Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Dalet, Tefilat HaShachar
דִּלְמָא

O desfecho da deposição de Rabban Gamliel: a resposta da esposa de Rabi Elazar ben Azaria, o dia em que a casa de estudo foi aberta a todos, a Mishná de Yehuda o gêr amoní, e a ordem final entre Minchá e Musaf

Berachot 28a

O daf abre exatamente onde 27b parou: a esposa de Rabi Elazar ben Azaria adverte-o de que podem destituí-lo como fizeram com Rabban Gamliel, mas ele aceita mesmo assim, e um milagre lhe embranquece os cabelos, dando-lhe aparência de setenta anos. Segue-se a narrativa mais famosa desta sugya: naquele mesmo dia, o guarda foi afastado da porta da casa de estudo e todos os alunos, sem exceção, puderam entrar — com centenas de bancos acrescentados — e nenhuma halachá pendente ficou sem resolução, incluindo o caso do gêr amoní Yehuda e a disputa entre Rabban Gamliel e Rabi Yehoshua sobre sua admissão à congregação. O daf narra ainda a reconciliação entre os dois sábios e a divisão do ensino semanal entre Rabban Gamliel e Rabi Elazar ben Azaria, antes de retornar ao tema técnico da Mishná — a ordem de recitação entre a oração de Minchá e a de Musaf quando ambas coincidem, e a advertência de não atrasar as orações além de seu horário.

A resposta da esposa e o dia em que a casa de estudo se abriu · הַהוּא יוֹמָא

1Talvez te destituam. Disse-lhe ele: que se use uma pessoa um dia do copo precioso, e amanhã que se quebre. Disse-lhe ela: não tens cabelos brancos. Naquele dia ele tinha dezoito anos; aconteceu-lhe um milagre e embranqueceram-se dezoito fileiras de cabelos brancos. Por isso é que dizia Rabi Elazar ben Azaria: eis que sou como um homem de setenta anos — e não "de setenta anos"
Bavli · 28a — Guemará
דִּלְמָא מְעַבְּרִין לָךְ. אֲמַר לַהּ: לִשְׁתַּמַּשׁ אִינָשׁ יוֹמָא חֲדָא בְּכָסָא דְמוֹקְרָא, וְלִמְחַר לִיתְּבַר. אֲמַרָה לֵיהּ: לֵית לָךָ חִיוָּרָתָא. הָהוּא יוֹמָא בַּר תַּמְנֵי סְרֵי שְׁנֵי הֲוָה, אִתְרְחִישׁ לֵיהּ נִיסָּא וְאִהַדַּרוּ לֵיהּ תַּמְנֵי סְרֵי דָּרֵי חִיוָּרָתָא. הַיְינוּ דְּקָאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה: הֲרֵי אֲנִי כְּבֶן שִׁבְעִים שָׁנָה. וְלֹא ״בֶּן שִׁבְעִים שָׁנָה״.

Completa-se aqui, no início de 28a, a fala interrompida ao final de 27b: sua esposa lhe disse: talvez te destituam (assim como destituíram Rabban Gamliel — o cargo é instável e a queda traria vergonha). Disse-lhe ele: que se use uma pessoa um dia do copo precioso (de vidro fino e valioso), e amanhã que se quebre (é preferível desfrutar da honra do cargo mesmo que por pouco tempo, do que nunca a ter — um dito popular sobre aproveitar uma oportunidade de valor mesmo que passageira). Disse-lhe ela ainda, apontando outra objeção prática: não tens cabelos brancos (és jovem demais; não terás a aparência de autoridade e maturidade esperada de um chefe da academia). Relata a Guemará o que se seguiu: naquele dia ele tinha dezoito anos de idade; aconteceu-lhe um milagre e embranqueceram-se -lhe dezoito fileiras de cabelos brancos (um cabelo grisalho surgiu instantaneamente para cada ano de sua vida, dando-lhe a aparência de um homem idoso). Por isso é que dizia Rabi Elazar ben Azaria mais tarde, ao relatar este episódio: eis que sou como um homem de setenta anos (a aparência de setenta anos, e não a idade real) — e não disse "sou de setenta anos" (pois de fato ele tinha apenas dezoito; a expressão "como" indica que se tratava apenas de aparência milagrosa, não da idade verdadeira).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
מעברין לך – יורידוך מן הנשיאות בשביל אחר: כסא דמוקרא – כוס זכוכית יקרה שקורין לה בלשון ישמעאל ערקי"א ואומרים בני אדם במשל הדיוט יום אחד ישתמש בו בעליו ויתכבד בו ואם ישבר ישבר: לית לך חיורתא – אין לך שערות לבנות של זקנה ונאה לדרשן להיות זקן: י"ח דרי חיורתא – י"ח שורות של זקנה:

"Talvez te destituam" — isto é: te derrubarão da presidência em favor de outro. "Copo precioso" — refere-se a um copo de vidro precioso, que se chama, na língua dos ismaelitas, "arkia", e as pessoas dizem, num ditado popular, que um dia seu dono há de usá-lo e se orgulhar com ele, e mesmo que venha a se quebrar, que se quebre. "Não tens cabelos brancos" — isto é: não tens os cabelos brancos da velhice, e é mais apropriado para um pregador ser velho. "Dezoito fileiras de cabelos brancos" — dezoito fileiras correspondentes aos sinais da velhice.

Nota

A narrativa retomada de 27b chega ao seu desfecho: a esposa de Rabi Elazar ben Azaria levanta duas objeções — o risco de humilhação futura, e sua juventude, inadequada à imagem de autoridade esperada de um chefe de academia. Ele responde à primeira com um ditado sobre o valor de aproveitar a honra mesmo que passageira; à segunda, um milagre providencia a solução, embranquecendo instantaneamente seus cabelos e emprestando-lhe a aparência — mas não a idade real — de um ancião de setenta anos, frase que se tornaria a expressão pela qual ele próprio, mais tarde, descreveria o episódio.

2Ensinou-se: naquele dia removeram o guarda da porta, e foi dada permissão aos alunos para entrar. Pois Rabban Gamliel costumava proclamar e dizer: todo aluno cujo interior não seja como seu exterior não entre na casa de estudo
Bavli · 28a — Guemará (Baraita)
תָּנָא אוֹתוֹ הַיּוֹם, סִלְּקוּהוּ לְשׁוֹמֵר הַפֶּתַח וְנִתְּנָה לָהֶם רְשׁוּת לַתַּלְמִידִים לִיכָּנֵס. שֶׁהָיָה רַבָּן גַּמְלִיאֵל מַכְרִיז וְאוֹמֵר: כׇּל תַּלְמִיד שֶׁאֵין תּוֹכוֹ כְּבָרוֹ, לֹא יִכָּנֵס לְבֵית הַמִּדְרָשׁ.

Ensinou-se numa baraita, relatando o que se seguiu naquele mesmo dia em que Rabi Elazar ben Azaria assumiu a presidência: naquele dia removeram o guarda da porta (o vigia que Rabban Gamliel havia posto para selecionar quem podia entrar na casa de estudo), e foi dada permissão aos alunos (a todos eles, sem exceção) para entrar. Explica a baraita a razão desta mudança: pois Rabban Gamliel costumava proclamar e dizer: todo aluno cujo interior não seja como seu exterior (isto é, cuja conduta e intenções privadas não correspondam à imagem de piedade e integridade que ele exibe publicamente — um hipócrita) não entre na casa de estudo (esta era a política restritiva de Rabban Gamliel, agora revogada).

