Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Heh (Ein Omdin)
לֹא אֲדוֹנִי

A réplica de Chaná a Eli, a bênção de Eli e o voto a D'us Tzevaot, a parábola do rei e o pobre, o parto e o nome "semente de homens", e as halachot poderosas extraídas da oração silenciosa de Chaná

Berachot 31b

O daf conclui o longo episódio de Eli e Chaná aberto ao final de 31a: Chaná responde à acusação de embriaguez com uma réplica que Rabi Elazar e Ulá leem como repreensão a Eli por tê-la julgado desfavoravelmente, e a Guemará extrai daí as leis de quem é suspeitado sem culpa e de o bêbado estar proibido de rezar. Segue a bênção de Eli, o voto de Chaná — a primeira pessoa a chamar D'us de "Tzevaot" — e a parábola do rei que fez um banquete e do pobre que pediu apenas uma fatia de pão. Uma sequência de expressões do versículo "se olhares, olharás" gera uma discussão sobre se Chaná era estéril ou apenas sofria partos difíceis, e sobre o sentido de "semente de homens", com opiniões de Rav, Shmuel e Rabi Yochanan. Vem então o episódio de Shmuel menino decidindo uma questão de shechitá diante de Eli, seu mestre — e a lei de que quem ensina halachá diante de seu mestre é passível de morte, temperada pela oração de Eli por Chaná. Fecha-se com a explicação de "Chaná falava sobre seu coração" (o desejo de amamentar), o jejum em Shabat e sua compensação, e as afirmações de Rabi Elazar de que tanto Chaná quanto Eliahu "lançaram palavras duras para cima" perante o Céu — e que D'us, no caso de Eliahu, acabou por lhe dar razão.

A réplica de Chaná a Eli · וַתַּעַן חַנָּה וַתֹּאמֶר לֹא אֲדוֹנִי

1Quem vê em seu amigo algo impróprio deve repreendê-lo. "E respondeu Chaná e disse: não, meu senhor". Disse Ulá, e alguns dizem Rabi Yossei ben Rabi Chanina: disse-lhe: não és senhor nesta matéria, nem repousa sobre ti o espírito sagrado, que me suspeitas nisto
Bavli · 31b — Guemará
דָּבָר שֶׁאֵינוֹ הָגוּן, צָרִיךְ לְהוֹכִיחוֹ. ״וַתַּעַן חַנָּה וַתֹּאמֶר לֹא אֲדוֹנִי״. אָמַר עוּלָּא וְאִיתֵּימָא רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: אֲמַרָה לֵיהּ: לֹא אָדוֹן אַתָּה בְּדָבָר זֶה, וְלֹא רוּחַ הַקּוֹדֶשׁ שׁוֹרָה עָלֶיךָ, שֶׁאַתָּה חוֹשְׁדֵנִי בְּדָבָר זֶה.

Concluindo a derivação iniciada ao final de 31a — quem vê em seu amigo algo impróprio deve repreendê-lo. "E respondeu Chaná e disse: não, meu senhor" (Shmuel I 1:15). Disse Ulá, e alguns dizem Rabi Yossei ben Rabi Chanina: disse-lhe Chaná a Eli: não és senhor nesta matéria, nem repousa sobre ti o espírito sagrado (de profecia), que me suspeitas nisto (de estar embriagada).

Nota

Retomando exatamente onde 31a interrompeu, a Guemará conclui que a repreensão de Eli a Chaná se tornou, ao mesmo tempo, um caso concreto da norma de repreender quem age de modo impróprio, e a ocasião de uma réplica ousada de Chaná, que nega a Eli tanto a autoridade quanto a inspiração profética para julgá-la daquele modo.

2Há quem diga que ela lhe disse assim: não és senhor? Não há Shechiná e espírito sagrado contigo, que me julgaste para o lado da culpa e não me julgaste para o lado do mérito? Não sabias que sou mulher de espírito amargurado?
Bavli · 31b — Guemará
אִיכָּא דְאָמְרִי, הָכִי אֲמַרָה לֵיהּ: לֹא אָדוֹן אַתָּה? לָאו אִיכָּא שְׁכִינָה וְרוּחַ הַקּוֹדֶשׁ גַּבָּךְ, שֶׁדַּנְתַּנִי לְכַף חוֹבָה וְלֹא דַּנְתַּנִי לְכַף זְכוּת? מִי לָא יָדְעַתְּ דְּאִשָּׁה קְשַׁת רוּחַ אָנוֹכִי?!

Há quem diga que ela lhe disse assim: não és senhor? Não há Shechiná e espírito sagrado contigo, que me julgaste para o lado da culpa e não me julgaste para o lado do mérito (pois deverias ter suposto que eu rezava, e não que estava bêbada)? Não sabias que sou mulher de espírito amargurado (e por isso movia os lábios sem emitir som, imersa em minha angústia)?!

Nota

Uma segunda versão da mesma réplica insiste ainda mais na falha de Eli em julgar para o lado do mérito — princípio geral de que se deve julgar o próximo favoravelmente — e na circunstância pessoal de Chaná, cuja angústia explicava seu comportamento incomum na oração.

3"E vinho e bebida forte não bebi". Disse Rabi Elazar: daqui, que o suspeitado de algo que não tem, precisa informar a quem o suspeita
Bavli · 31b — Guemará
״וְיַיִן וְשֵׁכָר לֹא שָׁתִיתִי״. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִכָּאן לַנֶּחְשָׁד בְּדָבָר שֶׁאֵין בּוֹ, שֶׁצָּרִיךְ לְהוֹדִיעוֹ.

