Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Alef · Halachá 4
דְּמַאי

O demai entra em erruv e shituf, requer bênção e zimun, separa-se nu entre os sóis, e pode-se antecipar o segundo dízimo ao primeiro

Perek Alef, Halachá 4

Esta quarta halachá do Perek Alef abre com uma nova Mishná, que estabelece as branduras do demai quanto à vida comunitária: entra em erruv e shituf, exige bênção antes de comer e convite (zimun) para a bênção após a refeição, e separa-se nu entre os sóis — mas quem antecipa o segundo dízimo ao primeiro não perdeu nada. A guemará explica por que a separação se faz nua (por não requerer bênção), esclarece a expressão "entre os sóis" como o horário de dúvida quanto à noite, traz o costume de Rabi Chalafta ben Shaul de resgatar o demai no banho por não requerer bênção — ao contrário do produto certo — e a pergunta de Rabi Maná a Rabi Yudan sobre a fórmula exata da bênção. Discute então a permissão de antecipar o segundo dízimo ao primeiro, com a disputa entre Rabi Yochanan e Rabi Yehoshua ben Levi, o caso de Rabi Yossei ben Shaul e seu arrendatário sobre fixar o segundo dízimo no lugar do primeiro, a posição de Ula bar Yishmael em nome de Rabi Yochanan sobre isentar todo o tevel de alguém com uma única seá, a objeção de Rav Sheshet a partir de uma baraita sobre duas cestas de tevel, e fecha reexaminando a diferença entre o óleo que o tecelão unta nos dedos e o que o penteador de lã aplica na lã.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַדְּמַאי מְעָרְבִין בּוֹ וּמִשְתַּתְּפִין בּוֹ מְבָרְכִין עָלָיו וּמְזַמְּנִין עָלָיו וּמַפְרִישִׁין אוֹתוֹ עָרוּם בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת. וְאִם הִקְדִּים מַעֲשֵׂר שֵׁנִי לָרִאשׁוֹן אֵין בְּכָךְ כְּלוּם. שֶׁמֶן שֶהַגִּירְדִּי סָךְ בְּאֶצְבְּעוֹתָיו חַיָיב בִּדְמַאי. וְשֶׁהַסּוֹרֵק נוֹתֵן בַּצֶּמֶר פָּטוּר מִן הַדְּמַאי.

Mishná: Com o demai, faz-se erruv (a mistura simbólica de alimentos que permite carregar objetos ou transitar num pátio compartilhado durante o Shabat), e faz-se shituf (a associação semelhante para permitir o trânsito num beco); abençoa-se sobre ele antes de comê-lo, e convida-se outros para a bênção conjunta depois de comer com ele (zimun); e separa-se o dízimo do demai nu, entre os sóis (no crepúsculo, no horário de dúvida entre o dia e a noite, mesmo sem estar vestido adequadamente, já que essa separação não requer bênção). E se alguém antecipou o segundo dízimo (maasser sheni) ao primeiro (maasser rishon, separando-os fora da ordem usual), não há nisso problema algum. O óleo que o tecelão unta em seus dedos (para facilitar seu trabalho) obriga-se no demai; mas o óleo que o penteador de lã aplica na lã está isento do demai.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Separa-se o demai nu porque essa separação não requer bênção
Yerushalmi · Demai 1:4
מַפְרִישִׁין אוֹתוֹ עָרוּם שֶׁאֵין טָעוּן בְּרָכָה.

Halachá: "Separa-se o dízimo do demai nu" (mesmo sem as vestes apropriadas), porque esse ato não requer bênção (diferentemente de outras separações de dízimo, que exigem uma bênção prévia e, portanto, exigiriam estar vestido com dignidade — a separação do demai, por ser apenas uma medida preventiva contra a dúvida, dispensa a bênção e por isso também dispensa a exigência de estar vestido).

02"Entre os sóis" é o horário de dúvida se já escureceu ou não
Yerushalmi · Demai 1:4
מִבֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת הָדָא דְתַנֵּינָן סָפֵק חֲשֵׁיכָה סָפֵק לֹא חֲשֵׁיכָה.

Quanto à expressão "entre os sóis" (bein hashmashot, mencionada na Mishná) — isto é o que ensinamos em outro lugar sobre esse horário: é um momento de dúvida se já escureceu, ou dúvida se ainda não escureceu (o crepúsculo é, por definição, um período de incerteza quanto à chegada da noite — e é justamente por essa incerteza que se permite separar o dízimo do demai nesse horário, já que, tratando-se de mera dúvida sobre produto já duvidoso, o rigor habitual não se aplica).