Nota

Este é o episódio central e mais célebre de toda a sugya: sob Rabban Gamliel, o acesso à casa de estudo era rigorosamente controlado por um guarda na porta, que impedia a entrada de qualquer aluno suspeito de hipocrisia — alguém cuja piedade exterior não correspondesse a uma integridade interior genuína. Com a ascensão de Rabi Elazar ben Azaria, essa política é imediatamente abolida, e a casa de estudo se abre a todos.

3Naquele dia foram acrescentados vários bancos. Disse Rabi Yochanan: discordam a esse respeito Abba Yossef ben Dostai e os sábios. Um diz: foram acrescentados quatrocentos bancos. E outro diz: setecentos bancos. Ficou angustiado Rabban Gamliel, disse: talvez, Deus me livre, tenha eu impedido a Torá de Israel. Mostraram-lhe em seu sonho jarros brancos cheios de cinza. Mas não era isso; aquilo lhe foi mostrado apenas para tranquilizá-lo
Bavli · 28a — Guemará
הַהוּא יוֹמָא אִתּוֹסְפוּ כַּמָּה סַפְסַלֵּי. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: פְּלִיגִי בַּהּ אַבָּא יוֹסֵף בֶּן דּוֹסְתַּאי וְרַבָּנַן. חַד אָמַר: אִתּוֹסְפוּ אַרְבַּע מְאָה סַפְסַלֵּי. וְחַד אָמַר: שְׁבַע מְאָה סַפְסַלֵּי. הֲוָה קָא חָלְשָׁה דַּעְתֵּיהּ דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל, אֲמַר: דִּלְמָא חַס וְשָׁלוֹם מָנַעְתִּי תּוֹרָה מִיִּשְׂרָאֵל. אַחְזוֹ לֵיהּ בְּחֶלְמֵיהּ חַצְבֵי חִיוָּרֵי דְּמַלְיִין קִטְמָא. וְלָא הִיא, הַהִיא לְיַתּוֹבֵי דַּעְתֵּיהּ, הוּא דְּאַחְזוֹ לֵיהּ.

Naquele dia (assim que a restrição foi removida e a multidão de alunos até então impedidos pôde finalmente entrar) foram acrescentados vários bancos (para acomodar o grande número de novos alunos). Disse Rabi Yochanan (relatando uma dúvida posterior sobre o número exato): discordam a esse respeito Abba Yossef ben Dostai e os sábios. Um diz: foram acrescentados quatrocentos bancos. E outro diz: setecentos bancos. Ficou angustiado Rabban Gamliel (ao saber da enorme quantidade de alunos que sua política restritiva havia mantido afastados), disse: talvez, Deus me livre, tenha eu impedido a Torá de Israel (temendo ter causado grande dano ao impedir tantos de estudar). Mostraram-lhe em seu sonho jarros brancos cheios de cinza (uma visão onírica que, à primeira vista, sugeriria que os alunos excluídos eram de fato indignos — vasos de aparência nobre mas conteúdo desprezível). Mas não era isso o verdadeiro significado da visão; aquilo lhe foi mostrado apenas para tranquilizá-lo (a visão não refletia a realidade objetiva sobre o valor daqueles alunos, mas foi enviada unicamente como consolo pessoal a Rabban Gamliel, para aliviar sua angústia de consciência).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
קא חלשא דעתיה דר"ג – כשראה שנתוספו היום תלמידים רבים והיה דואג שלא יענש במה שמנעם בימיו מלבא: דמליין קטמא – כלומר אף אלו אינם ראויים:

"Ficou angustiado Rabban Gamliel" — quando viu que naquele dia haviam sido acrescentados tantos alunos, e temia ser punido por havê-los impedido de entrar durante seus dias de liderança. "Cheios de cinza" — isto é, a visão sugeria que também estes alunos recém-admitidos não eram dignos (dando-lhe, à primeira vista, uma justificativa aparente para sua antiga política restritiva).

Nota

A Guemará relata a extraordinária multiplicação de bancos — quatrocentos ou setecentos, segundo tradições divergentes — necessária para acomodar os alunos antes barrados. Rabban Gamliel, confrontado com a evidência do dano que sua política pode ter causado, é atormentado pela culpa; um sonho parece a princípio confirmar seus piores temores (que os alunos excluídos eram de fato indignos, como cinza em jarros nobres), mas a Guemará esclarece que essa visão não passava de um consolo emocional, sem valor de julgamento objetivo sobre o caráter daqueles estudantes.

4Ensinou-se: Eduyot naquele dia foi ensinado. E em todo lugar onde dizemos "naquele dia", foi aquele dia. E não havia halachá alguma pendente na casa de estudo que não fosse esclarecida. E também Rabban Gamliel não se ausentou da casa de estudo nem mesmo uma hora
Bavli · 28a — Guemará (Baraita)
תָּנָא: עֵדֻיוֹת בּוֹ בַּיּוֹם נִשְׁנֵית. וְכׇל הֵיכָא דְּאָמְרִינַן ״בּוֹ בַּיּוֹם״, הַהוּא יוֹמָא הֲוָה. וְלֹא הָיְתָה הֲלָכָה שֶׁהָיְתָה תְּלוּיָה בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ שֶׁלֹּא פֵּירְשׁוּהָ. וְאַף רַבָּן גַּמְלִיאֵל לֹא מָנַע עַצְמוֹ מִבֵּית הַמִּדְרָשׁ אֲפִילּוּ שָׁעָה אַחַת.

Ensinou-se numa baraita, atestando a magnitude produtiva daquele dia extraordinário: Eduyot (o tratado da Mishná composto por testemunhos e tradições recolhidas de vários sábios sobre halachot diversas) naquele dia foi ensinado (composto e formalizado). E em todo lugar na Mishná onde dizemos "naquele dia" (referindo-se a algum evento ou ensinamento datado), foi aquele dia (este mesmo dia da destituição de Rabban Gamliel — todas essas referências apontam para o mesmo evento histórico). E não havia halachá alguma pendente (em dúvida ou sem solução) na casa de estudo que não fosse esclarecida naquele dia. E também Rabban Gamliel não se ausentou da casa de estudo nem mesmo uma hora (apesar de ter sido destituído, ele continuou a comparecer e participar plenamente das discussões, sem guardar rancor nem se afastar por vergonha).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
תלויה – בספק שלא פירשוה מתוך שרבו התלמידים רב החדוד והפלפול:

"Pendente" — isto é: em dúvida, sem que a tivessem esclarecido, e isso mudou porque se multiplicaram os alunos, aumentando a agudeza e o debate dialético (pilpul).

Nota

A baraita celebra a fecundidade intelectual daquele dia histórico: com a multidão de novos alunos e o vigor renovado do debate, toda halachá até então pendente foi resolvida, e até mesmo o tratado Eduyot — uma coletânea de testemunhos legais diversos — foi formalmente ensinado. A nota final sobre Rabban Gamliel é notável por seu tom elogioso: apesar de destituído, ele não abandonou a casa de estudo nem por uma hora, demonstrando integridade e dedicação à Torá acima do orgulho pessoal.

