Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Guimel · Halachá 1
דְּמַאי

Alimenta-se pobres e hóspedes com demai; a disputa entre Bet Shamai e os sábios sobre os coletores de caridade

Perek Guimel, Halachá 1 — abertura do terceiro perek de Massechet Demai no Talmud Yerushalmi

Esta halachá abre o Perek Guimel com uma nova Mishná, deslocando o eixo temático para a assistência aos pobres: alimenta-se os pobres e o hóspede (aksanya) com demai, e Rabban Gamliel costumava alimentar seus trabalhadores com demai. Quanto aos coletores de caridade, Bet Shamai sustenta que se deve dar o produto corrigido a quem não corrige e o não corrigido a quem corrige, de modo que todos acabem comendo produto em ordem; os sábios dizem que se coleta sem inquirir e se distribui sem inquirir, e quem quiser corrigir que corrija. A guemará explica a que categoria de pobres a Mishná se refere, traz o episódio de Rabi Yehoshua com Rabban Yochanan ben Zakai em Beror Chayil, a posição de Rabi Yossei sobre os pobres am ha'aretz, a exigência de avisar o recipiente, a proibição de usar dinheiro de shevi'it ou maasser sheni para pagar dívidas, o caso do médico chaver que alimenta um doente am ha'aretz, o argumento contra Bet Shamai, e fecha com as regras práticas dos coletores de caridade em Yom Tov e no ano sabático, e o procedimento dos cohanim com a challá suspeita de tevel.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי וְאֶת הָאַכְסַנְיָא דְּמַאי. רַבָּן גַּמְלִיאֵל הָיָה מַאֲכִיל אֶת פּוֹעֲלִין דְּמַאי. גַּבָּאֵי צְדָקָה בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים נוֹתְנִין אֶת הַמְעוּשָּׂר לְשֶׁאֵינוֹ מְעוּשָּׂר וְאֶת שֶׁאֵינוֹ מְעוּשָּׂר לִמְעוּשָּׂר נִמְצְאוּ כָּל אָדָם אוֹכְלִין מְתוּקָּן. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים גּוֹבִין סְתָם וּמְחַלְּקִין סְתָם וְהָרוֹצֶה לְתַקֵּן יְתַקֵּן.

Mishná: Alimenta-se os pobres com demai, e alimenta-se o hóspede (aksanya) com demai. Rabban Gamliel costumava alimentar os seus trabalhadores com demai. Quanto aos coletores de caridade (gabbaei tzedaká): Bet Shamai diz: dá-se o produto já dizimado a quem não costuma dizimar, e o que ainda não foi dizimado a quem costuma dizimar, de modo que se constata que toda pessoa come produto corrigido (metukan). Os sábios dizem: coleta-se o produto sem fazer distinção, e distribui-se sem fazer distinção, e quem quiser corrigir o que recebeu que corrija.

A Halachá · הֲלָכָה א

01Rabi Yona: a Mishná fala dos pobres chaverim e do hóspede, segundo Rabi Yehoshua — o episódio em Beror Chayil
Yerushalmi · Demai 3:1
אָמַר רִבִּי יוֹנָה מַתְנִיתִין בַּעֲנִיֵּי חֲבֵירִים וּבְאַכְסַנְיָא כְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ. תַּנִּי מַעֲשֶׂה בְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ שֶׁהָלַךְ אַחַר רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי לִבְרוֹר חַיִל וְהָיוּ אוֹתָן בְּנֵי הָעֲיָירוֹת מְבִיאִין לָהֶן פֵּירוֹת. אָמַר לָהֶן רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ אִם לָנוּ כָּאן חַיָיבִין אָנוּ לְעַשֵּׂר. וְאִם לָאו אֵין אָנוּ חַיָיבִין לְעַשֵּׂר. רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר בַּעֲנִיֵּי עַם הָאָרֶץ הִיא מַתְנִיתָא. אִם אָמַר אַתְּ בַּעֲנִיֵּי חֲבֵירִים נִמְצֵאת נוֹעֵל דֶּלֶת בִּפְנֵי עַם הָאָרֶץ. מַה מְקַיֵים רִבִּי יוֹסֵי לְאַכְסַנְיָיא כְּהָדָא דְתַנִּי הַגָּרִים עִמָּכֶם לְרַבּוֹת אֶת הָאַכְסַנְיָיא. רִבִּי לְעָזָר אוֹמֵר זוּ אַכְסַנְיָא שֶל גּוֹי.

