Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Vav (Ketzad Mevarchin)
אֲנִיגְרוֹן

O azeite bebido por motivo medicinal, a farinha de trigo pura, o princípio do "sem possibilidade de aprimoramento", e a extensa disputa sobre o broto de palmeira e a alcaparreira

Berachot 36a

Completando a frase interrompida ao final de 35b, o daf conclui que a bênção "borê perí haêts" sobre o azeite se aplica a quem o bebe com anigueron por ter dor de garganta — situação em que, apesar da intenção medicinal, exige-se bênção porque há também prazer no ato. Segue-se a pergunta sobre a bênção da farinha de trigo pura (disputa Rav Yehudá/Rav Nachman), resolvida por Rava com o princípio de que um produto sem possibilidade de aprimoramento posterior mantém a bênção do fruto original, enquanto um que ainda pode ser aperfeiçoado (como a farinha, que virará pão) recebe apenas "shehacol". Discutem-se então a farinha de cevada e sua comparação com sal e água salgada, antes de a sugya abrir uma nova disputa entre Rav Yehudá e Shmuel sobre a bênção do broto tenro de palmeira (kura), resolvida a favor de Shmuel. Por fim, o daf desenvolve uma longa sugya sobre a alcaparreira (tzalaf) — suas partes (folhas, brotos, botões e frutos), a halachá de Rav sobre orlá fora da Terra de Israel, a disputa Rabi Eliezer/Rabi Akivá sobre o que se dizima, o episódio de Ravina com Mar bar Rav Ashi, e a contradição na opinião de Bet Shamai sobre se a alcaparreira é erva ou árvore — terminando em frase cortada sobre o caso de dúvida de orlá fora da Terra de Israel.

Concluindo o caso do azeite com anigueron · חוֹשֵׁשׁ בִּגְרוֹנוֹ

1Pois todos são vegetais cozidos
Bavli · 36a — Guemará
דְּכוּלְּהוּ שִׁלְקֵי.

Pois todos os vegetais mencionados em "ansigueron", ao contrário do "anigueron", específico da acelga são vegetais cozidos em geral — completando a definição de Rabá bar Shmuel iniciada ao final de 35b.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
דכולהו שלקי – כל מיני ירק שלוק:

"Pois todos são cozidos" — todo tipo de vegetal cozido se inclui em "ansigueron", ao passo que "anigueron" é especificamente a água de acelga cozida.

Nota

Completa-se aqui a definição de Rabá bar Shmuel iniciada ao final de 35b: "anigueron" é especificamente a água de acelga cozida, enquanto "ansigueron" é a água de qualquer vegetal cozido em geral. Com isso, retoma-se a hipótese de que o azeite bebido misturado a esse caldo recebe a bênção própria do fruto da árvore.

2Se assim, o anigueron seria o principal e o azeite o acessório — e ensinamos que se abençoa sobre o principal, isentando o acessório!
Bavli · 36a — Guemará
אִם כֵּן, הָוֵה לֵיהּ אֲנִיגְרוֹן עִיקָּר וְשֶׁמֶן טָפֵל, וּתְנַן, זֶה הַכְּלָל: כֹּל שֶׁהוּא עִיקָּר וְעִמּוֹ טְפֵלָה, מְבָרֵךְ עַל הָעִיקָּר וּפוֹטֵר אֶת הַטְּפֵלָה!

Se assim (se o azeite é bebido misturado no anigueron), o anigueron seria o principal (ikar) e o azeite o acessório (tafel), e não ensinamos na Mishná (Berachot 44a): esta é a regra: tudo que é principal e com ele há algo acessório, abençoa-se sobre o principal e isenta-se o acessório — logo, dever-se-ia abençoar apenas sobre o anigueron, "shehacol", e não sobre o azeite "borê perí haêts"!

Nota

Nova objeção, paralela à que já havia derrubado a hipótese do azeite comido com pão (unidade 23 de 35b): se o azeite é apenas um tempero dentro do anigueron, este último — o alimento em maior quantidade e propósito principal do ato de beber — deveria ser considerado o item principal, isentando o azeite de bênção própria.

3Aqui trata-se de quem tem dor de garganta: não se deve gargarejar com azeite em Shabat, mas pode-se pôr muito azeite no anigueron e engolir
Bavli · 36a — Guemará (baraita)
הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן — בְּחוֹשֵׁשׁ בִּגְרוֹנוֹ. דְּתַנְיָא: הַחוֹשֵׁשׁ בִּגְרוֹנוֹ לֹא יְעָרְעֶנּוּ בְּשֶׁמֶן תְּחִלָּה בְּשַׁבָּת, אֲבָל נוֹתֵן שֶׁמֶן הַרְבֵּה לְתוֹךְ אֲנִיגְרוֹן וּבוֹלֵעַ.

Aqui trata-se de quê situação? De quem tem dor (chosheh) em sua garganta e usa o azeite como remédio, pondo nele grande quantidade, de modo que o azeite passa a ser o item principal. Pois foi ensinado numa baraita: quem tem dor em sua garganta não deve gargarejar com azeite (le'ar'eno) desde o início (techilá) em Shabat — pois isso demonstraria intenção medicinal evidente, proibida por decreto rabínico, mas pode pôr muito azeite dentro do anigueron e engolir — procedimento que não aparenta ser exclusivamente medicinal.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
החושש בגרונו – וצריך לתת בו שמן הרבה דהוה ליה שמן עיקר ואניגרון טפל: לא יערענו בשמן – בשבת דמשהי ליה בתוך גרונו ואינו בולעו וכיון דלא בלע ליה מוכחא מילתא דלרפואה הוא וחכמים גזרו על כל רפואות הנכרות משום שחיקת סמנים שהיא מלאכה: תחלה – כלומר לכתחלה לא יתן השמן בפיו לשם ערעור כי אם לשם בליעה ואם בא להשהותו ישהנו:

"Quem tem dor em sua garganta" — e precisa pôr nela muito azeite, de modo que o azeite se torna o principal e o anigueron o acessório. "Não deve gargarejar com azeite" — em Shabat, pois ao gargarejar ele o retém dentro da garganta e não o engole; e, como não o engole, fica evidente que seu propósito é medicinal, e os sábios decretaram contra todos os remédios reconhecíveis como tais, por causa do receio de que se chegue a triturar ingredientes, que é uma verdadeira categoria de trabalho proibido em Shabat. "Desde o início" — isto é, de início não deve pôr o azeite em sua boca com o propósito de gargarejar, mas apenas com o propósito de engolir; e se vier a retê-lo um pouco antes de engolir, que o retenha.