5Como ensinamos: naquele dia veio Yehuda, o gêr amoní, perante eles na casa de estudo. Disse-lhes: como fico eu quanto a entrar na congregação?
Bavli · 28a — Guemará (Mishná, Yadaim 4:4)
דִּתְנַן: בּוֹ בַּיּוֹם בָּא יְהוּדָה גֵּר עַמּוֹנִי לִפְנֵיהֶם בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ. אָמַר לָהֶם: מָה אֲנִי לָבֹא בַּקָּהָל?

A Guemará ilustra com um exemplo concreto o alcance dessa produtividade sem precedentes: como ensinamos numa Mishná (de Yadaim): naquele dia veio Yehuda, o gêr (convertido) amoní (de origem amonita — um povo cuja admissão à congregação de Israel era, segundo a Torá, objeto de proibição explícita), perante eles (os sábios reunidos) na casa de estudo. Disse-lhes: como fico eu quanto a entrar na congregação (posso eu, convertido amonita, casar-me com uma judia e ser plenamente admitido na congregação de Israel)?

Nota

O caso de Yehuda, o convertido amonita, é trazido como prova concreta de que "não havia halachá pendente que não fosse esclarecida": ele mesmo veio, naquele dia excepcional, apresentar sua dúvida pessoal e urgente sobre seu próprio status legal — se, apesar da proibição bíblica geral contra amonitas e moabitas na congregação de Israel, ele poderia ser admitido.

6Disse-lhe Rabban Gamliel: és proibido de entrar na congregação. Disse-lhe Rabi Yehoshua: és permitido a entrar na congregação. Disse-lhe Rabban Gamliel: mas já não foi dito "não entrará amoní e moaví na congregação do Eterno"? Disse-lhe Rabi Yehoshua: mas acaso Amon e Moav habitam em seu lugar? Já subiu Sancheriv, rei da Assíria, e confundiu todas as nações, como está dito: "e removi os limites dos povos, e seus tesouros saqueei, e derrubei como um valente os que habitavam" — e tudo que se separa, da maioria se separa
Bavli · 28a — Guemará (Mishná, Yadaim 4:4)
אָמַר לוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל: אָסוּר אַתָּה לָבֹא בַּקָּהָל. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: מוּתָּר אַתָּה לָבֹא בַּקָּהָל. אָמַר לוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל: וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״לֹא יָבֹא עַמּוֹנִי וּמוֹאָבִי בִּקְהַל ה׳״? אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: וְכִי עַמּוֹן וּמוֹאָב בִּמְקוֹמָן הֵן יוֹשְׁבִין? כְּבָר עָלָה סַנְחֵרִיב מֶלֶךְ אַשּׁוּר וּבִלְבֵּל אֶת כׇּל הָאוּמּוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָסִיר גְּבֻלוֹת עַמִּים וַעֲתוּדוֹתֵיהֶם שׁוֹשֵׂתִי וְאוֹרִיד כַּבִּיר יוֹשְׁבִים״, וְכׇל דְּפָרֵישׁ — מֵרוּבָּא פָּרֵישׁ.

Disse-lhe Rabban Gamliel: és proibido de entrar na congregação (sustentando a leitura literal e restritiva do versículo). Disse-lhe Rabi Yehoshua: és permitido a entrar na congregação (discordando). Disse-lhe Rabban Gamliel: mas já não foi dito na Torá: "não entrará amoní e moaví na congregação do Eterno" (Devarim 23:4 — uma proibição explícita e aparentemente incondicional)? Disse-lhe Rabi Yehoshua: mas acaso Amon e Moav habitam em seu lugar original, de modo que possamos identificar com certeza quem é hoje descendente genuíno desses povos? Já subiu Sancheriv, rei da Assíria (o grande conquistador que exilou e misturou as nações do Oriente Próximo), e confundiu todas as nações (deslocando populações inteiras e misturando-as entre si, de modo que as identidades nacionais originais se perderam), como está dito em Yeshaiáhu: "e removi os limites dos povos, e seus tesouros saqueei, e derrubei como um valente os que habitavam" (versículo que descreve a política de Sancheriv de embaralhar fronteiras e populações), e tudo que se separa hoje, alegando pertencer a um povo antigo, da maioria se separa (presume-se que pertença à maioria das nações hoje misturadas, e não especificamente aos amonitas ou moabitas originais, cuja identidade distinta já não pode ser verificada).

Nota

O debate reproduz, quase literalmente, a Mishná de Yadaim 4:4: Rabban Gamliel invoca a letra da proibição bíblica contra amonitas e moabitas; Rabi Yehoshua argumenta que a política de mistura populacional imposta por Sancheriv séculos antes tornou impossível identificar com certeza os descendentes originais desses povos — de modo que qualquer indivíduo que hoje se apresente como tal deve ser presumido parte da "maioria" das nações confundidas, e não do grupo específico proibido.

7Disse-lhe Rabban Gamliel: mas já não foi dito "e depois disso retornarei o cativeiro dos filhos de Amon, palavra do Eterno", e já retornaram?
Bavli · 28a — Guemará (Mishná, Yadaim 4:4)
אָמַר לוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל: וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״וְאַחֲרֵי כֵן אָשִׁיב אֶת שְׁבוּת בְּנֵי עַמּוֹן נְאֻם ה׳״, וּכְבָר שָׁבוּ!

Disse-lhe Rabban Gamliel, persistindo em sua objeção: mas já não foi dito em Yirmiyahu: "e depois disso retornarei o cativeiro dos filhos de Amon, palavra do Eterno" (Yirmiyahu 49:6 — profecia que promete a restauração dos amonitas à sua terra e identidade original), e já retornaram (esta profecia, argumenta Rabban Gamliel, já se cumpriu, restabelecendo a identidade nacional distinta de Amon — o que restauraria a validade da proibição bíblica)?

Nota

Rabban Gamliel contra-argumenta com uma profecia de restauração: se a Escritura promete que os amonitas retornarão à sua condição nacional distinta, e essa promessa já se cumpriu historicamente, então a mistura causada por Sancheriv não seria mais um obstáculo válido à identificação e, portanto, à proibição.

8Disse-lhe Rabi Yehoshua: mas já não foi dito "e retornarei o cativeiro do meu povo Israel", e ainda não retornaram? Imediatamente permitiram-lhe entrar na congregação
Bavli · 28a — Guemará (Mishná, Yadaim 4:4)
אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״וְשַׁבְתִּי אֶת שְׁבוּת עַמִּי יִשְׂרָאֵל״, וַעֲדַיִין לֹא שָׁבוּ. מִיָּד הִתִּירוּהוּ לָבֹא בַּקָּהָל.

Disse-lhe Rabi Yehoshua, refutando o argumento com uma prova por analogia: mas já não foi dito também: "e retornarei o cativeiro do meu povo Israel" (Amós 9:14 — uma profecia paralela sobre a restauração de Israel), e ainda não retornaram (pois o próprio povo de Israel, apesar dessa profecia, ainda se encontrava disperso e não plenamente restaurado — provando que uma profecia de retorno futuro não implica cumprimento imediato ou automático, e portanto a profecia sobre Amon também não pode ser tomada como já cumprida)! Imediatamente permitiram-lhe a Yehuda, o convertido amonita, entrar na congregação (a halachá foi decidida a favor de Rabi Yehoshua).

