Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Guimel · Halachá 7
פֵּאָה

"Terreno de qualquer tamanho": Rabi Akivá e as leis do doente em risco de vida que doa seus bens

Perek Guimel, Halachá 7 — sétima halachá do terceiro perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Esta halachá comenta uma nova Mishná, na qual Rabi Akivá ensina que qualquer terreno, por menor que seja, já obriga o dono à pe'á e aos bicurim, permite escrever sobre ele um prozbul e serve para adquirir junto com ele bens móveis sem garantia. A partir daí, a Mishná passa a tratar das leis do shechiv mera — o doente em risco de vida que distribui seus bens antes de morrer: se reserva para si um pouco de terreno, a doação vale mesmo que ele sobreviva; se não reserva nada, ela só vale se ele morrer daquela doença. A guemará, que é longa, primeiro discute o sentido exato de "terreno de qualquer tamanho" e sua ligação com a colheita, depois com a obrigação de comparecer ao Templo e de recitar a confissão dos dízimos, narra episódios sobre a proteção divina de quem sobe a Jerusalém nas festas, e por fim dedica-se extensamente às regras técnicas da doação do doente em risco de vida: o que conta como reserva válida, a diferença entre testamento e doação, se ele pode revogar uma doação já escrita, e o efeito de tudo isso sobre a ketubá da esposa.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

רִבִּי עֲקִיבָה אוֹמֵר קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא חַיֶיבֶת בְּפֵיאָה וּבְבִיכּוּרִים וְלִכְתוֹב עָלֶיהָ פְּרוֹזְבּוֹל וְלִקְנוֹת עִמָּהּ נְכָסִים שֶׁאֵין לָהֶן אַחֵרָיוּת בְּכֶסֶף וּבִשְׁטָר וּבַחֲזָקָה. הַכּוֹתֵב נְכָסָיו שְׁכִיב מְרָע שִׁיֵיר קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא מַתָּנָתוֹ קַיֶימֶת. לֹא שִׁיֵיר קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא אֵין מַתָּנָתוֹ קַיֶימֶת. הַכּוֹתֵב נְכָסָיו לְבָנָיו וְכָתַב לְאִשְׁתּו קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא אִבְּדָה כְתוּבָתָהּ. רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר אִם קִבְּלָה עָלֶיהָ אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא כָתַב לָהּ אִבְּדָה כְתוּבָתָהּ.

Mishná: Rabi Akivá diz: um terreno de qualquer tamanho (mesmo mínimo) é obrigado à pe'á e aos bicurim (as primícias), e serve para escrever sobre ele um prozbul (o documento que resguarda dívidas do cancelamento do ano sabático), e para adquirir junto com ele bens que não têm acharaiut (garantia real, isto é, bens móveis), por meio de dinheiro, documento ou chazaká (posse). Aquele que transfere por escrito os seus bens estando shechiv mera (doente em risco de vida), se reservou terreno de qualquer tamanho para si, a sua doação é válida (mesmo que ele se recupere); se não reservou terreno de qualquer tamanho, a sua doação não é válida (caso ele se recupere). Aquele que transfere seus bens a seus filhos e escreveu para a sua esposa apenas um terreno de qualquer tamanho, ela perdeu a sua ketubá (caso aceite a transferência). Rabi Yossei diz: se ela a aceitou, ainda que ele não tenha escrito para ela, ela perdeu a sua ketubá.

A Halachá · הֲלָכָה ז

01Uma única espiga: quando a obrigação de pe'á recai sobre ela
Yerushalmi · Peá 3:7
רִבִּי אִימִּי בְשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ בְּעֵי הַגַּע עַצְמָךְ שֶׁהָיָה שָׁם שִׁיבּוֹלֶת אַחַת עַד שֶׁלֹּא קָצַר אֵין כָּאן חִיּוּב מִשֶּׁקָּצַר אֵין כָּאן שִׁיּוּר. רִבִּי חֲנַנְיָה בְשֵׁם רִבִּי פִּינְחָס תִּיפְתָּר בְּשֶׁהָיָה שָׁם קֶלַח אֶחָד וּבוֹ חָמֵשׁ שִׁבּוֹלִים.

