O daf abre esclarecendo a última cláusula da Mishná sobre a fila de condolências, e passa a um novo eixo temático central: a tensão entre honrar as pessoas (kevod haberiot) e observar estritamente a lei, ilustrada pela regra de tirar o kilaim mesmo em público. Uma sequência de objeções — pular sobre caixões para saudar reis, o campo de bet haperás, e a devolução de objetos perdidos — testa os limites desse princípio, cada uma resolvida por uma distinção técnica, até a Guemará estabelecer, com a ajuda de Rav Kahana, que a honra das criaturas pode suspender uma proibição rabínica, mas não uma proibição bíblica explícita, exceto quando o próprio versículo já prevê a exceção. O daf termina abrindo a derivação sobre o cohen que vai abater seu cordeiro pascal ou circuncidar seu filho e recebe notícia da morte de um parente, tema que se conclui no daf seguinte com a distinção do morto sem quem o enterre.
A Mishná ensinou: "os que estão de pé na fila, os de dentro isentos e os de fora obrigados, etc." Ensinaram os sábios numa baraita: a fila que vê o enlutado por dentro (o espaço interno do círculo formado ao redor dele) está isenta da leitura do Shemá, e a que não vê por dentro fica obrigada. Rabi Yehudá diz uma distinção diferente: os que vieram por causa do enlutado (especificamente para consolá-lo) estão isentos; os que vieram por si mesmos (apenas para ver o acontecido, sem propósito de consolação) ficam obrigados.
"Que vê por dentro" — isto é, vê o espaço vazio do círculo, atrás da fila interna, onde o enlutado está sentado. "Por si mesmos" — isto é, não por respeito e consolação, pois não vieram para consolar, mas para ver o acontecido.
A Guemará esclarece a última cláusula da nova Mishná introduzida no fim de 19a, sobre a fila de condolências formada ao redor do enlutado após o retorno do sepultamento. Uma baraita apresenta o critério geográfico: quem está posicionado de modo a ver diretamente o espaço onde o enlutado se encontra está isento da leitura do Shemá naquele momento, presumivelmente por estar ativamente engajado no ato de consolação; quem está mais afastado, sem essa visão direta, permanece obrigado. Rabi Yehudá propõe um critério alternativo, baseado na intenção: não importa a posição física, mas o motivo de ter vindo — se por genuíno propósito de consolar o enlutado, ou por mera curiosidade em relação ao ocorrido.
Disse Rav Yehudá em nome de Rav: aquele que encontra (percebe) kilaim (mistura proibida de lã e linho) em sua roupa deve tirá-los, mesmo estando na rua (em público, apesar do constrangimento de se despir ali). Qual é a razão? "Não há sabedoria, e não há entendimento, e não há conselho diante do Eterno" (Provérbios 21:30 — nenhuma consideração humana prevalece contra a vontade divina); em todo lugar em que há profanação do Nome divino, não se concede honra ao mestre (nem sequer ao maior sábio, se seguir vestindo o kilaim seria, por si, uma transgressão contínua e pública).
"Não há sabedoria" — isto é, nenhuma sabedoria humana é importante o suficiente para prevalecer diante do Eterno.
A Guemará inicia uma nova unidade temática, ainda conectada ao campo mais amplo da honra devida às pessoas, mas agora explorando seus limites diante da lei. Rav, em nome próprio, estabelece que alguém que perceba estar vestindo uma mistura proibida de lã e linho deve removê-la imediatamente, mesmo que isso signifique se despir em plena via pública — uma situação normalmente evitada por respeito à dignidade humana. A justificativa: a transgressão contínua de uma proibição bíblica constitui profanação do Nome divino, e diante disso nenhuma consideração de honra, nem mesmo a de um grande sábio, pode prevalecer. Este princípio inaugura a discussão sobre até onde vai o poder da "honra das criaturas" (kevod haberiot) de suspender obrigações legais, que ocupará o restante do daf.
Objeta-se: sepultaram o morto e retornaram, e diante deles há dois caminhos, um puro e um impuro (que passa por um campo suspeito de conter restos de sepultura — bet haperás): se o enlutado veio pelo caminho puro, os demais vêm com ele pelo puro; se veio pelo caminho impuro, os demais vêm com ele pelo impuro, por respeito à sua honra (mesmo que isso implique contrair impureza ritual desnecessariamente). Pergunta-se então: e por quê se permite isso? Diga-se também aqui: "não há sabedoria, e não há entendimento diante do Eterno" (e a honra do enlutado não deveria prevalecer sobre a proibição de se contaminar desnecessariamente)!
