Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Vav (Ketzad Mevarchin)
שׁוֹמֵר לַפְּרִי

O princípio do "shomer lapri", a decisão final sobre a alcaparreira, e as bênçãos da pimenta, do gengibre e do chavitz kedera

Berachot 36b

Completando a frase interrompida ao final de 36a, o daf conclui a halachá de dúvida de orlá fora da Terra de Israel: compra-se do vendedor suspeito, contanto que não se veja diretamente a colheita. Segue-se uma extensa sugya sobre o princípio de "shomer lapri" (invólucro que se torna guardião do fruto, herdando seu status de orlá), com três formulações sucessivas de Rava, testadas contra o caso do broto ("netz") da romã e o episódio prático em que a flor da alcaparreira murchou mas a da bituita se manteve — até a conclusão halachica final a favor de Mar bar Rav Ashi, que descarta os frutos e come os invólucros, com a nota editorial de que, por não serem fruto para orlá, os invólucros também não recebem "borê perí haêts" para bênção, mas "borê perí haadamá". O daf passa então à bênção da pimenta e do gengibre — disputa Rav Sheshet/Rava, ligada à halachá de Iom Kipur —, à baraita de Rabi Meir que deriva da pimenteira a expressão "árvore de alimento" e o princípio de que a Terra de Israel não carece de nada, e conclui com a disputa Rav Yehudá/Rav Kahana sobre a bênção do chavitz kedera e da papa de trigo, resolvida pelo princípio de que tudo que contém uma das cinco espécies de grão recebe "borê minê mezonot".

Conclusão: dúvida de orlá fora da Terra de Israel · סָפֵק עׇרְלָה בְּחוּצָה לָאָרֶץ

1E compra, contanto que não o veja colhendo
Bavli · 36b — Guemará
וְלוֹקֵחַ — וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִרְאֶנּוּ לוֹקֵט.

E compra — completando a Mishná citada ao final de 36a sobre dúvida de orlá fora da Terra de Israel —, contanto que não o veja (o comprador não veja o vendedor chaver , membro confiável em outras questões, porém suspeito quanto a orlá) colhendo diretamente das mudas novas — pois, se o visse colhendo, o produto deixaria de ser mera dúvida e se tornaria certeza de proibição.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
ובלבד שלא יראנו – החבר כשהוא לוקט מן הנטיעות:

"Contanto que não o veja" — o comprador não veja o chaver (vendedor confiável, porém suspeito nesse ponto) quando ele colhe das mudas novas, sujeitas a orlá.

Nota

Completa-se a halachá de dúvida de orlá fora da Terra de Israel, iniciada ao final de 36a: nessa condição de incerteza, o comprador pode adquirir o produto de um vendedor suspeito de transgredir orlá — desde que não presencie a colheita direta das mudas jovens, o que transformaria a dúvida em certeza de proibição.

2Rabi Akivá no lugar de Rabi Eliezer, agimos conforme ele; mas Bet Shamai no lugar de Bet Hilel não é Mishná
Bavli · 36b — Guemará
רַבִּי עֲקִיבָא בִּמְקוֹם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר עָבְדִינַן כְּוָתֵיהּ, וּבֵית שַׁמַּאי בִּמְקוֹם בֵּית הִלֵּל — אֵינָהּ מִשְׁנָה.

Retomando a discussão de 36a sobre por que Ravina cobrou de Mar bar Rav Ashi que seguisse Bet Shamai, mais lênio que Rabi Akivá: Rabi Akivá, no lugar de Rabi Eliezer, agimos conforme ele — pois em disputas individuais contra Rabi Eliezer a halachá segue Rabi Akivá; mas Bet Shamai, no lugar de Bet Hilel, não é halachá válida como Mishná — pois em disputas entre as duas escolas a halachá sempre segue Bet Hilel, e por isso Mar bar Rav Ashi não tinha motivo para seguir a posição mais lênia de Bet Shamai.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
אינה משנה – ואין זה ספק אלא ודאי:

"Não é halachá válida como Mishná" — e isto (seguir Bet Shamai contra Bet Hilel) não é dúvida legítima, mas equivaleria a agir contra uma halachá certa.

Nota

Resposta à objeção de Ravina levantada em 36a: Mar bar Rav Ashi tinha razão em seguir apenas Rabi Akivá, e não Bet Shamai, apesar deste ser mais lênio. A razão é estrutural: nas disputas individuais entre Rabi Eliezer e Rabi Akivá, a halachá estabelecida segue Rabi Akivá; mas nas disputas entre as escolas de Bet Shamai e Bet Hilel, a halachá sempre segue Bet Hilel — de modo que invocar Bet Shamai não seria seguir uma posição lênia legítima, mas contrariar a halachá firmemente estabelecida.

O princípio de "shomer lapri" · שׁוֹמֵר לַפְּרִי

3E que se derive: tornou-se guardião do fruto, e a Torá disse "e tratareis como orlá sua orlá, seu fruto" — o que é acessório ao seu fruto, a saber, o guardião do fruto
Bavli · 36b — Guemará
וְתִיפּוֹק לֵיהּ דְּנַעֲשָׂה שׁוֹמֵר לַפְּרִי, וְרַחֲמָנָא אָמַר: ״וַעֲרַלְתֶּם עׇרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ״, אֶת הַטָּפֵל לְפִרְיוֹ, וּמַאי נִיהוּ — שׁוֹמֵר לַפְּרִי.