Rabi Imi, em nome de Rabi Shimon ben Lakish, perguntou: pensa bem — se ali houvesse apenas uma espiga, antes de ele colher não há obrigação ainda (pois a pe'á só se separa no momento da colheita), e a partir do momento em que ele colhe já não há nada a reservar (pois a espiga inteira foi cortada, sem sobra)! Rabi Chananiá, em nome de Rabi Pinchas, respondeu: explica-se o caso quando ali havia um único caule com cinco espigas (de modo que se pode cortar algumas e deixar outras como pe'á).

02Por que "terreno" e não "plantação em pé"
Yerushalmi · Peá 3:7
רִבִּי מָנָא בְּעֵי וְלֵיתְנָן אֲמַר קָמָה כָּל שֶׁהִיא חַיֶיבֶת בְּפֵיאָה אֶלָּא בְּגִין דְּתַנָּא בִּיכּוּרִים תַּנָּא קַרְקַע.

Rabi Maná perguntou: e que se ensinasse simplesmente: "plantação em pé de qualquer tamanho é obrigada à pe'á"! Responde-se: mas é porque a Mishná ensina também sobre os bicurim (que recaem sobre o solo, não sobre a plantação), por isso ensinou em termos de "terreno".

03Quem não tem terreno está isento da confissão dos dízimos
Yerushalmi · Peá 3:7
תַּנִּי וְהָרֵיאָיוֹן. רִבִּי יוֹסֵי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן מִי שֶׁאֵין לוֹ קַרְקַע פָּטוּר מִן הָרֵיאָיוֹן. רִבִּי מָנָא בְּעֵי וְלָמָּה לֵינָּן אָמְרִין מִי שֶׁאֵין לוֹ קַרְקַע פָּטוּר מִן הַוִּידּוּי דִּכְתִיב מִן הָאֲדָמָה אֲשֶׁר נָתַתָּ לָנוּ. רִבַּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר שְׁמוּעָתָה כֵּן מִי שֶׁאֵין לוֹ קַרְקַע פָּטוּר מִן הַוִּידּוּי דִּכְתִיב מִן הָאֲדָמָה אֲשֶׁר נָתַתָּ לָנוּ.

Foi ensinado numa versão antiga: "e o comparecimento ao Templo" (em vez de "e a confissão"). Rabi Yossei, em nome de Rabi Yochanan: quem não tem terreno está isento do comparecimento. Rabi Maná perguntou: e por que não dizemos antes: quem não tem terreno está isento da vidui (a confissão dos dízimos), pois está escrito: "da terra que nos deste" (Deuteronômio 26:15, associando a confissão à posse de terra)? Rabi Yossei filho de Rabi Bun, em nome de Rabi Yochanan, disse: assim de fato reza a sua tradição: quem não tem terreno está isento da vidui, pois está escrito: "da terra que nos deste".

04"Ninguém cobiçará tua terra": a proteção de quem sobe às festas
Yerushalmi · Peá 3:7
רִבִּי יוֹסֵי בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי מִי שֶׁאֵין לוֹ קַרְקַע פָּטוּר מִן הָרֵאָיָה שֶׁנֶּאֱמַר וְלֹא יַחְמוֹד אִישׁ אֶת אַרְצְךָ. מַעֲשֶׂה בְּאֶחָד שֶׁהִנִּיחַ אֶת כֶּרְיוֹ וּבָא וּמָצָא אֲרָיוֹת סוֹבְבִין אוֹתוֹ. מַעֲשֶׂה בְּאֶחָד שֶׁהִנִּיחַ בַּיִת שֶׁל תַּרְנוֹגַלִּין וּבָא וּמָצָא חֲתוּלוֹת מְקוּרָעִין לִפְנֵיהֶן. חַד בַּר נַשׁ שְׁבִיק בֵּיתֵיהּ פְּתִיחַ וַאֲתָא וַאֲשְׁכַּח חֲכִינָה כְּרִיכָה עַל קֶרְקֳסוֹי. רִבִּי פִינְחָס מִשְתָּעֵי הַדֵּין עוּבְדָּא. תְּרֵין אַחִין בְּאַשְׁקְלוֹן הֲווֹ לָהוּ מְגוּרִין נוּכְרָאִין אָמְרֵי כְדוֹן אִילֵּין יְהוּדָאֵי סָלְקִין לִירוּשָׁלֵם אֲנָן נָסְבִּין כָּל מַה דְּאִית לְהוֹן. מִן מַה דְּסָלְקוֹן זִימֵּן לָהֶן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַלְאָכִים נִכְנָסִין וְיוֹצְאִין בִּדְמוּתָן. מִן דְּנַחְתּוּן שָׁלְחוּן לוֹן מִקַּמָּן אֲמַר לוֹן אָן הֲוִיתוּן אֲמַר לוֹן בִּירוּשָׁלֵם. אֲמַר לוֹן מַאן שְׁבַקְתּוּן בְּגוֹ בֵיתָא אָמְרוּ וְלָא בַּר נַשׁ. אֲמַר בְּרִיךְ הוּא אֱלָהֵהוֹן דִּיהוּדָאֵי דְּלָא שְׁבָקוֹן וְלָא שְׁבִיק לְהוֹן.

