Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Heh (Ein Omdin)
גְּדוֹלָה תְּפִלָּה

Os sete ensinamentos de Rabi Elazar do simán — oração maior que boas ações e que sacrifícios, o sacerdote homicida, os portões fechados de oração, a muralha de ferro —, D'us consolando Tzion como esposa nunca esquecida, os chassidim antigos e a hora de espera antes e depois da oração, e o início da história do chassid que não retribuiu a saudação de um oficial romano

Berachot 32b

Seguindo o sinal mnemônico que fechou 32a, o daf desenrola uma série de sete ensinamentos de Rabi Elazar e outros amoraítas: a oração é maior que as boas ações — pois nem Moshé foi atendido senão por ela —, o jejum é maior que a caridade, a oração é maior que os sacrifícios, o sacerdote que matou não pode erguer as mãos no Birkat Kohanim, e desde a destruição do Templo os portões da oração se fecharam, mas não os das lágrimas — encerrando com a muralha de ferro que separa Israel de seu Pai celeste. Segue-se uma reflexão sobre alongar a oração (bendito quando acompanhado de esperança confiante, prejudicial quando de ansiedade decepcionada), a bela alegoria de Reish Lakish sobre Tzion que se queixa de abandono e esquecimento, e a resposta de D'us — as doze constelações e a miríade de estrelas criadas só por causa dela, e a promessa "não te esquecerei" ligada ao dom da Torá no Sinai. O daf fecha com os costumes dos chassidim antigos, que aguardavam uma hora antes e depois de orar, a lei de nunca interromper a oração — nem diante do rei —, exceto por perigo real, e o início da narrativa do chassid piedoso que, em plena oração no caminho, não retribuiu a saudação de um oficial (hegmon) romano — história que se completa em 33a.

Os sete ensinamentos do simán: feitos, caridade, oferenda, sacerdote, jejum, sandália, ferro · גְּדוֹלָה תְּפִלָּה יוֹתֵר מִמַּעֲשִׂים טוֹבִים

1Disse Rabi Elazar: maior é a oração que as boas ações, pois não há ninguém maior em boas ações que Moshé Rabeinu, e ainda assim não foi atendido senão pela oração
Bavli · 32b — Guemará
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: גְּדוֹלָה תְּפִלָּה יוֹתֵר מִמַּעֲשִׂים טוֹבִים, שֶׁאֵין לְךָ גָּדוֹל בְּמַעֲשִׂים טוֹבִים יוֹתֵר מִמֹּשֶׁה רַבֵּינוּ, אַף עַל פִּי כֵן לֹא נַעֲנָה אֶלָּא בִּתְפִלָּה. שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַל תּוֹסֶף דַּבֵּר אֵלַי״ וּסְמִיךְ לֵיהּ: ״עֲלֵה רֹאשׁ הַפִּסְגָּה״.

Disse Rabi Elazar: maior é a oração que as boas ações (primeiro item do sinal mnemônico: "feitos"), pois não há ninguém maior em boas ações que Moshé Rabeinu, e ainda assim ele não foi atendido em seu pedido de entrar na Terra senão pela oração. Como está dito: "não continues a falar-Me mais sobre este assunto" (Devarim 3:26), e logo em seguida está escrito: "sobe ao cume do Pisga" (Devarim 3:27, permitindo-lhe ao menos contemplar a Terra de longe).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
עלה ראש הפסגה – בדבר תפלה זו נתרציתי להראותך אותה:

"Sobe ao cume do Pisga" — D'us disse a Moshé: por causa desta oração fui apaziguado a mostrar-te a Terra, ainda que de longe.

Nota

O primeiro dos sete ensinamentos de Rabi Elazar retoma diretamente o encerramento de 32a: mesmo Moshé, o maior em boas ações entre todos os homens, só obteve resposta divina — ainda que parcial, a visão da Terra e não a entrada nela — por meio de sua oração insistente, prova de que a oração tem poder próprio, distinto do mérito das ações.

2E disse Rabi Elazar: maior é o jejum que a caridade. Qual a razão? — um com seu corpo, e o outro com seu dinheiro
Bavli · 32b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: גְּדוֹלָה תַּעֲנִית יוֹתֵר מִן הַצְּדָקָה. מַאי טַעְמָא — זֶה בְּגוּפוֹ, וְזֶה בְּמָמוֹנוֹ.

E disse Rabi Elazar: maior é o jejum que a caridade (segundo item do simán: "jejum" e "caridade", embora citados no simán em ordem inversa). Qual a razão? Este (o jejum), com seu corpo; e aquela (a caridade), com seu dinheiro (sacrificar o próprio corpo é mais custoso, e por isso mais meritório, que sacrificar apenas os bens).

Nota

O segundo ensinamento compara duas formas de sacrifício pessoal — o jejum, que envolve o próprio corpo, e a caridade, que envolve apenas os bens — concluindo que o esforço corporal é hierarquicamente superior.

3E disse Rabi Elazar: maior é a oração que os sacrifícios, como está dito: "para que Me serve a multidão de vossos sacrifícios", e está escrito: "e quando estenderdes vossas palmas"
Bavli · 32b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: גְּדוֹלָה תְּפִלָּה יוֹתֵר מִן הַקָּרְבָּנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״לָמָּה לִּי רֹב זִבְחֵיכֶם״, וּכְתִיב: ״וּבְפָרִשְׂכֶם כַּפֵּיכֶם״.

E disse Rabi Elazar: maior é a oração que os sacrifícios (terceiro item do simán: "oferenda"), como está dito: "para que Me serve a multidão de vossos sacrifícios?" (Yeshaiáhu 1:11, D'us rejeitando os sacrifícios de um povo pecador), e está escrito logo a seguir, no mesmo capítulo, sobre a oração: "e quando estenderdes vossas palmas em oração, esconderei Meus olhos de vós" (Yeshaiáhu 1:15).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
ובפרשכם כפיכם – אי לאו דגדולה תפלה כיון דאמר למה לי רוב זבחיכם למה לי תו ובפרשכם הא אפילו זבחיהם לא ניחא ליה:

"E quando estenderdes vossas palmas" — se não fosse porque a oração é maior que os sacrifícios, uma vez que o versículo já disse "para que Me serve a multidão de vossos sacrifícios", para que repetir e mencionar ainda "e quando estenderdes vossas palmas"? Ora, se nem mesmo os sacrifícios Lhe eram aceitáveis daquele povo pecador, tampouco a oração o seria — a menos que a oração tivesse mérito próprio, superior.