E que se deduzisse a proibição dos invólucros (kaprisin) por outra via, sem depender da disputa Rabi Eliezer/Rabi Akivá sobre dízimo: eles se tornaram guardião (shomer) do fruto, e o Misericordioso disse: "e tratareis como orlá sua orlá, seu fruto" (Vaicrá 19:23)incluindo o que é acessório a seu fruto, e o que é isso? O guardião do fruto — logo, mesmo sem considerar o invólucro fruto pleno, ele seria proibido por orlá apenas por proteger o fruto.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
ותיפוק ליה – דאי נמי ר' עקיבא דאמר לענין מעשר דלאו פירא נינהו לענין ערלה אסירי קפריסין דהוה ליה שומר:

"E que se derivasse daí" — que ainda que se siga Rabi Akivá, que diz, quanto ao dízimo, que os invólucros não são fruto, quanto à orlá os invólucros seriam proibidos, pois o invólucro tem o status de guardião do fruto.

Nota

Nova linha de raciocínio: independentemente da disputa sobre se o invólucro (kaprisin) é "fruto" para efeito de dízimo, ele poderia ser proibido por orlá apenas por servir de "guardião do fruto" (shomer lapri) — categoria derivada do próprio versículo de orlá, que inclui explicitamente o que é acessório ao fruto principal.

4Disse Rava: dizemos que se tornou guardião do fruto onde existe tanto destacado quanto ligado; aqui, ligado existe, destacado não existe
Bavli · 36b — Guemará
אָמַר רָבָא: הֵיכָא אָמְרִינַן דְּנַעֲשָׂה שׁוֹמֵר לַפְּרִי — הֵיכָא דְּאִיתֵיהּ בֵּין בְּתָלוּשׁ בֵּין בִּמְחוּבָּר, הָכָא בִּמְחוּבָּר — אִיתֵיהּ, בְּתָלוּשׁ — לֵיתֵיהּ.

Disse Rava: onde dizemos que algo se tornou guardião do fruto é onde ele existe tanto destacado (talush, após a colheita) quanto ligado (mechubar, ainda preso à árvore); aqui (o kaprisin da alcaparreira), ligado à árvore, existe (protegendo o fruto enquanto ainda cresce); destacado, não existe (pois cai e se desprende antes mesmo da colheita do fruto maduro, deixando de protegê-lo) — logo, não se qualifica como verdadeiro "guardião do fruto".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
בתלוש ליתיה – סופו שנופל הימנו כשמגיע להתבשל:

"Destacado, não existe" — pois seu fim é cair dele, do fruto, quando este chega a amadurecer.

Nota

Primeira formulação de Rava do critério de "shomer lapri": para que um invólucro seja considerado guardião legítimo do fruto (e, portanto, sujeito à mesma proibição de orlá), ele precisa continuar protegendo o fruto tanto enquanto preso à árvore quanto depois de colhido. O kaprisin da alcaparreira falha nesse teste, pois cai por si mesmo antes da colheita, quando o fruto amadurece — não chegando a acompanhá-lo no estado destacado.

5Objetou-lhe Abaie: o broto da romã se une, mas sua flor não se une — logo não é considerado alimento; mas ensinamos que a casca da romã e seu broto, a casca de nozes e os caroços são obrigados em orlá!
Bavli · 36b — Guemará
אֵיתִיבֵיהּ אַבָּיֵי: פִּיטְמָא שֶׁל רִמּוֹן מִצְטָרֶפֶת, וְהַנֵּץ שֶׁלּוֹ אֵין מִצְטָרֵף. מִדְּקָאָמַר הַנֵּץ שֶׁלּוֹ אֵין מִצְטָרֵף, אַלְמָא דְּלָאו אוֹכֶל הוּא. וּתְנַן גַּבֵּי עׇרְלָה: קְלִיפֵּי רִמּוֹן וְהַנֵּץ שֶׁלּוֹ, קְלִיפֵּי אֱגוֹזִים וְהַגַּרְעִינִין חַיָּיבִין בְּעׇרְלָה.

Objetou-lhe Abaie: o pitma (a saliência na ponta) da romã se une ao volume de tamanho de um ovo, exigido para transmitir impureza a alimentos, mas sua flor (netz, remanescente da florada) não se une a esse volume. Do fato de a Mishná dizer que sua flor não se une ao volume, eis que se conclui que ela não é considerada alimento — assemelhando-se, portanto, ao caso do kaprisin, que também não é fruto pleno, mas apenas guardião ligado à árvore. Mas ensinamos numa Mishná, quanto à orlá: a casca externa da romã e sua flor, a casca das nozes e os caroços são obrigados em orlá — logo, mesmo sem ser considerada alimento pleno, a flor da romã é proibida por orlá como guardião do fruto, e o mesmo deveria valer para o kaprisin, contradizendo a distinção de Rava entre "ligado" e "destacado"!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
פיטמא של רמון – הפרח שבראשו כעין שיש לתפוחים ולספרגלין: מצטרפת – לכביצה לטומאת אוכלין: והנץ שלו – נץ ברמון כקפרס באביונות: אין מצטרף – אע"ג דקי"ל בהעור והרוטב (ד' קיז:) שומרים מצטרפין לטומאה קלה דהיינו טומאת אוכלין הני מילי קליפת האגוז והרמון אבל הנץ שומר על גבי שומר הוא ואין מצטרף והכי אמרינן בהעור והרוטב (ד' קיט:): חייבים בערלה – דרחמנא רבינהו מאת פריו הטפל לפריו והא נץ ליתיה שומר בתלוש שכשמתיבש נופל מעל הקליפה:

"O pitma da romã" — a flor remanescente em sua ponta, semelhante à que têm as maçãs e os marmelos. "Se une" — ao volume do tamanho de um ovo, para fins de transmitir impureza a alimentos. "E sua flor" — a flor na romã é equivalente ao kaprisin nos aviyonot (frutos da alcaparreira). "Não se une" — apesar de sustentarmos, em "HaOr VeHarotev" (Chulin 117b), que guardiões se unem para impureza leve, isto é, impureza de alimentos — isto se aplica à casca da noz e da romã, mas a flor é guardião sobre um outro guardião, e não se une; e assim dizemos em "HaOr VeHarotev" (Chulin 119b). "São obrigados em orlá" — pois o Misericordioso os incluiu a partir de "seu fruto", abrangendo o que é acessório a seu fruto; e eis que a flor não chega a existir como guardião no estado destacado, pois, quando o fruto seca, ela cai da casca.

