Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Vav (Ketzad Mevarchin)
מָעַל

Desfrutar sem bênção é apropriação indevida do consagrado; Torá e trabalho nas gerações; e por que o vinho, mas não o azeite, ganhou bênção própria

Berachot 35b

Continuando diretamente de 35a, o daf resolve a contradição entre os dois versículos sobre a posse da terra — antes da bênção ela é do Eterno, depois dela passa ao homem — e desenvolve, com Rabi Chananiá bar Papa, a ideia de que desfrutar sem bênção é como roubar a D'us e à Comunidade de Israel, comparando o transgressor a Yeravam ben Nevat. Segue-se a célebre disputa entre Rabi Yishmael (dedicar-se também ao trabalho) e Rabi Shimon bar Yochai (dedicar-se só à Torá, confiando que o trabalho será feito por outros), com o veredito de Abaie de que a via de Rabi Yishmael teve mais sucesso prático, o pedido de Rava aos sábios para não comparecerem ao estudo em certas épocas agrícolas, e a distinção entre as gerações antigas e as recentes quanto ao equilíbrio entre Torá e labor, e quanto ao costume de trazer os frutos pelos telhados para escapar do dízimo. O daf então retorna à Mishná e abre uma extensa sugya sobre por que o vinho tem bênção própria ("borê perí hagáfen") e o azeite não, envolvendo Mar Zutra ("o vinho sustenta, o azeite não"), a definição de "mazon", a diferença entre "sustentar" e "alegrar", o costume de Rava de beber vinho na véspera de Pêssach, e conclui com a baraita de que o azeite de oliva puro recebe "borê perí haêts" — mas apenas quando comido com pão, abrindo a última discussão sobre o item "principal" e o "acessório" na bênção, interrompida ao final do daf pela menção do "anigueron".

Antes e depois da bênção: de quem é a terra · לַה׳ הָאָרֶץ וּמְלוֹאָהּ

1Aqui, depois da bênção
Bavli · 35b — Guemará
כָּאן לְאַחַר בְּרָכָה.

Aqui (o versículo "os céus são céus do Eterno, e a terra Ele deu aos filhos do homem"), refere-se a depois da bênção.

Nota

Completa-se aqui a frase iniciada ao final de 35a: a contradição entre "do Eterno é a terra e sua plenitude" e "a terra Ele deu aos filhos do homem" resolve-se distinguindo o momento. Antes de abençoar, o alimento ainda pertence ao domínio Divino, e dele desfrutar é uma apropriação indevida; depois de abençoar, ele passa à posse legítima do homem.

2Disse Rabi Chananiá bar Papa: todo que desfruta deste mundo sem bênção, é como se roubasse a D'us e à Comunidade de Israel
Bavli · 35b — Guemará
אָמַר רַבִּי חֲנִינָא בַּר פָּפָּא: כׇּל הַנֶּהֱנֶה מִן הָעוֹלָם הַזֶּה בְּלֹא בְּרָכָה כְּאִילּוּ גּוֹזֵל לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וּכְנֶסֶת יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גּוֹזֵל אָבִיו וְאִמּוֹ וְאוֹמֵר אֵין פָּשַׁע חָבֵר הוּא לְאִישׁ מַשְׁחִית״. וְאֵין ״אָבִיו״ אֶלָּא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֲלֹא הוּא אָבִיךְ קָּנֶךָ״, וְאֵין ״אִמּוֹ״ אֶלָּא כְּנֶסֶת יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׁמַע בְּנִי מוּסַר אָבִיךָ וְאַל תִּטּוֹשׁ תּוֹרַת אִמֶּךָ״.

Disse Rabi Chananiá bar Papa: todo que desfruta deste mundo sem bênção, é como se roubasse ao Santo, bendito seja, e à Comunidade de Israel (Kenéset Yisrael), como está dito: "quem rouba a seu pai e a sua mãe e diz: não é transgressão — esse é companheiro de um homem destruidor" (Mishlê 28:24). E "seu pai" não é senão o Santo, bendito seja, como está dito: "acaso não é Ele teu pai, que te adquiriu?" (Devarim 32:6). E "sua mãe" não é senão a Comunidade de Israel, como está dito: "ouve, meu filho, a instrução de teu pai, e não abandones a Torá de tua mãe" (Mishlê 1:8).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
גוזל להקב"ה – את ברכתו: וכנסת ישראל – שכשחטאו הפירות לוקין: אין פשע – ולפי שהוא מיקל רואים האחרים ולמדין ממנו לעשות כן ליהנות מן העולם בלא ברכה ולכך נקרא זה המיקל חבר לאיש משחית:

"Rouba ao Santo, bendito seja" — sua bênção. "E à Comunidade de Israel" — pois quando os filhos de Israel pecam, os frutos da terra são castigados. "Não é transgressão" — e porque ele trata o assunto com leviandade, os outros o observam e aprendem dele a fazer o mesmo, a desfrutar deste mundo sem bênção; e por isso este que assim o trata com leviandade se chama companheiro de um homem destruidor.

Nota

Rabi Chananiá bar Papa amplia a gravidade do ato: além de apropriação indevida do consagrado, desfrutar sem bênção é comparado ao roubo de pai e mãe — o Santo, bendito seja, e a Comunidade de Israel —, cujos frutos sofrem quando o povo peca. Rashi explica que a leviandade do transgressor tem efeito multiplicador, pois outros aprendem com seu exemplo.

3O que significa "companheiro de um homem destruidor"? Disse Rabi Chananiá bar Papa: é companheiro de Yeravam ben Nevat, que destruiu a Israel diante de seu Pai nos céus
Bavli · 35b — Guemará
מַאי ״חָבֵר הוּא לְאִישׁ מַשְׁחִית״? אָמַר רַבִּי חֲנִינָא בַּר פָּפָּא: חָבֵר הוּא לְיָרׇבְעָם בֶּן נְבָט שֶׁהִשְׁחִית אֶת יִשְׂרָאֵל לַאֲבִיהֶם שֶׁבַּשָּׁמַיִם.

