Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Guimel · Halachá 2
דְּמַאי

Quem corta verduras no caminho ou compra e desiste de devolver — não tira de perda, mas conta

Perek Guimel, Halachá 2 — o Talmud Yerushalmi continua em Massechet Demai

Esta halachá traz uma nova Mishná: quem quer cortar folhas de verdura para aliviar sua carga não deve as jogar fora antes de dizimar; quem compra verdura no mercado e muda de ideia, querendo devolver, não deve devolver antes de dizimar, pois não falta senão contagem; e se estava escolhendo e comprando e viu outra carga melhor, pode devolver, porque não a puxou. A guemará explica, segundo Rabi Elazar, que a primeira cláusula segue Rabi Meir — que só permitiu vender demai ao atacadista —, enquanto Rabi Yochanan sustenta que é opinião de todos, pois há diferença entre adquirir no miúdo e abandonar no grosso; discute-se Chizkiyáhu sobre o hefker faltar apenas em contagem, o procedimento de tomar da camada superior sem incorrer em roubo, com os episódios de Rabi Shimon bar Cahana e Rabi Elazar, e de Rabi Chagai e Rabi Zeira, a posição de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan sobre pagar por um talo, a preocupação de não criar obstáculo aos que vêm depois, a baraita sobre fixar o dízimo de outrem mesmo criando obstáculo, a distinção de Rabi Chinena entre quem compra e quem devolve, e fecha com a leitura da Mishná sobre quem está de pé escolhendo.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הָרוֹצֶה לַחֲזוֹם עָלֵי יֶרֶק לְהָקֵל מִמַּשָּׂאוֹ לֹא יַשְׁלִיךְ עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר. הַלּוֹקֵחַ יֶרֶק מִן הַשּׁוּק וְנִמְלַךְ לְהַחֲזִיר לֹא יַחֲזִיר עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר. שֶׁאֵינוֹ מְעֻשָּׂר אֶלָּא מִנְיָין. הָיָה עוֹמֵד וְלוֹקֵחַ וְרָאָה טוֹעַן אַחֵר יָפֶה מִמֶּנּוּ מוֹתָּר לְהַחֲזִיר מִפְּנֵי שֶׁלֹּא מָשַׁךְ.

Mishná: Quem quer cortar e jogar fora folhas de verdura (as partes que não se costuma comer) para aliviar sua carga, não deve as jogar fora antes de dizimar. Quem compra verdura no mercado e muda de ideia, querendo devolvê-la ao vendedor, não deve devolvê-la antes de dizimar, pois não lhe falta ao dízimo senão contagem (basta contar os maços já adquiridos para separar o dízimo, não há impedimento prático). Se estava de pé escolhendo e comprando, e viu outra carga de verdura melhor que a sua, é permitido devolver a primeira, porque não a puxou (ainda não a tomou para si, de modo que a compra não se concretizou).

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Rabi Elazar: é opinião de Rabi Meir; Rabi Yochanan: é opinião de todos, pois há diferença entre adquirir no miúdo e abandonar no grosso
Yerushalmi · Demai 3:2
אָמַר רִבִּי לָעְזָר דְּרִבִּי מֵאִיר הִיא. דְּרִבִּי מֵאִיר אָמַר לֹא הִתִּירוּ לִמְכּוֹר דְּמַאי אֶלָּא סִיטוֹן בִּלְבַד. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא שַׁנְיָיא הִיא שֶׁהַזֹכֶה זֹכֶה בְדַקָּה וְאֵין הַמַּבְקִיר מַבְקִיר בְּגַסָּה. וְלֵית הָדָא פְלִיגָא עַל דְּרִבִּי מֵאִיר דְּרִבִי מֵאִיר [דּוּ] אָמַר כֵּיוָן שֶׁאָדָם מַבְקִיר דָּבָר וְיָצָא מֵרְשׁוּתוֹ הֶבְקֵירוֹ הֶבְקֵר. שַׁנְיָיא הִיא שֶׁהַזֹכֶה זֹכֶה בְדַקָּה וְאֵין הַמַּבְקִיר מַבְקִיר בְּגַסָּה. וַאֲפִילוּ עַל רִבִּי יוֹסֵי לֵית הָדָא פְלִיגָא דְּרִבִּי יוֹסֵי אָמַר אֵין הֶבְקֵר יוֹצֵא מִתַּחַת יְדֵי הַבְּעָלִים אֶלָּא בִּזְכִיָיה אֵין הֶבְקֵירוֹ הֶבְקֵר. שַׁנְיָיא הִיא שֶׁהַמַּבְקִיר מַבְקִיר בְּגַסָּה וְאֵין הַזּוֹכֶה זוֹכֶה בְדַקָּה.

