Talmud Bavli · Berachot · Daf 50, lado A · Perek Zayin (Shloshah SheAchlu)
נ ע״א

Baraitot sobre as fórmulas que revelam se alguém é talmid chacham ou bur; a distinção entre três e dez quanto à menção do Nome; dez e dez mil; os costumes de Ravina, Rava e Rafram bar Papa; e a nova Mishná sobre divisão de grupos, duas chaburot e o vinho misturado com água

Berachot 50a · Perek Keitzad Mezamnin

O daf continua a discussão aberta em 49b sobre a preferência entre "abençoai" e "abençoemos" ao convidar para o zimun, retomando a tradição da escola de Rav de que seis pessoas podem se dividir em dois grupos até dez. A Guemará então reúne uma série de baraitot e ditos de Rabi Yochanan que ensinam a distinguir, pela própria formulação de uma bênção, se quem a disse é um talmid chacham ou um bur — "e do Teu bem vivemos" contra apenas "vida"; "abençoemos, do que comemos do Seu" contra "para Aquele de quem comemos"; "bendito, do que comemos do Seu" contra "pela comida que comemos" — com um breve desvio sobre a bênção do copeiro e sobre pedir com ousadia em oração. Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, distingue três de dez quanto à necessidade de mencionar o Nome divino na fórmula do zimun. A Guemará então enfrenta a aparente contradição entre equiparar dez a dez mil e, ao mesmo tempo, distinguir cem, mil e uma miríade — resolvendo-a como a disputa entre Rabi Yossei Haglili e Rabi Akiva, com Rava fixando a lei conforme Rabi Akiva. Seguem-se os episódios de Ravina e Rav Chama bar Buzi na casa do Reish Galuta, do costume de Rava de abençoar em grupos de três, da regra de Rabá Tosfaá sobre quem se adianta a abençoar sozinho, e do episódio de Rafram bar Papa na sinagoga de Avi Giver sobre a fórmula de Rabi Ishmael. O daf então introduz uma nova Mishná: as regras de quando um grupo de comensais pode se dividir em grupos menores (três, seis até dez, dez até vinte); quando duas chaburot que comem na mesma casa podem juntar-se para o zimun; e a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre se é preciso misturar água ao vinho antes de abençoá-lo. O daf encerra-se com o início da Guemará sobre essa Mishná, examinando o caso de três que se sentaram para comer juntos mas ainda não começaram a comer.

1— continuação: seis se dividem até dez
Bavli · 50a — Guemará (continuação de 49b)
אַף ״בָּרְכוּ״, וּמִכׇּל מָקוֹם ״נְבָרֵךְ״ עֲדִיף, דְּאָמַר רַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה, אָמְרִי בֵּי רַב, תְּנֵינָא: שִׁשָּׁה נֶחְלָקִין עַד עֲשָׂרָה.

— completando a frase iniciada ao final de 49b — também (af) "abençoai (barechu)" é tecnicamente válido, e de qualquer modo (umikol makom) "abençoemos (nevarech)" é preferível (adif), pois (de) disse Rav Ada bar Ahavá, disseram (amri) na escola (bei) de Rav, ensinamos (teniná): seis (shisha) se dividem (nechlakin) até (ad) dez (asará) — isto é, retomando o paralelo trazido ao fim de 49b, a Guemará agora desenvolve por completo esta tradição da escola de Rav: seis comensais podem, se quiserem, dividir-se em dois grupos de três, cada um fazendo seu próprio zimun, e essa possibilidade de divisão continua válida até que o grupo chegue a dez pessoas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
אף ברכו – שפיר דמי ומיהו טוב לו להיות בכלל המברכים: תנינא – סיעתא לשמואל: ששה נחלקין – אם רצו ליחלק לשתי חבורות ולזמן אלו לעצמן ואלו לעצמן רשאין הן שהרי יש זימון כאן וכאן: עד עשרה – כלומר וכן ז' וכן ח' לשתי חבורות וכן ט' לשתי חבורות או לשלשה עד עשרה אבל אם היו עשרה חלה עליהן הזכרת השם ואם יחלקו לא יהיה שם הזכרה אין נחלקין עד שיהיו שם עשרים:

"Também 'abençoai'" — está bem (shapir dami) — isto é, é tecnicamente permitido, mas (mihu) é melhor (tov lo) para ele estar (lihyot) incluído (bichlal) entre os que abençoam (hamevarchim). "Ensinamos" — apoio (siyata) a Shmuel. "Seis se dividem" — se (im) quiseram (ratzu) dividir-se (lechalek) em duas (lishtei) chaburot (chaburot) e fazer zimun (ulezamen), estes (elu) por si (leatzman) e estes (veelu) por si (leatzman), é permitido (rashain hen) — isto é, é lícito a eles fazerem isso, pois (shehari)(yesh) zimun (zimun) aqui (kan) e aqui (vekan). "Até dez" — ou seja (kelomar), e assim (vechen) sete (zayin) e assim (vechen) oito (chet) em duas (lishtei) chaburot (chaburot), e assim (vechen) nove (tet) em duas (lishtei) chaburot (chaburot) ou em três (o leshalosh), até (ad) dez (asará), mas (aval) se (im) eram (hayu) dez (asará), recai (chala) sobre eles (aleihen) a menção (hazcarat) do Nome (hashem) — isto é, ao completarem dez, torna-se obrigatório incluir na bênção a menção explícita do Nome divino, e se (veim) dividirem-se (yechalku), não (lo) haverá (yihyeh) ali (sham) menção (hazcará) — pois cada grupo separado ficaria com menos de dez, não (ein) se dividem (nechlakin) até (ad) que (sheyihyu) sejam (sham) vinte (esrim) — isto é, uma vez atingido o número dez, o grupo só poderá se dividir novamente quando alcançar vinte pessoas, de modo que cada subgrupo resultante ainda tenha ao menos dez.

Nota

A tradição da escola de Rav é desenvolvida por completo: grupos de seis a nove podem se dividir livremente em subgrupos de zimun; ao chegar a dez, a obrigação de mencionar o Nome divino na fórmula impede nova divisão até que o grupo dobre para vinte.

2Se dizes com razão que "abençoemos" é preferível, por isso se dividem; mas se dizes que "abençoai" é preferível, por que se dividem! Senão, não se aprende daí que "abençoemos" é preferível. Aprende-se daí
Bavli · 50a — Guemará
אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא ״נְבָרֵךְ״ עֲדִיף — מִשּׁוּם הָכִי נֶחְלָקִין, אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ ״בָּרְכוּ״ עֲדִיף — אַמַּאי נֶחְלָקִין! אֶלָּא לָאו שְׁמַע מִינַּהּ ״נְבָרֵךְ״ עֲדִיף. שְׁמַע מִינַּהּ.

Se (i) dizes (amrat) com razão (bishlama) que "abençoemos (nevarech)" é preferível (adif) — por isso (mishum hachi) se dividem (nechlakin) — isto é, faz sentido que grupos pequenos prefiram se dividir para que cada participante possa dizer "abençoemos", a forma mais desejável, mas (ela) se (i) dizes (amrat) que "abençoai (barechu)" é preferível (adif) — por que (amai) se dividem (nechlakin)! — isto é, se "abençoai" fosse a fórmula preferida, não haveria vantagem em se dividir, pois um grupo maior também poderia usar essa mesma fórmula. Senão (ela), não (lav) se aprende (shema mina) daí que "abençoemos (nevarech)" é preferível (adif)? Aprende-se daí (shema mina) — isto é, a Guemará conclui que a própria existência dessa prática de divisão prova que "abençoemos" é de fato a fórmula preferível.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
ה"ג ואי אמרת ברכו עדיף אמאי ששה נחלקין – אם ירצו הא מעיקרא יכולין לומר ברכו והשתא תו לא אמרי: אלא לאו ש"מ – אף ברכו קאמר מתני' וכיון דמתני' אף ברכו קאמר מסתברא היא שטוב לו לאדם להיות מן המברכים וסייעתא דשמואל וגירסא הכי איתא ששה עד עשרה ואי אמרת ברכו דוקא אמאי ששה נחלקין אלא לאו ש"מ אף ברכו ש"מ:

Esta é a versão correta (hachi girsa): "e se dizes que 'abençoai' é preferível, por que seis se dividem" — se (im) quiserem (yirtzu), eis que (ha) desde o início (meikara) podem (yecholin) dizer (lomar) "abençoai (barechu)", e agora (vehashta) não (tu lo) diriam (amrei) de outro modo — isto é, não haveria motivo para se dar ao trabalho de dividir o grupo, já que a mesma fórmula "abençoai" já estaria disponível para um grupo maior. "Senão, não se aprende daí" — também (af) "abençoai (barechu)" diz (kaamar) a Mishná (matnitin) — isto é, "abençoai" é permitido segundo a Mishná mesmo com poucos, e já que (vekeivan de) a Mishná (matnitin) diz (kaamar) também (af) "abençoai (barechu)", é razoável (mistabra hi) que é bom (shetov) para a pessoa (leadam) estar (lihyot) entre os que abençoam (hamevarchim), e é apoio (siyata) a Shmuel. E a versão (vegirsa) assim (hachi) está (ita): "seis até dez"; e se dizes (veim amrat) que "abençoai (barechu)" exclusivamente (davka) é preferível, por que (amai) seis (shisha) se dividem (nechlakin)? Senão (ela), não (lav) se aprende (shema mina) daí que também (af) "abençoai (barechu)" é válido, mas não exclusivo? Aprende-se daí (shema mina).

Nota

A Guemará conclui, a partir do próprio costume de dividir grupos pequenos, que "abençoemos" é a fórmula preferível — pois se "abençoai" fosse a única ou a melhor opção, não haveria razão para o esforço da divisão.

3Ensinou-se também assim: tanto se disse "abençoai" quanto se disse "abençoemos" — não se prende a ele por isso, mas os pedantes prendem-se a ele por isso; e pelas bênçãos de uma pessoa se reconhece se é talmid chacham ou não. Como? Disse Rabi: "e do Seu bem" — eis que é talmid chacham; "e de Seu bem" — eis que é bur
Bavli · 50a — Guemará
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: בֵּין שֶׁאָמַר ״בָּרְכוּ״ בֵּין שֶׁאָמַר ״נְבָרֵךְ״ — אֵין תּוֹפְסִין אוֹתוֹ עַל כָּךְ, וְהַנַּקְדָּנִין תּוֹפְסִין אוֹתוֹ עַל כָּךְ. וּמִבִּרְכוֹתָיו שֶׁל אָדָם נִיכָּר אִם תַּלְמִיד חָכָם הוּא אִם לָאו. כֵּיצַד? רַבִּי אוֹמֵר: ״וּבְטוּבוֹ״ — הֲרֵי זֶה תַּלְמִיד חָכָם, ״וּמִטּוּבוֹ״ — הֲרֵי זֶה בּוּר.

Ensinou-se (tanya) também (nami) assim (hachi): tanto (bein) se disse (sheamar) "abençoai (barechu)" quanto (bein) se disse (sheamar) "abençoemos (nevarech)" — não (ein) se prende (tofsin) a ele (oto) por isso (al kach) — isto é, não se critica quem usa qualquer das duas fórmulas, mas (vehanakdanin) os pedantes (nakdanin) prendem-se (tofsin) a ele (oto) por isso (al kach) — isto é, apenas os excessivamente meticulosos objetam ao uso de "abençoai", por excluir quem fala do grupo dos que abençoam. E pelas bênçãos (mibirchotav) de uma pessoa (shel adam) se reconhece (nikar) se (im) é talmid chacham (talmid chacham) ou (im) não (lav). Como (keitzad)? Disse Rabi: "e do Seu bem (uvetuvo)" — eis que (harei zeh) é talmid chacham (talmid chacham), "e de Seu bem (umitivo)" — eis que (harei zeh) é bur (bur) — isto é, dizer "do Seu bem", com a preposição que sugere totalidade e abundância, revela erudição; dizer "de Seu bem", sugerindo apenas uma parte, revela ignorância.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
תנ"ה – דמתני' אף ברכו קאמר: והנקדנין – דווקנין תופסין אותו על שהוציא עצמו מן הכלל: ומטובו הרי זה בור – שממעט בתגמוליו של מקום דמשמע דבר מועט כדי חיים:

"Ensinou-se também assim" — que a Mishná (matnitin) diz (kaamar) também (af) "abençoai (barechu)". "E os pedantes" — os meticulosos (davkanin) prendem-se (tofsin) a ele (oto) por ter excluído (shehotzi) a si mesmo (atzmo) do conjunto (min haklal). "'E de Seu bem' — eis que é bur" — pois (she) diminui (memaet) nos benefícios (betagmulav) do Onipresente (shel makom), pois (de) insinua (mashma) algo (davar) pequeno (muat), o suficiente (kedei) para viver (chayim) — isto é, a preposição "de" sugere que se recebeu apenas uma pequena parte do bem divino, o mínimo necessário à subsistência, o que soa como uma diminuição indevida da generosidade de D'us.

Nota

Uma baraita confirma que ambas as fórmulas são aceitas, mas os meticulosos preferem "abençoemos"; e introduz o tema seguinte: como a escolha precisa das palavras de uma bênção revela a erudição ou a ignorância de quem a formula.

4Disse-lhe Abaie a Rav Dimi: mas não está escrito "e da tua bênção será abençoada a casa de teu servo para sempre"! Na súplica é diferente. Na súplica também está escrito "alarga a tua boca e Eu a encherei"! Aquilo, em palavras de Torá está escrito
Bavli · 50a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרַב דִּימִי: וְהָכְתִיב: ״וּמִבִּרְכָתְךָ יְבֹרַךְ (אֶת) בֵּית עַבְדְּךָ לְעוֹלָם״! — בִּשְׁאֵלָה שָׁאנֵי. בִּשְׁאֵלָה נָמֵי, הָכְתִיב: ״הַרְחֶב פִּיךָ וַאֲמַלְּאֵהוּ״! — הַהוּא, בְּדִבְרֵי תוֹרָה כְּתִיב.

Disse-lhe (amar leih) Abaie a Rav Dimi: mas não (vehá) está escrito (chetiv): "e da tua bênção (umibirchatecha) será abençoada (yevorach) a casa (beit) de teu servo (avdecha) para sempre (leolam)" — isto é, Abaie objeta: há um versículo, dito por David, que usa a mesma preposição "de", sugerindo uma parte, e ainda assim é claramente uma expressão de bênção plena e elogiável! Na súplica (bishealá) é diferente (shani) — isto é, Rav Dimi responde: aquele versículo é uma súplica, um pedido, e nesse contexto a linguagem de moderação é apropriada, diferente do contexto de uma bênção de agradecimento. Na súplica (bishealá) também (nami), está escrito (chetiv): "alarga (harchev) a tua boca (picha) e Eu a encherei (vaamalehu)" — isto é, Abaie contesta de novo: mesmo em súplicas, há um versículo que incentiva pedir com ousadia e amplitude, não com moderação! Aquilo (hahu), em palavras (bedivrei) de Torá (torá) está escrito (ketiv) — isto é, Rav Dimi responde por fim: aquele versículo sobre "alargar a boca" refere-se especificamente a pedir sabedoria e palavras de Torá, onde de fato se deve pedir com amplitude, e não se aplica de modo geral a súplicas por bens materiais.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
בשאלה שאני – שהשואל שואל כעני על פתח שאינו מרים ראש לשאול שאלה גדולה: הרחב פיך – לשאול כל תאותך:

"Na súplica é diferente" — pois (she) quem suplica (hashoel) pede (shoel) como (ke) um pobre (ani) à porta (al petach), que (she) não (eino) ergue (merim) a cabeça (rosh) para pedir (lishol) um pedido (sheeilá) grande (gedolá). "Alarga a tua boca" — para pedir (lishol) todo (kol) o teu desejo (taavatecha).

Nota

Um breve desvio sobre pedir com ousadia ou moderação: em súplicas materiais, convém pedir com humildade, como um pobre à porta; apenas quando se trata de pedir sabedoria e palavras de Torá é apropriado "alargar a boca" e pedir com amplitude.

