Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Heh (Ein Omdin)
מוֹדִים מוֹדִים

A regra final sobre havdalá na oração e sobre o copo, Yom Tov após o Shabat, "Choneen HaDaat" de Ezra, e a nova Mishná sobre "sobre o ninho do pássaro" e "modim, modim" — silenciados por sugerirem dualismo

Berachot 33b

O daf conclui a sugya da havdalá iniciada em 33a: Ravina pergunta a Rava a lei prática, que se resolve por analogia ao Kidush — a havdalá dita na oração não dispensa a do copo, e vice-versa. Segue-se uma digressão sobre a lei quando Yom Tov cai depois do Shabat (a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre a ordem "Yaknehaz"), a origem da bênção "Choneen HaDaat" na oração de Ezra pelos exilados, e enfim uma nova Mishná: aquele que diz "sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias", ou "por Teu bem seja lembrado Teu nome", ou repete "modim, modim" — é silenciado. A Guemará explica cada caso: o primeiro por transformar um decreto divino em mera piedade seletiva ou por lançar inveja entre as criaturas; o terceiro por parecer afirmar duas autoridades no lugar de uma. Segue o episódio de Rabá elogiando um aluno que orou com simplicidade comovente, o ensinamento de Rabi Chanina de que tudo está nas mãos do Céu exceto o temor do Céu, e a lei de quem repete "Shema, Shema".

A lei final da havdalá: como o Kidush · הִלְכְתָא מַאי

1Disse-lhe Ravina a Rava: qual é a lei? Disse-lhe: como o Kidush — assim como, embora se faça Kidush na oração, faz-se Kidush sobre o copo, também a havdalá, embora se faça havdalá na oração, faz-se havdalá sobre o copo
Bavli · 33b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רָבִינָא לְרָבָא: הִלְכְתָא מַאי? אֲמַר לֵיהּ, כִּי קִידּוּשׁ: מָה קִידּוּשׁ אַף עַל גַּב דִּמְקַדֵּשׁ בִּצְלוֹתָא מְקַדֵּשׁ אַכָּסָא, אַף הַבְדָּלָה נָמֵי, אַף עַל גַּב דְּמַבְדֵּיל בִּצְלוֹתָא מַבְדֵּיל אַכָּסָא.

Disse-lhe Ravina a Rava: qual é a lei prática, afinal, quanto à obrigação de fazer havdalá tanto na oração quanto sobre o copo? Disse-lhe: é como o Kidush (a santificação do dia recitada na entrada de Shabat e Festas): assim como, embora se faça Kidush na oração (na quarta bênção da Amidá de entrada de Shabat), faz-se também Kidush sobre o copo (de vinho, à mesa), também a havdalá, embora se faça havdalá na oração, faz-se havdalá sobre o copo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
הלכתא מאי – המבדיל בתפילה צריך שיבדיל על הכוס או לא:

"Qual é a lei" — aquele que faz havdalá na oração, precisa ainda fazer havdalá sobre o copo, ou não?

Nota

Encerra-se aqui, com a resposta definitiva de Rava, a extensa sugya iniciada em 33a sobre a origem histórica e o lugar correto da havdalá: a lei final adota a dupla exigência já sugerida por múltiplas fontes anteriores, comparando-a diretamente ao paralelo do Kidush, que também se recita tanto na oração quanto sobre o copo.

Yom Tov após o Shabat: "nortin" ou "modim"? · הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

2Rabi Eliezer diz: na ação de graças
Bavli · 33b — Mishná (citação)
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בְּ״הוֹדָאָה״.

Rabi Eliezer diz: diz-se a havdalá na bênção da ação de graças ("modim", citação retomada da Mishná de 33a para nova análise, agora quanto ao caso específico de Yom Tov que cai logo após o Shabat).

Nota

A Guemará retoma a opinião de Rabi Eliezer da Mishná para examinar um caso particular: o que fazer quando um dia de Festa (Yom Tov) cai imediatamente após o Shabat, situação em que a bênção "Choneen HaDaat" nem sequer é recitada na Amidá de Yom Tov.

3Rabi Zeira estava montado num asno, e Rabi Chiya bar Avin ia caminhando atrás dele. Disse-lhe: é verdade o que dissestes em nome de Rabi Yochanan, que a lei é como Rabi Eliezer quanto a Yom Tov que cai depois do Shabat? Disse-lhe: sim
Bavli · 33b — Guemará
רַבִּי זֵירָא הֲוָה רְכִיב חֲמָרָא, הֲוָה קָא שָׁקֵיל וְאָזֵיל רַבִּי חִיָּיא בַּר אָבִין בָּתְרֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: וַדַּאי דְּאָמְרִיתוּ מִשְּׁמֵיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן, הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּיוֹם טוֹב שֶׁחָל לִהְיוֹת אַחַר הַשַּׁבָּת? אֲמַר לֵיהּ: אִין.

Rabi Zeira estava montado num asno, e Rabi Chiya bar Avin ia caminhando atrás dele. Disse-lhe: é verdade o que dissestes em nome de Rabi Yochanan, que a lei é como Rabi Eliezer quanto a Yom Tov que cai depois do Shabat (pois nesse caso não se recita "Choneen HaDaat" na Amidá, já que a bênção intermediária não consta na Amidá de Festa)? Disse-lhe: sim.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
ביום טוב שחל להיות אחר השבת – שאין מתפללין אתה חונן:

"Em Yom Tov que cai depois do Shabat" — pois nesse caso não se reza a bênção intermediária "Tu agracias (Ata Choneen)" na Amidá de Festa, que tem apenas sete bênçãos, sem as intermediárias dos dias comuns — por isso a havdalá desse Shabat só pode ser dita na bênção de "Hodaá".

Nota

Rabi Zeira busca confirmação de uma tradição específica: quando Yom Tov segue imediatamente o Shabat, e portanto a Amidá de Festa não contém a bênção "Choneen HaDaat" onde normalmente se insere a havdalá, a lei segue a opinião minoritária de Rabi Eliezer, que a coloca na bênção de "Hodaá" (ação de graças), presente em toda Amidá.

