres depositaram duas seá (medida de volume) de cevada junto de Rabi Pinchas ben Yair. Ele as semeou e as colheu (cultivou o depósito, multiplicando-o ao longo do tempo). E quando os pobres vieram, quiseram receber de volta sua cevada original, a mesma pequena quantidade depositada. Disse-lhes: tragam camelos e jumentos e levem toda a sua cevada (ele lhes devolveu não apenas a quantidade original depositada, mas toda a colheita resultante, que havia crescido consideravelmente sob seus cuidados).

07Os ratos que comeram o grão de um lugar, e a explicação de Rabi Pinchas ben Yair de que o produto não estava corrigido
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר אֲזַל לְחַד אֲתַר אֲתוּן לְגַבֵּיהּ אָמְרוּ לֵיהּ עַכְבָּרָיָא אֲכַל עִיבּוּרָן. גָּזַר עֲלֵיהוֹן וְצַמְתּוּן שָׁרוּן מְצַפְצְפִין אֲמַר לוֹן יָדְעִין אַתּוּן מַה אִינּוּן אָמְרִין אָמְרוּ לֵיהּ לָא. אֲמַר לוֹן אָמְרִן דְּלָא מְתַקְּנָא. אָמְרוּ לֵיהּ עוֹרְבָן וְעָרְבוֹן וְלָא אַנְכּוּן.

Rabi Pinchas ben Yair foi a certo lugar. Vieram até ele os moradores locais e lhe disseram: os ratos comeram nossa produção. Ele decretou contra eles (contra os ratos, ordenando-lhes que parassem), e eles (os ratos) se reuniram diante dele. Os ratos começaram a guinchar. Disse-lhes Rabi Pinchas, aos moradores: sabem vocês o que eles (os ratos) estão dizendo? Disseram-lhe: não. Disse-lhes: eles dizem que a produção não está corrigida (o dízimo não foi separado, e por isso os ratos se sentem no direito de comê-la). Disseram-lhe os moradores: garantimos e nos comprometemos, mas não a corrigiremos de fato — apenas prometemos verbalmente, sem cumprir.

08A pérola engolida por um rato do rei foi devolvida por decreto de Rabi Pinchas ben Yair
Yerushalmi · Demai 1:3
מַרְגְּלִי מִן דְּמַלְכָּא סַרָקִיָּא נָפְלָת וּבָלְעָת חַד עַכְבָּר. אֲתָא לְגַבֵּי רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר אֲמַר לֵיהּ מִן אֲנָא חֲבַר. אֲמַר לֵיהּ לִשְׁמָךְ טָבָא אָתִית. גָּזַר עֲלֵיהֹן וְצַמְתּוּן. חָמָא חַד מְגַבַּע וַאֲתֵי אֲמַר גַּבֵּי הָהֵן נִיהוּ וּגְזַר עֲלוֹי וּפְלָטָהּ.

Uma pérola do rei Sarkaia caiu, e um rato a engoliu. O dono, ou emissário do rei, veio até Rabi Pinchas ben Yair e lhe disse: sou eu um confiável, um chaver? (Perguntou se seria tratado com a devida consideração, ou pediu ajuda como um igual em confiabilidade.) Disse-lhe Rabi Pinchas: por teu bom nome vieste (um trocadilho ligado ao seu nome, indicando boa recepção). Rabi Pinchas decretou contra eles (contra os ratos), e eles se reuniram. Viu um rato corcunda que vinha mancando ou destacando-se de algum modo, e disse: junto a este é que está a pérola. E decretou sobre ele, e ele a expeliu.

09A fonte que se recusou a fornecer água até que os moradores garantissem dizimar corretamente
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר אֲזַל לְחַד אֲתַר אֲתוּן לְגַבֵּיהּ אָמְרוּן לֵיהּ לֵית מַבּוּעָן מְסַפַּק לַן. אֲמַר לוֹן דִּילְמָא לָא אַתּוּן מְתַקְּנִן. אָמְרוּ לֵיהּ עוֹרְבָן וְעָרְבוֹן וְאַסְפַּק לְהוֹן.

Rabi Pinchas ben Yair foi a certo lugar. Vieram até ele e lhe disseram: nossa fonte não nos abastece o suficiente. Disse-lhes: talvez vocês não estejam corrigindo o produto, isto é, não estejam separando devidamente os dízimos. Disseram-lhe: garantimos e nos comprometemos a corrigir. E a fonte voltou a abastecê-los.

10Rabi Pinchas ben Yair evitava o rico Ginai por temor de tomar dele algo indevido, e sua resposta sobre nunca ter constrangido ninguém em Israel
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר הֲוָה אֲזִיל לְבֵית וַועַד וַהֲוָה גִּינַיי גְּבִיר. אֲמַר לֵיהּ גִּינַיי גִּינַיי מַה אַתְּ מְנַע לִי מִן בֵּית וַועֲדָה וּפְלַג קוֹמוֹי וַעֲבַר. אָמְרוּ לֵיהּ תַּלְמִידָיו יָכְלִין אֲנָן עָבְרִין. אֲמַר לוֹן מַאן דִּידַע בְּנַפְשֵׁיהּ דְּלָא אֲקִיל לְבַר נַשׁ מִן יִּשְׂרָאֵל מִן יוֹמוֹי יַעֲבוֹר וְלָא מְנֻכֶּה.

