Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Guimel
אֲבָל לִתְפִלָּה

A conclusão da lei do talit amarrado à cintura; os tefilin no banheiro; fezes na pele e na mão; a distância de mau cheiro; a disputa de Abaye e Rava sobre fezes em movimento; o focinho do porco; a incerteza sobre fezes e urina; e quando excremento e urina secos deixam de impedir o Shemá

Berachot 25a

O daf conclui a frase iniciada em 24b sobre o talit amarrado à cintura: para a oração, ao contrário do Shemá, é preciso cobrir também o coração, pois nela a pessoa se dirige diretamente a D-us. Segue o ensinamento de Rav Huna sobre quem esqueceu e entrou no banheiro usando tefilin — deve manter a mão sobre eles até terminar a primeira leva, por causa do perigo de reter as necessidades. A Guemará então examina uma série de disputas entre Rav Huna e Rav Chisda, e entre Abaye e Rava, sobre até que ponto a impureza física — fezes na pele ou na mão, mau cheiro com ou sem fonte visível, fezes em movimento, o focinho do porco, e a incerteza sobre a presença de fezes ou urina — impede a recitação do Shemá e da oração, fechando com a extensa discussão sobre quando o excremento seco como barro e a urina que já não umedece deixam de constituir impedimento.

Conclusão: cobrir o coração para a oração · עַד שֶׁיְּכַסֶּה אֶת לִבּוֹ

01Mas para a oração, não recita até que cubra seu coração
Bavli · 25a — Guemará
אֲבָל לִתְפִלָּה עַד שֶׁיְּכַסֶּה אֶת לִבּוֹ.

Continuando a lei de 24b, sobre o talit amarrado à cintura que basta para o Shemá: mas para a oração (a Amidá), não pode recitá-la até que cubra seu coração (pois a mera cobertura dos quadris, suficiente para o Shemá, não basta para a Amidá).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
אבל לתפלה – צריך הוא להראות את עצמו כעומד לפני המלך ולעמוד באימה אבל ק"ש אינו מדבר לפני המלך:

"Mas para a oração" — é necessário que a pessoa se mostre como quem está diante do Rei, e que permaneça com temor; mas quanto ao Shemá, quem o recita não está falando diante do Rei diretamente, e por isso basta a cobertura menor dos quadris.

Nota

Este verso fecha a lei aberta no fim de 24b: enquanto para o Shemá basta cobrir a região dos quadris com o talit amarrado à cintura, para a Amidá — na qual a pessoa se dirige diretamente a D-us, como quem está diante de um Rei — é exigido o padrão mais rigoroso de cobrir também o coração e o peito. Rashi explica a distinção: a oração exige postura de reverência plena diante do Soberano, enquanto o Shemá é apenas a proclamação da unidade divina, sem a mesma exigência de comparecimento formal.

Tefilin no banheiro · שָׁכַח וְנִכְנַס בִּתְפִילִּין לְבֵית הַכִּסֵּא

02Disse Rav Huna: quem esqueceu e entrou no banheiro usando tefilin, mantém a mão sobre eles até terminar a primeira leva — por causa do perigo de reter as necessidades, segundo Rabán Shimon ben Gamliel
Bavli · 25a — Guemará
וְאָמַר רַב הוּנָא: שָׁכַח וְנִכְנַס בִּתְפִילִּין לְבֵית הַכִּסֵּא — מַנִּיחַ יָדוֹ עֲלֵיהֶן עַד שֶׁיִּגְמוֹר. עַד שֶׁיִּגְמוֹר סָלְקָא דַעְתָּךְ?! אֶלָּא כִּדְאָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: עַד שֶׁיִּגְמוֹר עַמּוּד רִאשׁוֹן. וְלִפְסוֹק לְאַלְתַּר וְלֵיקוּם? מִשּׁוּם דְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל, דְּתַנְיָא: רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, עַמּוּד הַחוֹזֵר — מֵבִיא אֶת הָאָדָם לִידֵי הִדְרוֹקָן, סִילוֹן הַחוֹזֵר — מֵבִיא אֶת הָאָדָם לִידֵי יֵרָקוֹן.

E disse Rav Huna: se alguém esqueceu e entrou no banheiro trazendo consigo tefilin (sem se lembrar de retirá-los antes) — mantém sua mão sobre eles até que termine (suas necessidades). Objeta a Guemará: até que termine — isso mesmo te ocorre pensar, que ele permaneça ali até terminar por completo?! Isso não pode ser correto, pois seria demorado demais dentro do banheiro com os tefilin. Antes, a intenção é conforme disse Rav Nachman bar Yitzchak: até que termine a primeira leva (a primeira descarga do intestino, podendo então sair e retirar os tefilin). Pergunta ainda a Guemará: e que ele interrompa imediatamente (ao perceber que está com os tefilin) e se levante para sair, sem esperar sequer a primeira leva? Responde a Guemará: por causa do ensinamento de Rabán Shimon ben Gamliel, pois foi ensinado numa baraita: Rabán Shimon ben Gamliel diz: a leva que se retém (interrompida no meio) traz à pessoa hidropisia; o jato de urina que se retém traz à pessoa icterícia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
הדרוקן – חולי המצבה את הכרס: סילון – של מי רגלים: ירקון – חולי ששמו גלניצ"ה:

"Hidropisia" — é uma doença que incha o ventre. "Jato" — refere-se ao de urina. "Icterícia" — é uma doença chamada, em francês antigo, jaunisse.

Nota

Abre-se um novo tema: alguém que, por esquecimento, entrou no banheiro ainda usando os tefilin. Rav Huna ensina que deve manter a mão sobre eles (para protegê-los da impureza do local) até terminar — o que a Guemará esclarece não significar terminar por completo, mas apenas a primeira descarga do intestino, ponto em que já pode sair e removê-los com segurança. A razão de não se levantar imediatamente, interrompendo no meio, é o perigo à saúde apontado por Rabán Shimon ben Gamliel: reter as necessidades fisiológicas pela metade pode causar doenças graves — hidropisia no caso das fezes, icterícia no caso da urina — de modo que a preocupação com a saúde prevalece temporariamente sobre a preocupação com a santidade dos tefilin.

Fezes na pele ou na mão dentro do banheiro · צוֹאָה עַל בְּשָׂרוֹ

03Disputa: fezes em sua pele, ou sua mão dentro do banheiro — Rav Huna permite recitar o Shemá; Rav Chisda proíbe. Disse Rava: o fundamento de Rav Huna é o versículo "toda alma louvará o Eterno"
Bavli · 25a — Guemará
אִתְּמַר: צוֹאָה עַל בְּשָׂרוֹ, אוֹ יָדוֹ מוּנַּחַת בְּבֵית הַכִּסֵּא, רַב הוּנָא אָמַר: מוּתָּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע. רַב חִסְדָּא אָמַר: אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע. אָמַר רָבָא: מַאי טַעְמָא דְּרַב הוּנָא — דִּכְתִיב: ״כֹּל הַנְּשָׁמָה תְּהַלֵּל יָהּ הַלְלוּיָהּ״.