Rabi Yossei, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: quem não tem terreno está isento do comparecimento ao Templo nas festas, pois está dito: "e ninguém cobiçará a tua terra" (Êxodo 34:24, promessa de proteção divina sobre as propriedades de quem sobe às festas — o que só se aplica a quem tem terra). Aconteceu com um homem que deixou desprotegida a sua meda de grãos e, ao voltar, encontrou leões rodeando-a sem tocá-la. Aconteceu com outro que deixou um galinheiro e, ao voltar, encontrou gatos dilacerados diante dele (mortos ao tentar entrar). Um homem deixou sua casa aberta e, ao voltar, encontrou uma cobra enrolada sobre o trinco de sua porta (protegendo-a). Rabi Pinchas contou este caso: dois irmãos em Ashkelon tinham vizinhos gentios, que disseram: agora que esses judeus estão subindo a Jerusalém, tomaremos tudo o que têm. Quando os irmãos subiram, o Santo, bendito seja, providenciou para eles anjos que entravam e saíam de sua casa com a aparência deles. Quando os irmãos desceram de volta, os vizinhos lhes enviaram presentes à sua frente. Os irmãos perguntaram: onde estivestes? Os vizinhos responderam: em Jerusalém. Os irmãos perguntaram: quem deixastes dentro da casa? Os vizinhos disseram: ninguém vimos lá. Os irmãos disseram: bendito seja o Deus dos judeus, que não os deixou agir contra nós e não nos abandonou.

05De onde se aprende que bens móveis se adquirem junto com terreno
Yerushalmi · Peá 3:7
מְנַיִין לִנְכָסִים שֶׁאֵין לָהֶן אַחֵרָיוּת שֶׁהֵם נִקְנִים עִם נְכָסִים שֶׁיֵּשׁ לָהֶם אַחֵרָיוּת בְּכֶסֶף וּבִשְׁטָר וּבַחֲזָקָה. רִבִּי יוֹסֵי בְשֵׁם חִזְקִיָּה רִבִּי יוֹנָה רִבִּי חֲנִינָא תִּירְתָּיָיה בְשֵׁם חִזְקִיָּה כְּתִיב וַיִּתֵּן לָהֶם אֲבִיהֶם מַתָּנוֹת רַבּוֹת לְכֶסֶף וּלְזָהָב וּלְמִגְדָּנוֹת עִם עָרִים בְּצוּרוֹת בִּיהוּדָה. עַד כְדוֹן כְּשֶׁהָיָה קַרְקַעוֹת עִם הַמְּטַלְטְלִין בְּמָקוֹם אֶחָד. הָיוּ קַרְקַעוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד וּמְטַלְטְלִין בְּמָקוֹם אֶחָד. אָמַר רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא נִשְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא אָמַר לָהֶן רִבִּי אֱלִיעֶזֶר מַעֲשֶׂה בִּמְדוֹנִי אֶחָד שֶׁהָיָה בִּירוּשָׁלֵם וְהָיוּ לוֹ מְטַלְטְלִין הַרְבֵּה וּבִיקֵּשׁ לְחַלְּקָן לִיתְּנָן בְּמַתָּנָה אָמְרוּ לוֹ אֵין אַתְּ יָכוֹל אֶלָּא אִם כֵּן קָנִיתָ קַרְקַע. מֶה עָשָׂה הָלַךְ וְקָנָה סֶלַע אֶחָד בְּצַד יְרוּשָׁלֵם וְאָמַר חֶצְיָיהּ צְפוֹנִי אֲנִי נוֹתֵן לִפְלוֹנִי עִם מֵאָה חָבִיּוֹת שֶׁל יַיִן. חֶצְיָיהּ דְּרוֹמִי אֲנִי נוֹתֵן לִפְלוֹנִי עִם מֵאָה חָבִיּוֹת שֶׁל שֶׁמֶן. וּבָא מַעֲשֶׂה לִפְנֵי חֲכָמִים וְקִיְימוּ אֶת דְּבָרָיו. אָמַר רִבִּי חֲנַנְיָה קוֹמֵי רִבִּי מָנָא וְלָאו שְכִיב מְרָע הוּא. לְפִי שֶׁבְכָל מָקוֹם אֵין אָדָם מְזַכֶּה אֶלָּא בִּכְתָב. וְכָאן אֲפִילוּ בִדְבָרִים. לְפִי שֶׁבְכָל מָקוֹם אֵין אָדָם מְזַכֶּה עַד שֶיְהוּ קַרְקַעוֹת וּמְטַלְטְלִין בְּמָקוֹם אֶחָד. וְכָאן אֲפִילוּ קַרְקַעוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד וּמְטַלְטְלִין בְּמָקוֹם אַחֵר. אֲמַר לֵיהּ לָא רִבִּי אֱלִיעֶזֶר שַׁנְיָיא הִיא שְכִיב מְרָע דְּרִבִּי אֱלִיעֶזֶר כְּבָרִיא דְּרַבָּנָן.