O que significa "companheiro de um homem destruidor"? Disse Rabi Chananiá bar Papa: é companheiro de Yeravam ben Nevat, que destruiu a relação de Israel com seu Pai que está nos céus.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
לירבעם בן נבט – שחטא והחטיא את ישראל כך הוא חוטא ומחטיא:

"A Yeravam ben Nevat" — que pecou e fez Israel pecar; assim também este peca e faz outros pecar.

Nota

A comparação final identifica quem desfruta sem bênção com leviandade a Yeravam ben Nevat, o rei que não apenas pecou, mas induziu todo o povo de Israel ao pecado — o paradigma bíblico de quem corrompe os outros pelo próprio exemplo.

Torá e trabalho: a contradição sobre "recolherás teu grão" · וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ

4Rabi Chananiá bar Papa contrapôs: está escrito "e tomarei Meu grão a seu tempo", e está escrito "e recolherás teu grão"
Bavli · 35b — Guemará
רַבִּי חֲנִינָא בַּר פָּפָּא רָמֵי: כְּתִיב ״וְלָקַחְתִּי דְגָנִי בְּעִתּוֹ וְגוֹ׳״, וּכְתִיב ״וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ וְגוֹ׳״.

Rabi Chananiá bar Papa contrapôs dois versículos aparentemente contraditórios: está escrito "e tomarei Meu grão a seu tempo, e Meu vinho em sua estação etc." (Hoshea 2:11, sugerindo que D'us mesmo recolhe a colheita), e está escrito "e recolherás teu grão, e teu mosto, e teu azeite" (Devarim 11:14, sugerindo que é o próprio homem quem recolhe).

Nota

Nova contradição escritural: um versículo atribui a D'us o próprio ato de "tomar" a colheita, outro manda o homem "recolher" seu grão com as próprias mãos — levantando a questão de como se harmonizam trabalho humano e providência Divina.

5Não é difícil: aqui, quando Israel faz a vontade do Onipresente; ali, quando Israel não faz a vontade do Onipresente
Bavli · 35b — Guemará
לָא קַשְׁיָא: כָּאן בִּזְמַן שֶׁיִּשְׂרָאֵל עוֹשִׂין רְצוֹנוֹ שֶׁל מָקוֹם, כָּאן בִּזְמַן שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין רְצוֹנוֹ שֶׁל מָקוֹם.

Não é difícil a contradição: aqui ("e recolherás teu grão"), refere-se a quando Israel faz a vontade do Onipresente (HaMakom); aqui ("e tomarei Meu grão"), refere-se a quando Israel não faz a vontade do Onipresente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
בזמן שעושין רצונו – הדגן שלהם וכשאין עושים רצונו נוטלו ומראה להם שהוא שלו:

"Quando fazem Sua vontade" — o grão é deles; e quando não fazem Sua vontade, Ele o toma de volta e mostra-lhes que na verdade é Seu.

Nota

A resolução: a posse do grão pelo homem não é absoluta, mas condicional ao mérito de Israel. Quando o povo faz a vontade Divina, o grão permanece à sua disposição como se fosse propriedade própria; quando não a faz, D'us reafirma Sua posse última sobre a colheita, retirando-a ou tornando-a escassa.

6Ensinaram os sábios: "e recolherás teu grão" — que veio ensinar? Porque foi dito "não se apartará este livro da Torá de tua boca": conduze-te neles conforme o costume do mundo — palavras de Rabi Yishmael
Bavli · 35b — Guemará (baraita)
תָּנוּ רַבָּנַן: ״וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ״ מָה תַּלְמוּד לוֹמַר? — לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֹא יָמוּשׁ סֵפֶר הַתּוֹרָה הַזֶּה מִפִּיךָ״ — יָכוֹל דְּבָרִים כִּכְתָבָן, תַּלְמוּד לוֹמַר: ״וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ״ — הַנְהֵג בָּהֶן מִנְהַג דֶּרֶךְ אֶרֶץ, דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל.

Ensinaram os sábios em uma baraita: "e recolherás teu grão" — que veio ensinar? Porque foi dito: "não se apartará este livro da Torá de tua boca e nele meditarás dia e noite" (Yehoshua 1:8), poder-se-ia pensar que se deve entender as palavras conforme literalmente escritas (dedicando-se ao estudo da Torá exclusivamente, dia e noite, sem trabalhar); por isso o versículo diz: "e recolherás teu grão" — conduze-te nas palavras de Torá conforme o costume do mundo, combinando-as com o trabalho; palavras de Rabi Yishmael.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
דברים ככתבן – שלא יעסוק בדרך ארץ: הנהג בהם – עם דברי תורה: מנהג דרך ארץ – שאם תבא לידי צורך הבריות סופך ליבטל מדברי תורה:

"As palavras conforme escritas" — que não se deve ocupar com o costume do mundo (o trabalho). "Conduze-te neles" — junto com as palavras de Torá. "Costume do mundo" — pois se vieres a precisar de ajuda das criaturas, acabarás por te anular das palavras de Torá.

Nota

Rabi Yishmael propõe uma leitura conciliatória: o mandamento de meditar na Torá "dia e noite" não exclui o trabalho; ao contrário, "e recolherás teu grão" ensina que se deve combinar o estudo com uma ocupação prática, pois depender totalmente de outros para o sustento acaba por prejudicar o próprio estudo.