Nota

Abaie traz um precedente aparentemente contraditório à formulação de Rava: a flor residual da romã (netz) não é considerada "alimento" para fins de impureza — exatamente como o kaprisin não é fruto pleno — e, no entanto, uma Mishná sobre orlá a inclui explicitamente como proibida, junto com a casca da romã, a casca de nozes e os caroços, tratando-a como guardião do fruto sujeito a orlá. Isso desafiaria a distinção de Rava entre estar presente apenas "ligado" ou também "destacado".

6Mas disse Rava: dizemos que se tornam guardião do fruto onde existe no momento da conclusão do fruto; este kaprés não existe no momento da conclusão do fruto
Bavli · 36b — Guemará
אֶלָּא אָמַר רָבָא: הֵיכָא אָמְרִינַן דְּנַעֲשָׂה לְהוּ שׁוֹמֵר לְפֵירֵי — הֵיכָא דְּאִיתֵיהּ בִּשְׁעַת גְּמַר פֵּירָא, הַאי קַפְרֵס לֵיתֵיהּ בִּשְׁעַת גְּמַר פֵּירָא.

Mas diante da objeção, disse Rava reformulando seu critério: onde dizemos que algo se tornou guardião do fruto é onde ele existe no momento da conclusão do fruto (gmar pera, isto é, no momento em que o fruto atinge sua maturação plena); este kaprés da alcaparreira não existe no momento da conclusão do fruto — pois cai antes disso — enquanto a flor da romã, ainda que não se una ao volume de impureza, permanece presente até o amadurecimento pleno.

Nota

Segunda formulação de Rava, corrigindo a primeira diante da objeção de Abaie: o critério decisivo não é a presença simultânea nos estados "ligado" e "destacado", mas sim se o guardião ainda está presente no momento exato em que o fruto atinge sua maturação completa. A flor da romã permanece até esse ponto; o kaprisin da alcaparreira, não — caindo antes do amadurecimento final do fruto.

7Mas não disse Rav Nachman em nome de Rabá bar Avuh: estes brotos de tâmaras verdes de orlá são proibidos, pois se tornaram guardião do fruto — e quando é guardião do fruto? No estágio de kufra!
Bavli · 36b — Guemará
אִינִי?! וְהָאָמַר רַב נַחְמָן אָמַר רַבָּה בַּר אֲבוּהּ: הָנֵי מְתַחֲלֵי דְעׇרְלָה אֲסִירִי, הוֹאִיל וְנַעֲשׂוּ שׁוֹמֵר לְפֵירֵי. וְשׁוֹמֵר לְפֵירֵי אִימַּת הָוֵי — בְּכוּפְרָא, וְקָא קָרֵי לֵיהּ ״שׁוֹמֵר לְפֵירֵי״.

É assim (está correta a nova formulação)?! Mas não disse Rav Nachman em nome de Rabá bar Avuh: estes brotos (metachalê, invólucros externos) de orlá são proibidos, já que se tornaram guardião do fruto; e guardião do fruto, quando ele existe com esse status? No estágio de kufra (tâmaras ainda pequenas, muito antes da maturação plena) — e chama a esse estágio precoce, ainda assim, "guardião do fruto" — contradizendo a nova formulação de Rava, que exige presença no momento da conclusão do fruto!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
מתחלי – בתמרי כקפרס בצלף: בכופרא – כשהתמרים קטנים קודם בשולם:

"Metachalê" — nas tâmaras, equivalente ao kaprés na alcaparreira. "No estágio de kufra" — quando as tâmaras são pequenas, antes de seu amadurecimento pleno.

Nota

Nova objeção à segunda formulação de Rava: o invólucro externo (metachalê) das tâmaras jovens é declarado "guardião do fruto" sujeito a orlá logo no estágio de kufra — quando as tâmaras ainda são pequenas, muito antes de sua maturação plena — contradizendo o critério de que o guardião precisa estar presente no momento exato da conclusão do fruto.

8Rav Nachman segue Rabi Yosei, que diz que o broto da uva é proibido por ser fruto; e os sábios discordam dele
Bavli · 36b — Guemará
רַב נַחְמָן סָבַר לַהּ כְּרַבִּי יוֹסֵי, דִּתְנַן רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: סְמָדַר אָסוּר מִפְּנֵי שֶׁהוּא פֶּרִי. וּפְלִיגִי רַבָּנַן עֲלֵיהּ.

Rav Nachman (que transmitiu o ensinamento sobre o kufra) segue a opinião de Rabi Yosei, pois ensinamos numa Mishná: Rabi Yosei diz: o broto (semadar) da uva é proibido por orlá, porque ele já é considerado fruto pleno, mesmo em estágio inicial. E os sábios discordam dele — por isso o kufra, segundo a maioria, não seria proibido apenas por ser fruto incipiente, mas sim apenas na medida em que serve de guardião.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
סבר לה כר' יוסי – דכופרא הוי פרי ואע"פ שלא נגמר לפיכך שומר שלו חשוב שומר: סמדר אסור – ענבים כיון שנפל הפרח וכל גרגיר נראה לעצמו קרוי סמדר וקאמר ר' יוסי כיון שבא לכלל סמדר קרוי פרי ואסור משום ערלה: ופליגי רבנן עליה – והלכה כרבים הלכך אביונות בעוד שהקפריסין בהן לאו פירי נינהו ולא מיקרו קפריסין שומר לפרי:

"Segue a opinião de Rabi Yosei" — pois para ele o kufra já é considerado fruto, e ainda que não esteja concluído, por isso seu guardião é considerado verdadeiro guardião. "O broto (semadar) é proibido" — nas uvas, quando a flor cai e cada bago aparece por si só, chama-se semadar, e diz Rabi Yosei que, já que a uva chega à categoria de semadar, é chamada fruto, e é proibida por orlá. "E os sábios discordam dele" — e a halachá é conforme a maioria; por isso os aviyonot (frutos da alcaparreira), enquanto ainda contêm os kaprisin, não são fruto pleno, e os kaprisin não se chamam guardião do fruto nesse estágio inicial.