"E vinho e bebida forte não bebi" (Shmuel I 1:15, continuação da resposta de Chaná a Eli). Disse Rabi Elazar: daqui se aprende que o suspeitado de algo que não tem em si mesmo, precisa informar a quem o suspeita que aquilo não procede, para se limpar da suspeita.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
שצריך להודיעו – הנחשד צריך לנקות את עצמו ולהודיע את חושדו שאין בו אותו דבר מגונה:

"Precisa informá-lo" — o suspeitado precisa limpar-se a si mesmo e informar a quem o suspeita que não há nele aquela coisa vergonhosa.

Nota

Do fato de Chaná ter explicitamente negado a embriaguez, e não apenas se ofendido, Rabi Elazar deriva uma norma de conduta geral: não basta sentir-se injustiçado por uma suspeita infundada — é preciso esclarecer ativamente ao suspeitador que a acusação não corresponde à realidade.

4"Não dês a tua serva diante de uma filha de Belial". Disse Rabi Elazar: daqui, que o bêbado que reza é como quem serve a ídolos
Bavli · 31b — Guemará
״אַל תִּתֵּן אֶת אֲמָתְךָ לִפְנֵי בַּת בְּלִיָּעַל״. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִכָּאן לְשִׁכּוֹר שֶׁמִּתְפַּלֵּל, כְּאִילּוּ עוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה. כְּתִיב הָכָא: ״לִפְנֵי בַּת בְּלִיַּעַל״, וּכְתִיב הָתָם: ״יָצְאוּ אֲנָשִׁים בְּנֵי בְלִיַּעַל מִקִּרְבֶּךָ״. מַה לְּהַלָּן עֲבוֹדָה זָרָה, אַף כָּאן עֲבוֹדָה זָרָה.

"Não dês a tua serva diante de uma filha de Belial" (Shmuel I 1:16, continuação da réplica de Chaná). Disse Rabi Elazar: daqui se aprende que o bêbado que reza é como quem serve a ídolos (uma comparação por analogia verbal, "guezerá shavá"). Está escrito aqui "diante de uma filha de Belial", e está escrito ali (Devarim 13:14): "saíram homens, filhos de Belial, do teu meio" (referindo-se à idolatria). Assim como ali trata-se de idolatria, também aqui trata-se de idolatria.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
לפני בת בליעל – אל תתנני כבת בליעל לחשדני בשכרות:

"Diante de uma filha de Belial" — não me consideres como uma filha de Belial, para me suspeitares de embriaguez.

Nota

Por meio de uma "guezerá shavá" — a mesma palavra "Belial" aparecendo também na passagem sobre idolatria em Devarim — Rabi Elazar eleva a gravidade de rezar embriagado ao nível da própria idolatria, reforçando de modo severo a proibição já implícita no relato de Chaná.

5"E respondeu Eli e disse: vai em paz". Disse Rabi Elazar: daqui, que quem suspeita de seu amigo algo que não tem, precisa aplacá-lo; e mais, precisa abençoá-lo, como está dito: "e o D'us de Israel te dê o que pediste"
Bavli · 31b — Guemará
״וַיַּעַן עֵלִי וַיֹּאמֶר לְכִי לְשָׁלוֹם״, אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִכָּאן לַחוֹשֵׁד אֶת חֲבֵרוֹ בְּדָבָר שֶׁאֵין בּוֹ, שֶׁצָּרִיךְ לְפַיְּיסוֹ. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁצָּרִיךְ לְבָרְכוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר ״וֵאלֹהֵי יִשְׂרָאֵל יִתֵּן אֶת שֵׁלָתֵךְ״.

"E respondeu Eli e disse: vai em paz" (Shmuel I 1:17). Disse Rabi Elazar: daqui se aprende que quem suspeita de seu amigo algo que não tem, precisa aplacá-lo (pedir-lhe desculpas); e não só isso, mas precisa também abençoá-lo, como está dito: "e o D'us de Israel te dê o que pediste" (Shmuel I 1:17, palavras de Eli logo após pedir-lhe desculpas).

Nota

Assim como Chaná teve de esclarecer sua inocência, Eli, uma vez convencido de seu engano, deve não apenas retirar a suspeita, mas ativamente pedir desculpas e abençoar quem injustamente suspeitou — completando, em espelho, a norma anterior de Rabi Elazar.

6"E fez um voto, e disse: Eterno Tzevaot". Disse Rabi Elazar: desde o dia em que o Santo, bendito seja, criou o Seu mundo, não houve homem que chamasse o Santo, bendito seja, de "Tzevaot", até que veio Chaná e O chamou de "Tzevaot"
Bavli · 31b — Guemará
״וַתִּדֹּר נֶדֶר וַתֹּאמַר ה׳ צְבָאוֹת״, אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִיּוֹם שֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת עוֹלָמוֹ, לֹא הָיָה אָדָם שֶׁקְּרָאוֹ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא ״צְבָאוֹת״, עַד שֶׁבָּאתָה חַנָּה וּקְרָאַתּוּ ״צְבָאוֹת״.

"E fez um voto, e disse: Eterno Tzevaot" (Shmuel I 1:11). Disse Rabi Elazar: desde o dia em que o Santo, bendito seja, criou o Seu mundo, não houve homem algum que chamasse o Santo, bendito seja, de "Tzevaot" (Senhor dos Exércitos), até que veio Chaná e O chamou de "Tzevaot".

Nota

A Guemará volta ao início da narrativa de Chaná para destacar um detalhe notável: ela foi a primeira pessoa na história a se dirigir a D'us por esse nome, abrindo caminho para a longa exposição que segue sobre o sentido de sua súplica.

7Disse Chaná diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, de todas as hostes de hostes que criaste em Teu mundo, é difícil aos Teus olhos me dares um só filho?
Bavli · 31b — Guemará
אָמְרָה חַנָּה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, מִכׇּל צִבְאֵי צְבָאוֹת שֶׁבָּרָאתָ בְּעוֹלָמְךָ קָשֶׁה בְּעֵינֶיךָ שֶׁתִּתֵּן לִי בֵּן אֶחָד?