Halachá: Disse Rabi Elazar: a primeira cláusula da Mishná, sobre quem corta folhas para aliviar a carga, é opinião de Rabi Meir (pois, tratando-se de folhas abandonadas por quem as corta, deveriam ser hefker e isentas de dízimo — a não ser por essa razão), pois Rabi Meir disse: não permitiram vender demai senão ao sitton (atacadista, comerciante ambulante de grandes quantidades) somente (e, por analogia, também não se permite abandonar livremente pequenas quantidades de produto ainda não dizimado, para que não se abra brecha semelhante). Disse Rabi Yochanan: é opinião de todos (inclusive de Rabi Yossei, que discorda de Rabi Meir noutro ponto); há diferença, pois quem adquire por aquisição (zechiyá) adquire no miúdo (mesmo pequenas quantidades tornam-se sua propriedade por um ato formal de aquisição), mas quem abandona (mafkir) não abandona no grosso (uma grande quantidade de folhas não se considera legalmente abandonada apenas por serem jogadas fora, e por isso continua sujeita ao dízimo). E isto não contradiz a opinião de Rabi Meir, pois Rabi Meir ele disse: já que uma pessoa abandona algo e este sai de seu domínio, seu abandono é válido como abandono (hefker) — o que pareceria contradizer a distinção de Rabi Yochanan, pois para Rabi Meir todo abandono, grande ou pequeno, é igualmente válido). Mas mesmo assim, há diferença, pois quem adquire adquire no miúdo, mas quem abandona não abandona no grosso (a afirmação geral de Rabi Meir sobre o abandono não exclui essa distinção prática entre pequena e grande quantidade). E mesmo quanto a Rabi Yossei, isto não o contradiz, pois Rabi Yossei disse: hefker não sai de sob o poder dos donos senão por aquisição (de outrem) — sem aquisição, seu abandono não é válido como abandono. Há diferença, pois quem abandona abandona no grosso, e quem adquire não adquire no miúdo (segundo Rabi Yossei, a distinção se inverte: uma grande quantidade abandonada é hefker válido, mas pequenas porções tomadas por diferentes pessoas não constituem aquisição válida de hefker).

02Chizkiyáhu: não falta ao dono senão o crédito da contagem
Yerushalmi · Demai 3:2
חִזְקִיָּה אָמַר אֵינוֹ הֶבְקֵר מְחוּסָּר לְבַעֲלִין אֶלָּא בִזְכִיָיה מִנְיָין.

Disse Chizkiyáhu: não lhe falta (à segunda cláusula da Mishná, sobre quem compra verdura e muda de ideia) hefker (não se trata de uma questão de abandono de propriedade); o que falta aos donos (o vendedor, para permitir a devolução) não é senão a aquisição por contagem (basta que ele conte os maços devolvidos para que a transação se desfaça licitamente, sem prejuízo de dízimo).