Foi dito entre os amoraítas uma disputa: alguém com fezes sobre sua pele (cobertas por roupa, sem que se veja), ou cuja mão está colocada dentro do banheiro (estando o resto do corpo fora)Rav Huna disse: é permitido a ele recitar o Shemá. Rav Chisda disse: é proibido recitar o Shemá. Disse Rava: qual é o fundamento de Rav Huna? É porquanto está escrito (Salmos 150:6): "toda a respiração louvará o Eterno, Aleluia" (interpretando "neshamá" como referindo-se apenas à boca e ao nariz, órgãos da respiração, e não ao restante do corpo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
ידיו בבית הכסא – מחיצה יש בינו לבין בית הכסא ופשט ידיו לפנים מן המחיצה: כל הנשמה – הפה והחוטם בכלל ההילול ולא שאר אברים:

"Sua mão está no banheiro" — uma divisória entre ele e o banheiro propriamente dito, e ele estendeu sua mão para dentro da divisória (seu corpo permanece do lado de fora, limpo). "Toda a respiração" — a boca e o nariz estão incluídos no louvor, e não os demais membros do corpo.

Nota

Abre-se uma nova disputa central do daf: até que ponto a presença de impureza em parte do corpo — fezes cobertas na pele, ou apenas a mão estendida dentro de um banheiro, com o restante do corpo fora — impede a recitação do Shemá. Rav Huna permite, e Rava fundamenta essa permissão no versículo de Salmos que fala de "toda a respiração" louvando a D-us, interpretando que apenas os órgãos da fala e da respiração — boca e nariz — precisam estar em condição de pureza, sendo irrelevante o estado dos demais membros do corpo.

04E Rav Chisda disse: proibido. Seu fundamento é o versículo "todos os meus ossos dirão"
Bavli · 25a — Guemará
וְרַב חִסְדָּא אָמַר: אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע. מַאי טַעְמָא דְּרַב חִסְדָּא — דִּכְתִיב: ״כׇּל עַצְמוֹתַי תֹּאמַרְנָה ה׳ מִי כָמוֹךָ״.

E Rav Chisda disse: é proibido recitar o Shemá. Qual é o fundamento de Rav Chisda? É porquanto está escrito (Salmos 35:10): "todos os meus ossos dirão: Eterno, quem é como Tu?" (mostrando que o louvor a D-us envolve o corpo inteiro, e não apenas boca e nariz; por isso a impureza de qualquer membro, mesmo coberta, impede a recitação).

Nota

Rav Chisda extrai o fundamento oposto de outro versículo de Salmos, que atribui o louvor divino a "todos os meus ossos" — sugerindo que o corpo inteiro participa do ato de servir a D-us, e não apenas os órgãos da respiração. Segundo essa leitura, a presença de impureza em qualquer parte do corpo, mesmo coberta pela roupa e mesmo tratando-se apenas da mão dentro do banheiro, já é suficiente para impedir a recitação do Shemá, pois todo o corpo deve estar em condição adequada.

A distância de mau cheiro com fonte visível · רֵיחַ רַע שֶׁיֵּשׁ לוֹ עִיקָּר

05Disputa: mau cheiro com fonte visível — Rav Huna diz que se afasta quatro cotovelos da fonte e recita; Rav Chisda diz que se afasta quatro cotovelos do ponto onde cessou o cheiro
Bavli · 25a — Guemará
אִתְּמַר: רֵיחַ רַע שֶׁיֵּשׁ לוֹ עִיקָּר — רַב הוּנָא אָמַר: מַרְחִיק אַרְבַּע אַמּוֹת, וְקוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע. וְרַב חִסְדָּא אָמַר: מַרְחִיק אַרְבַּע אַמּוֹת מִמְּקוֹם שֶׁפָּסַק הָרֵיחַ, וְקוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע.

Foi dito outra disputa: mau cheiro que tem uma fonte visível (como fezes depositadas num lugar certo, exalando o odor)Rav Huna disse: a pessoa se afasta quatro amot da própria fonte, e recita o Shemá. E Rav Chisda disse: a pessoa se afasta quatro amot do lugar onde cessou o cheiro (medindo a distância não a partir da fonte, mas de onde o odor efetivamente termina, o que pode exigir mais do que quatro amot da própria fonte), e recita o Shemá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
שיש לו עיקר – שהצואה מונחת שם ומסרחת ושאין לו עיקר הפחת רוח: מרחיק ד' אמות – מן העיקר ואע"פ שהריח בא אליו וכגון שהיא לאחוריו שאינו רואה אותה: ממקום שפסק הריח – שהריח כלה שם: לא כנגד צואת אדם כו' ואע"פ שאין ריח:

"Que tem fonte" — refere-se a quando a fezes está depositada ali e continua exalando odor; e "que não tem fonte" — refere-se à ventosidade (que não tem origem fixa e visível). "Afasta-se quatro amot" — da própria fonte, mesmo que ainda assim o cheiro chegue até ele — e isto se aplica quando a fonte está atrás dele, de modo que não a vê. "Do lugar onde cessou o cheiro" — ou seja, de onde o cheiro se acaba ali mesmo, ainda que fique distante da fonte original. "Não recita diante de fezes humanas, etc." — mesmo que não haja mais cheiro perceptível ali.

Nota

Nova disputa entre os mesmos dois sábios, agora sobre a distância mínima exigida de um mau cheiro com fonte identificável. Rav Huna mede a distância a partir da própria fonte do odor — quatro cotovelos bastam, mesmo que o cheiro ainda seja sentido além desse ponto. Rav Chisda é mais rigoroso: a distância de quatro cotovelos deve ser contada a partir de onde o cheiro efetivamente cessa, o que pode exigir um afastamento bem maior da fonte original, caso o odor se espalhe amplamente.

06Ensina-se conforme Rav Chisda: não se recita diante de fezes humanas, de cães, de porcos, de galinhas nem de monturo malcheiroso; havendo desnível de dez palmos, senta-se ao lado; senão, afasta-se até sair do campo de visão — e o mesmo vale para a oração
Bavli · 25a — Guemará
תַּנְיָא כְּוָתֵיהּ דְּרַב חִסְדָּא: לֹא יִקְרָא אָדָם קְרִיאַת שְׁמַע, לֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת אָדָם, וְלֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת כְּלָבִים, וְלֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת חֲזִירִים, וְלֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת תַּרְנְגוֹלִים, וְלֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת אַשְׁפָּה שֶׁרֵיחָהּ רָע. וְאִם הָיָה מָקוֹם גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה טְפָחִים אוֹ נָמוּךְ עֲשָׂרָה טְפָחִים — יוֹשֵׁב בְּצִדּוֹ וְקוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע. וְאִם לָאו — מַרְחִיק מִמֶּנּוּ מְלוֹא עֵינָיו. וְכֵן לִתְפִלָּה. רֵיחַ רַע שֶׁיֵּשׁ לוֹ עִיקָּר — מַרְחִיק אַרְבַּע אַמּוֹת מִמְּקוֹם הָרֵיחַ, וְקוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע.