A Guemará traz uma baraita que parece contradizer o princípio recém-estabelecido: quando os que retornam de um sepultamento têm à frente dois caminhos possíveis, um ritualmente puro e outro impuro (por atravessar um campo suspeito de conter ossos), e o enlutado escolhe o caminho impuro, os demais o acompanham por esse mesmo caminho, por respeito à sua honra — mesmo que isso signifique contrair impureza desnecessariamente. Se a honra humana não pode prevalecer contra a vontade divina, como se explica essa permissão?
Explicou-a Rabi Abba: trata-se de bet haperás (um campo arado sobre o qual há suspeita de sepultura, cuja impureza é, apenas, de instituição rabínica (e não bíblica; por isso a honra do enlutado pode suspendê-la, já que ela não constitui uma verdadeira transgressão da Torá).
Rabi Abba resolve a objeção limitando o alcance da baraita: o caminho "impuro" mencionado ali não é um caso de impureza bíblica certa, mas do bet haperás — um campo em que se arou sobre um túmulo, gerando apenas uma suspeita de impureza, instituída por decreto rabínico e não pela própria Torá. Sendo uma proibição de grau inferior, a honra do enlutado pode legitimamente suspendê-la, sem que isso contradiga o princípio de que a honra humana não prevalece contra proibições bíblicas explícitas.
E isto se apoia no que disse Rav Yehudá em nome de Shmuel: a pessoa pode sacudir (examinar, revirando com os pés) o bet haperás à sua frente, e então seguir caminhando, tendo se assegurado de que não há ossos visíveis. E disse Rav Yehudá bar Ashi em nome de Rav: um bet haperás que já foi pisoteado (por muitas pessoas ou animais) está puro (pois qualquer osso de tamanho relevante já teria sido triturado abaixo do limite mínimo que transmite impureza).
"Bet haperás" — pois não contamina senão por decreto rabínico, e trata-se de um campo em que se arou sobre um túmulo, e os sábios temeram que os instrumentos do arado tivessem desalojado os ossos, e quem pisa sobre eles os desloca ainda mais, espalhando-os, e um osso do tamanho de um grão de cevada contamina por contato e por carregamento, mas não por estar sob a mesma cobertura (ohel); e como essa impureza é apenas de instituição rabínica, foram os próprios sábios que lhe concederam menor rigor em relação à honra devida ao enlutado. "A pessoa pode sacudir" — à sua frente, pois se ali houvesse um osso, ela o veria; e se fosse impureza bíblica, não seríamos tão condescendentes a ponto de nos apoiarmos apenas nesse sacudir; e esse exame foi permitido a quem vai realizar o sacrifício pascal, mas não a quem come terumá, como dizemos no tratado Chaguigá, em "Chomer BaKodesh" (Chaguigá 25b). "Que foi pisoteado" — pelos pés de muitos.
A Guemará fundamenta a natureza apenas rabínica da impureza do bet haperás com duas leis relacionadas: primeiro, que basta sacudir ou examinar visualmente o caminho à frente para poder prosseguir com segurança — um padrão de verificação que jamais seria aceito para uma impureza de origem bíblica, cuja gravidade exigiria critérios mais rigorosos; segundo, que um bet haperás já bastante pisoteado é considerado puro, pois qualquer osso ali existente já teria sido triturado abaixo do tamanho mínimo capaz de transmitir impureza. Rashi acrescenta que esse exame simplificado por sacudimento foi permitido apenas para quem vai cumprir o sacrifício pascal, e não para quem consome terumá, refletindo graus distintos de rigor consoante o contexto ritual.
Venha e ouça outra objeção: disse Rabi Elazar bar Tzadok: costumávamos pular sobre os caixões dos mortos (que se encontravam no caminho), ao encontro dos reis de Israel (saindo apressadamente para recebê-los, apesar de tal ato poder envolver impureza ou desrespeito ao morto). E não apenas ao encontro dos reis de Israel disseram que isso é permitido, mas mesmo ao encontro dos reis das nações do mundo, para que, se algum dia tiver o mérito de ver a redenção, saiba distinguir entre os reis de Israel e os reis das nações do mundo (pela familiaridade com a pompa real, ainda que gentia). Pergunta-se: e por quê se permite isso? Diga-se: "não há sabedoria, e não há entendimento, e não há conselho diante do Eterno" (e a honra devida a um rei não deveria prevalecer sobre a proibição de contrair impureza ao passar sobre um caixão)!