Disse Chaná diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, de todas as hostes de hostes (tzivê tzevaot) que criaste em Teu mundo, é difícil aos Teus olhos me dares um só filho?

Nota

Chaná explora o próprio nome divino que acabara de cunhar — "Senhor das hostes" — para argumentar que, diante da vastidão de tudo o que D'us criou, um único filho não deveria ser um pedido demasiado grande.

8A que se assemelha isto? A um rei de carne e sangue que fez um banquete para seus servos. Veio um pobre e ficou de pé à porta, disse-lhes: dai-me uma fatia! E não lhe deram atenção. Forçou e entrou diante do rei, disse-lhe: meu senhor, o rei, de todo o banquete que fizeste, é difícil aos teus olhos dar-me uma só fatia?!
Bavli · 31b — Guemará
מָשָׁל לַמָּה הַדָּבָר דּוֹמֶה — לְמֶלֶךְ בָּשָׂר וָדָם שֶׁעָשָׂה סְעוּדָה לַעֲבָדָיו. בָּא עָנִי אֶחָד וְעָמַד עַל הַפֶּתַח, אָמַר לָהֶם: תְּנוּ לִי פְּרוּסָה אַחַת! וְלֹא הִשְׁגִּיחוּ עָלָיו. דָּחַק וְנִכְנַס אֵצֶל הַמֶּלֶךְ. אָמַר לוֹ: אֲדוֹנִי הַמֶּלֶךְ, מִכׇּל סְעוּדָה שֶׁעָשִׂיתָ קָשֶׁה בְּעֵינֶיךָ לִיתֵּן לִי פְּרוּסָה אֶחָת?!

A que se assemelha isto? A um rei de carne e sangue que fez um banquete para seus servos. Veio um pobre e ficou de pé à porta, disse-lhes: dai-me uma fatia de pão! E não lhe deram atenção. Forçou a entrada e entrou diante do rei, disse-lhe: meu senhor, o rei, de todo o banquete que fizeste, é difícil aos teus olhos dar-me uma só fatia?!

Nota

A parábola ilustra vivamente o argumento de Chaná: assim como o pobre, ignorado pelos servos, apela diretamente ao próprio rei com base na fartura visível do banquete, Chaná dirige-se diretamente a D'us, apontando a desproporção entre a imensidão de Sua criação e o pequeno pedido que Lhe faz.

"Se olhares, olharás": esterilidade, parto e "semente de homens" · אִם רָאֹה תִרְאֶה

9"Se olhares, olharás". Disse Rabi Elazar: disse Chaná diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, "se olhares" — está bem; e se não — "olharás", forçando, quer queiras quer não
Bavli · 31b — Guemará
״אִם רָאֹה תִרְאֶה״, אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: אָמְרָה חַנָּה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, ״אִם רָאֹה״ — מוּטָב, וְאִם לָאו — ״תִּרְאֶה״.

"Se olhares, olharás para a aflição de Tua serva" (Shmuel I 1:11, com o verbo repetido no hebraico — "im ra'oh tirê", à letra "se ver, verás"). Disse Rabi Elazar: disse Chaná diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, "se olhares" por Tua própria vontade e me deres um filho — está bem; e se não quiseres — "olharás" de todo modo, ainda que contra Tua vontade, por assim dizer.

Nota

Rabi Elazar lê na duplicação verbal do versículo uma ousadia adicional de Chaná: ela não apenas pede, mas praticamente exige uma resposta divina, jogando com a repetição do verbo "ver" no texto hebraico.

10Irei e me esconderei diante de Elkaná, meu marido; e, uma vez que me escondo, dar-me-ão as águas da sota, e Tu não farás falsa a Tua Torá, como está dito: "e ficará limpa, e será semeada com semente"
Bavli · 31b — Guemará
אֵלֵךְ וְאֶסְתַּתֵּר בִּפְנֵי אֶלְקָנָה בַּעֲלִי, וְכֵיוָן דְּמִסְתַּתַּרְנָא מַשְׁקוּ לִי מֵי סוֹטָה, וְאִי אַתָּה עוֹשֶׂה תּוֹרָתְךָ פְּלַסְתֵּר, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְנִקְּתָה וְנִזְרְעָה זָרַע״.

E disse ainda Chaná: irei e me esconderei com outro homem diante de Elkaná, meu marido (fingindo um comportamento que desperte ciúme); e, uma vez que me escondo assim, e ele me levar ao sacerdote, dar-me-ão as águas amargas da sota (a mulher suspeita de adultério), e Tu não farás falsa a Tua Torá (pois prometeste que a mulher inocente que bebe essas águas sai fecundada), como está dito: "e ficará limpa, e será semeada com semente" (Bamidbar 5:28).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
ואסתתר – אתייחד עם אחרים ויחשדני בעלי: פלסתר – שקר:

"E me esconderei" — me isolarei com outros, e meu marido me suspeitará. "Plaster" — falsidade.

Nota

Chaná chega a considerar um plano extremo — provocar deliberadamente a suspeita de adultério de seu marido — de modo a forçar, por meio da promessa da Torá à sota inocente, que D'us lhe concedesse um filho, ainda que por essa via indireta e drástica.

11Isso está bem segundo quem diz que, se era estéril, é lembrada; mas segundo quem diz que, se dava à luz com dor, dá à luz com alívio; fêmeas, dá à luz varões; negros, dá à luz brancos; baixos, dá à luz altos — o que há para dizer?
Bavli · 31b — Guemará
הָנִיחָא לְמַאן דְּאָמַר: אִם הָיְתָה עֲקָרָה — נִפְקֶדֶת, שַׁפִּיר, אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר, אִם הָיְתָה יוֹלֶדֶת בְּצַעַר יוֹלֶדֶת בְּרֶיוַח, נְקֵבוֹת יוֹלֶדֶת זְכָרִים שְׁחוֹרִים יוֹלֶדֶת לְבָנִים קְצָרִים יוֹלֶדֶת אֲרוּכִּים, מַאי אִיכָּא לְמֵימַר?