4"A lei é" — implica que discordam?
Bavli · 33b — Guemará
הֲלָכָה — מִכְלָל דִּפְלִיגִי?

"A lei é como Rabi Eliezer" — essa expressão implica que os sábios discordam dele especificamente quanto a esse caso de Yom Tov após o Shabat?

Nota

A Guemará examina a própria formulação da tradição citada: dizer que "a lei é como Rabi Eliezer" pressupõe que exista uma opinião discordante — mas isso não é óbvio, pois a disputa da Mishná era sobre a regra geral, não sobre este caso excepcional.

5E não discordam? Mas os sábios discordam!
Bavli · 33b — Guemará
וְלָא פְּלִיגִי? וְהָא פְּלִיגִי רַבָּנַן.

E não discordam os sábios de Rabi Eliezer quanto a este caso? Mas os sábios de fato discordam dele na Mishná, quanto à regra geral, dizendo que a havdalá vai em "Choneen HaDaat"!

Nota

A objeção observa que a Mishná já registra explicitamente uma disputa (os sábios anônimos versus Rabi Eliezer), o que pareceria justificar plenamente a expressão "a lei é como Rabi Eliezer" — tornando a pergunta inicial desnecessária.

6Diz-se que os sábios discordam quanto aos demais dias do ano; mas quanto a Yom Tov que cai depois do Shabat, acaso discordam?
Bavli · 33b — Guemará
אֵימַר דִּפְלִיגִי רַבָּנַן בִּשְׁאָר יְמוֹת הַשָּׁנָה, בְּיוֹם טוֹב שֶׁחָל לִהְיוֹת אַחַר הַשַּׁבָּת מִי פְּלִיגִי?

Diz-se que os sábios discordam de Rabi Eliezer quanto aos demais dias do ano (dias comuns, quando "Choneen HaDaat" é recitada normalmente); mas quanto a Yom Tov que cai depois do Shabat (quando essa bênção nem sequer existe na Amidá), acaso discordam dele, ou concordariam que só resta a opção de "Hodaá"?

Nota

A Guemará refina a distinção: a disputa da Mishná pressupõe que "Choneen HaDaat" esteja disponível como opção; no caso excepcional de Yom Tov após Shabat, em que essa bênção está ausente, talvez todos concordassem que "Hodaá" é a única alternativa possível — daí ainda restar dúvida sobre se há realmente discordância nesse caso.

7Mas Rabi Akiva discorda!
Bavli · 33b — Guemará
וְהָא פְּלִיג רַבִּי עֲקִיבָא!

Mas Rabi Akiva discorda de ambos, propondo uma quarta bênção independente para a havdalá, opção que permaneceria disponível mesmo em Yom Tov após o Shabat!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
והא פליג ר' עקיבא – לומרה ברכה רביעית לעצמה ואצטרי' למימר הלכה כר"א לאפוקי מדר"ע:

"Mas Rabi Akiva discorda" — propondo dizê-la como quarta bênção independente; e por isso foi necessário dizer "a lei é como Rabi Eliezer", para excluir a opinião de Rabi Akiva mesmo neste caso excepcional.

Nota

A objeção mostra que existe, sim, uma terceira via ainda viável em Yom Tov após o Shabat — a proposta de Rabi Akiva de uma bênção independente, que não depende de "Choneen HaDaat" existir na Amidá — o que restaura a necessidade da afirmação "a lei é como Rabi Eliezer", agora entendida como exclusão específica de Rabi Akiva.

8Acaso o ano todo agimos como Rabi Akiva, que agora nos levantaríamos e agiríamos como ele?! O ano todo, por que não agimos como Rabi Akiva — porque instituíram dezoito e não instituíram dezenove; aqui também instituíram sete e não instituíram oito
Bavli · 33b — Guemará
אַטּוּ כׇּל הַשָּׁנָה כּוּלָּהּ מִי עָבְדִינַן כְּרַבִּי עֲקִיבָא, דְּהַשְׁתָּא נֵיקוּ וְנַעֲבֵיד כְּווֹתֵיהּ?! כׇּל הַשָּׁנָה כּוּלָּהּ מַאי טַעְמָא לָא עָבְדִינַן כְּרַבִּי עֲקִיבָא — דְּתַמְנֵי סְרֵי תַּקּוּן, תְּשַׁסְרֵי לָא תַּקּוּן. הָכָא נָמֵי, שָׁב תַּקּוּן תַּמְנֵי לָא תַּקּוּן.

Acaso o ano todo agimos como Rabi Akiva, que agora justamente neste caso excepcional nos levantaríamos e agiríamos como ele (acrescentando uma bênção nova)?! O ano todo, por que afinal não agimos como Rabi Akiva — porque os Sábios instituíram dezoito bênçãos na Amidá dos dias comuns, e não instituíram dezenove (a quarta bênção adicional de Rabi Akiva excederia esse número fixo). Aqui também na Amidá de Festa, instituíram sete bênçãos, e não instituíram oito (portanto tampouco aqui se acrescentaria uma bênção extra só para a havdalá).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
אטו כל השנה כולה מי עבדינן כר"ע דהשתא נעביד כותיה – דאצטריך למימר הלכה כר"א:

"Acaso o ano todo agimos como Rabi Akiva, que agora agiríamos como ele" — e por isso foi necessário dizer "a lei é como Rabi Eliezer" especificamente, excluindo Rabi Akiva também neste caso especial.

Nota

A Guemará rejeita a proposta de Rabi Akiva com um argumento estrutural: o número fixo de bênçãos — dezoito nos dias comuns, sete em Yom Tov — é um princípio rígido que não se altera nem mesmo em circunstâncias excepcionais; por isso, mesmo quando "Choneen HaDaat" está ausente, não se abre uma bênção extra, preferindo-se encaixar a havdalá em "Hodaá", já existente.

9Disse-lhe: não se disse "a lei", mas "inclinam-se"
Bavli · 33b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ: לָאו ״הֲלָכָה״ אִתְּמַר, אֶלָּא ״מַטִּין״ אִתְּמַר.