De onde se aprende que bens que não têm acharaiut (garantia — isto é, bens móveis) se adquirem junto com bens que têm acharaiut (terreno) por meio de dinheiro, documento ou chazaká? Rabi Yossei, em nome de Chizkiá; Rabi Yoná, Rabi Chanina Tirtaiá, em nome de Chizkiá: está escrito: "e seu pai lhes deu muitos presentes, de prata e de ouro e de coisas preciosas, junto com cidades fortificadas em Judá" (2 Crônicas 21:3, unindo o dom de bens móveis ao de cidades). Isso, porém, é apenas quando o terreno estava com os móveis no mesmo lugar. Mas e quando o terreno estava num lugar e os móveis noutro? Rabi Bun bar Chiyá disse: aprendamos a resposta disto: Rabi Eliezer disse-lhes: aconteceu com um homem de Madon que estava em Jerusalém e tinha muitos bens móveis, e quis distribuí-los, dá-los como presente. Disseram-lhe: não podes fazer isso, a menos que adquiras terreno primeiro. O que ele fez? Foi e comprou um sela de terra (uma pequena porção, do tamanho de uma moeda de sela) ao lado de Jerusalém, e disse: a metade norte dele dou a fulano, junto com cem barris de vinho; a metade sul dele dou a sicrano, junto com cem barris de azeite. E o caso veio perante os sábios, e eles confirmaram as suas palavras. Rabi Chananiá disse diante de Rabi Maná: mas não era ele shechiv mera? Pois em todo lugar a regra é que ninguém transfere bens a outrem exceto por escrito, e aqui ele o fez até mesmo por meras palavras! E em todo lugar a regra é que ninguém transfere bens móveis a outrem a menos que o terreno e os móveis estejam no mesmo lugar, e aqui até havia terreno num lugar e móveis noutro! Rabi Maná respondeu-lhe: não, Rabi Eliezer é diferente, pois o shechiv mera segundo Rabi Eliezer é como o homem saudável segundo os sábios (isto é, Rabi Eliezer não distingue as leis do doente das do saudável, sendo por isso mais rigoroso em ambos os casos).

06O sentido de "bom": uma pérola escondida sob a espiga
Yerushalmi · Peá 3:7
תַּמָּן תַּנֵּינָן קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא חַיָיב בְּפֵיאָה וּבְבִיכּוּרִים. קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא מַהוּ טָב. אָמַר רִבִּי מַתַּנְיָה תִּיפְתָּר שֶׁהָיָה שָׁם מָקוֹם שִׁיבּוֹלֶת אַחַת וּמַרְגְלִית טְמוּנָה בוֹ.

Ali (em outro contexto, tratado de Baba Batra) foi ensinado também: "terreno de qualquer tamanho é obrigado à pe'á e aos bicurim". Pergunta-se: "terreno de qualquer tamanho" a se adquirir junto com móveis distantes — para que serve tal aquisição, sendo o terreno tão insignificante? Disse Rabi Matnia: explica-se o caso quando ali havia espaço para uma única espiga, mas uma pérola estava escondida nele (de modo que o "terreno mínimo" ainda tem valor real, justificando servir de base para a aquisição).