Nota

A resolução final: o caso em que o azeite é considerado principal, exigindo bênção própria, é aquele de quem tem dor de garganta e por isso põe grande quantidade de azeite no anigueron, invertendo a relação usual entre os dois — o azeite deixa de ser mero tempero e passa a ser o item em maior quantidade e propósito. A baraita citada distingue duas formas de uso medicinal em Shabat: gargarejar azeite puro é proibido, por evidenciar intenção medicinal reconhecível (sujeita ao decreto contra remédios, por temor de que se chegue a preparar medicamentos, trabalho proibido); mas engolir azeite misturado ao anigueron é permitido, por não aparentar uso exclusivamente medicinal.

4Isso é óbvio! Poderia se pensar que, por ter intenção medicinal, não deveria abençoar; ensina-nos que, como tem prazer nele, deve abençoar
Bavli · 36a — Guemará
פְּשִׁיטָא! מַהוּ דְתֵימָא: כֵּיוָן דְּלִרְפוּאָה קָא מְכַוֵּין לָא לְבָרֵיךְ עֲלֵיהּ כְּלָל, קָא מַשְׁמַע לַן כֵּיוָן דְּאִית לֵיהּ הֲנָאָה מִינֵּיהּ, בָּעֵי בָּרוֹכֵי.

Isso (que se deve abençoar sobre o azeite bebido com anigueron) é óbvio! Por que então repetir o caso? Poder-se-ia pensar que, já que ele tem apenas intenção medicinal, não deveria abençoar sobre o azeite de todo — como não se abençoa sobre remédios em geral; a baraita ensina-nos que, já que ele tem prazer nele (além do efeito medicinal), precisa abençoar.

Nota

A Guemará antecipa a objeção de que o caso seria óbvio, e explica a real novidade do ensinamento: mesmo quando a intenção primária é medicinal, se há também prazer gustativo genuíno no consumo, subsiste a obrigação de abençoar — princípio geral de que a bênção acompanha o desfrute, não a intenção exclusiva.

A bênção da farinha de trigo pura · קִמְחָא דְחִיטֵּי

5Farinha de trigo: Rav Yehudá diz "que cria o fruto da terra", e Rav Nachman diz "que tudo veio a ser por Sua palavra"
Bavli · 36a — Guemará
קִמְחָא דְחִיטֵּי, רַב יְהוּדָה אָמַר: ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, וְרַב נַחְמָן אָמַר: ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״.

Sobre quem come farinha de trigo pura, sem cozinhar: Rav Yehudá diz: "que cria o fruto da terra"; e Rav Nachman diz: "que tudo veio a ser por Sua palavra".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
קמחא דחטי – אוכל קמח חטים כמות שהיא: בורא פרי האדמה – כשאר כוסס חטין דתניא לקמן בפרקין (ברכות ד' לז.) שמברך בורא פרי האדמה:

"Farinha de trigo" — alguém que come farinha de trigo tal como ela está (crua, sem processamento posterior). "Que cria o fruto da terra" — como o restante de quem mastiga grãos de trigo crus, pois foi ensinado adiante, neste mesmo perek (Berachot 37a), que se abençoa "que cria o fruto da terra" sobre eles.

Nota

Nova disputa amoraíta sobre a bênção correta para a farinha de trigo pura, ainda não cozida em pão: Rav Yehudá a equipara ao grão de trigo mastigado cru, mantendo a bênção do fruto da terra; Rav Nachman, por considerá-la já transformada demais para reter essa bênção, prefere a fórmula genérica.

6Disse-lhe Rava a Rav Nachman: não discordes de Rav Yehudá, pois Rabi Yochanan e Shmuel concordam com ele quanto ao azeite; ainda que tenha mudado, mantém-se em sua condição
Bavli · 36a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רָבָא לְרַב נַחְמָן: לָא תִּפְלוֹג עֲלֵיהּ דְּרַב יְהוּדָה, דְּרַבִּי יוֹחָנָן וּשְׁמוּאֵל קָיְימִי כְּווֹתֵיהּ. דְּאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל, וְכֵן אָמַר רַבִּי יִצְחָק אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁמֶן זַיִת מְבָרְכִין עָלָיו ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״. אַלְמָא: אַף עַל גַּב דְּאִשְׁתַּנִּי — בְּמִלְּתֵיהּ קָאֵי. הָא נָמֵי, אַף עַל גַּב דְּאִשְׁתַּנִּי — בְּמִלְּתֵיהּ קָאֵי.

Disse-lhe Rava a Rav Nachman: não discordes de Rav Yehudá, pois Rabi Yochanan e Shmuel concordam com ele (com sua abordagem, ainda que em outro contexto). Pois disse Rav Yehudá em nome de Shmuel, e assim disse Rabi Yitzchak em nome de Rabi Yochanan: sobre o azeite de oliva abençoa-se "que cria o fruto da árvore". Eis que, apesar de ter mudado (de azeitona para azeite), mantém-se em sua condição (sua bênção original). Isto também (a farinha), apesar de ter mudado (de grão para farinha), mantém-se em sua condição — "que cria o fruto da terra".

Nota

Rava defende Rav Yehudá invocando por analogia a halachá já estabelecida sobre o azeite (discutida em 35b): assim como o azeite, mesmo transformado a partir da azeitona, mantém a bênção original do fruto, a farinha, mesmo moída a partir do grão, deveria manter a bênção do fruto da terra.