7Rabi Shimon ben Yochai diz: é possível que um homem are na época de arar, semeie na época de semear... o que será da Torá? Mas quando Israel faz a vontade do Onipresente, seu trabalho é feito por outros
Bavli · 35b — Guemará (baraita)
רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי אוֹמֵר: אֶפְשָׁר אָדָם חוֹרֵשׁ בִּשְׁעַת חֲרִישָׁה, וְזוֹרֵעַ בִּשְׁעַת זְרִיעָה, וְקוֹצֵר בִּשְׁעַת קְצִירָה, וְדָשׁ בִּשְׁעַת דִּישָׁה, וְזוֹרֶה בִּשְׁעַת הָרוּחַ, תּוֹרָה מַה תְּהֵא עָלֶיהָ? אֶלָּא בִּזְמַן שֶׁיִּשְׂרָאֵל עוֹשִׂין רְצוֹנוֹ שֶׁל מָקוֹם — מְלַאכְתָּן נַעֲשֵׂית עַל יְדֵי אֲחֵרִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעָמְדוּ זָרִים וְרָעוּ צֹאנְכֶם וְגוֹ׳״, וּבִזְמַן שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין רְצוֹנוֹ שֶׁל מָקוֹם — מְלַאכְתָּן נַעֲשֵׂית עַל יְדֵי עַצְמָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ״. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁמְּלֶאכֶת אֲחֵרִים נַעֲשֵׂית עַל יָדָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעָבַדְתָּ אֶת אוֹיְבֶךָ וְגוֹ׳״.

Rabi Shimon ben Yochai diz: é possível que um homem are na época de arar, e semeie na época de semear, e colha na época de colher, e trilhe na época de trilhar, e joeire ao vento na época do vento — a Torá, o que será dela — quando encontrará tempo para estudá-la? Mas a explicação é: quando Israel faz a vontade do Onipresente, seu trabalho é feito por outros, como está dito: "e estarão os estranhos e apascentarão vosso rebanho etc." (Yeshayahu 61:5); e quando Israel não faz a vontade do Onipresente, seu trabalho é feito por eles mesmos, como está dito: "e recolherás teu grão". E não só isso, mas também o trabalho de outros é feito por eles, como está dito: "e servirás a teu inimigo etc." (Devarim 28:48).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
אפשר – בתמיה אפשר כדבריך:

"É possível" — em tom de pergunta retórica: é possível que seja assim, conforme tuas palavras (as de Rabi Yishmael)?

Nota

Rabi Shimon bar Yochai discorda radicalmente: se o homem se dedicasse a todo o ciclo agrícola, jamais sobraria tempo para a Torá. Sua posição é que, quando Israel merece por cumprir a vontade Divina, o próprio trabalho agrícola é realizado por terceiros, liberando-o para o estudo exclusivo; quando não merece, terá de trabalhar por si mesmo, e no pior caso, trabalhará até para seus inimigos.

8Disse Abaie: muitos agiram conforme Rabi Yishmael, e teve êxito em suas mãos; conforme Rabi Shimon ben Yochai, e não teve êxito em suas mãos
Bavli · 35b — Guemará
אָמַר אַבָּיֵי: הַרְבֵּה עָשׂוּ כְּרַבִּי יִשְׁמָעֵאל, וְעָלְתָה בְּיָדָן. כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי, וְלֹא עָלְתָה בְּיָדָן.

Disse Abaie: muitos agiram conforme Rabi Yishmael (combinando Torá com trabalho), e o resultado teve êxito em suas mãos; muitos agiram conforme Rabi Shimon ben Yochai (dedicando-se somente à Torá), e o resultado não teve êxito em suas mãos.

Nota

Abaie decide na prática a favor de Rabi Yishmael: a experiência mostrou que a via de combinar estudo e trabalho é sustentável para a maioria, enquanto a dedicação exclusiva à Torá, sem nenhum sustento próprio, raramente se sustenta — via reservada a exceções como o próprio Rabi Shimon bar Yochai.

9Disse-lhes Rava aos sábios: eu vos imploro, nos dias de Nissan e nos dias de Tishrei não vos apresenteis diante de mim, para que não vos preocupeis com vosso sustento durante todo o ano
Bavli · 35b — Guemará
אֲמַר לְהוּ רָבָא לְרַבָּנַן: בְּמָטוּתָא מִינַּיְיכוּ, בְּיוֹמֵי נִיסָן וּבְיוֹמֵי תִּשְׁרֵי לָא תִּתְחֲזוֹ קַמַּאי, כִּי הֵיכִי דְּלָא תִּטַּרְדוּ בִּמְזוֹנַיְיכוּ כּוּלָּא שַׁתָּא.

Disse-lhes Rava aos sábios (seus alunos): eu vos imploro (bematuta minaichu): nos dias de Nissan e nos dias de Tishrei (épocas de colheita), não vos apresenteis diante de mim para estudar, para que não vos preocupeis com vosso sustento durante todo o ano — aproveitai esses meses para cuidar da colheita, e dedicai o resto do ano ao estudo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
ביומי ניסן – ימי הקציר: ביומי תשרי – דריכת הגתות והבדים:

"Nos dias de Nissan" — os dias da colheita do grão. "E nos dias de Tishrei" — a época de pisar as prensas de vinho e de azeite.

Nota

Rava aplica na prática o princípio de Rabi Yishmael: libera seus alunos do estudo formal precisamente nos meses críticos da agricultura (colheita do grão em Nissan, das uvas e azeitonas em Tishrei), para que garantam seu sustento anual e possam, no restante do ano, dedicar-se plenamente à Torá sem essa preocupação.

As gerações antigas e as recentes · דּוֹרוֹת הָרִאשׁוֹנִים וְדוֹרוֹת הָאַחֲרוֹנִים

10Disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yehudá beRabi Ilai: vinde e vede que não são como as gerações antigas as gerações recentes. As antigas fizeram sua Torá fixa e seu trabalho ocasional, e ambas prosperaram em suas mãos
Bavli · 35b — Guemará
אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי יְהוּדָה בְּרַבִּי אִלְעַאי: בֹּא וּרְאֵה שֶׁלֹּא כְּדוֹרוֹת הָרִאשׁוֹנִים דּוֹרוֹת הָאַחֲרוֹנִים. דּוֹרוֹת הָרִאשׁוֹנִים עָשׂוּ תּוֹרָתָן קֶבַע וּמְלַאכְתָּן עֲרַאי, זוֹ וָזוֹ נִתְקַיְּימָה בְּיָדָן. דּוֹרוֹת הָאַחֲרוֹנִים שֶׁעָשׂוּ מְלַאכְתָּן קֶבַע וְתוֹרָתָן עֲרַאי, זוֹ וָזוֹ לֹא נִתְקַיְּימָה בְּיָדָן.