Rabi Pinchas ben Yair estava indo para a casa de reunião (bet vaad, local de estudo ou assembleia), e havia um rio que era chamado Ginai (um curso d'água que atravessava seu caminho). Disse-lhe ao rio: Ginai, Ginai, por que me impedes a passagem para a casa de reunião (um jogo de palavras entre o nome do rio e a ideia de impedir)? E as águas se dividiram diante dele, e ele atravessou. Disseram-lhe seus discípulos: seríamos capazes de atravessar também, do mesmo modo milagroso? Disse-lhes: quem sabe de si mesmo que nunca envergonhou uma pessoa de Israel em todos os seus dias, que atravesse e não será prejudicado (o milagre dependia de um mérito específico de conduta interpessoal, não meramente da santidade em geral).

11Rabi quis instituir o ano da shemitá e consultou Rabi Pinchas ben Yair, que recusou reconhecer sua autoridade, preferindo o juramento no mundo vindouro
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי בָּעֵא מִישְׁרֵי שְׁמִיטְתָא סְלַק רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר לְגַבֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ מַה עִיבּוּרָיָא עֲבִידִין. אֲמַר לֵיהּ עוּלְשִׁין יָפוֹת. מַה עִיבּוּרָיָא עֲבִידִין. אֲמַר לֵיהּ עוּלְשִׁין יָפוֹת. וִידַע רִבִּי דְּלֵית הוּא מַסְכְּמָא עִימֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ מִישְׁגָּח רִבִּי מֵיכוּל עִימִּין צִיבְחַד פְּטָל יוֹמָא דֵין. אֲמַר לוֹן אִין. מִי נְחֵית חֲמָא מוּלְוָותָא דְּרִבִּי קַיָימִין. אֲמַר כָּל אִילֵּין יְהוּדָאֵי זְנִין אֵיפְשַׁר דְּלָא חֲמֵי סְבַר אַפּוֹי מִן כְּדוֹן. אָזְלוּן וְאָמְרוּן לְרִבִּי שְׁלַח רִבִּי בְּעֵי מְפַיְיסָתֵיהּ. מָטוּן בֵּיהּ גַּבֵּי קַרְתֵּיהּ אֲמַר בְּנֵי קַרְתֵּיהּ קוֹרְבִין לִי וְנָחִתוּ בְּנֵי קַרְתָּא וְאַקְפוּן עֲלוֹי. אֲמַר לוֹן רִבִּי בְּעֵי מְפַיְיסָתֵיהּ. שַׁבְקוּנֵיהּ וַאֲזוּל לוֹן. אֲמַר בְּנֵי דִידִי קוּרְבִין לִי. נָחִתָת אֵישְׁתָא מִן שְׁמַיָּא וְאַקְפַּת עֲלוֹי. אָזְלוּן אָמְרוּן לְרִבִּי אָמַר הוֹאִיל וְלֹא זְכִנינָן נִישְׂבַּע מִינֵיהּ בְּעָלְמָא הָדֵין נִיזְכֵּי נִישְׂבַּע מִינֵיהּ בְּעָלְמָא דְּאָתֵי.

Rabi (Rabi Yehudá HaNassi) quis permitir o cultivo no ano de shemitá (propor uma leniência quanto ao ano sabático). Rabi Pinchas ben Yair subiu até ele para uma visita ou consulta. Disse-lhe Rabi Pinchas: como estão os grãos (a produção agrícola deste ano — uma pergunta indireta, testando a resposta de Rabi)? Disse-lhe Rabi: as chicórias estão boas (uma resposta evasiva, mudando de assunto para uma verdura que não é da mesma categoria de grão questionada). Rabi Pinchas insistiu: como estão os grãos? Disse-lhe: as chicórias estão boas. E Rabi percebeu que ele (Rabi Pinchas) não concordava com ele quanto à proposta de permitir a shemitá. Disse-lhe Rabi Pinchas, mudando de assunto: dignar-se-ia Rabi a comer conosco um pouco de vegetais hoje? Disse-lhes Rabi: sim. Quando desceu para ir, viu as mulas de Rabi que estavam à espera, prontas para a viagem de retorno. Disse Rabi Pinchas consigo: todos estes judeus se alimentam com fartura, tendo tantos animais e recursos — é possível que eu não veja mais o rosto dele de Rabi, depois desta recusa, a partir de agora (percebendo que sua atitude poderia causar um afastamento definitivo, mas mesmo assim não cedeu). Foram e disseram a Rabi: Rabi mandou dizer que deseja apaziguá-lo (fazer as pazes). Chegaram com ele (Rabi) até a cidade dele (de Rabi Pinchas). Rabi Pinchas disse: os moradores da minha cidade se aproximam de mim (terão uma reação de respeito). E os moradores da cidade desceram e o cercaram a ele, Rabi Pinchas, com afeto e respeito, ignorando Rabi. Disseram-lhe: Rabi deseja apaziguá-lo. Deixaram-no a Rabi Pinchas e foram embora (voltando sua atenção para Rabi, deixando Rabi Pinchas sozinho). Então Rabi Pinchas disse: os meus próprios discípulos e conterrâneos se aproximam de mim (mas percebendo que, ao invés, eles se afastaram dele para acolher Rabi, sentiu-se desonrado). Desceu um fogo do céu e o cercou a ele, Rabi Pinchas, um sinal miraculoso demonstrando seu mérito, ainda que isolado. Foram e disseram a Rabi: ao saber disso, ele (Rabi) disse: já que não teve mérito de que jurássemos por ele fazendo as pazes neste mundo, tenhamos ao menos o mérito de jurar por ele no mundo vindouro (Rabi aceitou que a reconciliação não ocorreria nesta vida, mas expressou esperança de reencontro futuro, reconhecendo implicitamente a santidade e o mérito de Rabi Pinchas ben Yair).

