Talmud Yerushalmi · Massechet Peá · Perek Chet (último perek do tratado) · Halachá 2
פֵּאָה

Quem é confiável quanto ao leket, ao esquecimento, à peá e ao dízimo do pobre

Perek Chet, Halachá 2 — segunda halachá do oitavo e último perek de Massechet Peá no Talmud Yerushalmi

Depois de fixar, na halachá anterior, desde quando as dádivas dos pobres se tornam permitidas a qualquer pessoa, esta segunda halachá do Perek Chet muda de eixo: agora se pergunta em quem se pode confiar quando alguém afirma já ter separado leket, esquecimento e peá, ou já ter dado o dízimo do pobre. A Mishná declara que os pobres são confiáveis quanto a essas três dádivas em sua época, e quanto ao dízimo do pobre durante todo o seu ano (o terceiro e o sexto anos do septênio), e que o levita é sempre confiável quanto à teruma do dízimo — mas ressalva que só se confia neles quanto ao que as pessoas costumam fazer. A guemará discute, com Rabi Chanina, até que distância se estende essa confiança; traz o caso espantoso de Rabi, que confiou em cinco irmãos que voltaram cada um com um cor inteiro de trigo; registra a pergunta de Rabi Elazar Deromaia a Rabi Yosei sobre se a Mishná segue a posição de Rabi Eliezer; traz o paralelo de Rabi Elazar em nome de Rabi Hoshaia entre a teruma grande e a teruma do dízimo; registra a pergunta não respondida de Rabi Mana sobre o ano sabático; e fecha com a distinção de Rabi Bun bar Chiya entre o levita que afirma ser dízimo certo e o que afirma tê-lo recebido como presente ou ser de sua própria safra.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

נֶאֱמָנִים עַל הַלֶּקֶט וְעַל הַשִּׁכְחָה וְעַל הַפֵּיאָה בִּשְׁעָתָן וְעַל מַעֲשֵׂר עָנִי בְּכָל שְׁנָתוֹ וּבֶן לֵוִי נֶאֱמָן לְעוֹלָם. וְאֵינָן נֶאֱמָנִין אֶלָּא עַל דָּבָר שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לִהְיוֹת נוֹהֲגִין כֵּן.

Mishná: Os pobres são confiáveis quanto ao leket (as espigas caídas), quanto ao esquecimento (o feixe esquecido no campo) e quanto à peá (o canto do campo deixado aos pobres), em sua época (quando alguém compra desse produto de um pobre logo depois da colheita, presume-se que ele o obteve legitimamente como dádiva devida aos pobres, e não é preciso separar dízimos); e quanto ao dízimo do pobre, durante todo o seu ano (o terceiro e o sexto anos do ciclo sabático de sete anos, anos em que se separa o dízimo do pobre em vez do segundo dízimo). E o filho de Levi (o levita) é confiável para sempre (quanto à teruma do dízimo, isto é, presume-se que ele já separou dela a sua própria porção devida aos cohanim, em qualquer época do ano e do ciclo). Mas os pobres e o levita não são confiáveis senão quanto àquilo que é costume das pessoas fazerem (a confiança se limita ao padrão usual de conduta; se a alegação foge do que normalmente se pratica, ela já não basta como prova).

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Até onde vai a confiança do pobre; o caso de Rabi e os cinco irmãos com cinco cor de trigo
Yerushalmi · Peá 8:2
עַד אֵיכָן. אָמַר רִבִּי חֲנִינָא עַד מָקוֹם שֶׁדַּרְכּוֹ לֵילֵךְ וְלָבִיא בוֹ בִיּוֹם. מַעֲשֶׂה וְהֶאֱמִין רִבִּי לַחֲמִשָּׁה אַחִין בַּחֲמִשָּׁה כּוֹרִין שֶׁל חִטִּים. וְאֵיפְשָׁר כֵּן אֶלָּא מִיכָּא צִיבְחָד וּמִיכָּא צִיבְחָד כּוֹרָא סְלַק.