Disse Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yehudá beRabi Ilai: vinde e vede que não são como as gerações antigas as gerações recentes. As gerações antigas fizeram sua Torá ocupação fixa e seu trabalho ocasional, e tanto esta quanto aquela prosperaram em suas mãos. As gerações recentes, que fizeram seu trabalho ocupação fixa e sua Torá ocasional, nem esta nem aquela prosperaram em suas mãos.

Nota

Rabi Yehudá beRabi Ilai contrasta duas eras: as gerações antigas, que priorizavam o estudo (fixo) e tratavam o trabalho como secundário (ocasional), tiveram sucesso em ambos; as gerações recentes, que inverteram a prioridade, fracassaram em ambos — um chamado a restabelecer a hierarquia correta entre Torá e ocupação material.

11E disse ainda: as gerações antigas traziam seus frutos pelo caminho do "traksemon" para obrigá-los no dízimo; as recentes trazem por telhados, pátios e cercados, para isentá-los do dízimo
Bavli · 35b — Guemará
וְאָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי יְהוּדָה בְּרַבִּי אִלְעַאי: בֹּא וּרְאֵה שֶׁלֹּא כְּדוֹרוֹת הָרִאשׁוֹנִים דּוֹרוֹת הָאַחֲרוֹנִים. דּוֹרוֹת הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ מַכְנִיסִין פֵּירוֹתֵיהֶן דֶּרֶךְ טְרַקְסְמוֹן כְּדֵי לְחַיְּיבָן בְּמַעֲשֵׂר, דּוֹרוֹת הָאַחֲרוֹנִים מַכְנִיסִין פֵּירוֹתֵיהֶן דֶּרֶךְ גַּגּוֹת, דֶּרֶךְ חֲצֵרוֹת, דֶּרֶךְ קַרְפֵּיפוֹת, כְּדֵי לְפׇטְרָן מִן הַמַּעֲשֵׂר. דְּאָמַר רַבִּי יַנַּאי: אֵין הַטֶּבֶל מִתְחַיֵּיב בְּמַעֲשֵׂר עַד שֶׁיִּרְאֶה פְּנֵי הַבַּיִת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת״.

E disse ainda Rabá bar bar Chaná em nome de Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yehudá beRabi Ilai: vinde e vede que não são como as gerações antigas as gerações recentes. As gerações antigas traziam seus frutos para casa pelo caminho do traksemon (o portão principal do pátio e da casa), para obrigá-los no dízimo; as gerações recentes trazem seus frutos pelo caminho dos telhados, pelo caminho dos pátios, pelo caminho dos cercados (karpefot, hortos murados junto à cidade), para isentá-los do dízimo. Pois disse Rabi Yanai: o tevel (produto ainda não dizimado) não se torna obrigado no dízimo até que veja a face da casa (passe pela entrada principal), como está dito: "consumi o consagrado da casa" (Devarim 26:13, sobre a confissão dos dízimos).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
דרך טרקסמון – דרך שערי החצר והבית: אין הטבל מתחייב במעשר – מן התורה אבל אכילת קבע אסור לאכול מדרבנן: פני הבית – פתח כניסה ויציאה:

"Pelo caminho do traksemon" — pelo caminho dos portões do pátio e da casa. "O tevel não se torna obrigado no dízimo" — isto é assim segundo a Torá, mas segundo os sábios, é proibido comer dele como refeição fixa mesmo antes disso. "A face da casa" — a entrada de entrar e sair.

Nota

Segundo ensinamento de Rabi Yehudá beRabi Ilai na mesma direção: as gerações antigas, honestas até no cumprimento de obrigações que poderiam evitar, traziam a colheita pela entrada principal, tornando-a obrigada no dízimo bíblico (conforme a regra de Rabi Yanai, de que o tevel só se obriga ao "ver a face da casa"); as gerações recentes buscam rotas alternativas — telhados, pátios, cercados — justamente para escapar tecnicamente dessa obrigação.

12E Rabi Yochanan disse: até o pátio obriga, como está dito "e comerão em teus portões, e se saciarão"
Bavli · 35b — Guemará
וְרַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: אֲפִילּוּ חָצֵר קוֹבַעַת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָכְלוּ בִשְׁעָרֶיךָ וְשָׂבֵעוּ״.

E Rabi Yochanan disse: até o pátio obriga o produto no dízimo, mesmo sem passar pela entrada principal da casa, como está dito: "e comerão em teus portões, e se saciarão" (Devarim 26:12, referindo-se à segunda dízima do terceiro ano).

Nota

Rabi Yochanan qualifica a regra anterior: mesmo a rota alternativa pelo pátio não escaparia da obrigação do dízimo, pois o próprio versículo fala de comer "em teus portões" — o pátio já basta para fixar a obrigação, restringindo ainda mais as brechas buscadas pelas gerações recentes.

Retomando a Mishná: por que o vinho tem bênção própria · חוּץ מִן הַיַּיִן

13"Exceto o vinho" etc.: por que o vinho é diferente? Se por mudar para melhor muda de bênção, eis o azeite, que muda para melhor e não muda de bênção, pois disseram Rav Yehudá e Rabi Yochanan: sobre o azeite de oliva abençoa-se "que cria o fruto da árvore"
Bavli · 35b — Guemará
חוּץ מִן הַיַּיִן וְכוּ׳: מַאי שְׁנָא יַיִן? אִילֵּימָא מִשּׁוּם דְּאִשְׁתַּנִּי לְעִלּוּיָא אִשְׁתַּנִּי לִבְרָכָה, וַהֲרֵי שֶׁמֶן, דְּאִשְׁתַּנִּי לְעִלּוּיָא וְלָא אִשְׁתַּנִּי לִבְרָכָה, דְּאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל, וְכֵן אָמַר רַבִּי יִצְחָק אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁמֶן זַיִת מְבָרְכִין עָלָיו ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״.

