Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Vav · Halachá 7
פֵּאָה

O grão cortado para forragem, o alho atado e o que fica escondido no chão: o que não tem esquecimento

Perek Vav, Halachá 7 — nova Mishná sobre produtos isentos da lei do esquecimento por já terem outro destino ou por estarem escondidos

Esta sétima halachá do Perek Vav traz uma nova Mishná: o grão que foi destinado a forragem verde ou a amarrar feixes, e do mesmo modo os atados usados para amarrar o alho, e o próprio feixe de alho e de cebolas (quando pequeno, feito para uso imediato e não para armazenamento), não têm a lei do esquecimento; e tudo o que fica escondido no chão, como o luf, o alho e a cebola (cujo produto comestível cresce sob a terra)Rabi Yehudá diz que não têm esquecimento, mas os sábios dizem que têm esquecimento. A guemará é breve na primeira parte e mais extensa na segunda: Rabi Yoná esclarece que a isenção de quem destina o produto à forragem vale não apenas para quem já o entregou de fato para esse fim, mas mesmo para quem o toma com a mera intenção de entregá-lo; e a sugia final compara a disputa desta Mishná com a Mishná de Bava Kamá sobre quem incendeia uma pilha de grãos com utensílios escondidos dentro, mostrando que as posições de Rabi Yehudá e dos sábios se invertem de um contexto para o outro, e resolvendo a aparente contradição por meio da leitura de dois versículos diferentes e do princípio de que uma restrição que vem após outra restrição serve, na verdade, para incluir o que estava escondido.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

תְּבוּאָה שֶׁנִּיתְּנָה לְשַׁחַת אוֹ לַאֲלוּמָה וְכֵן בְּאִיגּוּדֵי הַשּׁוּם וַאֲגוּדַת הַשּׁוּם וְהַבְּצָלִים אֵין לָהֶן שִׁכְחָה וְכָל הַטְּמוּנִין בָּאָרֶץ כְּגוֹן הַלּוּף וְהַשּׁוּם וְהַבְּצָלִים. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אֵין לָהֶן שִׁכְחָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים יֵשׁ לָהֶן שִׁכְחָה.

Mishná: O grão que foi destinado a forragem verde (cortado ainda verde para servir de alimento ao gado, e não para consumo humano) ou a amarrar feixes (cortado para servir de laço, e não como colheita propriamente dita), e do mesmo modo os atados usados para amarrar o alho (as próprias folhas ou fibras usadas como cordas para prender pequenos maços de alho), e o feixe pequeno de alho e de cebolas (maços menores, amarrados para uso imediato, e não destinados a serem depois reunidos e transportados ao depósito), não têm a lei do esquecimento (pois não se enquadram na categoria de colheita para armazenamento, que é o objeto da lei bíblica). E tudo o que fica escondido na terra, como o luf (uma planta de grande bulbo subterrâneo), o alho e a cebola (cuja parte comestível ou principal permanece debaixo do solo)Rabi Yehudá diz: não têm a lei do esquecimento; mas os sábios dizem: têm a lei do esquecimento.

A Halachá · הֲלָכָה ז

01Rabi Yoná: a isenção vale até para quem apenas pretende entregar o produto à forragem
Yerushalmi · Peá 6:7
אָמַר רִבִּי יוֹנָה לֹא סוֹף דָּבָר נוֹתְנָהּ אֶלָּא אֲפִילוּ נוֹטְלָהּ עַל מְנָת לִיתְּנָהּ.

Disse Rabi Yoná: não é só o caso de quem de fato já entrega a colheita à forragem que fica isento da lei do esquecimento, mas mesmo o de quem a toma ainda em pé, ou já cortada, com a intenção de entregá-la a esse fim (basta a decisão de destiná-la a forragem, ainda antes de essa entrega se completar, para que o produto já saia da categoria de colheita sujeita ao esquecimento).

02A Mishná de Bava Kamá: quem incendeia a pilha com utensílios escondidos dentro
Yerushalmi · Peá 6:7
תַּמָּן תַּנֵּינָן הַמַּדְלִיק אֶת הַגָּדִישׁ וְהָיוּ בוֹ כֵלִים רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מְשַׁלֵּם כָּל מַה שֶׁבְּתוֹכוֹ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים אֵינוֹ מְשַׁלֵּם אֶלָּא גְּדִישׁ חִטִּין אוֹ גְּדִישׁ שְׂעוֹרִין.