Nota

A Guemará resolve a objeção anterior identificando a fonte da opinião de Rabá bar Avuh: ela segue Rabi Yosei, que considera o broto da uva (semadar) já fruto pleno desde seu estágio inicial — e, por analogia, o mesmo valeria para o kufra da tâmara. Mas essa é uma opinião individual, rejeitada pelos sábios (a maioria), cuja posição prevalece na halachá — preservando, portanto, a formulação de Rava para o caso padrão da alcaparreira.

9Objetou Rav Shimi de Neharde'a: mas nas demais árvores os sábios não discordam dele? E ensinamos: a partir de quando não se cortam as árvores no ano sabático — Bet Shamai diz desde que produzam, e Bet Hilel distingue alfarrobeiras, videiras, oliveiras e as demais árvores
Bavli · 36b — Guemará (Mishná, Shevi'it 4:7)
מַתְקִיף לַהּ רַב שִׁימִי מִנְּהַרְדְּעָא: וּבִשְׁאָר אִילָנֵי מִי פְּלִיגִי רַבָּנַן עֲלֵיהּ? וְהָתְנַן: מֵאֵימָתַי אֵין קוֹצְצִין אֶת הָאִילָנוֹת בַּשְּׁבִיעִית — בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: כׇּל הָאִילָנוֹת מִשֶּׁיּוֹצִיאוּ, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: הֶחָרוּבִין מִשֶּׁיְּשַׁרְשְׁרוּ, וְהַגְּפָנִים מִשֶּׁיְּגָרְעוּ, וְהַזֵּיתִים מִשֶּׁיָּנֵיצוּ, וּשְׁאָר כׇּל הָאִילָנוֹת מִשֶּׁיּוֹצִיאוּ.

Objetou Rav Shimi de Neharde'a: mas nas demais árvores (além da videira) os sábios discordam dele (de Rabi Yosei, quanto a considerar o fruto incipiente já fruto pleno)? E não ensinamos numa Mishná: a partir de quando não se cortam as árvores no ano sabático (por causar prejuízo à produção)? Bet Shamai diz: todas as árvores, desde que produzam algum fruto, por incipiente que seja; e Bet Hilel diz: as alfarrobeiras, desde que formem como cordõezinhos (sharsherot); e as videiras, desde que seus bagos diminuam (yegar'u, isto é, atinjam certo tamanho); e as oliveiras, desde que floresçam (yanitzu); e as demais árvores, desde que produzam — logo, também Bet Hilel, que discordam de Bet Shamai apenas quanto à alfarrobeira, videira e oliveira, concordam quanto às demais árvores que basta a simples produção do fruto, mesmo incipiente, para considerá-lo fruto pleno, refutando a suposição de que os sábios discordam de Rabi Yosei em geral!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
בשאר אילנות – חוץ מן הענבים: אין קוצצין בשביעית – דרחמנא אמר לאכלה ולא להפסד: משיוציאו – את הפרי: משישרשרו – משיראו בהן כמין שרשרות של חרובין: משיגרעו – שהענבים גסים כגרוע ולקמן מפרש לה: משיניצו – משיגדל הנץ סביב:

"Nas demais árvores" — exceto as uvas. "Não se cortam no sabático" — pois o Misericordioso disse "para comer" (Vaicrá 25:6), e não para causar prejuízo. "Desde que produzam" — o fruto. "Desde que formem cordõezinhos" — desde que apareçam nelas estruturas semelhantes a cordõezinhos de alfarrobas. "Desde que diminuam" — que as uvas fiquem grossas como garua (um tipo de grão), adiante a Guemará explica isso. "Desde que floresçam" — desde que a flor cresça ao redor do fruto incipiente.

Nota

Rav Shimi de Neharde'a desafia a premissa de que os sábios discordam de Rabi Yosei em todas as árvores: uma Mishná sobre o ano sabático mostra que, quanto às árvores em geral (exceto alfarrobeira, videira e oliveira, que têm critérios próprios mais avançados), tanto Bet Shamai quanto Bet Hilel concordam que a simples produção do fruto, ainda incipiente, já basta para considerá-lo fruto pleno — sugerindo que a disputa de Rabi Yosei com os sábios seria mais restrita do que se pensava.

10E disse Rav Assi: o mesmo é boser, gêrua e o feijão branco; mas quem ouvimos dizer que boser sim, semadar não? Os sábios — e ensinamos que as demais árvores são desde que produzam!
Bavli · 36b — Guemará
וְאָמַר רַב אַסִּי: הוּא בּוֹסֶר, הוּא גֵּרוּעַ, הוּא פּוֹל הַלָּבָן. פּוֹל הַלָּבָן סָלְקָא דַעְתָּךְ?! אֶלָּא אֵימָא: שִׁיעוּרוֹ כְּפוֹל הַלָּבָן. מַאן שָׁמְעַתְּ לֵיהּ דְּאָמַר בּוֹסֶר אִין, סְמָדַר לָא — רַבָּנַן, וְקָתָנֵי שְׁאָר כׇּל הָאִילָנוֹת — מִשֶּׁיּוֹצִיאוּ?