Nota

Rabi Yehoshua vence o debate com uma analogia decisiva: se a profecia paralela sobre a restauração do próprio povo de Israel ainda não se cumprira em seus dias, isso prova que a existência de uma profecia de retorno futuro não implica, por si só, seu cumprimento imediato — refutando assim o argumento de Rabban Gamliel de que a profecia sobre Amon já se teria realizado. A halachá é decidida a favor de Rabi Yehoshua, e Yehuda, o convertido amonita, é admitido na congregação de Israel — mais um caso, junto ao próprio episódio da deposição, em que a posição de Rabi Yehoshua prevalece sobre a de Rabban Gamliel naquele dia extraordinário.

A reconciliação entre Rabban Gamliel e Rabi Yehoshua · אֵיזִיל וַאֲפַיְּיסֵיהּ

9Disse Rabban Gamliel: já que assim foi, irei apaziguar a Rabi Yehoshua. Quando chegou à sua casa, viu que as paredes de sua casa eram enegrecidas. Disse-lhe: pelas paredes de tua casa se percebe que és ferreiro de carvão. Disse-lhe: ai da geração cujo sustentador és tu, que não conheces a aflição dos sábios da Torá, com que se sustentam e com que se alimentam
Bavli · 28a — Guemará
אָמַר רַבָּן גַּמְלִיאֵל: הוֹאִיל וְהָכִי הֲוָה, אֵיזִיל וַאֲפַיְּיסֵיהּ לְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ. כִּי מְטָא לְבֵיתֵיהּ, חֲזִינְהוּ לְאַשְׁיָתָא דְבֵיתֵיהּ דְּמַשְׁחֲרָן. אֲמַר לֵיהּ: מִכּוֹתְלֵי בֵיתְךָ אַתָּה נִיכָּר שֶׁפֶּחָמִי אַתָּה. אָמַר לוֹ: אוֹי לוֹ לַדּוֹר שֶׁאַתָּה פַּרְנָסוֹ, שֶׁאִי אַתָּה יוֹדֵעַ בְּצַעֲרָן שֶׁל תַּלְמִידֵי חֲכָמִים, בַּמֶּה הֵם מִתְפַּרְנְסִים וּבַמֶּה הֵם נִזּוֹנִים.

Disse Rabban Gamliel consigo mesmo, refletindo sobre todo o episódio de sua destituição e a disputa que a originou: já que assim foi (visto que o resultado de tudo isso foi este), irei apaziguar a Rabi Yehoshua (buscar reconciliação pessoal com aquele que ele havia ofendido publicamente). Quando chegou à sua casa, viu que as paredes de sua casa eram enegrecidas (escurecidas pela fuligem). Disse-lhe: pelas paredes de tua casa se percebe que és ferreiro de carvão (um comentário que, embora talvez pretendesse ser observação neutra, soava como reprovação pela humildade e pobreza aparente da moradia de Rabi Yehoshua, sábio de tamanha estatura). Disse-lhe Rabi Yehoshua, respondendo com dureza à observação: ai da geração cujo sustentador és tu (líder responsável pelo bem-estar do povo), que não conheces a aflição dos sábios da Torá, com que se sustentam e com que se alimentam (revelando, através de sua própria pobreza — obrigado a trabalhar como ferreiro de carvão para se sustentar apesar de sua grandeza em Torá —, a indiferença de Rabban Gamliel, homem rico, para com as dificuldades materiais enfrentadas pelos verdadeiros eruditos).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
לאשיתא דביתיה דמשחרן – כותלי ביתו של ר' יהושע שהיו שחורות: שפחמי אתה – עושה פחמים וי"א נפח:

"As paredes de sua casa eram enegrecidas" — refere-se às paredes da casa de Rabi Yehoshua, que eram negras. "Que és ferreiro de carvão" — isto é, que fabricas carvão; e há quem diga que era, antes, ferreiro de metais.

Nota

Rabban Gamliel, arrependido, procura reconciliar-se pessoalmente com Rabi Yehoshua — mas seu comentário sobre as paredes enegrecidas da casa modesta do sábio, ainda que talvez involuntário, expõe uma nova falha: a distância entre a riqueza de Rabban Gamliel e a pobreza material de tantos sábios da Torá, obrigados a ofícios humildes (como fabricar ou trabalhar com carvão) para sobreviver, apesar de sua eminência intelectual e espiritual.

10Disse-lhe: acedi a ti, perdoa-me. Não lhe deu atenção. Faze-o por honra de meu pai. Apaziguou-se
Bavli · 28a — Guemará
אָמַר לוֹ: נַעֲנֵיתִי לְךָ מְחוֹל לִי. לָא אַשְׁגַּח בֵּיהּ: עֲשֵׂה בִּשְׁבִיל כְּבוֹד אַבָּא. פַּיֵּיס.

Disse-lhe Rabban Gamliel: acedi a ti (reconheço que falei mais duramente do que deveria, cedendo à tua posição), perdoa-me. Não lhe deu atenção (Rabi Yehoshua permaneceu irredutível, recusando-se a se apaziguar apenas com essas palavras). Insistiu Rabban Gamliel: faze-o por honra de meu pai (invocando a memória e o mérito de seu falecido pai como argumento adicional para obter o perdão). Apaziguou-se (Rabi Yehoshua finalmente cedeu e aceitou a reconciliação, movido por este apelo final).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
נעניתי לך – דברתי למולך יותר מן הראוי:

"Acedi a ti" — isto é: falei contra ti mais do que era devido (reconhecendo que suas palavras anteriores foram excessivas e injustas).

Nota

A reconciliação exige dois pedidos sucessivos: o primeiro, um reconhecimento direto da culpa, não é suficiente para amolecer Rabi Yehoshua; apenas o apelo à honra do pai falecido de Rabban Gamliel — provavelmente Rabán Shimon ben Gamliel, ou outro ancestral de peso e memória venerada — finalmente consegue apaziguá-lo.

11Disseram: quem irá e dirá aos sábios? Disse-lhes um certo lavandeiro: eu irei. Mandou Rabi Yehoshua à casa de estudo: quem está acostumado a vestir o manto, que vista o manto; e quem não está acostumado a vestir o manto, dirá a quem está acostumado a vestir o manto: tira teu manto e eu o vestirei?! Disse-lhes Rabi Akiva aos sábios: fechai os portões, que não venham os servos de Rabban Gamliel e aflijam os sábios
Bavli · 28a — Guemará
אֲמַרוּ: מַאן נֵיזִיל וְלֵימָא לְהוּ לְרַבָּנַן. אֲמַר לְהוּ הַהוּא כּוֹבֵס: אֲנָא אָזֵילְנָא. שְׁלַח לְהוּ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ לְבֵי מִדְרְשָׁא: מַאן דְּלָבֵישׁ מַדָּא — יִלְבַּשׁ מַדָּא, וּמַאן דְּלָא לָבֵישׁ מַדָּא יֵימַר לֵיהּ לְמַאן דְּלָבֵישׁ מַדָּא: שְׁלַח מַדָּךְ וַאֲנָא אֶלְבְּשֵׁיהּ?! אֲמַר לְהוּ רַבִּי עֲקִיבָא לְרַבָּנַן: טְרוּקוּ גַּלֵּי דְּלָא לֵיתוּ עַבְדֵי דְרַבָּן גַּמְלִיאֵל וּלְצַעֲרוּ לְרַבָּנַן.