07Quem é considerado shechiv mera
Yerushalmi · Peá 3:7
אֵי זֶהוּ שְׁכִיב מְרָע כָּל שֶׁלֹּא קָפַץ עָלָיו הַחוֹלִי. דֶּרֶךְ הָאָרֶץ הַקְּרוֹבִים נִכְנָסִין אֶצְלוֹ מִיַּד. וְהָרְחוֹקִים נִכְנָסִין אֶצְלוֹ לְאַחַר שְׁלֹשָׁה יָמִים. אִם קָפַץ עָלָיו הַחוֹלִי אֵילּוּ וְאֵילּוּ נִכְנָסִין אֶצְלוֹ מִיַּד. דֵּלֹמָה רִבִּי חוּנָא רִבִּי פִּינְחָס רִבִּי חִזְקִיָּה סָלְקוּן מְבַקְּרָה לְרִבִּי יוֹסֵי בָּתָר תְּלָתָא יוֹמִין. אָמַר לוֹן בִּי בְעִיתוּן מְקַיימָה מַתְנִיתָא.

Quem é shechiv mera? Qualquer um sobre quem a doença não caiu de repente (isto é, adoeceu gradualmente). Nesse caso, segundo o costume, os parentes próximos entram para visitá-lo de imediato, e os distantes entram para visitá-lo depois de três dias. Se a doença caiu sobre ele de repente, tanto estes como aqueles entram para visitá-lo de imediato. Um caso, por exemplo: Rabi Chuna, Rabi Pinchas e Rabi Chizkiá subiram para visitar Rabi Yossei depois de três dias. Ele disse-lhes: quisestes sustentar em mim a baraita (isto é, tratar-me como visitante distante, para confirmar a norma, embora fôsseis tão próximos a mim quanto parentes)?

08A validade da doação conforme reservar ou não terreno
Yerushalmi · Peá 3:7
שִׁיֵיר קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא מַתָּנָתוֹ קַיֶימֶת וַאֲפִילוּ לֹא הִבְרִיא. לֹא שִׁיֵיר קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא אֵין מַתָּנָתוֹ קַיֶימֶת וְהוּא שֶׁהִבְרִיא.

Se ele reservou terreno de qualquer tamanho para si, a sua doação é válida, mesmo que ele não se recupere (ou seja, vale mesmo que ele venha a morrer). Se ele não reservou terreno de qualquer tamanho, a sua doação não é válida — e isso só se aplica se ele se recuperar (pois, se ele morrer daquela doença, a doação vale de qualquer modo).

09Palavras do doente valem como as do saudável, se ele morrer daquela doença
Yerushalmi · Peá 3:7
רִבִּי בָּא רַב הוּנָא בְשֵׁם רַב עָשׂוּ דִבְרֵי שְׁכִיב מְרָע כְּבָרִיא שֶׁכָּתַב וְנָתַן וְהוּא שֶמֵּת מֵאוֹתוֹ הַחוֹלִי. הָא אִם הִבְרִיא לֹא. וּבִמְסַיֵים וּבְאָמַר תְּנוּ שָׂדֶה פְּלוֹנִי לִפְלוֹנִי. אָמַר תְּנוּ חֲצִי שָׂדֶה פְּלוֹנִי לִפְלוֹנִי וַחֲצִי שָׂדֶה פְּלוֹנִי לִפְלוֹנִי כְּמִי שֶׁסִּיֵּים אוֹ עַד שֶׁיֹּאמַר חֶצְיָיהּ בַצָּפוֹן וְחֶצְיָיהּ בַּדָּרוֹם.

Rabi Ba, Rav Chuna, em nome de Rav: os sábios tornaram as palavras do shechiv mera como as de um homem saudável — isto é, válidas mesmo oralmente, sem ato formal de aquisição — quando ele escreveu e entregou o documento, e desde que ele morra daquela mesma doença; mas se ele se recuperar, a doação não vale por mera palavra. E isso vale apenas quando ele especifica com clareza e diz: dai o campo tal a fulano. Mas se disse: dai a metade do campo tal a fulano e a metade do campo tal a sicrano — isso conta como se tivesse especificado, ou é preciso que ele diga: a sua metade norte a um e a sua metade sul ao outro?