Isso (a explicação de que "e será semeada com semente" prova que a promessa da sota inclui até a estéril) está bem segundo quem diz que, se a mulher que bebe as águas da sota era estéril, é lembrada (passa a poder engravidar) — está bem, fazendo sentido a argumentação de Chaná; mas segundo quem diz que a promessa vale apenas para quem já era fértil, isto é, se dava à luz com dor, dá à luz com alívio; se dava à luz fêmeas, dá à luz varões; se dava à luz negros, dá à luz brancos; se dava à luz baixos, dá à luz altos (mas não concede filhos a quem não os tinha de modo algum) — o que há para dizer sobre o argumento de Chaná, que era estéril?

Nota

A Guemará identifica uma dificuldade: o plano de Chaná de recorrer às águas da sota só faz sentido pleno segundo a opinião de que essas águas podem tornar fértil quem nunca teve filhos; segundo a opinião alternativa, elas apenas melhoram partos já existentes, e o argumento de Chaná, que não tinha filho algum, precisaria de outra explicação.

12Pois foi ensinado: "e ficará limpa, e será semeada com semente" — ensina que, se era estéril, é lembrada, palavras de Rabi Yishmael. Disse-lhe Rabi Akiva: se assim, que vão todas as estéreis e se escondam, e esta, que não pecou, é lembrada? Antes, ensina que quem dava à luz com dor dá à luz com alívio...
Bavli · 31b — Guemará (baraita)
דְּתַנְיָא: ״וְנִקְּתָה וְנִזְרְעָה זָרַע״ — מְלַמֵּד שֶׁאִם הָיְתָה עֲקָרָה — נִפְקֶדֶת, דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל. אָמַר לֵיהּ רַבִּי עֲקִיבָא: אִם כֵּן, יֵלְכוּ כׇּל הָעֲקָרוֹת כּוּלָּן וְיִסְתַּתְּרוּ, וְזוֹ שֶׁלֹּא קִלְקְלָה — נִפְקֶדֶת. אֶלָּא מְלַמֵּד שֶׁאִם הָיְתָה יוֹלֶדֶת בְּצַעַר — יוֹלֶדֶת בְּרֶיוַח, קְצָרִים — יוֹלֶדֶת אֲרוּכִּים, שְׁחוֹרִים — יוֹלֶדֶת לְבָנִים, אֶחָד — יוֹלֶדֶת שְׁנַיִם.

Pois foi ensinado (numa baraita): "e ficará limpa, e será semeada com semente" — ensina que, se era estéril, é lembrada (passa a ter filhos), palavras de Rabi Yishmael. Disse-lhe Rabi Akiva: se assim, que vão todas as estéreis e se escondam (provoquem deliberadamente a suspeita do marido, para beberem as águas da sota), e esta, que não pecou de modo algum, nem sequer se escondeu, é lembrada com um filho por essa via? Antes, ensina que a mulher inocente, se dava à luz com dor, passa a dar à luz com alívio; se dava à luz filhos baixos, dá à luz altos; se dava à luz negros, dá à luz brancos; se dava à luz um de cada vez, dá à luz dois de uma vez.

Nota

Rabi Akiva rejeita a leitura de Rabi Yishmael por sua consequência absurda — incentivar estéreis a fingir adultério — e propõe que a bênção da sota inocente se aplica apenas a melhorias no processo de parto de quem já engravidava, deixando em aberto a questão sobre o caso específico de Chaná, que era estéril.

13O que significa "se olhares, olharás"? A Torá falou segundo a linguagem dos homens
Bavli · 31b — Guemará
מַאי ״אִם רָאֹה תִרְאֶה״ — דִּבְּרָה תּוֹרָה כִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם.

O que significa, então, a duplicação verbal do versículo "se olhares, olharás" segundo Rabi Akiva, já que não se pode derivar dela a lembrança da estéril? A Torá falou segundo a linguagem dos homens (é apenas um modo comum de expressão, sem intenção de ensinar uma lei adicional).

Nota

Segundo a posição de Rabi Akiva, a repetição verbal do versículo bíblico sobre a sota não carrega significado halachico adicional, sendo apenas uma figura de linguagem comum — resolvendo, assim, a base textual sobre a qual Rabi Elazar havia construído sua leitura da súplica de Chaná.

14"Na aflição de tua serva". "Não te esqueças de tua serva". "E darás à tua serva"
Bavli · 31b — Guemará
״בָּעֳנִי אֲמָתֶךָ״. ״אַל תִשְׁכַּח אֶת אֲמָתֶךָ״. ״וְנָתַתָּה לַאֲמָתְךָ״.

"Na aflição de tua serva". "Não te esqueças de tua serva". "E darás à tua serva" (três expressões da mesma súplica de Chaná em Shmuel I 1:11, cada uma repetindo a palavra "amá", "serva").

Nota

A Guemará isola a repetição tripla da palavra "amá" (serva) no mesmo versículo da súplica de Chaná, preparando o terreno para a pergunta explícita que segue sobre o motivo dessa insistência.

15Disse Rabi Yossei ben Rabi Chanina: por que estas três "servas"? Disse Chaná diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, três sinais de morte criaste na mulher, e alguns dizem: três apegos à morte — e são eles: nidá, chalá e o acender da vela. Acaso transgredi algum deles?
Bavli · 31b — Guemará
אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: שָׁלֹשׁ אֲמָתוֹת הַלָּלוּ לָמָּה? — אָמְרָה חַנָּה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, שְׁלֹשָׁה בִּדְקֵי מִיתָה בָּרָאתָ בָּאִשָּׁה, וְאָמְרִי לַהּ: שְׁלֹשָׁה דִּבְקֵי מִיתָה. וְאֵלּוּ הֵן: נִדָּה, וְחַלָּה וְהַדְלָקַת הַנֵּר. כְּלוּם עָבַרְתִּי עַל אַחַת מֵהֶן?!