Ensina-se numa baraita conforme Rav Chisda: não recitará a pessoa o Shemá, nem diante de fezes humanas, nem diante de fezes de cães, nem diante de fezes de porcos, nem diante de fezes de galinhas, nem diante de fezes de monturo cujo cheiro é ruim (mesmo sem fonte humana ou animal específica). E se havia um lugar dez palmos mais alto que a impureza, ou dez palmos mais baixo — senta-se ao lado dela e recita o Shemá (pois um desnível de dez palmos cria domínios distintos). E se não havia tal desnível — afasta-se dela até sair de todo o alcance de seus olhos (mesmo que isso exceda quatro amot). E o mesmo vale para a oração. Quanto ao mau cheiro que tem fonte visívela pessoa se afasta quatro amot do lugar do cheiro, e recita o Shemá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
לא כנגד צואת אדם כו' – ואע"פ שאין ריח:

"Não recita diante de fezes humanas, etc." — mesmo que não haja ali nenhum cheiro perceptível, a mera presença visível já impede a recitação.

Nota

A baraita confirma a posição de Rav Chisda com uma lista detalhada de excrementos que impedem a recitação do Shemá e da oração — humanos, de cães, porcos, galinhas e monturo malcheiroso — mesmo quando já não exalam odor algum, bastando sua presença visível diante do orante. A única exceção é quando há um desnível de dez palmos entre a pessoa e a impureza, criando domínios halachicamente distintos; do contrário, deve-se sair completamente do campo de visão. Já quanto ao mau cheiro com fonte identificável (mas não necessariamente visível), basta a distância padrão de quatro cotovelos.

07Disse Rava: a halachá não segue esta baraita em todos esses ensinamentos, mas sim aquela que proíbe apenas diante de fezes humanas, de porcos e de cães quando usadas para curtir couros
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר רָבָא: לֵית הִלְכְתָא כִּי הָא מַתְנִיתָא בְּכָל הָנֵי שְׁמַעְתָּתָא, אֶלָּא כִּי הָא דְּתַנְיָא: לֹא יִקְרָא אָדָם קְרִיאַת שְׁמַע לֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת אָדָם, וְלֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת חֲזִירִים וְלֹא כְּנֶגֶד צוֹאַת כְּלָבִים בִּזְמַן שֶׁנָּתַן עוֹרוֹת לְתוֹכָן.

Disse Rava: não é a halachá conforme esta baraita citada, em todos esses ensinamentos (a lista extensa com galinhas, monturo e o requisito do campo de visão); antes, a halachá segue aquela que se ensina noutra baraita: não recitará a pessoa o Shemá, nem diante de fezes humanas, nem diante de fezes de porcos, nem diante de fezes de cães, quando nelas se colocaram peles para curtir (pois nesse caso o cheiro é mais intenso e persistente; mas fora desse contexto, as fezes de cão não impedem).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
לית הלכתא כי הא מתניתא – דלעיל דאסר צואת כלבים וחזירים בשאין בהם עורות: בזמן שיש בהן עורות – אצואת כלבים וחזירים קאי שדרכן לתתן בעבוד העורות אבל צואת אדם אפי' בלא עורות שהרי אין דרכן לתתן שם הלכך ע"כ בלא עורות קאמר:

"Não é a halachá conforme esta baraita" — a citada anteriormente, que proibia diante de fezes de cães e de porcos mesmo quando não há peles nelas. "Quando há peles nelas" — esta condição se refere às fezes de cães e de porcos, pois é costume colocá-las no curtimento de peles; mas quanto às fezes humanas, mesmo sem peles presentes, a proibição vale, pois não é costume colocá-las ali; por isso, forçosamente, a baraita fala sem peles apenas quanto às fezes humanas.

Nota

Rava reduz significativamente o escopo da proibição: rejeita a baraita mais extensa (que incluía galinhas, monturo genérico e a exigência de sair do campo de visão) em favor de uma versão mais restrita, que proíbe apenas diante de fezes humanas (sempre), de porcos (sempre) e de cães — mas, quanto a estas últimas, apenas quando estão sendo usadas no processo de curtimento de couros, contexto em que o cheiro é particularmente intenso e associado à atividade. Fora desse uso específico, fezes de cão comuns não impedem a recitação.

Mau cheiro sem fonte visível: o costume da casa de estudo · רֵיחַ רַע שֶׁאֵין לוֹ עִיקָּר

08Perguntaram a Rav Sheshet sobre mau cheiro sem fonte visível: ele apontou os tapetes da casa de estudo, onde uns dormem e outros estudam — mas isso vale só para o estudo de Torá, não para o Shemá, e apenas quando o cheiro vem de outro, não de si mesmo
Bavli · 25a — Guemará
בְּעוֹ מִינֵּיהּ מֵרַב שֵׁשֶׁת: רֵיחַ רַע שֶׁאֵין לוֹ עִיקָּר, מַהוּ? אָמַר לְהוּ: אֲתוֹ חֲזוֹ הָנֵי צִיפֵּי דְבֵי רַב, דְּהָנֵי גָּנוּ וְהָנֵי גָּרְסִי. וְהָנֵי מִילֵּי בְּדִבְרֵי תוֹרָה, אֲבָל בִּקְרִיאַת שְׁמַע — לָא. וְדִבְרֵי תוֹרָה נָמֵי לָא אֲמַרַן, אֶלָּא דְּחַבְרֵיהּ, אֲבָל דִּידֵיהּ — לָא.

Perguntaram diante de Rav Sheshet: mau cheiro que não tem fonte visível (como flatulência), qual é sua lei? Ele lhes disse: vinde e vede estes tapetes da casa de Rav (a casa de estudo), em que estes alunos dormem e estes outros estudam lado a lado, sem que a flatulência dos que dormem impeça o estudo dos demais. E isto vale apenas quanto a palavras de Torá (estudo), mas quanto ao Shemá — não se aplica esta leniência. E quanto a palavras de Torá também não dissemos esta leniência, senão quando o mau cheiro vem de seu companheiro; mas quando vem dele mesmo — não se aplica (devendo aguardar até que o cheiro cesse antes de retomar o estudo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
שאין לו עיקר – הפחת רוח: ציפי – מחצלות של בית המדרש: דהני גנו והני גרסי – ואע"פ שדרך הישנים להפיח: וה"מ לגרסא – משום דלא אפשר: אבל לק"ש – יצא לחוץ ויקרא: אבל לדידיה – הפיח הוא עצמו ממתין עד שיכלה הריח:

"Que não tem fonte" — refere-se à ventosidade. "Tapetes" — são as esteiras da casa de estudo. "Estes dormem e estes estudam" — mesmo sendo costume dos que dormem soltar gases. "E isto vale apenas para o estudo" — porquanto não é possível evitá-lo de outra forma, dada a convivência constante na casa de estudo. "Mas quanto ao Shemá" — deve sair para fora e recitar. "Mas quanto a ele mesmo" — se foi ele próprio quem soltou o gás, aguarda até que cesse o cheiro antes de retomar o estudo, mesmo.

