Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Vav · Halachá 4
פֵּאָה

Dois feixes são esquecimento, mas três não são: a nova Mishná do número mínimo, e sua guemará

Perek Vav, Halachá 4 — nova Mishná sobre a quantidade que define esquecimento, pêret e léquet

Esta quarta halachá do Perek Vav traz uma nova Mishná, que fixa o número de itens esquecidos que ainda contam como esquecimento (e não como bens já apropriados demais para se abandonar): dois feixes são esquecimento, mas três não são; o mesmo vale, dois e três, para montes de azeitonas e de alfarrobas, para molhos de linho, para cachos de uva como pêret, e para espigas como léquet (esta última conforme Bet Hilel) — com Bet Shamai, em todos esses casos, reservando três aos pobres e o quarto ao dono. A guemará é breve: Rabi Bun bar Chiyá em nome de Rabi Yochanan reúne todos esses casos num só princípio; distingue-se o monte de azeitonas, obra já concluída, do amontoado de azeitonas ainda em processo; Rabi Hoshaya relata ter colhido azeitonas com Rabi Chiyá o Grande, que lhe ensinou o critério da azeitona ao alcance da mão, réplica de Rabi Yochanan; discute-se se meio cacho já conta como pêret, com a baraita de Rabi Chiyá e o caso da videira; os cachos dispostos como um sifão, segundo Menachem em nome de Rabi Yonatan; e fecha com Rabi Avin e Rabi Maná expondo o fundamento bíblico comum de Bet Shamai e Bet Hilel quanto ao léquet.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

שְׁנֵי עֳמָרִין שִׁכְחָה וּשְׁלֹשָׁה אֵינָן שִׁכְחָה. שְׁנֵי צִיבּוּרֵי זֵיתִים וְהַחֲרוּבִין שִׁכְחָה וּשְׁלֹשָׁה אֵינָן שִׁכְחָה. שְׁנֵי הוּצֲנֵי פִשְׁתָּן שִׁכְחָה וּשְׁלֹשָׁה אֵינָן שִׁכְחָה. שְׁנֵי גַרְגִּרִים פֶּרֶט וּשְׁלֹשָׁה אֵינָן פֶּרֶט. שְׁנֵי שִׁבֳּלִים לֶקֶט וְשָׁלֹשׁ אֵינָן לֶקֶט כְדִבְרֵי בֵית הִלֵּל. וְעַל כּוּלָּם בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִין שְׁלֹשָׁה לָעֲנִיִים וְאַרְבָּעָה לְבַעַל הַבַּיִת.

Mishná: Dois feixes esquecidos no campo são esquecimento (e pertencem aos pobres), mas três feixes esquecidos não são esquecimento (pois um dono que já deixou para trás três feixes de uma vez dificilmente o fez por mero esquecimento; presume-se, antes, que os abandonou de propósito, e por isso continuam sendo seus). Dois montes de azeitonas ou dois montes de alfarrobas esquecidos são esquecimento, mas três montes esquecidos não são esquecimento. Dois molhos de linho esquecidos são esquecimento, mas três molhos esquecidos não são esquecimento. Dois bagos de uva, caídos ao chão durante a colheita, são pêret (o presente devido aos pobres, correspondente aos bagos soltos), mas três bagos caídos não são pêret (considerando-se antes um pequeno cacho, que pertence ao dono). Duas espigas caídas durante a colheita são léquet, mas três espigas caídas não são léquet — conforme as palavras de Bet Hilel. E sobre todos estes casos, Bet Shamai diz: três são para os pobres, e quatro são para o dono da casa (deslocando em uma unidade, para cima, o limite que separa o que pertence aos pobres do que permanece do dono).

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Rabi Bun bar Chiyá em nome de Rabi Yochanan: todos os casos formam um só grupo
Yerushalmi · Peá 6:4
רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן עֲשָׂאָן כְּמִין גַּם.

Disse Rabi Bun bar Chiyá em nome de Rabi Yochanan: a Mishná tratou todos esses casos — feixes, montes de azeitonas e de alfarrobas, molhos de linho, bagos de uva e espigas — como um único grupo (isto é, o mesmo princípio numérico de "dois é esquecimento, três não é" aplica-se identicamente a todos eles, sem que se precise derivar cada caso de uma fonte própria e distinta).

02Só o "monte" de azeitonas se equipara ao feixe — a azeitona ainda em processo, não
Yerushalmi · Peá 6:4
לֹא אָמַר אֶלָּא צִיבּוּרִין הָא זֵיתִים לֹא. מַה בֵּין הַצִּיבּוּרִין מַה בֵּין הַזֵּתִים. צִיבּוּרִין גְּמַר מְלָאכָה. זֵיתִים אֵינָן גְּמַר מְלָאכָה.