5Ensinou-se: disse Rabi: "de Seu bem vivemos" — eis que é talmid chacham; "vida" — eis que é bur. Os de Neharbela ensinam ao contrário, e a lei não é como os de Neharbela
Bavli · 50a — Guemará
תַּנְיָא, רַבִּי אוֹמֵר: ״בְּטוּבוֹ חָיִינוּ״ — הֲרֵי זֶה תַּלְמִיד חָכָם, ״חַיִּים״ — הֲרֵי זֶה בּוּר. נְהַרְבְּלָאֵי מַתְנִי אִיפְּכָא, וְלֵית הִילְכָתָא כִּנְהַרְבְּלָאֵי.

Ensinou-se (tanya), disse Rabi: "de Seu bem (betuvo) vivemos (chayinu)" — eis que (harei zeh) é talmid chacham (talmid chacham) — isto é, incluir a expressão "de Seu bem" ao dizer "vivemos", reconhecendo que a própria vida vem da bondade divina, revela erudição, "vida (chayim)" — eis que (harei zeh) é bur (bur) — isto é, dizer apenas "vida", sem atribuí-la explicitamente ao bem de D'us, é uma formulação de ignorante, pois se exclui a si mesmo do reconhecimento pleno. Os de Neharbela (neharbelaei) ensinam (matni) ao contrário (ipcha) — isto é, na academia de Neharbela, transmite-se essa mesma baraita de forma invertida, e a lei (hilcheta) não (leit) é como (kin) os de Neharbela (neharbelaei) — isto é, a Guemará determina que se deve seguir a versão de Rabi, e não a versão invertida transmitida em Neharbela.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
חיים ה"ז בור – דהוציא עצמו מן הכלל: מתני איפכא – חיים עדיף שכולל את כל באי עולם:

"'Vida' — eis que é bur" — pois (de) excluiu (hotzi) a si mesmo (atzmo) do conjunto (min haklal) — isto é, ao dizer apenas "vida", sem mencionar que ela provém do bem divino, a pessoa parece falar de si mesma isoladamente, sem incluir os demais que também vivem por esse mesmo bem. "Ensinam ao contrário" — segundo essa versão invertida, "vida (chayim)" é preferível (adif), pois (she) inclui (kolel) todos (kol) os que vêm (baei) ao mundo (olam) — isto é, na leitura de Neharbela, a palavra "vida", sem qualificação, seria a forma mais abrangente, por incluir todos os seres vivos, e não apenas quem fala.

Nota

Uma segunda baraita sobre a mesma matéria: Rabi prefere "de Seu bem vivemos" a apenas "vida"; a academia de Neharbela transmite o oposto, mas a Guemará determina que a lei segue a versão de Rabi.

6Disse Rabi Yochanan: "abençoemos, do que comemos do Seu" — eis que é talmid chacham; "para Aquele de quem comemos do Seu" — eis que é bur
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: ״נְבָרֵךְ שֶׁאָכַלְנוּ מִשֶּׁלּוֹ״ — הֲרֵי זֶה תַּלְמִיד חָכָם, ״לְמִי שֶׁאָכַלְנוּ מִשֶּׁלּוֹ״ — הֲרֵי זֶה בּוּר.

Disse Rabi Yochanan: "abençoemos (nevarech), do que comemos (sheachalnu) do Seu (mishelo)" — eis que (harei zeh) é talmid chacham (talmid chacham) — isto é, a fórmula "abençoemos, do que comemos do Seu" insinua que é Ele mesmo, D'us, o único de quem todos comem, o que é a formulação correta, "para Aquele (lemi) de quem (sheachalnu) comemos do Seu (mishelo)" — eis que (harei zeh) é bur (bur) — isto é, dizer "para Aquele de quem comemos", como se dirigindo a um terceiro ausente, insinua que há vários possíveis provedores, o que é uma formulação de ignorante.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
נברך שאכלנו משלו – משמע שהוא יחידי שהכל אוכלים משלו: למי שאכלנו משלו – משמע מרובים הן זה זן את זה וזה זן את זה ולפי דבריו מברך את בעל הבית:

"'Abençoemos, do que comemos do Seu'" — insinua (mashma) que (she) Ele (hu) é único (yechidi), que (she) todos (hakol) comem (ochlim) do Seu (mishelo). "'Para Aquele de quem comemos do Seu'" — insinua (mashma) que são muitos (merubim hen) — isto é, muitos provedores possíveis, este (zeh) sustenta (zan) a este (et zeh) e este (vezeh) sustenta (zan) a este (et zeh), e segundo (ulefi) suas palavras (divrav) de quem assim fala, abençoa-se (mevarech) ao dono da casa (et baal habayit) — isto é, essa formulação soaria como se a bênção fosse dirigida ao anfitrião humano, e não a D'us.

Nota

Rabi Yochanan ensina a terceira distinção: a fórmula correta reconhece D'us como o único provedor; a fórmula incorreta soa ambígua, como se dirigida a um provedor humano.

7Disse-lhe Rav Acha, filho de Rava, a Rav Ashi: mas não dizemos "para Aquele que fez a nossos pais e a nós todos estes milagres"! Disse-lhe: ali é evidente a coisa: quem faz milagres — o Santo, bendito seja
Bavli · 50a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב אַחָא בְּרֵיהּ דְּרָבָא לְרַב אָשֵׁי: וְהָא אָמְרִינַן ״לְמִי שֶׁעָשָׂה לַאֲבוֹתֵינוּ וְלָנוּ אֶת כׇּל הַנִּסִּים הָאֵלּוּ״. אֲמַר לֵיהּ: הָתָם מוֹכְחָא מִילְּתָא, מַאן עָבֵיד נִיסֵּי — קוּדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא.

Disse-lhe (amar leih) Rav Acha, filho de Rava, a Rav Ashi: mas não (vehá) dizemos (amrinan) "para Aquele (lemi) que fez (sheasá) a nossos pais (laavoteinu) e a nós (velanu) todos (et kol) estes (haelu) milagres (hanisim)" — isto é, Rav Acha objeta: na formulação usual de Chanucá e Purim, dizemos "para Aquele que fez", exatamente a construção que Rabi Yochanan classificou como bur, e ninguém a considera errada! Disse-lhe (amar leih): ali (hatam) é evidente (mochcha) a coisa (milta) — isto é, Rav Ashi responde: nesse caso não há ambiguidade possível, quem (man) faz (aveid) milagres (nissei) — o Santo, bendito seja (kudsha berich hu) — isto é, como só D'us pode realizar milagres, não há risco de a expressão "para Aquele que fez" ser mal interpretada como referindo-se a um provedor humano.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
התם מוכחא מילתא – דבמעשה נסים ליכא למימר מרובין:

"Ali é evidente a coisa" — pois (de) no feito (bemaasei) dos milagres (nissim) não há (leika) como dizer (lemeimar) que são muitos (merubin) — isto é, ninguém atribuiria um milagre a múltiplos provedores, de modo que a expressão "para Aquele que fez" não gera confusão nesse contexto específico.

Nota

Rav Ashi ressalva que a regra de Rabi Yochanan não se aplica onde o contexto já deixa claro, sem ambiguidade, que só D'us pode ser o autor — como no caso dos milagres.

8Disse Rabi Yochanan: "bendito, do que comemos do Seu" — eis que é talmid chacham; "pela comida que comemos" — eis que é bur
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: ״בָּרוּךְ שֶׁאָכַלְנוּ מִשֶּׁלּוֹ״ — הֲרֵי זֶה תַּלְמִיד חָכָם, ״עַל הַמָּזוֹן שֶׁאָכַלְנוּ״ — הֲרֵי זֶה בּוּר.

Disse Rabi Yochanan: "bendito (baruch), do que comemos (sheachalnu) do Seu (mishelo)" — eis que (harei zeh) é talmid chacham (talmid chacham) — isto é, na fórmula usada por quem convida com apenas dois outros comensais, dizer "bendito, do que comemos do Seu" é a formulação correta, atribuindo a comida a D'us, "pela comida (al hamazon) que comemos (sheachalnu)" — eis que (harei zeh) é bur (bur) — isto é, dizer apenas "pela comida que comemos", sem atribuí-la explicitamente a D'us, é a formulação de um ignorante, pois não menciona a Sua bondade como fonte.

Nota

Uma quarta distinção paralela, agora aplicada à fórmula curta usada com três participantes: atribuir a comida a D'us revela erudição; mencionar apenas "a comida", sem atribuição, revela ignorância.