Halachá: Disse Rabi Yona: nossa Mishná fala dos pobres chaverim (associados, cuidadosos com pureza e dízimos) e do hóspede, segundo Rabi Yehoshua. Foi ensinado: houve um caso com Rabi Yehoshua, que foi atrás de Rabban Yochanan ben Zakai a Beror Chayil, e os habitantes daquelas vilas lhes traziam frutas. Disse-lhes Rabi Yehoshua: se eles pernoitarem conosco aqui, somos obrigados a dizimar; e se não, não somos obrigados a dizimar (a obrigação de separar teruma e dízimo só recai com o armazenamento definitivo, e pernoitar cria esse vínculo). Rabi Yossei diz: a Mishná fala dos pobres am ha'aretz (pessoas comuns, não cuidadosas). Se disseres que fala dos pobres chaverim, resulta que se tranca a porta diante do am ha'aretz (pois, sendo caro alimentá-lo com produto corrigido, ninguém lhe dará nada). Como sustenta Rabi Yossei a menção ao hóspede (aksanya)? Conforme foi ensinado: "os que habitam convosco" (Levítico 25:35), para incluir o hóspede. Rabi Elazar diz: este é o hóspede gentio.

02A exigência de avisar o recipiente — segundo Rabi Yona e segundo Rabi Yossei
Yerushalmi · Demai 3:1
תַּנִּי צָרִיךְ לְהוֹדִיעַ. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוֹנָה דּוּ אָמַר בַּעֲנִיֵּי חֲבֵירִים הִיא מַתְנִיתָא נִיחָא. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוֹסֵי דּוּ אָמַר בַּעֲנִיֵּי עַם הָאָרֶץ הִיא מַתְנִיתָא אֲפִילוּ מוֹדִיעוֹ מַהוּ מוֹעִיל. בִּפְנֵי אַחֵר שֶׁאֵינוֹ מְתַקֵּן.

Foi ensinado: é preciso avisar (o recipiente de que o produto é demai, para que ele mesmo o corrija). Segundo a opinião de Rabi Yona, que diz que a Mishná fala dos pobres chaverim, isto está bem (pois o chaver, avisado, corrigirá o produto antes de comê-lo). Segundo a opinião de Rabi Yossei, que diz que a Mishná fala dos pobres am ha'aretz, ainda que o avise, de que isto adianta (visto que o am ha'aretz não se importa em corrigir)? Adianta diante de outra pessoa que não corrige (o aviso serve para que, perante terceiros, não se alegue que o doador enganou o recipiente ou o fez tropeçar sem seu conhecimento — ainda que a maioria dos amei ha'aretz não corrija de fato).

03Rabi Mana: quem dá em casa não pode dar dinheiro de shevi'it ou maasser sheni, pois seria como pagar dívida
Yerushalmi · Demai 3:1
אָמַר רִבִּי מָנָא הָדָא אָמְרָה אִילֵּין דִּיהָבִין בְּבֵיתִין אָסוּר לִיתֵּן מִדְּמֵי שְׁבִיעִית שֶׁאֵינוֹ אֶלָּא כְּפוֹרֵעַ חוֹב מִדְּמֵי שְׁבִיעִית. כְּהָדָא דְתַנִּי אֶחָד שְׁבִיעִית וְאֶחָד מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אֵין נִפְרָעִין מֵהֶן מִלְוֶה וְחוֹב. וְאֵין עוֹשִׂין מֵהֶן שׁוֹשְׁבִינוּת. וְאֵין מְשַׁלְּמִין מֵהֶן תַּשְׁלוּמִין. וְאֵין פּוֹסְקִין מֵהֶן צְדָקָה לָעֲנִיִים בְּבֵית הַכְּנֶסֶת. אֲבָל מְשַׁלְּמִין לָהֶן דָּבָר שֶׁל גְּמִילוּת חֶסֶד. וְצָרִיךְ לְהוֹדִיעַ.