Ali (em outro tratado) aprendemos na Mishná: quem incendeia a pilha de grãos (estando o fogo sob sua responsabilidade), e havia nela utensílios escondidos entre os feixes, Rabi Yehudá diz: paga o valor de tudo o que havia dentro dela (inclusive dos utensílios escondidos); mas os sábios dizem: não paga senão o valor de uma pilha de trigo ou de uma pilha de cevada (isto é, apenas o valor do próprio grão, e não dos utensílios nele escondidos, que o responsável pelo incêndio não tinha como prever).

03A posição de Rabi Yehudá se inverte: lá inclui o escondido, aqui exclui o escondido
Yerushalmi · Peá 6:7
מִחְלְפָא שִׁיטָּתֵיהּ דְּרִבִּי יְהוּדָה תַּמָּן הוּא אוֹמֵר לְרַבּוֹת אֶת הַטָּמוּן. וְכֹא הוּא אָמַר פְּרָט לְטָמוּן.

Pergunta-se: a posição de Rabi Yehudá se inverte (entre os dois contextos): ali (a respeito da pilha incendiada) ele diz que o versículo vem para incluir o que está escondido (os utensílios ocultos entre os feixes, tornando o incendiário responsável por eles); mas aqui (a respeito do luf, do alho e da cebola escondidos no chão) ele disse que o versículo vem para excluir o que está escondido (isentando esses produtos subterrâneos da lei do esquecimento — uma posição, à primeira vista, contraditória com a anterior).

04A explicação a partir do versículo de Êxodo: "pilha ou seara em pé" inclui o escondido
Yerushalmi · Peá 6:7
תַּמָּן וְנֶאֱכַל הַגָּדִישׁ אוֹ הַקָּמָה. מְמַשְׁמַע שֶׁנֶּאֱמַר קָמָה אֵין אָנוּ יוֹדְעִין שֶׁהַגָּדִישׁ בִּכְלָל. וּמַה תַלְמוּד לוֹמַר גָּדִישׁ לְרַבּוֹת אֶת הַטָּמוּן.

Ali está escrito (Êxodo 22:5): "e for consumida a pilha, ou a seara em pé (ou o campo)". Ora, do próprio fato de se dizer "seara em pé" já não sabemos que a pilha está incluída (pois, se o versículo já responsabiliza o incendiário pela seara em pé — o caso mais incerto — tanto mais o responsabilizaria pela pilha já colhida)? Então para que a Escritura ensina também "pilha"? Para incluir o que está escondido (dentro da própria pilha — a menção redundante de "pilha", que já estaria implícita em "seara em pé", serve precisamente para estender a responsabilidade também aos utensílios nela ocultos).

05A explicação a partir do versículo de Deuteronômio: "teu campo", à vista, exclui o escondido
Yerushalmi · Peá 6:7
וְהָכָא שָׂדֶךָ בְגָלוּי פְּרָט לְטָמוּן.

Mas aqui (no versículo do esquecimento, Deuteronômio 24:19), "teu campo" está escrito, entendendo-se: à vista (referindo-se apenas ao que está exposto e visível no campo), para excluir o que está escondido (no chão — donde a posição de Rabi Yehudá de que o luf, o alho e a cebola, por ficarem ocultos sob a terra, não se enquadram na lei do esquecimento, ainda que ali, no caso da pilha incendiada, a palavra redundante servisse para incluir e não para excluir).

06A posição dos sábios também se inverte, de modo simétrico e oposto
Yerushalmi · Peá 6:7
מִחְלְפָא שִׁיטָּתִין דְּרַבָּנִין תַּמָּן אִינּוּן אָמְרִין פְּרָט לְטָמוּן. וְכֹא אִינּוּן אָמְרִין לְרַבּוֹת אֶת הַטָּמוּן.