"Exceto o vinho etc." — por que o vinho é diferente dos demais frutos, a ponto de merecer bênção própria? Se dirás que é porque ele muda para melhor (de uva para vinho), e por isso muda de bênção, eis o azeite, que também muda para melhor (de azeitona para azeite) e não muda de bênção — pois disse Rav Yehudá em nome de Shmuel, e assim disse Rabi Yitzchak em nome de Rabi Yochanan: sobre o azeite de oliva abençoa-se "que cria o fruto da árvore" (a mesma bênção da azeitona, sem fórmula própria)!

Nota

A Guemará pergunta o motivo pelo qual apenas o vinho, entre os produtos derivados de frutos, mereceu fórmula de bênção própria ("borê perí hagáfen"), enquanto todos os demais frutos processados mantêm a bênção genérica. A explicação de que a transformação para melhor justificaria bênção distinta é refutada pelo caso do azeite, que também melhora ao ser extraído da azeitona, mas continua com a bênção comum "borê perí haêts".

14Disseram: ali é porque não é possível. Como abençoaríamos? "Que cria o fruto da azeitona" — o próprio fruto se chama "azeitona"
Bavli · 35b — Guemará
אָמְרִי: הָתָם מִשּׁוּם דְּלָא אֶפְשָׁר. הֵיכִי נְבָרֵיךְ? נְבָרֵיךְ ״בּוֹרֵא פְּרִי הַזַּיִת״ — פֵּירָא גּוּפֵיהּ ״זַיִת״ אִקְּרִי.

Disseram: ali (no caso do azeite) é porque não é possível criar uma fórmula distinta. Como abençoaríamos? Abençoaríamos "que cria o fruto (perí) da azeitona (hazáyit)"? Isso não funciona, pois o próprio fruto já se chama "azeitona" — não há como distinguir "o fruto" de "a azeitona", como se distingue "o fruto" (uva) de "a videira" (o vinho).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
זית אקרי – והוה ליה בורא פרי הפרי שהפרי קרוי זית ואין זו בריאת שמים כי בידי אדם היא בריאה זו אבל גבי גפן הגפן היא העץ והענבים הם פרי הגפן:

"Se chama azeitona" — e a fórmula resultaria em "que cria o fruto do fruto", pois o próprio fruto se chama azeitona, e esta segunda criação, o azeite, não é uma criação do Céu, pois é obra das mãos do homem. Mas quanto à videira, a videira é a árvore, e as uvas são o fruto da videira — por isso, no caso do vinho, a fórmula "fruto da videira" faz sentido, distinguindo árvore e fruto, o que não ocorre com a azeitona.

Nota

A resposta explica a assimetria linguística: a palavra "kerem" (vinha) designa a árvore, e "guéfen" designa especificamente a videira, distinta da uva, seu fruto — permitindo a fórmula "fruto da videira". Já a palavra "zayit" designa tanto a árvore quanto o próprio fruto (a azeitona), de modo que não há termo disponível para nomear o azeite como "fruto" de algo distinto dele mesmo.

15E abençoemos "que cria o fruto da árvore de oliveira"? Mas disse Mar Zutra: o vinho sustenta, o azeite não sustenta
Bavli · 35b — Guemará
וּנְבָרֵיךְ עֲלֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי עֵץ זַיִת״? אֶלָּא אָמַר מָר זוּטְרָא: חַמְרָא — זָיֵין, מִשְׁחָא — לָא זָיֵין.

E abençoemos sobre o azeite: "que cria o fruto da árvore de oliveira (êts zayit)"? — usando o nome completo da árvore para diferenciá-la do fruto, tal como se faz noutros contextos. Mas disse Mar Zutra: o vinho sustenta (zayin), o azeite não sustenta — e por isso apenas o vinho, por sua importância nutritiva, mereceu bênção distinta; a dificuldade linguística por si só não bastaria.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
חמרא זיין – להכי חשיב לקבוע לו ברכה לעצמו:

"O vinho sustenta" — por isso é considerado importante o bastante para se lhe fixar uma bênção própria.

Nota

Rejeitada a explicação puramente linguística (bastaria dizer "fruto da árvore de oliveira", com o nome completo), Mar Zutra propõe o verdadeiro critério: o vinho recebeu fórmula própria por seu valor nutritivo, por "sustentar" quem o bebe, enquanto o azeite, apesar de igualmente derivado de um processo de transformação, não tem essa mesma função sustentadora — abrindo a discussão seguinte sobre o que significa exatamente "sustentar".

16E o azeite não sustenta? Mas ensinamos: quem faz voto de abster-se do alimento é permitido na água e no sal! E perguntamos: água e sal não se chamam "alimento", mas todo o mais se chama "alimento"
Bavli · 35b — Guemará
וּמִשְׁחָא לָא זָיֵין? וְהָתְנַן הַנּוֹדֵר מִן הַמָּזוֹן — מוּתָּר בַּמַּיִם וּבַמֶּלַח. וְהָוֵינַן בַּהּ: מַיִם וּמֶלַח הוּא דְּלָא אִקְּרִי ״מָזוֹן״, הָא כׇּל מִילֵּי אִקְּרִי ״מָזוֹן״.

E o azeite não sustenta? Mas não ensinamos em uma Mishná: quem faz voto de abster-se do alimento (mazon) é permitido apenas na água e no sal (que não se incluem na proibição, por não serem "alimento")? E perguntamos sobre isso: é só a água e o sal que não se chamam "alimento", mas tudo o mais (inclusive o azeite) se chama "alimento" — logo, o azeite também sustenta, contradizendo Mar Zutra!

Nota

Objeção a Mar Zutra a partir de uma Mishná já conhecida: quem faz voto de se abster de "alimento" pode ainda consumir água e sal, precisamente porque estes não se classificam como "mazon"; a implicação lógica é que tudo o mais — incluindo o azeite — se classifica como alimento pleno, o que contradiz a afirmação de que o azeite "não sustenta".