Disse Rabi Yossei ben Rabi Chanina: por que foram repetidas estas três "servas"? Disse Chaná diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, três sinais de possível morte criaste na mulher, e alguns dizem: três apegos à morte — e são eles: nidá (pureza menstrual), chalá (separação da porção da massa) e o acender da vela de Shabat. Acaso transgredi algum deles?!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
שלש אמתות – דריש להו לשון מיתה: בדקי מיתה – שהאשה נבדקת בהן בשעת הסכנה שאם ימצא בה אחד מהם תמות: נדה וחלה והדלקת נר – של שבת על ג' עברות הללו נשים מתות וטעמא יליף במסכת שבת (ד' לא:):

"Três servas" — Rabi Yossei ben Rabi Chanina as interpreta com sentido de morte. "Sinais de morte" — que a mulher é examinada por eles na hora do perigo, pois, se algum deles for encontrado nela, ela morre. "Nidá, chalá e o acender da vela" de Shabat — por estas três transgressões as mulheres morrem, e a razão se aprende em Massechet Shabat (31b).

Nota

Interpretando a tríplice repetição da palavra "serva" como alusão às três mitzvot específicas das mulheres cuja negligência acarreta risco de morte no parto, Chaná afirma diante de D'us não ter transgredido nenhuma delas — reforçando, assim, seu mérito e a legitimidade de seu pedido.

16"E darás à tua serva semente de homens"
Bavli · 31b — Guemará
״וְנָתַתָּ לַאֲמָתְךָ זֶרַע אֲנָשִׁים״.

"E darás à tua serva semente de homens" (Shmuel I 1:11, a formulação final do pedido de Chaná).

Nota

A Guemará isola a expressão final do pedido de Chaná — "semente de homens", no plural, embora ela pedisse aparentemente um único filho — para, a seguir, discutir seu sentido exato.

17O que significa "semente de homens"? Disse Rav: um homem entre homens. E Shmuel disse: semente que ungirá dois homens, e quem são eles — Shaul e David. E Rabi Yochanan disse: semente que pesa como dois homens, e quem são eles — Moshé e Aharon... E os sábios dizem: "semente de homens" — semente que se mistura entre os homens
Bavli · 31b — Guemará
מַאי ״זֶרַע אֲנָשִׁים״? אָמַר רַב: גַּבְרָא בְּגוּבְרִין. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: זֶרַע שֶׁמּוֹשֵׁחַ שְׁנֵי אֲנָשִׁים, וּמַאן אִינּוּן — שָׁאוּל וְדָוִד. וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: זֶרַע שֶׁשָּׁקוּל כִּשְׁנֵי אֲנָשִׁים, וּמַאן אִינּוּן — מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן. שֶׁנֶּאֱמַר: ״מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן בְּכֹהֲנָיו וּשְׁמוּאֵל בְּקוֹרְאֵי שְׁמוֹ״. וְרַבָּנַן אָמְרִי: ״זֶרַע אֲנָשִׁים״ — זֶרַע שֶׁמּוּבְלָע בֵּין אֲנָשִׁים.

O que significa "semente de homens"? Disse Rav: um homem entre homens (um filho equivalente, em si mesmo, a um homem comum, sem distinção especial). E Shmuel disse: semente que ungirá dois homens, e quem são eles — Shaul e David (que Shmuel viria a ungir como reis). E Rabi Yochanan disse: semente que pesa em mérito como dois homens, e quem são eles — Moshé e Aharon, como está dito: "Moshé e Aharon entre Seus sacerdotes, e Shmuel entre os que invocam Seu nome" (Tehilim 99:6, equiparando Shmuel sozinho à dupla Moshé e Aharon). E os sábios dizem: "semente de homens" — semente que se mistura entre os homens (nem excepcionalmente alto nem baixo, nem sábio demais nem tolo, uma pessoa comum entre as demais).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
שמובלע בין אנשים – רב דימי מפרש לה לא ארוך ולא גוץ וכו':

"Que se mistura entre os homens" — Rav Dimi a explica: nem alto nem baixo etc.

Nota

Quatro sábios amoraítas propõem quatro leituras distintas da expressão "semente de homens", cada uma vendo nela uma alusão diferente: à grandeza equilibrada do próprio Shmuel, aos dois reis que ele viria a ungir, à sua equivalência espiritual a Moshé e Aharon juntos, ou à sua aparência física comum e discreta, sem traços extraordinários.

18Quando veio Rav Dimi, disse: nem alto nem baixo, nem pequeno nem robusto demais, nem muito claro nem muito ruivo, nem sábio nem tolo
Bavli · 31b — Guemará
כִּי אֲתָא רַב דִּימִי, אֲמַר לֹא אָרוֹךְ וְלֹא גּוּץ, וְלֹא קָטָן וְלֹא אַלָּם, וְלֹא צָחוֹר וְלֹא גִּיחוֹר, וְלֹא חָכָם וְלֹא טִפֵּשׁ.

Quando veio Rav Dimi (da Terra de Israel para a Babilônia, trazendo essa tradição), disse: Shmuel não era nem alto nem baixo, nem pequeno nem robusto demais, nem muito claro de pele nem muito ruivo, nem excessivamente sábio nem tolo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
אלם – פי' עב: צחור – רו"ש בלע"ז: גיחור – שהוא לבן יותר מדאי: ולא חכם – יותר מדאי שלא יהיה תימה בעיני הבריות ומתוך שנדברין בו שולטת בו עין הרע:

"Alam" — significa robusto. "Tzachor" — vermelho, como se diz "rous" em francês antigo. "Guichor" — que é demasiadamente branco. "Nem sábio" — demais, para que não seja motivo de espanto aos olhos das pessoas, pois, por comentarem a seu respeito, o mau-olhado domina sobre ele.