9Disse Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: não se ensinou isso senão com três, onde não há menção do Nome, mas com dez, onde há menção do Nome, é evidente a coisa, conforme ensinamos: conforme o assunto que ele abençoa, assim respondem depois dele: "Bendito o Eterno, D'us de Israel, D'us dos exércitos, que se assenta sobre os querubins, pela comida que comemos"
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַב הוּנָא בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוֹשֻׁעַ: לָא אֲמַרַן אֶלָּא בִּשְׁלֹשָׁה, דְּלֵיכָּא שֵׁם שָׁמַיִם, אֲבָל בַּעֲשָׂרָה, דְּאִיכָּא שֵׁם שָׁמַיִם — מוֹכְחָא מִילְּתָא, כְּדִתְנַן: כָּעִנְיָן שֶׁהוּא מְבָרֵךְ, כָּךְ עוֹנִין אַחֲרָיו: ״בָּרוּךְ ה׳ אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל אֱלֹהֵי הַצְּבָאוֹת יוֹשֵׁב הַכְּרוּבִים עַל הַמָּזוֹן שֶׁאָכַלְנוּ״.

Disse Rav Huna, filho de Rav Yehoshua: não (la) ensinamos (amaran) isso senão (ela) com três (bishlosha), onde (de) não há (leika) menção do Nome (shem shamayim) — isto é, a regra de que "pela comida que comemos" é sinal de ignorância aplica-se apenas ao caso de três participantes, onde a fórmula não inclui o Nome divino explícito, mas (aval) com dez (baasará), onde (de)(ika) menção do Nome (shem shamayim) — é evidente (mochcha) a coisa (milta) — isto é, quando há dez participantes e a fórmula já inclui explicitamente o Nome de D'us, dizer "pela comida que comemos" não gera ambiguidade alguma, pois o próprio Nome já deixa claro a quem se atribui a comida, conforme (kedi) ensinamos (tenan): conforme (ke) o assunto (inyan) que (she) ele abençoa (mevarech), assim (kach) respondem (onin) depois dele (acharav): "Bendito (baruch) o Eterno (hashem), D'us (elohei) de Israel (yisrael), D'us (elohei) dos exércitos (hatzevaot), que Se assenta (yoshev) sobre os querubins (hakeruvim), pela comida (al hamazon) que comemos (sheachalnu)" — isto é, essa fórmula ampliada, própria de dez participantes, já contém tantos títulos divinos explícitos que a menção final "pela comida que comemos" não pode ser mal interpretada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
כדתנן על המזון שאכלנו – ולא קתני משלו:

"Conforme ensinamos 'pela comida que comemos'" — e não (velo) se ensina (katani) "do Seu (mishelo)" — isto é, Rashi nota que a própria Mishná, ao formular a fórmula de dez, usa a expressão "pela comida que comemos", sem acrescentar "do Seu", confirmando que essa construção é aceitável quando o Nome já foi mencionado explicitamente antes.

Nota

Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, limita a regra anterior: ela vale apenas para a fórmula de três, sem menção do Nome; com dez, onde o Nome já é mencionado explicitamente, a fórmula "pela comida que comemos" deixa de ser ambígua.

10Um com dez e um com dez mil. Isto mesmo é difícil: disseste um com dez e um com dez mil, logo são iguais entre si; e depois ensina-se: com cem diz, com mil diz, com dez mil diz!
Bavli · 50a — Guemará
אֶחָד עֲשָׂרָה, וְאֶחָד עֲשָׂרָה רִבּוֹא. הָא גוּפָא קַשְׁיָא, אָמְרַתְּ אֶחָד עֲשָׂרָה וְאֶחָד עֲשָׂרָה רִבּוֹא, אַלְמָא כִּי הֲדָדֵי נִינְהוּ, וַהֲדַר קָתָנֵי בְּמֵאָה אוֹמֵר, בְּאֶלֶף אוֹמֵר, בְּרִבּוֹא אוֹמֵר!

Um (echad) com dez (asará) e um (echad) com dez mil (asará ribo) — isto é, retomando a Mishná de 49b, que equipara a fórmula usada com dez participantes à usada com dez mil. Isto mesmo (há gufa) é difícil (kashya) — isto é, a própria Mishná se contradiz: disseste (amrat) um (echad) com dez (asará) e um (echad) com dez mil (asará ribo), logo (alma) são (ninhu) iguais (kehadadei) entre si — isto é, a Mishná parece afirmar que a fórmula é a mesma independentemente de o grupo ter dez, cem, mil ou dez mil; e depois (vahadar) ensina-se (katani): com cem (bemeá) diz (omer) uma fórmula, com mil (beelef) diz (omer) outra, com dez mil (beribo) diz (omer) ainda outra! — isto é, mas em seguida a mesma Mishná parece distinguir as fórmulas conforme o grupo cresce de cem para mil e para dez mil, o que contradiz a equiparação anterior entre dez e dez mil.

Nota

A Guemará expõe uma contradição interna na Mishná de 49b: ela parece, ao mesmo tempo, equiparar dez a dez mil e distinguir cem, mil e dez mil entre si.

11Disse Rav Yossef: não é difícil, esta é Rabi Yossei Haglili, esta é Rabi Akiva. Pois ensinamos, Rabi Yossei Haglili diz: conforme a multidão da congregação eles abençoam, pois se diz: "nas assembleias abençoai a D'us"
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַב יוֹסֵף: לָא קַשְׁיָא, הָא רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי, הָא רַבִּי עֲקִיבָא. דִּתְנַן, רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי אוֹמֵר: לְפִי רוֹב הַקָּהָל הֵם מְבָרְכִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּמַקְהֵלוֹת בָּרְכוּ אֱלֹהִים״.

Disse Rav Yossef: não (la) é difícil (kashya), esta (há) é Rabi Yossei Haglili, esta (há) é Rabi Akiva — isto é, Rav Yossef resolve a contradição atribuindo cada parte da Mishná a um sábio diferente: a equiparação de dez a dez mil segue Rabi Akiva; a distinção crescente conforme o tamanho segue Rabi Yossei Haglili, pois (di) ensinamos (tenan), Rabi Yossei Haglili diz: conforme (lefi) a multidão (rov) da congregação (hakahal) eles (hem) abençoam (mevarchin) — isto é, para Rabi Yossei Haglili, a fórmula da bênção deve variar continuamente conforme o número de participantes cresce, pois se diz (shenehemar): "nas assembleias (bemakhelot) abençoai (barechu) a D'us (elohim)" — isto é, o versículo do salmo, ao usar a palavra no plural "assembleias", sugere múltiplos níveis de reunião, cada qual com sua própria forma de bênção.

Nota

Rav Yossef resolve a contradição atribuindo-a a uma disputa entre dois sábios: Rabi Yossei Haglili, que deriva do versículo dos salmos que a fórmula deve variar continuamente conforme o tamanho do grupo.

12Disse Rabi Akiva: o que encontramos na sinagoga, etc. E Rabi Akiva, este versículo de Rabi Yossei Haglili, o que faz com ele? É necessário para o que se ensinou: dizia Rabi Meir: de onde que também os fetos no ventre de sua mãe disseram cântico junto ao mar? Pois se diz: "nas assembleias abençoai a D'us, o Eterno, da fonte de Israel". E o outro? De "fonte" se deduz
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא: מַה מָּצִינוּ בְּבֵית הַכְּנֶסֶת וְכוּ׳. וְרַבִּי עֲקִיבָא, הַאי קְרָא דְּרַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי מַאי עָבֵיד לֵיהּ? מִיבְּעֵי לֵיהּ לְכִדְתַנְיָא, הָיָה רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: מִנַּיִן שֶׁאֲפִילּוּ עוּבָּרִין שֶׁבִּמְעֵי אִמָּן אָמְרוּ שִׁירָה עַל הַיָּם — שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּמַקְהֵלוֹת בָּרְכוּ אֱלֹהִים ה׳ מִמְּקוֹר יִשְׂרָאֵל״. וְאִידַּךְ? מִ״מְּקוֹר״ נָפְקָא.