"Costumávamos pular" — de um caixão a outro. "Ao encontro dos reis de Israel" — eis que, por honra às criaturas, transgrediam o versículo "à pessoa morta não se contaminará" (Levítico 21:1), pois Rabi Elazar bar Tzadok era ele mesmo um cohen, como dizemos no tratado Bechorot (36a).
A Guemará traz uma objeção mais grave: Rabi Elazar bar Tzadok — identificado por Rashi como ele mesmo um cohen, sujeito à proibição bíblica explícita de se contaminar por contato com um morto — relata que os cohanim costumavam pular sobre caixões para saudar reis, tanto de Israel quanto das nações, justificando esta última prática pelo valor educativo de aprender a distinguir a majestade real, útil para reconhecer a glória futura do Messias. Se aqui a transgressão envolve uma proibição bíblica explícita e específica para os cohanim, o princípio de que a honra humana não prevalece contra a vontade divina parece diretamente contrariado — objeção mais forte que a anterior, pois já não se trata apenas de impureza rabínica do bet haperás.
A resposta é conforme Rava, pois disse Rava: segundo a lei da Torá, uma cobertura (ohel), toda a que tiver um vão vazio de um tefach (largura de um palmo), interpõe-se diante da impureza (bloqueando sua transmissão para quem estiver por cima, como uma verdadeira tenda separadora); e a que não tiver um vão vazio de um tefach não se interpõe diante da impureza (deixando-a passar livremente). E a maioria dos caixões têm um vão vazio de um tefach (entre a tampa e o corpo, e portanto interpõem-se, protegendo bibicamente quem pula sobre eles). E os sábios decretaram impureza sobre os que têm esse vão, por causa dos que não o têm (um decreto preventivo, para que não se confundam os dois tipos). Mas por causa da honra dos reis, os sábios não decretaram sobre eles (suspendendo, neste caso específico, seu próprio decreto preventivo).
"Segundo a lei da Torá" — isto é, uma Halachá transmitida a Moshé no Sinai. "Não se interpõe diante da impureza" — pois essa configuração se chama impureza "comprimida", que se abre passagem e sobe (atravessando qualquer espaço estreito e afetando quem estiver por cima, mesmo sem contato direto).
A resposta desta objeção recorre a um princípio técnico de Rava sobre a transmissão de impureza sob cobertura (tumat ohel): quando há um vão vazio de pelo menos um tefach entre a tampa do caixão e o corpo, essa cavidade funciona como uma barreira que impede a impureza de "subir" e afetar quem está por cima, ao contrário de uma impureza "comprimida" sem esse espaço, que se propaga livremente. Como a maioria dos caixões possui, de fato, esse vão suficiente, pular sobre eles não deveria, pela lei bíblica, causar impureza alguma — o problema seria apenas o decreto preventivo rabínico que trata igualmente todos os caixões, por temor de confusão com os poucos sem esse vão. E é justamente esse decreto de origem rabínica, e não uma proibição bíblica direta, que os sábios suspenderam em nome da honra devida aos reis — preservando, assim, o princípio geral, já que aqui também a base da permissão é apenas uma leniência rabínica.
Venha e ouça uma objeção ainda mais forte: grande é a honra das criaturas, que afasta uma proibição (um "não farás") da própria Torá.
A Guemará traz um princípio geral, formulado de modo direto e sem rodeios, que parece contrariar frontalmente tudo o que se estabeleceu até aqui: a honra das criaturas seria capaz de afastar não apenas decretos rabínicos, mas uma proibição bíblica explícita. Se assim for, a base de toda a distinção construída nas respostas anteriores — entre impurezas rabínicas e bíblicas — desmorona, exigindo uma nova resolução.
E por quê se permite isso? Diga-se: "não há sabedoria, e não há entendimento, e não há conselho diante do Eterno"! Explicou-a Rav bar Shva, diante de Rav Kahana: trata-se da proibição derivada de "não te desviarás" (Deuteronômio 17:11 — a proibição geral de desviar-se das instruções dos sábios, que embora tenha base num versículo, refere-se a leis de origem rabínica). Riram dele os presentes: mas a proibição de "não te desviarás" não é ela mesma da Torá?! (Se a base legal do "não farás" é um versículo explícito, como pode se dizer que a honra das criaturas afasta uma proibição meramente rabínica?)
