Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Chet (último perek do tratado) · Halachá 1
פֵּאָה

Desde quando todos são permitidos a tomar leket, peret, olelot e azeitonas

Perek Chet, Halachá 1 — primeira halachá do oitavo e último perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Esta primeira halachá do Perek Chet — o último perek de Massechet Peá — abre um novo eixo temático: não mais o que conta como dádiva dos pobres, mas desde quando essas dádivas deixam de ser reservadas apenas aos pobres e se tornam permitidas a qualquer pessoa. A Mishná ensina que o leket (as espigas caídas) se torna permitido a todos desde que as nemushot (as retardatárias, os coletores mais lentos) já se foram; o peret e as olelot (as uvas caídas e a rebusca da vinha), desde que os pobres já tenham entrado na vinha e saído; e as azeitonas, desde que caia a segunda chuva, com Rabi Yehudá objetando que há quem só colha suas azeitonas depois da segunda chuva, e propondo em vez disso o critério de o pobre não trazer mais que o valor de quatro issarim. A guemará explica, com Rabi Yochanan e Aba Shaul, a etimologia de nemushot/meshushot, e traz o caso de Rabi Yochanan ben Nuri, que tirava o sustento do ano inteiro saindo apenas com os últimos coletores; ensina que as dádivas do campo que os pobres não se importam em buscar pertencem ao dono, com a pergunta de Rabi Bun bar Chiya sobre autodenominar peá para si mesmo, e Rabi Shimon ben Yochai excluindo corvos e morcegos do versículo; explica por que peret e olelot não seguem o prazo das nemushot, por serem mais cobiçados; por que as azeitonas seguem a segunda chuva, por causa do frio que só permite a saída dos jovens; e fecha respondendo à objeção contra Rabi Yehudá.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

מֵאֵימָתַי כָּל אָדָם מוּתָּרִים בְּלֶקֶט מִשֶּׁיֵּלְכוּ הַנְּמוּשׁוֹת. בְּפֶרֶט וּבְעוֹלְלוֹת מִשֶּׁיֵּלְכוּ הָעֲנִיִים בַּכֶּרֶם וְיָבוֹאוּ. וּבְזֵיתִים מִשֶּׁתֵּרֵד רְבִיעָה שְּׁנִיָיה. אָמַר רִבִּי יְהוּדָה וַהֲלֹא יֵשׁ שֶׁאֵין מוֹסְקִין אֶת זֵיתֵיהֶן אֶלָּא לְאַחַר רְבִיעָה שְּׁנִיָיה אֶלָּא כְּדֵי שֶׁיְּהֵא עָנִי יוֹצֵא וְלֹא יְהֵא מֵבִיא אֶלָּא בְּאַרְבָּעָה אִיסָּרוֹת.

Mishná: Desde quando todas as pessoas (mesmo as que não são pobres, e até o próprio dono do campo) são permitidas a tomar o leket (as espigas de grão que caem ao chão durante a colheita, dádiva devida aos pobres)? Desde que se vão as nemushot (os últimos e mais lentos coletores, que ainda vasculham o campo em busca do que restou). Quanto ao peret (os grãos ou bagos de uva soltos que caem no chão da vinha durante a vindima) e às olelot (os cachos incompletos ou malformados, dádiva devida aos pobres): desde que os pobres já tenham ido à vinha e voltado (já tenham entrado, colhido o que lhes cabia, e saído). E quanto às azeitonas: desde que caia a segunda chuva de revi'á (a segunda grande chuva da estação, marco climático que sinaliza o fim da colheita). Disse Rabi Yehudá: mas não há donos de olival que não colhem as suas azeitonas senão depois da segunda revi'á (nesse caso o critério da segunda chuva seria tarde demais, pois a colheita nem sequer teria começado)? Mas sim o critério correto é: para que o pobre saia a coletar azeitonas e não traga mais que o valor de quatro issarim (uma quantia mínima; quando o rendimento cai a esse ponto, presume-se que os pobres já abandonaram a busca, e as sobras se tornam permitidas a todos).

A Halachá · הֲלָכָה א

01Rabi Yochanan e Aba Shaul sobre a etimologia de nemushot/meshushot, e o caso de Rabi Yochanan ben Nuri
Yerushalmi · Peá 8:1
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן לָמָּה נִקְרְאוּ שְׁמָן נְמוּשׁוֹת שֶׁהֵן בָּאוֹת בְּסוֹף. אַבָּא שָׁאוּל הָיָה קוֹרֵא אוֹתָן מְשׁוּשׁוֹת. אִית תַּנָּיֵי תַּנֵּי נְמוּשׁוֹת. וְאִית תַּנָּיֵי תַּנֵּי מְשׁוּשׁוֹת. מָאן דְּאָמַר נְמוּשׁוֹת שֶׁהֵן בָּאִין בְּסוֹף. וּמָאן דְּאָמַר מְשׁוּשׁוֹת שֶׁהֵן מְמַשְׁמְשִׁין וּבָאִין. רִבִּי חוּנָא בְשֵׁם מְנַחֵם רִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי הָיָה יוֹצֵא מִן הַנְּמוּשׁוֹת וּמֵבִיא פַּרְנָסָתוֹ שֶׁל כָּל הַשָּׁנָה.