12O chassid que cavava poços para viajantes e cuja filha foi levada pelo rio, salva por mérito da caridade do pai
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי חַגַּיי בְּשֵׁם רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָן מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד שֵׁהָיָה חוֹפֵר בּוֹרוֹת שִׁיחִין וּמְעָרוֹת לָעוֹבְרִים וְלַשָּׁבִים. פַּעַם אַחַת הָיְתָה בִתּוֹ עוֹבֶרֶת לִינָשֵׂא וּשְׁטָפָהּ נָהָר. וַהֲווֹן כָּל עַמָּא עָלְלִין לְגַבֵּיהּ בְּעִיָין מְנַחֲמָתֵיהּ וְלָא קְבֵיל עֲלוֹי מִתְנַחֲמָה. עֲאַל רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר לְגַבֵּיהּ בְּעֵי מְנַחֲמָתֵיהּ וְלָא קְבֵיל עֲלוֹי מִתְנַחֲמָה. אֲמַר לוֹן דֵּין הוּא חָסִידְכוֹן. אָמְרוּ לֵיהּ רִבִּי כָּךְ וְכָךְ הָיָה עוֹשֶׂה כָּךְ וְכָךְ אִירְעוֹ. אָמַר אֵיפְשַׁר שֶׁהָיָה מְכַבֵּד אֶת בּוֹרְאוֹ בְּמַיִם וְהוּא מְקַפְּחוֹ בְמַיִם. מִיַּד נָפְלָה הֲבָרָה בְּעִיר בָּאָת בִּתּוֹ שֶׁל אוֹתוֹ הָאִישׁ. אִית דְּאָמְרֵי בְּסִיכְּתָא אִיתְעֲרִיָית. וְאִית דְּאָמְרֵי מַלְאַךְ יָרַד בִּדְמוּת רִבִּי פִינְחָס בֶּן יָאִיר וְהִצִּילָהּ.

Rabi Chagai, em nome de Rabi Shmuel bar Nachman: houve um caso de um certo chassid (homem piedoso) que cavava poços, cisternas e cavernas para servirem de fonte de água para os que iam e os que vinham (viajantes). Certa vez sua filha estava a caminho para se casar, e um rio a arrastou (ela se afogou ao atravessar um curso d'água). E todo o povo entrava em sua casa para consolá-lo, mas ele não aceitava ser consolado. Entrou Rabi Pinchas ben Yair para também consolá-lo, e tampouco ele aceitou ser consolado por ele. Rabi Pinchas disse-lhes (aos presentes): este é o vosso chassid (será que este homem tão piedoso não teria mérito suficiente para evitar tal desgraça)? Disseram-lhe: Rabi, ele costumava fazer assim e assim (cavar poços para viajantes), e assim e assim lhe aconteceu (mesmo assim, sofreu essa perda). Rabi Pinchas disse: é possível que ele honrasse seu Criador com água (fornecendo água aos viajantes por amor a Deus), e Ele o prejudicasse com água (seria implausível que Deus retribuísse essa boa ação justamente com uma desgraça relacionada à água)? Imediatamente correu um boato pela cidade: chegou a filha daquele homem — viva. Há quem diga que ela ficou presa numa estaca (agarrada a algo que a impediu de se afogar). E há quem diga que um anjo desceu com a aparência de Rabi Pinchas ben Yair e a salvou.

13Rabi Chanina ben Dosa e a mesa que se elevou sozinha quando a esposa mencionou o dízimo não separado; Rabi Tarfon e o cabo de enxada que se tornou puro
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי חֲנִינָא בֶּן דוֹסָא הֲוָה יְתִיב אֲכִיל בְּלֵילֵי שַׁבָּת פְּחַת פְּתוֹרָא קוֹמוֹי. אָמְרוּ לֵיהּ מַהוּ כֵן. אָמְרָה לֵיהּ תַּבְלִין שָׁאַלְתִּי מִשְׁכֵינָתִי וְלָא עִישַּׂרְתִּיו. וְהִזְכִּיר תִּינָיָין וְעָלָה הַשּׁוּלְחָן מֵאֵילָיו. רִבִּי טַרְפוֹן הֲוָה יְתִיב אֲכִיל וּנְפַל פִּיתּוּתָא מִינֵיהּ. אָמְרוּ לֵיהּ מַהוּ כֵן. אָמַר לֵיהּ קוֹרְדּוֹם שָׁאַלְתִּי וְעָשִׂיתִי עַל גַּבָּיו טְהוֹרוֹת.

Rabi Chanina ben Dosa estava sentado, comendo na noite de Shabat, quando de repente a mesa diante dele se inclinou ou baixou de nível, um sinal estranho. Perguntaram-lhe: o que é isso? Sua esposa lhe disse: temperos que pedi emprestado da minha vizinha, e não os dizimei (percebendo que havia usado, sem saber, produto não corrigido, ela confessou o descuido). E Rabi Chanina mencionou o dízimo, corrigindo-o ali mesmo, separando o segundo dízimo devido, e a mesa se ergueu por si mesma (voltando ao normal assim que o defeito foi corrigido). Rabi Tarfon estava sentado comendo, e um pedaço de pão caiu dele ao chão, um sinal semelhante. Perguntaram-lhe: o que é isso? Disse-lhes: eu havia emprestado uma enxada de alguém não confiável quanto à pureza, e fiz sobre ela trabalhos referentes a coisas puras (usei-a para preparar alimentos que precisavam permanecer em estado de pureza ritual, sem verificar antes se a própria enxada estava em condições adequadas — e esse pequeno descuido gerou o sinal do pão caído).