E do mesmo modo se pergunta: a posição dos sábios também se inverte: ali (a respeito da pilha incendiada) eles dizem que o versículo vem para excluir o que está escondido (isentando o incendiário do pagamento pelos utensílios ocultos); mas aqui (a respeito do luf, alho e cebola) eles dizem que o versículo vem para incluir o que está escondido (sujeitando esses produtos subterrâneos à lei do esquecimento — a posição inversa e simétrica à de Rabi Yehudá em cada um dos dois contextos).

07A explicação da posição dos sábios: "a seara ou o campo", tudo à vista
Yerushalmi · Peá 6:7
תַּמָּן אוֹ הַקָּמָה אוֹ הַשָּׂדֶה. מַה שָׂדְךָ בְגָלוּי אַף כָּל דָּבָר שֶׁהוּא גָלוּי.

Ali está escrito: "ou a seara em pé, ou o campo". Segundo os sábios, isso ensina por analogia: assim como a palavra final, "o campo", refere-se ao que está à vista, também toda coisa mencionada antes dela neste mesmo versículo deve entender-se apenas a respeito do que está à vista (e não do que está escondido — daí os sábios concluírem, nesse contexto, que os utensílios ocultos na pilha ficam excluídos da responsabilidade do incendiário, pois todo o versículo se refere apenas ao que é visível).

08A conclusão: uma restrição após outra restrição serve para incluir o escondido
Yerushalmi · Peá 6:7
בְּרַם הָכָא שָׂדֶךָ בְגָלוּי פְּרָט לְטָמוּן. קְצִירְךָ בְגָלוּי פְּרָט לְטָמוּן. וַהֲוֵי מִיעוּט אַחַר מִיעוּט וְאֵין מִיעוּט אַחַר מִיעוּט לְרַבּוֹת הַטָּמוּן.

Mas aqui (no versículo do esquecimento), "teu campo" está escrito, entendendo-se: à vista, para excluir o que está escondido; "tua ceifa" está escrito, entendendo-se: à vista, para excluir o que está escondido (duas restrições sucessivas e distintas dentro do mesmo versículo — "teu campo" e "tua ceifa" — cada qual, isoladamente, excluindo o escondido). E isso é uma restrição após outra restrição; e nenhuma restrição após outra restrição tem, na verdade, o efeito de continuar excluindo — pelo contrário, tem o efeito de incluir o que está escondido (pois, segundo a regra hermenêutica aceita, duas restrições consecutivas se anulam mutuamente e passam a ampliar o alcance da lei, em vez de restringi-lo — donde, ao final, também os sábios reconhecerem que o luf, o alho e a cebola escondidos no chão ficam sujeitos à lei do esquecimento, tal como afirma a Mishná).

Nota

Esta sétima halachá do Perek Vav traz uma nova Mishná: ficam isentos da lei do esquecimento o grão destinado a forragem verde ou a amarrar feixes, os atados usados para prender o alho e o pequeno feixe de alho e cebolas feito para uso imediato — por não se enquadrarem na categoria de colheita para armazenamento. Já quanto a tudo o que fica escondido na terra, como o luf, o alho e a cebola, a Mishná registra a disputa entre Rabi Yehudá, que os isenta da lei do esquecimento, e os sábios, que os sujeitam a ela.

A guemará abre de modo breve com Rabi Yoná, que estende a isenção do grão destinado a forragem também a quem meramente pretende entregá-lo a esse fim, sem que a entrega já se tenha completado. A parte final, mais extensa, contrapõe a disputa desta Mishná à Mishná de Bava Kamá sobre quem incendeia uma pilha com utensílios escondidos dentro: nota-se que a posição de Rabi Yehudá se inverte entre os dois contextos — ali incluindo o escondido, aqui excluindo-o —, e o mesmo ocorre, de modo simetricamente oposto, com a posição dos sábios. A sugia resolve a aparente contradição mostrando que o versículo de Êxodo sobre a pilha incendiada e o versículo de Deuteronômio sobre o esquecimento empregam estruturas gramaticais distintas: no primeiro, a menção redundante de "pilha" serve para incluir o escondido; no segundo, duas restrições sucessivas — "teu campo" e "tua ceifa", ambas lidas como "à vista" — formam uma restrição após outra restrição, que pela regra hermenêutica aceita tem o efeito de incluir, e não de excluir, o que está escondido.