Disse Rabi Yochanan: por que se chama o seu nome nemushot? Porque elas (as pessoas assim chamadas) vêm por último (do verbo que indica "vir ao fim", os coletores que só chegam depois de todos os outros já terem passado). Aba Shaul as chamava meshushot ("as que apalpam"). Há tanaítas que ensinam nemushot, e há tanaítas que ensinam meshushot. Quem diz nemushot (entende) que elas assim se chamam porque vêm por último; e quem diz meshushot (entende) que elas assim se chamam porque vêm apalpando (tateando o chão do campo em busca do que ainda resta, já sem poder ver bem, por serem velhas, ou por ser o fim do dia). Rabi Chuna em nome de Menachem: Rabi Yochanan ben Nuri costumava sair a coletar junto com as nemushot (entre os últimos e mais lentos coletores), e ainda assim trazia o seu sustento do ano inteiro (mesmo saindo por último, depois de todos os outros pobres já terem colhido o leket, ele ainda encontrava o suficiente para se manter durante todo o ano — exemplo de humildade e confiança na provisão divina).

02Dádivas que os pobres não se importam em buscar pertencem ao dono; a pergunta de Rabi Bun bar Chiya; Rabi Shimon ben Yochai exclui corvos e morcegos
Yerushalmi · Peá 8:1
תַּנִּי מַתְּנֹת עֲנִיִים שֶׁבַּשָּׂדֶה שֶׁאֵין עֲנִיִים מַקְפִּידִין עֲלֵיהֶן הֲרֶי הֵן שֶׁל בַּעַל הַבַּיִת. רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא בְּעִי וְיֵשׁ אָדָם קוֹרֵא שֵׁם פֵּיאָה לְעַצְמָן. תַּנִּי רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי לֶעָנִי וְלַגֵּר תַּעֲזוֹב אוֹתָם וְלֹא לָעוֹרְבִין וְלָעֲטַלֵפִים.

Ensinou-se (numa baraita): as dádivas dos pobres que estão no campo, das quais os pobres não se importam (que os pobres deixam de buscar, por serem de pouco valor ou de difícil acesso), eis que elas pertencem ao dono da casa (voltam ao proprietário do campo, já que os pobres, por sua própria conduta, demonstraram ter desistido delas). Rabi Bun bar Chiya perguntou: acaso pode uma pessoa (o próprio dono do campo, sendo ele mesmo pobre) dar o nome de peá para si mesma (isto é, reservar para si, sob o rótulo de peá, aquilo que por lei deveria abandonar aos pobres em geral, só porque ele também é pobre)? A isso responde-se com o que ensinou Rabi Shimon ben Yochai: "ao pobre e ao estrangeiro os abandonarás a eles" (Levítico 19:10, 19:22) — e não aos corvos e aos morcegos (a Torá exige que a dádiva seja abandonada aos pobres humanos, e não simplesmente deixada ao acaso para qualquer criatura; da mesma forma, o dono não pode simplesmente reivindicá-la para si sob pretexto de também ser pobre, pois a obrigação é de abandono a outros, não de retenção própria).

03Por que peret e olelot não seguem o prazo das nemushot, mas o momento em que os pobres entram e saem
Yerushalmi · Peá 8:1
בְּפֶרֶט וּבְעוֹלֵלוֹת מִשֶּׁיֵּלְכוּ הָעֲנִיִים בַּכֶּרֶם וְיָבוֹאוּ. וְלָא תַנֵּינָן נְמוּשׁוֹת עַל יְדֵי שֶׁהֵן חֲבִיבִין הֵן בָּאִין עַל אָתָר.

"Quanto ao peret e às olelot: desde que os pobres já tenham ido à vinha e voltado" (repetido aqui da Mishná, como base para a pergunta seguinte). E por que não ensinamos também aqui o critério de esperar pelas nemushot (como se ensina para o leket)? Porque, sendo o peret e as olelot cobiçados (por serem uvas, mais apreciadas e valiosas que espigas de grão), todos os pobres vêm de uma só vez (no mesmo momento, sem que haja uma segunda leva de retardatários separada da primeira; assim que os primeiros pobres terminam e saem, já não resta ninguém por vir depois, e por isso o critério é simplesmente a saída de todos, e não a espera por uma classe distinta de coletores tardios).

