Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Guimel · Halachá 3
דְּמַאי

Quem tira frutos no caminho para comer e muda de ideia para guardar; e quem não pode vender demai não deve enviá-lo ao companheiro

Perek Guimel, Halachá 3 — o Talmud Yerushalmi continua em Massechet Demai

Esta halachá traz uma nova Mishná: quem tira frutos no caminho para comê-los e muda de ideia, querendo guardá-los, não deve os guardar antes de dizimar; mas se desde o início os tirou para que não se perdessem, está isento; e tudo aquilo que uma pessoa não tem permissão de vender como demai não deve enviar ao seu companheiro como demai — exceto Rabi Yosei, que permite no certamente dizimado, contanto que o remetente avise o destinatário. A guemará explica o princípio de que não se passa por cima da comida, hoje permitido por causa da feitiçaria, segundo Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu; compara com quem vira o monte de esterco na via pública, com a posição de Cahana sobre virar com intenção de adquirir, e a explicação de Rabi Avin de que se dizima do seu, mas não se dizima do alheio; discute a distinção entre medida miúda e medida grossa ao enviar demai, e a razão de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan sobre a cerca; traz a baraita de Rabi Yosei sobre cestos vendidos a esmo e o episódio do etrog de Cesareia enviado a Rabban Shimon ben Gamliel; e fecha com a pergunta de Rabi Zeira a Rabi Yasa sobre os frutos permitidos em Cesareia.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמּוֹצֵיא פֵּירוֹת בַּדֶּרֶךְ וּנְטָלָן לְאָכְלָן וְנִמְלַךְ לְהַצְנִיעַ לֹא יַצְנִיעַ עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר. אִם מִתְּחִילָּה נְטָלָן בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יֹאבֵדוֹ פָּטוּר. כָּל דָּבָר שֶׁאֵין אָדָם רְשַׁאי לְמוֹכְרוֹ דְמַאי לֹא יִשְלַח לַחֲבֵירוֹ דְמַאי. רִבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בְּוַדַּאי וּבִלְבַד שֶׁיּוֹדִיעֶנּוּ.

Mishná: Quem tira frutos consigo no caminho (para comer pelo trajeto) e os tomou para comê-los, e muda de ideia, querendo guardá-los (em vez de comê-los ali mesmo), não deve os guardar antes de dizimar. Se desde o início os tomou para que não se perdessem (sem intenção de comer no caminho, mas apenas de resgatá-los de uma perda iminente), está isento (do dízimo, pois nunca teve intenção de uso pessoal imediato que obrigasse a separação). Tudo aquilo que uma pessoa não tem permissão de vender como demai (produto agrícola não certamente dizimado), não deve enviar a seu companheiro como demai (pois, ao receber, o companheiro poderia ser levado a tratá-lo com menos rigor do que deveria). Rabi Yosei permite o envio no produto certamente dizimado, contanto que o remetente o avise (informe ao destinatário que o produto já foi dizimado com certeza).

A Halachá · הֲלָכָה ג

01Ensinou-se: não se passa por cima da comida — antes proibido, mas agora permitido por causa da feitiçaria, segundo Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu
Yerushalmi · Demai 3:3
תַּנִּי אֵין מַעֲבִירִין עַל הָאוֹכְלִין. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר זָבְדִי בְּשֵׁם רִבִּי אַבָּהוּ הָא דָּמַר בָּרִאשׁוֹנָה. אֲבָל עַכְשָׁיו מוּתָּר מִפְּנֵי הַכְּשָׁפִים.

Ensinou-se (tanya): não se passa por cima da comida (um princípio segundo o qual, encontrando alimentos no caminho, deve-se apanhá-los imediatamente e não deixá-los para trás, seguindo adiante em busca de outros — o que explicaria a primeira cláusula da Mishná: quem já tomou os frutos para comer não pode simplesmente guardá-los sem dizimar, pois seria como abandonar comida que já tomou para si). Disse Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu: isso que se ensinou se disse a respeito da primeira geração (em tempos antigos, quando havia esse cuidado geral); mas agora é permitido passar por cima da comida sem apanhá-la de imediato, por causa da feitiçaria (pois, temendo-se hoje que os alimentos deixados no caminho tenham sido enfeitiçados ou manipulados por outrem, tornou-se preferível não os apanhar, revertendo o antigo costume).