Disse Rabi Mana: isto ensina que aqueles que dão caridade em suas casas (a pobres que ali comparecem, de modo recorrente) é proibido dar a eles com dinheiro de shevi'it (produto do ano sabático ou seu valor em dinheiro), pois isso não é senão como pagar uma dívida com dinheiro de shevi'it (já que esse pobre é considerado, por assim dizer, um credor habitual daquela casa). Conforme foi ensinado: tanto o dinheiro de shevi'it quanto o de maasser sheni não se paga com eles empréstimo nem dívida; e não se faz com eles shoshvinut (o presente recíproco de núpcias); e não se paga com eles pagamentos devidos; e não se separa com eles caridade para os pobres na sinagoga (por meio de compromisso público). Mas paga-se com eles algo que seja de pura benevolência (gemilut chassadim) (um dom voluntário, sem obrigação prévia); e é preciso avisar (o recipiente de que se trata de dinheiro de shevi'it ou maasser sheni).

04Reconciliação: por que ali o trabalhador separa e aqui o patrão separa — Rabi Yona distingue porções contadas de comer do alguidar
Yerushalmi · Demai 3:1
תַּמָּן תַּנֵּינָן פּוֹעֵל שֶׁאֵינוּ מַאֲמִין לְבַעַל הַבַּיִת. תַּמָּן אַתְּ אָמַר הַפּוֹעֵל מַפְרִישׁ. וְכָה אַתְּ אָמַר בַּעַל הַבַּיִת מַפְרִישׁ. אָמַר רִבִּי יוֹנָה תַּמָּן בְּמַאֲכִילוֹ מִן הַמְּנוּיִין בְּרַם הָכָא בְּמַאֲכִילוֹ מִן הָאָבוּס.

Ali (em outra Mishná, Demai 7:3) ensinamos: o trabalhador que não confia no patrão separa ele mesmo o dízimo daquilo que come. Ali dizes que é o trabalhador quem separa, e aqui (nesta Mishná, sobre Rabban Gamliel) dizes que é o patrão quem separa (uma aparente contradição quanto a quem tem a responsabilidade de corrigir o demai). Disse Rabi Yona: ali trata-se de quando o patrão o alimenta com porções contadas (entregues individualmente, de modo que o trabalhador pode calcular e separar o dízimo do que recebeu); mas aqui trata-se de quando o patrão o alimenta servindo do alguidar (evus) (uma tigela comum da qual cada trabalhador tira à vontade, tornando impossível ao trabalhador calcular sozinho o dízimo, de modo que cabe ao patrão separá-lo antecipadamente).

05Rabi Yochanan: o médico chaver que alimenta um doente am ha'aretz — na mão, mas não na boca; demai, vadai, ben Noach e o membro de animal vivo
Yerushalmi · Demai 3:1
רִבִּי זְרִיקָן שִׁמְעוֹן בַּר וָוא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן רוֹפֵא חָבֵר שֶׁהָיָה מַאֲכִיל לְחוֹלֶה עַם הָאָרֶץ נוֹתֵן לְתוֹךְ יָדוֹ וְאֵינוֹ נוֹתֵן לְתוֹךְ פִּיו בִּדְמַאי. אֲבָל בְּוַדַּאי אֲפִילוּ לְתוֹךְ יָדוֹ אָסוּר. מִשֶּׁל חוֹלֶה אֲבָל מִשֶּׁל רוֹפֵא אָסוּר. בְּיִשְׂרָאֵל אֲבָל בִּבְנֵי נֹחַ אֲפִילוּ בְּוַדַּאי מוּתָּר. מִשֶּׁל חוֹלֶה אֲבָל מִשֶּׁל רוֹפֵא אָסוּר. אִם הָיָה אֵבֶר מִן הַחַי אֲפִילוּ מִשֶּׁל חוֹלֶה אָסוּר שֶׁלֹּא יָבוֹא לִידֵי תְקָלָה.