Nota

Rashi explica a lógica da prova: se D'us já havia rejeitado os sacrifícios do povo pecador, seria redundante mencionar também a rejeição da oração, a menos que se quisesse ensinar que a oração, sendo hierarquicamente superior aos sacrifícios, mereceria menção própria mesmo em meio à condenação.

4Disse Rabi Yochanan: todo sacerdote que matou uma pessoa não deve erguer suas palmas, como está dito: "vossas mãos estão cheias de sangue"
Bavli · 32b — Guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כׇּל כֹּהֵן שֶׁהָרַג אֶת הַנֶּפֶשׁ — לֹא יִשָּׂא אֶת כַּפָּיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יְדֵיכֶם דָּמִים מָלֵאוּ״.

Disse Rabi Yochanan: todo sacerdote que matou uma pessoa (quarto item do simán: "sacerdote") não deve erguer suas palmas para abençoar o povo no Birkat Kohanim, como está dito: "vossas mãos estão cheias de sangue" (Yeshaiáhu 1:15, no mesmo versículo citado acima, associando as mãos manchadas de sangue à oração rejeitada).

Nota

Ainda a partir do mesmo versículo de Yeshaiáhu, Rabi Yochanan extrai uma halachá concreta: as mãos que derramaram sangue humano perdem a aptidão de se erguerem na bênção sacerdotal, por associação direta com "vossas mãos estão cheias de sangue".

5E disse Rabi Elazar: desde o dia em que foi destruído o Templo, fecharam-se os portões da oração... mas os portões das lágrimas não se fecharam
Bavli · 32b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ נִנְעֲלוּ שַׁעֲרֵי תְּפִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גַּם כִּי אֶזְעַק וַאֲשַׁוֵּעַ שָׂתַם תְּפִלָּתִי״. וְאַף עַל פִּי שֶׁשַּׁעֲרֵי תְפִילָּה נִנְעֲלוּ, שַׁעֲרֵי דִמְעָה לֹא נִנְעֲלוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׁמְעָה תְפִלָּתִי ה׳ וְשַׁוְעָתִי הַאֲזִינָה אֶל דִּמְעָתִי אַל תֶּחֱרַשׁ״.

E disse Rabi Elazar: desde o dia em que foi destruído o Templo, fecharam-se os portões da oração (quinto item do simán: "jejum" ligado ao tema anterior, ou tratando-se aqui do tema da oração impedida), como está dito: "ainda que eu clame e grite por socorro, Ele veda minha oração" (Eichá 3:8). E, ainda que os portões da oração tenham se fechado, os portões das lágrimas não se fecharam, como está dito: "escuta minha oração, Eterno, e à minha súplica dá ouvidos; a minhas lágrimas não sejas surdo" (Tehilim 39:13).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
אל תחרש – מדלא כתיב את דמעתי תראה ש"מ נראית היא לפניו ואין צריך להתפלל אלא שתתקבל לפניו:

"Não sejas surdo" — como não está escrito "vejas minhas lágrimas", mas sim "não sejas surdo", aprende-se disso que as lágrimas já são vistas diante dEle, e não é necessário orar por elas, senão que sejam de fato aceitas diante dEle.

Nota

Este é um dos ensinamentos mais citados da literatura rabínica: mesmo após a destruição do Templo ter fechado, por assim dizer, os "portões" pelos quais a oração formal era plenamente recebida, as lágrimas sinceras continuam tendo acesso direto e sempre aberto diante de D'us.

6Rava não decretava jejum em dia nublado, por causa do que está dito: "Te cobriste de nuvem, para que não passe a oração"
Bavli · 32b — Guemará
רָבָא לָא גְּזַר תַּעֲנִיתָא בְּיוֹמָא דְעֵיבָא, מִשּׁוּם שֶׁנֶּאֱמַר ״סַכֹּתָה בֶעָנָן לָךְ מֵעֲבוֹר תְּפִלָּה״.

Rava não decretava jejum público, comunitário, em dia nublado, por causa do que está dito: "Te cobriste de nuvem, para que não passasse a oração" (Eichá 3:44 — temendo que, num dia já assinalado pela imagem da nuvem que impede a oração, um jejum decretado corresse o risco de não ser bem recebido).

Nota

A prática concreta de Rava ilustra, na vida real, a preocupação com o mesmo versículo de Eichá sobre a oração bloqueada: por prudência, ele evitava decretar jejuns públicos justamente nos dias em que o céu nublado evocava essa imagem de obstrução.

7E disse Rabi Elazar: desde o dia em que foi destruído o Templo, uma muralha de ferro separa Israel de seu Pai que está nos céus, como está dito: "e tu, toma para ti uma frigideira de ferro, e a porás como muro de ferro entre ti e a cidade"
Bavli · 32b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ נִפְסְקָה חוֹמַת בַּרְזֶל בֵּין יִשְׂרָאֵל לַאֲבִיהֶם שֶׁבַּשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַתָּה קַח לְךָ מַחֲבַת בַּרְזֶל וְנָתַתָּ אוֹתָהּ קִיר בַּרְזֶל בֵּינְךָ וּבֵין הָעִיר״.

E disse Rabi Elazar: desde o dia em que foi destruído o Templo, como se uma muralha de ferro separasse (sétimo e último item do simán: "ferro") Israel de seu Pai que está nos céus, como está dito: "e tu, filho do homem, toma para ti uma frigideira de ferro, e a porás como muro de ferro entre ti e a cidade" (Yechezkel 4:3, ordem simbólica dada ao profeta para representar o cerco de Jerusalém).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
ונתתה אותה קיר ברזל – סימן למחיצת ברזל המפסקת בינו לבינם:

"E a porás como muro de ferro" — sinal profético da separação de ferro que se interpõe entre Ele e eles (entre D'us e Israel, desde a destruição).