"Uma proibição ('não farás')" — viria à mente pensar que se referia a qualquer "não farás" que fosse, incluindo os mais explícitos e graves. "Trata-se da proibição derivada de 'não te desviarás', etc.. Riram dele" — pois eles (os que ouviram a primeira formulação) pensaram que se tratava de mesmo quando os sábios lhe disseram algo que fosse, na verdade, da Torá, e ele (o preceito de honra) estivesse diante dessa honra, ainda assim ele (o preceito bíblico) seria transgredido por causa da honra — mas eis que este princípio de "não te desviarás" também é de origem bíblica (portanto não resolve a dificuldade, pois ainda estaríamos afastando uma proibição da Torá).
Rav bar Shva tenta resolver a dificuldade sugerindo que a proibição afastada pela honra das criaturas não é qualquer proibição bíblica, mas especificamente aquela que deriva do versículo "não te desviarás" — o mandamento genérico de obediência às palavras dos sábios, que serve de base formal a todas as leis de origem rabínica. Sob essa leitura, o princípio permaneceria consistente: apenas proibições rabínicas (ainda que ancoradas nesse versículo) cederiam à honra humana. Mas a explicação é recebida com risos zombeteiros: já que o próprio "não te desviarás" está escrito explicitamente na Torá, dizer que a honra das criaturas o afasta equivale, ainda assim, a afirmar que ela afasta uma proibição bíblica — não resolvendo, portanto, a dificuldade original.
Disse Rav Kahana: um homem grande (eminente) disse essa afirmação; não riam dele (pois há um sentido correto em suas palavras). Todas as matérias de origem rabínica foram apoiadas pelos sábios sobre a proibição de "não te desviarás" (como recurso retórico e formal de conexão à Torá, embora sua substância seja de instituição posterior), e por causa da honra das criaturas os sábios permitiram transgredi-las (essas leis, apesar de ancoradas nesse versículo, continuam sendo, em sua essência, de origem rabínica, e por isso podem ceder à honra humana).
"Todas as matérias de origem rabínica, etc." — e assim lhes dizia Rav bar Shva: uma questão que é de origem das palavras dos escribas (sábios) é afastada diante da honra das criaturas, e a Guemará a chama de "não farás", porque está escrito "não te desviarás". E quanto à dificuldade que vos incomodou — de que essa proibição é da Torá —, na verdade, foram os próprios sábios que renunciaram à sua honra (à honra de suas próprias instituições), permitindo transgredir suas palavras onde há honra das criaturas em jogo; por exemplo, mover no Shabat pedras do banheiro para se limpar (Shabat 81b), ou aquele cujo tsitsit se rompeu de sua veste num carmelit (domínio intermediário) — não exigiram que deixasse sua veste ali e entrasse nu em sua casa (Menachot 38a).
Rav Kahana intervém em defesa de Rav bar Shva, esclarecendo que sua explicação, longe de ser incorreta, capta uma distinção sutil e importante: todas as leis de origem rabínica foram formalmente vinculadas, pelos próprios sábios, ao versículo "não te desviarás", como forma de lhes dar peso e autoridade — mas isso não altera sua natureza substantiva de instituições rabínicas, e não bíblicas. Por essa razão, os próprios sábios, autores dessas leis, tinham o poder de flexibilizá-las em nome da honra das criaturas, permitindo sua transgressão em circunstâncias específicas. Rashi ilustra com exemplos concretos de outras partes do Talmud: mover objetos proibidos no Shabat por necessidade higiênica, ou dispensar alguém de entrar nu em casa após seu tsitsit se romper em público — casos em que a dignidade humana prevalece sobre proibições rabínicas específicas.
Venha e ouça outra objeção: "e te esconderás deles" (Deuteronômio 22:3, a respeito da obrigação de devolver o objeto perdido de outrem) — ensina que às vezes tu te escondes deles (estás dispensado da obrigação de devolver), e às vezes tu não te escondes deles (permanece obrigado).
A Guemará introduz uma terceira objeção, agora a partir de um versículo sobre a devolução de objetos perdidos, cuja formulação — "e te esconderás deles" — parece admitir, curiosamente, exceções à obrigação geral, sugerindo que em certos casos a pessoa pode legitimamente "não ver" o objeto perdido e não se sentir obrigada a persegui-lo e devolvê-lo.
