Nova Mishná: quem entra numa cidade e não conhece ninguém ali, e pergunta "quem aqui é confiável, e quem aqui dizima?" — se alguém lhe disser "eu não sou confiável, mas Fulano é confiável", este indicado é confiável. Se foi comprar dele e perguntou "quem aqui vende produto velho?" (de melhor qualidade, já dizimado com cuidado), e este lhe disse "quem te enviou a mim" (isto é, o próprio vendedor a quem foi indicado), mesmo que os dois ajam como quem se favorecem mutuamente, ambos são confiáveis. Já os condutores de jumentos (chamarim) que entram juntos numa cidade, e um deles diz "o meu produto é novo (ainda não obrigado) e o do meu companheiro é velho (já dizimado)", ou "o meu não está em ordem (dizimado) e o do meu companheiro está em ordem", não são confiáveis (por terem tido tempo de combinar entre si a estratégia); mas Rabi Yehudá diz que são confiáveis. A guemará questiona como uma só testemunha pode ser confiável nesse caso, e responde com Rabi Yochanan, que atribui a leniência à necessidade vital do hóspede; traz uma baraita sobre quem entra numa cidade ou permanece numa eira sem conhecer ninguém, com a disputa entre Rabán Shimon ben Gamliel (que permite perguntar tanto a um chaver quanto a um am haaretz) e Rabi (que exige perguntar somente a um chaver quanto à teruma), comparando-a com a Mishná de Bechorot sobre pastores e defeitos de animais primogênitos, e com a distinção de Rabi Yona entre tomar e distribuir; traz ainda outra baraita sobre grupos de pessoas (sî'ot) e a confiabilidade de um informante na presença ou na ausência do interessado; e fecha com as razões de Rabi Yehudá e dos sábios quanto aos condutores de jumentos.
Mishná: Quem entra numa cidade e não conhece ninguém ali, e disse: "quem aqui é confiável, e quem aqui dizima?" — se alguém lhe disse: "eu não sou confiável, mas Fulano é confiável", este é confiável (mesmo sendo o próprio informante alguém não confiável, sua indicação de outra pessoa é aceita, como a guemará explicará). Se foi então e comprou dele, e perguntou a eles: "quem aqui vende produto velho?" (vinho ou produto de melhor qualidade, já maturado), e este lhe disse: "quem te enviou a mim" (isto é, foi precisamente aquele primeiro que te indicou a mim) — ainda que os dois ajam como quem se favorecem mutuamente (um recomendando o outro em troca de proveito recíproco), eis que ambos são confiáveis. Os condutores de jumentos (chamarim, mercadores itinerantes) que entraram juntos numa cidade, e um deles disse: "o meu produto é novo (ainda isento da obrigação do dízimo) e o do meu companheiro é velho (já obrigado e presumivelmente dizimado)", ou disse: "o meu não está em ordem (não dizimado) e o do meu companheiro está em ordem (dizimado)" — não são confiáveis (pois, vindo em grupo, tiveram tempo de combinar entre si de que forma cada um obteria os fregueses do outro). Rabi Yehudá diz: são confiáveis.
Mas como pode uma só testemunha ser confiável (sendo que, em geral, a palavra de uma única pessoa não basta para estabelecer um fato com certeza legal, exigindo-se dois)? Disse Rabi Yochanan: foram especialmente leves (os sábios) quanto ao hóspede (aksanay, o forasteiro que chega a uma cidade estranha e precisa se alimentar), por causa da preservação da vida (pois, se se exigisse o rigor pleno da prova testemunhal, o hóspede correria risco de não encontrar o que comer).