Nota

O sétimo e último item do sinal mnemônico encerra a sequência com a imagem mais dura de todas: a destruição do Templo criou, por assim dizer, uma barreira de ferro — material que bloqueia por completo, ao contrário de outras separações mais permeáveis — entre Israel e seu Pai celeste.

Alongar a oração: bênção ou risco? · כׇּל הַמַּאֲרִיךְ בִּתְפִלָּתוֹ

8Disse Rabi Chanin, disse Rabi Chanina: todo o que alonga sua oração, sua oração não retorna vazia. De onde o aprendemos? De Moshé Rabeinu
Bavli · 32b — Guemará
אָמַר רַבִּי חָנִין אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: כׇּל הַמַּאֲרִיךְ בִּתְפִלָּתוֹ, אֵין תְּפִלָּתוֹ חוֹזֶרֶת רֵיקָם. מְנָא לַן — מִמֹּשֶׁה רַבֵּינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וָאֶתְפַּלֵּל אֶל ה׳״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״וַיִּשְׁמַע ה׳ אֵלַי גַּם בַּפַּעַם הַהִיא״.

Disse Rabi Chanin, disse Rabi Chanina: todo o que alonga sua oração, sua oração não retorna vazia. De onde o aprendemos? De Moshé Rabeinu, como está dito: "e orei ao Eterno" (Devarim 9:26, referindo-se à longa súplica de Moshé após o pecado do Bezerro de Ouro), e está escrito depois disso: "e o Eterno me ouviu também daquela vez" (Devarim 10:10).

Nota

Retomando ainda o exemplo de Moshé, este ensinamento estabelece um princípio geral e positivo: uma oração longa e insistente, como a de Moshé, não retorna sem resposta — preparando o contraste com o ensinamento seguinte.

9Mas será?! Não disse Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan: todo o que alonga sua oração e se aprofunda nela, acaba chegando a dor de coração?!
Bavli · 32b — Guemará
אִינִי?! וְהָא אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כָּל הַמַּאֲרִיךְ בִּתְפִילָּתוֹ וּמְעַיֵּין בָּהּ — סוֹף בָּא לִידֵי כְּאֵב לֵב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תּוֹחֶלֶת מְמֻשָּׁכָה מַחֲלָה לֵב״. מַאי תַּקַּנְתֵּיהּ — יַעֲסוֹק בַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעֵץ חַיִּים תַּאֲוָה בָאָה״, וְאֵין עֵץ חַיִּים אֶלָּא תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֵץ חַיִּים הִיא לַמַּחֲזִיקִים בָּהּ״. לָא קַשְׁיָא, הָא דְּמַאֲרֵיךְ וּמְעַיֵּין בַּהּ. הָא דְּמַאֲרֵיךְ וְלָא מְעַיֵּין בַּהּ.

Mas será isso mesmo assim, incondicionalmente?! Não disse Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan: todo o que alonga sua oração e se aprofunda nela (examinando ansiosamente se será ou não atendido), acaba chegando a dor de coração, como está dito: "a esperança adiada adoece o coração" (Mishlei 13:12)?! Qual seu remédio para essa dor? Que se ocupe da Torá, como está dito: "e a árvore da vida é o objeto do desejo que chega" (continuação do mesmo versículo), e não há árvore da vida senão a Torá, como está dito: "árvore da vida ela é para os que a seguram" (Mishlei 3:18). Não há contradição: este ensinamento negativo fala de quem alonga a oração e se aprofunda nela (com ansiedade); aquele (o ensinamento positivo) fala de quem alonga, mas não se aprofunda nela dessa forma ansiosa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
ומעיין בה – מצפה שתעשה בקשתו על ידי הארכתו סוף שאינה נעשית ונמצאת תוחלת ממושכה חנם והיא כאב לב כשאדם מצפה ואין תאותו באה: תוחלת – לשון חלוי ותחנה: ועץ חיים תאוה באה – סופו של מקרא הוא:

"E se aprofunda nela" — espera que seu pedido se cumpra por causa de seu alongamento da oração; ao final, não se cumpre, e resulta uma "esperança adiada" em vão, o que é dor de coração, quando o homem espera e seu desejo não vem. "Tochelet" — expressão de expectativa e súplica. "E a árvore da vida é o desejo que chega" — é o final do versículo citado.

Nota

A Guemará resolve a aparente contradição distinguindo dois tipos de alongamento: prolongar a oração com confiança serena, como fez Moshé, traz bênção; mas prolongá-la com ansiedade obsessiva sobre se será ou não atendida traz sofrimento — cujo remédio é voltar-se ao estudo da Torá.

10Disse Rabi Chama bar Rabi Chanina: se um homem viu que orou e não foi atendido, volte a orar, como está dito: "espera ao Eterno, sê forte e fortaleça-se teu coração, e espera ao Eterno"
Bavli · 32b — Guemará
אָמַר רַבִּי חָמָא בְּרַבִּי חֲנִינָא: אִם רָאָה אָדָם שֶׁהִתְפַּלֵּל וְלֹא נַעֲנָה — יַחְזוֹר וְיִתְפַּלֵּל. שֶׁנֶּאֱמַר: ״קַוֵּה אֶל ה׳ חֲזַק וְיַאֲמֵץ לִבֶּךָ וְקַוֵּה אֶל ה׳״.

Disse Rabi Chama bar Rabi Chanina: se um homem viu que orou e não foi atendido, volte a orar, como está dito: "espera ao Eterno, sê forte e fortaleça-se teu coração, e volta a esperar ao Eterno" (Tehilim 27:14 — a repetição da mesma expressão "espera ao Eterno" ensinando a repetir a oração).

Nota

Este ensinamento equilibra a tensão do anterior: em vez de deixar que a demora na resposta se transforme em ansiedade doentia, o remédio prescrito é a persistência confiante — orar de novo, sem desanimar, exatamente como o versículo de Tehilim repete duas vezes a mesma exortação a "esperar ao Eterno".