Disseram Rabban Gamliel e Rabi Yehoshua, agora reconciliados, um ao outro: quem irá e dirá aos sábios (que se reúnam de volta na casa de estudo agora que a paz foi restaurada entre os dois líderes)? Disse-lhes um certo lavandeiro (um homem humilde, presente ali): eu irei. Mandou Rabi Yehoshua uma mensagem à casa de estudo (por meio deste mensageiro, formulada como uma parábola): quem está acostumado a vestir o manto (referindo-se ao manto da presidência — isto é, quem já exerceu o cargo de Nassi), que vista o manto (que Rabban Gamliel retome seu posto); e quem não está acostumado a vestir o manto (referindo-se a si mesmo, Rabi Elazar ben Azaria, o substituto recém-nomeado), dirá a quem está acostumado a vestir o manto: tira teu manto e eu o vestirei?! (seria impróprio que ele, um novato no cargo, se recusasse a devolvê-lo ao seu antigo e legítimo detentor). Disse-lhes Rabi Akiva aos sábios reunidos, tomando uma providência de segurança: fechai os portões (trancai as portas da casa de estudo), que não venham os servos de Rabban Gamliel e aflijam os sábios (temendo represálias de Rabban Gamliel contra aqueles que haviam participado de sua destituição, antes que a notícia da reconciliação fosse plenamente assimilada e a nova ordem estabelecida com segurança).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
דלביש מדא – הרגיל ללבוש המעיל ילבש כלומר הרגיל בנשיאות יהיה נשיא:

"Quem está acostumado a vestir o manto" — isto é: quem está habituado a vestir o manto da presidência, que continue a vesti-lo — ou seja, quem está acostumado à presidência, que seja o presidente.

Nota

A mensagem parabólica de Rabi Yehoshua resolve elegantemente a questão de quem deve ocupar o cargo agora que a paz foi restaurada: Rabban Gamliel, o antigo e legítimo Nassi, deve retomar seu posto, e não seria correto que Rabi Elazar ben Azaria, recém-nomeado, se apegasse ao cargo. A cautela de Rabi Akiva — trancar os portões contra possíveis servos vingativos de Rabban Gamliel — revela a tensão residual e o temor real de represálias que ainda pairava sobre os sábios responsáveis pela destituição, mesmo após o princípio de reconciliação entre os dois líderes.

12Disse Rabi Yehoshua: é melhor que eu me levante e vá até eles. Foi e bateu à porta. Disse-lhes: que aquele que asperge, filho de quem asperge, asperja; e aquele que não é nem quem asperge nem filho de quem asperge dirá a quem asperge, filho de quem asperge: tuas águas são águas de caverna e tua cinza é cinza de fornalha! Disse-lhe Rabi Akiva: Rabi Yehoshua, te apaziguaste? Não fizemos senão por tua honra; amanhã, eu e tu iremos madrugar à sua porta
Bavli · 28a — Guemará
אֲמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: מוּטָב דְּאֵיקוּם וְאֵיזִיל אֲנָא לְגַבַּיְיהוּ. אֲתָא טְרַף אַבָּבָא. אֲמַר לְהוּ: מַזֶּה בֶּן מַזֶּה יַזֶּה. וְשֶׁאֵינוֹ לֹא מַזֶּה וְלֹא בֶּן מַזֶּה יֹאמַר לְמַזֶּה בֶּן מַזֶּה מֵימֶיךָ מֵי מְעָרָה וְאֶפְרְךָ אֵפֶר מִקְלֶה. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא: רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, נִתְפַּיַּיסְתָּ? כְּלוּם עָשִׂינוּ אֶלָּא בִּשְׁבִיל כְּבוֹדְךָ, לְמָחָר אֲנִי וְאַתָּה נַשְׁכִּים לְפִתְחוֹ.

Disse Rabi Yehoshua, ao perceber que os sábios haviam se trancado por temor: é melhor que eu me levante e vá até eles (pessoalmente, para dissipar seus temores). Foi e bateu à porta. Disse-lhes, usando outra parábola, agora sobre a linhagem sacerdotal necessária para a purificação com as cinzas da vaca ruiva: que aquele que asperge, filho de quem asperge (um sacerdote cujo pai também era sacerdote, com linhagem estabelecida e ininterrupta de pureza — alegoria para Rabban Gamliel, que era Nassi filho de Nassi, com linhagem de liderança estabelecida), asperja (realize o serviço de aspersão — assuma novamente seu papel de liderança); e aquele que não é nem quem asperge nem filho de quem asperge (alguém sem tal linhagem estabelecida — alegoria para si mesmo, Rabi Yehoshua) dirá a quem asperge, filho de quem asperge: tuas águas são águas de caverna e tua cinza é cinza de fornalha (isto é, dirá a ele que sua água e cinza — os instrumentos de sua própria autoridade — não são válidas, questionando sua legitimidade)?! (seria absurdo e improcedente que ele, sem tal linhagem, contestasse a legitimidade daquele que a possui — assim, ele próprio reconhece que não lhe cabe permanecer opondo-se à liderança legítima de Rabban Gamliel). Disse-lhe Rabi Akiva: Rabi Yehoshua, te apaziguaste (estás satisfeito e disposto à reconciliação plena)? Não fizemos tudo isto — a destituição de Rabban Gamliel — senão por tua honra (para reparar a afronta que ele te causara); amanhã, eu e tu iremos madrugar à sua porta (prestar-lhe homenagem, restabelecendo publicamente sua liderança).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
מזה בן מזה – כהן בן כהן יזה את מי חטאת: אפר מקלה – אפר הקלוי בתנורים ובכירות כלומר אפר סתם:

"Aquele que asperge, filho de quem asperge" — refere-se ao sacerdote, filho de sacerdote, que asperge as águas de purificação misturadas com cinza da vaca ruiva (chatat). "Cinza de fornalha" — isto é: cinza comum, assada em fornos e fogareiros, uma cinza qualquer, sem a santidade especial exigida.

Nota

Rabi Yehoshua responde à parábola anterior com outra, extraída das leis de purificação ritual: assim como seria absurdo que alguém sem linhagem sacerdotal válida questionasse a legitimidade das águas e cinzas de um sacerdote genuíno com linhagem estabelecida, seria igualmente impróprio que ele — sem a linhagem de liderança de Rabban Gamliel — continuasse a contestar sua posição legítima. Rabi Akiva então esclarece o verdadeiro propósito de toda a destituição: não foi um ato de rebeldia contra a autoridade legítima de Rabban Gamliel, mas uma defesa pontual da honra pessoal de Rabi Yehoshua — e, com a reconciliação alcançada, os próprios líderes da revolta se comprometem a restabelecer publicamente o prestígio de Rabban Gamliel.

