Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Hei · Halachá 6
פֵּאָה

O feixe esquecido pelos trabalhadores mas não pelo dono, e pelo dono mas não pelos trabalhadores; os pobres parados diante dele; e o cego que esquece

Perek Hei, Halachá 6 — sexta halachá do quinto perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Esta sexta halachá do Perek Hei traz uma nova Mishná sobre o feixe de cereal esquecido: se os trabalhadores o esqueceram mas o dono de casa não o esqueceu, ou se o dono de casa o esqueceu mas os trabalhadores não o esqueceram, ou se os pobres já estavam parados diante dele, ou se ele foi coberto de palha, em nenhum desses casos há esquecimento; Rabi Shimon ben Yehudá, em nome de Rabi Shimon, estende a regra até a arrieiros que passam pelo caminho e avistam um feixe esquecido pelos trabalhadores mas não pelo dono — não é esquecimento, até que todos o esqueçam. A guemará deriva as duas primeiras cláusulas de dois versículos bíblicos distintos, examina o caso de quem, estando na cidade ou estando no próprio campo, afirma saber da existência de feixes esquecidos em determinado lugar, estende por Rabi Zeirá em nome de Shmuel o mesmo princípio ao achado, discutindo a condição de poder tocar os feixes mesmo dentro do próprio campo, e fecha com o caso do cego que esquece — que tem esquecimento — e a distinção, segundo Rabi Yoná, entre ele e quem está totalmente coberto de palha.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

הָעוֹמֶר שֶׁשְּׁכָחוּהוּ פוֹעֲלִים וְלֹא שְׁכָחוֹ בַּעַל הַבַּיִת שְׁכָחוֹ בַּעַל הַבַּיִת וְלֹא שְׁכָחוּהוּ פוֹעֲלִים עָמְדוּ הָעֲנִיִים בְּפָנָיו אוֹ שֶׁחִיפּוּהוּ בְקַשׁ הֲרֵי זֶה אֵינוֹ שִׁכְחָה.

Mishná: O feixe que os trabalhadores esqueceram, mas o dono de casa não o esqueceu (pois ele, ao contrário deles, ainda se lembrava dele); ou que o dono de casa esqueceu, mas os trabalhadores não o esqueceram (pois eles, ao contrário dele, ainda se lembravam dele); ou os pobres já estavam parados diante dele (antes mesmo de o dono ou os trabalhadores se afastarem do local, de modo que ele nunca chegou a ficar sem vigilância); ou ele foi coberto de palha (de modo que ninguém sabia mais de sua existência ali) — eis que, em qualquer um desses casos, isso não é esquecimento (não se aplica a esse feixe a lei do esquecimento devido aos pobres).

A Halachá · הֲלָכָה ו

01As duas primeiras cláusulas derivadas de dois versículos distintos; a extensão de Rabi Shimon ben Yehudá em nome de Rabi Shimon aos arrieiros do caminho
Yerushalmi · Peá 5:6
הָעוֹמֶר שֶׁשְּׁכָחוּהוּ פוֹעֲלִין וְלֹא שְׁכָחוֹ בַּעַל הַבַּיִת אֵינוֹ שִׁכְחָה דִּכְתִיב קְצִירְךָ וְשָׁכַחְתָּ. שְׁכָחוֹ בַּעַל הַבַּיִת וְלֹא שְׁכָחוּהוּ פוֹעֲלִים אֵינוֹ שִׁכְחָה דִּכְתִיב כִּי תִקְצוֹר וְשָׁכַחְתָּ. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יְהוּדָה אוֹמֵר מִשֵּׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן אֲפִילוּ חַמָּרִין שֶׁהֵן עוֹבְרִין בַּדֶּרֶךְ וְרָאוּ עוֹמֶר אֶחָד שֶׁשְּׁכָחוּהוּ פוֹעֲלִים וְלֹא שְׁכָחוֹ בַּעַל הַבַּיִת אֵינוֹ שִׁכְחָה עַד שֶׁיִּשְׁכְּחוּהוּ כָּל אָדָם.

O feixe que os trabalhadores esqueceram, mas o dono de casa não o esqueceu, não é esquecimento, pois está escrito: "a tua colheita (קְצִירְךָ), e esqueceres" (Deuteronômio 24:19 — o versículo fala do dono, "a tua colheita", de modo que basta que ele, o dono, não tenha esquecido, para que o feixe não fique sujeito ao esquecimento, ainda que os trabalhadores o tenham esquecido).

O dono de casa que esqueceu, mas os trabalhadores não o esqueceram, não é esquecimento, pois está escrito: "quando ceifares (כִּי תִקְצוֹר), e esqueceres" (o mesmo versículo, lido agora pela cláusula da ceifa em si, realizada pelos trabalhadores — de modo que basta que eles, os que efetivamente ceifam, não tenham esquecido, para que o feixe não fique sujeito ao esquecimento, ainda que o dono o tenha esquecido; os dois versículos, um voltado ao dono e outro à ceifa, ensinam que o esquecimento só se completa quando tanto o dono quanto os trabalhadores esqueceram).