Nota

Nova questão: e quanto ao mau cheiro sem fonte visível, como a flatulência? Rav Sheshet responde com um exemplo prático da vida na casa de estudo: alunos dormem e outros estudam lado a lado, sem que a flatulência alheia interrompa o estudo — pois a convivência constante torna inviável qualquer outra solução. Mas essa leniência é limitada de duas formas: aplica-se apenas ao estudo de Torá, não à recitação do Shemá (que exige maior rigor); e mesmo quanto ao estudo, vale apenas quando o odor vem de outra pessoa, não de si mesmo, caso em que a pessoa deve aguardar que o cheiro se dissipe antes de prosseguir.

Fezes em movimento · צוֹאָה עוֹבֶרֶת

09Disputa: fezes que passam diante de alguém, sendo transportadas — Abaye permite recitar o Shemá; Rava proíbe
Bavli · 25a — Guemará
אִתְּמַר: צוֹאָה עוֹבֶרֶת — אַבָּיֵי אָמַר: מוּתָּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע. רָבָא אָמַר: אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע.

Foi dito uma disputa paralela entre outros dois amoraítas: fezes que passam (sendo carregadas de um lugar a outro, diante de alguém, sem permanecer parada)Abaye disse: é permitido recitar o Shemá diante delas. Rava disse: é proibido recitar o Shemá.

Nota

Abre-se uma nova disputa, agora entre Abaye e Rava, sobre o caso de fezes que não estão paradas num local fixo, mas sendo transportadas — por exemplo, num recipiente carregado por alguém que passa diante do orante. Abaye permite a recitação, entendendo que a ausência de permanência no local retira a impureza de seu caráter impeditivo; Rava proíbe, considerando irrelevante se a impureza está parada ou em movimento no momento exato da recitação.

10Disse Abaye: de onde digo isto — da mishná do impuro parado sob a árvore e o puro que passa, e da pedra com tzaraat
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר אַבָּיֵי: מְנָא אָמֵינָא לַהּ — דִּתְנַן: הַטָּמֵא עוֹמֵד תַּחַת הָאִילָן וְהַטָּהוֹר עוֹבֵר — טָמֵא. טָהוֹר עוֹמֵד תַּחַת הָאִילָן וְטָמֵא עוֹבֵר — טָהוֹר. וְאִם עָמַד — טָמֵא. וְכֵן בְּאֶבֶן הַמְנוּגַּעַת.

Disse Abaye: de onde eu digo isto (que algo em movimento não transmite sua condição como algo parado)? Digo-o porquanto aprendemos numa mishná: se o impuro (leproso, metzorá) está parado debaixo da árvore, e o puro passa por baixo delaeste último torna-se impuro. Mas se o puro está parado debaixo da árvore e o impuro passa — permanece puro. E se o impuro parou ali, mesmo que por um instanteo outro torna-se impuro. E o mesmo vale quanto à pedra com tzaraat (lepra em pedra de construção).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
הטמא עומד תחת האילן – ולא בנושא את המת קאי דמת לא שנא עומד ול"ש יושב ול"ש הולך אהל הוא וגבי מצורע קתני לה בת"כ דגלי ביה רחמנא ישיבה דכתיב בדד ישב מחוץ למחנה מושבו. [מושבו] טמא. מכאן אמרו עומד נמי כיושב דמי דקביע אבל מהלך לא קביע: אבן המנוגעת – הרי היא כמצורע שהקישה הכתוב זאת התורה לכל נגע הצרעת ולנתק ולצרעת הבגד ולבית.

"O impuro está parado debaixo da árvore" — e não se trata de quem carrega um morto, pois quanto ao morto não há diferença entre parado, sentado ou andando — sempre é como uma tenda que transmite impureza a tudo por baixo dela; mas quanto ao leproso, ensina-se isto em Torat Kohanim, pois a Torá ali revelou o requisito de assento, como está escrito (Levítico 13:46): "só habitará, fora do acampamento será sua habitação" — sua habitação é o que se torna impura. Daí disseram: parado é equiparado a sentado, pois é permanente; mas quem caminha não é permanente. "A pedra com tzaraat" — eis que é como o leproso, pois a Torá a equiparou a toda praga de tzaraat, à calvície e à tzaraat de roupa e de casa.

Nota

Abaye fundamenta sua posição numa mishná sobre as leis de impureza do leproso: a impureza só se propaga por igual em todas as direções quando sua fonte está parada (equiparada a "sentada", conforme o versículo que descreve a habitação do leproso); quando a fonte de impureza está em movimento — passando por baixo de uma árvore sob a qual outra pessoa está parada —, ela não contamina quem está parado ali. O mesmo princípio se aplica à pedra com tzaraat. Por analogia, Abaye conclui que fezes em movimento também não impedem a recitação do Shemá, pois lhes falta a permanência que caracteriza o impedimento halachico.

11E Rava lhe diria: ali depende de permanência, por causa do versículo "só habitará"; aqui, a Torá disse "e será teu acampamento santo", e isto não há
Bavli · 25a — Guemará
וְרָבָא אָמַר לָךְ: הָתָם בִּקְבִיעוּתָא תַּלְיָא מִילְּתָא, דִּכְתִיב ״בָּדָד יֵשֵׁב מִחוּץ לַמַּחֲנֶה מוֹשָׁבוֹ״. הָכָא, ״וְהָיָה מַחֲנֶיךָ קָדוֹשׁ״ אָמַר רַחֲמָנָא, וְהָא לֵיכָּא.

E Rava te diria: ali (no caso do leproso), a coisa depende da permanência, pois está escrito: "só habitará, fora do acampamento será sua habitação". Aqui (no caso das fezes que impedem a recitação), "e será teu acampamento santo" disse o Todo-Misericordioso (Deuteronômio 23:15, sem qualquer menção a permanência), e isto (a santidade exigida) não há enquanto a impureza estiver ali, parada ou em movimento, pois o requisito não é sobre a fonte, mas sobre o estado do acampamento no momento.

Nota

Rava responde à fundamentação de Abaye distinguindo os dois contextos: a lei do leproso depende explicitamente de permanência, porque o próprio versículo fala de sua "habitação" — um conceito ligado a fixação num lugar. Mas a exigência de santidade do acampamento, da qual deriva a proibição de recitar diante de impurezas, não menciona permanência alguma; ela exige apenas que, no momento da recitação, o ambiente seja santo — e isso falta tanto quando a impureza está parada quanto quando está em movimento. Por isso, a analogia de Abaye não se sustenta.