Até onde vai essa confiança, isto é, até que distância se pode presumir que um pobre foi buscar essas dádivas e voltou no mesmo dia? Disse Rabi Chanina: até o lugar aonde é seu costume ir e de onde é capaz de trazer o que colheu ainda no mesmo dia (o limite de confiança depende da distância que o próprio pobre costuma percorrer com sua força e resistência habituais). Houve um caso em que Rabi confiou em cinco irmãos quanto a cinco cor de trigo (cada um deles voltando com um cor inteiro — uma medida muito grande — de trigo colhido como leket, esquecimento e peá). E é isso possível (que um só pobre reúna sozinho uma medida tão grande apenas dessas dádivas)? Mas sim a explicação é que, um pouco aqui e um pouco ali, tudo somado, sobe a um cor (cada irmão não trouxe tudo de uma só colheita ou de um só campo, mas foi acumulando pequenas quantidades em diferentes ocasiões e lugares, até que, no total, o que reuniu ao longo do tempo chegou à medida de um cor inteiro).

02A pergunta de Rabi Elazar Deromaia a Rabi Yosei sobre Rabi Eliezer, e o paralelo entre a teruma grande e a teruma do dízimo do levita
Yerushalmi · Peá 8:2
רִבִי לָעְזָר דְּרוֹמָיָה בְּעֵי קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵי. מַתְנִיתִין דְּרִבִּי אֱלִיעֶזֶר דְּרִבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר נֶאֱמָן עַל הַשֵּׁנִי נֶאֱמָן עַל הָרִאשׁוֹן. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא שַׁנְיָיא הִיא שֶׁאֵין אָדָם עוֹשֶׂה בִּדְבַר עֶרְוָה. רִבִּי לָעְזָר בְּשֵׁם רִבִּי הוֹשַׁעְיָא כְּשֵׁם שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל תְּרוּמָה גְדוֹלָה כָּךְ לֹא נֶחְשַׁד בֶּן לֵוִי עַל תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר. אָמַר רִבִּי הוֹשַׁעְיָה מַתְנִיתִין אָמַר כֵּן וּבֶן לֵוִי נֶאֱמָן לְעוֹלָם.

Rabi Elazar Deromaia perguntou diante de Rabi Yosei: será que a nossa Mishná segue Rabi Eliezer? Pois Rabi Eliezer diz: quem é confiável quanto ao segundo dízimo (isto é, quem se sabe que já separou o segundo dízimo) é também confiável quanto ao primeiro (a Mishná aqui declara o levita confiável "para sempre" quanto à teruma do dízimo, sem exigir verificação prévia — o que soaria como a posição individual de Rabi Eliezer, e não a dos sábios, que exigem verificação distinta para cada caso). Disse Rabi Yosei: não há aqui disputa alguma — isso é opinião de todos (tanto de Rabi Eliezer quanto dos sábios). Aqui é diferente, pois ninguém brinca com um assunto de pecado capital (comer o primeiro dízimo sem separar dele a teruma do dízimo é falta gravíssima; por isso, mesmo os que exigem cautela redobrada quanto ao segundo dízimo — falta mais leve — concordam que ninguém arriscaria transgredir intencionalmente uma proibição tão grave, e por isso todos confiam no levita quanto a isso). Rabi Elazar em nome de Rabi Hoshaia: assim como Israel não é suspeito quanto à teruma grande (a primeira porção separada da colheita antes de qualquer dízimo, e que todo israelita comum já é confiável por não retê-la nem misturá-la indevidamente), assim também o filho de Levi não é suspeito quanto à teruma do dízimo (a porção que o próprio levita deve separar, do dízimo que recebeu, para entregá-la ao cohen). Disse Rabi Hoshaia: a própria Mishná já diz assim: "e o filho de Levi é confiável para sempre".

03A pergunta não respondida de Rabi Mana: e no ano sabático?
Yerushalmi · Peá 8:2
רִבִּי מָנָא בְּעִי וּבֶן לֵוִי נֶאֱמָן לְעוֹלָם אֲפִילוּ בִשְׁבִיעִית.

Rabi Mana perguntou: e será que "o filho de Levi é confiável para sempre" vale mesmo no sétimo ano (o ano sabático, no qual nenhum dízimo é separado, e portanto o fundamento habitual dessa confiança — o hábito de ano a ano separar corretamente a teruma do dízimo — não se aplicaria)?