Disse-lhe Rabi Chiya bar Avin, corrigindo a citação anterior a Rabi Zeira: não se disse a palavra "a lei é" (halachá), mas disse-se "os sábios inclinam-se (matin) para a opinião de Rabi Eliezer, uma formulação mais branda que não decide definitivamente".

Nota

Rabi Chiya bar Avin retifica a própria citação: o termo técnico usado por Rabi Yochanan não foi a fórmula decisiva "halachá" (a lei é), mas a expressão mais cautelosa "matin" (inclinam-se), que sugere uma preferência prática sem fechar definitivamente a questão teórica.

10Pois foi dito: Rabi Yitzchak bar Avdimi disse em nome de nosso mestre: a lei; e alguns dizem: inclinam-se
Bavli · 33b — Guemará
דְּאִתְּמַר, רַבִּי יִצְחָק בַּר אַבְדִּימִי אָמַר מִשּׁוּם רַבֵּנוּ: הֲלָכָה, וְאָמְרִי לַהּ: מַטִּין.

Pois foi dito: Rabi Yitzchak bar Avdimi disse em nome de nosso mestre (Rabi Yehudá HaNassi): usa-se o termo "a lei é" como Rabi Eliezer neste caso; e alguns dizem que ele disse apenas: "inclinam-se".

Nota

Uma tradição paralela, atribuída a Rabi Yitzchak bar Avdimi em nome de Rabi Yehudá HaNassi, também apresenta essa mesma incerteza terminológica entre "halachá" e "matin" — mostrando que a ambiguidade não é exclusiva da citação de Rabi Zeira, mas percorre diferentes cadeias de transmissão.

11Rabi Yochanan disse: concordam. E Rabi Chiya bar Abba disse: parecem
Bavli · 33b — Guemará
רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: מוֹדִים. וְרַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר: נִרְאִין.

Rabi Yochanan disse: os sábios concordam (modim) com Rabi Eliezer quanto a este caso específico de Yom Tov após o Shabat. E Rabi Chiya bar Abba disse: as palavras dos sábios parecem (nir'in) corretas nesse caso, uma terceira variante terminológica.

Nota

Surge ainda uma terceira e quarta variantes terminológicas na transmissão desta mesma decisão — "modim" (concordam) e "nir'in" (parecem) — todas convergindo, apesar da diversidade vocabular, para a mesma conclusão prática: seguir Rabi Eliezer neste caso.

12Disse Rabi Zeira: toma em tua mão a versão de Rabi Chiya bar Abba, pois ele é preciso e aprende a tradição da boca de seu mestre com exatidão, como Rachava de Pumbedita
Bavli · 33b — Guemará
אָמַר רַבִּי זֵירָא: נְקוֹט דְּרַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא בִּידָךְ, דְּדָיֵיק וְגָמַר שְׁמַעְתָּא מִפּוּמָּא דְמָרַהּ שַׁפִּיר כְּרַחֲבָא דְפוּמְבְּדִיתָא.

Disse Rabi Zeira: toma em tua mão (retém como preferível) a versão de Rabi Chiya bar Abba, pois ele é preciso e aprende a tradição da boca de seu mestre com exatidão, como Rachava de Pumbedita.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
נקוט דר' חייא בר אבא בידך – שהוא מדקדק בלשון רבו וקובע בו סימנים שלא יתחלף לו נראין במטין או במודים: כרחבא – שהיה מדקדק בלשון רבו ואומר סטיו כפול היה ואע"פ שבלשון משנה קורהו אצטבא בפסחים ובסוכה על גב האצטבא הוא דקדק בלשון רבו ולא אמר אצטבא כפולה היתה יש פותרין הא דרחבא מדאמר ר' יהודה דדייק ספיקי דרבוותיה אי מדרבי יהודה אי מדרב יהודה וקשיא לי בגוה טובא חדא דרחבא לא ראה רבי יהודה מימיו לא רבי יהודה ברבי אלעאי ולא ר' יהודה נשיאה ועוד כולהו אמוראי נמי דייקו לומר דבר בשם אומרו ועוד ליכא למימר מהא דדייק לישנא דשמעתא אלא ספיקי דרבוותא:

"Toma em tua mão a versão de Rabi Chiya bar Abba" — porque ele é preciso na linguagem de seu mestre e fixa nela sinais para que não se confunda "nir'in" com "matin" ou com "modim". "Como Rachava" — que era preciso na linguagem de seu mestre e dizia "pórtico duplo era", e embora na linguagem da Mishná se chame de "banco" (itztabá) em Pessachim e em Suká, "sobre o banco", ele foi preciso na linguagem de seu mestre e não disse "banco duplo era". Há quem explique a expressão de Rachava a partir do que disse Rabi Yehudá — que ele era preciso nas dúvidas de seus mestres, se a tradição vinha de Rabi Yehudá ou de Rav Yehudá; mas isso me é muito difícil, pois, primeiro, Rachava nunca viu Rabi Yehudá em sua vida — nem Rabi Yehudá ben Rabi Elai, nem Rabi Yehudá Nessiá; e além disso, todos os amoraim também eram precisos em dizer as coisas em nome de quem as disse; e além disso, não há como explicar o caso a partir do fato de que ele era preciso na linguagem do ensinamento, senão nas dúvidas quanto aos mestres.

Nota

Rabi Zeira estabelece um critério de confiabilidade textual: prefere-se a versão de quem é meticuloso na transmissão exata das palavras do mestre — exemplificado por Rachava de Pumbedita, cuja precisão terminológica ("pórtico" em vez do termo usual "banco") ilustra o cuidado exigido para preservar com exatidão a linguagem original.

13Pois disse Rachava, disse Rabi Yehudá: o Monte do Templo era um pórtico duplo, e havia um pórtico dentro do outro pórtico
Bavli · 33b — Guemará
דְּאָמַר רַחֲבָא אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: הַר הַבַּיִת סְטָיו כָּפוּל הָיָה, וְהָיָה סְטָיו לְפָנִים מִסְּטָיו.

Pois disse Rachava, disse Rabi Yehudá: o Monte do Templo era um pórtico duplo (sitav kaful), e havia um pórtico dentro do outro pórtico.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
סטיו כפול – אצטבאות זו לפנים מזו בהיקף עגול לישב שם:

"Pórtico duplo" — bancos dispostos um dentro do outro, em círculo, para sentar-se ali.