12Disse Rav Pappa: o focinho do porco é como fezes em movimento. Isso é óbvio! Não, é necessário mesmo quando ele saiu do rio
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר רַב פָּפָּא: פִּי חֲזִיר כְּצוֹאָה עוֹבֶרֶת דָּמֵי. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא אַף עַל גַּב דְּסָלֵיק מִנַּהֲרָא.

Disse Rav Pappa: o focinho do porco é equiparado a fezes em movimento (pois sempre remexe em imundície, seu focinho é considerado permanentemente sujo). Objeta a Guemará: isso é óbvio! Responde a Guemará: não é óbvio; a afirmação é necessária mesmo quando o porco subiu do rio (tendo acabado de se lavar, poder-se-ia pensar que seu focinho ficou limpo; ensina-se que, ainda assim, considera-se sujo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
פשיטא – דפי חזיר אינו בלא צואה:

"Isso é óbvio" — pois o focinho do porco nunca está sem alguma fezes aderida a ele, dado seu costume de remexer constantemente na sujeira.

Nota

Um ensinamento lateral, ligado ao tema das fezes em movimento: o focinho do porco é sempre tratado como fezes em movimento, já que o animal habitualmente remexe em imundície. A objeção de que isso é óbvio é respondida com uma situação específica: mesmo depois de o porco emergir de um rio — quando se poderia supor que a água limpou seu focinho — ainda assim se mantém a presunção de impureza, pois a limpeza superficial pela água não é suficiente para removê-la por completo.

A incerteza sobre fezes e urina · סְפֵק צוֹאָה

13Disse Rav Yehuda: dúvida sobre fezes é proibida; dúvida sobre urina é permitida. Segundo outra versão: em casa é permitida, no monturo é proibida; quanto à urina, mesmo no monturo é permitida
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר רַב יְהוּדָה: סְפֵק צוֹאָה — אֲסוּרָה. סְפֵק מֵי רַגְלַיִם — מוּתָּרִים. אִיכָּא דְאָמְרִי, אָמַר רַב יְהוּדָה: סְפֵק צוֹאָה, בַּבַּיִת — מוּתֶּרֶת, בָּאַשְׁפָּה — אֲסוּרָה. סְפֵק מֵי רַגְלַיִם — אֲפִילּוּ בָּאַשְׁפָּה נָמֵי מוּתָּרִין.

Disse Rav Yehuda: dúvida sobre a presença de fezes (não se sabendo se aquilo visto é ou não fezes)é proibido recitar diante disso. Dúvida sobre a presença de urina — é permitido. Há quem diga outra versão: disse Rav Yehuda: dúvida sobre a presença de fezes, em casa — é permitido; no monturo — é proibido. Dúvida sobre a presença de urina — mesmo no monturo também é permitido.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
בבית מותר – דאין דרך להניח צואה בבית:

"Em casa é permitido" — pois não é costume deixar fezes dentro de casa (por isso, em caso de dúvida, presume-se que não há).

Nota

Novo tema: como proceder diante da incerteza sobre a própria presença de impureza. Na primeira versão, Rav Yehuda distingue apenas entre fezes (proibido em caso de dúvida) e urina (permitido); na segunda versão, mais refinada, a distinção passa pelo local: dentro de casa, onde não é costume haver fezes, a dúvida se resolve para o lado permissivo; no monturo, onde fezes são comuns, a dúvida é resolvida para o lado proibitivo. Quanto à urina, por ser menos grave, permanece permitida mesmo no monturo.

14Ele se apoia no ensinamento de Rav Hamnuna: a Torá só proibiu diante do jato de urina
Bavli · 25a — Guemará
סָבַר לַהּ כִּי הָא דְּרַב הַמְנוּנָא, דְּאָמַר רַב הַמְנוּנָא: לֹא אָסְרָה תּוֹרָה אֶלָּא כְּנֶגֶד עַמּוּד בִּלְבַד.

Rav Yehuda apoia-se naquilo que ensinou Rav Hamnuna, pois disse Rav Hamnuna: a Torá não proibiu a recitação de palavras sagradas senão diante do jato de urina em si, enquanto ainda flui, somente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
לא אסרה תורה – במי רגלים לקרות אלא כנגד עמוד הקלוח בלבד:

"Não proibiu a Torá" — quanto à urina, recitar diante dela, senão diante do jato que ainda flui, somente.

Nota

A Guemará explica o fundamento da leniência de Rav Yehuda quanto à urina: ele segue o ensinamento de Rav Hamnuna, de que a proibição bíblica original se restringe apenas ao jato de urina ainda fluindo — o momento do próprio ato. Uma vez que a urina já caiu ao chão, deixa de ser uma proibição de origem bíblica, tornando-se apenas uma restrição rabínica, mais branda, o que explica por que a dúvida quanto à sua presença pode ser resolvida com leniência mesmo em locais como o monturo.

15E conforme Rabi Yonatan, que apontou a contradição entre "sairás para fora" e "cobrirás teu excremento"
Bavli · 25a — Guemará
וְכִדְרַבִּי יוֹנָתָן. דְּרַבִּי יוֹנָתָן רָמֵי: כְּתִיב ״וְיָד תִּהְיֶה לְךָ מִחוּץ לַמַּחֲנֶה וְיָצָאתָ שָׁמָּה חוּץ״, וּכְתִיב: ״וְיָתֵד תִּהְיֶה לְךָ וְגוֹ׳ וְכִסִּיתָ אֶת צֵאָתֶךָ״.

E também conforme Rabi Yonatan, pois Rabi Yonatan apontou uma contradição entre dois versículos: está escrito (Deuteronômio 23:13): "e um lugar terás fora do acampamento, e sairás para lá, para fora (sem menção de cobrir)"; e por outro lado está escrito (Deuteronômio 23:14): "e uma pá terás, etc., e cobrirás teu excremento (exigindo expressamente a cobertura)."

Nota

Rabi Yonatan identifica uma aparente contradição entre dois versículos consecutivos de Deuteronômio: o primeiro fala apenas de sair para fora do acampamento, sem mencionar a necessidade de cobrir o que ali se depositar; o segundo exige expressamente que se cubra o excremento com uma pá. Essa contradição será resolvida na unidade seguinte, servindo de base bíblica para a distinção entre fezes (que exigem cobertura) e urina (que não exige).

16Como assim? Aqui, fezes; aqui, urina. Logo, quanto à urina, a Torá só proibiu diante do jato; caído ao chão, é permitido, e os sábios decretaram apenas quanto à presença certa, não quanto à dúvida
Bavli · 25a — Guemará
הָא כֵּיצַד? כָּאן בִּגְדוֹלִים, כָּאן בִּקְטַנִּים. אַלְמָא קְטַנִּים לֹא אָסְרָה תּוֹרָה אֶלָּא כְּנֶגֶד עַמּוּד בִּלְבַד. הָא נְפוּל לְאַרְעָא — שְׁרֵי, וְרַבָּנַן הוּא דִּגְזַרוּ בְּהוּ, וְכִי גְזַרוּ בְּהוּ רַבָּנַן — בְּוַדָּאָן, אֲבָל בִּסְפֵקָן — לָא גְזוּר.