Nota

Rav Dimi detalha a leitura dos sábios sobre "semente de homens" como um retrato físico e mental de perfeito equilíbrio, sem extremos em nenhuma característica; Rashi explica que o próprio excesso de sabedoria era evitado por atrair sobre a pessoa o mau-olhado.

Shmuel decide halachá diante de seu mestre · מוֹרֶה הֲלָכָה בִּפְנֵי רַבּוֹ

19"Eu sou a mulher que estava de pé contigo aqui". Disse Rabi Yehoshua ben Levi: daqui, que é proibido sentar-se dentro dos quatro cotovelos de alguém em oração
Bavli · 31b — Guemará
״אֲנִי הָאִשָּׁה הַנִּצֶּבֶת עִמְּכָה בָּזֶה״, אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: מִכָּאן שֶׁאָסוּר לֵישֵׁב בְּתוֹךְ אַרְבַּע אַמּוֹת שֶׁל תְּפִלָּה.

"Eu sou a mulher que estava de pé contigo aqui" (Shmuel I 1:26, palavras de Chaná a Eli anos depois, apresentando-lhe o já crescido Shmuel). Disse Rabi Yehoshua ben Levi: daqui se aprende que é proibido sentar-se dentro dos quatro cotovelos de alguém que está em oração (pois o versículo indica que Eli também permaneceu de pé, junto de Chaná, enquanto ela orava).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
הנצבת עמכה – משמע אף הוא עמה בעמידה:

"Que estava de pé contigo" — implica que também ele estava com ela de pé.

Nota

Um pequeno detalhe verbal no relato do reencontro de Chaná com Eli — "estava de pé contigo" — gera uma norma prática de respeito ao espaço de quem reza: não se deve sentar-se dentro de quatro cotovelos de distância de alguém em pé rezando.

20"Por este menino orei". Disse Rabi Elazar: Shmuel ensinava halachá diante de seu mestre, como está dito: "e degolaram o touro, e trouxeram o menino a Eli". Por que, por terem degolado o touro, trouxeram o menino a Eli?
Bavli · 31b — Guemará
״אֶל הַנַּעַר הַזֶּה הִתְפַּלָּלְתִּי״. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: שְׁמוּאֵל מוֹרֵה הֲלָכָה לִפְנֵי רַבּוֹ הָיָה. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁחֲטוּ אֶת הַפָּר וַיָּבִיאוּ אֶת הַנַּעַר אֶל עֵלִי״. מִשּׁוּם דְּ״וַיִּשְׁחֲטוּ אֶת הַפָּר״ הֵבִיאוּ הַנַּעַר אֶל עֵלִי?

"Por este menino orei" (Shmuel I 1:27). Disse Rabi Elazar: Shmuel ensinava halachá diante de seu mestre Eli, algo em princípio proibido, como está dito: "e degolaram o touro, e trouxeram o menino Shmuel a Eli" (Shmuel I 1:25). Por que, por terem degolado o touro, trouxeram o menino a Eli (qual a conexão entre um fato e o outro, que o versículo os une)?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
אל הנער הזה – על זה ולא לאחר מכאן שחטא לעלי ורצה לענשו ולהתפלל שינתן לה בן אחר:

"Por este menino" — por este, e não por outro; daqui se aprende que Shmuel pecara contra Eli, e Eli quis puni-lo, e Chaná temia que Eli rezasse para que lhe fosse dado outro filho em vez de Shmuel.

Nota

Inicia-se aqui um novo episódio, extraído de uma leitura atenta da estranha justaposição entre a menção ao abate do touro para sacrifício e a apresentação do menino Shmuel a Eli — indicando, segundo Rabi Elazar, que algo mais ocorreu entre esses dois momentos.

21Antes, disse-lhes Eli: chamem um sacerdote, que venha e degole. Viu Shmuel que estavam procurando um sacerdote para degolar, disse-lhes: por que procuram um sacerdote para degolar? A shechitá por um leigo é válida! Trouxeram-no diante de Eli. Disse-lhe: de onde tens isso? Disse-lhe: acaso está escrito "e degolará o sacerdote"?...
Bavli · 31b — Guemará
אֶלָּא, אָמַר לָהֶן עֵלִי: קִרְאוּ כֹּהֵן, לֵיתֵי וְלִשְׁחוֹט. חֲזַנְהוּ שְׁמוּאֵל דַּהֲווֹ מְהַדְּרִי בָּתַר כֹּהֵן לְמִישְׁחַט, אֲמַר לְהוּ: לְמָה לְכוּ לְאַהְדּוֹרֵי בָּתַר כֹּהֵן לְמִישְׁחַט? שְׁחִיטָה בְּזָר כְּשֵׁרָה! אַיְיתוּהוּ לְקַמֵּיהּ דְּעֵלִי. אֲמַר לֵיהּ: מְנָא לָךְ הָא? אֲמַר לֵיהּ: מִי כְּתִיב ״וְשָׁחַט הַכֹּהֵן״?! ״וְהִקְרִיבוּ הַכֹּהֲנִים״ כְּתִיב, מִקַּבָּלָה וְאֵילָךְ מִצְוַת כְּהוּנָּה, מִכָּאן לַשְּׁחִיטָה שֶׁכְּשֵׁרָה בְּזָר.

Antes, eis o que houve: disse-lhes Eli: chamem um sacerdote, que venha e degole o touro trazido para o sacrifício. Viu Shmuel que estavam procurando um sacerdote para degolar, disse-lhes: por que procuram um sacerdote para degolar? A shechitá feita por um leigo é válida! Trouxeram-no diante de Eli. Disse-lhe Eli: de onde tens isso (essa halachá)? Disse-lhe Shmuel: acaso está escrito "e degolará o sacerdote"?! "E os sacerdotes oferecerão" está escrito (Vayikrá 1:5) — a partir do recebimento do sangue em diante é que há mitzvá própria de sacerdócio; daqui se aprende que a shechitá é válida quando feita por um leigo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
והקריבו הכהנים – אמרו בפרק קמא דחגיגה (ד' יא.) והקריבו זה קבלת הדם:

"E os sacerdotes oferecerão" — disseram no primeiro capítulo de Chaguigá (11a) que "oferecerão" refere-se ao recebimento do sangue.