Rabi Zerikan e Shimon bar Vava, em nome de Rabi Yochanan: um médico chaver que alimentava um doente am ha'aretz coloca o alimento na mão dele, mas não coloca em sua boca (pois colocar diretamente na boca seria servir ativamente algo não corrigido, o que é vedado ao chaver, ao passo que colocar na mão apenas disponibiliza o alimento, que o próprio doente leva à boca), quando se trata de demai. Mas quando se trata de certamente não dizimado (vadai), mesmo colocar na mão dele é proibido. Isto vale quando o alimento é do próprio doente (propriedade do paciente), mas se é do médico, é proibido (pois o chaver não pode nem entregar seu próprio produto não corrigido a outrem). Isto vale para um judeu; mas para um ben Noach (gentio, descendente de Noé), mesmo que seja certamente não dizimado, é permitido (pois as leis de teruma e dízimo não se aplicam ao gentio). Ainda assim, isto vale quando o alimento é do próprio doente, mas se é do médico, é proibido. Se fosse membro cortado de animal vivo (ever min hachai), mesmo que fosse do próprio doente, é proibido, para que não venha a tropeçar (pois essa proibição recai sobre todos os filhos de Noé, e o médico não pode contribuir para que o gentio a transgrida).

06O argumento contra Bet Shamai: perder por ser digno? E o argumento dos sábios sobre reduzir a caridade
Yerushalmi · Demai 3:1
וְקַשְׁיָא עַל דְּבֵית שַׁמַּאי בְּגִין דּוּ כָּשֵׁר יַפְסִיד. נוֹתֵן לוֹ כְּדֵי תִּיקּוּנוֹ. מַה טַעַם דְּבֵית שַׁמַּאי אֲפִילוּ תִגְדְּרֶנּוּ עַכְשָׁיו יָכוֹל אַתְּ לְגוֹדְרוֹ לְאַחַר זְמָן אֵין אַתְּ יָכוֹל לְגֹדְרוֹ. מַה טַעַם דְּרַבָּנִין אִם מְדַקְדֵּק אַתְּ אַחֲרָיו אַף הוּא מְמָעֵט בִּצְדָקָה.

E é difícil de aceitar a posição de Bet Shamai: por ele ser correto (cuidadoso com o dízimo), há de perder (recebendo sempre menos, pois já lhe é dado produto pronto, sem a porção adicional que o não cuidadoso ganha por ainda precisar corrigi-la)? A resposta é que, além do produto corrigido, o coletor lhe dá também um pouco mais, na medida de sua correção (compensando a diferença, para que o correto não saia perdendo por sua própria diligência). Qual é a razão de Bet Shamai (por que exige tanto cuidado na distribuição)? Mesmo que agora possas contê-lo (coibir o am ha'aretz de pecar, dando-lhe apenas produto já corrigido), depois de certo tempo não poderás mais contê-lo (pois ele levará o demai não corrigido para casa e o comerá sem dizimar, sem que ninguém o saiba ou possa impedi-lo). Qual é a razão dos sábios (por que preferem coletar e distribuir sem distinção)? Se fores minucioso investigando atrás dele (perguntando a cada doador e a cada recipiente sobre seu grau de observância), também ele (o doador) reduzirá sua caridade (por receio ou constrangimento diante da inquirição, prejudicando a todos os pobres).