Foi ensinado: quem entra numa cidade e não conhece ninguém, ou estava parado numa eira (gueren, onde se debulha e se separa o grão) e não conhece ninguém ali (e tem em mãos teruma que deseja entregar a um cohen confiável) — este pode perguntar tanto a um chaver (companheiro observante e confiável) quanto a um am haaretz (pessoa comum, não confiável) — estas são as palavras de Rabán Shimon ben Gamliel. Rabi diz: não se pergunta sobre a teruma senão a um chaver somente. Segue-se que Rabi segue a posição de Rabi Meir, e Rabán Shimon ben Gamliel segue seu próprio raciocínio. Pois ensinamos ali (na Mishná de Bechorot): quanto a todos os defeitos em animais primogênitos que são passíveis de ser causados por mãos humanas (e por isso poderiam ser fraudados), pastores israelitas comuns são confiáveis (para atestar que o defeito é natural), mas pastores que são eles mesmos cohanim não são confiáveis (por terem interesse próprio no resultado). Rabán Shimon ben Gamliel diz: o pastor cohen é confiável quanto ao animal do seu companheiro, mas não é confiável quanto ao animal de si mesmo. Rabi Meir diz: quem é suspeito quanto a uma coisa não pode julgá-la nem testemunhar sobre ela (e isso inclui absolutamente todo cohen em matéria de primogênitos). Disse Rabi Yona: em que ponto discordam? Apenas quanto a tomar (receber para si); mas quanto a distribuir, também Rabán Shimon ben Gamliel concorda (que o cohen não é confiável mesmo quanto ao alheio, se for ele mesmo o distribuidor interessado). Qual é a diferença entre distribuir e tomar? Ao distribuir, torna-se voz pública, isto é, se espalha a notícia (pois a distribuição é feita abertamente, tornando-se de conhecimento geral, e por isso mesmo um estranho teria como se informar sobre a idoneidade de quem distribui).
Foi ensinado: quem entra numa cidade e encontra grupos de pessoas (sî'ot), e disse: "quem aqui é confiável, quem aqui dizima?" — se um deles lhe disse "eu mesmo sou confiável" (e os demais confirmaram): se os outros lhe disseram que ele é confiável, este é confiável. Mas se lhe disseram que ele não é confiável na presença dele mesmo, não é confiável (pois talvez, por constrangimento, não tenham ousado dizer a verdade completa diante dele); se disseram isso na ausência dele, é confiável (a informação dada às escondidas). Disse Rabi Yona: tratando-se de um morador local, a regra vale quando os grupos são de chaverim; e tratando-se de um hóspede forasteiro, vale quando os grupos são de amei haaretz. Mas isto é uma dificuldade contra Rabi Yona: tratando-se de chaverim, tu dizes que o informante não é confiável na presença do interessado? (Como se pode suspeitar que chaverim mintam nesse assunto só para agradar alguém, na sua própria presença? A questão fica sem resposta.)
Qual é a razão de Rabi Yehudá (que, na Mishná, considera confiáveis os condutores de jumentos mesmo elogiando reciprocamente o produto um do outro)? Por causa da preservação da vida dos moradores da cidade (pois, se os condutores de jumentos temessem não ser acreditados, deixariam de visitar a cidade, reduzindo o abastecimento de produtos aos seus habitantes; por isso convém facilitar-lhes a confiança). Qual é a razão dos sábios (que não os consideram confiáveis nesse caso)? Os moradores têm meios disponíveis para se abastecer de outra cidade (não havendo, portanto, necessidade vital que justifique a leniência).
Esta quinta halachá do Perek Dalet traz uma nova Mishná: quem entra numa cidade sem conhecer ninguém e pergunta quem ali é confiável e quem dizima é acreditado por quem lhe disser "eu não sou confiável, mas Fulano é"; se foi comprar e perguntou quem vende produto velho, é acreditado por quem lhe disser "quem te enviou a mim", mesmo que os dois ajam como quem se favorecem mutuamente; mas os condutores de jumentos que entram juntos numa cidade e elogiam reciprocamente o produto um do outro não são confiáveis — exceto para Rabi Yehudá, que os considera confiáveis.
A guemará pergunta como uma só testemunha pode ser confiável nesse caso, e responde com Rabi Yochanan, que atribui a leniência ao hóspede à necessidade vital de se alimentar. Traz depois uma baraita sobre quem entra numa cidade ou permanece numa eira sem conhecer ninguém, com a disputa entre Rabán Shimon ben Gamliel (que permite perguntar tanto a um chaver quanto a um am haaretz) e Rabi (que exige perguntar somente a um chaver quanto à teruma) — disputa comparada à Mishná de Bechorot sobre a confiabilidade de pastores cohanim quanto a defeitos de animais primogênitos, e esclarecida pela distinção de Rabi Yona entre tomar para si e distribuir publicamente. Traz ainda outra baraita sobre grupos de pessoas e a confiabilidade de quem se declara confiável, conforme confirmado na presença ou na ausência do interessado, com uma dificuldade não resolvida contra a explicação de Rabi Yona. Fecha explicando as razões de Rabi Yehudá e dos sábios quanto aos condutores de jumentos: Rabi Yehudá pensa na subsistência dos moradores da cidade, que dependem desses fornecedores itinerantes, e os sábios respondem que os moradores têm como se abastecer em outra cidade.