03Rabi Chalafta ben Shaul: resgata-se o demai no banho por não requerer bênção; o certo requer bênção; a pergunta de Rabi Maná a Rabi Yudan sobre a fórmula exata
Yerushalmi · Demai 1:4
תַּנָּא רִבִּי חֲלַפְתָּא בֶּן שָׁאוּל מְחַלְלִין דְּמַאי בְּמֶרְחַץ שֶׁאֵינוֹ טָעוּן בְּרָכָה. הָא וַדַּאי טָעוּן בְּרָכָה. רִבִּי מָנָא בְּעֵי קוֹמֵי רִבִּי יוּדָן כֵּיצַד הוּא מְבָרֵךְ אִם הָיוּ פֵירוֹת עַל פִּדְיוֹן מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אִם הָיוּ מָעוֹת עַל חִילּוּל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי.

Ensinou Rabi Chalafta ben Shaul: resgata-se o segundo dízimo do demai no banho (mesmo estando nu ou em local impróprio para bênção), porque esse resgate não requer bênção. Eis que o resgate do segundo dízimo de produto certamente não dizimado (vadai) requer bênção (e, portanto, não pode ser feito no banho, sem as vestes apropriadas). Rabi Maná perguntou diante de Rabi Yudan: como a pessoa abençoa ao resgatar o segundo dízimo do produto certo? Se eram frutos o que se estava resgatando, abençoa-se sobre o resgate do maasser sheni; se eram moedas o que se estava usando para resgatar, sobre a redenção do maasser sheni (a fórmula da bênção varia conforme o objeto direto da ação — se é o próprio produto que está sendo resgatado, ou a moeda que está sendo consagrada como substituta).

04Antecipar o segundo dízimo ao primeiro não causa problema apenas depois de já ter passado; a disputa entre Rabi Yochanan e Rabi Yehoshua ben Levi sobre fazê-lo de propósito
Yerushalmi · Demai 1:4
אִם הִקְדִּים מִשֵּׁנִי לָרִאשׁוֹן אֵין בְּכָךְ כְּלוּם בְּשֶׁעָבַר הָא בַּתְּחִילָּה לֹא. רִבִּי בָּא בְּרֵיהּ דְּרִבִּי חִיָיא בַּר וָוא רִבִּי חִיָיא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן מוּתָּר לְהַקְדִּים שֵׁנִי לָרִאשׁוֹן בִּדְמַאי. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא בַּר אִידִי בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי לֹא יַעֲשֶׂה וְאִם עָשָׂה מַה שֶׁעָשָׂה עָשׂוּי.

"Se alguém antecipou a separação do segundo dízimo ao primeiro, não há nisso problema algum" (conforme a Mishná)isso se entende quando o fato já passou (depois de já ter sido feito assim, por engano ou de outra forma); mas fazê-lo de propósito, desde o início, não se permite, segundo esta primeira leitura. Rabi Ba, filho de Rabi Chiya bar Vava, e também Rabi Chiya, em nome de Rabi Yochanan: é permitido antecipar o segundo dízimo ao primeiro no demai, mesmo de propósito, desde o início. Rabi Yaakov bar Acha bar Idi, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: a pessoa não deve fazer assim de propósito, mas se fez, o que fez está feito (vale retroativamente, ainda que não devesse ter sido feito assim desde o início — esta é a posição intermediária, entre a permissão plena de Rabi Yochanan e uma proibição absoluta).

05É permitido fixar o segundo dízimo no lugar do primeiro — o caso de Rabi Yossei ben Shaul e seu arrendatário
Yerushalmi · Demai 1:4
מַהוּ לִיקְבֹעַ שֵׁנִי בְּמָקוֹם רִאשׁוֹן. רִבִּי יוֹסֵי בֶּן שָׁאוּל אַיְיתֵי לֵיהּ אָרִיסֵיהּ פֵּירֵי. אָמַר לֵיהּ צֵא וּקְבַע שֵׁנִי. חָזַר וְאָמַר לֵיהּ צֵא וּקְבַע רִאשׁוֹן וְחָשׁ לוֹמַר שֶׁמָּא קָבַע שֵׁנִי בְּמָקוֹם רִאשׁוֹן. הָדָא אָמְרָה שֶׁמּוּתָּר לִיקְבֹעַ שֵׁנִי בְּמָקוֹם רִאשׁוֹן.