14Vinho e óleo destinados a usos não alimentares obrigam-se no demai, ao contrário de kitniot para uso não comestível; a explicação segundo Rabi e Rabi Elazar bei Rabi Shimon
Yerushalmi · Demai 1:3
יַיִן לְמוּרִיֵיס וְיַיִן לַאֲלוֹנְטִית קִטְנִיּוֹת לַעֲשׂוֹתָן טְחִינִין חַיָיבִין בִּדְמַאי וְאֵין צוֹרֶךְ לוֹמַר בְּוַדַּאי הֵן עַצְמָן פְּטוּרִין מִן הַדְּמַאי. מַה נָן קַיָימִין אִין כְּרִבִּי אֲפִילוּ בִדְמַאי יְהוֹ חַיָיבִין אִי[ן] כְּרִבִּי אֶלְעָזָר בֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן אֲפִילוּ בְּוַדַּאי יְהוֹ פְטוּרִין. אֶלָּא כְּרִבִּי אֲנָן אָמְרִין בְּקַלִּין שֶׁהֵיקִלוּ בִדְמַאי.

Vinho destinado para muriés (um molho ou salmoura preparado com vinho) e vinho destinado para uso como loção de banho (alontit, para fins cosméticos ou de higiene, não para beber), e leguminosas destinadas a serem transformadas em moídos (farinha ou pasta, não para uso alimentar direto como sementes)tais produtos obrigam-se no demai (mesmo sendo destinados a esses usos não convencionais de alimentação, ainda se exige a separação do dízimo, ao contrário do que se poderia supor por analogia com a Mishná que isenta compra para semente ou uso não alimentar), e não há necessidade de dizer que no caso de produto certamente não dizimado eles também se obrigam. Mas quanto ao dízimo em si — eles mesmos (muriés, alontit e o moído em si, já preparados) estão isentos do demai (uma vez já transformados no produto final, deixam de se sujeitar à obrigação do demai, distinta da obrigação sobre a matéria-prima antes da transformação). Sobre o que estamos discutindo aqui, isto é, qual é a base desta distinção? Se for segundo Rabi (Rabi Yehudá HaNassi), mesmo no demai tais produtos, uma vez transformados, deveriam se obrigar (pois Rabi tem posição mais rigorosa); se for segundo Rabi Elazar bei Rabi Shimon, mesmo no caso de produto certamente não dizimado eles deveriam estar isentos (pois sua posição é mais lenient em outra direção). Mas a verdade é que a regra segue a opinião de Rabi: nós dizemos que essas isenções se aplicam apenas às leniências que os sábios aliviaram quanto ao demai especificamente — não é uma questão de disputa tannaítica geral, mas de uma leniência específica limitada ao demai, sem contradição com a posição rigorosa de Rabi quanto ao produto certo.

15Vinho para colírio e farinha para malugma obrigam-se até no produto certo, pela razão oposta à do vinho para molho
Yerushalmi · Demai 1:3
יַיִן לְקִילוֹר קֶמַח לַעֲשׂוֹתוֹ מָלוּגְמָא חַיָיבִין בְּוַדַּאי וְאֵין צוֹרֶךְ לוֹמַר בִּדְמַאי הֵן עַצְמָן פְּטוּרִין מִן הַוַּדַּאי. הָכָא אַתְּ אֲמַר פְּטוּרִין מִן הַוַּדַּאי וְהָכָא אַתְּ אֲמַר פְּטוּרִין מִן הַדְּמַאי. כַּאן עַל גַּב גּוּפוֹ הוּא בָטֵל וְכַאן כֵּיוָן שֶׁהוּא נוֹתְנוֹ הוּא בָטֵל.

Vinho destinado para kilor (um colírio ou pomada medicinal para os olhos), farinha destinada a se tornar malugma (um emplasto ou cataplasma medicinal)tais produtos obrigam-se no dízimo mesmo em relação ao produto certamente não dizimado, e não há necessidade de dizer que no caso de demai também se obrigam. Mas, uma vez já transformados, eles mesmos estão isentos até mesmo do dízimo do produto certamente não dizimado. A guemará questiona: aqui (no caso do kilor e da malugma) tu dizes que estão isentos até do vadai, e aqui (no caso anterior, do muriés e da alontit) tu dizes que estão isentos apenas do demai — por que essa diferença de grau? Aqui (kilor e malugma, aplicados sobre a pele do corpo), uma vez sobre o corpo da pessoa, o material se anula (deixa de ser considerado alimento, perdendo por completo seu estatuto de produto agrícola sujeito a dízimo, mesmo o certo); e aqui (muriés e alontit), assim que a pessoa o aplica (no momento do uso, mas antes disso ainda é reconhecido como produto agrícola comum), ele se anula apenas parcialmente, mantendo alguma obrigação residual quanto ao vadai, embora isento quanto ao demai.

