Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Heh · Halachá 4 (última do perek)
מַשְׁאֶלֶת

O empréstimo de utensílios à vizinha suspeita, e o encerramento do Perek Heh

Perek Heh, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit — encerramento do capítulo

Quarta e última halachá do Perek Heh de Massechet Sheviit: a Mishná ensina que uma mulher pode emprestar à sua vizinha, suspeita quanto ao ano sabático, uma peneira grossa, uma peneira fina, um moinho de mão e um forno, mas não deve escolher os grãos nem moer com ela; que a esposa de um chaver (associado, rigoroso na observância das leis de pureza e dos dízimos) pode emprestar à esposa de um am haaretz (iletrado, não rigoroso nessas leis) uma peneira grossa e uma peneira fina, e ainda escolher, moer e peneirar com ela, mas não deve mais tocar no que é dela depois que ela colocar água na farinha; que tudo isso só foi dito por causa dos caminhos da paz; que se apoiam as mãos dos gentios no ano sabático, mas não as dos israelitas; e que se pergunta pelo bem-estar do suspeito por causa dos caminhos da paz. A guemará traz a pergunta de Rabi Ze'ira a Rabi Mana sobre se a Mishná trata apenas do caso implícito, quando não se especifica o uso do utensílio, respondida com exemplos do uso lícito de cada um — a peneira grossa para contar moedas, a peneira fina para peneirar areia, o moinho para moer especiarias, o forno para esconder feixes de linho; a pergunta de Rabi Pinchas sobre em que lugar se impôs a proibição de escolher e moer com a suspeita — se onde se semeia e come o próprio produto, ou onde se semeia mas não se come —, ilustrada pelo caso de ver alguém comprando de um mercador sarraceno; a pergunta de Rabi Yosei bar Chanina sobre se a regra dos caminhos da paz vale para todo o capítulo ou apenas para esta Mishná, respondida pelos sábios de Cesareia, em nome de Rabi Yuda bar Titus, a partir do costume de só repetir esta halachá no tratado de Guitin; a comparação com o padeiro que trabalha em impureza, com quem não se amassa nem se molda o pão, e a distinção de Rabi La entre pão comum e teruma, e a dos colegas entre o grão já molhado e o ainda não molhado; a discussão de Rabi Chiya e Rabi Imi sobre as fórmulas de cumprimento devidas a um gentio e a um israelita, por causa dos caminhos da paz; e fecha com o relato de Rabi Chinena bar Papa e Rabi Shmuel bar Nachmani sobre o que se pode dizer a quem ara no ano sabático, e a exposição do versículo dos Salmos sobre as nações do mundo, que não abençoam Israel, e as bênçãos que vêm ao mundo pelo mérito de Israel. Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Heh de Massechet Sheviit.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מַשְׁאֶלֶת אִשָּׁה לַחֲבֵירָתָהּ הַחֲשׁוּדָה עַל הַשְּׁבִיעִית נָפָה וּכְבָרָה וְרֵיחַיִם וְתַנּוּר אֲבָל לֹא תָבוֹר וְלֹא תִטְחוֹן עִמָּהּ. אֵשֶׁת חָבֵר מַשְׁאֶלֶת לְאֵשֵׁת עַם הָאָרֶץ נָפָה וּכְבָרָה וּבוֹרֶרֶת וְטוֹחֶנֶת וּמְרַקֶּדֶת עִמָּהּ אֲבָל מִשֶּׁתַּטִּיל אֶת הַמַּיִם לֹא תִגַּע אֶצְלָהּ שֶׁאֵין מְחַזְּקִין יְדֵי עוֹבְרֵי עֲבֵירָה. וְכוּלָּם לֹא אָמְרוּ אֶלָּא מִפְּנֵי דַּרְכֵי שָׁלוֹם. וּמַחֲזִיקִים יְדֵי גּוֹיִם בַּשְּׁבִיעִית אֲבָל לֹא יְדֵי יִשְׂרָאֵל. וְשׁוֹאֲלִין בִּשְׁלוֹמָן מִפְּנֵי דַּרְכֵי הַשָּׁלוֹם.