Rabi Shimon ben Yehudá diz em nome de Rabi Shimon: mesmo arrieiros que passam pelo caminho, e viram um feixe que os trabalhadores esqueceram mas o dono de casa não o esqueceu (sendo, portanto, eles próprios, os arrieiros, os únicos que de fato "esqueceram" aquele feixe, no sentido de que já não pensam mais nele ao seguir seu caminho), não é esquecimento, até que todo o mundo o esqueça (pois enquanto ainda houver alguém — seja o dono, sejam os trabalhadores, sejam mesmo estranhos que passaram e o notaram — que ainda tenha o feixe em mente, ele não se considera esquecido; a lei da pe'á e do esquecimento aplica-se apenas quando literalmente ninguém mais se lembra daquele feixe).

02Quem está na cidade ou no campo afirmando saber de feixes esquecidos em determinado lugar; a extensão de Rabi Zeirá em nome de Shmuel ao achado, e a condição de poder tocar os feixes
Yerushalmi · Peá 5:6
הָיָה עוֹמֵד בָּעִיר וְאוֹמֵר יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁהַפּוֹעֲלִין שְׁכֵיחִין עוֹמָרִין שֶׁבְּמָקוֹם פְּלוֹנִי וּשְׁכָחוּהוּ אֵינוֹ שִׁכְחָה. הָיָה עוֹמֵד בַּשָּׂדֶה וְאָמַר יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁהַפּוֹעֲלִין שְׁכֵיחִין עוֹמָרִין שֶׁבְּמָקוֹם פְּלוֹנִי הֲרֵי זוּ שִׁכְחָה שֶׁנֶּאֱמַר בַּשָּׂדֶה וְשָׁכַחְתָּ וְלֹא בָּעִיר וְשָׁכַחְתָּ. רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם שְׁמוּאֵל אַף לְעִנְיָין מְצִיאָה כֵן. מַה נָן קַיָימִין אִם בְּיָכוֹל לִיגַּע בָּהֶן בְּתוֹךְ הָעִיר אֲפִילוּ בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ. רִבִּי אַבָּא בַּר כַּהֲנָא רִבִּי יָסָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן וְהוּא שֶׁיָּכוֹל לִיגַּע בָּהֶן אֲפִילוּ בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ.

Se ele (o dono) estava parado na cidade e disse: "sei que os trabalhadores esqueceram feixes em tal lugar" — e eles (os feixes) foram de fato esquecidos (pelos trabalhadores) — isso não é esquecimento (pois, ainda estando na cidade, o próprio dono já demonstrou, com essa afirmação, que ele mesmo não esqueceu os feixes, e por isso a lei não se aplica).

Se ele estava parado no campo e disse: "sei que os trabalhadores esqueceram feixes em tal lugar" — eis que isso é esquecimento (apesar de ele também aqui saber e lembrar-se dos feixes), pois está dito: "no campo, e esqueceres" (Deuteronômio 24:19), e não "na cidade, e esqueceres" (de modo que só a lembrança do dono estando fisicamente no campo é que impede o esquecimento; a mesma lembrança, quando ele está na cidade, já não basta para impedi-lo, e o feixe permanece esquecido para os pobres, apesar de o dono ainda ter conhecimento dele).

Rabi Zeirá em nome de Shmuel: também quanto ao achado (objeto perdido) se aplica isso mesmo (a mesma distinção entre estar na cidade e estar no campo determina se o dono ainda tem posse legal sobre um objeto seu que se perdeu dentro do seu próprio campo). Sobre o que estamos tratando (qual é exatamente o caso discutido)? Se ele pode tocá-los (os feixes, ou o objeto perdido) mesmo estando dentro da cidade, mesmo assim (a regra se aplicaria) dentro do seu próprio campo (ou seja: mesmo quando, estando na cidade, o dono poderia fisicamente alcançar e tocar os feixes que estão em seu campo — o que a princípio bastaria para lhe garantir a posse —, ainda assim, uma vez que ele esteja fisicamente dentro do próprio campo, a regra específica de "no campo, e esqueceres" prevalece e determina o esquecimento, mesmo que ele soubesse e ainda tivesse em mente os feixes).

Rabi Abá bar Kahana e Rabi Yasa em nome de Rabi Yochanan: e é preciso que ele possa tocá-los, mesmo estando dentro do seu próprio campo (ou seja, a condição de "poder tocar" — que em geral garante a posse sobre um objeto perdido ou esquecido — deve ser satisfeita mesmo quando o dono já está fisicamente dentro do seu campo; não basta a mera proximidade física do campo, é necessário que ele efetivamente possa alcançar e tocar os feixes específicos em questão, para que a regra da posse, e não a do esquecimento, prevaleça).