16O kilor de avodá zará é proibido por benefício por decreto bíblico específico; borra de vinho gentio seco não carrega mais a proibição de avodá zará
Yerushalmi · Demai 1:3
וְהָתַנִּי קִילוֹר שֶׁל עֲבוֹדָה זָרָה אָסוּר בַּהֲנָיָיה. שַׁנְיָיא הִיא דִּכְתִיב לֹא יִדְבַּק בְּיָדְךָ מְאוּמָה מִן הַחֶרֶם. מַה בֵּינָן לִשְׁמָרִים שֵׁל גּוֹי אִילּוּ שְׁמָרִים שֵׁל גּוֹי שֶׁמָּא אֵינָן אֲסוּרִין בַּהֲנָיָיה. הָא שְׁמָרִים שֶׁיָּבְשׁוּ אֵין בָּהֶן מִשּׁוּם הֲנָיָית עֲבוֹדָה זָרָה.

A guemará pergunta: mas não foi ensinado em outro lugar: o kilor usado como oferenda ou objeto de avodá zará (idolatria) é proibido por benefício (mesmo que já tenha sido aplicado sobre o corpo e, portanto, "anulado" como alimento, permanece proibido por sua origem idólatra — o que pareceria contradizer o princípio anterior de que a aplicação sobre o corpo anula toda obrigação)? A guemará responde: é diferente esse caso, pois está escrito: "nada do cherem se apegará à tua mão" (Devarim 13:18 — um versículo específico que estende a proibição de benefício da avodá zará mesmo além do que se aplicaria por analogia comum, criando uma categoria própria e mais abrangente, distinta da regra geral sobre dízimo). A guemará então pergunta: qual a diferença entre isso e a borra de vinho de um gentio (usado em libação idólatra)? Acaso a borra de vinho de um gentio não está proibida por benefício (sendo também objeto ligado à avodá zará)? Eis que quanto à borra de vinho de gentio que já secou, não há nela mais o problema de benefício de avodá zará (uma vez seca, a borra deixa de ser reconhecível como o vinho original usado na libação, perdendo assim sua ligação direta com a proibição — o que a distingue do kilor, que continua sendo o mesmo material aplicado).

17A partir de Gezib em diante está isento do demai — inclusive a própria Gezib, segundo o ensinado
Yerushalmi · Demai 1:3
מִן גְּזִיב וּלְהַלָּן פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. כְּזִיב עַצְמָהּ מַה הִיא. תַּנִּי גְּזִיב עַצְמָהּ פְּטוּרִין מִן הַדְּמַאי.

Retomando a Mishná citada na halachá anterior: "a partir de Gezib (uma localidade que marca a fronteira norte da terra de Israel para fins de certas leis agrícolas) em diante o produto está isento do demai" (pois além dessa fronteira já não se aplicam com o mesmo rigor as leis de dízimo obrigatório sobre a maioria dos amei ha'aretz). A guemará pergunta: a própria Gezib, qual é seu estatuto — está incluída na obrigação, como parte da terra propriamente dita, ou na isenção, como já fora dela? Foi ensinado: a própria Gezib está isenta do demai (a fronteira em si já conta como fora da área obrigada).

18O caso da jumenta que entrou em Tzor por Gezib torna-se obrigada, ainda que estivesse isenta se tivesse parado em Gezib
Yerushalmi · Demai 1:3
הַלּוֹקֵחַ מִן הַחֲמֶרֶת בְּצוֹר וּמִן הַמְגוֹרֶת בְּצִידָן חַיָיב הָא מִן הַמְגוֹרֶת בְּצוֹר וּמִן הַחֲמֶרֶת בְּצַידָן פָּטוּר. מֵחֲמוֹר יְחִידִי בְצוֹר. חֲמֶרֶת שֶׁנִּכְנְסָה לְצוֹר דֶּרֶךְ כְּזִיב. אִתָא חֲמֵי אִילּוּ עָמְדָה לָהּ בִּכְזִיב פְּטוּרָה עַכְשָׁיו שֶׁנִּכְנְסָה לְצוֹר חַיֶיבֶת.

Quem compra produto de uma carga de jumentos (chamerét — comboio ou carregamento vindo de jumentas) em Tzor, e de um celeiro de grãos (megorét) em Tzidon, obriga-se no dízimo, presumindo-se que tal produto veio originalmente da terra de Israel. Eis que por implicação, de um celeiro em Tzor e de uma carga de jumentos em Tzidon está isento (a presunção se inverte conforme o costume local de origem do produto). E também isento de um único jumento isolado, sem comboio, em Tzor (um único animal não estabelece a mesma presunção de origem israelita que um comboio inteiro estabeleceria). Um caso concreto: uma carga de jumentos que entrou em Tzor pelo caminho de Gezib (passando por essa fronteira antes de chegar a Tzor). Venha e veja: se ela tivesse parado em Gezib (permanecido lá, sem prosseguir), estaria isenta; agora que entrou em Tzor, está obrigada (o simples fato de ter passado por Gezib a caminho não lhe confere a isenção — o que importa é o destino final do produto, não o trajeto).