17Digamos que seja refutação de Rav e Shmuel, que dizem: só se abençoa "que cria espécies de alimento" sobre os cinco tipos de grão! E disse Rav Huna: trata-se de quem diz "tudo que me sustenta"
Bavli · 35b — Guemará
נֵימָא תֶּיהְוֵי תְּיוּבְתָּא דְּרַב וּשְׁמוּאֵל, דְּאָמְרִי אֵין מְבָרְכִין ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״ אֶלָּא בַּחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין בִּלְבַד. וְאָמַר רַב הוּנָא: בְּאוֹמֵר ״כׇּל הַזָּן עָלַי״.

Digamos que esta objeção venha a ser refutação de Rav e Shmuel, que dizem: só se abençoa "que cria espécies de alimento (mezonot)" sobre os cinco tipos de grão apenas (trigo, cevada, centeio, aveia e espelta — logo, "mazon" seria termo técnico restrito a estes, e não incluiria o azeite)! E disse Rav Huna: a Mishná sobre o voto trata de quem diz ao fazer o voto: "proíbo-me tudo que me sustenta (kol hazan alai)" — uma formulação mais ampla que "mazon", que abarca também o azeite, sem contradizer a posição restrita de Rav e Shmuel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
ואמר רב הונא – הא דקתני מותר במים ובמלח ואסור בשאר אוכלין ומשקין לאו באומר קונם מזון עלי דאין מזון אלא מה' מיני דגן חטין ושעורין וכוסמין ושבולת שועל ושיפון אלא באומר כל הזן עלי קונם וכל מילי נהי דלא אקרו מזון מיהו מיזן זייני בר ממים ומלח אלמא משחא זיין:

"E disse Rav Huna" — isto que se ensina, que é permitido na água e no sal e proibido nos demais alimentos e bebidas, não se refere a quem diz "seja-me proibido como konam o alimento (mazon)", pois "mazon" não é senão os cinco tipos de grão — trigo, cevada, espelta, aveia e centeio —; mas refere-se a quem diz "tudo que me sustenta (kol hazan alai) seja konam". E ainda que tudo o mais não se chame "mazon", contudo, quanto a sustentar, tudo sustenta, exceto água e sal — logo, o azeite sustenta.

Nota

A resposta distingue dois termos técnicos: "mazon" no sentido estrito de Rav e Shmuel refere-se apenas aos cinco grãos; mas a Mishná sobre votos usa a expressão mais ampla "kol hazan alai" ("tudo que me sustenta"), categoria que inclui o azeite. Assim, a objeção não contradiz Rav e Shmuel, mas confirma que o azeite tem alguma capacidade sustentadora — ainda que talvez não da mesma ordem do vinho, questão que a sugya seguinte explora.

18Logo, o azeite sustenta! Mas: o vinho alimenta, e o azeite não alimenta. E o vinho alimenta? Mas Rava bebia vinho toda véspera de Pêssach para abrir seu coração e comer mais matzá!
Bavli · 35b — Guemará
אַלְמָא מִשְׁחָא זָיֵין! אֶלָּא, חַמְרָא סָעֵיד, וּמִשְׁחָא לָא סָעֵיד. וְחַמְרָא מִי סָעֵיד? וְהָא רָבָא הֲוָה שָׁתֵי חַמְרָא כׇּל מַעֲלֵי יוֹמָא דְפִסְחָא כִּי הֵיכִי דְּנִגְרְרֵיהּ לְלִבֵּיהּ וְנֵיכוֹל מַצָּה טְפֵי? טוּבָא — גָּרֵיר, פּוּרְתָּא — סָעֵיד.

Logo, o azeite sustenta (zayin)! Mas a verdadeira distinção não é "sustentar" (zayin), e sim "alimentar" (saad): o vinho alimenta (saed), e o azeite não alimenta. E o vinho alimenta? Mas Rava bebia vinho toda véspera do dia de Pêssach, para abrir (ligrerêi) seu coração e comer mais matzá (o vinho lhe dava apetite, sugerindo que não "alimenta", mas antes estimula a fome)! A resposta é: em grande quantidade, o vinho abre o apetite; em pouca quantidade, alimenta.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
סעיד – חשיב טפי ממזון:

"Alimenta" — é considerado ainda mais importante que "sustenta" (zayin).

Nota

A Guemará refina a terminologia: "sustentar" (zayin) é categoria ampla que inclui o azeite; "alimentar" (saad) é categoria mais restrita e superior, que distingue o vinho. Uma nova objeção surge do costume de Rava de beber vinho antes de Pêssach justamente para abrir o apetite — o oposto de "alimentar" — resolvida com a distinção de quantidade: muito vinho abre o apetite, pouco vinho alimenta.

19E o vinho alimenta de todo? Mas está escrito "e o vinho alegra o coração do homem, e o pão sustenta o coração do homem"! Mas o vinho tem duas coisas: alimenta e alegra
Bavli · 35b — Guemará
וּמִי סָעֵיד כְּלָל?! וְהָכְתִיב: ״וְיַיִן יְשַׂמַּח לְבַב אֱנוֹשׁ וְלֶחֶם לְבַב אֱנוֹשׁ יִסְעָד וְגוֹ׳״ — נַהֲמָא הוּא דְּסָעֵיד חַמְרָא לָא סָעֵיד! אֶלָּא, חַמְרָא אִית בֵּיהּ תַּרְתֵּי: סָעֵיד וּמְשַׂמַּח. נַהֲמָא מִסְעָד סָעֵיד, שַׂמּוֹחֵי לָא מְשַׂמַּח.

