Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Dalet · Halachá 4
דְּמַאי

Quem manda comprar de alguém confiável em dízimos, e o emissário diz que comprou de outro

Perek Dalet, Halachá 4 — Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

Nova Mishná: quem diz a alguém que não é confiável quanto aos dízimos (um emissário am haaretz): "compra para mim de alguém que é confiável" ou "de alguém que dizima" (sem especificar quem), esse emissário não é confiável (quanto ao que trouxer); mas se disse "de Fulano" (especificando a pessoa), este é confiável. Se foi comprar dele e lhe disse: "não o encontrei, mas comprei para ti de alguém que é confiável", não é confiável. A guemará traz Rabi Yossei, que exige ainda mais: mesmo tendo dito "de Fulano", o emissário não é confiável, a menos que quem o enviou tenha dito "compra, e eu pago o dinheiro" (isto é, a menos que o comprador seja o próprio agente pagador, e não um mero mandatário verbal); e explica a razão de Rabi Yossei comparando com a disputa, na Mishná de Guitin, entre Rabi Elazar e os sábios sobre a mulher que autoriza receber seu guet (bilhete de divórcio) em determinado lugar, e até quando ela pode continuar comendo teruma como esposa de cohen.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הָאוֹמֵר לְמִי שֶׁאֵינוֹ נֶאֱמָן עַל הַמַּעְשְׂרוֹת קַח לִי מִמִּי שֶׁהוּא נֶאֱמָן וּמִי שֶׁהוּא מְעַשֵּׂר אֵינוֹ נֶאֱמָן. מֵאִישׁ פְּלוֹנִי הֲרֵי זֶה נֶאֱמָן. הָלַךְ לִיקַח מִמֶּנּוּ אָמַר לוֹ לֹא מְצָאתִיו וְלָקַחְתִּי לְךָ מֵאֶחָד שֶׁהוּא נֶאֱמָן אֵינוֹ נֶאֱמָן.

Mishná: Quem diz a alguém que não é confiável quanto aos dízimos (um am haaretz, que se suspeita não separar corretamente os dízimos de seu produto): "compra para mim de alguém que é confiável" ou "de alguém que dizima" (sem indicar a pessoa exata, deixando a escolha a critério do próprio emissário não confiável) — este emissário não é confiável (e o produto que trouxer é tratado como demai, exigindo nova separação de dízimos, pois não há garantia de que ele de fato comprou de quem é confiável). Mas se disse: "compra de Fulano" (especificando nominalmente uma pessoa determinada e conhecidamente confiável), este é confiável (pois, sendo indicado o vendedor exato, o emissário não tem margem para desviar-se da instrução). Mas se foi comprar dele e lhe disse: "não o encontrei, mas comprei para ti de alguém que é confiável" (isto é, de outra pessoa confiável, e não de Fulano), não é confiável.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Rabi Yossei: mesmo dizendo "de Fulano", só é confiável se disse "compra e eu pago o dinheiro"
Yerushalmi · Demai 4:4
תַּנִּי אָמַר רִבִּי יוֹסֵי אֲפִילוּ אָמַר לוֹ מִפְּלוֹנִי אֵינוֹ נֶאֱמָן עַד שֶׁיֹּאמַר לוֹ קַח וַאֲנִי נוֹתֵן מָעוֹת. מַה טַעֲמָא דְּרִבִּי יוֹסֵי אֲנִי אוֹמֵר אֶחָד קָרוֹב מָצָא וְלָקַח מִמֶּנּוּ דְּתַנֵּינָן תַּמָּן הִתְקַבֵּל לִי גִיטִּי בְּמָקוֹם פְּלוֹנִי אוֹכֶלֶת בִּתְרוּמוֹת עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֶּט לְאוֹתוֹ מָקוֹם רִבִּי לָעְזָר אוֹסֵר מִיַּד. מַה טַעֲמָא דְּרִבִּי לָעְזָר אֲנִי אוֹמֵר אַחַר הַדֶּלֶת מְצָאוֹ.