7É comparável? Ali não há outro aprimoramento possível; aqui há outro aprimoramento possível, com pão
Bavli · 36a — Guemará
מִי דָּמֵי? הָתָם — לֵית לֵיהּ עִלּוּיָא אַחֲרִינָא, הָכָא — אִית לֵיהּ עִלּוּיָא אַחֲרִינָא בְּפַת.

Mas a analogia é comparável? Ali (o azeite) não tem outro aprimoramento (iluya) possível além do que já obteve, tornando-se azeite; aqui (a farinha) tem outro aprimoramento possível, ao se tornar pão — e por isso ainda não atingiu sua forma final de consumo, permanecendo apenas matéria-prima.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
הכא אית ליה עילויא אחרינא – הלכך יצא מכלל פרי ולכלל דרך אכילתו לא בא אבל השמן מיד בא בשנויו לכלל דרך אכילתו ועיקר הפרי לכך נטעוהו הלכך פרי הוא:

"Aqui tem outro aprimoramento possível" — por isso a farinha saiu da categoria de fruto simples, mas ainda não chegou à categoria de sua forma própria de consumo (o pão); mas o azeite, imediatamente com sua transformação, já chega à categoria de sua forma própria de consumo, e é o propósito principal do fruto — pois foi para isso que a árvore foi plantada; por isso o azeite continua a ser considerado fruto.

Nota

A resposta rejeita a analogia: o azeite, ao ser extraído, já atinge sua forma final e definitiva de consumo — é precisamente para produzir azeite que a oliveira foi plantada. A farinha, porém, é apenas etapa intermediária: seu destino de consumo próprio é o pão, ainda por vir, e por isso, tendo perdido a forma de grão sem ainda ter alcançado a forma de pão, cai na categoria genérica de "shehacol".

8E quando há outro aprimoramento não se abençoa "que cria o fruto da terra"? Mas disse Rabi Zeirá em nome de Rav Matna em nome de Shmuel: sobre cabaça crua e farinha de cevada abençoa-se "shehacol"! Isso não implica que sobre trigo se abençoa "borê perí haadamá"?
Bavli · 36a — Guemará
וְכִי אִית לֵיהּ עִלּוּיָא אַחֲרִינָא לָא מְבָרְכִינַן עֲלֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״ אֶלָּא ״שֶׁהַכֹּל״? וְהָא אָמַר רַבִּי זֵירָא אָמַר רַב מַתְנָא אָמַר שְׁמוּאֵל: אַקָּרָא חַיָּיא וְקִמְחָא דִשְׂעָרֵי מְבָרְכִינַן עֲלַיְיהוּ ״שֶׁהַכֹּל נִהְיָה בִּדְבָרוֹ״. מַאי לָאו דְּחִיטֵּי בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה!

E quando há outro aprimoramento possível não se abençoa "que cria o fruto da terra", senão "shehacol"? Mas não disse Rabi Zeirá em nome de Rav Matna em nome de Shmuel: sobre cabaça crua (akra chaiá) e farinha de cevada abençoa-se "que tudo veio a ser por Sua palavra"? Mas isso implica que sobre farinha de trigo abençoa-se "que cria o fruto da terra" — pois, se ambas recebessem a mesma bênção genérica, por que mencionar apenas a cevada?

Nota

Objeção à posição de Rava: se o critério fosse "possibilidade de aprimoramento posterior", tanto a farinha de trigo quanto a de cevada deveriam receber "shehacol", pois ambas podem virar pão. Mas o ensinamento de Shmuel menciona explicitamente apenas a cevada como recebendo "shehacol", sugerindo por exclusão que a farinha de trigo mereceria a bênção superior do fruto da terra — contradizendo a distinção proposta.

9Não: também sobre trigo se abençoa "shehacol"
Bavli · 36a — Guemará
לָא, דְּחִיטֵּי נָמֵי ״שֶׁהַכֹּל נִהְיָה בִּדְבָרוֹ״.

Não — a inferência está errada: também sobre farinha de trigo pura se abençoa "que tudo veio a ser por Sua palavra" — o ensinamento de Shmuel não pretendia excluir o trigo, apenas exemplificar com a cevada.

Nota

A Guemará rejeita a inferência: o ensinamento de Rabi Zeirá não pretendia estabelecer uma distinção entre trigo e cevada, mas apenas fornecer um exemplo — e a mesma bênção "shehacol" se aplica igualmente à farinha pura de trigo.

10Então que nos ensinasse sobre trigo, e com mais razão sobre cevada!
Bavli · 36a — Guemará
וְלַשְׁמְעִינַן דְּחִיטֵּי וְכׇל שֶׁכֵּן דִּשְׂעָרֵי!

Então que nos ensinasse o caso de trigo, e com mais razão (o de) cevada se entenderia por si só — por que Shmuel escolheu exemplificar justamente com o caso menos óbvio?

Nota

Pergunta metodológica: se ambos os grãos recebem a mesma bênção genérica, seria mais econômico ensinar o caso do trigo — o cereal mais nobre — e deixar implícito, por argumento a fortiori, que a cevada, de menor qualidade, certamente também se enquadraria.

11Se nos ensinasse sobre trigo, eu diria que é só quanto ao trigo, mas quanto à cevada não se abençoaria de todo; ensina-nos que também sobre ela se abençoa
Bavli · 36a — Guemará
אִי אַשְׁמְעִינַן דְּחִיטֵּי הֲוָה אָמֵינָא הָנֵי מִילֵּי דְּחִיטֵּי, אֲבָל דִּשְׂעָרֵי לָא לְבָרֵיךְ עֲלֵיהּ כְּלָל, קָא מַשְׁמַע לַן.

Se Shmuel nos tivesse ensinado o caso de trigo, eu diria: isto se aplica apenas ao trigo, mas quanto à cevada não se deveria abençoar sobre ela de todo (por ser considerada alimento inferior, indigno de bênção); por isso, escolhendo o exemplo da cevada, ensina-nos que também sobre ela se abençoa.