E o vinho alimenta de todo — será mesmo assim? Mas não está escrito: "e o vinho alegra o coração do homem (enosh), e o pão o coração do homem sustenta etc." (Tehilim 104:15)o que sugere que apenas o pão alimenta, e o vinho não alimenta! A resposta é: o vinho tem duas propriedades: alimenta e alegra. O pão só alimenta (missad saed), não alegra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
והכתיב ויין ישמח לבב אנוש – וסיפא דקרא ולחם לבב אנוש יסעד משמע אבל יין אינו אלא משמח ומשני לאו כדקאמרת אלא לחם יסעד ולא ישמח אבל יין סועד ומשמח:

"Mas não está escrito 'e o vinho alegra o coração do homem'" — e a segunda parte do versículo, "e o pão o coração do homem sustenta", dá a entender que o vinho não é senão o que alegra (e não alimenta). E respondemos: não é como disseste, mas sim: o pão sustenta e não alegra; já o vinho, sustenta e também alegra.

Nota

A objeção final aponta o próprio versículo, que parece opor o vinho (que alegra) ao pão (que sustenta). A resposta harmoniza: o versículo não exclui o vinho de "sustentar" — apenas atribui exclusivamente a ele a função de "alegrar". O vinho tem as duas propriedades; o pão, apenas uma. Isso completa a justificativa para a fórmula própria do vinho: não apenas sustenta, como o azeite (em algum grau), mas alegra, qualidade única.

20Se assim, abençoemos sobre ele três bênçãos! Não fixam as pessoas sua refeição sobre ele
Bavli · 35b — Guemará
אִי הָכִי נְבָרֵיךְ עֲלֵיהּ שָׁלֹשׁ בְּרָכוֹת! לָא קָבְעִי אִינָשֵׁי סְעוֹדְתַּיְיהוּ עִלָּוֵיהּ.

Se assim (se o vinho alimenta como um dos alimentos que sustentam refeição plena), abençoemos sobre ele três bênçãos (o Birkat Hamazon completo, como sobre o pão)! A resposta é: as pessoas não fixam sua refeição sobre ele — não se faz do vinho a base de uma refeição, como se faz do pão, e por isso não recebe a bênção final completa de três bênçãos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
אי הכי – דזיין וסעיד מזון הוא ולבריך עליה שלש ברכות לאחריו ואנן אמרינן לקמן בפרקין (ברכות דף לז.) כל שהוא משבעת המינין ולא מין דגן חכמים אומרים ברכה אחת:

"Se assim" — que o vinho sustenta e alimenta, seria alimento (mazon) pleno, e dever-se-ia abençoar sobre ele três bênçãos depois de bebê-lo, como sobre o pão. Mas nós dizemos adiante neste mesmo perek (Berachot 37a): tudo que é das sete espécies e não é da espécie do grão, os sábios dizem que se abençoa apenas uma bênção (resumida) depois.

Nota

Nova objeção: se o vinho de fato sustenta e alimenta como alimento pleno, deveria merecer o Birkat Hamazon completo de três bênçãos após bebê-lo, como ocorre com o pão. A resposta distingue o critério: não basta ter valor nutritivo — é preciso que as pessoas costumem fazer dele a base ("kevá") de uma refeição, o que não é o caso do vinho.

21Disse-lhe Rav Nachman bar Yitzchak a Rava: e se fixou sua refeição sobre ele, o que há? Disse-lhe: quando vier Eliyahu e disser se há fixação; por ora, sua intenção é nula perante todo homem
Bavli · 35b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק לְרָבָא: אִי קָבַע עִלָּוֵיהּ סְעוֹדְתֵּיהּ מַאי? אָמַר לֵיהּ: לִכְשֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ וְיֹאמַר אִי הָוֵי קְבִיעוּתָא. הַשְׁתָּא מִיהָא בָּטְלָה דַּעְתּוֹ אֵצֶל כׇּל אָדָם.

Disse-lhe Rav Nachman bar Yitzchak a Rava: e se alguém fixou sua refeição sobre ele (o vinho, tornando-o a base de sua refeição), o que há — receberia então as três bênçãos? Disse-lhe Rava: quando vier Eliyahu (o profeta, que resolverá no futuro as dúvidas insolúveis) e disser se há ali verdadeira fixação. Por ora, de todo modo, sua intenção individual é nula perante a prática de todo o restante dos homens — já que a maioria não fixa refeição sobre o vinho, a intenção isolada de um indivíduo não altera a halachá geral.

Nota

Rav Nachman bar Yitzchak levanta o caso-limite de alguém que efetivamente fixa sua refeição no vinho. Rava responde com a fórmula clássica de dúvida sem resolução no presente ("quando vier Eliyahu"), mas afirma a norma prática: como a esmagadora maioria das pessoas não trata o vinho como base de refeição, a intenção excepcional de um único indivíduo não basta para alterar a bênção aplicável.

Retomando o tema: a bênção sobre o azeite de oliva puro · שֶׁמֶן זַיִת מְבָרְכִין עָלָיו בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ

22Retomando o assunto: disse Rav Yehudá em nome de Shmuel, e assim disse Rabi Yitzchak em nome de Rabi Yochanan: sobre o azeite de oliva abençoa-se "que cria o fruto da árvore". Como é o caso? Se está bebendo-o puro — causa-lhe dano!
Bavli · 35b — Guemará
גּוּפָא. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל, וְכֵן אָמַר רַבִּי יִצְחָק אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁמֶן זַיִת מְבָרְכִין עָלָיו ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״. הֵיכִי דָּמֵי? אִילֵּימָא דְּקָא שָׁתֵי לֵיהּ מִשְׁתָּא — אוֹזוֹקֵי מַזִּיק לֵיהּ. דְּתַנְיָא: הַשּׁוֹתֶה שֶׁמֶן שֶׁל תְּרוּמָה — מְשַׁלֵּם אֶת הַקֶּרֶן, וְאֵינוֹ מְשַׁלֵּם אֶת הַחוֹמֶשׁ. הַסָּךְ שֶׁמֶן שֶׁל תְּרוּמָה — מְשַׁלֵּם אֶת הַקֶּרֶן וּמְשַׁלֵּם אֶת הַחוֹמֶשׁ.