11Ensinaram os sábios: quatro coisas precisam de fortalecimento, e são estas: Torá, boas ações, oração e derech eretz
Bavli · 32b — Guemará (baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: אַרְבָּעָה צְרִיכִין חִזּוּק, וְאֵלּוּ הֵן: תּוֹרָה, וּמַעֲשִׂים טוֹבִים, תְּפִלָּה, וְדֶרֶךְ אֶרֶץ.

Ensinaram os sábios (numa baraita): quatro coisas precisam de fortalecimento, e são estas: Torá, boas ações, oração e derech eretz ("o caminho da terra" — o ofício ou trabalho pelo qual o homem se sustenta).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
צריכין חזוק – שיתחזק אדם בהן תמיד בכל כחו: דרך ארץ – אם אומן הוא לאומנתו אם סוחר הוא לסחורתו אם איש מלחמה הוא למלחמתו:

"Precisam de fortalecimento" — que o homem se fortaleça nelas sempre, com toda a sua força. "Derech eretz" — se é artesão, em seu ofício; se é comerciante, em seu comércio; se é homem de guerra, em sua guerra.

Nota

A baraita introduz uma lista de quatro áreas da vida que exigem esforço redobrado e constante, incluindo a própria oração ao lado do estudo da Torá, das boas ações e do sustento — sendo as três primeiras desenvolvidas nas próximas unidades por versículos específicos.

12Torá e boas ações, de onde? Como está dito: "somente sê forte e muito corajoso, para guardar e fazer conforme toda a Torá" — "sê forte" na Torá, e "corajoso" nas boas ações
Bavli · 32b — Guemará
תּוֹרָה וּמַעֲשִׂים טוֹבִים מִנַּיִן? — שֶׁנֶּאֱמַר: ״רַק חֲזַק וֶאֱמַץ מְאֹד לִשְׁמֹר וְלַעֲשׂוֹת כְּכׇל הַתּוֹרָה״, ״חֲזַק״ — בַּתּוֹרָה, ״וֶאֱמַץ״ — בְּמַעֲשִׂים טוֹבִים.

Torá e boas ações, de onde se aprende essa necessidade de fortalecimento? Como está dito: "somente sê forte e muito corajoso, para guardar e fazer conforme toda a Torá" (Yehoshua 1:7); "sê forte" refere-se à Torá, e " corajoso" refere-se às boas ações.

Nota

A Guemará decompõe o versículo dirigido a Yehoshua em duas exortações paralelas, associando cada verbo — "sê forte" e "sê corajoso" — a uma das duas primeiras categorias da lista: o estudo da Torá e sua aplicação prática em boas ações.

13Oração, de onde? Como está dito: "espera ao Eterno, sê forte e fortaleça-se teu coração, e espera ao Eterno"
Bavli · 32b — Guemará
תְּפִלָּה מִנַּיִן? — שֶׁנֶּאֱמַר ״קַוֵּה אֶל ה׳ חֲזַק וְיַאֲמֵץ לִבֶּךָ וְקַוֵּה אֶל ה׳״.

Oração, de onde se aprende? Como está dito: "espera ao Eterno, sê forte e fortaleça-se teu coração, e espera ao Eterno" (Tehilim 27:14, o mesmo versículo já citado acima).

Nota

A terceira categoria da lista, a oração, recebe como fonte o mesmo versículo de Tehilim já empregado para ensinar a repetição da súplica não atendida — reforçando, aqui, especificamente a necessidade de fortalecimento e perseverança nela.

14Derech eretz, de onde? Como está dito: "sê forte, e fortaleçamo-nos por nosso povo etc."
Bavli · 32b — Guemará
דֶּרֶךְ אֶרֶץ מִנַּיִן? — שֶׁנֶּאֱמַר ״חֲזַק וְנִתְחַזַּק בְּעַד עַמֵּנוּ וְגוֹ׳״.

Derech eretz, de onde se aprende? Como está dito: "sê forte, e fortaleçamo-nos por nosso povo e pelas cidades de nosso D'us, e o Eterno fará o que for bom a Seus olhos" (Shmuel II 10:12, palavras de Yoav antes da batalha, entendidas como referência ao esforço material e prático).

Nota

A quarta e última categoria da baraita, o sustento prático (derech eretz), encontra sua fonte nas palavras de Yoav antes de uma batalha concreta pela sobrevivência do povo, associando o "fortalecimento" ali mencionado ao esforço material cotidiano.

Tzion, a esposa que D'us nunca esqueceu · וַתֹּאמֶר צִיּוֹן עֲזָבַנִי ה׳

15"E disse Tzion: abandonou-me o Eterno, e o Eterno me esqueceu". "Abandonada" é o mesmo que "esquecida"?! Disse Reish Lakish: disse a Congregação de Israel diante do Santo, bendito seja: um homem que casa com outra esposa além da primeira, lembra os feitos da primeira. Tu me abandonaste e me esqueceste!
Bavli · 32b — Guemará
״וַתֹּאמֶר צִיּוֹן עֲזָבַנִי ה׳ וַה׳ שְׁכֵחָנִי״. הַיְינוּ עֲזוּבָה, הַיְינוּ שְׁכוּחָה? אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: אָמְרָה כְּנֶסֶת יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, אָדָם נוֹשֵׂא אִשָּׁה עַל אִשְׁתּוֹ רִאשׁוֹנָה, זוֹכֵר מַעֲשֵׂה הָרִאשׁוֹנָה. אַתָּה עֲזַבְתַּנִי וּשְׁכַחְתַּנִי.

"E disse Tzion: abandonou-me o Eterno, e o Eterno me esqueceu" (Yeshaiáhu 49:14). "Abandonada" é o mesmo que "esquecida"? Por que a aparente redundância? Disse Reish Lakish: disse a Congregação de Israel diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, um homem que casa com outra esposa além de sua primeira esposa ainda se lembra dos feitos da primeira (mesmo abandonando-a por outra, não a esquece por completo); Tu porém me abandonaste e além disso me esqueceste por completo!