Como assim (em que casos exatamente se admite essa exceção)? Se a pessoa que encontrou o objeto perdido era um cohen, e ele (o objeto) está no cemitério (exigindo que o cohen se contamine para recuperá-lo); ou se era um ancião, e a tarefa de apanhar o objeto não condiz com sua honra (seria degradante para sua posição, como carregar sacos no ombro, por exemplo); ou se seu trabalho era mais valioso que o de seu semelhante (o tempo gasto na devolução custaria mais do que o próprio valor do objeto perdido) — por isso está dito "e te esconderás". Pergunta-se então: e por quê se permite isso, especificamente no caso do cohen? Diga-se: "não há sabedoria, e não há entendimento, e não há conselho diante do Eterno" (e o cohen deveria se contaminar mesmo assim, para cumprir o preceito de devolver o objeto perdido)!
"E ele (o objeto) está no cemitério" — refere-se ao objeto perdido. "E não condiz com sua honra" — isto é, o objeto perdido não é suficientemente importante, em relação à sua honra, para que ele se rebaixe a devolvê-lo. "Ou se seu trabalho era mais valioso" — isto é, o valor correspondente à perda de tempo de seu trabalho, ao correr atrás do objeto, excede o valor do próprio objeto perdido, e os donos do objeto não estariam dispostos a lhe pagar mais do que o valor que ele lhes devolveria, de modo que ele acabaria em prejuízo.
A baraita especifica três situações concretas em que a obrigação de devolver o objeto perdido cede: quando o próprio achador é um cohen e o objeto está num cemitério, exigindo dele contaminação ritual proibida; quando é um ancião de tal estatura que a própria tarefa manual de recolher e transportar o objeto seria incompatível com sua dignidade pública; e quando o valor do tempo de trabalho perdido na busca excede o valor do objeto, tornando a devolução economicamente prejudicial e sem retorno equivalente. A Guemará então formula a objeção mais aguda desta sequência: no caso do cohen, a honra das criaturas pareceria estar afastando uma proibição bíblica direta e grave — a proibição de o cohen se contaminar por contato com um morto —, contradizendo o princípio geral.
Responde-se: diferente é ali (o caso do objeto perdido), pois está escrito no próprio versículo "e te esconderás deles" (a exceção já está prevista explicitamente na fonte bíblica que institui a obrigação, e por isso não representa uma suspensão externa da lei pela honra das criaturas, mas parte da própria lei). Objeta-se, então: e não se deveria aprender por analogia a partir desse caso, que também outras proibições bíblicas podem ceder à honra humana? Responde-se: uma proibição ritual ou de outra natureza mais grave não se aprende a partir de uma questão monetária (pois a devolução de achados é, em essência, uma obrigação relacionada a bens, de peso menor que outras proibições da Torá, e não serve de modelo geral).
"E não se deveria aprender por analogia a partir daí" — em relação ao kilaim, sobre o qual dissemos que se tira a roupa mesmo na rua (por que ali não se admite uma exceção semelhante, baseada na honra?). "Questão monetária" — é mais leve em gravidade que uma questão de proibição ritual.
A resolução final desta sequência de objeções estabelece uma distinção decisiva: a exceção do objeto perdido não é um caso de honra humana suspendendo uma proibição bíblica externa à lei — ela está incorporada na própria formulação do versículo, que já prevê, em suas palavras exatas ("e te esconderás"), situações em que a obrigação de devolver não se aplica. Não se trata, portanto, de um precedente que se possa generalizar para outras proibições bíblicas, como a do kilaim mencionada no início do daf: a Guemará explica que questões de natureza estritamente monetária, como a obrigação de devolver achados, são intrinsecamente mais leves que proibições rituais ou de outra ordem, e por isso não servem de modelo para permitir que a honra humana afaste proibições bíblicas mais graves em geral.
Venha e ouça mais uma objeção, introduzida brevemente antes de sua exposição completa.
A Guemará anuncia, com a fórmula costumeira "venha e ouça", uma nova fonte a ser trazida como possível objeção ao princípio discutido, cujo conteúdo é desenvolvido na unidade seguinte a partir da derivação sobre a palavra "e a sua irmã", ligada às leis de impureza sacerdotal por parentes.