Nota

A resposta inverte a lógica esperada: precisamente porque a cevada é o caso menos óbvio — alguém poderia pensar que, sendo alimento de qualidade inferior, sequer mereceria bênção — Shmuel escolhe exemplificar com ela, ensinando que mesmo a farinha de cevada, apesar de sua condição humilde, requer "shehacol".

12É inferior ao sal e à água salgada, sobre os quais se abençoa "shehacol"? Era necessário: pode-se pensar que a farinha de cevada, por causar vermes, não se abençoaria de todo
Bavli · 36a — Guemará
וּמִי גָּרַע מִמֶּלַח וְזָמִית, דִּתְנַן עַל הַמֶּלַח וְעַל הַזָּמִית אוֹמֵר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. אִצְטְרִיךְ, סָלְקָא דַעְתָּךְ אָמֵינָא מֶלַח וְזָמִית עָבֵיד אִינָשׁ דְּשָׁדֵי לְפוּמֵּיהּ, אֲבָל קִמְחָא דִשְׂעָרֵי הוֹאִיל וְקָשֶׁה לְקוּקְיָאנֵי, לָא לְבָרֵיךְ עֲלֵיהּ כְּלָל, קָא מַשְׁמַע לַן כֵּיוָן דְּאִית לֵיהּ הֲנָאָה מִינֵּיהּ בָּעֵי בָּרוֹכֵי.

E a farinha de cevada é inferior ao sal e à água salgada (zamit), dos quais ensinamos: sobre o sal e sobre a água salgada diz-se "que tudo veio a ser por Sua palavra" — e se até estes recebem bênção, com mais razão a farinha de cevada? A resposta é que isto era necessário ensinar mesmo assim: poder-se-ia pensar: sal e água salgada, uma pessoa às vezes os põe diretamente na boca (por hábito comum, e por isso recebem bênção), mas farinha de cevada, já que é prejudicial e causa vermes intestinais (kukyaní), não se deveria abençoar sobre ela de todo; por isso o ensinamento nos informa que, já que a pessoa tem prazer nela, precisa abençoar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
ומי גרע ממלח וזמית – והיכי תיסק אדעתין דלא תבעי ברכה: זמית – שלמיר"א: קוקיאני – תולעים שבמעיים: דאית ליה הנאה – באכילה:

"É inferior ao sal e à água salgada" — e como poderia vir à mente que a farinha de cevada não requeresse bênção alguma? "Zamit" — água salmoura (shelamira). "Kukyaní" — vermes que ficam nos intestinos. "Já que tem prazer nela" — no ato de comer.

Nota

Uma última objeção — se até o sal e a água salgada, consumidos ocasionalmente e sem grande prazer, recebem bênção, com mais razão a farinha de cevada — é respondida distinguindo os casos: o sal é ingerido por hábito comum, enquanto a farinha de cevada crua é prejudicial à saúde (causa vermes intestinais), o que poderia sugerir isenção de bênção; o ensinamento esclarece que, havendo ainda assim prazer real no consumo, subsiste a obrigação — o mesmo princípio já estabelecido na unidade 4 sobre o azeite medicinal.

O broto tenro de palmeira · קוֹרָא

13O broto de palmeira: Rav Yehudá diz "que cria o fruto da terra", e Shmuel diz "que tudo veio a ser por Sua palavra"
Bavli · 36a — Guemará
קוֹרָא, רַב יְהוּדָה אָמַר: ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״.

Sobre o broto tenro de palmeira, chamado "kura" (a membrana macia que envolve os ramos jovens da tamareira, recém-crescidos naquele ano): Rav Yehudá diz: "que cria o fruto da terra"; e Shmuel diz: "que tudo veio a ser por Sua palavra".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
קורא – רך של דקל כשענפיו גדלים בכל שנה ושנה כדרך כל האילנות הנוסף בשנה זו רך ובשנה שניה מתקשה ונעשה עץ:

"Kura" — a parte macia da tamareira, quando seus ramos crescem a cada ano, ao modo de todas as árvores: o ramo acrescentado neste ano é macio, e no ano seguinte endurece e se torna madeira.

Nota

Nova disputa amoraíta, agora sobre o broto tenro de palmeira: a cada ano, novos ramos crescem macios antes de endurecerem em madeira no ano seguinte; enquanto ainda macios, eram comumente comidos. Rav Yehudá o classifica como fruto da terra; Shmuel prefere a bênção genérica.

14Rav Yehudá: é fruto. Shmuel: já que no final endurecerá
Bavli · 36a — Guemará
רַב יְהוּדָה אָמַר ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, פֵּירָא הוּא. וּשְׁמוּאֵל אָמַר ״שֶׁהַכֹּל נִהְיָה בִּדְבָרוֹ״, הוֹאִיל וְסוֹפוֹ לְהַקְשׁוֹת.

Rav Yehudá diz "que cria o fruto da terra": é porque considera que o broto é fruto. E Shmuel diz "que tudo veio a ser por Sua palavra": é porque considera que não é fruto, mas parte da própria árvore, visto que no final endurecerá e se tornará madeira.

Nota

A Guemará explica a raiz da disputa: para Rav Yehudá, enquanto o broto está macio e comestível, é considerado fruto pleno; para Shmuel, o destino final do broto — endurecer e tornar-se madeira, parte estrutural da árvore — o desqualifica retroativamente da categoria de fruto.

15Disse-lhe Shmuel a Rav Yehudá: "Shinaná", é razoável conforme tuas palavras, pois o rabanete também no final endurece e ainda assim se abençoa "borê perí haadamá"! Mas não é assim: plantam o rabanete tendo em mente o rabanete tenro, mas não plantam a tamareira tendo em mente o kura
Bavli · 36a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב יְהוּדָה: שִׁינָּנָא, כְּווֹתָךְ מִסְתַּבְּרָא, דְּהָא צְנוֹן סוֹפוֹ לְהַקְשׁוֹת וּמְבָרְכִינַן עֲלֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״. וְלָא הִיא: צְנוֹן נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְפוּגְלָא, דִּקְלָא לָא נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְקוֹרָא.