Nota

O jovem Shmuel, vendo os presentes perderem tempo à procura de um sacerdote para uma tarefa que, halachicamente, qualquer leigo poderia realizar, interveio com uma correta e fundamentada análise dos versículos de Vayikrá — mas fê-lo, como se verá, sem consultar antes seu mestre Eli.

22Disse-lhe: bem falaste; porém, ensinas halachá diante de teu mestre, e todo aquele que ensina halachá diante de seu mestre é passível de morte. Veio Chaná e clamou diante dele: "eu sou a mulher que estava de pé contigo aqui etc." Disse-lhe: deixa-me puni-lo, e pedirei misericórdia, e o Grande te dará em seu lugar. Disse-lhe: "por este menino orei"
Bavli · 31b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ: מֵימָר שַׁפִּיר קָא אָמְרַתְּ, מִיהוּ מוֹרֶה הֲלָכָה בִּפְנֵי רַבָּךְ אַתְּ, וְכׇל הַמּוֹרֶה הֲלָכָה בִּפְנֵי רַבּוֹ חַיָּיב מִיתָה. אָתְיָא חַנָּה וְקָא צָוְוחָה קַמֵּיהּ: ״אֲנִי הָאִשָּׁה הַנִּצֶּבֶת עִמְּכָה בָּזֶה וְגוֹ׳״. אֲמַר לַהּ: שִׁבְקִי לִי דְּאֶעֶנְשֵׁיהּ, וּבְעֵינָא רַחֲמֵי, וְיָהֵיב לָךְ רַבָּא מִינֵּיהּ. אֲמַרָה לֵיהּ: ״אֶל הַנַּעַר הַזֶּה הִתְפַּלָּלְתִּי״.

Disse-lhe Eli a Shmuel: dizer, disseste bem; porém, ensinas halachá diante de teu mestre sem lhe perguntar primeiro, e todo aquele que ensina halachá diante de seu mestre é passível de morte (pelas mãos do Céu). Veio Chaná e clamou diante dele: "eu sou a mulher que estava de pé contigo aqui etc." (alegando o mérito de sua longa oração por aquele filho). Disse-lhe Eli: deixa-me puni-lo (perdoando-o, mas com a intenção de que ele seja substituído), e pedirei misericórdia, e o Grande (D'us) te dará outro filho maior do que ele em seu lugar. Disse-lhe Chaná: "por este menino orei" (não desejo troca alguma; foi por este, especificamente, que orei).

Nota

O episódio se resolve com Eli reconhecendo a correção halachica de Shmuel, mas advertindo sobre a gravidade de ensinar diante do próprio mestre sem consulta prévia; a intervenção de Chaná, relembrando seu próprio mérito e recusando qualquer substituição do filho pelo qual tanto orara, encerra a disputa.

"Chaná falava sobre seu coração", o jejum em Shabat, e as palavras duras perante o Céu · חַנָּה הֵטִיחָה דְּבָרִים כְּלַפֵּי מַעְלָה

23"E Chaná, ela falava sobre seu coração". Disse Rabi Elazar em nome de Rabi Yossei ben Zimra: sobre os assuntos de seu coração. Disse diante Dele: Senhor do universo, tudo o que criaste na mulher não criaste em vão... estes seios que puseste sobre meu coração, para quê? Não é para amamentar com eles? Dá-me um filho, e amamentarei com eles
Bavli · 31b — Guemará
״וְחַנָּה הִיא מְדַבֶּרֶת עַל לִבָּהּ״. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר מִשּׁוּם רַבִּי יוֹסֵי בֶּן זִמְרָא: עַל עִסְקֵי לִבָּהּ. אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, כׇּל מַה שֶּׁבָּרָאתָ בָּאִשָּׁה, לֹא בָּרָאתָ דָּבָר אֶחָד לְבַטָּלָה: עֵינַיִם לִרְאוֹת, וְאׇזְנַיִם לִשְׁמוֹעַ, חוֹטֶם לְהָרִיחַ, פֶּה לְדַבֵּר, יָדַיִם לַעֲשׂוֹת בָּהֶם מְלָאכָה, רַגְלַיִם לְהַלֵּךְ בָּהֶן, דַּדִּים לְהָנִיק בָּהֶן. דַּדִּים הַלָּלוּ שֶׁנָּתַתָּ עַל לִבִּי לָמָּה? לֹא לְהָנִיק בָּהֶן?! תֵּן לִי בֵּן, וְאָנִיק בָּהֶן.

"E Chaná, ela falava sobre seu coração" (Shmuel I 1:13, retomando o versículo já usado em 31a). Disse Rabi Elazar em nome de Rabi Yossei ben Zimra: isto é, sobre os assuntos de seu coração. Disse diante Dele: Senhor do universo, tudo o que criaste na mulher não criaste um só elemento em vão: olhos para ver, e ouvidos para ouvir, nariz para cheirar, boca para falar, mãos para com elas fazer trabalho, pernas para com elas andar, seios para com eles amamentar. Estes seios que puseste sobre meu coração, para quê são? Não é para amamentar com eles?! Dá-me um filho, e amamentarei com eles.

Nota

Uma nova exposição de Rabi Elazar sobre o mesmo versículo já citado em 31a explica que os "assuntos do coração" de Chaná eram, especificamente, um argumento sobre o propósito funcional de cada parte do corpo feminino, culminando na súplica de que os seios, criados para amamentar, permanecerão inúteis sem um filho.