E disse Rav Assi: o mesmo é boser (uva verde, ainda azeda), gêrua e o feijão branco — referindo-se ao mesmo estágio de desenvolvimento da uva. Mas comparar a uva ao feijão branco viria à mente — seriam a mesma coisa?! Mas de fato diga-se: seu tamanho (shiuro) é equivalente ao do feijão branco — isto é, a uva no estágio de "gêrua" atinge o tamanho de um grão de feijão branco. E quem ouvimos dizer que o fruto no estágio de boser sim (já é fruto), mas no estágio anterior de semadar não? Os sábios — que discordam de Rabi Yosei apenas quanto ao semadar da uva; e contudo ensinamos na mesma Mishná citada que as demais árvores — segundo esses mesmos sábios — são consideradas frutificadas desde que produzam o fruto, em qualquer estágio, mesmo o mais incipiente, equivalente ao semadar da uva — reforçando a objeção anterior!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
הוא בוסר הוא גרוע – כל מקום שהזכירו בוסר הוא גרוע: פול הלבן ס"ד – הא בענבים קיימינן: מאן שמעת ליה דאמר – גבי ענבים בוסר הוא דהוי פרי אבל סמדר לא: רבנן – הוא דפליגי עליה דר' יוסי במסכת ערלה וקאמרי בשאר אילנות דמשיוציאו הוי פרי הראוי:

"O mesmo é boser, o mesmo é gêrua" — em todo lugar em que mencionaram boser, trata-se do mesmo estágio de gêrua. "Feijão branco viria à mente?!" — ora, estamos tratando de uvas — como comparar seu tamanho a uma leguminosa distinta? "Quem ouvimos dizer" — quanto às uvas, que boser já é fruto, mas semadar não? Os sábios — que discordam de Rabi Yosei no tratado de Orlá, e dizem que, nas demais árvores, desde que produzam já é fruto apto a ser considerado pleno.

Nota

Reforça-se a objeção: os sábios que discordam de Rabi Yosei fazem-no apenas quanto ao estágio de semadar (flor recém-caída) da uva especificamente — considerando fruto pleno somente a partir do estágio seguinte, de boser. Mas quanto às demais árvores, a mesma Mishná os cita dizendo que a simples produção do fruto, em qualquer estágio incipiente, equivalente ao semadar da uva, já basta para considerá-lo fruto — o que pareceria inconsistente com a posição atribuída a eles quanto à uva.

11Mas disse Rava: dizemos que é guardião do fruto onde, ao removê-lo, o fruto morre; aqui, ao removê-lo, o fruto não morre
Bavli · 36b — Guemará
אֶלָּא אָמַר רָבָא: הֵיכָא אָמְרִינַן דְּהָוֵי שׁוֹמֵר לְפֵרֵי — הֵיכָא דְּכִי שָׁקְלַתְּ לֵיהּ לְשׁוֹמֵר מָיֵית פֵּירָא. הָכָא כִּי שָׁקְלַתְּ לֵיהּ — לָא מָיֵית פֵּירָא.

Mas diante da nova objeção, disse Rava reformulando seu critério pela terceira vez: onde dizemos que algo é guardião do fruto é onde, quando removes o guardião, o fruto morre (perece, murcha antes de amadurecer); aqui (o kaprés da alcaparreira), quando o removes, o fruto não morre — continua a se desenvolver normalmente até a maturação, e por isso o kaprés não se qualifica como verdadeiro "guardião do fruto".

Nota

Terceira e definitiva formulação de Rava, abandonando os critérios anteriores (presença em ambos os estados, ou presença até a maturação) em favor de um teste funcional direto: um invólucro só é "guardião do fruto" se sua remoção prematura causar a morte ou o definhamento do fruto ainda em desenvolvimento. O kaprés da alcaparreira não passa nesse teste — removê-lo não prejudica o amadurecimento do aviyonot —, e por isso não é considerado guardião legítimo, permitindo sua distinção do fruto para fins de orlá.

12Houve um caso em que removeram a flor da romã e a romã secou; e removeram a flor da bituita, e a bituita se manteve
Bavli · 36b — Guemará
הֲוָה עוֹבָדָא וְשַׁקְלוּהּ לְנֵץ דְּרִמּוֹנָא, וִיבַשׁ רִמּוֹנָא, וְשַׁקְלוּהּ לְפִרְחָא דְבִיטִיתָא — וְאִיקַּיַּים בִּיטִיתָא.

Houve um caso concreto, comprovando o critério de Rava: removeram a flor (netz) da romã, e a romã secou — confirmando que a flor é verdadeiro guardião do fruto; e removeram a flor (pircha) da bituita (fruto da alcaparreira, aviyonot), e a bituita se manteve intacta, continuando a amadurecer normalmente — confirmando que a flor da alcaparreira não é guardião do fruto, validando a distinção de Rava.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
ביטיתא – אביונות:

"Bituita" — é o mesmo que aviyonot (o fruto da alcaparreira).

Nota

Episódio prático que confirma empiricamente a terceira formulação de Rava: quando a flor residual da romã foi removida experimentalmente, o fruto secou e morreu, provando ser guardião essencial; quando a flor da alcaparreira foi removida do fruto (bituita/aviyonot), este permaneceu intacto e continuou a se desenvolver, provando que o kaprés/pircha não é guardião do fruto — e portanto não compartilha seu status de orlá.

13E a halachá é conforme Mar bar Rav Ashi, que descarta os frutos e come os invólucros; e, já que quanto à orlá não são fruto, também quanto às bênçãos não são fruto, e não se abençoa "borê perí haêts", mas "borê perí haadamá"
Bavli · 36b — Guemará (adendo)
(וְהִלְכְתָא כְּמָר בַּר רַב אָשֵׁי דְּזָרֵיק אֶת הָאֲבִיּוֹנוֹת וְאָכֵיל אֶת הַקַּפְרֵיסִין. וּמִדִּלְגַבֵּי עׇרְלָה לָאו פֵּירָא נִינְהוּ, לְגַבֵּי בְּרָכוֹת נָמֵי לָאו פֵּירָא נִינְהוּ, וְלָא מְבָרְכִינַן עֲלֵיהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָעֵץ״, אֶלָּא ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״.)