02Ali se ensinou: quem vira o esterco na via pública, e o dano de terceiro — a posição de Cahana sobre virar com intenção de adquirir, e a explicação de Rabi Avin: dizima do seu, não dizima do alheio
Yerushalmi · Demai 3:3
תַּמָּן תַּנֵּינָן הַהוֹפֵךְ אֶת הַגָּלָל בִּרְשוּת הָרַבִּים וְהוּזָּק בָּהֶן אַחֵר חַיָיב בְּנִזְקוֹ. תַּנִּי וַאֲסוּרִין מִשׁוּם גֶּזֶל. כַּהֲנָא אָמַר וְהוּא שֶׁהָפְכָהּ עַל מְנָת לִזְכוֹת בָּהּ. אֲבָל אִם הָפְכָהּ עַל מְנָת שֶׁלֹּא לִזְכוֹת בָּהּ לֹא בְּדָא. וּלְעִנְיָין נְזִיקִין לֹא בְדָא שַׁנְיָיה בֵּין הָפְכָהּ עַל מְנָת לִזְכוֹת בּוֹ בֵּין שֶׁהָפְכָהּ עַל מְנָת שֶׁלֹּא לִזְכוֹת בּוֹ וְהוּזָּק בָּהֶן אַחֵר חַיָיב בְּנִזְקוֹ. וְהָכָא אַתְּ אָמַר הָכֵן. אָמַר רִבִּי אָבִין תַּמָּן כְּתִיב בַּעַל הַבּוֹר יְשַׁלֵּם בַּעַל הַנֶּזֶק יְשַׁלֵּם. בְּרַם הָכָא עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר מִשֶׁלָּךְ אַתְּ מְעַשֵּׂר וְאֵין אַתְּ מְעַשֵּׂר מִשֶּׁל אֲחֵרִים.

Ali (tamán) ensinamos (em outro tratado): quem vira o monte de esterco na via pública (para dele extrair algo de valor, como gravetos ou pedras), e outro se machucou com eles (com os objetos assim expostos), é responsável pelo dano causado. Ensinou-se (tanya): e tais objetos, tomados do monte alheio, são proibidos de se usar por causa de roubo. Disse Cahana: e isso é quando o virou com a intenção de adquiri-lo (o objeto encontrado dentro do monte, tornando-se seu roubo se pertencer a outrem); mas se o virou sem a intenção de adquiri-lo (apenas por acaso, ou para outro fim), não é assim (não há proibição de roubo sobre o achado). E quanto a danos, não é assim (a regra não muda): há diferença quanto ao roubo entre virá-lo com a intenção de nele adquirir e virá-lo sem a intenção de nele adquirir; mas quanto a danos, não há diferença: e outro se machucou com eles, o que virou é responsável pelo dano em ambos os casos. E aqui (em nossa Mishná, sobre dizimar os frutos tomados por engano) dizes assim (que há a mesma distinção entre intenção e não intenção)? Disse Rabi Avin: ali (quanto a danos) está escrito: "o dono do poço pagará", "o dono do dano pagará" (a responsabilidade pelo dano recai sobre quem criou o perigo, independentemente de sua intenção); mas aqui (quanto ao dízimo), está escrito: "dizimarás, dizimarás" (Devarim 14:22) — do teu tu dizimas, mas não dizimas do alheio (a obrigação de dizimar recai sobre o dono do produto, e por isso a intenção de adquiri-lo é decisiva para determinar se a pessoa já se tornou sua dona e está por isso obrigada).

03A distinção entre medida miúda e medida grossa ao enviar demai ao companheiro
Yerushalmi · Demai 3:3
כָּל דָּבָר שֶׁאֵין אָדָם רְשַׁאי לְמוֹכְרוֹ דְמַאי לֹא יִשְׁלַח לַחֲבֵירוֹ דְמַאי. מִידָּה דַקָּה שֶׁאֵין אָדָם רְשַׁאי לְמוֹכְרָהּ דְמַאי לֹא יִשְׁלַח לַחֲבֵירוֹ דְמַאי. מַידָּה גַסָּה שֶׁאָדָם רְשַׁאי לְמוֹכְרָהּ דְמַאי יִשְׁלַח לַחֲבֵירוֹ דְמַאי. רִבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בְּוַדַּאי בֵּין דַּקָּה בֵּין גַּסָּה וְאוֹסֵר בִּדְמַאי בְדַקָּה.