Nota

A citação de Rachava, dada como exemplo de precisão terminológica, descreve a estrutura arquitetônica do Monte do Templo — pórticos concêntricos, dispostos um dentro do outro, formando bancos circulares para os que ali se sentavam.

14Disse Rav Yossef: eu não sei nem isto, nem aquilo, mas sei de Rav e Shmuel, que instituíram para nós a pérola na Babilônia
Bavli · 33b — Guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף: אֲנָא לָא הַאי יָדַעְנָא וְלָא הַאי יָדַעְנָא, אֶלָּא מִדְּרַב וּשְׁמוּאֵל יָדַעְנָא, דְּתַקִּינוּ לַן מַרְגָּנִיתָא בְּבָבֶל.

Disse Rav Yossef: eu não sei nem isto (a versão "modim") nem aquilo (a versão "nir'in"), mas sei a tradição transmitida de Rav e Shmuel, que instituíram para nós a pérola (a fórmula preciosa da havdalá) na Babilônia.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
לא האי ידענא כו' – לא נראין ולא מודים ולא מטים:

"Eu não sei nem isto etc." — nem "nir'in", nem "modim", nem "matin".

Nota

Rav Yossef declara sua incerteza quanto à formulação exata transmitida sobre Yom Tov após o Shabat, mas oferece, em vez disso, algo que ele sabe com certeza: o texto integral da fórmula de havdalá composta por Rav e Shmuel na Babilônia — a "pérola" que introduz o tópico seguinte.

A pérola de Rav e Shmuel: a origem de "Choneen HaDaat" · וַתּוֹדִיעֵנוּ ה׳ אֱלֹהֵינוּ

15"E fizeste-nos saber, Eterno nosso D'us, Teus justos juízos... Entre a santidade do Shabat e a santidade de Yom Tov Tu separaste..."
Bavli · 33b — Guemará (texto litúrgico)
״וַתּוֹדִיעֵנוּ ה׳ אֱלֹהֵינוּ אֶת מִשְׁפְּטֵי צִדְקֶךָ וַתְּלַמְּדֵנוּ לַעֲשׂוֹת חֻקֵּי רְצוֹנֶךָ, וַתַּנְחִילֵנוּ זְמַנֵּי שָׂשׂוֹן וְחַגֵּי נְדָבָה, וַתּוֹרִישֵׁנוּ קְדוּשַּׁת שַׁבָּת וּכְבוֹד מוֹעֵד וַחֲגִיגַת הָרֶגֶל. בֵּין קְדוּשַּׁת שַׁבָּת לִקְדוּשַּׁת יוֹם טוֹב הִבְדַּלְתָּ, וְאֶת יוֹם הַשְּׁבִיעִי מִשֵּׁשֶׁת יְמֵי הַמַּעֲשֶׂה קִדַּשְׁתָּ. הִבְדַּלְתָּ וְקִדַּשְׁתָּ אֶת עַמְּךָ יִשְׂרָאֵל בִּקְדוּשָּׁתֶךָ. וַתִּתֶּן לָנוּ וְכוּ׳״.

"E fizeste-nos saber, Eterno nosso D'us, Teus justos juízos, e ensinaste-nos a cumprir os estatutos de Tua vontade, e nos deste em herança tempos de alegria e festas de generosidade, e nos legaste a santidade do Shabat, a glória da Festa (moed) e a celebração da Peregrinação (regel). Entre a santidade do Shabat e a santidade de Yom Tov Tu separaste, e o sétimo dia Tu santificaste dentre os seis dias de trabalho. Separaste e santificaste Teu povo Israel com Tua santidade. E deste-nos, etc. (fórmula que prossegue conforme a ocasião)".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
ותודיענו – לומר במקום ותתן לנו ולכשיגיע בין קדושת שבת לקדושת י"ט וכו' הבדלת וקדשת את עמך ישראל בקדושתך יאמר ותתן לנו ה' אלהינו מועדים לשמחה וכו' ומסיים מקדש ישראל והזמנים:

"E fizeste-nos saber" — deve-se dizer esta fórmula no lugar onde normalmente se diria "e deste-nos"; e quando chegar a "entre a santidade do Shabat e a santidade de Yom Tov, etc., separaste e santificaste Teu povo Israel com Tua santidade", dirá em seguida: "e deste-nos, Eterno nosso D'us, festas para alegria, etc.", e conclui a bênção com a fórmula "que santifica Israel e as épocas (festivas)".

Nota

Esta é a "pérola" mencionada por Rav Yossef: o texto completo, ainda hoje recitado, da havdalá inserida na Amidá quando Yom Tov cai imediatamente após o Shabat — composta por Rav e Shmuel na Babilônia, articulando com precisão poética a distinção entre a santidade do Shabat e a de Yom Tov, ambas contudo santidades de Israel.

הָאוֹמֵר עַל קַן צִפּוֹר יַגִּיעוּ רַחֲמֶיךָ

Encerra-se aqui a sugya da havdalá, unidade central da Mishná aberta em 33a. Abre-se agora uma nova Mishná sobre orações incorretas que levam a silenciar o oficiante — "sobre o ninho do pássaro", "por Teu bem" e "modim, modim".

Nova Mishná: "sobre o ninho do pássaro" e "modim, modim" · מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ

16Mishná: aquele que diz "sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias", e "por Teu bem seja lembrado Teu nome", "modim, modim" — silenciam-no
Bavli · 33b — Mishná
הָאוֹמֵר: ״עַל קַן צִיפּוֹר יַגִּיעוּ רַחֲמֶיךָ״, וְ״עַל טוֹב יִזָּכֵר שְׁמֶךָ״, ״מוֹדִים, מוֹדִים״ — מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ.