Disse-lhe Shmuel a Rav Yehudá: "Shinaná" (termo carinhoso, "afiado de dentes", com que Shmuel costumava chamá-lo), é razoável concluir conforme tuas palavras, pois eis que o rabanete (tzenon) também no final endurece se deixado na terra além de seu tempo, e ainda assim abençoamos sobre ele "que cria o fruto da terra" quando ainda tenro! Mas não é assim — a comparação não se sustenta: o rabanete, as pessoas o plantam tendo em mente comê-lo como rabanete tenro (fugla); a tamareira, as pessoas não a plantam tendo em mente o broto kura.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
צנון סופו להקשות – שאם אינו תולשו בעתו הוא מתקשה כעץ: אדעתא דפוגלא – לאכלו כשהוא רך ושמו פוגלא:

"O rabanete no final endurece" — pois se não o arranca em seu devido tempo, ele endurece como madeira. "Tendo em mente o rabanete tenro" — isto é, para comê-lo quando ele ainda está macio, e é então que se chama "fugla".

Nota

Shmuel inicialmente elogia a lógica de Rav Yehudá, comparando o caso ao rabanete, que também endurece com o tempo mas mantém a bênção do fruto da terra enquanto tenro. Mas a comparação é rejeitada: o propósito do cultivo é o critério decisivo — o rabanete é plantado precisamente para ser colhido e comido tenro, ao passo que a tamareira é plantada para produzir tâmaras maduras e madeira, não o broto tenro, que é subproduto incidental.

16E onde não plantam com esse propósito não se abençoa? Eis a alcaparreira, que plantam tendo em mente a flor, e ensinamos: sobre as folhas e os brotos diz-se "borê perí haadamá", e sobre os frutos e os cápsulas "borê perí haêts"
Bavli · 36a — Guemará
וְכׇל הֵיכָא דְּלָא נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְּהָכִי לָא מְבָרְכִינַן עֲלֵיהּ? וַהֲרֵי צָלָף, דְּנָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְפִרְחָא, וּתְנַן: עַל מִינֵי נִצְפָּה, עַל הֶעָלִין וְעַל הַתְּמָרוֹת אוֹמֵר ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, וְעַל הָאֲבִיּוֹנוֹת וְעַל הַקַּפְרֵיסִין אוֹמֵר ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״.

E onde quer que as pessoas não plantem tendo em mente tal parte, não se abençoa sobre ela como fruto? Eis a alcaparreira (tzalaf), que as pessoas plantam tendo em mente a flor (pircha, e não os frutos), e ainda assim ensinamos: sobre os tipos de partes de "nitzpá" (a alcaparreira e seus produtos), sobre as folhas e sobre os brotos (temarot), diz-se "que cria o fruto da terra"; e sobre os frutos (aviyonot) e sobre os invólucros (kaprisin), diz-se "que cria o fruto da árvore" — logo, mesmo partes que não são o propósito principal do plantio recebem bênção como fruto, contradizendo o critério de Shmuel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
צלף – מין עץ: אדעתא דפרחא – שם פריו: מיני נצפה – הוא צלף לפי שגדלים בו כמה מיני אכילה קרי ליה מיני: תמרות – בתוך העלים גדלים כמין תמרות ובולטין בעלה כמו בעלין של ערבה: אביונות – הוא הפרי: קפריסין – הוא קליפה גדולה שסביבות הפרי כעין קליפה הגדילה סביב אגוזים דקים:

"Tzalaf" — um tipo de árvore. "Tendo em mente a flor" — pircha é o nome de seu fruto principal. "Tipos de nitzpá" — é a própria alcaparreira; por crescerem nela vários tipos de partes comestíveis, chama-se a ela "minê" (tipos). "Temarot" — dentro das folhas crescem estruturas semelhantes a pequenas tâmaras, e se projetam na folha, como as folhas do salgueiro. "Aviyonot" — é o fruto propriamente dito. "Kaprisin" — é uma casca grande que envolve o fruto, semelhante à casca que cresce ao redor de nozes pequenas.

Nota

Objeção contundente ao princípio de Shmuel: a alcaparreira é cultivada tendo em vista sua flor (pircha), não suas folhas nem seus brotos (temarot); e, no entanto, a Mishná ensina que também sobre essas partes secundárias — não apenas sobre o fruto propriamente dito (aviyonot) e o invólucro (kaprisin) — se recita a bênção "borê perí haadamá", tratando-as como fruto pleno, apesar de não serem o propósito do plantio.

17Disse Rav Nachman bar Yitzchak: a alcaparreira se planta tendo em mente as folhas; a tamareira não se planta tendo em mente o kura. E ainda que Shmuel tenha elogiado Rav Yehudá, a halachá é conforme Shmuel
Bavli · 36a — Guemará
אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: צָלָף נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְשׁוּתָא, דִּקְלָא לָא נָטְעִי אִינָשֵׁי אַדַּעְתָּא דְקוֹרָא. וְאַף עַל גַּב דְּקַלְּסֵיהּ שְׁמוּאֵל לְרַב יְהוּדָה, הִלְכְתָא כְּווֹתֵיהּ דִּשְׁמוּאֵל.