Mas, se assim é, não foi dito que a Mishná igualou o feixe aos montes de azeitonas e de alfarrobas — eis que às azeitonas (soltas, ainda não amontoadas), não se aplica esse mesmo princípio. Pergunta-se: qual a diferença entre os montes já formados e as azeitonas (ainda soltas, esquecidas antes de serem amontoadas)? Responde-se: os montes representam obra concluída (o processo de colheita e amontoamento já terminou, e por isso, uma vez esquecidos em número de dois, aplicam-se a eles as mesmas regras dos feixes); as azeitonas soltas, ao contrário, não representam obra concluída (o trabalho de colhê-las ainda está em curso, de modo que azeitonas esparsas esquecidas não seguem o mesmo critério numérico dos feixes ou montes já prontos).

03Rabi Hoshaya colhendo azeitonas com Rabi Chiyá o Grande: a azeitona ao alcance da mão
Yerushalmi · Peá 6:4
אָמַר רִבִּי הוֹשַׁעְיָא רוֹמֵס הָיִיתִי זֵתִים עִם רִבִּי חִיָיא הַגָּדוֹל. אָמַר לִי כָּל זַיִת שֶׁאַתְּ יָכוֹל לִפְשׁוֹט יָדְךָ וְלִיטְלוֹ אֵינוֹ שִׁכְחָה. אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן מִכֵּיוָן שֶׁעָבַר עָלָיו וּשְׁכָחוֹ הֲרֵי זוֹ שִׁכְחָה.

Disse Rabi Hoshaya: eu estava pisando (colhendo por sacudidura e pisoteio) azeitonas junto com Rabi Chiyá o Grande. Disse-me ele: toda azeitona que tu podes estender a mão e tomá-la (sem te deslocar do lugar onde já estás trabalhando) não é esquecimento (pois, estando ainda ao alcance imediato do trabalhador, presume-se que ele simplesmente ainda não chegou a apanhá-la, e não que a tenha esquecido). Disse Rabi Yochanan: mas isto vale apenas enquanto ele ali permanece; pois já que ele passou por ela e a esqueceu (afastando-se do lugar sem a recolher), eis que essa azeitona é esquecimento (uma vez que o trabalhador já se moveu adiante, a distância que antes a protegia por estar "ao alcance da mão" deixa de valer, e ela passa a se enquadrar na regra geral do esquecimento).

04Meio cacho como pêret — a baraita de Rabi Chiyá e o caso do que cai sob a própria videira
Yerushalmi · Peá 6:4
רִבִּי לָעְזָר בְּשֵׁם רִבִּי חִיָיא רַבָּה חֲצִי אֶשְׁכּוֹל פֶּרֶט. תַּנִּי רִבִּי חִיָיא חֲצִי אֶשְׁכּוֹל אוֹ אֶשְׁכּוֹל שָׁלֵם פֶּרֶט. וְהָתַנִּי שְׁנֵי גַרְגִּרִים פֶּרֶט. רִבִּי אִימִּי בְשֵׁם רִבִּי חִיָיא בְּקוֹצֵר וּמֵנִיחַ תַּחַת הַגֶּפֶן.

Disse Rabi Lazar em nome de Rabi Chiyá Rabá: meio cacho (caído inteiro, já unido, ao chão) é pêret. E, de fato, ensinou Rabi Chiyá numa baraita: meio cacho ou um cacho inteiro é pêret. Mas isso é uma dificuldade: pois não se ensinou na nossa Mishná que apenas dois bagos são pêret (e não um cacho inteiro ou meio cacho, que seria demais para contar como mero pêret e pertenceria ao dono, à semelhança dos "três feixes")? Resolve Rabi Imi em nome de Rabi Chiyá: a baraita fala do caso de quem ceifa (poda os cachos) e deixa cair um cacho debaixo da própria videira (pois, nesse caso específico — o cacho caindo diretamente sob a videira de onde foi cortado, e não distante, espalhado no chão do vinhedo — mesmo um cacho inteiro ou metade dele é tratado como pêret, já que não há indício de que o dono o tenha deliberadamente deixado para os pobres, mas apenas de que lhe escapou das mãos no ato mesmo do corte).

05Os cachos dispostos como um sifão, segundo Menachem em nome de Rabi Yonatan
Yerushalmi · Peá 6:4
הָיוּ עֲשׂוּיִין כְּמִין סִינְפוֹן. מְנַחֵם בְּשֵׁם רִבִי יוֹנָתָן וְהוּא שֶׁיְּהֵא חוֹתְכָן בְּשָׁוֶה.