Como se resolve isto (a contradição entre os dois versículos)? Aqui (o que exige cobertura), trata-se das necessidades maiores (fezes); aqui (o que não exige), trata-se das necessidades menores (urina). Logo, quanto às necessidades menores, a Torá não proibiu senão diante do jato enquanto flui, somente; eis que, uma vez caída ao chão — é permitido por lei bíblica. E foram os sábios que decretaram a respeito delas (uma proibição rabínica adicional); e quando os sábios decretaram a respeito delas, foi apenas quanto à sua presença certa, mas quanto à sua presença duvidosa — não decretaram.

Nota

A resolução da contradição de Rabi Yonatan: o versículo que exige cobertura refere-se às fezes, enquanto o que não exige refere-se à urina. Disso se conclui que a proibição bíblica quanto à urina se limita ao momento do próprio jato; depois de cair ao chão, é permitida por lei da Torá, e a proibição adicional é apenas de origem rabínica — decretada pelos sábios somente para os casos de presença certa, não para os de mera dúvida. Esta é a base bíblica que fundamenta toda a leniência de Rav Yehuda quanto à dúvida sobre urina.

17E quanto à presença certa, até quando? Disse Rav Yehuda em nome de Shmuel: enquanto ainda umedece; e assim disseram Rabá bar bar Chana, Ulá e Gueniva, este até que o vestígio seja identificável
Bavli · 25a — Guemará
וּבְוַדָּאָן עַד כַּמָּה? אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין. וְכֵן אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין. וְכֵן אָמַר עוּלָּא: כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין. גְּנִיבָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב אָמַר: כׇּל זְמַן שֶׁרִשּׁוּמָן נִיכָּר.

Pergunta a Guemará: e quanto à presença certa de urina caída, até quando permanece a proibição rabínica? Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: todo o tempo em que ainda umedece (a mão de quem a toca). E assim disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: todo o tempo em que umedece. E assim disse Ulá: todo o tempo em que umedece. Gueniva, em nome de Rav, disse: é proibido todo o tempo em que seu vestígio ainda é identificável no chão, mesmo depois de seca.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
עד כמה – ישהו על גבי קרקע ויהא אסור:

"Até quando" — permanece a urina sobre o chão, e continua sendo proibido recitar diante dela?

Nota

A Guemará agora define a extensão temporal da proibição rabínica de recitar diante de urina caída com presença certa. Três tradições (Shmuel, Rabi Yochanan e Ulá) convergem: a proibição dura apenas enquanto a urina ainda está úmida o suficiente para molhar quem a tocasse. Gueniva, em nome de Rav, oferece um critério mais rigoroso: a proibição persiste enquanto o vestígio da urina ainda for visível no chão, mesmo que já tenha secado ao ponto de não mais umedecer.

18Disse Rav Yossef: que seu Senhor perdoe a Gueniva; ora, quanto às fezes, disse Rav Yehuda em nome de Rav, uma vez formada crosta é permitido — quanto à urina, seria necessário dizer?!
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף: שְׁרָא לֵיהּ מָרֵיהּ לִגְנִיבָא, הַשְׁתָּא צוֹאָה אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב כֵּיוָן שֶׁקָּרְמוּ פָּנֶיהָ — מוּתָּר, מֵי רַגְלַיִם מִיבַּעְיָא?!

Disse Rav Yossef: que seu Senhor perdoe a Gueniva (pois certamente atribuiu falsamente esta opinião mais rigorosa a Rav)! Ora, quanto às fezes (mais graves que a urina), disse Rav Yehuda, disse Rav: assim que sua superfície formou crosta — é permitido recitar diante delas; quanto à urina, seria necessário sequer perguntar se é permitida assim que forma crosta, sendo ela mais leniente que as fezes?!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
שרא ליה מריה – מחול לו רבונו דודאי שקר העיד משמיה דרב: היבשה נפרכת היא יותר מן הלחה: קרמו – לשון קרום טיל"א כלומר גלד מעט:

"Que seu Senhor lhe perdoe" — que seja perdoado a ele por seu verdadeiro Senhor, pois certamente testemunhou falsamente em nome de Rav. A fezes seca esfarela mais do que a úmida. "Formaram crosta" — expressão relacionada a "crosta" em francês antigo, isto é, formou-se uma leve casca.

Nota

Rav Yossef rejeita energicamente a tradição de Gueniva, considerando-a uma atribuição incorreta a Rav. Seu argumento parte de uma inferência lógica a fortiori (kal vachomer): se até mesmo as fezes — mais graves e persistentes que a urina — tornam-se permitidas assim que sua superfície forma uma leve crosta (segundo o próprio Rav, transmitido por Rav Yehuda), seria completamente supérfluo perguntar se o mesmo vale para a urina, que é claramente mais leniente. Portanto, o critério mais rigoroso de Gueniva (vestígio identificável) não pode ser atribuído a Rav.

19Disse-lhe Abaye: o que viste que te apoiaste nisto? Apoia-te nisto — disse Rabá bar Rav Huna em nome de Rav: fezes, mesmo como barro, é proibido
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: מַאי חָזֵית דְּסָמְכַתְּ אַהָא, סְמוֹךְ אַהָא, דְּאָמַר רַבָּה בַּר רַב הוּנָא אָמַר רַב: צוֹאָה, אֲפִילּוּ כְּחֶרֶס — אֲסוּרָה.

Disse-lhe Abaye a Rav Yossef: o que viste que fez com que te apoiasses nisto (no ensinamento de que fezes permitem-se assim que formam crosta)? Apoia-te antes nisto outro ensinamento: pois disse Rabá bar Rav Huna, disse Rav: fezes, mesmo secas a ponto de ficarem como barro cozido (endurecidas por completo)é proibido recitar diante delas.

Nota

Abaye contesta a base do argumento de Rav Yossef, apresentando uma tradição concorrente, também em nome de Rav: as fezes permanecem proibidas mesmo quando já ressecaram completamente, a ponto de se tornarem duras como um caco de barro cozido — contradizendo diretamente a ideia de que a mera formação de uma crosta já bastaria para permitir. Isso reabre a questão de qual é, de fato, o critério correto para fezes, e por extensão, para a urina.

20E quais são as condições de fezes como barro? Disse Rabá bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan: todo o tempo em que, lançada, não se esfarela; e há quem diga: quando rolada, não se esfarela
Bavli · 25a — Guemará
וְהֵיכִי דָּמֵי צוֹאָה כְּחֶרֶס? אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כׇּל זְמַן שֶׁזּוֹרְקָה וְאֵינָהּ נִפְרֶכֶת. וְאִיכָּא דְאָמְרִי: כׇּל זְמַן שֶׁגּוֹלְלָהּ וְאֵינָהּ נִפְרֶכֶת.