Disse Rabi Akiva: o que (mah) encontramos (matzinu) na sinagoga (beveit hakneset) etc. (vechu) — isto é, citação abreviada da Mishná já vista em 49b, segundo a qual, tanto o pequeno quanto o grande grupo dizem a mesma bênção, por comparação com a sinagoga, onde a mesma fórmula serve para poucos e muitos. E Rabi Akiva, este (hai) versículo (kra) de Rabi Yossei Haglili, o que (mai) faz (aveid) com ele (leih)? — isto é, a Guemará pergunta como Rabi Akiva interpreta o mesmo versículo dos salmos, já que ele não o usa para justificar variação de fórmulas É necessário (mibaei leih) para o que (lechid) se ensinou (tanya), dizia Rabi Meir: de onde (minayin) que (she) também (afilu) os fetos (uvarin) no ventre (shebimei) de sua mãe (imam) disseram (amru) cântico (shirá) junto ao mar (al hayam) — isto é, uma tradição midráshica ensina que até os fetos ainda não nascidos participaram do cântico do Mar Vermelho — pois se diz (shenehemar): "nas assembleias (bemakhelot) abençoai (barechu) a D'us (elohim), o Eterno (hashem), da fonte (mimkor) de Israel (yisrael)" — isto é, a palavra "fonte" é interpretada como referência ao ventre materno, de onde procede a vida de Israel. E o outro (idach) — isto é, e Rabi Yossei Haglili, de onde ele deriva esse mesmo ensinamento sobre os fetos? De "fonte (mimkor)" se deduz (nafka) — isto é, Rabi Yossei Haglili concorda com esse midrash, deduzindo-o da mesma palavra "fonte", sem precisar de todo o versículo para seu próprio ensinamento sobre a variação da fórmula.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
ואידך – עוברים ממקור נפקא ואנן ממקהלות דרשינן:

"E o outro" — o ensinamento sobre os fetos (uvarim) de "fonte (mimkor)" se deduz (nafka), e nós (anan) de "assembleias (mimakhelot)" interpretamos (darshinan) — isto é, Rashi esclarece que Rabi Yossei Haglili deriva o ensinamento sobre os fetos da palavra "fonte", reservando a palavra "assembleias" exclusivamente para seu próprio ensinamento sobre a variação da fórmula de bênção conforme o tamanho do grupo.

Nota

A Guemará esclarece como Rabi Akiva e Rabi Yossei Haglili dividem entre si as duas palavras do mesmo versículo — "assembleias" e "fonte" — cada um extraindo delas um ensinamento diferente.

13Disse Rava: a lei é como Rabi Akiva. Ravina e Rav Chama bar Buzi visitaram a casa do Reish Galuta. Levantou-se Rav Chama e ficou voltando-se para o lado de cem. Disse-lhe Ravina: não precisas, assim disse Rava: a lei é como Rabi Akiva
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רָבָא: הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא. רָבִינָא וְרַב חָמָא בַּר בּוּזִי אִקְּלַעוּ לְבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא. קָם רַב חָמָא וְקָא מְהַדַּר אַבֵּי מְאָה. אֲמַר לֵיהּ רָבִינָא: לָא צְרִיכַתְּ, הָכִי אָמַר רָבָא: הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

Disse Rava: a lei (halachá) é como Rabi Akiva — isto é, Rava decide a favor da posição de que a mesma fórmula serve tanto para dez quanto para dez mil, sem necessidade de variação contínua. Ravina e Rav Chama bar Buzi visitaram (ikelau) a casa (bei) do Reish Galuta (reish galuta) — isto é, foram à casa do líder do exílio. Levantou-se (kam) Rav Chama e ficou (veka) voltando-se (mehadar) para o lado (abei) de cem (meá) — isto é, ao ver a grande multidão presente, Rav Chama começou a procurar uma fórmula diferente e mais elaborada, apropriada para cem pessoas. Disse-lhe (amar leih) Ravina: não (la) precisas (tzerichat) — isto é, não há necessidade de mudar de fórmula, assim (hachi) disse Rava: a lei (halachá) é como Rabi Akiva — isto é, Ravina corrige Rav Chama, lembrando-o de que a lei decidida segue Rabi Akiva, segundo a qual a mesma fórmula simples basta, seja o grupo de dez ou de dez mil.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
הלכה כר"ע – בבהמ"ז דאחד עשרה ואחד עשרה רבוא:

"A lei é como Rabi Akiva" — no Birkat Hamazon (bevirkat hamazon), que (de) um (echad) com dez (asará) e um (echad) com dez mil (asará ribo) — isto é, Rashi esclarece o escopo da decisão: a mesma fórmula do zimun serve indistintamente para dez ou para dez mil participantes.

Nota

Um episódio ilustra a decisão de Rava na prática: mesmo diante de cem pessoas na casa do Reish Galuta, não há necessidade de fórmula especial — a mesma fórmula simples de dez basta.

14Disse Rava: quando comíamos pão na casa do Reish Galuta, abençoávamos em grupos de três. Mas que abençoassem em grupos de dez! Ouviu o Reish Galuta e se irritou. E que saíssem com a bênção do Reish Galuta! Por estarem todos fazendo barulho, não ouviam
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רָבָא: כִּי אָכְלִינַן רִפְתָּא בֵּי רֵישׁ גָּלוּתָא, מְבָרְכִינַן שְׁלֹשָׁה שְׁלֹשָׁה. וְלִיבָרְכוּ עֲשָׂרָה עֲשָׂרָה! — שְׁמַע רֵישׁ גָּלוּתָא וְאִיקְּפַד. וְנִיפְּקוּ בְּבִרְכְּתָא דְּרֵישׁ גָּלוּתָא! — אַיְּידֵי דְּאָוְושׁוּ כּוּלֵּי עָלְמָא, לָא שָׁמְעִי.

Disse Rava: quando (ki) comíamos (achlinan) pão (rifta) na casa (bei) do Reish Galuta (reish galuta), abençoávamos (mevarchinan) em grupos de três (shlosha shlosha) — isto é, mesmo estando presente uma multidão numerosa na casa do Reish Galuta, cada trio de comensais fazia seu próprio zimun separadamente. Mas que abençoassem (livarchu) em grupos de dez (asará asará)! — isto é, a Guemará pergunta por que não formavam grupos maiores, de dez, o que permitiria a fórmula mais completa com a menção do Nome Ouviu (shema) o Reish Galuta (reish galuta) e se irritou (ikpad) — isto é, respondendo à pergunta: se o zimun em grupos de dez fosse feito em voz alta, o próprio Reish Galuta ouviria e ficaria contrariado, por parecer que os presentes estavam se organizando à parte, sem incluí-lo. E que saíssem (nifku) com a bênção (bevirchata) do Reish Galuta (reish galuta)! — isto é, a Guemará propõe uma alternativa: por que não simplesmente ouvir e cumprir o dever de zimun com a bênção do próprio Reish Galuta, feita em voz alta ao final? Por estarem todos (kulei alma) fazendo barulho (deavshu), não (la) ouviam (shami) — isto é, o barulho da grande multidão presente impedia que os comensais ouvissem claramente a bênção do Reish Galuta, de modo que não podiam cumprir seu dever através dela.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
מברכינן תלתא תלתא – ריש גלותא מאריך בסעודתו ואנן כל ג' וג' שגמרו סעודתן מזמנין בקול נמוך ויושבין אחר הברכה עד שגמר ריש גלותא ויזמנו הוא והיושבין אצלו בקול רם ולקמן פריך וניפקו בברכה דריש גלותא: שמע ריש גלותא – אם היו מזמנין י' י' היה צריך המברך להגביה קולו וישמע ריש גלותא ויחרה לו שאנו עושין חבורה לעצמנו בפרהסיא אע"ג דמפקי נפשייהו מידי זמון של הזכרת השם וכי הדר מזמן ריש גלותא בהזכרת השם לאו אינהו נפקי ביה כדאמר רבה תוספאה דאין זמון למפרע אפ"ה ניחא להו בהכי משום דאוושי כולי עלמא שהיו שם מסובין רבים ואין קול המברך נשמע:

"Abençoávamos em grupos de três" — o Reish Galuta (reish galuta) prolongava (maarich) sua refeição (bisudato), e nós (anan), cada (kol) grupo de três (shlosha veshlosha) que (she) terminava (gamru) sua refeição (seudatam), fazíamos zimun (mezamnin) em voz (bekol) baixa (namuch), e ficávamos sentados (veyoshvin) depois (achar) da bênção (haberachá) até (ad) que terminasse (shegamar) o Reish Galuta (reish galuta), e faríamos zimun (veyezamnu) ele (hu) e os que estavam sentados (vehayoshvin) junto a ele (etzlo) em voz (bekol) alta (ram) — isto é, Rashi explica a prática: os pequenos grupos faziam seu zimun discretamente, aguardando depois que o Reish Galuta, ao final, fizesse o seu próprio zimun em voz alta com os que estavam junto a ele, e adiante (ulekaman) pergunta-se (parich): "e que saíssem com a bênção do Reish Galuta". "Ouviu o Reish Galuta" — se (im) fizessem zimun (mezamnin) em grupos de dez (asará asará), precisaria (hayah tzarich) quem abençoa (hamevarech) erguer (lehagbiha) sua voz (kolo), e ouviria (veyishma) o Reish Galuta (reish galuta) e se irritaria (veyichra lo) — isto é, ao ouvir grupos de dez fazendo zimun completo, com menção do Nome, o Reish Galuta entenderia que estavam se organizando como grupo independente, publicamente, o que o contrariaria, embora (af al gav) eles (demapki nafshaihu) saíssem (midei) do dever de zimun (zimun) com a menção (hazcarat) do Nome (hashem), e quando (vechi) depois (hadar) faz zimun (mezamen) o Reish Galuta (reish galuta) com a menção (behazcarat) do Nome (hashem), não (lav) eles (inhu) sairiam (nafki) por meio dele (beih) — pois o zimun não se cumpre retroativamente, conforme (kedeamar) disse Rabá Tosfaá que (de) não há (ein) zimun (zimun) retroativamente (lemafrea); apesar disso (afhi) lhes convinha (nicha lehu) assim (behachi), por causa de (mishum) todos (dedavshu kulei alma) fazerem barulho (alma), pois (she) havia ali (hayu sham) muitos reclinados à mesa (mesubin rabim), e não (veein) se ouvia (nishma) a voz (kol) de quem abençoa (hamevarech).

Nota

Um episódio prático detalhado: na casa do Reish Galuta, mantinha-se o zimun em pequenos grupos de três para não incomodar o anfitrião, já que grupos de dez, com sua fórmula em voz alta, poderiam soar como uma organização paralela e desagradar-lhe; e cumprir o dever apenas com a bênção final do Reish Galuta não era viável, pois o barulho da multidão impedia que ela fosse ouvida.

15Disse Rabá Tosfaá: estes três que comem pão juntos, e um deles se adiantou e abençoou por sua própria vontade — eles cumprem seu dever com o zimun dele; ele não cumpre seu dever com o zimun deles, pois não há zimun retroativamente
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַבָּה תּוֹסְפָאָה: הָנֵי שְׁלֹשָׁה דְּכָרְכִי רִפְתָּא בַּהֲדֵי הֲדָדֵי, וּקְדֵים חַד מִינַּיְיהוּ וּבָרֵיךְ לְדַעְתֵּיהּ — אִינּוּן נָפְקִין בְּזִמּוּן דִּידֵיהּ, אִיהוּ לָא נָפֵיק בְּזִמּוּן דִּידְהוּ — לְפִי שֶׁאֵין זִמּוּן לְמַפְרֵעַ.

Disse Rabá Tosfaá: estes (hanei) três (shlosha) que (de) comem pão (karchi rifta) juntos (bahadei hadadei), e se adiantou (ukedeim) um (chad) deles (minaihu) e abençoou (uverich) por sua própria vontade (ledateih) — isto é, se, entre três comensais, um deles termina antes e recita o Birkat Hamazon sozinho, sem esperar pelo zimun conjunto — eles (inun) cumprem seu dever (nafkin) com o zimun (bezimun) dele (didei) — isto é, os outros dois, ao ouvirem a bênção dele, podem cumprir seu próprio dever de zimun respondendo a ela, ele (ihu) não (la) cumpre seu dever (nafeik) com o zimun (bezimun) deles (didhu) — isto é, mas ele mesmo, que já terminou sua própria bênção sem incluir a fórmula de zimun, não pode depois cumprir esse dever apenas por ouvir os outros dois responderem, pois (lefi) não (she ein) há zimun (zimun) retroativamente (lemafrea) — isto é, uma vez que ele já concluiu sua bênção sem o zimun, não é possível voltar atrás e fazer com que ela seja considerada como tendo incluído o zimun.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
ובריך לדעתיה – לעצמו בלא זימון: למפרע – משבירך וידי זמון לא יצא:

"E abençoou por sua própria vontade" — para si mesmo (leatzmo), sem (belo) zimun (zimun). "Retroativamente" — desde que (mishe) abençoou (berich), e o dever (videi) de zimun (zimun) não (lo) cumpriu (yatza) — isto é, uma vez que ele completou sua bênção sem o zimun, já não tem mais como cumprir esse dever, pois o cumprimento não pode retroagir a um momento já passado.

Nota

Rabá Tosfaá estabelece uma regra importante sobre a ordem do zimun: quem se adianta e abençoa sozinho permite que os demais cumpram seu dever ouvindo-o, mas ele próprio já não pode mais cumprir o dever de zimun, pois este não se aplica retroativamente.

16Rabi Ishmael diz. Rafram bar Papa visitou a sinagoga de Avi Giver. Levantou-se, leu no livro e disse "Abençoai o Eterno", e calou-se, e não disse "o Bendito". Fizeram barulho todos: "Abençoai o Eterno, o Bendito". Disse Rava: cabeça negra, para que precisas te meter em disputa? E além disso, eis que o mundo já pratica como Rabi Ishmael
Bavli · 50a — Guemará
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר. רַפְרָם בַּר פָּפָּא אִקְּלַע לְבֵי כְּנִישְׁתָּא דַּאֲבִי גִיבָּר, קָם קְרָא בְּסִפְרָא וַאֲמַר ״בָּרְכוּ אֶת ה׳״, וְאִשְׁתִּיק, וְלָא אֲמַר ״הַמְבוֹרָךְ״. אֲוַושׁוּ כּוּלֵּי עָלְמָא: ״בָּרְכוּ אֶת ה׳ הַמְבוֹרָךְ״. אֲמַר רָבָא: פַּתְיָא אוּכָּמָא, בַּהֲדֵי פְּלוּגְתָּא לְמָה לְךָ? וְעוֹד, הָא נְהוּג עָלְמָא כְּרַבִּי יִשְׁמָעֵאל.

Rabi Ishmael diz — isto é, citação abreviada da Mishná de 49b, retomando a opinião de Rabi Ishmael sobre a fórmula usada na sinagoga. Rafram bar Papa visitou (ikelá) a sinagoga (bei kenishta) de Avi Giver (avi giver). Levantou-se (kam), leu (kra) no livro (besifra) e disse (vaamar) "Abençoai (barechu) o Eterno (et hashem)", e calou-se (veishtik), e não (velo) disse (amar) "o Bendito (hamevorach)" — isto é, ao chamar para a leitura da Torá, Rafram bar Papa disse apenas "Abençoai o Eterno", sem completar com "o Bendito", seguindo a formulação simples de Rabi Ishmael. Fizeram barulho (avshu) todos (kulei alma): "Abençoai (barechu) o Eterno (et hashem), o Bendito (hamevorach)" — isto é, a congregação, habituada à fórmula mais longa, completou em voz alta a frase que Rafram bar Papa havia deixado incompleta. Disse Rava: cabeça (patya) negra (ukama) — isto é, uma expressão de repreensão afetuosa, dirigida a Rafram bar Papa, para que (lama) precisas (lecha) te meter (bahadei) em disputa (pelugta)? — isto é, Rava repreende Rafram bar Papa por ter insistido na formulação mais simples, gerando confusão na congregação E além disso (veod), eis que (há) o mundo (alma) já pratica (nehug) como (kerabi) Rabi Ishmael — isto é, embora a lei de fato siga Rabi Ishmael, o costume popular já se fixou na fórmula mais longa, e não convém contrariá-lo desnecessariamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
פתיא – כלי חרס כדאמר (ע"ז ד' לג:) הני פתיותא דבי מכסי: בהדי פלוגתא למה לך – טוב לך לאחוז דברי רבי ישמעאל שאף ר"ע מודה דכי אמר המבורך טפי עדיף אלא שאין צריך:

"Cabeça" (patya) — utensílio (keli) de barro (cheres), conforme (kedeamar) se disse (Avodá Zará 33b): "estes utensílios (patyata) da casa (bei) da alfândega (machsei)" — isto é, Rashi identifica a expressão idiomática como referência a um vaso de barro, aqui usada como repreensão. "Para que precisas te meter em disputa" — é melhor (tov) para ti (lecha) te apegares (leechoz) às palavras (divrei) de Rabi Ishmael, pois (she) também (af) Rabi Akiva concorda (modeh) que (de) quando (ki) se diz (amar) "o Bendito (hamevorach)" é ainda mais (tefei) preferível (adif), mas (ela) que (she) não (ein) é necessário (tzarich) — isto é, mesmo Rabi Akiva reconhece que dizer "o Bendito" é preferível, discordando apenas quanto à obrigatoriedade, de modo que não havia razão para Rafram bar Papa insistir na forma mínima e gerar confusão.