19Rabi Yochanan: o decreto do demai não incluiu certos casos; a disputa entre Rabi Hoshaya e Rabi Yochanan sobre chalá do am ha'aretz e o meduma
Yerushalmi · Demai 1:3
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן בְּשָׁעָה שֶׁגָּזְרוּ עַל הַדְּמַאי לֹא גָזְרוּ עַל דְּבָרִים הַלָלּוּ. אָמַר רִבִּי הוֹשַׁעְיָא אֵימַת קֳדָשִׁים עָלָיו וְאֵינוֹ נוֹתֵן לַכֹּהֵן דָּבָר שֶׁאֵינוֹ מְתוּקָּן. וְחַלַּת עַם הָאָרֶץ עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי הוֹשַׁעְיָא בְּחַלַּת עַם הָאָרֶץ הִיא מַתְנִיתָא. אֲבָל חָבֵר שֶׁלָּקַח עִיסָּה מֵעַם הָאָרֶץ וְהִפְרִישׁ חַלָּתָהּ לֹא. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוֹחָנָן הִיא הָדָא הִיא הָדָא. וְהַמְדוּמָע עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי הוֹשַׁעְיָא בְּפֵירוֹת עַם הָאָרֶץ הִיא מַתְנִיתָא. אֲבָל חָבֵר שֶׁלָּקַח פֵּירוֹת מֵעַם הָאָרֶץ וְנִדְמְעוּ לֹא. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוֹחָנָן הִיא הָדָה הִיא הָדָה. מַאן נְפַק מִבֵּינֵיהוֹן סְאָה עוֹלָה מִתּוֹךְ מֵאָה עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוֹחָנָן חַיֶיבֶת עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי הוֹשַׁעְיָא פְטוּרָה.

Disse Rabi Yochanan: no momento em que decretaram sobre o demai (instituindo a obrigação de dízimo sobre produto de origem duvidosa), não decretaram sobre estas coisas (certos casos específicos, como a chalá do am ha'aretz e o meduma, ficaram fora do decreto original — a Mishná que isenta chalá do am ha'aretz, meduma e sobras de menachot do demai reflete essa exclusão original, não uma leniência posterior). Disse Rabi Hoshaya: a razão é que o temor das coisas sagradas paira sobre ele (o cohen que recebe a chalá), e por isso a pessoa não dá ao cohen algo que não está corrigido (presume-se que quem já separou a chalá, destinada ao cohen, teve o cuidado de corrigi-la devidamente, por respeito à santidade envolvida, diferentemente de outros produtos comuns sujeitos ao demai). Quanto à afirmação sobre a chalá do am ha'aretz (que está isenta do demai), na opinião de Rabi Hoshaya, essa isenção vale apenas quando é sobre a chalá do próprio am ha'aretz que trata a Mishná citada como fonte, isto é, quando o am ha'aretz mesmo já separou e entregou a chalá; mas no caso de um chaver (pessoa confiável) que comprou massa já preparada de um am ha'aretz e ele mesmo separou dela a chalá, não se aplica a isenção — nesse caso o chaver deve tratar a chalá com o rigor usual, sem a leniência. Na opinião de Rabi Yochanan, não há essa distinção — é isto e também é aquilo (a isenção vale igualmente em ambos os casos, tanto quando o próprio am ha'aretz separou a chalá quanto quando o chaver a separou depois de comprar a massa). E quanto ao meduma (produto de teruma que se misturou com produto comum, tornando toda a mistura sujeita a certas restrições), na opinião de Rabi Hoshaya, a isenção vale apenas quando é sobre frutos do próprio am ha'aretz que trata a Mishná; mas no caso de um chaver que comprou frutos de um am ha'aretz e estes se tornaram meduma já em posse do chaver, não se aplica a isenção. Na opinião de Rabi Yochanan, novamente não há distinção — é isto e também é aquilo. Qual diferença prática resulta entre eles (entre as duas opiniões)? O caso de uma seá de teruma que sobe e se anula proporcionalmente dentro de cem (a proporção padrão de anulação de teruma misturada em produto comum): na opinião de Rabi Yochanan, a mistura resultante está obrigada a tratamento próprio de meduma, mesmo tendo passado pelas mãos do chaver; na opinião de Rabi Hoshaya, está isenta (pois, segundo ele, a isenção do meduma só valeria enquanto ainda em posse do am ha'aretz original, não depois de passar para as mãos do chaver que a comprou).

20Quem deu nome à teruma do dízimo ou ao maasser sheni: o que fez está feito, ainda segundo a opinião de Rabi Hoshaya
Yerushalmi · Demai 1:3
וְתַנִּי וְכוּלָּן שֶׁקָּרָא שֵׁם לִתְרוּמַת מַעֲשֵׂר אוֹ לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶן מַה שֶּׁעָשָׂה עָשׂוּי. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוֹחָנָן נִיחָא. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי הוֹשַׁעְיָא מְתוּקָּנִין וְאַתְּ אֲמַר הָכֵן. מִפְּנֵי אֶחָד שֶׁאֵינוֹ מְתוּקָּן שֶׁאֵין אֵימַת קֳדָשִׁים עָלָיו. תַּנִּי וְכוּלָּן שֶׁקָּרָא שֵׁם לִתְרוּמַת מַעֲשֵׂר אוֹ לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶן מַה שֶּׁעָשָׂה עָשׂוּי מִפְּנֵי אֶחָד שֶׁאֵינוֹ מְתֻקָּן.