Aquele que diz em sua oração: "sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias" (referindo-se ao mandamento de afugentar a mãe antes de tomar os filhotes ou os ovos, Devarim 22:6-7), e "por Teu bem seja lembrado Teu nome" (mencionando apenas o bem, e não o mal), ou quem repete "modim, modim" ("agradecemos, agradecemos", duas vezes) — silenciam-no.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 33b
מתני' האומר – בתפלתו: על קן צפור יגיעו רחמיך – אנשים שהיו מראים עצמם כמתכונים להעמיק בלשון תחנונים ואומרים רחום וחנון אתה ועל קן צפור יגיעו רחמיך שאמרת לשלח את האם או שאומר על טוב שאתה עושה לנו יזכר שמך או שאומר מודים מודים משתקין אותו:

"Aquele que diz" — em sua oração. "Sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias" — refere-se a homens que se mostravam como se pretendessem aprofundar-se na linguagem de súplicas, e diziam: "misericordioso e clemente és Tu, e sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias, que ordenaste enviar embora a mãe antes de tomar os filhotes"; ou quem diz "por Teu bem que fazes por nós seja lembrado Teu nome"; ou quem diz "modim, modim" — silenciam-no.

Nota

Uma nova Mishná trata de três fórmulas de oração aparentemente piedosas, mas problemáticas, que levam a silenciar quem as pronuncia — a Guemará examinará a razão de cada uma separadamente, revelando problemas teológicos distintos por trás de cada expressão.

17Guemará: está bem, "modim, modim" silenciam-no, porque parece como duas autoridades. E "por Teu bem seja lembrado Teu nome" também, pois implica sobre o bem e não sobre o mal — e ensinamos: o homem é obrigado a abençoar sobre o mal como abençoa sobre o bem. Mas "sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias", qual a razão?
Bavli · 33b — Guemará
בִּשְׁלָמָא, ״מוֹדִים, מוֹדִים״ מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ — מִשּׁוּם דְּמֶיחְזֵי כִּשְׁתֵּי רָשׁוּיוֹת. וְ״עַל טוֹב יִזָּכֵר שְׁמֶךָ״ נָמֵי, מַשְׁמַע עַל הַטּוֹבָה וְלֹא עַל הָרָעָה, וּתְנַן: חַיָּיב אָדָם לְבָרֵךְ עַל הָרָעָה כְּשֵׁם שֶׁמְּבָרֵךְ עַל הַטּוֹבָה. אֶלָּא ״עַל קַן צִפּוֹר יַגִּיעוּ רַחֲמֶיךָ״ מַאי טַעְמָא?

Está bem, "modim, modim" silenciam-no — porque parece como duas autoridades (como se estivesse se dirigindo a duas divindades, uma dualidade herética). E "por Teu bem seja lembrado Teu nome" também se entende, pois implica agradecer apenas sobre o bem e não sobre o mal — e ensinamos em outro lugar: o homem é obrigado a abençoar sobre o mal, tal como abençoa sobre o bem. Mas "sobre o ninho do pássaro se estendem Tuas misericórdias", qual a razão de ser proibido, já que parece uma expressão genuína e bela de piedade?

Nota

A Guemará considera óbvias as razões das duas primeiras proibições — o risco de dualismo teológico em "modim, modim", e a violação da regra de abençoar igualmente o bem e o mal em "por Teu bem" —, mas levanta uma pergunta genuína sobre a terceira: por que proibir uma expressão de compaixão pelo ninho do pássaro, que parece apenas louvável?

18Discordam nisso dois amoraim do ocidente, Rabi Yossei bar Avin e Rabi Yossei bar Zevida: um diz: porque lança inveja na obra da Criação. E um diz: porque transforma os atributos do Santo, bendito seja, em misericórdia, quando não são senão decretos
Bavli · 33b — Guemará
פְּלִיגִי בַּהּ תְּרֵי אָמוֹרָאֵי בְּמַעְרְבָא, רַבִּי יוֹסֵי בַּר אָבִין וְרַבִּי יוֹסֵי בַּר זְבִידָא: חַד אָמַר: מִפְּנֵי שֶׁמֵּטִיל קִנְאָה בְּמַעֲשֵׂה בְּרֵאשִׁית. וְחַד אָמַר: מִפְּנֵי שֶׁעוֹשֶׂה מִדּוֹתָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא רַחֲמִים, וְאֵינָן אֶלָּא גְּזֵרוֹת.

Discordam nisso dois amoraim do ocidente (Terra de Israel), Rabi Yossei bar Avin e Rabi Yossei bar Zevida: um diz: proíbe-se porque lança inveja na obra da Criação (sugerindo que D'us teve piedade apenas dessa criatura, e não das demais). E um diz: proíbe-se porque transforma os atributos do Santo, bendito seja, em misericórdia arbitrária, sujeita a explicação humana, quando não são senão decretos (gezerot, mandamentos cuja razão não cabe ao homem racionalizar).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
גמ' שמטיל קנאה – לומר על אלה חס ולא על שאר בריותיו: מדותיו – מצותיו והוא לא לרחמים עשה אלא להטיל על ישראל חקי גזרותיו להודיע שהם עבדיו ושומרי מצותיו וגזרות חקותיו אף בדברים שיש לשטן ולעכו"ם להשיב עליהם ולומר מה צורך במצוה זו:

"Porque lança inveja" — como quem diz que sobre estas criaturas específicas D'us teve piedade, e não sobre as demais criaturas. "Seus atributos" — refere-se a Seus mandamentos; e Ele não os fez por misericórdia, mas para impor sobre Israel os estatutos de Seus decretos, para dar a conhecer que eles são Seus servos e guardam Seus mandamentos e os decretos de Seus estatutos — inclusive em coisas sobre as quais o Satan e os idólatras têm o que objetar, dizendo: qual a necessidade deste mandamento?

Nota

As duas explicações revelam preocupações teológicas distintas: a primeira teme que a fórmula sugira favoritismo divino entre as criaturas, comprometendo a justiça universal da Criação; a segunda teme que ela racionalize um decreto divino (chok) — cuja obediência deveria vir da submissão pura, e não de uma suposta lógica de compaixão que o homem possa compreender e, portanto, questionar quando não a entender.