Nota

Um episódio final encerra a série sobre fórmulas: Rafram bar Papa, seguindo estritamente Rabi Ishmael, omitiu "o Bendito" ao chamar para a leitura da Torá, gerando confusão na congregação; Rava o repreende, lembrando que mesmo os que discordam de Rabi Ishmael reconhecem a fórmula longa como preferível, e que o costume já a consagrou.

מַתְנִיתִין — הַמִּשְׁנָה הַשְּׁנִיָּה שֶׁל הַפֶּרֶק

Segunda Mishná do Perek Keitzad Mezamnin: as regras de divisão de grupos de comensais, duas chaburot na mesma casa, e o vinho misturado com água antes da bênção.

17Mishná: três que comeram juntos não podem se dividir. E assim quatro, e assim cinco. Seis se dividem, até dez. E dez não se dividem, até vinte
Bavli · 50a — Mishná
שְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְּאַחַת — אֵינָן רַשָּׁאִין לֵיחָלֵק. וְכֵן אַרְבָּעָה, וְכֵן חֲמִשָּׁה. שִׁשָּׁה — נֶחְלָקִין, עַד עֲשָׂרָה. וַעֲשָׂרָה — אֵין נֶחֱלָקִין, עַד עֶשְׂרִים.

Três (shlosha) que (she) comeram (achlu) juntos (keachat) — não (einan) podem (rashain) se dividir (leichalek) — isto é, três comensais que já se obrigaram ao zimun não podem se separar para que um deles fique de fora, deixando de responder ao zimun. E assim (vechen) quatro (arbaá), e assim (vechen) cinco (chamishá) — isto é, a mesma regra se aplica a grupos de quatro ou cinco: nenhum deles pode se retirar do zimun conjunto. Seis (shishá) — se dividem (nechlakin), até (ad) dez (asará) — isto é, a partir de seis participantes, o grupo pode se dividir em dois subgrupos de zimun, e essa possibilidade continua até nove. E dez (vaasará) — não (ein) se dividem (nechlakin), até (ad) vinte (esrim) — isto é, ao chegar a dez, torna-se obrigatória a menção do Nome divino na fórmula, e o grupo não pode mais se dividir até que dobre para vinte pessoas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 50a
מתני' אינן רשאין ליחלק – דאיתחייבו להו בזמון: וכן ד' – אין הג' מזמנין והיחיד יחלק מהם דאיהו נמי איקבע בחובת זמון: ששה נחלקים – כדי זמון לכאן וכדי זמון לכאן: עד עשרה – אבל עשרה אין נחלקים דאיתחייבו להו בזמון הזכרת השם עד שיהא עשרים ואז יחלקו אם ירצו לשתי חבורות:

"Não podem se dividir" — pois (de) já se obrigaram (itchayvu) ao (lehu) zimun (bezimun). "E assim quatro" — não (ein) os três (hasheloshá) fazem zimun (mezamnin) e o único (hayachid) se separa (yechalek) deles (mehem), pois (de) ele também (ihu nami) se estabeleceu (ikba) na obrigação (bechovat) de zimun (zimun) — isto é, quando o grupo tem quatro pessoas, não é permitido que três façam zimun entre si e deixem a quarta de fora, pois todos os quatro já entraram, juntos, na obrigação do zimun. "Seis se dividem" — para que haja (kedei) zimun (zimun) aqui (lechan) e para que haja (vekedei) zimun (zimun) aqui (lechan) — isto é, cada subgrupo resultante da divisão ainda tem ao menos três pessoas, número mínimo para constituir zimun. "Até dez" — mas (aval) dez (asará) não (ein) se dividem (nechlakim), pois (de) já se obrigaram (itchayvu) ao (lehu) zimun (bezimun) com menção (bahazcarat) do Nome (hashem), até (ad) que sejam (sheyehei) vinte (esrim), e então (veaz) se dividirão (yechalku), se (im) quiserem (yirtzu), em duas (lishtei) chaburot (chaburot).

Nota

Uma nova Mishná abre a matéria: até cinco comensais, ninguém pode se separar do zimun conjunto; de seis a nove, o grupo pode se dividir em subgrupos, desde que cada um mantenha ao menos três; ao chegar a dez, a obrigação de mencionar o Nome impede nova divisão até vinte.

18Duas chaburot que comiam numa mesma casa, quando algumas delas se veem umas às outras — juntam-se para o zimun; e senão — estas fazem zimun para si e aquelas fazem zimun para si
Bavli · 50a — Mishná
שְׁתֵּי חֲבוּרוֹת שֶׁהָיוּ אוֹכְלוֹת בְּבַיִת אֶחָד, בִּזְמַן שֶׁמִּקְצָתָן רוֹאִין אֵלּוּ אֶת אֵלּוּ — הֲרֵי אֵלּוּ מִצְטָרְפִין לְזִמּוּן, וְאִם לָאו — אֵלּוּ מְזַמְּנִין לְעַצְמָן וְאִלּוּ מְזַמְּנִין לְעַצְמָן.

Duas (shtei) chaburot (chaburot) que (she) comiam (ochlot) numa mesma casa (bevait echad) — isto é, dois grupos distintos de comensais, cada qual já obrigado ao zimun dentro de si, reunidos sob o mesmo teto, quando (bizman) algumas (miktzatan) delas se veem (roin) umas (elu) às outras (et elu) — eis que (harei) estas (elu) se juntam (mitztarfin) para o zimun (lezimun) — isto é, se ao menos parte de um grupo consegue ver parte do outro, os dois grupos podem se unir e fazer um único zimun conjunto, e senão (veim lav) — estas (elu) fazem zimun (mezamnin) para si (leatzman) e aquelas (veilu) fazem zimun (mezamnin) para si (leatzman) — isto é, se não há visão entre os dois grupos, cada um permanece separado, fazendo seu próprio zimun independentemente.

Nota

A Mishná estabelece a regra para duas chaburot na mesma casa: a possibilidade de visão mútua, ainda que parcial, entre os dois grupos, basta para permitir que se juntem num único zimun; sem ela, permanecem separados.

19Não se abençoa sobre o vinho até que se ponha água nele, palavras de Rabi Eliezer. E os sábios dizem: abençoa-se
Bavli · 50a — Mishná
אֵין מְבָרְכִין עַל הַיַּיִן עַד שֶׁיִּתֵּן לְתוֹכוֹ מַיִם, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: מְבָרְכִין.

Não (ein) se abençoa (mevarchin) sobre o vinho (hayayin) até (ad) que (she) se ponha (yiten) nele (letocho) água (mayim), palavras (divrei) de Rabi Eliezer — isto é, para Rabi Eliezer, o vinho puro, sem diluição, não é considerado próprio para bênção, sendo necessário misturá-lo com água antes. E os sábios (vachachamim) dizem: abençoa-se (mevarchin) — isto é, os sábios discordam, permitindo a bênção sobre o vinho mesmo sem essa mistura prévia.

Nota

A Mishná encerra com uma nova disputa, agora sobre o vinho: Rabi Eliezer exige que se misture água antes da bênção; os sábios dispensam essa exigência — tema que a Guemará virá a desenvolver adiante.

20Guemará: o que vem ensinar-nos? Já ensinamos isso uma vez: três que comeram juntos são obrigados a fazer zimun!
Bavli · 50a — Guemará
מַאי קָא מַשְׁמַע לַן? תְּנֵינָא חֲדָא זִימְנָא, שְׁלֹשָׁה שֶׁאָכְלוּ כְּאַחַת חַיָּיבִין לְזַמֵּן!