Disse Rav Nachman bar Yitzchak: a alcaparreira as pessoas plantam tendo em mente também as folhas (shuta) — pois, ao contrário do broto de tamareira, colher as folhas e brotos da alcaparreira não diminui a árvore, sendo parte esperada de seu uso; a tamareira as pessoas não plantam tendo em mente o kura (pois colhê-lo prejudica o crescimento futuro dos ramos). E ainda que Shmuel tenha elogiado Rav Yehudá (chamando-o "Shinaná"), a halachá é conforme Shmuel — "shehacol" sobre o kura.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
צלף נטעי אינשי אדעתא דשותא – לאכול את העלים ואת התמרות שאינן ממעטין את האילן בכך: דקלא לא נטעי אינשי אדעתא – לאכול את הקורא שהאוכלו ממעט ענפי האילן: והלכתא וכו' – עד פטר להו לא גרסינן ומה"ג הוא:

"A alcaparreira as pessoas plantam tendo em mente as folhas" — para comer as folhas e os brotos, pois comê-los não diminui a árvore com isso. "A tamareira as pessoas não plantam tendo em mente comer o kura" — pois quem o come diminui os ramos da árvore. "E a halachá etc." — até "isenta-os", não trazemos essa passagem na nossa versão do texto, e é acréscimo posterior, próprio das Hagahot (glosas).

Nota

Rav Nachman bar Yitzchak distingue os dois casos por um critério prático: colher folhas e brotos da alcaparreira não prejudica seu crescimento nem seu propósito de cultivo, sendo parte normal e esperada de seu uso; já colher o kura da tamareira consome os próprios ramos em formação, prejudicando a árvore — por isso não se considera parte do propósito do plantio. A Guemará conclui a halachá prática a favor de Shmuel: sobre o kura, "shehacol".

A alcaparreira: orlá, dízimo e a natureza incerta da planta · צָלָף שֶׁל עׇרְלָה

18Disse Rav Yehudá em nome de Rav: a alcaparreira de orlá fora da Terra de Israel — descarta-se os frutos e come-se os invólucros. Isso quer dizer que os frutos são fruto e os invólucros não são fruto? Mas ensinamos que ambos recebem "borê perí haêts"!
Bavli · 36a — Guemará
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: צָלָף שֶׁל עׇרְלָה בְּחוּצָה לָאָרֶץ זוֹרֵק אֶת הָאֲבִיּוֹנוֹת וְאוֹכֵל אֶת הַקַּפְרֵיסִין. לְמֵימְרָא דַּאֲבִיּוֹנוֹת פֵּירֵי וְקַפְרֵיסִין לָאו פֵּירֵי? וּרְמִינְהוּ: עַל מִינֵי נִצְפָּה, עַל הֶעָלִים וְעַל הַתְּמָרוֹת אוֹמֵר ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״, וְעַל הָאֲבִיּוֹנוֹת וְעַל הַקַּפְרֵיסִין אוֹמֵר ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״!

Disse Rav Yehudá em nome de Rav: quanto à alcaparreira de orlá (seus primeiros três anos, cujos frutos são proibidos) fora da Terra de Israel, descarta-se os frutos (aviyonot) — proibidos por orlá — e come-se os invólucros (kaprisin) — permitidos, por não serem considerados fruto. Isso quer dizer que os frutos são considerados fruto e os invólucros não são considerados fruto? Mas isso contradiz o que vimos! E contrapusemos: sobre os tipos de partes de "nitzpá", sobre as folhas e sobre os brotos diz-se "que cria o fruto da terra", e sobre os frutos e sobre os invólucros diz-se "que cria o fruto da árvore" — tratando ambos, frutos e invólucros, igualmente como fruto pleno da árvore!

Nota

Incidentalmente ao tema da alcaparreira, cita-se uma halachá adicional de Rav sobre orlá: fora da Terra de Israel, onde a proibição de orlá é apenas rabínica, permite-se comer os invólucros (kaprisin) da alcaparreira mesmo em seus três primeiros anos, descartando-se apenas os frutos propriamente ditos (aviyonot). A Guemará aponta a contradição aparente com a Mishná já citada, que trata tanto frutos quanto invólucros como "fruto da árvore" — sugerindo que ambos deveriam ser igualmente proibidos por orlá.

19Ele falou conforme Rabi Akivá: Rabi Eliezer diz que se dizima brotos, frutos e invólucros; Rabi Akivá diz que só se dizima os frutos, pois só ele é considerado fruto
Bavli · 36a — Guemará (Mishná, Maasserot 4:6)
הוּא דְּאָמַר כְּרַבִּי עֲקִיבָא. דִּתְנַן, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: צָלָף מִתְעַשֵּׂר תְּמָרוֹת וַאֲבִיּוֹנוֹת וְקַפְרֵיסִין. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: אֵין מִתְעַשֵּׂר אֶלָּא אֲבִיּוֹנוֹת בִּלְבַד, מִפְּנֵי שֶׁהוּא פֶּרִי.

A resposta é que ele (Rav) falou conforme Rabi Akivá. Pois ensinamos numa Mishná: Rabi Eliezer diz: a alcaparreira se dizima quanto aos brotos, aos frutos e aos invólucros (tratando todos como sujeitos ao dízimo). Rabi Akivá diz: não se dizima senão os frutos apenas, porque só ele é considerado fruto — e as demais partes, não sendo fruto para efeito de dízimo, também não seriam para efeito de orlá.

Nota

A contradição se resolve: a halachá de Rav sobre orlá segue a opinião de Rabi Akivá, expressa numa Mishná de Maasserot, segundo a qual apenas o fruto propriamente dito (aviyonot) é considerado "fruto" para fins legais como dízimo e orlá; brotos e invólucros, apesar de receberem a mesma bênção "borê perí haêts" por conveniência prática, não têm o mesmo status legal pleno.

20Que dissesse "a halachá é conforme Rabi Akivá"! Se assim, eu diria mesmo na Terra de Israel; ensina-nos: quem é lênio na Terra, a halachá é como ele fora da Terra, mas não na Terra
Bavli · 36a — Guemará
וְנֵימָא: ״הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא״! אִי אָמַר הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא, הֲוָה אָמֵינָא אֲפִילּוּ בָּאָרֶץ, קָא מַשְׁמַע לַן: כׇּל הַמֵּיקֵל בָּאָרֶץ — הֲלָכָה כְּמוֹתוֹ בְּחוּצָה לָאָרֶץ, אֲבָל בָּאָרֶץ — לָא.