13Disseram: como faremos? Removê-lo — aprendemos que se sobe em santidade e não se desce. Que um mestre ensine uma semana e outro mestre ensine outra semana — viria a gerar inveja. Mas: que Rabban Gamliel ensine três semanas e Rabi Elazar ben Azaria uma semana. E é isto que disse o mestre: de quem era o Shabat? Era de Rabi Elazar ben Azaria. E aquele aluno era Rabi Shimon ben Yochai
Bavli · 28a — Guemará
אָמְרִי: הֵיכִי נַעֲבֵיד, נַעְבְּרֵיהּ — גְּמִירִי מַעֲלִין בַּקֹּדֶשׁ וְאֵין מוֹרִידִין. נִדְרוֹשׁ מָר חֲדָא שַׁבְּתָא וּמַר חֲדָא שַׁבְּתָא — אָתֵי לְקַנּאוֹיֵי. אֶלָּא: לִדְרוֹשׁ רַבָּן גַּמְלִיאֵל תְּלָתָא שַׁבָּתֵי וְרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה חֲדָא שַׁבְּתָא. וְהַיְינוּ דְּאָמַר מָר שַׁבָּת שֶׁל מִי הָיְתָה — שֶׁל רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה הָיְתָה. וְאוֹתוֹ תַּלְמִיד רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי הֲוָה.

Disseram os sábios, deliberando sobre a questão remanescente de como resolver a situação de dois líderes — Rabban Gamliel restaurado, e Rabi Elazar ben Azaria já nomeado: como faremos agora? Removê-lo (a Rabi Elazar ben Azaria, devolvendo a Rabban Gamliel a exclusividade do cargo) — aprendemos por tradição que se sobe em santidade e não se desce (um princípio segundo o qual, uma vez elevado alguém a uma posição de honra sagrada, não se deve rebaixá-lo novamente — seria impróprio destituir Rabi Elazar ben Azaria depois de tê-lo nomeado). Que um mestre ensine uma semana e outro mestre ensine outra semana (alternando a liderança do ensino semanalmente entre os dois) — viria a gerar inveja (entre os dois, ou entre seus respectivos apoiadores, prejudicando a harmonia). Mas a solução adotada foi: que Rabban Gamliel ensine três semanas e Rabi Elazar ben Azaria uma semana (uma divisão desigual, reconhecendo a primazia de Rabban Gamliel como Nassi restaurado, mas preservando a honra e o papel contínuo de Rabi Elazar ben Azaria). E é isto que disse o mestre (referência a uma tradição citada alhures, no tratado Chaguigá): de quem era o Shabat em que ocorreu um certo debate? Era de Rabi Elazar ben Azaria (confirmando que ele de fato continuou a ensinar regularmente, uma semana em cada mês). E aquele aluno (que fez uma pergunta específica naquele Shabat, mencionado no tratado Chaguigá, questionando se a oração da tarde era obrigatória ou facultativa) era Rabi Shimon ben Yochai (identificado agora, retroativamente, como o aluno cuja pergunta original — no início de toda esta sugya, em 27b — desencadeou o incidente completo da disputa entre Rabban Gamliel e Rabi Yehoshua).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
שבת של מי היתה – במסכת חגיגה: ואותו תלמיד – ששאל תפלת ערבית רשות או חובה רשב"י הוא:

"De quem era o Shabat" — esta tradição encontra-se no tratado Chaguigá. "E aquele aluno" — que perguntou se a oração da tarde é facultativa ou obrigatória, era Rabi Shimon ben Yochai.

Nota

A solução final para a disputa de liderança preserva a honra de ambos: Rabban Gamliel retoma a primazia como Nassi, ensinando três semanas em cada ciclo, enquanto Rabi Elazar ben Azaria mantém um papel de liderança contínuo, ensinando na quarta semana — respeitando o princípio de que uma posição de santidade, uma vez concedida, não deve ser inteiramente revogada. A Guemará fecha o círculo narrativo aberto no início da sugya, em 27b, revelando que o aluno cuja pergunta original sobre a obrigatoriedade da oração da tarde desencadeou toda a disputa entre Rabban Gamliel e Rabi Yehoshua era ninguém menos que Rabi Shimon ben Yochai — uma informação preservada, segundo Rashi, no tratado Chaguigá.

חוֹזְרִים לְעִנְיַן הַמִּשְׁנָה

Encerrada a longa digressão narrativa, a Guemará retorna ao tema técnico da Mishná: os horários das orações de Musaf, e a ordem entre Minchá e Musaf quando ambas coincidem.

A ordem entre Minchá e Musaf · שְׁתֵּי תְּפִלּוֹת, מִנְחָה וּמוּסָף

14"E a de Musaf, o dia todo." Disse Rabi Yochanan: e é chamado "negligente"
Bavli · 28a — Guemará (sobre a Mishná)
וְשֶׁל מוּסָפִין כׇּל הַיּוֹם. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: וְנִקְרָא ״פּוֹשֵׁעַ״.

Retomando o texto da Mishná citada no início do Perek Dalet, em 26a: "e a oração de Musaf, o dia todo (pode ser recitada a qualquer hora do dia, sem horário limite fixo)." Disse Rabi Yochanan, qualificando esta leniência: e ainda assim, quem atrasa deliberadamente a oração de Musaf até tarde é chamado "negligente" (pashúa — ainda que a oração continue tecnicamente válida se recitada, atrasá-la sem necessidade é reprovável e configura um ato de desleixo).

Nota

A Guemará retorna, após a longa digressão histórica sobre a deposição de Rabban Gamliel, ao texto técnico da Mishná original, citando sua última cláusula sobre o horário de Musaf — válido o dia inteiro — e trazendo uma ressalva de Rabi Yochanan: embora tecnicamente válida a qualquer hora, adiar deliberadamente essa oração é, ainda assim, uma forma de negligência religiosa.

15Ensinaram os sábios: se teve diante de si duas orações, uma de Minchá e uma de Musaf — reza a de Minchá e depois reza a de Musaf, pois esta é constante e aquela não é constante. Rabi Yehuda diz: reza a de Musaf e depois reza a de Minchá, pois esta é mitzvá que passa e aquela é mitzvá que não passa. Disse Rabi Yochanan: a halachá é reza a de Minchá e depois reza a de Musaf
Bavli · 28a — Guemará (Baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: הָיוּ לְפָנָיו שְׁתֵּי תְּפִלּוֹת, אַחַת שֶׁל מִנְחָה וְאַחַת שֶׁל מוּסָף — מִתְפַּלֵּל שֶׁל מִנְחָה וְאַחַר כָּךְ מִתְפַּלֵּל שֶׁל מוּסָף, שֶׁזּוֹ תְּדִירָה, וְזוֹ אֵינָהּ תְּדִירָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: מִתְפַּלֵּל שֶׁל מוּסָף וְאַחַר כָּךְ מִתְפַּלֵּל שֶׁל מִנְחָה, שֶׁזּוֹ מִצְוָה עוֹבֶרֶת, וְזוֹ מִצְוָה שֶׁאֵינָהּ עוֹבֶרֶת. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה מִתְפַּלֵּל שֶׁל מִנְחָה וְאַחַר כָּךְ מִתְפַּלֵּל שֶׁל מוּסָף.