07Os coletores de caridade em Yom Tov e a cuppá de shevi'it: não inquirir os pátios de quem come do produto do ano sabático
Yerushalmi · Demai 3:1
גַּבָּאֵי צְדָקָה בְּיוֹם טוֹב לֹא יְהוּ מַכְרִיזִין כְּדֶרֶךְ שֶׁמַּכְרִיזִין בְּחוֹל. אֲבָל גּוֹבִין בְּצִינְעָה וְנוֹתְנִין לְתוֹךְ חֵיקָוֹ וּמְחַלְּקִין לְכָל שְׁכוּנָה וּשְׁכוּנָה בִּפְנֵי עַצְמָהּ. גַּבָּאֵי קוּפָּה בִּשְׁבִיעִית לֹא יְהוּ מְדַקְדְּקִין בַּחֲצֵרוֹת שֶׁל אוֹכְלֵי שְׁבִיעִית. נָתְנוּ לָהֶן פַּת מוּתָּר שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל לִהְיוֹת נוֹתְנִין אֵלָּא אוֹ מָעוֹת אוֹ בֵּצוֹת. רִבִּי חֲנַנְיָה בְּשֵׁם רִבִּי פִינְחָס הָדָא דְּתֵימַר בְּמָקוֹם שֶׁזּוֹרְעִין וְלֹא אוֹכְלִין. לֶאֱכֹל אֵינָן חֲשׁוּדִין לֹא כָּל שֶׁכֵּן לְהַאֲכִיל.

Os coletores de caridade em Yom Tov (dia festivo) não devem anunciar publicamente a coleta do modo como anunciam em dia comum, mas coletam em particular (tzin'a) e o colocam no próprio seio, e distribuem para cada bairro (shechuná) separadamente. Os coletores da cuppá (fundo comunitário de caridade) no ano sabático (shevi'it) não devem ser minuciosos (inquirir demais) nos pátios daqueles que comem do produto do ano sabático (temendo que esse produto, sendo hefker — abandonado — e portanto sem valor comercial próprio, tenha sido vendido ilicitamente por dinheiro). Se lhes deram pão, é permitido, pois os israelitas não são suspeitos de dar em pagamento senão dinheiro ou ovos (comprados com o dinheiro recebido pelo produto sabático — mas não o próprio pão feito do grão sabático, o que tornaria evidente a violação). Rabi Chananya em nome de Rabi Pinchas: isto se diz num lugar onde se semeia para vender mas não se come do próprio produto sabático (regiões onde a colheita do ano sabático é cultivada visando apenas a venda para pagar impostos). Se, quanto a comer eles mesmos, os moradores não são suspeitos de transgredir, tanto mais não são suspeitos quanto a dar de comer a outros.

08Os cohanim que amassam em pureza: disputa se devem ser minuciosos, por causa da challá — tevel é pecado capital, shevi'it é proibição simples
Yerushalmi · Demai 3:1
כֹּהֲנִים הַמְגַבְּלין בְּטָהֳרָה לֹא יְהוּ מְדַקְדְּקִין בַּחֲצֵרוֹת שֶׁל אוֹכְלֵי שְׁבִיעִית. אִית תַּנָּיֵי תַּנִּי מְדַקְדְּקִין. אָמַר רִבִּי פִינְחָס מָאן דְּאָמַר מְדַקְדְּקִין מִפְּנֵי חַלָּתָן מָאן דְּאָמַר אֵין מְדַקְדְּקִין מַבְרִיחוֹ מִן הַקַּלָּה וּמַכְנִיסוֹ לַחֲמוּרָה. טֵבֵל בְּעָוֹן מִיתָה שְׁבִיעִית בְּלֹא תַעֲשֶׂה.

Os cohanim que amassam a massa em pureza (contratados para preparar a massa em estado de pureza ritual, evitando que o am ha'aretz a torne impura ao tocá-la) não devem ser minuciosos investigando nos pátios daqueles que comem do produto do ano sabático. Há tannaim que ensinaram: devem ser minuciosos. Disse Rabi Pinchas: quem diz que devem ser minuciosos, é por causa de sua challá (a porção separada da massa, que o próprio cohen come em pureza, e que exige verificar se o grão não é demai); quem diz que não devem ser minuciosos, é para afastá-lo da transgressão leve e não o introduzir na transgressão grave (pois, se o cohen recusar amassar para o am ha'aretz suspeito de shevi'it, este amassará sozinho e não separará a challá, incorrendo em tevel). Comer tevel (produto do qual não se separou nem teruma nem dízimo) é transgressão passível de pena de morte (por decreto celestial); já a transgressão de comer produto de shevi'it vendido ilicitamente é apenas transgressão de preceito negativo simples (menos grave).