Que Rav dissesse simplesmente: "a halachá é conforme Rabi Akivá" — por que formular toda uma nova halachá sobre orlá, em vez de citar diretamente a opinião já debatida? Se tivesse dito "a halachá é conforme Rabi Akivá", eu diria que isso vale mesmo na Terra de Israel; por isso, ao formular a halachá como o fez, ensina-nos: todo aquele que é lênio numa disputa na Terra de Israel, a halachá é como ele fora da Terra de Israel, mas na própria Terra de Israel, não — pois lá a lei é mais rigorosa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
דכל המיקל בארץ – בערלה הלכה כמותו בחוצה לארץ. דכיון דאינה מן התורה הלך אחר המיקל:

"Todo aquele que é lênio na Terra de Israel" — quanto a orlá, a halachá é como ele fora da Terra de Israel; pois, já que ali, fora da Terra, não é proibição da Torá mas apenas rabínica, segue-se a opinião mais lênia.

Nota

A Guemará explica por que Rav não citou diretamente a opinião de Rabi Akivá: fazê-lo sugeriria que ela se aplica também dentro da Terra de Israel, onde a orlá é proibição bíblica. Ao formular a halachá de modo específico para "fora da Terra", Rav ensina um princípio metodológico mais amplo: em disputas sobre orlá, a opinião mais lênia prevalece apenas fora da Terra de Israel, onde a proibição é apenas rabínica; dentro da Terra, prevalece o rigor.

21Que dissesse: "a halachá é conforme Rabi Akivá fora da Terra"! Eu diria que isso vale só quanto ao dízimo de árvore, que é rabínico até na Terra; mas quanto à orlá, que é bíblica na Terra, decretaríamos também fora dela
Bavli · 36a — Guemará
וְנֵימָא: ״הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא בְּחוּצָה לָאָרֶץ״, דְּכׇל הַמֵּיקֵל בָּאָרֶץ — הֲלָכָה כְּמוֹתוֹ בְּחוּצָה לָאָרֶץ. אִי אָמַר הָכִי, הֲוָה אָמֵינָא הָנֵי מִילֵּי גַּבֵּי מַעְשַׂר אִילָן, דְּבָאָרֶץ גּוּפָא מִדְּרַבָּנַן, אֲבָל גַּבֵּי עׇרְלָה, דְּבָאָרֶץ מִדְּאוֹרָיְיתָא, אֵימָא בְּחוּצָה לָאָרֶץ נָמֵי נִגְזוֹר, קָא מַשְׁמַע לַן.

Que Rav dissesse então, mais precisamente: "a halachá é conforme Rabi Akivá fora da Terra de Israel", invocando o princípio de que todo aquele que é lênio na Terra de Israel, a halachá é como ele fora da Terra de Israel — por que a longa formulação específica sobre a alcaparreira, em vez desta fórmula geral? A resposta é que, se tivesse dito assim, eu diria que isto se aplica apenas quanto ao dízimo de árvore, que mesmo na própria Terra de Israel é obrigação apenas rabínica (quanto às árvores); mas quanto à orlá, que na Terra de Israel é proibição bíblica, eu diria: decretemos que se proíba também fora da Terra de Israel, por precaução, apesar do princípio geral; por isso Rav ensina-nos especificamente o caso da alcaparreira, mostrando que mesmo quanto à orlá se segue o lênio fora da Terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
גבי מעשר – דהא דר"ע לגבי מעשר איתמר דמעשר פירות האילן דבארץ גופה דרבנן שהתורה לא חייבה לעשר אלא דגן תירוש ויצהר:

"Quanto ao dízimo" — pois esta opinião de Rabi Akivá foi dita a respeito do dízimo, e o dízimo dos frutos da árvore, mesmo na própria Terra de Israel, é obrigação apenas rabínica, pois a Torá não obrigou a dizimar senão grão, mosto de uva e azeite puro.

Nota

Nova tentativa de simplificar a formulação de Rav é também rejeitada: se ele tivesse dito apenas "a halachá é conforme Rabi Akivá fora da Terra", poder-se-ia pensar que isso vale apenas para o contexto original da disputa — o dízimo de árvores, que é obrigação meramente rabínica mesmo dentro da Terra de Israel — mas não para orlá, que é proibição bíblica dentro da Terra e que talvez devesse, por precaução adicional, ser decretada também fora dela. A formulação específica de Rav elimina essa dúvida, aplicando explicitamente o princípio também à orlá.

22Ravina encontrou Mar bar Rav Ashi descartando os frutos e comendo os invólucros. Disse-lhe: por que não ages conforme Bet Shamai, que são ainda mais lênios? Pois ensinamos: Bet Shamai diz que a alcaparreira é diversidade na vinha; mas ambos concordam que é obrigada em orlá
Bavli · 36a — Guemará (Mishná, Kilaim 6:1)
רָבִינָא אַשְׁכְּחֵיהּ לְמָר בַּר רַב אָשֵׁי דְּקָא זָרֵיק אֲבִיּוֹנוֹת וְקָאָכֵיל קַפְרֵיסִין. אֲמַר לֵיהּ: מַאי דַעְתָּךְ, כְּרַבִּי עֲקִיבָא דְּמֵיקֵל? וְלֶעֱבֵיד מָר כְּבֵית שַׁמַּאי דִּמְקִילִּי טְפֵי! דִּתְנַן: צָלָף, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם. וּבֵית הַלֵּל אוֹמְרִים: אֵין כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם. אֵלּוּ וְאֵלּוּ מוֹדִים שֶׁחַיָּיב בְּעׇרְלָה.