A guemará pergunta: qual é a lei quanto a fixar a designação do segundo dízimo no lugar do primeiro (isto é, declarar como maasser sheni justamente a porção que, pela ordem natural da colheita, corresponderia ao maasser rishon)? Rabi Yossei ben Shaul — seu arrendatário lhe trouxe frutos. Disse-lhe: sai e fixa o segundo dízimo, separando-o primeiro. Depois voltou e disse-lhe: sai e fixa o primeiro dízimo, separando-o também, e temeu dizer que talvez tivesse havido problema, pois já tinha fixado o segundo no lugar do primeiro (preocupou-se que a ordem invertida pudesse ter causado algum defeito na designação). Isto nos ensina que é permitido fixar o segundo dízimo no lugar do primeiro (pois, apesar da preocupação momentânea de Rabi Yossei ben Shaul, ele não desfez o que já havia sido feito, mostrando que a designação permanece válida mesmo fora da ordem costumeira).

06Ula bar Yishmael em nome de Rabi Yochanan: pode-se isentar todo o tevel de alguém com uma única seá; a objeção de Rav Sheshet a partir de uma baraita sobre duas cestas
Yerushalmi · Demai 1:4
עוּלָּא בַּר יִשְׁמָעֵאל בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן פּוֹטֵר הוּא אָדָם אֶת טִבְלוֹ בִּסְאָה אַחַת שֶׁל טֵבֵל. כֵּיצַד הוּא עוֹשֶׂה מֵבִיא סְאָה אַחַת שֶׁל טֵבֵל וְעוֹשֶׂה אוֹתָהּ שֵׁנִי וּפוֹדֶה אוֹתָהּ וְחוֹזֵר וְעוֹשֶׂה אוֹתָהּ תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר לְמָקוֹם אַחֵר. נְחַת עוּלָּא לְתַמָּן וְאָמְרָהּ בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן וְחָבְרוּן עֲלוֹי. הָתִיב רַב שֵׁשֶׁת וְהָא מַתְנִיתָא פְלִיגָא הָיוּ לְפָנָיו שְׁתֵּי כַּלְכָּלוֹת שֶׁל טֵבֵל. וְתַנִּי עֲלָהּ נוֹטֵל מִן הַשְׁנִיָיה שְׁנֵי תְּאֵינִים וּשְׁנֵי עִישּׂוּרִין וְעִישּׂוּרוֹ שֶׁל עִישּׂוּר. וְיִטּוֹל שְׁתֵּי תְּאֵנִים וְיַעֲשֶׂה אוֹתָן שֵׁנִי וְיִפְדֶּם וְיַחְזוֹר וְיַעֲשֵׂם תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר לְמָקוֹם אַחֵר. אָמַר רִבִּי מָנָא וְאֵין שֵׁנִי שֶׁבְּרִאשׁוֹנָה טָבוּל לְרִאשׁוֹן שֶׁבִּשְׁנִיָיה. אָמַר רִבִּי חֲנַנְיָה תַּמָּן כְּדֵי שֶׁהוּא טוֹבֵל לָרִאשׁוֹן וְלַשֵּׁנִי. בְּרַם הָכָא שֵׁנִי שֶׁנִּיתְקַן מַחְמַת רִאשׁוֹן אַתְּ חוֹזֵר וְעוֹשֶׂה אוֹתוֹ רִאשׁוֹן.

Ula bar Yishmael, em nome de Rabi Yochanan: uma pessoa pode isentar todo o seu tevel (a totalidade de sua produção ainda não dizimada) com uma única seá de tevel. Como se faz isso? Traz uma seá de tevel, e a designa como segundo dízimo, e a resgata, e volta e a designa também como teruma do dízimo para outro lugar (usando essa mesma seá, sucessivamente, para cobrir simbolicamente as duas obrigações de dízimo devidas sobre o restante de toda a sua produção, em vez de separar fisicamente uma porção de cada monte). Certa vez Ula desceu para lá (para a Babilônia) e disse este ensinamento em nome de Rabi Yochanan, e os sábios de lá se juntaram a ele (concordaram, aceitando o ensinamento). Objetou Rav Sheshet: mas eis que uma baraita discorda disso: "havia diante dele duas cestas de tevel." E foi ensinado a respeito dessa baraita: "toma da segunda cesta dois figos (como dízimo), e dois décimos (isurin), e o dízimo do dízimo (referente à teruma do dízimo devida sobre o próprio maasser). E que tome ainda dois figos a mais e os designe como segundo dízimo, e os resgate, e volte e os designe como teruma do dízimo para outro lugar" (a baraita exige tomar os figos de cada cesta separadamente, sugerindo que não basta uma única porção para cobrir ambas as cestas, ao contrário do que Rabi Yochanan teria dito). Disse Rabi Maná: mas a comparação não procede, pois neste caso das duas cestas, não é que o segundo dízimo separado da primeira cesta esteja imerso (aplicando efeito) sobre o primeiro dízimo da segunda cesta — são obrigações de cestas distintas, que não se cobrem mutuamente. Disse Rabi Chananya: ali (no caso da baraita das duas cestas), o objetivo é que a mesma porção sirva tanto para o primeiro dízimo quanto para o segundo — por isso são necessárias porções distintas de cada cesta. Mas aqui (no caso de Rabi Yochanan, de uma pessoa isentando todo o seu próprio tevel com uma seá), o segundo dízimo que foi corrigido por causa do primeiro (a mesma seá, depois de servir para o segundo dízimo e ser resgatada,) tu voltas e a designas como primeiro dízimo — o mesmo objeto físico serve, em etapas sucessivas, para as duas designações, uma após a outra, o que é diferente de exigir que sirva simultaneamente para ambas, como no caso da baraita.