Explica-se a cláusula da Mishná: tudo aquilo que uma pessoa não tem permissão de vender como demai não deve enviar a seu companheiro como demai. Ou seja: em medida miúda (pequena quantidade), que uma pessoa não tem permissão de vender como demai, não deve enviar a seu companheiro como demai; mas em medida grossa (grande quantidade), que uma pessoa tem permissão de vender como demai, pode enviar a seu companheiro como demai. Rabi Yosei permite no produto certamente dizimado, tanto em medida miúda quanto grossa, mas proíbe no demai em medida miúda.

04Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: por causa da cerca dele permitiram demai em medida grossa
Yerushalmi · Demai 3:3
רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן מִפְּנֵי גְּדֵירוֹ הִתִּירוּ דְּמַאי בְגַסָּה.

Disse Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: por causa de sua cerca (a fim de resguardar a reputação de honestidade do remetente, que negocia em grandes quantidades e é presumidamente cuidadoso quanto ao dízimo) permitiram enviar demai em medida grossa (pois quem vende no atacado é tido por confiável, e não haveria razão para suspeitar de sua mercadoria).

05Outra versão: a baraita de Rabi Yosei sobre cestos de figos, uvas e verdura vendidos a esmo; e o episódio do etrog de Cesareia enviado a Rabban Shimon ben Gamliel
Yerushalmi · Demai 3:3
דּוּ מַתְנִיתָא רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר סַלֵּי תְאֵנִים וְסַלֵּי עֲנָבִים וְקוּפּוֹת שֶׁל יֶרֶק כָּל זְמָן שֶׁהוּא מוֹכְרָן אֲכָסָרָה פָּטוּר. אָמַר רִבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל שָׁלַח לִי רִבִּי יוֹסֵי בִּירְבִי אֶתְרוֹג וְאָמַר לִי זֶה בָּא בְיָדִי מִקֵּיסָרִין. וְלָמַדְתִּי בוֹ שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים. שֶׁהוּא וַדַּאי. שֶׁהוּא טָמֵא. שֶׁלֹּא בָּא בְּיַד אַחֵר. שֶׁהוּא וַדַּאי. שֶׁפֵּירוֹת קֵיסָרִין וַדַּאי. שֶׁהוּא טָמֵא מַרְבִּיצִין עָלָיו מַיִם. שֶׁלֹּא בָּא בְּיַד אַחֵר שֶׁאִילּוּ בָא בְיַד אַחֵר הָיִיתִי מְעַשֵּׂר מִזֶּה עַל זֶה. וִיעַשֵּׂר מִמֶּנוּ עָלָיו. דּוּ חָשַׁשׁ לְהָדָא דְּבַר קַפָּרָא. דְּבַר קַפָּרָא אָמַר אֵין דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לִהְיוֹת מְשַׁלְּחִין לַחֲבֵירֵיהֶן דְּבָרִים חֲסֵירִין. וְלֹא מַתְנִיתִין הִיא רִבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בְּוַדַּאי בִּלְבַד שֶׁיּוֹדִיעָן. אָתָא מֵימַר לָךְ אַף עַל גַּב דּוּ פְלֵיג עַל רַבָּנִין לָא עֲבַד עוּבְדָא דִכְוָותֵיהּ.