Ensinaram os sábios numa baraita: se teve diante de si duas orações a recitar, por tê-las atrasado, uma de Minchá e uma de Musaf (por exemplo, em Rosh Chodesh ou outro dia com oração adicional, tendo deixado ambas para depois de Pelag HaMinchá) — reza a de Minchá e depois reza a de Musaf, pois esta (Minchá) é constante (recitada todos os dias), e esta outra (Musaf) não é constante (recitada apenas em dias especiais — e há um princípio de priorizar o que é mais frequente). Rabi Yehuda diz: reza a de Musaf e depois reza a de Minchá, pois esta (Musaf, segundo a opinião de Rabi Yehuda anteriormente citada, que a limita a sete horas) é mitzvá que passa (cujo prazo está se esgotando e pode ser perdida), e esta outra (Minchá, que pode ser recitada até a noite) é mitzvá que não passa (ainda tem tempo disponível — e há um princípio de priorizar aquilo cujo prazo é mais urgente). Disse Rabi Yochanan, decidindo a halachá: a halachá prática é que se reza a de Minchá e depois reza a de Musaf (seguindo a opinião dos sábios, e não a de Rabi Yehuda).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
מתפלל של מנחה – מאחר שהגיע זמנה כדי להקדימה בתחלת זמנה שלא יקרא פושע גם עליה: ואח"כ של מוספין – הואיל ואיחר זמנה אינו עובר דהא אמרי רבנן ושל מוספים כל היום: שזו מצוה עוברת – ר' יהודה לטעמיה דאמר עד שבע שעות ותו לא:

"Reza a de Minchá" — já que chegou seu horário, deve-se antecipá-la logo no início de seu horário, para que não seja chamado negligente também quanto a ela. "E depois reza a de Musaf" — visto que atrasou seu horário habitual, ainda assim não a transgride completamente, pois os sábios dizem que a de Musaf vale o dia todo. "Pois esta é mitzvá que passa" — Rabi Yehuda segue seu próprio raciocínio, segundo o qual o horário de Musaf vai até sete horas e não mais.

Nota

A baraita apresenta uma disputa sobre prioridade quando duas orações atrasadas coincidem: os sábios priorizam Minchá por ser mais frequente (tediráh), enquanto Rabi Yehuda prioriza Musaf por seu prazo mais apertado, já que — segundo sua própria opinião anterior, citada em 27a — o horário de Musaf termina às sete horas, tornando-a uma "mitzvá que passa" e portanto mais urgente. Rabi Yochanan decide a halachá a favor da opinião dos sábios: primeiro Minchá, depois Musaf.

Os episódios de Rabi Zeira e a tradição de Rabi Yochanan · מַאן אֲמַר הֲלָכָה בֵּי מִדְרְשָׁא

16Rabi Zeira, quando se cansava de seu estudo, ia e se sentava à porta da casa de Rabi Natan bar Tovi. Disse: quando passarem os sábios, então me levantarei diante deles e receberei recompensa. Saiu e veio Rabi Natan bar Tovi, disse-lhe: quem disse a halachá na casa de estudo? Disse-lhe: assim disse Rabi Yochanan: não é a halachá como Rabi Yehuda, que diz reza a pessoa a de Musaf e depois reza a de Minchá
Bavli · 28a — Guemará
רַבִּי זֵירָא כִּי הֲוָה חֲלִישׁ מִגִּירְסֵיהּ הֲוָה אָזֵיל וְיָתֵיב אַפִּתְחָא דְּבֵי רַבִּי נָתָן בַּר טוֹבִי. אָמַר: כִּי חָלְפִי רַבָּנַן אָז אֵיקוּם מִקַּמַּיְיהוּ וַאֲקַבֵּל אַגְרָא. נְפַק אֲתָא רַבִּי נָתָן בַּר טוֹבִי, אֲמַר לֵיהּ: מַאן אֲמַר הֲלָכָה בֵּי מִדְרְשָׁא? אֲמַר לֵיהּ: הָכִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר מִתְפַּלֵּל אָדָם שֶׁל מוּסָף וְאַחַר כָּךְ מִתְפַּלֵּל שֶׁל מִנְחָה.

Rabi Zeira, quando se cansava de seu estudo (precisava de uma pausa mental do intenso esforço de aprendizagem), ia e se sentava à porta da casa de Rabi Natan bar Tovi (um local de passagem frequente de sábios). Disse consigo mesmo, explicando seu próprio costume: quando passarem os sábios, então me levantarei diante deles (por respeito) e receberei recompensa (mérito espiritual pelo ato de honrar os sábios, transformando seu momento de descanso em oportunidade de mitzvá). Saiu e veio Rabi Natan bar Tovi, e ao vê-lo, disse-lhe: quem disse a halachá mais recente na casa de estudo hoje? Disse-lhe Rabi Zeira: assim disse Rabi Yochanan: não é a halachá como Rabi Yehuda, que diz reza a pessoa a de Musaf e depois reza a de Minchá (confirmando a decisão já mencionada na unidade anterior).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
כי חלפי רבנן – תלמידים היוצאים מבית ר' נתן: מאן אמר הלכה בי מדרשא – מי מבני הישיבה אמר בבית המדרש שהלכה כר' יהודה:

"Quando passarem os sábios" — refere-se aos alunos que saem da casa de Rabi Natan. "Quem disse a halachá na casa de estudo" — isto é: qual dos membros da academia disse na casa de estudo algo sobre se a halachá é como Rabi Yehuda.

Nota

Um episódio pessoal ilustra a devoção de Rabi Zeira: mesmo em seus momentos de descanso do estudo intenso, ele transforma a espera à porta da casa de Rabi Natan bar Tovi em oportunidade de honrar os sábios que ali passam, levantando-se diante deles. O encontro serve também como veículo narrativo para reafirmar, de fonte independente, a decisão halachica de Rabi Yochanan já mencionada.

17Disse-lhe: foi Rabi Yochanan quem a disse? Disse-lhe: sim. Aprendeu-a dele quarenta vezes. Disse-lhe: é a mesma para ti, ou é nova para ti? Disse-lhe: é nova para mim, pois eu tinha dúvida quanto a Rabi Yehoshua ben Levi
Bavli · 28a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ: רַבִּי יוֹחָנָן אַמְרַהּ? אֲמַר לֵיהּ: אִין. תְּנָא מִינֵּיהּ אַרְבְּעִין זִמְנִין. אֲמַר לֵיהּ: חֲדָא הִיא לָךְ, אוֹ חֲדַת הִיא לָךְ? אֲמַר לֵיהּ: חֲדַת הִיא לִי, מִשּׁוּם דִּמְסַפְּקָא לִי בְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי.

Disse-lhe Rabi Natan bar Tovi: foi Rabi Yochanan quem a disse (confirmando a fonte)? Disse-lhe Rabi Zeira: sim. E acrescentou: aprendeu-a dele quarenta vezes (repetiu este ensinamento tantas vezes até fixá-lo perfeitamente na memória). Disse-lhe Rabi Natan bar Tovi: é a mesma halachá que já conhecias para ti, ou é nova para ti (por que repeti-la tantas vezes — seria por não teres tido antes esta tradição, ou apenas para memorizá-la bem)? Disse-lhe Rabi Zeira: é nova para mim, pois eu tinha dúvida quanto a Rabi Yehoshua ben Levi (eu pensava que talvez fosse Rabi Yehoshua ben Levi, e não Rabi Yochanan, quem havia dito este ensinamento — e por isso a repeti tantas vezes, para me certificar corretamente da fonte).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
חדא היא לך או חדת היא לך – אחת היא לך שלא למדת דבר משמו של ר' יוחנן אלא זו בלבד לכך חביבה היא לך או חדשה היא לך שהיית סבור שאחד מן האחרים אמרה:

"É a mesma para ti, ou é nova para ti" — isto é: é a única tradição para ti, no sentido de que não aprendeste nenhuma outra coisa em nome de Rabi Yochanan além desta somente — e por isso ela te é tão querida —, ou é nova para ti no sentido de que pensavas que fora um dos outros sábios quem a dissera?