Mishná: Uma mulher pode emprestar à sua vizinha, que é suspeita quanto ao ano sabático, uma peneira grossa, uma peneira fina, um moinho de mão e um forno, mas não deve escolher os grãos nem moer com ela. A esposa de um chaver (associado, rigoroso na observância) pode emprestar à esposa de um am haaretz (iletrado, não rigoroso) uma peneira grossa e uma peneira fina, e pode escolher os grãos, moer e peneirar com ela, mas, depois que ela colocar a água (na farinha, tornando-a suscetível a impureza), não deve mais tocar no que é dela, pois não se apoiam as mãos dos transgressores. E tudo isso só foi dito por causa dos caminhos da paz. E se apoiam as mãos dos gentios no ano sabático, mas não as dos israelitas. E se pergunta pelo seu bem-estar (cumprimenta-se o suspeito), por causa dos caminhos da paz.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Rabi Ze'ira e Rabi Mana: o caso implícito é como o explícito
Yerushalmi · Sheviit 5:4
רִבִּי זְעִירָא בָּעָא קוֹמֵי רִבִּי מָנָא מַתְנִיתָא בִסְתָם הָא בִּמְפוּרָשׁ לֹא. אָמַר לֵיהּ וּסְתָמוֹ לָאו כְּפֵירוּשׁוֹ הוּא אֲנִי אוֹמֵר נָפָה לִסְפּוֹר בָּהּ מָעוֹת. כְּבָרָה לִכְבּוֹר בָּהּ חוֹל. רֵיחַיִים לִטְחוֹן בָּהּ סַמְמָנִים. תַּנּוּר לִטְמוֹן בָּהּ אוּנִּין שֶׁל פִּשְׁתָּן.

Halachá: Rabi Ze'ira perguntou diante de Rabi Mana: a nossa Mishná trata do caso implícito (quando não se especifica o uso do utensílio emprestado), mas não do caso explícito? Disse-lhe: por acaso o caso implícito não é como o explícito? Eu digo: a peneira grossa serve para contar moedas nela; a peneira fina, para peneirar areia com ela; o moinho de mão, para moer especiarias nele; o forno, para esconder nele feixes de linho.

02Rabi Pinchas: em que lugar se impôs a multa, e o comprador do sarraceno
Yerushalmi · Sheviit 5:4
רִבִּי פִּינְחָס בָּעֵי בְּמַה קָנְסוּ. בְּמָקוֹם שֶׁזּוֹרְעִין וְאוֹכְלִין אוֹ בְּמָקוֹם שֶׁזּוֹרְעִין וְלֹא אוֹכְלִין. מַה נְפַק מִבֵּינֵיהוֹן. רָאוּ אוֹתוֹ לוֹקֵח מִן הַסִּירְקִי אִין תֵימַר בְּמָקוֹם שֶׁזּוֹרְעִין וְאוֹכְלִין רָאוּ אוֹתוֹ לוֹקֵח מִן הַסִּירְקִי אָסוּר. אִין תֵּימַר בְּמָקוֹם שֶׁזּוֹרְעִין וְאֵין אוֹכְלִין רָאוּ אוֹתוֹ לוֹקֵח מִן הַסִּירְקִי מוּתָּר.

Halachá: Rabi Pinchas perguntou: em que caso impuseram a proibição de escolher e moer com a suspeita? Em um lugar onde semeiam e comem (o próprio produto do ano sabático), ou em um lugar onde semeiam mas não comem? Qual é a diferença prática entre os dois? Se o viram comprando de um sarraceno (mercador itinerante que, por não trazer mercadoria de longe, pode estar vendendo produto do próprio local). Se disseres que é em um lugar onde semeiam e comem: vê-lo comprando do sarraceno é proibido (pois o produto pode muito bem ser o próprio produto sabático local). Se disseres que é em um lugar onde semeiam mas não comem: vê-lo comprando do sarraceno é permitido (pois ali presume-se que ele o trouxe de fora, já que ninguém ali comeria produto sabático local).

03Rabi Yosei bar Chanina: para todo o capítulo, ou só para esta Mishná
Yerushalmi · Sheviit 5:4
רִבִּי יוֹסֵי בַּר חֲנִינָה בָּעֵי עַל כָּל פִּירְקָא אִתְאֲמָרַת אוֹ עַל הָדָא הִילְכְתָא אִיתְאֲמָרַת. רַבָּנִין דְּקֵיסָרִין בְּשֵׁם רִבִּי יוּדָה בַּר טִיטֻס מִן מַה דְּלָא תַנִּינָן בְּגִיטִּין אֶלָּא הָדָא הִילְכְּתָא הָדָא אָמְרָה עַל הָדָא הִילְכְתָא אִתְאֲמָרַת.

Halachá: Rabi Yosei bar Chanina perguntou: isso (que a colaboração com o suspeito só é permitida por causa dos caminhos da paz) foi dito sobre todo este capítulo, ou foi dito apenas sobre esta halachá? Os sábios de Cesareia, em nome de Rabi Yuda bar Titus: do fato de que, no tratado de Guitin, ensinamos apenas esta halachá (e não as demais deste capítulo), isso ensina que foi dito apenas sobre esta halachá.