Pergunta a Guemará: e quais são as condições de fezes secas a ponto de serem como barro cozido? Disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: todo o tempo em que, lançando-a, ela não se esfarela (ao ser jogada contra algo, permanece inteira, sem quebrar). E há quem diga: todo o tempo em que, rolando-a (de um lado a outro), ela não se esfarela.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
איכא דאמרי – חומרא היא אף ע"פ שאם זורקה נפרכת הואיל ואינה נפרכת מגלגול לחה היא:

"Há quem diga" — esta é uma versão mais rigorosa: mesmo que, se lançada, se esfarele, visto que não se esfarela ao ser rolada, ainda se considera úmida e, portanto, permanece proibida.

Nota

A Guemará busca definir com precisão o critério de "fezes secas como barro": segundo a primeira versão, o teste é lançá-la contra algo — se não se esfarela ao impacto, ainda é considerada proibida; segundo a versão mais rigorosa, mesmo que se esfarele quando lançada, deve-se ainda testá-la rolando-a — e apenas se, mesmo rolada, ela se esfarelar, é considerada suficientemente seca para ser permitida. Esta segunda versão é mais exigente, elevando o padrão de secura necessário.

21Disse Ravina: eu estava de pé diante de Rav Yehuda de Difti, que viu fezes e me disse: examina se sua superfície formou crosta; segundo outra versão, se está rachada
Bavli · 25a — Guemará
אָמַר רָבִינָא: הֲוָה קָאֵימְנָא קַמֵּיהּ דְּרַב יְהוּדָה מִדִּיפְתִּי חֲזָא צוֹאָה, אֲמַר לִי: עַיֵּין אִי קָרְמוּ פָּנֶיהָ אִי לָא. אִיכָּא דְאָמְרִי הָכִי אֲמַר לֵיהּ: עַיֵּין אִי מִפְּלַאי אִפְּלוֹיֵי.

Disse Ravina: eu estava de pé diante de Rav Yehuda de Difti, quando ele viu fezes, e ele me disse: examina se sua superfície formou crosta, ou não. Há quem diga que assim ele lhe disse: examina se está rachada em fendas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 25a
אי מפלאי אפלויי – אם יש בה סדקים סדקים יבשה היא ושרי:

"Se está rachada em fendas" — se há nela fendas e fendas (múltiplas rachaduras), é sinal de que está seca, e é permitido recitar diante dela.

Nota

Ravina relata um episódio prático que ilustra os critérios discutidos: Rav Yehuda de Difti, ao avistar fezes, pediu-lhe que verificasse seu grau de secura — segundo uma versão, se já havia formado crosta na superfície; segundo outra, se já apresentava rachaduras visíveis, sinal mais evidente e observável de que a secagem avançou o suficiente para permitir a recitação.

22Qual foi a conclusão? Ameimar disse proibido; Mar Zutra disse permitido. Disse Rava: a halachá é que fezes como barro são proibidas, e urina é proibida enquanto ainda umedece
Bavli · 25a — Guemará
מַאי הָוֵי עֲלַהּ? אִתְּמַר: צוֹאָה כְּחֶרֶס, אֲמֵימַר אָמַר אֲסוּרָה, וּמַר זוּטְרָא אָמַר מוּתֶּרֶת. אָמַר רָבָא: הִלְכְתָא: צוֹאָה כְּחֶרֶס אֲסוּרָה, וּמֵי רַגְלַיִם כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין.

Pergunta a Guemará: qual foi a conclusão a respeito disto (fezes secas como barro)? Foi dito uma disputa entre os últimos amoraítas: fezes secas como barro cozidoAmeimar disse: é proibido; e Mar Zutra disse: é permitido. Disse Rava: a halachá é: fezes secas como barro são proibidas, e urina é proibida todo o tempo em que ainda umedece (mas não além disso).

Nota

Após toda a discussão, a Guemará busca a conclusão final. Registra-se uma última disputa entre Ameimar (proibido) e Mar Zutra (permitido) quanto às fezes secas como barro. Rava então fixa a halachá prática, adotando a posição mais rigorosa quanto às fezes — permanecem proibidas mesmo secas como barro — e a posição mais leniente quanto à urina, que deixa de ser proibida assim que já não umedece mais, sem exigir o critério mais estrito de Gueniva sobre o vestígio identificável.

23Objeta a Guemará de uma baraita: urina, enquanto umedece, é proibida; absorvida ou seca, é permitida. Não seria "absorvida" semelhante a "seca"? Mas se o vestígio é identificável, é proibido mesmo sem umedecer!
Bavli · 25a — Guemará
מֵיתִיבִי: מֵי רַגְלַיִם כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין — אֲסוּרִין, נִבְלְעוּ אוֹ יָבְשׁוּ — מוּתָּרִים. מַאי לָאו נִבְלְעוּ דֻּומְיָא דְּיָבְשׁוּ, מָה יָבְשׁוּ דְּאֵין רִשּׁוּמָן נִיכָּר, אַף נִבְלְעוּ — דְּאֵין רִשּׁוּמָן נִיכָּר. הָא רִשּׁוּמָן נִיכָּר — אָסוּר, אַף עַל גַּב דְּאֵין מַטְפִּיחִין!

Objeta a Guemará a partir de uma baraita: urina, todo o tempo em que umedece — é proibida; se já foi absorvida no solo ou secou — é permitida. Não é assim que se deve entender: "absorvida" é semelhante a "seca"? Ou seja: assim como "seca" significa que seu vestígio não é mais identificável, também "absorvida" significa que seu vestígio não é identificável (portanto, ambos os termos referem-se ao mesmo grau de desaparecimento). Eis que se conclui daí: se o vestígio ainda é identificável — é proibido, mesmo que já não umedeça mais! Isto contradiz Rava, que permitiu assim que deixasse de umedecer, independentemente do vestígio.

Nota

A Guemará traz uma objeção séria à halachá fixada por Rava, a partir de uma baraita que distingue três estágios da urina: enquanto umedece (proibida), absorvida no solo (permitida), e seca (permitida). Interpretando "absorvida" como equivalente a "seca" — ambos os termos significando que o vestígio já não é identificável — conclui-se, por inferência, que enquanto o vestígio ainda for identificável no chão, a proibição persiste, mesmo que a urina já não umedeça mais. Isso contradiria diretamente a posição leniente de Rava, que dispensava o critério do vestígio identificável.

24E segundo teu raciocínio, dize a primeira cláusula: proibido só enquanto umedece, logo permitido quando o vestígio é identificável mas já não umedece! Antes, disto nada se pode inferir
Bavli · 25a — Guemará
וּלְטַעְמָיךְ אֵימָא רֵישָׁא: כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין — הוּא דְּאָסוּר, הָא רִשּׁוּמָן נִיכָּר — שְׁרֵי! אֶלָּא מֵהָא לֵיכָּא לְמִשְׁמַע מִינַּהּ.