Nota

O diálogo esclarece por que Rabi Zeira repetiu esta tradição especificamente quarenta vezes: não porque fosse a única coisa que aprendera de Rabi Yochanan, mas porque havia uma confusão genuína em sua mente sobre a atribuição correta — ele suspeitava que talvez fosse Rabi Yehoshua ben Levi, e não Rabi Yochanan, o autor desta opinião, e por isso repetiu-a exaustivamente até fixar corretamente sua fonte.

As advertências finais contra atrasar Musaf e Shacharit · נוּגֵי מִמּוֹעֵד

18Disse Rabi Yehoshua ben Levi: todo aquele que reza a oração de Musaf depois de sete horas, segundo Rabi Yehuda, sobre ele o versículo diz: "os afligidos, afastados do prazo, foram de ti". O que indica que este "nugei" tem sentido de quebra? Como traduziu Rav Yossef: a quebra vem sobre os inimigos da casa de Israel, porque atrasaram os horários das festas de Jerusalém
Bavli · 28a — Guemará
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: כׇּל הַמִּתְפַּלֵּל תְּפִלָּה שֶׁל מוּסָפִין לְאַחַר שֶׁבַע שָׁעוֹת לְרַבִּי יְהוּדָה עָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״נוּגֵי מִמּוֹעֵד אָסַפְתִּי מִמֵּךְ הָיוּ״. מַאי מַשְׁמַע דְּהַאי נוּגֵי לִישָּׁנָא דִתְבָרָא הוּא? כְּדִמְתַרְגֵּם רַב יוֹסֵף: תְּבָרָא אָתֵי עַל שָׂנְאֵיהוֹן דְּבֵית יִשְׂרָאֵל עַל דְּאַחַרוּ זִמְנֵי מוֹעֲדַיָּא דְּבִירוּשְׁלֶים.

Disse Rabi Yehoshua ben Levi: todo aquele que reza a oração de Musaf depois de sete horas (ultrapassando o limite estabelecido), segundo Rabi Yehuda (cuja opinião fixa o horário de Musaf até sete horas, como citado anteriormente), sobre ele o versículo diz (em Tzefaniá 3:18): "os afligidos, afastados do prazo (mo'ed), foram de ti" (aplicado homileticamente a quem se afasta do horário devido da oração). Pergunta a Guemará sobre a exegese: o que indica que este termo "nugei" tem sentido de quebra (shever — destruição, e não apenas tristeza, seu sentido mais comum)? Responde a Guemará: como traduziu Rav Yossef (em aramaico, no Targum): a quebra vem sobre os inimigos da casa de Israel (um eufemismo comum no Talmud para evitar dizer diretamente "sobre a casa de Israel" quando se trata de uma calamidade), porque atrasaram os horários das festas e orações de Jerusalém (confirmando que a palavra "nugei" no versículo se refere a uma calamidade — quebra — que sobrevém por causa do atraso nos horários sagrados).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 28a
אמר ריב"ל גרסי' ול"ג דאמר: ממועד – מחמת שהעבירו מועדי התפלות וחגים יהיו נוגים ואסופים וכלים:

"Disse Rabi Yehoshua ben Levi" — é esta a leitura correta do texto, e não se lê com a palavra adicional "que disse". "Do prazo" — isto é: por causa de terem transgredido os horários das orações e das festas, serão tornados aflitos, recolhidos (exilados) e destruídos.

Nota

Rabi Yehoshua ben Levi aplica um versículo de Tzefaniá, originalmente sobre o exílio e a aflição de Israel, como advertência severa contra atrasar a oração de Musaf além de seu horário segundo Rabi Yehuda: a palavra "nugei" ali usada carrega, segundo o Targum de Rav Yossef, o sentido de "quebra" ou destruição, não apenas tristeza — sugerindo que negligenciar os horários sagrados das orações acarreta consequências espirituais graves, na mesma categoria da calamidade nacional descrita no versículo original sobre o atraso das festas de Jerusalém.

19Disse Rabi Elazar: todo aquele que reza a oração de Shacharit depois de quatro horas, segundo Rabi Yehuda, sobre ele o versículo diz: "os afligidos, afastados do prazo, foram de ti". O que indica que este "nugei" tem sentido de aflição? Como está escrito: "definha minha alma de tristeza". Rav Nachman bar Yitzchak disse: daqui: "suas virgens estão aflitas, e ela tem amargura"
Bavli · 28a — Guemará
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: כׇּל הַמִּתְפַּלֵּל תְּפִלָּה שֶׁל שַׁחֲרִית לְאַחַר אַרְבַּע שָׁעוֹת לְרַבִּי יְהוּדָה עָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״נוּגֵי מִמּוֹעֵד אָסַפְתִּי מִמֵּךְ הָיוּ״. מַאי מַשְׁמַע דְּהַאי נוּגֵי לִישָּׁנָא דְצַעֲרָא הוּא? דִּכְתִיב: ״דָּלְפָה נַפְשִׁי מִתּוּגָה״. רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אָמַר: מֵהָכָא: ״בְּתוּלוֹתֶיהָ נוּגוֹת וְהִיא מָר לָהּ״.

Disse Rabi Elazar, trazendo uma advertência paralela: todo aquele que reza a oração de Shacharit depois de quatro horas (ultrapassando o limite estabelecido), segundo Rabi Yehuda (cuja opinião fixa o horário de Shacharit até quatro horas), sobre ele o versículo diz (o mesmo versículo de Tzefaniá citado na unidade anterior): "os afligidos, afastados do prazo, foram de ti". Pergunta a Guemará novamente sobre a exegese, desta vez em sentido diferente: o que indica que este termo "nugei" tem sentido de aflição (tzaará — dor e sofrimento, e não "quebra" como no caso anterior)? Como está escrito (em Tehilim 119:28): "definha minha alma de tristeza (tugá)" (a mesma raiz de "nugei", associada aqui claramente ao sentido de aflição pessoal). Rav Nachman bar Yitzchak disse: a prova vem daqui (de outro versículo, em Eichá 1:4): "suas virgens estão aflitas (nugot), e ela tem amargura" (referindo-se à aflição de Jerusalém destruída — outra atestação da mesma raiz no sentido de sofrimento e tristeza).

Nota

Fechando o daf, Rabi Elazar aplica o mesmo versículo de Tzefaniá a quem atrasa a oração de Shacharit além do limite de quatro horas segundo Rabi Yehuda — mas agora extraindo da mesma palavra "nugei" um sentido diferente, o de aflição e tristeza pessoal, comprovado por dois versículos adicionais (Tehilim e Eichá) que empregam a mesma raiz hebraica. A dupla exegese — "quebra" para o atraso de Musaf, "aflição" para o atraso de Shacharit — sugere uma escala de gravidade decrescente entre as duas transgressões, encerrando esta seção do daf com uma reafirmação da importância de observar rigorosamente os horários das orações diárias.