(E a halachá é conforme Mar bar Rav Ashi, que descarta fora da Terra de Israel os frutos (aviyonot, proibidos por orlá) e come os invólucros (kaprisin, permitidos, por não serem considerados guardião do fruto). E, já que quanto à orlá os invólucros não são considerados fruto, também quanto às bênçãos não são considerados fruto da árvore, e não se abençoa sobre eles "que cria o fruto da árvore", mas "que cria o fruto da terra" — pois, ainda que cresçam numa árvore, por não terem o pleno status legal de fruto, recebem apenas a bênção genérica dos produtos da terra.)

Nota

Esta unidade, entre parênteses no texto — sinalizando, segundo Rashi em 36a, tratar-se de acréscimo posterior de época de gaonim (as Hagahot), não constante na versão original da Guemará — fecha o assunto com a decisão halachica prática: aceita-se a posição de Mar bar Rav Ashi (equivalente à de Rabi Akivá), permitindo os invólucros e proibindo os frutos por orlá fora da Terra de Israel. Estende-se então o raciocínio às bênçãos: já que os invólucros carecem do status pleno de "fruto" para orlá, também não o têm para bênçãos — de modo que, apesar de crescerem na árvore, recebem "borê perí haadamá" e não "borê perí haêts", encerrando definitivamente a extensa sugya da alcaparreira aberta em 36a.

A bênção da pimenta e do gengibre · פִּלְפְּלֵי וְזַנְגְּבִילָא

14Pimenta: Rav Sheshet diz "shehacol", Rava diz nada; e Rava segue seu próprio raciocínio, pois quem mastiga pimenta ou gengibre em Iom Kipur está isento
Bavli · 36b — Guemará
פִּלְפְּלֵי, רַב שֵׁשֶׁת אָמַר: ״שֶׁהַכֹּל״, רָבָא אָמַר: לָא כְלוּם. וְאָזְדָא רָבָא לְטַעְמֵיהּ, דְּאָמַר רָבָא: כַּס פִּלְפְּלֵי בְּיוֹמָא דְכִפּוּרֵי — פָּטוּר, כַּס זַנְגְּבִילָא בְּיוֹמָא דְכִפּוּרֵי — פָּטוּר.

Sobre quem mastiga pimenta (pilpelê) pura, crua: Rav Sheshet diz: "que tudo veio a ser por Sua palavra"; Rava diz: nada — não requer bênção alguma. E Rava segue seu próprio raciocínio (consistente com outra posição sua), pois disse Rava: quem mastiga (kas) pimenta em Iom Kipur está isento (de punição por comer no Dia do Perdão); quem mastiga gengibre (zangevila) em Iom Kipur está isento.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
כס פלפלי – כל דבר שאדם אוכל שלא כדרכו מקרי כסיסה: פטור – מכרת:

"Mastiga pimenta" — toda coisa que a pessoa come de modo diferente do seu costume usual de consumo chama-se kessisá (mastigação atípica). "Está isento" — isento de caret (extirpação, a punição por comer em Iom Kipur).

Nota

Nova disputa amoraíta, agora sobre a pimenta pura: Rav Sheshet exige a bênção genérica "shehacol"; Rava isenta de qualquer bênção. A posição de Rava é consistente com seu próprio princípio, aplicado também à halachá de Iom Kipur: como a pimenta e o gengibre não são consumidos da forma costumeira (mastigados diretamente, e não como parte de uma refeição), comê-los não configura "ato de comer" pleno — nem para fins de punição por jejum violado, nem para fins de obrigação de bênção.

15Objetaram: Rabi Meir dizia: do fato de dizer-se "e tratareis como orlá... seu fruto", eu não saberia que se trata de árvore de alimento? Mas "árvore de alimento" vem incluir a pimenteira, cujo tronco e fruto têm o mesmo sabor — para ensinar que a Terra de Israel não carece de nada
Bavli · 36b — Guemará (baraita)
מֵיתִיבִי, הָיָה רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: מִמַּשְׁמַע שֶׁנֶּאֱמַר ״וַעֲרַלְתֶּם עׇרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ״ אֵינִי יוֹדֵעַ שֶׁעֵץ מַאֲכָל הוּא? אֶלָּא מָה תַּלְמוּד לוֹמַר ״עֵץ מַאֲכָל״ — לְהָבִיא עֵץ שֶׁטַּעַם עֵצוֹ וּפִרְיוֹ שָׁוֶה, וְאֵיזֶהוּ? — זֶה הַפִּלְפְּלִין. לְלַמֶּדְךָ שֶׁהַפִּלְפְּלִין חַיָּיבִין בְּעׇרְלָה, וּלְלַמֶּדְךָ שֶׁאֵין אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל חֲסֵרָה כְּלוּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶרֶץ אֲשֶׁר לֹא בְמִסְכֵּנֻת תֹּאכַל בָּהּ לֶחֶם לֹא תֶחְסַר כֹּל בָּהּ״.

Objetaram contra a posição de Rava: Rabi Meir costumava dizer: do fato de se dizer "e tratareis como orlá... seu fruto" (Vaicrá 19:23), eu não saberia que se trata de "árvore de alimento" — pois árvore que dá fruto obviamente serve de alimento? Mas o que então ensina o versículo ao dizer explicitamente "árvore de alimento" (Vaicrá 19:23)? Vem incluir uma árvore cujo sabor do tronco e do fruto é o mesmo — pois, sem essa inclusão, eu pensaria que só as árvores com sabor distinto entre madeira e fruto são "árvore de alimento". E qual é ela? Esta é a pimenteira (hapilpelin). Isso vem para te ensinar que a pimenteira é obrigada em orlá, e para te ensinar que a Terra de Israel não carece de nada, como está dito: "terra em que não com escassez comerás nesse pão, não te faltará nada nela" (Devarim 8:9) — implicando que até a pimenteira, especiaria valiosa, crescia na Terra de Israel.