Se os bagos caídos estavam dispostos como um sifão (um tubo — isto é, um sob o outro, em fila vertical ou alinhada, e não espalhados lado a lado), qual a regra? Diz Menachem em nome de Rabi Yonatan: e isso vale como um só grupo, formando pêret ou não conforme a quantidade, desde que o dono os corte todos de uma vez, no mesmo golpe (e não em cortes sucessivos e distintos, caso em que cada corte se consideraria separadamente).

06Rabi Avin e Rabi Maná: o fundamento bíblico comum de Bet Shamai e Bet Hilel quanto ao léquet
Yerushalmi · Peá 6:4
אָמַר רִבִּי אָבִין טַעֲמַיְהוּ דְּבֵית שַׁמַּאי לַגֵּר לַיָּתוֹם וְלָאַלְמָנָה יִהְיֶה. טַעֲמַיְהוּ דְּבֵית הִלֵּל לֶעָנִי וְלַגֵּר. אָמַר רִבִּי מָנָא שְׁנֵיהֶן מִקְרָא אֶחָד דָּרְשוּ לַגֵּר לַיָּתוֹם וְלָאַלְמָנָה יִהְיֶה. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִין לָעֲנִיִים וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִין לְבַעַל הַבַּיִת.

Disse Rabi Avin: o fundamento de Bet Shamai (que reserva três espigas aos pobres e a quarta ao dono) está em (Deuteronômio 24:19): "para o converso, para o órfão e para a viúva será" (um versículo que, lido por Bet Shamai, sustenta que o número protegido para os necessitados é mais amplo, chegando a três). O fundamento de Bet Hilel (que já considera três espigas do dono) está em (Levítico 19:10, que fala apenas): "para o pobre e para o converso" (um versículo lido por Bet Hilel como indicando um número mais restrito, de apenas duas espigas, reservado aos necessitados). Disse Rabi Maná: ambos os lados, na verdade, expuseram seu fundamento a partir de um único versículo: "para o converso, para o órfão e para a viúva será" (o mesmo texto de Deuteronômio 24:19, lido de dois modos): Bet Shamai diz que a expressão remete aos pobres (entendendo a enumeração — converso, órfão, viúva — como somando-se a mais uma unidade além da regra básica, resultando em três para os pobres); e Bet Hilel diz que essa mesma expressão remete ao dono da casa (entendendo a enumeração de modo distinto, de forma que o número que permanece com os necessitados é menor, e o excedente volta ao dono).

Nota

Esta quarta halachá do Perek Vav traz uma nova Mishná, que fixa a quantidade mínima que transforma um item esquecido em esquecimento pertencente aos pobres: dois feixes, dois montes de azeitonas ou de alfarrobas, dois molhos de linho e duas espigas de léquet são esquecimento, mas três de cada um desses itens já não o são, pertencendo ao dono — e dois bagos de uva caídos são pêret, mas três já formam um pequeno cacho, do dono. Bet Shamai desloca esse limite em uma unidade para cima em todos os casos, reservando três aos pobres e apenas o quarto ao dono.

A guemará, breve, abre com Rabi Bun bar Chiyá em nome de Rabi Yochanan unificando todos os casos da Mishná — feixes, montes, molhos, bagos e espigas — sob um único princípio numérico. Distingue em seguida os montes já formados de azeitonas e alfarrobas, equiparáveis ao feixe por representarem obra concluída, das azeitonas ainda soltas e em processo de colheita, às quais esse princípio não se aplica; traz o relato de Rabi Hoshaya, que colhia azeitonas com Rabi Chiyá o Grande e aprendeu que toda azeitona ainda ao alcance da mão não é esquecimento, com a ressalva de Rabi Yochanan de que isso vale somente até que o trabalhador passe adiante e a esqueça. Discute se meio cacho de uva, ou mesmo um cacho inteiro, pode contar como mero pêret, resolvendo, com Rabi Imi em nome de Rabi Chiyá, que a baraita se refere ao caso específico do cacho que cai diretamente sob a própria videira de onde foi cortado; trata do caso dos bagos dispostos em fila, como um sifão, que só se contam juntos se cortados todos no mesmo golpe, segundo Menachem em nome de Rabi Yonatan. Fecha com Rabi Avin atribuindo a Bet Shamai e a Bet Hilel dois versículos distintos como fundamento de suas respectivas posições sobre o número de espigas do léquet, e com a correção de Rabi Maná, que mostra ambas as escolas derivando o seu ensinamento do mesmo único versículo, lido de dois modos diferentes.