19Um que desceu diante de Rabá e disse: Tu tiveste piedade do ninho do pássaro, tem piedade e misericórdia de nós! Disse Rabá: quanto sabe este erudito apaziguar seu Senhor! Disse-lhe Abaie: mas ensinamos que silenciam-no!
Bavli · 33b — Guemará
הַהוּא דִּנְחֵית קַמֵּיהּ דְּרַבָּה וַאֲמַר: אַתָּה חַסְתָּ עַל קַן צִפּוֹר, אַתָּה חוּס וְרַחֵם עָלֵינוּ. אֲמַר רַבָּה: כַּמָּה יָדַע הַאי צוּרְבָּא מֵרַבָּנָן לְרַצּוֹיֵי לְמָרֵיהּ! אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: וְהָא מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ תְּנַן!

Houve um oficiante que desceu para liderar a oração diante de Rabá e disse: Tu tiveste piedade do ninho do pássaro, Tu tem piedade e misericórdia de nós! Disse Rabá: quanto sabe este jovem erudito (tzurba meRabanan) apaziguar seu Senhor! Disse-lhe Abaie: mas ensinamos na Mishná que silenciam-no quem diz tal coisa!

Nota

Um episódio real ilustra a tensão: Rabá, ouvindo um jovem estudioso invocar espontaneamente a piedade do ninho do pássaro como argumento para pedir misericórdia geral, elogia sua habilidade retórica de apaziguar D'us — até que Abaie lhe lembra que a própria Mishná prescreve silenciar exatamente esse tipo de formulação.

20E também Rabá, era para aguçar Abaie que ele quis
Bavli · 33b — Guemará
וְרַבָּה נָמֵי, לְחַדּוֹדֵי אַבָּיֵי הוּא דְּבָעֵי.

E também Rabá, era para aguçar o raciocínio de Abaie que ele quis elogiar o oficiante — um teste pedagógico deliberado, não uma aprovação genuína da fórmula proibida.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
ורבה נמי לחדודי לאביי הוא דבעי – שישיב לו מה שהשיב:

"E também Rabá, era para aguçar Abaie que ele quis" — para que Abaie lhe respondesse o que respondeu.

Nota

A Guemará esclarece a intenção pedagógica de Rabá: seu elogio inicial não era uma aprovação sincera da fórmula proibida, mas um estímulo deliberado para testar e afiar o raciocínio crítico de seu aluno Abaie, que corretamente identificou o problema halachico.

21Um que desceu diante de Rabi Chanina, e disse: "o D'us grande, poderoso e temível, o majestoso, o forte, o temível, o vigoroso, o certo e o honrado"
Bavli · 33b — Guemará
הַהוּא דִּנְחֵית קַמֵּיהּ דְּרַבִּי חֲנִינָא, אֲמַר ״הָאֵל הַגָּדוֹל הַגִּבּוֹר וְהַנּוֹרָא וְהָאַדִּיר וְהָעִזּוּז וְהַיָּראוּי, הֶחָזָק וְהָאַמִּיץ וְהַוַּדַּאי וְהַנִּכְבָּד״.

Houve um oficiante que desceu para liderar a oração diante de Rabi Chanina, e disse: "o D'us grande, poderoso e temível, o majestoso, o forte, o temível (repetido), o vigoroso, o certo e o honrado" (multiplicando epítetos divinos muito além da fórmula fixa "o D'us grande, poderoso e temível").

Nota

Um segundo episódio semelhante narra um oficiante que, buscando exaltar ainda mais a Divindade, acumula uma longa lista de epítetos elogiosos muito além da fórmula tradicional fixa da primeira bênção da Amidá — preparando a repreensão que se segue.

22Esperou até que terminasse. Quando terminou, disse-lhe: terminaste todos os louvores de teu Senhor? Para que te serve tudo isso? Nós, esses três que dizemos, se não fosse que Moshé nosso mestre os disse na Torá, e vieram os Homens da Grande Assembleia e os instituíram na oração, não poderíamos dizê-los, e tu dizes tudo isso e vais adiante!
Bavli · 33b — Guemará
הִמְתִּין לוֹ עַד דְּסַיֵּים. כִּי סַיֵּים אֲמַר לֵיהּ: סַיֵּימְתִּינְהוּ לְכוּלְּהוּ שִׁבְחֵי דְמָרָךְ?! לְמָה לִי כּוּלֵּי הַאי? אֲנַן, הָנֵי תְּלָת דְּאָמְרִינַן אִי לָאו דְּאַמְרִינְהוּ מֹשֶׁה רַבֵּנוּ בְּאוֹרָיְיתָא, וַאֲתוֹ אַנְשֵׁי כְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה וְתַקְּנִינְהוּ בִּתְפִלָּה — לָא הֲוֵינַן יְכוֹלִין לְמֵימַר לְהוּ, וְאַתְּ אָמְרַתְּ כּוּלֵּי הַאי וְאָזְלַתְּ! מָשָׁל לְמֶלֶךְ בָּשָׂר וָדָם שֶׁהָיוּ לוֹ אֶלֶף אֲלָפִים דִּינְרֵי זָהָב, וְהָיוּ מְקַלְּסִין אוֹתוֹ בְּשֶׁל כֶּסֶף. וַהֲלֹא גְּנַאי הוּא לוֹ!

Rabi Chanina esperou por ele até que terminasse. Quando terminou, disse-lhe: terminaste todos os louvores de teu Senhor?! Para que me serve a ti tudo isso? Nós, esses três epítetos que dizemos ("o D'us grande, poderoso e temível"), se não fosse que Moshé nosso mestre os disse na Torá (Devarim 10:17), e vieram os Homens da Grande Assembleia e os instituíram na oração (quando Ezra orou pelos exilados, Nechemiá 9), não poderíamos sequer dizê-los por conta própria, e tu dizes tudo isso e vais adiante acrescentando ainda mais! Uma parábola: a um rei de carne e osso que possuía mil milhares de dinares de ouro, e o louvavam por possuir apenas dinares de prata. E acaso isso não é uma desonra para ele?!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
אי לאו דאמרינהו משה – האל הגדול הגבור והנורא אשר לא ישא פנים ולא יקח שוחד (דברים י׳:י״ז): ותקנינהו בתפלה – כשהתפלל עזרא על מעל הגולה בספר עזרא (נחמיה ט):

"Se não fosse que Moshé os disse" — a fórmula "o D'us grande, poderoso e temível, que não faz distinção de pessoas nem aceita suborno" (Devarim 10:17). "E os instituíram na oração" — quando Ezra orou sobre a transgressão dos exilados, no livro de Ezra (Nechemiá 9).