24E disse Rabi Elazar em nome de Rabi Yossei ben Zimra: todo aquele que se senta em jejum em Shabat, rasgam para ele a sentença de setenta anos; e, apesar disso, voltam e cobram dele o dever do prazer de Shabat
Bavli · 31b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר מִשּׁוּם רַבִּי יוֹסֵי בֶּן זִמְרָא: כׇּל הַיּוֹשֵׁב בְּתַעֲנִית בְּשַׁבָּת קוֹרְעִים לוֹ גְּזַר דִּינוֹ שֶׁל שִׁבְעִים שָׁנָה. וְאַף עַל פִּי כֵן חוֹזְרִין וְנִפְרָעִין מִמֶּנּוּ דִּין עוֹנֶג שַׁבָּת.

E disse Rabi Elazar em nome de Rabi Yossei ben Zimra: todo aquele que se senta em jejum em Shabat, rasgam para ele a sentença de setenta anos (um decreto severo já emitido contra ele é anulado, em mérito desse jejum); e, apesar disso, voltam e cobram dele o dever do prazer de Shabat (que ele deixou de cumprir ao jejuar nesse dia).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
של שבעים שנה – כלומר אפילו נגזר עליו מנעוריו לפי שתענית קשה בשבת לפי שהכל מתענגים בו והוא מתענה:

"De setenta anos" — isto é, ainda que o decreto tivesse sido feito contra ele desde a juventude, é anulado, pois o jejum em Shabat é especialmente difícil, já que todos se deleitam nesse dia e ele jejua.

Nota

Encerrado o tema de Chaná, a Guemará traz, na mesma cadeia de tradições de Rabi Elazar em nome de Rabi Yossei ben Zimra, um ensinamento sobre o poder excepcional do jejum voluntário em Shabat, capaz de anular um decreto severo, ainda que a pessoa continue devendo, por outro lado, o próprio dever de desfrutar do dia.

25Qual é o seu reparo? Disse Rav Nachman bar Yitzchak: que se sente em jejum por causa desse jejum
Bavli · 31b — Guemará
מַאי תַּקַּנְתֵּיהּ? אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: לִיתֵּיב תַּעֲנִיתָא לְתַעֲנִיתָא.

Qual é o seu reparo (para compensar o prazer de Shabat que perdeu)? Disse Rav Nachman bar Yitzchak: que se sente em jejum outra vez, em outro dia, por causa desse jejum (feito em Shabat, jejuando também para expiar o próprio jejum indevido naquele dia).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
תעניתא לתעניתא – יתענה למחר:

"Jejum por jejum" — que jejue no dia seguinte.

Nota

A solução prática proposta é paradoxal e didática: quem jejuou indevidamente em Shabat deve jejuar de novo, num dia comum, como reparo — um segundo jejum expiando o primeiro.

26E disse Rabi Elazar: Chaná lançou palavras para cima, como está dito: "e orou sobre o Eterno" — ensina que lançou palavras para cima
Bavli · 31b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: חַנָּה הֵטִיחָה דְּבָרִים כְּלַפֵּי מַעְלָה. שֶׁנֶּאֱמַר ״וְתִתְפַּלֵּל עַל ה׳״, מְלַמֵּד שֶׁהֵטִיחָה דְּבָרִים כְּלַפֵּי מַעְלָה.

E disse Rabi Elazar: Chaná lançou palavras duras para cima (dirigidas ao Céu, num tom de ousadia incomum), como está dito: "e orou sobre o Eterno" (Shmuel I 1:10 — usando a preposição "al", "sobre", em vez de "el", "a"), ensina que lançou palavras para cima.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 31b
ותתפלל על ה' – כך כתוב הוא במקרא ולא גרסינן הכא אל תקרי:

"E orou sobre o Eterno" — assim está escrito no próprio texto bíblico, e não lemos aqui a fórmula usual de reinterpretação "não leias assim, mas...".

Nota

A partir da preposição incomum "sobre" (em vez de "a") usada para descrever a oração de Chaná, Rabi Elazar extrai que ela se permitiu palavras duras e ousadas diante de D'us — introduzindo, por analogia, o exemplo semelhante de Eliahu no ensinamento seguinte, que fecha o daf.

27E disse Rabi Elazar: Eliahu lançou palavras para cima, como está dito: "e Tu voltaste o coração deles para trás". Disse Rabi Shmuel bar Rabi Yitzchak: de onde que o Santo, bendito seja, voltou e reconheceu a Eliahu...
Bavli · 31b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: אֵלִיָּהוּ הֵטִיחַ דְּבָרִים כְּלַפֵּי מַעְלָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַתָּה הֲסִבֹּתָ אֶת לִבָּם אֲחֹרַנִּית״. אָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַבִּי יִצְחָק: מִנַּיִן שֶׁחָזַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהוֹדָה לוֹ לְאֵלִיָּהוּ,

E disse Rabi Elazar: Eliahu, também ele, lançou palavras duras para cima, como está dito: "e Tu voltaste o coração deles para trás" (Melachim I 18:37 — Eliahu, no Monte Carmelo, atribui a D'us a responsabilidade pela idolatria do povo, por lhes ter permitido tal liberdade). Disse Rabi Shmuel bar Rabi Yitzchak: de onde se aprende que o Santo, bendito seja, voltou e reconheceu a razão a Eliahu (a Guemará prossegue essa demonstração já no início do daf seguinte, 32a).

Nota

O daf termina em pleno desenvolvimento do paralelo entre Chaná e Eliahu, ambos descritos como tendo se dirigido a D'us com uma ousadia extrema; a pergunta de Rabi Shmuel bar Rabi Yitzchak sobre onde se encontra a prova de que D'us reconheceu a razão de Eliahu — e a resposta a essa pergunta — são tratadas já no início de 32a.