04Rabi Bun bar Chiya distingue o levita que declara dízimo certo do que declara presente ou safra própria
Yerushalmi · Peá 8:2
אָמַר רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיא נֶאֱמָן בֶּן לֵוִי לוֹמַר מַעֲשֵׂר בָּרוּר הוּא לְפוֹטְרוֹ מִן הַשֵּׁנִי. אֲבָל בְּאוֹמֵר נִיתָּן לִי אוֹ בְּאוֹמֵר מִשֶּׁלּוֹ הֵן אֵינָן נֶאֱמָנִין דּוּ מַתְנִיתָא אֵינָן נֶאֱמָנִין אֶלָּא עַל דָּבָר שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם נוֹהֲגִין כֵּן. כֵּינִי מַתְנִיתָא אֵינָן נֶאֱמָנִין אֶלָּא עַל דָּבָר שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם נוֹתְנִין כֵּן.

Disse Rabi Bun bar Chiya: o filho de Levi é confiável quando diz "isto é certamente dízimo" (isto é, quando afirma que o produto em sua posse é o próprio primeiro dízimo que já recebeu como levita), para isentá-lo do segundo dízimo (pois, sendo o primeiro dízimo, não incide sobre ele a obrigação do segundo). Mas se ele diz "foi dado a mim" (como presente comum, e não como dízimo devido), ou se diz "é da sua própria safra" (que ele mesmo cultivou, e da qual, como qualquer dono comum, deveria ter separado dízimos regulares), nesses casos eles não são confiáveis (pois já não se trata do hábito reconhecido do levita quanto ao seu próprio dízimo, mas de uma alegação distinta, que exige verificação como a de qualquer outra pessoa). E é a respeito disso que a Mishná ensina: "mas eles não são confiáveis senão quanto àquilo que é costume das pessoas fazerem" (a ressalva final da Mishná refere-se precisamente a essa distinção). Assim se deve entender a Mishná: "eles não são confiáveis senão quanto àquilo que é costume das pessoas darem assim" (a leitura correta troca "fazerem" por "darem", pois o costume relevante aqui não é o hábito do próprio levita ou do pobre, mas o hábito do dono do campo de efetivamente entregar essas dádivas dessa forma).

Nota

Esta segunda halachá do Perek Chet desloca o eixo da discussão de "desde quando" para "em quem se confia": depois de 8:1 fixar os marcos temporais que liberam leket, peret, olelot e azeitonas a todos, 8:2 pergunta quem pode ser tomado em sua palavra quando afirma já ter cumprido a separação dessas dádivas. A Mishná declara confiáveis os próprios pobres quanto ao leket, ao esquecimento e à peá em sua época, e quanto ao dízimo do pobre durante o terceiro e o sexto anos do septênio, e declara o levita sempre confiável quanto à teruma do dízimo — mas em ambos os casos limita essa confiança ao que é costume as pessoas fazerem.

A guemará discute, com Rabi Chanina, o alcance geográfico dessa confiança, medido pela distância que o pobre percorre e retorna no mesmo dia, ilustrado pelo caso de Rabi e os cinco irmãos que voltaram cada um com um cor de trigo, explicado como soma acumulada de pequenas quantidades; traz a pergunta de Rabi Elazar Deromaia a Rabi Yosei sobre se a confiança irrestrita da Mishná quanto ao levita seguiria a posição individual de Rabi Eliezer, respondida por ser opinião unânime, já que ninguém arrisca transgredir intencionalmente um pecado capital; traz o paralelo de Rabi Elazar em nome de Rabi Hoshaia entre a confiança de Israel quanto à teruma grande e a confiança do levita quanto à teruma do dízimo; registra a pergunta em aberto de Rabi Mana sobre se essa confiança vale também no ano sabático, quando nenhum dízimo é dado; e fecha com Rabi Bun bar Chiya distinguindo o levita que declara tratar-se de seu próprio dízimo certo — confiável, e por isso isento do segundo dízimo — do que alega tê-lo recebido como presente ou ser de sua própria safra — não confiável —, ajustando a leitura final da Mishná de "costume de fazer" para "costume de dar", referindo o hábito ao doador, e não ao levita ou ao pobre.