10Reservar móveis não vale; reservar terreno, sim
Yerushalmi · Peá 3:7
רִבִּי בִּינָא בְשֵׁם רִבִּי יִרְמְיָה שִׁיֵיר מְטַלְטְלִין לֹא עָשָׂה כְּלוּם. אֲתָא חֲמִי שִׁיֵיר קַרְקַע כָּל שֶׁהוּא יֵשׁ לוֹ מִחְיָיה. שִׁיֵיר אֲבָנִים טוֹבוֹת וּמַרְגָלִיּוֹת אֵין לוֹ מִיחְיָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי יוֹדֵעַ הוּא הָאִישׁ הַזֶּה שֶׁשְּׁכִיב מְרָע מְזַכֶּה אֲפִילוּ בִדְבָרִים לְאֵי זֶה דָּבָר כָּתַב בָּהֶן קִנְיָין כְּדֵי לַעֲשׂוֹת מַתְּנַת בָּרִיא.

Rabi Bina, em nome de Rabi Irmiá: se ele reservou apenas móveis para si, não fez nada (a reserva não vale, pois só o terreno conta). Vem e observa a dificuldade nisso: se ele reservou terreno de qualquer tamanho, ele tem com que se sustentar (daí a doação valer); mas se reservou pedras preciosas e pérolas, diz-se que ele não tem com que se sustentar — o que é estranho, pois pérolas valem mais que um pedaço mínimo de terra! Disse Rabi Yossei: este homem que só reservou móveis, mas ainda assim fez um documento formal de doação, sabia que o shechiv mera transfere bens até mesmo por meras palavras; então por que razão escreveu neles um ato formal de kinian (aquisição)? Para fazer dela uma doação válida como a de um homem saudável (e não como shechiv mera — daí não se aplicar a regra de reserva de terreno).

11Reservar escravos: tradição não esclarecida
Yerushalmi · Peá 3:7
שִׁיֵיר עֲבָדִים תַּנָּא רִבִּי יוֹדָן בַּר פָּזִי דְּבַר דְּלָיָא וְלָא יָדְעִין מַה תַּנָּה.

Quanto a se ele reservou escravos para si — o que vale? Rabi Yudan bar Pazi ensinou algo a esse respeito, mas foi uma coisa transmitida de modo obscuro, e não sabemos o que ele ensinou.

12Se ele escreveu para um e depois para outro: pode revogar?
Yerushalmi · Peá 3:7
כָּתַב לָזֶה וְחָזַר וְכָתַב לָזֶה. רַב אָמַר אֵינוּ יָכוֹל לַחְזוֹר בּוֹ. רַב אַבָּא בַּר חוּנָא וְרִבִּי יוֹחָנָן אָמַר יָכוֹל לַחְזוֹר בּוֹ. הֵיךְ עֲבִידָא הָיָה רַבּוֹ הָרִאשׁוֹן וְהַשֵּׁינִי כֹּהֵן הַשְּׁלִישִׁי יִשְׂרָאֵל עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרַב אֵין יָכוֹל לוֹכַל בִּתְרוּמָה עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרַב אַבָּא בַּר הוּנָא אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן יָכוֹל הוּא לוֹכַל בִּתְרוּמָה. הַכֹּל מוֹדִין שֶׁאִם הָיָה רַבּוֹ הָרִאשׁוֹן יִשְׂרָאֵל אֵינוֹ אוֹכֵל בִּתְרוּמָה שֶׁמָּא יַבְרִיא.

Se ele escreveu uma doação para este e depois voltou atrás e escreveu outra para aquele — Rav disse: ele não pode revogar a primeira. Rav Abá bar Chuna e Rabi Yochanan disseram: ele pode revogá-la. Como se dá o caso concretamente? Trata-se de um escravo cujo primeiro senhor e o beneficiário da segunda doação eram cohanim, e o beneficiário da primeira doação era Israel (não cohen): segundo a opinião de Rav, o escravo não pode comer da terumá (pois a segunda doação prevalece, e seu novo dono não é cohen); segundo a opinião de Rav Abá bar Chuna, em nome de Rabi Yochanan, ele pode comer da terumá (pois a primeira doação, a um cohen, ainda vale). Todos concordam que, se o primeiro senhor designado era Israel, o escravo não come da terumápois, embora a segunda doação seja a um cohen, teme-se que o doente venha a se recuperar e a doação toda seja anulada, restando o escravo pertencente ao primeiro, que é Israel.