03Como se faz: toma-se da camada superior sem que seja roubo — os episódios de Rabi Shimon bar Cahana com Rabi Elazar, e de Rabi Chagai com Rabi Zeira
Yerushalmi · Demai 3:2
כֵּיצַד הוּא עוֹשֶׂה נוֹטֵל מִן הָעֶלְיוֹן וּמְתַקֵּין. וְאֵינוֹ אָסוּר מִשּׁוּם גֶּזֶל. כְּהָדָא רִבִּי שִׁמְעוֹן בַּר כַּהֲנָא הֲוָה מַסְמִיךְ לְרִבִּי לִעֶזֶר עָבְרוּן עַל חַד כֶּרֶם. אָמַר לֵיהּ אַיְיתִי לִי חַד קִיסֵּם מֵיחֲצַד שִׁינָּיי. חָזַר וְאָמַר לֵיהּ לֹא תֵּיתִי לִי כְּלוּם אָמַר דְּאִין אַייתֵי כָּל בַּר נַשׁ וּבַר נַשׁ מֵיעֲבַד כֵּן הָא אָזִיל סְיָיגָא דְּגוּבְרָא. רִבִּי חַגַּיי הֲוָה מִיסְמַךְ לְרִבִּי זְעִירָא עָבַר חַד טָעִין חַד מֵיבַל דְּקִיסִּין. אָמַר לֵיהּ אַיְיתִי לִי חַד קִיסֵּם נֵיחֲצִי שִׁינָּיי. חָזַר וְאָמַר לֵיהּ לֹא תֵּיתִי לִי כְּלוּם דְּאִין אָתֵי כָּל בַּר נַשׁ וּבַר נַשׁ מֵיעֲבַד כֵּן הָא אָזֵילָא מִיבְלָא דְּגוּבְרָא. לָא רִבִּי זְעִירָא כָשֵׁר כָּל כֵּן. אֶלָּא מִילִּין דְּיֹיצְרָן שָׁמַע לָן נֵיעַבְדִּינָן. רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן כֵּיוָן שֶׁמָּשַׁךְ קָנָה לֹא הָיָה חָסֵר אֶלָּא מִמְנֵי לֵיהּ. כֵּיצַד הוּא עוֹשֶׂה נוֹתֵן דְּמֵי אַחַת מֵהֶן וּמְתַקֵּן.

Como se faz (para dizimar a verdura devolvida ao mercado)? Toma-se um maço da camada superior (do monte de verdura já em ordem) e com ele se corrige (dá-se essa porção como dízimo e teruma do dízimo), e não é proibido por roubo (embora, tomando esse maço, o comprador esteja retirando algo do vendedor, isso não constitui roubo, pois logo se explica). Como naquele caso de Rabi Shimon bar Cahana, que apoiava Rabi Elazar (ao caminhar). Passaram por uma vinha. Disse-lhe Rabi Elazar: traze-me uma lasca de madeira para palito dos meus dentes. Rabi Shimon bar Cahana voltou e disse-lhe: não me tragas nada, pois disse: se cada pessoa e pessoa fizesse assim e viesse a tomar uma lasca, eis que se iria toda a cerca do homem (dono da vinha). Rabi Chagai apoiava Rabi Zeira. Passou alguém carregando um feixe de lascas de madeira. Disse-lhe Rabi Zeira: traze-me uma lasca para eu partir como palito de meus dentes. Voltou e disse-lhe: não me tragas nada, pois se cada pessoa e pessoa viesse a fazer assim, eis que se iria todo o feixe do homem. Perguntaram: Acaso não é Rabi Zeira tão íntegro a ponto de dispensar tal cuidado com coisa de tão pouco valor? Mas ele respondeu: ouvimos as palavras de nosso Criador e as praticamos (isto é, mesmo o que é permitido por lei, evita-se por excesso de piedade, quando pode abrir precedente). Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: assim que o comprador puxou a verdura para si, adquirindo-a, não lhe faltava ao vendedor senão contá-la a ele. Como se faz então? O comprador paga o valor de um dos maços a ele (ao vendedor, como preço, evitando qualquer roubo) e com ele corrige.

04Não criar obstáculo aos que vêm depois; a baraita sobre fixar o dízimo de outrem; a distinção de Rabi Chinena entre quem compra e quem devolve
Yerushalmi · Demai 3:2
וְלֹא נִמְצָא עוֹשֶׂה תְקָלָה לַבָּאִים אַחֲרָיו. עוֹשֶׂה אוֹתָן צִיבּוּר לְפָנָיו. וְיִקְבַּע אוֹתָן לְתוֹךְ פֵּירוֹתָיו. וְלֹא כֵן תַּנִּי קוֹבֵעַ הוּא אָדָם מַעְשְׂרוֹתָיו שֶׁל חֲבֵירוֹ לְתוֹךְ פֵּירוֹתָיו וַאֲפִילוּ עוֹשֶׂה תְקָלָה לַבָּאִים אַחֲרָיו. אָמַר רִבִּי חִינְנָא תִּיקְּנוּ בְלוֹקֵחַ וְלֹא תִיקְּנוּ בְּמַחֲזִיר.