04O padeiro que trabalha em impureza: pão comum e teruma, o grão molhado e o não molhado
Yerushalmi · Sheviit 5:4
תַּמָּן תַּנִּינָן נַחְתּוֹם שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בְטוּמְאָה לֹא לָשִׁין וְלֹא עוֹרְכִין עִמּוֹ. וְתַנֵּי עֲלָהּ לֹא בוֹרְרִין וְלֹא טוֹחֲנִין וְלֹא מַרְקִידִין עִמּוֹ. וְהָכָא הוּא אָמַר הָכֵן. אָמַר רִבִּי לָא כָּאן לְחוּלִין כָּאן לִתְרוּמָה. וְהַתַּנִינָן נַחְתּוֹם. אִית לָךְ מֵימַר נַחְתּוֹם בִּתְרוּמָה. חֲבֵרַיָיא אָמְרֵי כָּאן בְּלוֹתֵת וְכָאן בִּשֶׁאֵינוֹ לוֹתֵת. מַתְנִיתָא מְסַיְיעָא לַחֲבֵרַיָיא אֲבָל מִשֶּׁתַּטִּיל מַיִם לֹא תִגַּע אֶצְלָהּ שֶׁאֵין מְחַזְּיקִין יְדֵי עוֹבְרֵי עֲבֵירָה.

Halachá: Ali (em outra Mishná) ensinamos: quanto ao padeiro que trabalha em impureza, não se amassa nem se molda o pão com ele. E foi ensinado a respeito: não se escolhe, nem se mói, nem se peneira com ele. E aqui (nesta Mishná) se diz o contrário (que se pode fazer essas coisas com a esposa do am haaretz)? Disse Rabi La: aqui trata-se de pão comum; ali trata-se de teruma (a porção sagrada, que deve ser mantida pura). Mas não ensinamos ali simplesmente "o padeiro"? Podes dizer que aquele padeiro trabalha com teruma? Os colegas dizem: aqui, quando o grão já foi molhado (antes de moer, o que o torna suscetível a impureza); ali, quando ainda não foi molhado. A Mishná apoia os colegas: "mas, depois que ela colocar a água, não deve mais tocar no que é dela, pois não se apoiam as mãos dos transgressores."

05Rabi Chiya e Rabi Imi: as fórmulas de cumprimento a gentios e a israelitas
Yerushalmi · Sheviit 5:4
וְכוּלָּן לֹא אָמְרוּ אֶלָּא מִפְּנֵי דַּרְכֵי שָׁלוֹם. רִבִּי חִיָיה וְרִבִּי אִימִּי חַד אָמַר חֲרוֹש לָהּ טָבָאוּת וַאֲנָא נְסַב לָהּ מִינָךְ בָּתָר שְׁמִיטְתָא. וָחָרָנָא אָמַר אַיַּישֵּׁר. מָן דָּמַר טָבָאוּת מַה שׁוֹאֲלִין בִשְׁלוֹמָן אַיַּשֵּׁר. מָאן דְּאָמַר לְגוֹי אַיַּשֵּׁר מַהוּ שׁוֹאֲלִין בִשְׁלוֹמָן יִשְׂרָאֵל שָׁלוֹם עֲלֵיכֶם.

Halachá: "E tudo isso só foi dito por causa dos caminhos da paz." Rabi Chiya e Rabi Imi (discutiram o que se pode dizer a um gentio que ara no ano sabático, para "apoiar suas mãos"): um disse: "ara-a bem, e eu a arrendarei de ti depois do ano sabático"; e o outro disse: "que tenhas sucesso." Para quem diz "ara-a bem" — o que se diz a um israelita, ao perguntar pelo seu bem-estar? "Que tenhas sucesso." Para quem diz a um gentio "que tenhas sucesso" — o que se diz, ao perguntar pelo bem-estar de um israelita? "Paz sobre ti, Israel."