Nota

Objeção à posição de Rava a partir de uma baraita: Rabi Meir deriva do próprio versículo de orlá que a pimenteira é uma "árvore de alimento" plena, obrigada em orlá como qualquer outra árvore frutífera — o que pressupõe que seu fruto (a pimenta) tem status de fruto pleno, contradizendo a posição de Rava de que comer pimenta não é considerado "ato de comer" para efeitos halachicos. A baraita aproveita ainda para extrair um ensinamento adicional: a presença da valiosa pimenteira na Terra de Israel demonstra que a terra não carece de nenhum produto, por mais exótico.

16Não é difícil: esta é úmida, aquela é seca
Bavli · 36b — Guemará
לָא קַשְׁיָא: הָא בְּרַטִּיבְתָּא, הָא בְּיַבִּשְׁתָּא.

Não é difícil — a contradição se resolve: esta (a baraita de Rabi Meir, que trata a pimenta como fruto pleno, obrigado em orlá) refere-se à pimenta úmida (rativta, fresca, ainda na planta na Terra de Israel); aquela (a posição de Rava, que isenta de bênção e de punição em Iom Kipur) refere-se à pimenta seca (iavishta, a especiaria seca importada, consumida fora de seu contexto natural de fruto).

Nota

A Guemará resolve a contradição distinguindo dois estados da pimenta: fresca e úmida, ainda ligada à sua condição de fruto pleno (sujeita a orlá, conforme Rabi Meir), e seca, na forma de especiaria processada e importada, consumida de modo atípico e não plenamente como fruto — para a qual valem as isenções de Rava, tanto quanto à bênção quanto quanto à halachá de Iom Kipur.

17Disseram-lhe os sábios a Marimar: mastigar gengibre em Iom Kipur é isento? Mas disse Rava que o himlata que vem da terra dos indianos é permitido, e abençoa-se "borê perí haadamá"! Não é difícil: esta é úmida, aquela é seca
Bavli · 36b — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ רַבָּנַן לְמָרִימָר: כַּס זַנְגְּבִילָא בְּיוֹמָא דְכִפּוּרֵי פָּטוּר? וְהָא אָמַר רָבָא: הַאי הִמְלְתָא דְּאָתְיָא מִבֵּי הִנְדּוּאֵי — שַׁרְיָא, וּמְבָרְכִינַן עֲלַהּ ״בּוֹרֵא פְּרִי הָאֲדָמָה״. לָא קַשְׁיָא: הָא בְּרַטִּיבְתָּא, הָא בְּיַבִּשְׁתָּא.

Disseram-lhe os sábios a Marimar: mastigar gengibre em Iom Kipur é isento (de caret, conforme a posição de Rava)? Mas não disse Rava: este himlata (planta comestível semelhante, ou o próprio gengibre num outro estado) que vem da terra dos hindua'ê (indianos, cuxitas) é permitido (mesmo em Shabat ou outras restrições sem preocupação, por não ser considerado remédio reconhecível), e abençoa-se sobre ele "que cria o fruto da terra" — logo, é considerado alimento pleno, exigindo bênção, contradizendo a isenção de Rava para o gengibre em Iom Kipur! Não é difícil — a contradição se resolve: esta (o himlata mencionado por Rava, que recebe bênção plena) refere-se ao gengibre úmido (fresco); aquela (a isenção de caret em Iom Kipur) refere-se ao gengibre seco.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
המלתא – ליטואר"יו בלעז: שריא – אין בה לא משום בשול נכרים ולא משום געול נכרים: הנדואי – כושיים:

"Himlata" — em francês antigo, "litoario" (um doce ou conserva de especiaria). "É permitido" — não há nele nem a proibição de cozimento de gentios, nem a proibição por repugnância ligada a utensílios de gentios. "Hindua'ê" — cuxim (povos do sul, região da Índia/Etiópia).

Nota

Objeção paralela quanto ao gengibre: se Rava isenta de caret quem o mastiga em Iom Kipur (por não ser modo costumeiro de comer), como pode ele também dizer que o himlata importado da Índia recebe bênção plena de "borê perí haadamá", tratando-o como alimento pleno? A mesma distinção resolve a tensão: gengibre fresco e úmido é alimento pleno, com bênção; gengibre seco, consumido como especiaria atípica, está isento tanto de bênção quanto da punição de Iom Kipur.

O chavitz kedera e a papa de trigo · חֲבִיץ קְדֵרָה וְדַיְיסָא

18Chavitz kedera e a papa: Rav Yehudá diz "shehacol", Rav Kahana diz "borê minê mezonot"; discordam quando a papa é como o chavitz kedera — um considera o mel principal, outro considera a farinha principal
Bavli · 36b — Guemará
חֲבִיץ קְדֵרָה וְכֵן דַּיְיסָא, רַב יְהוּדָה אָמַר: ״שֶׁהַכֹּל נִהְיֶה בִּדְבָרוֹ״. רַב כָּהֲנָא אָמַר: ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״. בְּדַיְיסָא גְּרֵידָא כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דְּ״בוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״. כִּי פְּלִיגִי בְּדַיְיסָא כְּעֵין חֲבִיץ קְדֵרָה, רַב יְהוּדָה אָמַר ״שֶׁהַכֹּל״, סָבַר דּוּבְשָׁא עִיקָּר. רַב כָּהֲנָא אָמַר ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״, סָבַר סְמִידָא עִיקָּר. אָמַר רַב יוֹסֵף: כְּוָתֵיהּ דְּרַב כָּהֲנָא מִסְתַּבְּרָא, דְּרַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: כֹּל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין מְבָרְכִין עָלָיו ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״.