13A baraita que apoia a opinião de que se pode revogar
Yerushalmi · Peá 3:7
רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן בְּשֵׁם רַב חוּנָא מַתְנִיתִין מְסַיְיעָה לְרַב אַבָּא בַּר הוּנָא וְרִבִּי יוֹחָנָן בָּרִיא שֶׁכָּתַב דִּיָיתֵיקֵי וּשְׁכִיב מְרָע שֶׁכָּתַב מַתָּנָה חוֹזֵר בּוֹ. בָּרִיא שֶׁכָּתַב דִּיָיתֵיקֵי חוֹזֵר בּוֹ וְלֹא עוֹד הוּא בָּרִיא וְדִכְוָותָהּ שְׁכִיב מְרָע שֶׁכָּתַב מַתָּנָה חוֹזֵר בּוֹ וְלֹא עוֹדֵהוּ שְׁכִיב מְרָע.

Rabi Yossei bei Rabi Bun, em nome de Rav Chuna: uma baraita apoia Rav Abá bar Chuna e Rabi Yochanan: o homem saudável que escreveu um diatiki (testamento) e o shechiv mera que escreveu uma doação podem revogar. O homem saudável que escreveu um diatiki pode revogá-lo — e não somente enquanto está doente, mas mesmo enquanto ainda está saudável; e da mesma forma, o shechiv mera que escreveu uma doação pode revogá-la — e não somente depois de melhorar, mas mesmo enquanto ainda é shechiv mera.

14A diferença entre testamento e doação
Yerushalmi · Peá 3:7
אֵי זוּ הִיא דִּיָיתֵיקֵי. תְּהֵא לִי לִהְיוֹת וְלַעֲמוֹד. וְאִם מֵתִי יִינָּתְנוּ נְכָסַיי לִפְלוֹנִי. אֵי זוּ הִיא מַתָּנָה. הֲרֵי כָּל נְכָסַי נְתוּנִין לִפְלוֹנִי מַתָּנָה מֵעַכְשָׁיו וְשֶׁתְּהֵא כָתוּב בָּהּ מֵהַיּוֹם.

O que é um diatiki (testamento)? Aquele em que se escreve: que este documento me sirva para viver e me recuperar; e, se eu morrer, que os meus bens sejam dados a fulano. O que é uma doação? Aquela em que se diz: eis que todos os meus bens são dados a fulano como doação a partir de agora — e é preciso que nela esteja escrito "a partir de hoje".

15O caso da irmã de Rabi Gurin: pode-se revogar uma doação "a partir de hoje"?
Yerushalmi · Peá 3:7
אַחְתֵּיהּ דְּרִבִּי גּוּרִין כְּתָבָת נִיכְסֵי לְאַחֲוָהּ וּסְלַק אַחוֹי רַבָּא פִּיְיסָהּ וּכְתָבָת לֵיהּ. אֲתָאי עוּבְדָּא קוֹמוֹי רִבִּי אִימִּי אָמַר כֵּן אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן חוֹזֵר בּוֹ. אָמַר רִבִּי זְעִירָא לֹא מוֹדֵי רִבִּי יוֹחָנָן שֶׁאִם הָיָה כָּתוּב בָּהּ מֵהַיּוֹם שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לַחְזוֹר בּוֹ. אֲתָא רִבִּי אַבָּהוּ בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן אֵינוֹ יָכוֹל לַחְזוֹר בּוֹ. אֲתָא רִבִּי לָא בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן אֵינוֹ יָכוֹל לַחְזוֹר בּוֹ. וְאַנְהָר רִבִּי אִימִּי וְחָזַר עוּבְדָּא.

A irmã de Rabi Gurin escreveu uma doação de seus bens a seu irmão mais novo; então subiu até ela seu irmão mais velho, apaziguou-a, e ela escreveu uma nova doação a ele. O caso veio perante Rabi Imi, que disse: assim disse Rabi Yochanan — ela pode revogar (a primeira doação). Disse Rabi Zeirá: mas não concorda Rabi Yochanan que, se estivesse escrito nela "a partir de hoje", ela não poderia revogá-la? Veio Rabi Abahu e disse, em nome de Rabi Yochanan: ela não pode revogá-la. Veio Rabi Lá e disse, em nome de Rabi Yochanan: ela não pode revogá-la. E Rabi Imi se esclareceu com essas tradições, e o caso julgado por ele foi revertido.