Nota

A repreensão de Rabi Chanina estabelece um princípio fundamental sobre os limites do louvor humano a D'us: mesmo os três epítetos fixos da primeira bênção só são permitidos porque têm base bíblica direta (Moshé) e institucional (os Homens da Grande Assembleia); qualquer acréscimo humano além disso, por mais bem-intencionado, empobrece paradoxalmente a majestade divina — como elogiar um rei riquíssimo por possuir apenas prata.

23E disse Rabi Chanina: tudo está nas mãos do Céu, exceto o temor do Céu, como está dito: "e agora, Israel, o que o Eterno teu D'us pede de ti, senão que temas..."
Bavli · 33b — Guemará
וְאָמַר רַבִּי חֲנִינָא: הַכֹּל בִּידֵי שָׁמַיִם, חוּץ מִיִּרְאַת שָׁמַיִם. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעַתָּה יִשְׂרָאֵל מָה ה׳ אֱלֹהֶיךָ שׁוֹאֵל מֵעִמָּךְ כִּי אִם לְיִרְאָה״.

E disse Rabi Chanina: tudo está nas mãos do Céu, exceto o temor do Céu, como está dito: "e agora, Israel, o que o Eterno teu D'us pede de ti, senão que temas ao Eterno teu D'us" (Devarim 10:12 — o temor a D'us é deixado à livre escolha humana, ao contrário de tudo o mais).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
הכל בידי שמים – כל הבא על האדם ביד הקב"ה הוא כגון ארוך קצר עני עשיר חכם שוטה לבן שחור הכל בידי שמים הוא אבל צדיק ורשע אינו בא על ידי שמים את זו מסר בידו של אדם ונתן לפניו שני דרכים והוא יבחר לו יראת שמים:

"Tudo está nas mãos do Céu" — tudo o que acontece ao homem está na mão do Santo, bendito seja: ser alto, baixo, pobre, rico, sábio, tolo, branco, negro — tudo está nas mãos do Céu; mas ser justo ou ímpio não vem pelas mãos do Céu — isto D'us entregou nas mãos do homem, e colocou diante dele dois caminhos, e ele escolherá para si o temor do Céu.

Nota

Este ensinamento célebre de Rabi Chanina, aqui inserido a partir do mesmo contexto do versículo citado na peça anterior, estabelece um dos princípios centrais do livre-arbítrio na tradição rabínica: as circunstâncias externas da vida são determinadas pela Providência, mas a escolha moral e espiritual fundamental — temer ou não a D'us — permanece inteiramente na esfera da liberdade humana.

24Mas o temor do Céu é coisa pequena?! Mas disse Rabi Chanina em nome de Rabi Shimon ben Yochai: o Santo, bendito seja, não tem em Sua casa de tesouros senão um tesouro de temor do Céu, como está dito: "o temor do Eterno é seu tesouro"!
Bavli · 33b — Guemará
אַטּוּ יִרְאַת שָׁמַיִם מִילְּתָא זוּטַרְתָּא הִיא? וְהָאָמַר רַבִּי חֲנִינָא מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: אֵין לוֹ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּבֵית גְּנָזָיו אֶלָּא אוֹצָר שֶׁל יִרְאַת שָׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר ״יִרְאַת ה׳ הִיא אוֹצָרוֹ״.

Mas o temor do Céu é coisa pequena (zutrata, de somenos importância), a ponto de ser deixado inteiramente à escolha humana sem ajuda Divina?! Mas disse Rabi Chanina em nome de Rabi Shimon ben Yochai: o Santo, bendito seja, não tem em Sua casa de tesouros senão um tesouro de temor do Céu, como está dito: "o temor do Eterno é seu tesouro" (Yeshaiáhu 33:6 — sinal de que é o bem mais precioso e raro, dificilmente algo "pequeno")!

Nota

Uma objeção interna confronta a própria formulação de Rabi Chanina: se o temor do Céu é apresentado como a única coisa "excetuada" das mãos do Céu — implicando que é algo menor, mais fácil de se conseguir sozinho — isso contradiz outro ensinamento do mesmo Rabi Chanina, que descreve o temor do Céu como o tesouro mais precioso e raro de D'us.

25Sim, para Moshé é coisa pequena. Pois disse Rabi Chanina: uma parábola: a um homem a quem pedem um utensílio grande, e ele o tem — parece-lhe como um utensílio pequeno. Um pequeno, e não o tem — parece-lhe como um utensílio grande
Bavli · 33b — Guemará
אִין, לְגַבֵּי מֹשֶׁה מִילְּתָא זוּטַרְתָּא הִיא. דְּאָמַר רַבִּי חֲנִינָא: מָשָׁל לְאָדָם שֶׁמְבַקְּשִׁים מִמֶּנּוּ כְּלִי גָּדוֹל, וְיֵשׁ לוֹ — דּוֹמֶה עָלָיו כִּכְלִי קָטָן. קָטָן, וְאֵין לוֹ — דּוֹמֶה עָלָיו כִּכְלִי גָּדוֹל.

Sim, é verdade que objetivamente o temor do Céu é imenso, mas para Moshé (que já o possuía em grau elevadíssimo) é coisa pequena — um jogo de perspectiva subjetiva, não uma desvalorização objetiva. Pois disse Rabi Chanina: uma parábola: a um homem a quem pedem um utensílio grande, e ele o tem — parece-lhe como um utensílio pequeno (por já possuí-lo com facilidade). A um homem a quem pedem um utensílio pequeno, e não o tem — parece-lhe como um utensílio grande (por lhe faltar, mesmo sendo objetivamente modesto).

Nota

A resolução da contradição é psicológica, não teológica: o versículo de Devarim é dirigido a Moshé, cujo próprio nível espiritual tornava o temor do Céu algo relativamente acessível — daí parecer "pequeno" em sua boca —, mas isso não diminui seu valor objetivo e imenso para a generalidade das pessoas, tal como um objeto parece pequeno a quem já o possui e grande a quem dele carece.