07A distinção entre o óleo do tecelão nos dedos e o óleo do penteador na lã: um se anula sobre o próprio corpo, o outro sobre a lã
Yerushalmi · Demai 1:4
שֶׁמֶן שֶהַגִּירְדִּי סָךְ בְּאֶצְבְּעוֹתֵיו חַיָיב בִּדְמַאי. מָה שֶׁהַסּוֹרֵק נוֹתֵן בַּצֶּמֶר פָּטוּר מִן הַדְּמַאי. מַה בֵּין זֶה לָזֶה. זֶה עַל גַּב גּוּפוֹ בָטֵל. וְזֶה עַל גַּב צֶמֶר הוּא בָטֵל.

"O óleo que o tecelão unta em seus dedos obriga-se no demai; mas o óleo que o penteador de lã aplica na lã está isento do demai" (conforme a Mishná). Qual a diferença entre um caso e outro? Este (o óleo do tecelão) se anula sobre o próprio corpo dele (o óleo é absorvido pela pele dos dedos, mas o tecelão continua sendo uma pessoa, sujeita à obrigação de dízimo sobre o que usa para si, de modo que o óleo permanece, por assim dizer, ligado a um consumidor obrigado); e este (o óleo do penteador) se anula sobre a lã (o óleo é absorvido pela própria lã, um material que não está sujeito à obrigação de dízimo, e por isso, uma vez incorporado a ela, o óleo perde totalmente seu estatuto de produto agrícola alimentar, diferentemente do óleo untado sobre a pele de uma pessoa).

Nota

Esta quarta halachá de Massechet Demai abre com uma nova Mishná sobre as branduras do demai na vida comunitária e ritual: entra em erruv e shituf, requer bênção e zimun, e separa-se nu no crepúsculo — mas antecipar o segundo dízimo ao primeiro não causa problema. A guemará explica que a separação do demai dispensa bênção e, por isso, dispensa também a exigência de vestes adequadas, e que "entre os sóis" designa precisamente o horário de dúvida quanto à noite. Traz o costume de Rabi Chalafta ben Shaul de resgatar o demai no banho — dispensado de bênção, ao contrário do resgate de produto certo — e a pergunta de Rabi Maná a Rabi Yudan sobre a fórmula exata dessa bênção conforme se resgatam frutos ou moedas.

Discute então a antecipação do segundo dízimo ao primeiro: a leitura inicial permite apenas retroativamente, mas Rabi Yochanan a permite mesmo de propósito, enquanto Rabi Yehoshua ben Levi mantém a posição intermediária de que não se deve fazer assim, ainda que o feito valha. O caso de Rabi Yossei ben Shaul e seu arrendatário demonstra que também é permitido fixar o segundo dízimo no lugar do primeiro. A posição de Ula bar Yishmael em nome de Rabi Yochanan, de que se pode isentar todo o tevel de alguém com uma única seá usada sucessivamente para as duas designações, enfrenta a objeção de Rav Sheshet a partir de uma baraita sobre duas cestas de tevel — resolvida pelas explicações de Rabi Maná e Rabi Chananya, que distinguem entre uma porção servindo simultaneamente para duas cestas distintas e a mesma seá servindo sucessivamente para as duas designações de uma só pessoa. Fecha reafirmando a distinção final da Mishná entre o óleo do tecelão, que se anula sobre o próprio corpo da pessoa obrigada, e o óleo do penteador, que se anula sobre a lã, um material isento.