Ravina encontrou Mar bar Rav Ashi descartando (zarek) os frutos e comendo os invólucros de uma alcaparreira de orlá, fora da Terra de Israel. Disse-lhe: qual é tua base de opinião? Se ages conforme Rabi Akivá, que é lênio, então que o mestre aja conforme Bet Shamai, que são ainda mais lênios quanto à alcaparreira! Pois ensinamos numa Mishná: quanto à alcaparreira, Bet Shamai dizem: é considerada diversidade proibida na vinha (kilaim bakérem, isto é, classificada como erva/vegetal, cujo plantio junto a videiras é proibido). E Bet Hilel dizem: não é diversidade proibida na vinha (por ser árvore, e não erva). Estes e aqueles (ambas as escolas) concordam que a alcaparreira é obrigada em orlá (portanto, considerada árvore para esse fim).

Nota

Episódio prático: Ravina questiona Mar bar Rav Ashi por seguir apenas a lenidade de Rabi Akivá (permitindo os invólucros), quando existe posição ainda mais lênia — a de Bet Shamai, que classificam a própria alcaparreira como erva/vegetal (kilaim), o que a isentaria mais amplamente. Mas cita-se a ressalva: mesmo Bet Shamai concordam que a alcaparreira é obrigada em orlá, tratando-a nesse contexto específico como árvore — abrindo a discussão sobre essa aparente inconsistência na própria posição de Bet Shamai.

23Isso mesmo é difícil: disseste que Bet Shamai a considera diversidade na vinha — logo é espécie de vegetal — e depois ensinamos que ambos concordam que é obrigada em orlá — logo é espécie de árvore!
Bavli · 36a — Guemará
הָא גוּפָא קַשְׁיָא: אָמְרַתְּ צָלָף בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם, אַלְמָא מִין יָרָק הוּא, וַהֲדַר תָּנֵי: אֵלּוּ וְאֵלּוּ מוֹדִים שֶׁחַיָּיב בְּעׇרְלָה, אַלְמָא מִין אִילָן הוּא!

Isso mesmo (esta própria Mishná citada) é difícil — apresenta contradição interna: disseste que, quanto à alcaparreira, Bet Shamai dizem que é diversidade proibida na vinha; logo, é considerada espécie de vegetal por eles. E depois a mesma Mishná ensina: estes e aqueles concordam que a alcaparreira é obrigada em orlá; logo, é considerada espécie de árvore até por Bet Shamai — uma contradição na própria posição desta escola!

Nota

A Guemará expõe a tensão interna na própria Mishná citada: se Bet Shamai classifica a alcaparreira como vegetal (para o propósito de kilaim), como pode a mesma escola concordar que ela está sujeita a orlá — halachá que, por definição, aplica-se apenas a árvores? As duas posições, tomadas em conjunto, parecem contraditórias.

24Não é difícil: Bet Shamai está em dúvida, e agem com rigor em ambos os casos; de todo modo, para Bet Shamai é dúvida de orlá, e ensinamos que dúvida de orlá na Terra de Israel é proibida, na Síria é permitida, e fora da Terra desce
Bavli · 36a — Guemará
הָא לָא קַשְׁיָא: בֵּית שַׁמַּאי סַפּוֹקֵי מְסַפְּקָא לְהוּ, וְעָבְדִי הָכָא לְחוּמְרָא וְהָכָא לְחוּמְרָא. מִכׇּל מָקוֹם, לְבֵית שַׁמַּאי הָוֵה לֵיהּ סָפֵק עׇרְלָה, וּתְנַן: סָפֵק עׇרְלָה — בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל אָסוּר, וּבְסוּרְיָא מוּתָּר. וּבְחוּצָה לָאָרֶץ יוֹרֵד

Isso não é difícil: Bet Shamai está na verdade em dúvida quanto à natureza da alcaparreira, sem posição definida, e agem com rigor aqui (quanto a kilaim) e com rigor ali (quanto a orlá) — tratando-a como vegetal onde isso é mais restritivo, e como árvore onde isso é mais restritivo, sem se comprometer com uma classificação única. De todo modo, para Bet Shamai, a alcaparreira tem o status de dúvida de orlá (safek orlá), e ensinamos numa Mishná: dúvida de orlá — na Terra de Israel é proibida, e na Síria é permitida; e fora da Terra de Israel, o comprador desce e compra, mesmo sob dúvida — a frase continua em 36b.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36a
מ"מ לב"ש הוה ליה ספק ערלה וכו' – האי מ"מ מסקנא דפירכא דרבינא הוא ולמימר שאף הפרי עצמו מותר בחוצה לארץ דהא בארץ ספק הוא ותנן ספק ערלה כו': ובסוריא – ארם צובה שכבש דוד והוסיפה על גבול ארץ ישראל: ובחוצה לארץ – הלוקח מן החשוד על הערלה ויודע הוא שיש בפרדסו זקנות ונטיעות: יורד ולוקח – הימנו אף על פי שספק הוא אם יביא מן הנטיעות:

"De todo modo, para Bet Shamai há dúvida de orlá etc." — este "de todo modo" é a conclusão da objeção de Ravina, querendo dizer que também o próprio fruto (e não só o invólucro) seria permitido fora da Terra de Israel, pois na Terra de Israel é apenas dúvida, e ensinamos: dúvida de orlá etc.. "E na Síria" — refere-se a Aram Tzová, que David conquistou e acrescentou ao território da Terra de Israel. "E fora da Terra de Israel" — quanto a quem compra de alguém suspeito de transgredir orlá, e o comprador sabe que em seu pomar há árvores velhas e também mudas novas (sujeitas a orlá). "Desce e compra" — dele, ainda que seja duvidoso se o produto virá das mudas novas.

Nota

A resolução final: Bet Shamai não tem, na verdade, uma classificação fixa e coerente para a alcaparreira — trata-se de genuína incerteza, resolvida pragmaticamente em cada contexto pelo lado mais rigoroso (vegetal para kilaim, árvore para orlá). Na prática, isso equivale a tratar a alcaparreira como "dúvida de orlá", categoria com regras próprias já estabelecidas numa Mishná: proibida na Terra de Israel, permitida na Síria (território anexado por David), e fora da Terra plenamente permitida mesmo comprando de vendedor suspeito — frase que a Guemará deixa interrompida ao final do daf, para ser concluída em 36b.