Foi ensinado: disse Rabi Yossei: mesmo que lhe tenha dito "compra de Fulano", não é confiável, a menos que lhe diga: "compra, e eu é quem pago o dinheiro" (isto é, a menos que o emissário seja apenas um agente pagador, agindo em nome e sob a responsabilidade direta de quem o enviou, e não alguém que compra por conta própria e depois entrega o produto). Qual é a razão de Rabi Yossei? Eu digo que é possível que ele tenha encontrado alguém mais próximo (do que Fulano) e comprado dele (mesmo tendo recebido instrução de comprar especificamente de Fulano, por comodidade ele pode ter comprado de outra pessoa qualquer, sem que quem o enviou tenha meios de saber) — pois ensinamos ali (na Mishná de Guitin): "recebe para mim meu guet (bilhete de divórcio) em tal lugar" (diz o marido ao seu agente, referindo-se a um local determinado onde a entrega deve ocorrer)a mulher continua comendo terumot (como esposa de cohen) até que o guet chegue àquele lugar (mesmo que o agente já tenha recebido o documento antes, em outro local, ela permanece casada e apta a comer teruma até que a entrega ocorra especificamente no lugar designado); Rabi Elazar proíbe imediatamente (isto é, considera-a divorciada assim que o agente recebe o guet, em qualquer lugar, e não somente quando ele chega ao lugar designado). Qual é a razão de Rabi Elazar? Eu digo que é possível que ele o tenha encontrado logo atrás da porta (isto é, o agente pode ter recebido o guet muito antes de chegar ao lugar designado, e mesmo assim a mulher já estaria divorciada desde aquele instante — por isso Rabi Elazar não confia na designação do lugar como marco decisivo).

02Harmonizando Rabi Elazar e Rabi Yossei: um concorda com o outro, com uma ressalva
Yerushalmi · Demai 4:4
אָתָא דְּרִבִּי אֶלְעָזָר כְּרִבִּי יוֹסֵי וּדְּרִבִּי יוֹסֵי כְּרִבִּי לָעְזָר. דְּרִבִּי יוֹסֵי רִיבָּה מִן דְּרִבִּי לָעְזָר וְלֹא מוֹדֶה רִבִּי לָעְזָר שֶׁאִם אָמַר לוֹ אַל תְּקַבְּלֵהוּ לִי אֶלָּא בְמָקוֹם פְּלוֹנִי שֶׁהִיא אוֹכֶלֶת בִּתְרוּמָה עַד שֶׁיַּגִּיעַ גֶּט לְאוֹתוֹ מָקוֹם. וְהָכָא אֲפִילוּ אָמַר לוֹ מִפְּלוֹנִי אֵינוֹ נֶאֱמָן עַד שֶׁיֹּאמַר לוֹ קַח וַאֲנִי נוֹתֵן לוֹ מָעוֹת. מַה טַעֲמָא דְּרִבִּי יוֹסֵי אֲנִי אוֹמֵר אֶחָד קָרוֹב מָצָא וְלָקַח מִמֶּנּוּ.

Segue-se disso que Rabi Elazar concorda em parte com Rabi Yossei, e Rabi Yossei concorda em parte com Rabi Elazar (cada um admitindo, no caso do outro, o princípio de que o encontro casual em outro lugar pode ter ocorrido). Mas o que Rabi Yossei exige é mais rigoroso do que o que exige Rabi Elazar: pois não concorda Rabi Elazar que, se o marido lhe disse "não o recebas para mim senão em tal lugar" (explicitando essa restrição), ela continua comendo teruma até que o guet chegue àquele lugar (isto é, mesmo Rabi Elazar admite que, havendo instrução explícita restringindo o local de recebimento, a designação vale e produz esse efeito)? E aqui (no nosso caso do emissário e os dízimos), mesmo que lhe tenha dito explicitamente "compra de Fulano", não é confiável, a menos que lhe diga: "compra, e eu é quem pago o dinheiro" (ou seja, aqui Rabi Yossei não se contenta nem mesmo com a designação explícita do nome, ao contrário do que Rabi Elazar concede no caso do guet). Qual é a razão de Rabi Yossei? Eu digo que é possível que ele tenha encontrado alguém mais próximo e comprado dele.

Nota

Esta quarta halachá do Perek Dalet traz uma nova Mishná: quem diz a alguém que não é confiável quanto aos dízimos "compra para mim de alguém que é confiável" ou "de alguém que dizima" não é confiável; mas "de Fulano" é confiável; e se foi comprar dele e disse que não o encontrou, comprando de outro confiável, não é confiável.

A guemará traz Rabi Yossei, que exige mais do que a Mishná: mesmo dizendo "de Fulano", o emissário só é confiável se quem o enviou disser "compra, e eu pago o dinheiro" — pois é possível que tenha encontrado alguém mais próximo e comprado dele em vez de Fulano. A razão é comparada com a disputa, na Mishná de Guitin, entre os sábios e Rabi Elazar sobre a mulher que autoriza receber seu guet em determinado lugar: os sábios dizem que ela come teruma até o guet chegar lá, e Rabi Elazar proíbe imediatamente, por temer que o agente o tenha recebido antes, em outro lugar. A guemará harmoniza as duas disputas, mostrando que Rabi Elazar concorda com Rabi Yossei nesse princípio, mas Rabi Yossei é mais rigoroso: mesmo havendo designação explícita do nome do vendedor, não basta — é preciso que o comprador seja o próprio agente pagador.