E foi ensinado: "e em todos estes casos mencionados — chalá do am ha'aretz, meduma e sobras de menachot — quem deu nome (designou verbalmente uma porção específica como) teruma do dízimo ou maasser sheni deles (desses produtos isentos do demai), o que fez está feito (a designação tem efeito válido, mesmo tratando-se de produto que, em princípio, estaria isento dessa obrigação)." A guemará observa: na opinião de Rabi Yochanan, isso está bem (consistente com sua posição de que a isenção é ampla e uniforme). Mas na opinião de Rabi Hoshaya, que distinguiu conforme o produto já estivesse ou não corrigido quando chegou às mãos do chaver — como podes tu dizer assim, isto é, que a designação sempre tem efeito, sem qualquer distinção? A guemará responde: a razão é por causa de um caso que não está corrigido (mesmo quando o produto não estava corrigido ao chegar às mãos do chaver), pois não paira sobre ele o temor das coisas sagradas (precisamente porque não há a mesma pressão de santidade que garantiria o cuidado automático, a lei precisa afirmar explicitamente que a designação, uma vez feita, tem efeito válido — isso não contradiz a distinção de Rabi Hoshaya, apenas a complementa). Foi ensinado (repetindo a mesma baraita, com o acréscimo da razão): "e em todos estes casos, quem deu nome à teruma do dízimo ou ao maasser sheni deles, o que fez está feito" — por causa de um caso que não está corrigido (a mesma razão explicativa se aplica).

21A pergunta de Rabi Bun bar Chiya perante Rabi Zeirá: o dinheiro do resgate do maasser sheni vale mesmo para o produto certamente não dizimado
Yerushalmi · Demai 1:3
רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי זְעִירָא עַד כְדוֹן בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֶׁל דְּמַאי אֲפִילוּ בְּוַדַּאי.

Rabi Bun bar Chiya perguntou diante de Rabi Zeirá: até agora discutimos apenas o caso do dinheiro do resgate do dízimo do demai (se a designação de nome tem efeito); mas o mesmo vale mesmo para o resgate do maasser sheni de produto certamente não dizimado, isto é, será que a mesma regra da designação válida se estende também ao caso mais rigoroso do vadai, e não apenas ao demai?

22Rabi Elazar, Rabi Yirmeya, Rabi Yossei e Rabi Maná sobre a disputa acerca das sobras de menachot e da consagração com porção sacerdotal
Yerushalmi · Demai 1:3
תַּנִּי כּוּלָּן שֶׁקָּרָא שֵׁם לִתְרוּמַת מַעֲשֵׂר אוֹ לְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁלָּהֶן מַה שֶּׁעָשָׂה עָשׂוּי. רִבִּי לָעְזָר אָמַר חוּץ מִשְּׁיָרֵי מְנָחוֹת. רִבִּי יִרְמְיָה אָמַר הַשְּׁאָר בְּמַחְלוֹקֶת. רִבִּי יוֹסֵי בָּעֵא הַיידָה מַחְלוֹקֶת. מַה נָן קַיָימִין אִין כְּרִבִּי מֵאִיר הִיא מַעֲשֵׂר הִיא שְׁיָרֵי מְנָחוֹת לֹא עָשָׂה כְּלוּם. אִין כְּרִבִּי יוּדָה מַה שֶׁעָשָׂה עָשׂוּי. אָמַר רִבִּי מָנָא אָזְלִית לְקֵיסָרִין וְשָׁמְעִית רִבִּי חִזְקִיָּה יָתִיב וּמַתְנֵי הַמְקַדֵּשׁ בְּחֶלְקוֹ בְּקָדְשֵּׁי קֳדָשִׁים אוֹ בָקֳדָשִׁים קַלִּים אֵינָהּ מְקוּדֶּשֶׁת. רִבִּי לָעְזָר אָמַר דִּבְרֵי הַכֹּל. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר בְּמַחְלוֹקֶת. וְאָמְרִית לֵיהּ מֲנָן שָׁמַע רִבִּי הָדָא מִילְתָא וְאָמַר לִי מִן רִבִּי יִרְמְיָה. וְאָמְרִית יְאוּת רִבִּי יִרְמְיָה דְּהוּא שָׁמַע הָדָא דְּרִבִּי לָעְזָר דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא דְּאָמַר בְּמַחְלוֹקֶת. רִבִּי יוֹסֵי דְּלָא שְׁמִיעַ לֵיהּ צְרִיכָא לֵיהּ הוּא דּוּ אָמַר הַיידָה מַחְלוֹקֶת. אִין כְּרִבִּי מֵאִיר הִיא מַעֲשֵׂר שֵׁנִי הִיא שְׁיָרֵי מְנָחוֹת הִיא לֹא עָשָׂה כְּלוּם. אִין כְּרִבִּי יוּדָה מַה שֶׁעָשָׂה עָשׂוּי.