16Como a esposa perde a ketubá: aceitar ou testemunhar a partilha
Yerushalmi · Peá 3:7
רַב אָמַר בִּמְזַכֶּה עַל יָדֶיהָ. וּשְׁמוּאֵל אָמַר בִּמְחַלֵּק לְפָנֶיהָ. רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָא אָמַר מִקּוּלֵּי כְּתוּבָה שָׁנוּ כָּן. וְכֵן תַּנִּי בַּר קַפָּרָא מִקּוּלֵּי כְּתוּבָה שָׁנוּ. אָמַר רִבִּי בָּא טַעְמָא דְּרִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָא לֹא סוֹף דָּבָר בִּכְתוּבַּת מָנֶה וּמָאתַיִם אֶלָּא אֲפִילוּ כְּתוּבָה שֶׁל אֶלֶף דִּינָר מִקּוּלֵּי כְּתוּבָה שָׁנוּ.

Rav disse: a Mishná fala do caso em que o marido a torna a esposa a agente da transferência aos filhos (ela mesma realiza o ato de aquisição em nome deles, o que demonstra sua concordância). E Shmuel disse: fala do caso em que ele reparte os bens na presença dela (e ela não protesta). Rabi Yossei ben Chanina disse: os sábios ensinaram aqui uma das leis de leniência da ketubá (pois normalmente se exige mais para anular um direito). E assim ensinou bar Kapara: os sábios ensinaram aqui uma das leis de leniência da ketubá. Disse Rabi Ba: a razão de Rabi Yossei ben Chanina não se limita a uma ketubá de uma maneh (cem zuz) ou de duzentos zuz (as somas padrão da ketubá), mas mesmo uma ketubá de mil dinares de ouro — também nela ensinaram os sábios uma das leis de leniência da ketubá.

Nota

Esta sétima halachá do Perek Guimel comenta uma nova Mishná, na qual Rabi Akivá ensina que um terreno de qualquer tamanho, por menor que seja, já basta para obrigar o proprietário à pe'á e aos bicurim, para servir de base à redação de um prozbul, e para permitir a aquisição simultânea de bens móveis sem garantia real. A Mishná passa então às leis do shechiv mera — o doente em risco de vida que transfere seus bens por escrito antes de morrer: se ele reserva para si um pouco de terreno, a doação permanece válida mesmo que ele se recupere; se não reserva nada, ela só permanece válida caso ele de fato morra daquela doença. A Mishná fecha com o caso de quem transfere os bens aos filhos, deixando à esposa apenas um terreno mínimo — ato que, se ela o aceitar, implica a perda da sua ketubá, segundo Rabi Yossei mesmo sem documento formal.

A guemará, bastante extensa, percorre vários planos. Primeiro, discute o sentido técnico de "terreno de qualquer tamanho" e sua relação com o ato de colheita — mostrando, por meio de um caso de caule com cinco espigas, como mesmo uma área mínima pode gerar obrigação de pe'á. Em seguida, explica por que a Mishná fala em "terreno" e não em "plantação em pé", por causa da conexão com os bicurim. Passa então a tratar da obrigação de comparecer ao Templo nas três festas de peregrinação e de recitar a confissão dos dízimos (vidui), estabelecendo que quem não possui terreno está isento de ambas — trazendo, a propósito da promessa de proteção divina sobre as propriedades de quem sobe a Jerusalém, uma série de relatos sobre animais e vizinhos hostis que se abstiveram de tocar nos bens dos peregrinos, incluindo a bela história dos dois irmãos de Ashkelon protegidos por anjos disfarçados. A guemará dedica-se longamente às leis técnicas da doação do shechiv mera: de onde se aprende que bens móveis se adquirem junto com terreno; o episódio do homem de Madon, que comprou um pedaço mínimo de terra perto de Jerusalém para poder distribuir formalmente seus muitos bens móveis; a distinção entre reservar terreno (que valida a doação) e reservar apenas bens móveis, pedras preciosas ou escravos (cujo efeito é discutido ou permanece obscuro); se o doente pode revogar uma doação já escrita ao mudar de beneficiário, com a controvérsia entre Rav, de um lado, e Rav Abá bar Chuna e Rabi Yochanan, de outro; a diferença formal entre um "diatiki" (testamento condicional à morte) e uma "mataná" (doação plena, que exige a cláusula "a partir de hoje"); o caso concreto da irmã de Rabi Gurin, que escreveu e depois reescreveu a doação de seus bens entre dois irmãos; e, por fim, o efeito de tudo isso sobre a ketubá da esposa, explicado por Rav e Shmuel de formas distintas e classificado por Rabi Yossei ben Chanina e bar Kapara como uma das leis de leniência aplicadas à ketubá, válida mesmo para somas elevadas.