"E a sua irmã" (Levítico 21:3, entre os parentes por quem o cohen pode se contaminar) — que vem ensinar essa repetição, já implícita em versículo anterior sobre os parentes próximos? Eis que se alguém (um cohen) estava indo abater seu cordeiro pascal, ou circuncidar seu filho (cumprindo um mandamento urgente e vinculado a um horário específico), e ouviu que lhe morreu um parente próximo, dentre os que exigiriam sua contaminação em circunstâncias normais, poder-se-ia pensar que ele deveria voltar e se contaminar (interrompendo o cumprimento do mandamento para lamentar o parente falecido). Disseste então, por meio desta derivação: não se contaminará (deve prosseguir com o cumprimento do mandamento premente, sem se desviar para o luto).
"'E a sua irmã' — que vem ensinar?" — a respeito do nazir está escrito: "todos os dias de seu voto de nazireado para o Eterno, à pessoa morta não virá" (Números 6:6), e a isto se segue o versículo: "por seu pai, e por sua mãe, por seu irmão e por sua irmã, não se contaminará por eles" (Números 6:7) — pois todos esses parentes já estariam incluídos na regra geral de "à pessoa morta não virá"; então por que a Escritura os menciona separadamente? "Por seu pai" — para excetuar o caso do morto sem quem o enterre (met mitzvá, por quem até o nazir se contamina). "Por sua mãe" — que vem ensinar? Este exemplo específico não seria necessário por causa do caso do morto sem quem o enterre, pois isso já sai do exemplo "por seu pai"; mas os sábios o expõem no Sifrei para ensinar que, se este nazir fosse também um cohen, tendo assim duas santidades sobre si (a de nazir e a de cohen), também quanto à sua mãe ele não se contaminaria por proibição dupla, mas se contamina pelo morto sem quem o enterre. "Por seu irmão" — que vem ensinar? Eis que se ele fosse um Sumo Sacerdote e também um nazir, também quanto a seu irmão ele não se contaminaria, mas se contamina pelo morto sem quem o enterre. "E a sua irmã" — que vem ensinar? Se este caso não é necessário para o assunto anterior, aplica-o ao assunto de quem vai abater seu cordeiro pascal e circuncidar seu filho, que também se contamina pelo morto sem quem o enterre (mas não por seus próprios parentes, para não interromper esses mandamentos urgentes). "E ouviu que lhe morreu um parente" — dentre seus parentes; poder-se-ia pensar que se contaminaria por eles. "Disseste: não se contaminará" — visto que este é o momento do abate do cordeiro pascal, e sobre ele recai a obrigação do Pessach, que traz a pena de karet (extirpação, se não cumprida); se ele se contaminasse, ficaria impedido de realizar o sacrifício de Pessach; e o mesmo vale para circuncidar seu filho, que também é um mandamento ligado à pena de karet. E há quem diga que a Guemará, em Pessachim (Arvei Pessachim), também ensina que a circuncisão de seus filhos homens impede a realização do Pessach (caso não circuncidados, os membros da casa não poderiam comer do sacrifício).
O daf se encerra abrindo uma longa e intrincada derivação midráshica, retirada da passagem sobre o nazireado, que expõe por que a Torá lista repetidamente os mesmos parentes próximos (pai, mãe, irmão, irmã) em relação à proibição de contaminação, quando bastaria a regra geral. Rashi explica que cada menção repetida serve para incluir uma exceção específica: a de que, apesar da proibição geral, contamina-se pelo morto sem quem o enterre (met mitzvá) — mesmo quando se possui uma ou duas santidades sobrepostas, como a de cohen e nazir simultaneamente, ou a de Sumo Sacerdote e nazir. A menção final, "e a sua irmã", é redirecionada para ensinar sobre outro caso: aquele que está prestes a abater seu cordeiro pascal ou circuncidar seu filho — dois mandamentos urgentes, vinculados à grave pena de karet caso não cumpridos a tempo — e recebe notícia da morte de um parente próximo. A conclusão, por ora, é que ele não deve se contaminar por esse parente, prosseguindo com o cumprimento do mandamento premente; mas a Guemará já sinaliza, na própria derivação, que esse mesmo indivíduo pode se contaminar pelo morto sem quem o enterre — uma distinção que o daf seguinte, 20a, desenvolve como sua primeira unidade, ao perguntar se ele pode voltar para se ocupar justamente desse tipo de morto.