"Modim, modim": duas autoridades · כִּשְׁתֵּי רָשׁוּיוֹת

26"Modim, modim" — silenciam-no
Bavli · 33b — Guemará (citação da Mishná)
״מוֹדִים מוֹדִים״ מְשַׁתְּקִין אוֹתוֹ.

"Modim, modim" (agradecemos, agradecemos) — silenciam-no (retomando a terceira cláusula da Mishná para nova elaboração).

Nota

A Guemará retorna à terceira cláusula da Mishná — já explicada resumidamente antes (unidade 17) como sugerindo "duas autoridades" — para uma discussão mais ampla sobre repetições de fórmulas litúrgicas em geral.

27Disse Rabi Zeira: todo aquele que diz "Shema, Shema" é como quem diz "modim, modim"
Bavli · 33b — Guemará
אָמַר רַבִּי זֵירָא: כׇּל הָאוֹמֵר ״שְׁמַע שְׁמַע״ — כְּאוֹמֵר ״מוֹדִים מוֹדִים״ דָּמֵי.

Disse Rabi Zeira: todo aquele que diz "Shema, Shema" (repetindo o primeiro versículo do Shemá duas vezes) é como quem diz "modim, modim" — assemelha-se a ele, sujeito à mesma objeção de dualismo.

Nota

Rabi Zeira estende o princípio da Mishná para além da bênção "Modim": qualquer repetição desnecessária de uma declaração fundamental de fé — inclusive o próprio Shemá, a declaração central da unidade divina — corre o mesmo risco de parecer sugerir dualidade, ironicamente comprometendo a própria mensagem de unicidade que pretende afirmar.

28Objetaram: aquele que lê o Shemá e o dobra é repreensível! É repreensível que é, mas silenciam-no não silenciamos!
Bavli · 33b — Guemará
מֵיתִיבִי: הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע וְכוֹפְלָהּ — הֲרֵי זֶה מְגוּנֶּה. מְגוּנֶּה הוּא דְּהָוֵי, שַׁתּוֹקֵי לָא מְשַׁתְּקִינַן לֵיהּ!

Objetaram contra Rabi Zeira: aquele que lê o Shemá e o dobra (repete) — eis que é repreensível (meguné, censurável, mas não proibido a ponto de ser silenciado)! Conclui-se, portanto, que repreensível é que ele é, mas silenciam-no não silenciamos — contradizendo a equiparação de Rabi Zeira com "modim, modim"!

Nota

A objeção observa uma diferença de grau nas fontes: enquanto "modim, modim" leva à sanção mais severa de ser silenciado, repetir o Shemá é descrito em outra baraita apenas como "repreensível" — uma reprovação mais branda, sem a interrupção forçada, o que parece contradizer a equiparação total feita por Rabi Zeira.

29Não é difícil: esta, quando diz palavra por palavra e a repete; e esta, quando diz versículo por versículo e o repete
Bavli · 33b — Guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא, דְּאָמַר מִילְּתָא מִילְּתָא וְתָנֵי לַהּ. וְהָא, דְּאָמַר פְּסוּקָא פְּסוּקָא וְתָנֵי לֵיהּ.

Não é difícil (a contradição se resolve): esta (a baraita mais branda, "repreensível"), refere-se a quem diz palavra por palavra e a repete (cada palavra do versículo, individualmente); e esta (a Mishná mais severa, "silenciam-no"), refere-se a quem diz versículo por versículo e o repete inteiro, de uma vez.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 33b
מילתא מילתא ותני לה – כל תיבה ותיבה חוזר ושונה מגונה הוי שתוקי לא משתקינן ליה שאין זה דומה למקבל עליו שתי מלכיות אלא למתלוצץ אמר פסוק שלם ותני ליה משתקינן ליה דמחזי כשתי רשויות:

"Palavra por palavra e a repete" — refere-se a quem, em cada palavra e palavra, volta e repete individualmente; isso é repreensível, mas silenciar não o silenciamos, pois isso não se assemelha a quem aceita sobre si duas realezas, mas apenas a quem zomba (sem intenção herética real). Mas quem disse o versículo inteiro e o repetiu — silenciam-no, pois isso parece como duas autoridades.

Nota

A distinção é sutil mas crucial: repetir palavra por palavra soa como uma bobagem ou brincadeira sem intenção teológica séria — meramente "repreensível"; mas repetir o versículo inteiro completo, com sua afirmação plena de fé, soa como se o orante estivesse conscientemente professando duas divindades separadas, justificando a sanção mais severa de ser silenciado.

30Disse-lhe Rav Papa a Abaie: e talvez de início não tivesse dirigido sua intenção, e por fim tivesse dirigido sua intenção?
Bavli · 33b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְאַבָּיֵי: וְדִילְמָא מֵעִיקָּרָא לָא כַּוֵּון דַּעְתֵּיהּ, וּלְבַסּוֹף כַּוֵּון דַּעְתֵּיהּ?

Disse-lhe Rav Papa a Abaie: e talvez, quanto a quem repete o versículo inteiro, de início não tivesse dirigido sua intenção (não tivesse tido kavaná adequada na primeira leitura), e por fim na repetição tivesse dirigido sua intenção — nesse caso, por que silenciá-lo, já que a repetição teria propósito legítimo e não heresia?

Nota

Rav Papa desafia a distinção anterior com um caso alternativo legítimo: talvez a pessoa não estivesse repetindo por dualismo teológico, mas simplesmente porque não conseguiu concentrar-se adequadamente na primeira leitura e quis repeti-la com a devida intenção — motivo perfeitamente aceitável que não deveria acarretar silenciamento.

31Disse-lhe: (resposta de Abaie, a concluir no próximo daf)
Bavli · 33b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ:

Disse-lhe Abaie a Rav Papa — a resposta prossegue no início do daf seguinte, 34a.

Nota

O daf termina em suspenso, no meio da troca entre Rav Papa e Abaie sobre a possibilidade de repetição legítima do Shemá por falta de concentração inicial — a resposta de Abaie, e a conclusão desse ponto, abrem o daf 34a.