03O caso de estar totalmente coberto de palha; o cego que esquece tem esquecimento; a distinção de Rabi Yoná
Yerushalmi · Peá 5:6
הָיָה כּוּלּוֹ מְחוּפֶּה בְקַשׁ. נִשְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא וְכֵן הַסּוּמָא שֶׁשָּׁכַח יֵשׁ לוֹ שִׁכְחָה. וְסוּמָא לֹא כְּמִי שֶׁכּוּלּוֹ בְקַשׁ מְחוּפֶּה הוּא. רִבִּי יוֹנָה אָמַר בְּזוֹכֵר אֶת הַקַּשִּׁים. אֲתָא דְּרִבִּי יוֹנָה כְּרִבִּי זְעִירָא כְּמַה דְּרִבִּי זְעִירָא אָמַר בְּזוֹכֵר אֶת הָעֶלְיוֹן כֵּן רִבִּי יוֹנָה אָמַר בְּזוֹכֵר אֶת הַקַּשִּׁים.

Se ele (o feixe) estava totalmente coberto de palha (caso mencionado na Mishná, em que também não há esquecimento, pois estando oculto sob a palha ele não se considera "abandonado" pelo dono no sentido exigido pela lei). Ouçamos disto (desta mesma Mishná, por meio de uma inferência): também o cego que esqueceu tem esquecimento (ou seja, quando um dono cego esquece um feixe no campo, esse feixe fica sujeito à lei do esquecimento em favor dos pobres, tal como se um dono vidente o tivesse esquecido — e isso se aprende, por comparação, do próprio caso do feixe coberto de palha mencionado na Mishná).

Mas o cego não é como aquele que está totalmente coberto de palha (a comparação não é exata: pareceria que, assim como o feixe coberto de palha fica oculto e por isso escapa à lei do esquecimento, também o feixe "oculto" aos olhos do cego — que não pode vê-lo — deveria escapar dessa lei; mas isso não procede, pois o cego, ainda que não veja o feixe, sabe de sua existência e de sua localização por outros meios, e por isso, ao contrário do feixe totalmente encoberto, ele pode de fato "esquecê-lo" no sentido pleno exigido pela lei).

Disse Rabi Yoná: o caso do feixe coberto de palha, que a Mishná isenta do esquecimento, refere-se a quando o dono se lembra da palha (ou seja, ele sabe e se lembra de que ali há um monte de palha, mas não sabe, por causa disso, que há um feixe de cereal escondido debaixo dela — sendo esse o motivo pelo qual esse feixe específico não se considera esquecido: não por estar fisicamente oculto, mas porque o dono nunca teve, quanto a ele, a plena consciência que a lei do esquecimento pressupõe).

O ensinamento de Rabi Yoná segue o de Rabi Zeirá: assim como Rabi Zeirá disse (a respeito de outro caso semelhante) que se trata de quando o dono se lembra do que está por cima (mas não do que está oculto por baixo), assim também Rabi Yoná disse que se trata de quando o dono se lembra da palha (mas não do feixe que ela encobre) — ambos ensinando o mesmo princípio: que a isenção do esquecimento, nesses casos, decorre não da ocultação física em si, mas da lembrança parcial do dono, que basta para excluir o esquecimento pleno exigido pela lei.

Nota

Esta sexta halachá do Perek Hei traz uma nova Mishná sobre o feixe esquecido: se os trabalhadores o esqueceram mas o dono não, ou se o dono o esqueceu mas os trabalhadores não, ou se os pobres já estavam parados diante dele, ou se ele foi coberto de palha, em nenhum desses casos há esquecimento; Rabi Shimon ben Yehudá, em nome de Rabi Shimon, estende essa regra até a arrieiros que passam pelo caminho e avistam o feixe — não há esquecimento até que literalmente todos o esqueçam. A guemará deriva as duas primeiras cláusulas de dois versículos distintos, um voltado ao dono ("a tua colheita, e esqueceres") e outro à própria ceifa ("quando ceifares, e esqueceres"); examina o caso de quem, estando na cidade ou estando no próprio campo, afirma saber de feixes esquecidos, concluindo que apenas a lembrança do dono estando fisicamente no campo basta para impedir o esquecimento; estende, por Rabi Zeirá em nome de Shmuel, o mesmo princípio ao achado, com Rabi Abá bar Kahana e Rabi Yasa em nome de Rabi Yochanan exigindo que o dono possa efetivamente tocar o objeto mesmo dentro do próprio campo; e fecha explicando, por meio do caso do feixe coberto de palha, que também o cego que esquece tem esquecimento — ao contrário do feixe totalmente encoberto —, com Rabi Yoná, seguindo o raciocínio de Rabi Zeirá, esclarecendo que a isenção do feixe coberto de palha se dá porque o dono se lembra da palha, mas não do feixe que ela oculta.