O que (mai) vem (ka) ensinar-nos (mashma lan)? — isto é, a Guemará pergunta qual é a novidade da primeira cláusula da Mishná, que três que comeram juntos não podem se dividir Já ensinamos (teniná) isso (chada zimna) uma vez — isto é, essa mesma regra básica já foi ensinada em outra Mishná, anteriormente estudada: três (shlosha) que (she) comeram (achlu) juntos (keachat) são obrigados (chayavin) a fazer zimun (lezamen)! — isto é, se já sabíamos que três comensais são obrigados ao zimun, é óbvio que nenhum deles pode se retirar; qual é então o novo ensinamento desta Mishná?

Nota

A Guemará abre com uma objeção clássica de redundância: a obrigação de três comensais fazerem zimun já era conhecida, tornando aparentemente supérflua a nova cláusula sobre não poderem se dividir.

21Isto vem ensinar-nos, como aquilo que disse Rabi Aba em nome de Shmuel: três que se sentaram para comer juntos, e ainda não comeram — não podem se dividir
Bavli · 50a — Guemará
הָא קָא מַשְׁמַע לַן, כִּי הָא דְּאָמַר רַבִּי אַבָּא אָמַר שְׁמוּאֵל: שְׁלֹשָׁה שֶׁיָּשְׁבוּ לֶאֱכוֹל כְּאַחַת, וַעֲדַיִן לֹא אָכְלוּ — אֵינָן רַשָּׁאִין לֵיחָלֵק.

Isto (há) vem (ka) ensinar-nos (mashma lan), como (ki) aquilo (há) que (de) disse Rabi Aba em nome de Shmuel: três (shlosha) que (she) se sentaram (yashvu) para comer (leechol) juntos (keachat), e ainda (vaadain) não (lo) comeram (achlu) — não (einan) podem (rashain) se dividir (leichalek) — isto é, a novidade da Mishná é que mesmo antes de efetivamente comerem, apenas por já terem se sentado juntos com a intenção de comer em conjunto, os três já se obrigam mutuamente ao zimun, e nenhum deles pode depois se retirar.

Nota

A Guemará responde: a novidade da Mishná é que a obrigação de zimun já se estabelece no momento em que os três se sentam juntos com a intenção de comer, mesmo antes de efetivamente comerem — diferente da Mishná anterior, que falava apenas de quem já havia comido.

22Outra versão: disse Rabi Aba em nome de Shmuel, assim se ensina: três que se sentaram para comer juntos, ainda que cada um coma de seu próprio pão, não podem se dividir. Ou também, como aquilo de Rav Huna, que disse Rav Huna: três que vieram de três chaburot, não podem se dividir
Bavli · 50a — Guemará
לִישָּׁנָא אַחֲרִינָא: אָמַר רַבִּי אַבָּא אָמַר שְׁמוּאֵל, הָכִי קָתָנֵי: שְׁלֹשָׁה שֶׁיָּשְׁבוּ לֶאֱכוֹל כְּאַחַת, אַף עַל פִּי שֶׁכָּל אֶחָד וְאֶחָד אוֹכֵל מִכִּכָּרוֹ, אֵינָן רַשָּׁאִין לֵיחָלֵק. אִי נָמֵי כִּי הָא דְּרַב הוּנָא, דְּאָמַר רַב הוּנָא: שְׁלֹשָׁה שֶׁבָּאוּ מִשָּׁלֹשׁ חֲבוּרוֹת, אֵינָן רַשָּׁאִין לֵיחָלֵק.

Outra (achrina) versão (lishaná): disse Rabi Aba em nome de Shmuel, assim (hachi) se ensina (katani): três (shlosha) que (she) se sentaram (yashvu) para comer (leechol) juntos (keachat), ainda que (af al pi she) cada (kol) um (echad veechad) coma (ochel) de seu próprio pão (mikikaro) — isto é, mesmo que cada um traga e coma seu próprio pão separadamente, sem compartilhar comida, não (einan) podem (rashain) se dividir (leichalek) — isto é, o simples fato de se sentarem juntos, com a intenção de comer em companhia, já os obriga ao zimun, independentemente de compartilharem ou não a comida. Ou também (i nami), como (ki) aquilo (há) de Rav Huna, que (de) disse Rav Huna: três (shlosha) que (she) vieram (bau) de três (mishalosh) chaburot (chaburot) — isto é, três pessoas, cada uma pertencente a uma chaburá diferente, que se juntam para comer, não (einan) podem (rashain) se dividir (leichalek) — isto é, mesmo vindo de origens distintas, uma vez que passam a comer juntos, já se obrigam ao zimun conjunto e não podem depois se separar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 50a
גמ' ג' שבאו משלש חבורות – וכדמסיים רב חסדא שבאו מג' חבורות של ג' בני אדם בכל חבורה ונתחייבו אלו בזמון ועמד אחד מכל חבורה ונצטרפו שלשה לחבורה אחת חייבין לזמן ואינן רשאין ליחלק שכבר הוקבעו ואפילו לא אכלו אלו השלשה משנצטרפו יחד שכבר גמרו סעודתן עם הראשונים:

"Três que vieram de três chaburot" — e conforme (uchedemasyim) conclui Rav Chisda, que (she) vieram (bau) de três (mishalosh) chaburot (chaburot) de três (shel shlosha) pessoas (bnei adam) em cada (bechol) chaburá (chaburá), e se obrigaram (venitchayvu) estes (elu) ao zimun (bezimun), e se levantou (veamad) um (echad) de cada (mikol) chaburá (chaburá) e se juntaram (venitztarfu) três (shlosha) em uma (lechaburá achat) chaburá — isto é, três pessoas, uma de cada uma das três chaburot originais, que se separam de seus grupos e formam um novo trio, são obrigados (chayavin) a fazer zimun (lezamen) e não (veeinan) podem (rashain) se dividir (leichalek), pois (she)(kevar) se estabeleceram (hukbeu), e mesmo que (vaafilu) não (lo) tenham comido (achlu) estes (elu) três (hashlosha) desde que (mishe) se juntaram (nitztarfu) uns aos outros (yachad), pois (she)(kevar) terminaram (gamru) sua refeição (seudatam) com os primeiros (im harishonim) — isto é, mesmo que esse novo trio não tenha efetivamente comido junto, uma vez que cada um já havia terminado sua refeição em sua chaburá original antes de se juntar, ainda assim se obrigam ao zimun conjunto por essa nova associação.

Nota

Uma segunda versão da mesma tradição de Rabi Aba em nome de Shmuel, ampliando o alcance da regra: mesmo comendo cada um de seu próprio pão, ou vindo de chaburot distintas, o simples ato de se juntarem para comer já estabelece a obrigação conjunta de zimun.

23Disse Rav Chisda: e isso quando vieram de três chaburot de três pessoas cada uma
Bavli · 50a — Guemará
אָמַר רַב חִסְדָּא: וְהוּא שֶׁבָּאוּ מִשָּׁלֹשׁ חֲבוּרוֹת שֶׁל שְׁלֹשָׁה בְּנֵי אָדָם.

Disse Rav Chisda: e isso (vehu) quando (she) vieram (bau) de três (mishalosh) chaburot (chaburot) de três (shel shlosha) pessoas (bnei adam) cada uma — isto é, Rav Chisda precisa a condição da regra de Rav Huna: ela se aplica apenas quando cada uma das três chaburot de origem já tinha, ela mesma, três pessoas, de modo que já estava plenamente obrigada ao seu próprio zimun antes da separação.

Nota

Rav Chisda especifica a condição exata da regra de Rav Huna: a obrigação do novo trio só se aplica quando cada uma das chaburot de origem já tinha, em si, três pessoas plenamente obrigadas ao zimun.

24Disse Rava:
Bavli · 50a — Guemará (frase inicial, concluída em 50b)
אָמַר רָבָא:

Disse Rava — isto é, o daf encerra-se aqui no meio de uma frase; a fala de Rava, que qualifica ou expande a condição estabelecida por Rav Chisda, é retomada e concluída logo no início do daf seguinte, 50b.

Nota

O daf termina em suspenso, com a fala de Rava apenas iniciada; sua continuação encontra-se no início de 50b.