09Como se procede: Rabi Huna e Rabi Mana sobre o cohen suspeito e a challá; Rabi Shimon bar Karsani em nome de Rabi Acha — guardar até a véspera de Pêssach e queimar
Yerushalmi · Demai 3:1
כֵּיצַד הוּא עוֹשֶׂה אָמַר רִבִּי חוּנָא מֵבִיא כֹּהֵן חָשׁוּד וּמַטְבִּילָה וּמַאֲכִילָה לוֹ. וְלֹא נִמְצָא מוֹסֵר טָהֳרוֹת לְעַם הָאָרֶץ. אָמַר רִבִּי מָנָא מֵבִיא כֹּהֵן חָשׁוּד וּמַטְבִּילָה וּמְשַׁמְּרוֹ עַד הָעֶרֶב וּמַאֲכִילָהּ לוֹ. וְלֹא נִמְצָא מַחֲזִיק יְדֵי עוֹבְרֵי עֲבֵירָה. רִבִּי שִׁמְעוֹן בַּר כַּרְסָנִי בְשֵׁם רִבִּי אָחָא מְשַׁמְּרָהּ עַד עֶרֶב הַפֶּסַח וְשׂוֹרְפָהּ.

Como se procede (com a challá separada dessa massa suspeita de ser tevel de shevi'it)? Disse Rabi Huna: traz-se um cohen suspeito (de comer produto de shevi'it vendido ilicitamente, mas ainda apto para comer challá), imerge-a (a challá, no mikvê, para garantir sua pureza) e a dá a ele para comer. E assim não se constata que o cohen íntegro esteja entregando coisas puras a um am ha'aretz (pois entrega apenas a outro cohen, e não ao próprio am ha'aretz que preparou a massa). Disse Rabi Mana: traz-se um cohen suspeito, imerge-a, guarda-a em pureza até o entardecer, e então a dá a ele para comer. E assim não se constata que o cohen íntegro esteja fortalecendo as mãos dos transgressores (dando-lhe de imediato, o que pareceria aprovar sua condição sem correção prévia; ao aguardar, evidencia-se maior cautela). Rabi Shimon bar Karsani em nome de Rabi Acha: guarda-a em pureza até a véspera de Pêssach, e a queima (em vez de entregá-la a qualquer cohen, evitando de todo a suspeita, e destruindo-a apenas quando a pureza não pode mais ser preservada, como é permitido às vésperas da Páscoa).

Nota

Esta primeira halachá do Perek Guimel de Massechet Demai abre uma nova Mishná que desloca o eixo temático para a assistência aos pobres: permite-se alimentar pobres e o hóspede (aksanya) com demai, relata-se que Rabban Gamliel alimentava seus trabalhadores com demai, e traz-se a disputa entre Bet Shamai (que exige distribuir produto corrigido a quem não corrige, e vice-versa) e os sábios (que coletam e distribuem sem distinção).

A guemará abre com a explicação de Rabi Yona de que a Mishná fala dos pobres chaverim, apoiado no episódio de Rabi Yehoshua com Rabban Yochanan ben Zakai em Beror Chayil, contraposto à posição de Rabi Yossei, para quem a Mishná fala dos pobres am ha'aretz, com a leitura de Rabi Elazar sobre o hóspede gentio. Discute-se a exigência de avisar o recipiente, a proibição de Rabi Mana de pagar dívidas com dinheiro de shevi'it ou maasser sheni, e a reconciliação de Rabi Yona sobre quem separa o dízimo do trabalhador — conforme recebe porções contadas ou come do alguidar comum.

Segue o caso do médico chaver que alimenta um doente am ha'aretz, distinguindo demai de vadai, judeu de ben Noach, e a proibição adicional do membro de animal vivo; o argumento contra Bet Shamai e a favor dos sábios; e fecha com as regras práticas dos coletores de caridade em Yom Tov e da cuppá de shevi'it, os cohanim que amassam em pureza, e o procedimento de Rabi Huna, Rabi Mana e Rabi Shimon bar Karsani para a challá suspeita de tevel do ano sabático.