Responde a Guemará: e, segundo teu próprio raciocínio (de inferir estritamente da formulação), dize então quanto à primeira cláusula da mesma baraita: é apenas todo o tempo em que umedece que é proibido; eis que se infere: se o vestígio é identificável mas já não umedeceé permitido (o que contradiria a própria conclusão anterior, extraída da segunda cláusula)! Antes, desta baraita não há como se inferir nada de conclusivo, pois as duas inferências se contradizem mutuamente.

Nota

A Guemará neutraliza sua própria objeção mostrando que o mesmo método de inferência aplicado à segunda cláusula da baraita também poderia ser aplicado à primeira — e produziria a conclusão oposta: que basta a urina deixar de umedecer para ser permitida, mesmo que o vestígio ainda seja identificável. Como as duas inferências entram em contradição direta entre si, conclui-se que nenhuma delas pode ser tomada como prova decisiva, e a baraita não invalida a halachá de Rava.

25Digamos que isto é paralelo a uma disputa tanaítica: o vaso do qual se derramou urina é proibido; a urina em si, se absorvida, é permitida; se não absorvida, proibida; Rabi Yossei diz: enquanto umedece
Bavli · 25a — Guemará
לֵימָא כְּתַנָּאֵי: כְּלִי שֶׁנִּשְׁפְּכוּ מִמֶּנּוּ מֵי רַגְלַיִם, אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע כְּנֶגְדּוֹ. וּמֵי רַגְלַיִם עַצְמָן שֶׁנִּשְׁפְּכוּ, נִבְלְעוּ — מוּתָּר, לֹא נִבְלְעוּ — אָסוּר. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין.

Diz então a Guemará: digamos que isto (a disputa entre Rava e o critério mais rigoroso) é paralelo a uma disputa entre tanaítas, pois foi ensinado numa baraita: o recipiente do qual se derramou urina — é proibido recitar o Shemá diante dele (mesmo já vazio, por causa do resíduo). E a urina em si, que dele se derramou no chão: se foi absorvida — é permitido; se não foi absorvida — é proibido. Rabi Yossei diz: todo o tempo em que ainda umedece (critério distinto do "absorvido").

Nota

A Guemará propõe uma nova abordagem: talvez a disputa sobre o critério da urina (vestígio identificável versus umedecimento) reflita, na verdade, uma disputa preexistente entre tanaítas nesta baraita. O tanaíta anônimo (tanna kamma) usa o critério de "absorvida ou não absorvida", enquanto Rabi Yossei usa o critério de "enquanto umedece" — dois critérios potencialmente distintos que a Guemará examinará na unidade seguinte para determinar se realmente divergem.

26O que significam "absorvida" e "não absorvida" no primeiro tanaíta? Se "absorvida" fosse "sem umedecer", Rabi Yossei seria idêntico a ele; logo, "absorvida" é "vestígio não identificável" — e Rabi Yossei permite mesmo com vestígio identificável, bastando não umedecer
Bavli · 25a — Guemará
מַאי ״נִבְלְעוּ״ וּמַאי ״לֹא נִבְלְעוּ״ דְּקָאָמַר תַּנָּא קַמָּא? אִילֵימָא נִבְלְעוּ דְּאֵין מַטְפִּיחִין, לֹא נִבְלְעוּ דְּמַטְפִּיחִין — וַאֲתָא רַבִּי יוֹסֵי לְמֵימַר: כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין הוּא דְּאָסוּר, הָא רִשּׁוּמָן נִיכָּר — שְׁרֵי, הַיְינוּ תַּנָּא קַמָּא! אֶלָּא נִבְלְעוּ דְּאֵין רִשּׁוּמָן נִיכָּר, לֹא נִבְלְעוּ — דְּרִשּׁוּמָן נִיכָּר. וַאֲתָא רַבִּי יוֹסֵי לְמֵימַר כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין הוּא דְּאָסוּר, הָא רִשּׁוּמָן נִיכָּר — שְׁרֵי.

Pergunta a Guemará: o que significa "absorvida" e o que significa "não absorvida", que diz o tanaíta primeiro? Se dissesses que "absorvida" significa que não umedece, e "não absorvida" significa que umedece — e Rabi Yossei veio dizer: apenas todo o tempo em que umedece é que é proibido; eis que se infere: se o vestígio é identificável mas já não umedeceé permitido — então isto seria idêntico ao tanaíta primeiro (sem qualquer disputa real entre eles)! Antes, "absorvida" significa que o vestígio não é identificável, e "não absorvida" — que o vestígio é identificável. E veio Rabi Yossei dizer: apenas todo o tempo em que umedece é que é proibido; eis que se infere: se o vestígio é identificável mas já não umedeceé permitido (divergindo assim do tanaíta primeiro, que exigiria também a ausência do vestígio).

Nota

A Guemará esclarece os termos da baraita para verificar se há, de fato, uma disputa real entre o tanaíta anônimo e Rabi Yossei. A primeira interpretação possível tornaria as duas opiniões idênticas — o que não faria sentido numa baraita que as apresenta como opiniões distintas. Por isso, a Guemará adota a segunda interpretação: "absorvida" significa que o vestígio já não é identificável, e "não absorvida" significa que o vestígio ainda é identificável. Sob esta leitura, Rabi Yossei de fato diverge do tanaíta primeiro, sendo mais leniente: para ele, basta que a urina não umedeça mais, mesmo que seu vestígio ainda seja visível.

27Não: todos concordam que, enquanto umedece, é proibido; se o vestígio é identificável, é permitido
Bavli · 25a — Guemará
לָא. דְּכוּלֵּי עָלְמָא כׇּל זְמַן שֶׁמַּטְפִּיחִין הוּא דְּאָסוּר הָא רִשּׁוּמָן נִיכָּר — שְׁרֵי,

Responde a Guemará, retirando a conclusão anterior: não é necessariamente assim que se deve entender esta baraita como uma disputa real. Antes, todos (tanto o tanaíta primeiro quanto Rabi Yossei) concordam que apenas todo o tempo em que umedece é que é proibido; eis que, uma vez que o vestígio ainda é identificável mas já não umedeceé permitido (não havendo, portanto, disputa real entre as duas formulações, que apenas expressam o mesmo critério com palavras diferentes).

Nota

A conclusão final da sugya, encerrando o daf: a Guemará recua da leitura anterior e estabelece que, na verdade, não há disputa real entre o tanaíta primeiro e Rabi Yossei — ambos concordam que o critério decisivo é apenas o umedecimento, e não a mera identificabilidade do vestígio. Isso confirma e sustenta plenamente a halachá fixada por Rava: a urina deixa de ser proibida assim que já não umedece, independentemente de seu vestígio ainda ser visível no chão, encerrando a extensa discussão sobre a distância e a duração da impureza que impede a recitação do Shemá e da oração.