Nota

Mudando de tema, a Guemará interpreta um versículo de Yeshaiáhu em que Tzion (Jerusalém, ou o próprio povo de Israel) lamenta seu duplo abandono: Reish Lakish nota que ser "abandonada" e "esquecida" ao mesmo tempo é uma queixa mais grave que o abandono comum de um marido, que ao menos preserva a memória da primeira esposa — preparando a resposta consoladora de D'us que se segue.

16Disse-lhe o Santo, bendito seja: minha filha, doze constelações criei no firmamento, e sobre cada constelação criei trinta exércitos... e tudo isso não criei senão por tua causa, e tu dizes "me abandonaste" e "me esqueceste"?!
Bavli · 32b — Guemará
אָמַר לָהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: בִּתִּי, שְׁנֵים עָשָׂר מַזָּלוֹת בָּרָאתִי בָּרָקִיעַ, וְעַל כׇּל מַזָּל וּמַזָּל בָּרָאתִי לוֹ שְׁלֹשִׁים חַיִל, וְעַל כׇּל חַיִל וְחַיִל בָּרָאתִי לוֹ שְׁלֹשִׁים לִגְיוֹן, וְעַל כׇּל לִגְיוֹן וְלִגְיוֹן בָּרָאתִי לוֹ שְׁלֹשִׁים רַהֲטוֹן, וְעַל כׇּל רַהֲטוֹן וְרַהֲטוֹן בָּרָאתִי לוֹ שְׁלֹשִׁים קְרָטוֹן, וְעַל כׇּל קְרָטוֹן וּקְרָטוֹן בָּרָאתִי לוֹ שְׁלֹשִׁים גַּסְטְרָא, וְעַל כׇּל גַּסְטְרָא וְגַסְטְרָא תָּלִיתִי בּוֹ שְׁלֹשׁ מֵאוֹת וְשִׁשִּׁים וַחֲמִשָּׁה אַלְפֵי רִבּוֹא כּוֹכָבִים כְּנֶגֶד יְמוֹת הַחַמָּה. וְכוּלָּן לֹא בָּרָאתִי אֶלָּא בִּשְׁבִילֵךְ, וְאַתְּ אָמַרְתְּ ״עֲזַבְתַּנִי״ וּ״שְׁכַחְתַּנִי״?!

Disse-lhe o Santo, bendito seja: minha filha, doze constelações criei no firmamento, e sobre cada constelação e constelação criei trinta exércitos (chayil), e sobre cada exército e exército criei trinta legiões (legyon), e sobre cada legião e legião criei trinta rahaton, e sobre cada rahaton e rahaton criei trinta craton, e sobre cada craton e craton criei trinta gastra, e sobre cada gastra e gastra pendurei nele trezentas e sessenta e cinco mil miríades de estrelas, correspondentes aos dias do ano solar. E tudo isso não criei senão por tua causa, e tu dizes "me abandonaste" e "me esqueceste"?!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
שלשים חיל – ראשי גייסות וחבורות חלוקות: לגיון וקרטון וגסטרא – שמות של שררה כגון שלטון והגמון ודוכס ופחה:

"Trinta exércitos" — chefes de tropas e grupamentos divididos. "Legião, craton e gastra" — nomes de postos de autoridade, como governador, hegmon (oficial romano), duque e prefeito.

Nota

A resposta divina emprega uma hierarquia cósmica em cascata — constelações, exércitos, legiões e postos sucessivos de comando, culminando num número astronômico de estrelas — tomando emprestados termos de hierarquia militar e administrativa romana para descrever a estrutura celeste, tudo para enfatizar que a totalidade dessa criação existe apenas em função de Israel.

17"Acaso esquecerá a mulher seu bebê de peito?" Disse o Santo, bendito seja: acaso esquecerei as ofertas de carneiros e os primogênitos dos úteros que Me ofereceste no deserto? Disse ela: já que há esquecimento diante do trono de Tua glória, talvez não esqueças de mim o feito do bezerro? Disse-lhe: "também estas se esquecerão"
Bavli · 32b — Guemará
״הֲתִשְׁכַּח אִשָּׁה עוּלָהּ״, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: כְּלוּם אֶשְׁכַּח עוֹלוֹת אֵילִים וּפִטְרֵי רְחָמִים שֶׁהִקְרַבְתְּ לְפָנַי בַּמִּדְבָּר?! אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, הוֹאִיל וְאֵין שִׁכְחָה לִפְנֵי כִּסֵּא כְבוֹדֶךָ, שֶׁמָּא לֹא תִּשְׁכַּח לִי מַעֲשֵׂה הָעֵגֶל? אָמַר לָהּ: ״גַּם אֵלֶּה תִשְׁכַּחְנָה״.

"Acaso esquecerá a mulher seu bebê de peito, de ter piedade do filho de seu ventre?" (continuação do versículo de Yeshaiáhu 49:15). Disse o Santo, bendito seja: acaso esquecerei as ofertas de carneiros e os primeiros abridores de úteros (os primogênitos consagrados) que Me ofereceste no deserto?! Disse ela diante dEle: Senhor do universo, já que não há esquecimento diante do trono de Tua glória (pois Te lembras até mesmo dessas ofertas remotas), talvez não esqueças de mim o feito do bezerro de ouro, e continues a me culpar por ele para sempre? Disse-lhe: "também estas coisas se esquecerão" (citando a continuação do mesmo versículo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
עולה – כמו עולות וקרבנות: גם אלה – מעשה העגל שאמרו אלה אלהיך ישראל:

"Ulah" — seu bebê de peito, tomado aqui como referência a oferendas e sacrifícios (lido também como "olá", "oferta"). "Também estas" — o feito do bezerro, sobre o qual disseram o povo: "estes são teus deuses, ó Israel" (Shemot 32:4).

Nota

O diálogo continua com Israel citando o restante do versículo de Yeshaiáhu, sobre a impossibilidade de uma mãe esquecer seu filho, e D'us confirmando que se lembra até dos detalhes mais remotos das ofertas do deserto — o que leva Israel a temer, precisamente por essa memória perfeita, que o pecado do Bezerro de Ouro jamais seja esquecido, ao que D'us responde citando a promessa de que "também estas" coisas passarão ao esquecimento.