04Por que as azeitonas seguem a segunda chuva, por causa do frio
Yerushalmi · Peá 8:1
וּבְזֵיתִים מִשֶּׁתֵּרֵד רְבִיעָה שְּׁנִיָיה. וְלָא תַנֵּינָן נְמוּשׁוֹת מִפְּנֵי שֶׁהֵן צִינָּה וְאֵינָן יוֹצְאִין אֶלָּא בֲּחוּרִים.

"E quanto às azeitonas: desde que caia a segunda chuva de revi'á" (repetido aqui da Mishná). E por que não ensinamos também aqui o critério de esperar pelas nemushot? Porque, sendo essa época de frio, não saem a coletar senão os jovens (depois da segunda chuva, o frio impede que os coletores mais velhos e lentos — as próprias nemushot — ainda saibam a campo; por isso não faz sentido esperar por eles como classe separada, e o critério passa a ser simplesmente a data da segunda chuva).

05Antes da segunda chuva ainda é roubo; resposta à objeção contra Rabi Yehudá
Yerushalmi · Peá 8:1
וְקוֹדֶם לָכֵן אֵינוֹ אָסוּר מִשּׁוּם גֶּזֶל. בְּשִׁיטָּתוֹ הֵשִׁיבוּהוּ לֹא אַתֶּם שֶׁאַתֶּם אוֹמְרִין מִפְּנֵי שֶׁהִיא צִינָּה אֵינָן יוֹצְאִין אֶלָּא בֲּחוּרִין שֶׁמִּתּוֹךְ שֶׁהוּא יוֹדֵעַ שֶׁאֵין מֵבִיא פַּרְנָסָתוֹ אַף הוּא אֵינוֹ יוֹצֵא.

E antes disso (antes de cair a segunda chuva), não é proibido por causa de roubo (tomar as azeitonas restantes, mesmo sem esperar pela chuva)? Sim — e é justamente por isso que, segundo o seu próprio método (o de Rabi Yehudá, que rejeita o critério simples da segunda chuva), responderam-lhe (os sábios a Rabi Yehudá): não sois vós mesmo que dizeis que, por ser essa época de frio, não saem a coletar senão os jovens (reconhecendo, portanto, que o frio já afasta os coletores mais fracos)? Pois então, pela mesma razão, já que ele (o pobre mais velho ou mais fraco) sabe que não trará consigo o seu sustento (pois o rendimento cairá abaixo do valor de quatro issarim, como ele mesmo exige), também ele não sai (desiste de ir, e por isso o critério da segunda chuva, ligado ao frio, já basta para presumir o abandono, sem necessidade do critério adicional dos quatro issarim que Rabi Yehudá propôs).

Nota

Esta primeira halachá do Perek Chet — o oitavo e último perek de Massechet Peá — desloca o eixo da discussão: depois de sete perakim definindo o que conta como leket, peá, olelot e esquecimento, este capítulo final pergunta desde quando essas dádivas, antes reservadas aos pobres, se tornam permitidas a qualquer pessoa. A Mishná fixa três critérios distintos: o leket, liberado quando se vão as nemushot (os coletores retardatários); o peret e as olelot, liberados quando os pobres já entraram na vinha e saíram; e as azeitonas, liberadas com a segunda chuva da estação — com Rabi Yehudá propondo, em vez disso, o critério prático de o pobre não conseguir mais que o valor de quatro issarim.

A guemará explica, com Rabi Yochanan e Aba Shaul, as duas leituras possíveis do termo nemushot/meshushot, e ilustra com o caso de Rabi Yochanan ben Nuri, que mesmo saindo por último ainda trazia o sustento do ano inteiro; ensina, numa baraita, que dádivas que os próprios pobres não se importam em buscar revertem ao dono, com a pergunta de Rabi Bun bar Chiya sobre se um dono pobre pode reivindicar a peá para si mesmo, respondida pela leitura de Rabi Shimon ben Yochai de que a dádiva é devida ao pobre e ao estrangeiro, não a corvos e morcegos; explica por que peret e olelot dispensam o critério das nemushot, por serem mais cobiçados e atraírem todos os pobres de uma vez; explica por que as azeitonas seguem a segunda chuva, por causa do frio que afasta os coletores mais fracos; e fecha respondendo a uma objeção contra Rabi Yehudá, mostrando que sua própria lógica sobre o frio já basta para presumir o abandono da colheita, dispensando o critério adicional dos quatro issarim.