06Rabi Chinena bar Papa e Rabi Shmuel bar Nachmani: o que se diz a quem ara no ano sabático
Yerushalmi · Sheviit 5:4
דֵּלֹמָא רִבִּי חִינְנָא בַּר פַּפָּא וְרִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי עָבְרוּן עַל חַד מֵחוֹרְשֵׁי שְׁבִיעִית. אָמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָן אַיַּשֵּׁר. אָמַר לֵיהּ רִבִּי חִינְנָא בַּר פַּפָּא וְלֹא כֵן אוּלְפָן רִבִּי וְלֹא אָמְרוּ הָעוֹבְרִים בִּרְכַּת יי עֲלֵיכֶם. שֶׁאָסוּר לוֹמַר לְחוֹרְשֵׁי שְׁבִיעִיּוֹת אַיַּשֵּׁר. אָמַר לֵיהּ לִקְרוֹת אַתָּה יוֹדֵעַ. לִדְרוֹשׁ אֵין אַתָּ יוֹדֵעַ. וְלֹא אָמְרוּ הָעוֹבְרִים אֵלּוּ אוּמּוֹת הָעוֹלָם שֶׁעוֹבְרִין מִן הָעוֹלָם. וְלֹא אָמְרוּ לְיִשְׂרָאֵל בִּרְכַּת יי עֲלֵיכֶם. מַה יִשְׂרָאֵל אוֹמְרִין לָהֶן בֵּרַכְנוּ אֶתְכֶם בְּשֵׁם יי. לֹא דַיֵיכֶם שֶׁכָּל הַבְּרָכוֹת הַבָּאוֹת לָעוֹלָם בִּזְכוּתֵינוּ וְאֵין אַתֵּם אוֹמְרִים לָנוּ בּוֹאוּ וּטְלוּ לָכֶם מִן הַבְּרָכוֹת הָאֵילּוּ. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁאַתֶּם מְגַלְגְּלִין עָלֵינוּ פִּיסִּים וְזֵימִיּוֹת וְגּוּלְגּוֹלִיּוֹת וְאַרְנוֹנִיּוֹת.

Halachá: Certa vez, Rabi Chinena bar Papa e Rabi Shmuel bar Nachmani passaram por um dos que araram no ano sabático. Disse-lhe Shmuel bar Nachman: "que tenhas sucesso." Disse-lhe Rabi Chinena bar Papa: não foi assim que nos ensinou Rabi (a partir do versículo): "e não disseram os que passavam: a bênção do Eterno seja sobre vós" (Salmos 129:8) — que é proibido dizer a quem ara no ano sabático "que tenhas sucesso"? Disse-lhe: sabes ler, mas não sabes expor. "E não disseram os que passavam" — estes são as nações do mundo, que passam do mundo (são transitórias, e por isso não disseram) a Israel: "a bênção do Eterno seja sobre vós." O que diz Israel a elas? "Nós vos abençoamos em nome do Eterno" — não vos basta que todas as bênçãos que vêm ao mundo são por nosso mérito, e vós não nos dizeis: "vinde e tomai para vós dessas bênçãos"? E não somente isso, mas ainda fazeis recair sobre nós impostos per capita, tributos, impostos de cabeça e tributos sobre a produção.

Nota

Esta é a quarta e última halachá do Perek Heh de Massechet Sheviit. A Mishná trata dos limites da colaboração com quem é suspeito de transgredir o ano sabático: uma mulher pode emprestar à vizinha suspeita utensílios de uso múltiplo — peneira, moinho, forno —, mas não trabalhar ao lado dela escolhendo ou moendo os grãos, o que seria participação direta na transgressão; já a esposa de um chaver pode fazer mais com a esposa de um am haaretz, por se tratar de uma suspeita menor (a impurexa da teruma, não a transgressão do ano sabático), mas ainda assim há um limite — o momento em que a água é acrescentada à farinha. A Mishná fecha esclarecendo que toda essa tolerância existe apenas por causa dos caminhos da paz, e não porque a transgressão em si seja permitida, e que se apoiam as mãos dos gentios no ano sabático, mas não as dos israelitas, ainda que se cumprimente a todos por igual.

A guemará abre com a pergunta de Rabi Ze'ira sobre se a Mishná trata apenas do caso em que não se especifica o uso do utensílio, respondida por Rabi Mana com exemplos concretos de uso lícito para cada um deles. Segue a pergunta de Rabi Pinchas sobre em que lugar se impôs a proibição mais estrita, ilustrada pelo caso de ver o suspeito comprando de um mercador sarraceno, e a pergunta de Rabi Yosei bar Chanina sobre o alcance da regra dos caminhos da paz, respondida a partir do costume de repetição em Guitin. A guemará traz então o paralelo do padeiro que trabalha em impureza, distinguindo, segundo Rabi La, entre pão comum e teruma, e, segundo os colegas, entre o grão já molhado e o ainda não molhado — distinção que a própria Mishná confirma. Por fim, repetindo quase literalmente o material que já fechava o Perek Dalet, Halachá 3, a guemará discute as fórmulas exatas de cumprimento devidas a gentios e a israelitas por causa dos caminhos da paz, e fecha com o relato de Rabi Chinena bar Papa e Rabi Shmuel bar Nachmani sobre o que se pode dizer a quem ara no ano sabático, e a exposição do versículo dos Salmos sobre as nações do mundo — transitórias, e por isso incapazes de abençoar Israel — em contraste com as bênçãos que vêm ao mundo pelo mérito de Israel.

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Heh de Massechet Sheviit.