18Disse ela diante d'Ele: Senhor do universo, já que há esquecimento diante do trono de Tua glória, talvez esqueças de mim o feito do Sinai? Disse-lhe: "e Eu não te esquecerei"
Bavli · 32b — Guemará
אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, הוֹאִיל וְיֵשׁ שִׁכְחָה לִפְנֵי כִּסֵּא כְבוֹדֶךָ, שֶׁמָּא תִּשְׁכַּח לִי מַעֲשֵׂה סִינַי? אָמַר לָהּ: ״וְאָנֹכִי לֹא אֶשְׁכָּחֵךְ״.

Disse ela diante dEle: Senhor do universo, já que afinal, pelo visto, há esquecimento diante do trono de Tua glória (pois Tu mesmo disseste que "também estas se esquecerão"), talvez esqueças de mim o feito do Sinai (o dom da Torá, que é o principal mérito de Israel)? Disse-lhe: "e Eu não te esquecerei" (Yeshaiáhu 49:15, conclusão do mesmo versículo — garantia final e absoluta).

Nota

Com aguda ironia argumentativa, Israel vira contra D'us a Sua própria admissão de que "há esquecimento" — temendo agora que o mérito supremo da entrega da Torá no Sinai também seja apagado — o que provoca a garantia final e categórica de que, ao menos isso, jamais será esquecido.

19E é isso que disse Rabi Elazar em nome de Rav Oshaia: o que significa "também estas se esquecerão"? Isto é o feito do bezerro. "E Eu não te esquecerei" — isto é o feito do Sinai
Bavli · 32b — Guemará
וְהַיְינוּ דְּאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר אָמַר רַב אוֹשַׁעְיָא: מַאי דִּכְתִיב ״גַּם אֵלֶּה תִשְׁכַּחְנָה״ — זֶה מַעֲשֵׂה הָעֵגֶל, ״וְאָנֹכִי לֹא אֶשְׁכָּחֵךְ״ — זֶה מַעֲשֵׂה סִינַי.

E é isso que disse Rabi Elazar em nome de Rav Oshaia: o que significa "também estas se esquecerão"? Isto é o feito do bezerro. "E Eu não te esquecerei" — isto é o feito do Sinai (referência direta a "Anochi", a primeira palavra dos Dez Mandamentos).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
ואנכי זה מעשה סיני – שנאמר בו אנכי ה' אלהיך:

"E Eu (Anochi)" — isto é o feito do Sinai, sobre o qual está dito: "Eu (Anochi) sou o Eterno teu D'us" (Shemot 20:2, primeira palavra da revelação no Sinai).

Nota

Fechando a alegoria com uma leitura amoraica formal, Rabi Elazar identifica precisamente os dois "esses" da resposta divina: o que será esquecido é o feito do bezerro, e o que jamais será esquecido — pela própria palavra "Anochi", ecoando a abertura dos Dez Mandamentos — é o dom da Torá no Sinai.

Os chassidim antigos: uma hora antes, uma hora depois · חֲסִידִים הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ שׁוֹהִין שָׁעָה אַחַת

20Os chassidim antigos aguardavam uma hora
Bavli · 32b — Mishná citada
חֲסִידִים הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ שׁוֹהִין שָׁעָה אַחַת:

Os chassidim antigos aguardavam uma hora antes de começar a orar (citação retomada da Mishná do início do perek, em 30b, para desenvolvimento agora).

Nota

A Guemará retoma esta cláusula da Mishná, já mencionada no início do perek, para agora explorar sua fonte bíblica e desdobramentos práticos, tema que ocupará o restante do daf.

21De onde essas palavras? Disse Rabi Yehoshua ben Levi: disse o versículo: "felizes os que habitam Tua casa"
Bavli · 32b — Guemará
מְנָא הָנֵי מִילֵּי? אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי, אָמַר קְרָא: ״אַשְׁרֵי יוֹשְׁבֵי בֵיתֶךָ״.

De onde se aprendem essas palavras (a exigência de aguardar uma hora antes de orar)? Disse Rabi Yehoshua ben Levi: disse o versículo: "felizes os que habitam Tua casa (demorando-se nela antes de louvar), para sempre Te louvarão" (Tehilim 84:5).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
יושבי ביתך – והדר יהללוך:

"Os que habitam (sentam) Tua casa" — e só depois Te louvarão.

Nota

Rabi Yehoshua ben Levi encontra a fonte da prática dos chassidim antigos no versículo de Tehilim, lendo "os que habitam" como referência a permanecer sentado, tranquilo, antes de iniciar o louvor propriamente dito.

22E disse Rabi Yehoshua ben Levi: aquele que ora precisa aguardar uma hora depois de sua oração, como está dito: "somente os justos louvarão Teu nome, os retos habitarão diante de Tua face"
Bavli · 32b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: הַמִּתְפַּלֵּל צָרִיךְ לִשְׁהוֹת שָׁעָה אַחַת אַחַר תְּפִלָּתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַךְ צַדִּיקִים יוֹדוּ לִשְׁמֶךָ יֵשְׁבוּ יְשָׁרִים אֶת פָּנֶיךָ״.

E disse Rabi Yehoshua ben Levi: aquele que ora precisa aguardar uma hora depois de sua oração também, como está dito: "somente os justos louvarão Teu nome, os retos habitarão diante de Tua face" (Tehilim 140:14 — primeiro o louvor, depois a permanência).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
יודו לשמך – והדר ישבו ישרים את פניך:

"Louvarão Teu nome" — e só depois "os retos habitarão diante de Tua face".

Nota

Complementando a unidade anterior, Rabi Yehoshua ben Levi extrai de um segundo versículo a exigência simétrica de permanecer também depois da oração, lendo a ordem das cláusulas do versículo — louvor primeiro, permanência depois — como prescrição para depois da própria oração.