Foi ensinado outra vez: "todos estes casos — quem deu nome à teruma do dízimo ou ao maasser sheni deles, o que fez está feito." Rabi Elazar disse: exceto quanto às sobras de menachot (oferendas de farinha — nesse caso específico a designação não tem efeito). Rabi Yirmeya disse: o restante (o caso das sobras de menachot) está em disputa (entre tanaítas, não é consenso que a designação não valha). Rabi Yossei perguntou: qual disputa é essa a que Rabi Yirmeya se refere? Sobre o que estamos discutindo? Se for segundo Rabi Meir, tanto faz se é o caso do dízimo quanto se é o das sobras de menachot — a pessoa não fez nada (a designação não tem efeito em nenhum dos dois casos, segundo Rabi Meir). Se for segundo Rabi Yehudá, o que a pessoa fez está feito (a designação tem efeito, também em ambos os casos). Disse Rabi Maná: fui a Cesareia e ouvi Rabi Chizkiyá sentado, ensinando: "quem consagra algo com sua porção sacerdotal recebida de coisas santíssimas ou de coisas santas leves não está consagrado (a consagração feita com essas porções não tem efeito válido, por uma razão técnica específica a esse contexto)." Rabi Elazar disse: isso é opinião unânime de todos os sábios. Rabi Yochanan disse: isso está em disputa. E eu (Rabi Maná) lhe (a Rabi Chizkiyá) disse: de onde Rabi (Chizkiyá) ouviu esta afirmação? E ele me disse: de Rabi Yirmeya. E eu disse: correto (faz sentido) que Rabi Yirmeya tenha ouvido esta afirmação de Rabi Elazar, de que é opinião unânime, já que ele mesmo, Rabi Yirmeya, é quem disse que o caso das sobras de menachot está em disputa (a posição de Rabi Yirmeya sobre a disputa quanto às sobras de menachot se baseia precisamente nesta outra afirmação de Rabi Elazar sobre a consagração unânime). Rabi Yossei, que não tinha ouvido isso (a afirmação de Rabi Elazar sobre a consagração), precisava perguntar — foi por isso que ele disse: qual disputa é essa? Se for segundo Rabi Meir, tanto faz se é o caso do maasser sheni quanto se é o das sobras de menachot — a pessoa não fez nada. Se for segundo Rabi Yehudá, o que a pessoa fez está feito.

23Rabi Yehudá: Bet Hillel isentou apenas o óleo de piliyaton; outros, em nome de Rabi Natan, dizem que Bet Hillel obrigava o óleo de rosa e de virinon
Yerushalmi · Demai 1:3
תַּנִּי אָמַר רִבִּי יוּדָה לֹא פָטְרוּ בֵית הִלֵּל אֶלָּא שֶׁמֶן שֶׁל פִילְיָיטוֹן בִּלְבַד. אֲחֵרִים אוֹמְרִים בְּשֵׁם רִבִּי נָתָן מְחַיְיבִין הָיוּ בֵית הִלֵּל בְּשֶׁמֶן וֶורֶד וְויִרִינוֹן.

Foi ensinado: disse Rabi Yehudá: Bet Hillel não isentou do demai, na disputa citada ao final da Mishná desta massechet, sobre óleo aromático, senão apenas o óleo de piliyaton (um tipo específico de óleo aromático composto). Outros dizem, em nome de Rabi Natan: Bet Hillel obrigava no dízimo do demai quanto ao óleo de rosa e ao óleo de virinon (outro tipo de óleo aromático — segundo esta tradição alternativa, a leniência de Bet Hillel era ainda mais restrita do que a versão de Rabi Yehudá, aplicando-se a um número menor de óleos).

Nota

Esta terceira halachá de Massechet Demai comenta a Mishná (citada na halachá anterior) que isenta do demai a compra de produto para semente, animal, farinha para couros e óleo para lâmpada ou para untar utensílios. A guemará esclarece que essa isenção independe da natureza da semente, distingue entre a intenção original de compra e um pensamento posterior, e trata do estatuto de quem semeia tevel por esquecimento, isento porque o produto já se perdeu, exceto quando ainda é possível recolhê-lo de volta antes de germinar.

A partir daí, a guemará se estende num extenso ciclo de tradições sobre o rigor extraordinário de Rabi Pinchas ben Yair quanto ao dízimo: sua jumenta que recusou comer cevada não dizimada mesmo após três dias de jejum forçado por ladrões, os dois pobres cuja cevada depositada ele multiplicou e devolveu integralmente, os ratos que denunciaram produto não corrigido, a pérola do rei devolvida por decreto sobre os ratos, a fonte que deixou de fornecer água até que os moradores garantissem corrigir seus dízimos, o rio Ginai que se abriu para sua passagem, e seu confronto silencioso com a autoridade de Rabi sobre a proposta de permitir o cultivo no ano da shemitá — episódio em que preferiu o isolamento e um sinal miraculoso de fogo a ceder sua posição, levando o próprio Rabi a reconhecer seu mérito para o mundo vindouro. Intercalados a esse ciclo estão o caso do chassid que cavava poços para viajantes e cuja filha foi salva do rio por mérito de sua caridade, e os episódios de Rabi Chanina ben Dosa e Rabi Tarfon, cujas mesas e refeições reagiam fisicamente a produtos indevidamente não corrigidos.

A halachá fecha com um conjunto de regras técnicas: vinho e leguminosas destinados a usos não alimentares (molho, loção, farinha moída) obrigam-se no demai, ao contrário do que se poderia supor por analogia com a Mishná; vinho para colírio e farinha para emplasto, uma vez aplicados sobre o corpo, isentam-se até do produto certo; o kilor de avodá zará permanece proibido por decreto bíblico específico, distinto da borra de vinho gentio já seca; os limites geográficos de Gezib e Tzor definem a obrigação do demai conforme a origem presumida do produto; e a extensa discussão entre Rabi Yochanan e Rabi Hoshaya sobre a chalá do am ha'aretz e o meduma, complementada pelas posições de Rabi Elazar, Rabi Yirmeya, Rabi Yossei e Rabi Maná sobre a designação de nome para teruma do dízimo e maasser sheni, e a controvérsia sobre as sobras de menachot. Fecha com a posição de Rabi Yehudá sobre o alcance exato da isenção de Bet Hillel quanto ao óleo aromático.