Outra versão (baraita): Rabi Yosei diz: cestos de figos, cestos de uvas e cestas de verdura, contanto que o vendedor os venda a esmo (sem contagem precisa, por um preço aproximado), está isento (de dizimar antes de vender, pois trata-se de venda no atacado). Disse Rabban Shimon ben Gamliel: enviou-me Rabi Yosei bi-Rabi um etrog, e disse-me: este veio às minhas mãos de Cesareia. E com isso aprendi dele três coisas: que ele é certamente dizimado; que ele é impuro (sujeito à impureza por ter sido regado); que não passou pela mão de outro (pertence só a ele, não foi comprado de terceiro). Que ele é certamente dizimado — porque os frutos de Cesareia são certamente dizimados (por serem de propriedade majoritariamente gentia, isentos de demai, ou por outra razão local que os torna confiáveis). Que ele é impuro — porque em Cesareia encharcam o solo com água sobre ele (a irrigação torna o fruto suscetível à impureza). Que não passou pela mão de outro — pois, se tivesse passado pela mão de outro, eu dizimaria deste etrog sobre aquele (precisaria contar com a possibilidade de misturar frutos de origens distintas). E de fato, que dizime dele sobre ele (sobre o próprio lote, sem necessidade de mais informação) — ele (Rabi Yosei bi-Rabi) se preocupou com isto, com a posição de Bar Kapara. Bar Kapara disse: não é costume das pessoas enviar a seus companheiros coisas deficientes (por isso, ao enviar o etrog sem dizimar, era preciso informar expressamente a situação, para que o destinatário não presumisse, por hábito, que já estava pronto para uso). E não é isto exatamente a Mishná? Rabi Yosei permite no certamente dizimado, contanto que o remetente avise (o mesmo princípio de Bar Kapara já está implícito na Mishná). Vem então dizer-te: ainda que ele (Rabi Yosei bi-Rabi) discorde dos rabanan (sobre outro ponto, talvez sobre a admissão de medida miúda), não agiu de fato conforme sua própria posição (pois, na prática, seguiu o cuidado de avisar, próprio da posição da maioria).

06Rabi Zeira pergunta a Rabi Yasa: e não é dos frutos permitidos em Cesareia? Rabban Shimon ben Gamliel é anterior a Rabi
Yerushalmi · Demai 3:3
רִבִּי זְעִירָא בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי יָסָא וְלֹא מִפֵּירוֹת שֶׁהֵן מוּתָּרִין בְּקֵיסָרִין הִיא. אָמַר לֵיהּ וְלֹא רִבִּי הִתִּיר קֵיסָרִין. וְרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל קוֹדֶם לְרִבִּי הָיָה.

Perguntou Rabi Zeira diante de Rabi Yasa: e o etrog do episódio não é um dos frutos que são permitidos em Cesareia (isentos de dízimo por outra razão, tornando desnecessária toda a explicação anterior)? Disse-lhe: e não foi Rabi (Yehudá HaNassi) quem permitiu Cesareia (decretou a isenção mais tarde)? E Rabban Shimon ben Gamliel era anterior a Rabi (o episódio do etrog ocorreu antes desse decreto, quando os frutos de Cesareia ainda não gozavam dessa isenção geral, e por isso era necessário todo aquele raciocínio para determinar sua condição).

Nota

Esta terceira halachá do Perek Guimel traz uma nova Mishná: quem tira frutos no caminho para comê-los e muda de ideia para guardá-los não deve os guardar antes de dizimar, mas quem os tomou desde o início apenas para evitar que se perdessem está isento; e tudo o que não se pode vender como demai não se deve enviar ao companheiro como demai, exceto no certamente dizimado, segundo Rabi Yosei, contanto que se avise o destinatário.

A guemará explica a primeira cláusula pelo princípio de não passar por cima da comida — hoje revertido por causa da feitiçaria, segundo Rabi Yaakov bar Zavdi em nome de Rabi Abahu — e compara com o caso de quem vira o monte de esterco na via pública, distinguindo, segundo Cahana, entre virar com intenção de adquirir e sem essa intenção, com a explicação de Rabi Avin de que se dizima do que é seu, mas não do alheio.

Segue a explicação da segunda cláusula, distinguindo medida miúda de medida grossa ao enviar demai, com a razão de Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan sobre a cerca do remetente; a baraita de Rabi Yosei sobre cestos vendidos a esmo, e o episódio do etrog de Cesareia enviado a Rabban Shimon ben Gamliel, do qual se aprenderam três coisas — que era certamente dizimado, que era impuro, e que não passara por mão alheia —, ligado à posição de Bar Kapara sobre não enviar coisas deficientes sem aviso. Fecha com a pergunta de Rabi Zeira a Rabi Yasa sobre os frutos permitidos em Cesareia, respondida pela cronologia: o decreto de Rabi é posterior ao episódio de Rabban Shimon ben Gamliel.