23Também foi ensinado assim: aquele que ora precisa aguardar uma hora antes de sua oração e uma hora depois de sua oração
Bavli · 32b — Guemará (baraita)
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: הַמִּתְפַּלֵּל צָרִיךְ שֶׁיִּשְׁהֶא שָׁעָה אַחַת קוֹדֶם תְּפִלָּתוֹ, וְשָׁעָה אַחַת אַחַר תְּפִלָּתוֹ. קוֹדֶם תְּפִלָּתוֹ, מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַשְׁרֵי יוֹשְׁבֵי בֵיתֶךָ״. לְאַחַר תְּפִלָּתוֹ מִנַּיִן? — דִּכְתִיב: ״אַךְ צַדִּיקִים יוֹדוּ לִשְׁמֶךָ יֵשְׁבוּ יְשָׁרִים אֶת פָּנֶיךָ״.

Também foi ensinado assim (numa baraita, confirmando os dois ensinamentos de Rabi Yehoshua ben Levi): aquele que ora precisa aguardar uma hora antes de sua oração, e uma hora depois de sua oração. Antes de sua oração, de onde? Como está dito: "felizes os que habitam Tua casa". Depois de sua oração, de onde? Como está escrito: "somente os justos louvarão Teu nome, os retos habitarão diante de Tua face".

Nota

Uma baraita tanaítica confirma, com as mesmas duas fontes bíblicas, os dois ensinamentos amoraicos anteriores, consolidando a exigência dupla de recolhimento antes e depois da oração.

24Ensinaram os sábios: os chassidim antigos aguardavam uma hora, e oravam uma hora, e voltavam a aguardar uma hora. E, já que aguardavam nove horas do dia em oração, como se preservava seu estudo de Torá, e como se fazia seu trabalho?
Bavli · 32b — Guemará (baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: חֲסִידִים הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ שׁוֹהִין שָׁעָה אַחַת, וּמִתְפַּלְּלִין שָׁעָה אַחַת, וְחוֹזְרִין וְשׁוֹהִין שָׁעָה אַחַת. וְכִי מֵאַחַר שֶׁשּׁוֹהִין תֵּשַׁע שָׁעוֹת בַּיּוֹם בִּתְפִלָּה, תּוֹרָתָן הֵיאַךְ מִשְׁתַּמֶּרֶת, וּמְלַאכְתָּם הֵיאַךְ נַעֲשֵׂית?

Ensinaram os sábios (noutra baraita): os chassidim antigos aguardavam uma hora antes, e oravam uma hora, e voltavam a aguardar uma hora depois — e isso para cada uma das três orações diárias. E, já que aguardavam nove horas do dia inteiro, somando as três orações, em oração, como se preservava seu estudo de Torá, e como se fazia seu trabalho com tão pouco tempo restante?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
תשע שעות – לשלש תפלות:

"Nove horas" — para as três orações diárias, três horas cada uma.

Nota

A baraita expande a prática dos chassidim antigos às três orações diárias, somando nove horas do dia total, e levanta a questão prática óbvia: como conciliavam devoção tão extensa com as demais obrigações da vida, o estudo e o trabalho.

25Mas, sendo eles chassidim, sua Torá se preservava, e seu trabalho era abençoado
Bavli · 32b — Guemará (baraita)
אֶלָּא מִתּוֹךְ שֶׁחֲסִידִים הֵם — תּוֹרָתָם מִשְׁתַּמֶּרֶת, וּמְלַאכְתָּן מִתְבָּרֶכֶת.

Mas, precisamente porque eram chassidim (piedosos e devotados), sua Torá se preservava apesar do pouco tempo dedicado a ela, e seu trabalho era abençoado apesar do pouco tempo dedicado a ele.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
תורתם משתמרת – בתוך לבם שאין תלמודם משתכח:

"Sua Torá se preservava" — dentro de seu coração, de modo que seu aprendizado não se esquecia.

Nota

A resposta da baraita é de ordem miraculosa: a própria piedade excepcional dos chassidim antigos lhes garantia, por bênção divina, que o pouco tempo dedicado ao estudo e ao trabalho rendesse tanto quanto o tempo integral dedicaria a pessoas comuns.

Não interromper a oração, nem para o rei · אֲפִילּוּ הַמֶּלֶךְ שׁוֹאֵל בִּשְׁלוֹמוֹ

26Mesmo que o rei o cumprimente, não deve retribuir-lhe a saudação
Bavli · 32b — Mishná citada
אֲפִילּוּ הַמֶּלֶךְ שׁוֹאֵל בִּשְׁלוֹמוֹ לֹא יְשִׁיבֶנּוּ.

Mesmo que o rei (enquanto o homem está em oração) o cumprimente, não deve retribuir-lhe a saudação (cláusula final da Mishná citada em 30b sobre não interromper a oração, agora analisada em detalhe).

Nota

A Guemará retoma esta outra cláusula da Mishná do início do perek para examinar seus limites práticos: até que ponto a proibição de interromper a oração se aplica mesmo diante de uma figura de autoridade máxima como um rei.

27Disse Rav Yossef: não ensinaram isso senão quanto aos reis de Israel; mas quanto aos reis das nações do mundo, interrompe
Bavli · 32b — Guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף, לֹא שָׁנוּ אֶלָּא לְמַלְכֵי יִשְׂרָאֵל, אֲבָל לְמַלְכֵי אוּמּוֹת הָעוֹלָם — פּוֹסֵק.

Disse Rav Yossef: não ensinaram isso (a proibição absoluta de interromper mesmo para o rei) senão quanto aos reis de Israel; mas quanto aos reis das nações do mundo, interrompe a oração para responder à saudação, por medo de represália.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 32b
אבל למלכי עכו"ם פוסק – שלא יהרגנו:

"Mas quanto aos reis das nações, interrompe" — para que o rei não o mate.

Nota

Rav Yossef limita a regra da Mishná ao contexto de um rei israelita, que compreenderia e respeitaria a devoção religiosa; diante de um rei estrangeiro, cuja reação poderia ser fatal, a preservação da vida justifica a interrupção da oração — princípio que a história seguinte, do chassid piedoso, virá justamente contestar na prática.