Chavitz kedera (um doce cozido de farinha, mel e azeite) e também a papa (daisa, de trigo triturado): Rav Yehudá diz: "que tudo veio a ser por Sua palavra"; Rav Kahana diz: "que cria tipos de sustento". Quanto à papa pura (gerida, sem outros ingredientes), todos concordam que se abençoa "que cria tipos de sustento". Quando discordam é quanto à papa semelhante ao chavitz kedera (com mel e azeite misturados): Rav Yehudá diz "que tudo veio a ser por Sua palavra" — pois considera o mel o ingrediente principal; Rav Kahana diz "que cria tipos de sustento" — pois considera a farinha fina (semida) o ingrediente principal. Disse Rav Yosef: é mais razoável concluir conforme Rav Kahana, pois Rav e Shmuel disseram ambos: tudo que contém algo das cinco espécies de grão abençoa-se sobre ele "que cria tipos de sustento".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 36b
חביץ קדרה – מין מאכל קפוי כמו חלב שחבצוהו בקיבה כך עושין מאכל קפוי בקדרה ולקמן מפרש לה קמחא ודובשא ומשחא וקרו ליה אברושד"י: דייסא – של חטים כתושות במכתשת: דייסא כעין חביץ קדרה – לקמן מפרש לה חטי דמתברי באשיתא ויהבו בהו דובשא ועביד להו בקדירה: סמידא – סלת:

"Chavitz kedera" — um tipo de alimento coalhado, como o leite que se coalha com coalho animal; assim se faz um alimento coalhado na panela, e adiante a Guemará explica: farinha, mel e azeite, e chamam-no "abroshedi" (em francês antigo). "Daisa" — papa de trigo triturado no pilão. "Papa semelhante ao chavitz kedera" — adiante a Guemará explica: trigo que se quebra no moinho e se põe nele mel, e se prepara na panela. "Semida" — farinha fina.

Nota

Nova disputa sobre a bênção de preparações à base de grão misturado com mel: quando a papa é pura, sem mistura, todos concordam na bênção "borê minê mezonot"; a disputa surge apenas quando ela se assemelha ao chavitz kedera, misturada com mel e azeite — Rav Yehudá considera o mel o componente definidor (exigindo apenas "shehacol"), enquanto Rav Kahana considera a farinha o componente principal (mantendo "borê minê mezonot"). Rav Yosef decide a favor de Rav Kahana, apoiando-se no princípio geral de Rav e Shmuel sobre as cinco espécies de grão.

19A coisa em si: Rav e Shmuel disseram ambos: tudo que é das cinco espécies abençoa-se "borê minê mezonot" — e assim também foi dito
Bavli · 36b — Guemará
גּוּפָא: רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ כֹּל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין מְבָרְכִין עָלָיו ״בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת״. וְאִיתְּמַר נָמֵי, רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: כֹּל שֶׁהוּא מֵחֲמֵשֶׁת הַמִּינִין מְבָרְכִין עָלָיו בּוֹרֵא מִינֵי מְזוֹנוֹת.

A coisa em si (retomando o princípio citado por Rav Yosef, para desenvolvê-lo em detalhe): Rav e Shmuel disseram ambos: tudo que contém algo das cinco espécies de grão abençoa-se sobre ele "que cria tipos de sustento". E também foi dito em outra transmissão, com formulação ligeiramente distinta: Rav e Shmuel disseram ambos: tudo que é constituído das cinco espécies de grão abençoa-se sobre ele "que cria tipos de sustento".

Nota

A Guemará retoma o princípio citado na unidade anterior para examiná-lo em si mesmo, notando que ele foi transmitido em duas formulações ligeiramente diferentes: "tudo que contém algo das cinco espécies" versus "tudo que é das cinco espécies" — diferença sutil que motivará a análise seguinte sobre a necessidade de ambas as versões.

20E era necessário: se nos tivesse ensinado apenas "o que é", eu diria que é por existir em sua essência, mas por meio de mistura não
Bavli · 36b — Guemará
וּצְרִיכָא, דְּאִי אַשְׁמְעִינַן ״כֹּל שֶׁהוּא״ הֲוָה אָמֵינָא מִשּׁוּם דְּאִיתֵיהּ בְּעֵינֵיהּ, אֲבָל עַל יְדֵי תַּעֲרוֹבוֹת — לָא.

E ambas as formulações eram necessárias: pois se a tradição nos tivesse ensinado apenas "tudo que é das cinco espécies", eu diria que a bênção "borê minê mezonot" se aplica apenas porque o grão existe em sua própria essência (puro, não misturado), mas por meio de mistura com outros ingredientes, como no caso do chavitz kedera com mel, não se aplicaria essa bênção — por isso era necessária também a formulação "tudo que contém", esclarecendo que mesmo em mistura, desde que a espécie de grão esteja presente, mantém-se a bênção de "borê minê mezonot".

Nota

Conclusão da sugya: a razão de se transmitirem as duas formulações do princípio de Rav e Shmuel é evitar um mal-entendido. Se apenas a versão "tudo que é das cinco espécies" fosse conhecida, poder-se-ia pensar que a bênção "borê minê mezonot" exige o grão em estado puro, não misturado — o que excluiria o chavitz kedera, misturado com mel. A formulação complementar "tudo que contém" esclarece que a presença do grão, mesmo dentro de uma mistura, basta para manter essa bênção — resolvendo definitivamente, a favor de Rav Kahana, a disputa sobre o chavitz kedera aberta na unidade 18.