Mas não se constata que ele fica criando obstáculo aos que vêm depois dele (aos próximos compradores, que poderiam usar o maço já separado como teruma do dízimo de outro produto, o que seria inválido, pois o dízimo já foi dado)? Para evitar isso, o comprador faz deles (dos maços tomados como dízimo) um monte à parte diante de si (separado do resto da mercadoria, para que ninguém o confunda com produto ainda não dizimado). E que o vendedor os fixe (consolide o crédito desse dízimo) dentro de seus próprios frutos (o restante de sua mercadoria, quitando assim a obrigação para todo o lote). Mas não foi assim que se ensinou: uma pessoa pode fixar os dízimos de seu companheiro dentro de seus próprios frutos, mesmo que com isso crie obstáculo para os que vêm depois dele (a baraita permite fixar mesmo criando obstáculo — então por que aqui se exige o cuidado extra do monte à parte)? Disse Rabi Chinena: essa permissão da baraita instituíram para o comprador (que adquire a mercadoria e a leva para casa, onde o produto já corrigido se mistura sem risco a terceiros), mas não instituíram para quem devolve (ao mercado, de onde outros compradores poderão vir a tomar o maço já dizimado, criando o obstáculo — por isso, nesse caso, exige-se o monte separado).

05A leitura da Mishná: "estava de pé escolhendo" — do mesmo tipo, e também de outro tipo
Yerushalmi · Demai 3:2
כֵּינִי מַתְנִיתָא הָיָה עוֹמֵד וּבוֹרֵר. עַד כְּדוֹן בְּאוֹתוֹ הַמִּין אֲפִילוּ מִין אַחֵר.

Assim deve-se ler o texto da Mishná: "estava de pé escolhendo" (em vez de "comprando" — pois "escolher" implica ainda não ter adquirido, explicando por que lhe é permitido mudar de ideia). Até agora falamos do caso em que a carga melhor era do mesmo tipo de verdura; mas a mesma regra vale mesmo para outro tipo (o comprador pode desistir da primeira carga ao ver uma segunda, ainda que de espécie diferente, contanto que não a tenha puxado).

Nota

Esta segunda halachá do Perek Guimel traz uma nova Mishná: quem corta folhas de verdura para aliviar sua carga não deve as jogar fora antes de dizimar; quem compra verdura no mercado e muda de ideia não deve devolvê-la antes de dizimar, pois não falta senão contagem; e quem estava escolhendo e viu carga melhor pode devolver a primeira, por ainda não a ter puxado.

A guemará abre com a leitura de Rabi Elazar, para quem a primeira cláusula segue Rabi Meir (que só permitiu vender demai ao atacadista), contraposta à de Rabi Yochanan, para quem é opinião de todos — havendo diferença entre adquirir no miúdo e abandonar no grosso, distinção que se sustenta tanto perante Rabi Meir quanto perante Rabi Yossei. Segue a leitura de Chizkiyáhu sobre a segunda cláusula, de que ao dono falta apenas o crédito da contagem, e o procedimento prático de tomar da camada superior sem incorrer em roubo, ilustrado pelos episódios de Rabi Shimon bar Cahana com Rabi Elazar e de Rabi Chagai com Rabi Zeira sobre a lasca de madeira, e a posição de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan sobre pagar pelo talo tomado.

Fecha com a preocupação de não criar obstáculo aos compradores seguintes, a baraita sobre fixar o dízimo de outrem mesmo criando obstáculo, a distinção de Rabi Chinena entre quem compra (a quem se aplica a permissão da baraita) e quem devolve ao mercado (a quem não se aplica), e a leitura final da Mishná sobre "quem está de pé escolhendo", estendida também a carga de outro tipo de verdura.