28Objetaram: aquele que ora e vê um bandido vindo em sua direção, ou uma carroça vindo em sua direção, não deve interromper, mas deve abreviar e seguir!
Bavli · 32b — Guemará
מֵיתִיבִי: הַמִּתְפַּלֵּל וְרָאָה אַנָּס בָּא כְּנֶגְדּוֹ, רָאָה קָרוֹן בָּא כְּנֶגְדּוֹ — לֹא יְהֵא מַפְסִיק, אֶלָּא מְקַצֵּר וְעוֹלֶה!

Objetaram contra Rav Yossef, de uma baraita: aquele que ora e vê um bandido (ou agressor violento) vindo em sua direção, ou vê uma carroça vindo em sua direção — não deve interromper, mas deve abreviar a oração e seguir seu caminho, saindo dali!

Nota

A baraita citada como objeção parece contradizer Rav Yossef: mesmo diante de perigo real de vida — um assaltante ou uma carroça em disparada — a instrução não é interromper por completo, mas apenas abreviar, o que pareceria ainda mais restritivo que a permissão de Rav Yossef para interromper diante de um rei estrangeiro.

29Não há contradição: esta fala de quando é possível abreviar; e, se não, interrompe
Bavli · 32b — Guemará
לָא קַשְׁיָא, הָא דְּאֶפְשָׁר לְקַצֵּר (יְקַצֵּר. וְאִם לָאו — פּוֹסֵק).

Não há contradição: esta baraita fala de quando é possível abreviar a oração e ainda assim escapar do perigo, e então deve fazê-lo; e se não for possível apenas abreviar, e o perigo for iminente, interrompe por completo, como permitiu Rav Yossef quanto ao rei estrangeiro.

Nota

A Guemará harmoniza as duas fontes distinguindo o grau de urgência: quando abreviar basta para escapar do perigo, prefere-se essa solução intermediária, preservando o máximo possível da oração; quando o perigo exige ação imediata, permite-se a interrupção completa, tal como diante do rei estrangeiro.

O chassid piedoso e o oficial romano · מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד

30Ensinaram os sábios: aconteceu com um certo chassid que orava no caminho. Veio um hegmon e o saudou, e ele não lhe devolveu a saudação. Esperou-o até que terminasse sua oração...
Bavli · 32b — Guemará (baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד שֶׁהָיָה מִתְפַּלֵּל בַּדֶּרֶךְ. בָּא הֶגְמוֹן אֶחָד וְנָתַן לוֹ שָׁלוֹם, וְלֹא הֶחְזִיר לוֹ שָׁלוֹם. הִמְתִּין לוֹ עַד שֶׁסִּייֵּם תְּפִלָּתוֹ. לְאַחַר שֶׁסִּייֵּם תְּפִלָּתוֹ, אָמַר לוֹ: רֵיקָא, וַהֲלֹא כָּתוּב בְּתוֹרַתְכֶם ״רַק הִשָּׁמֶר לְךָ וּשְׁמֹר נַפְשְׁךָ״, וּכְתִיב ״וְנִשְׁמַרְתֶּם מְאֹד לְנַפְשֹׁתֵיכֶם״. כְּשֶׁנָּתַתִּי לְךָ שָׁלוֹם לָמָּה לֹא הֶחְזַרְתָּ לִי שָׁלוֹם? אִם הָיִיתִי חוֹתֵךְ רֹאשְׁךָ בְּסַיִיף, מִי הָיָה תּוֹבֵעַ אֶת דָּמְךָ מִיָּדִי?!

Ensinaram os sábios (numa baraita): aconteceu com um certo chassid que orava no caminho. Veio um hegmon (alto oficial romano) e o saudou, e ele não lhe devolveu a saudação. O hegmon esperou-o até que terminasse sua oração. Depois que terminou sua oração, disse-lhe: vazio (homem tolo e desprezível)! Acaso não está escrito em vossa Torá: "somente guarda-te a ti mesmo, e guarda tua alma (vida)" (Devarim 4:9), e está escrito: "e guardai muito bem vossas almas" (Devarim 4:15)? Quando eu te dei saudação, por que não me devolveste a saudação? Se eu tivesse cortado tua cabeça com a espada, quem exigiria teu sangue de minha mão (quem me responsabilizaria por tua morte)?!

Nota

Inicia-se aqui a célebre narrativa do chassid piedoso, que ilustra na prática — e de forma dramaticamente arriscada — o princípio anterior sobre não interromper a oração nem diante de perigo evitável: ao ignorar a saudação de um poderoso oficial romano, o chassid expõe-se a uma repreensão furiosa, na qual o hegmon invoca a própria Torá para acusá-lo de negligenciar sua vida.

31Disse-lhe: espera por mim até que te apazigúe com palavras. Disse-lhe: se estivesses de pé diante de um rei de carne e osso, e viesse teu amigo e te desse saudação...
Bavli · 32b — Guemará (baraita, início — continua em 33a)
אָמַר לוֹ: הַמְתֵּן לִי עַד שֶׁאֲפַיֶּיסְךָ בִּדְבָרִים. אָמַר לוֹ: אִילּוּ הָיִיתָ עוֹמֵד לִפְנֵי מֶלֶךְ בָּשָׂר וָדָם, וּבָא חֲבֵרְךָ וְנָתַן לְךָ שָׁלוֹם — הָיִיתָ...

Disse-lhe o chassid ao hegmon: espera por mim até que te apazigúe com palavras (até que eu te dê uma explicação satisfatória). Disse-lhe: se estivesses de pé diante de um rei de carne e osso, e viesse teu amigo e te desse saudação, tu o retribuirias...

Nota

O chassid inicia sua defesa por meio de uma analogia — se o próprio hegmon, estando diante de um rei humano, não ousaria interromper-se para retribuir uma saudação, quanto mais alguém que está diante do Rei dos reis. O argumento, e seu desfecho, completam-se apenas no início de 33a, com quem esta unidade se emenda diretamente no texto original.