Voltando ao próprio assunto (gufa, retomando a citação feita de passagem na unidade 13): disse Rav Yehudá em nome de Shmuel, e assim disse Rabi Yitzchak em nome de Rabi Yochanan: sobre o azeite de oliva abençoa-se "que cria o fruto da árvore". Como é o caso exatamente — em que situação se aplica esta bênção? Se dirás que se trata de alguém que está bebendo-o puro como bebida — isso não pode ser, pois causa-lhe dano (o azeite puro faz mal à saúde, e não se abençoa sobre algo prejudicial)! Pois foi ensinado numa baraita: quem bebe azeite de terumá (oferenda sacerdotal) paga apenas o capital (o valor do azeite), e não paga o quinto adicional (a multa de um quinto imposta a quem usa terumá indevidamente por engano, pois beber azeite não se considera "comer" propriamente). Quem unge o corpo com azeite de terumá paga o capital e paga o quinto (pois ungir-se é o uso próprio e reconhecido do azeite).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
אוזוקי מזיק – לגופיה ואין זו אכילה שטעונה ברכה דגבי ברכה ואכלת כתיב: דתני' – דלאו בר אכילה היא: השותה שמן של תרומה – בשוגג: משלם את הקרן – כשאחד מזיק את חבירו בממונו: ואין משלם חומש – דגבי חומש אכילה כתיב ואיש כי יאכל קדש בשגגה (ויקרא כ״ב:י״ד) פרט למזיק:

"Causa-lhe dano" — a seu próprio corpo, e isto não é o tipo de comer que requer bênção, pois quanto à bênção está escrito "e comerás e te saciarás e abençoarás" (Devarim 8:10 — implicando um comer normal e benéfico). "Pois foi ensinado" — prova de que beber azeite puro não é considerado comer. "Quem bebe azeite de terumá" — por engano. "Paga o capital" — como quando alguém causa dano a seu semelhante em seus bens. "E não paga o quinto" — pois quanto ao quinto está escrito, a respeito de comer, "e um homem, quando comer do sagrado por engano" (Vayicrá 22:14) — excluindo quem apenas causa dano a si mesmo, sem verdadeiramente "comer".

Nota

A Guemará retoma o ensinamento citado de passagem antes, buscando precisar em que circunstância exata se aplica a bênção "borê perí haêts" sobre o azeite. A primeira hipótese — beber o azeite puro como bebida — é rejeitada: azeite puro faz mal à saúde, e o próprio dano é prova de que essa ingestão nem sequer se classifica como "comer" para efeitos de bênção, confirmado pela baraita sobre quem bebe azeite de terumá (não paga a multa do quinto, reservada a quem verdadeiramente "come").

23Mas trata-se de quem o come com pão. Se assim, o pão seria o principal e ele o acessório — e ensinamos que se abençoa sobre o principal, isentando o acessório! Mas trata-se de quem o bebe com "anigueron"
Bavli · 35b — Guemará
אֶלָּא דְּקָא אָכֵיל לֵיהּ עַל יְדֵי פַּת. אִי הָכִי, הָוְיָא לֵיהּ פַּת עִיקָּר וְהוּא טָפֵל. וּתְנַן, זֶה הַכְּלָל: כׇּל שֶׁהוּא עִיקָּר וְעִמּוֹ טְפֵלָה — מְבָרֵךְ עַל הָעִיקָּר וּפוֹטֵר אֶת הַטְּפֵלָה! אֶלָּא דְּקָא שָׁתֵי לֵיהּ עַל יְדֵי ״אֲנִיגְרוֹן״, דְּאָמַר רַבָּה בַּר שְׁמוּאֵל: ״אֲנִיגְרוֹן״ — מַיָּא דְסִלְקָא, ״אַנְסִיגְרוֹן״ — מַיָּא

Mas a explicação correta é que trata-se de quem come o azeite por meio do pão (mergulhando o pão nele, ou comendo-o junto). Se assim, então o pão seria o principal (ikar) e ele (o azeite) o acessório (tafel); e não ensinamos na Mishná (Berachot 44a): esta é a regra: tudo que é principal e com ele há algo acessório, abençoa-se sobre o principal e isenta-se o acessório — logo, dever-se-ia abençoar apenas sobre o pão, "hamotzí", e não separadamente sobre o azeite "borê perí haêts"! Mas a explicação correta é, antes, que trata-se de quem o bebe por meio de (misturado com) "anigueron" (um caldo à base de vegetais), pois disse Rabá bar Shmuel: "anigueron" é água em que se cozeu acelga (silka); "ansigueron" é água ...

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 35b
ע"י הפת – משום לפתן: ע"י אניגרון – מין מאכל הוא ונותנים לתוכו שמן ושנוי במשנה בכמה מקומות: דאמר רבה בר שמואל – לא אתא הכא אלא לפרושי לן מאי ניהו: מיא דסלקא – מים ששלקו בהן תרדין:

"Por meio do pão" — como acompanhamento (liftan) do pão. "Por meio de anigueron" — é um tipo de alimento líquido, e nele se põe azeite, e este termo está mencionado na Mishná em vários lugares. "Pois disse Rabá bar Shmuel" — ele não veio a ser citado aqui senão para nos explicar o que exatamente é esse alimento. "Água de acelga" — água em que se cozeram folhas de acelga.

Nota

Nova tentativa de precisar o caso: comer o azeite junto com pão é rejeitado, pois nesse caso o pão, sendo o alimento principal, isentaria o azeite de bênção própria pela regra do "principal e acessório" (Berachot 44a). A Guemará propõe então uma terceira hipótese — beber o azeite misturado a "anigueron", um caldo de acelga cozida — e cita a definição de Rabá bar Shmuel para esse termo, mas a frase de Rashi que distingue "anigueron" de "ansigueron" é interrompida exatamente ao final do daf, retomando-se em 36a com a continuação "de todos os vegetais cozidos" (referindo-se ao segundo termo, "ansigueron", água de qualquer vegetal cozido, em contraste com o "anigueron", específico da acelga).