Talmud Bavli · Berachot · Daf 54, lado B · Perek Tet (HaRoeh)
נד ע״ב

Conclui-se a narrativa da emboscada dos emorreus em Arnon e a lista dos lugares de milagre; a Guemará explica as pedras de Og e a esposa de Lot, e então enumera os quatro que precisam agradecer, com a fórmula de Birkat HaGomel

Berachot 54b · Perek HaRoeh ("Aquele que vê")

O daf abre concluindo a narrativa iniciada em 54a: os emorreus escavaram grutas nos penhascos de Arnon para emboscar Israel, sem saber que a Arca nivelava os montes à sua frente; quando a Arca chegou, os montes se juntaram de volta e esmagaram os emorreus, cujo sangue desceu aos ribeiros — sinal que Israel só percebeu ao ver o sangue emergir das pedras, motivo pelo qual entoaram cântico. A Guemará então explica as demais pedras da baraita: as pedras de granizo de Beit Choron, que pairaram no ar sobre Moshé e caíram sobre os inimigos de Yehoshua; a pedra que Og quis arrancar e lançar sobre todo o acampamento de Israel, e como D'us a fez encravar em seu pescoço através de uma formiga, e como Moshé, de dez amot de altura, saltou e o feriu no tornozelo; a pedra sobre a qual Moshé se sentou durante a guerra contra Amalek; a esposa de Lot transformada em coluna de sal; e a muralha de Yericho engolida em seu lugar. Segue-se a discussão se a bênção sobre a esposa de Lot — um castigo, não um milagre — cabe na mesma categoria, resolvida com a instituição de duas bênçãos distintas para Lot e sua esposa, e o ensinamento de Rabi Yochanan de que D'us lembra dos justos mesmo em Sua ira. Depois de esclarecer por que a muralha de Yericho é chamada de "engolida" e não apenas de "caída", a Guemará passa a um novo ensinamento de Rav Yehuda em nome de Rav: quatro precisam agradecer — os que descem ao mar, os que atravessam desertos, o doente que se curou e o preso que foi libertado — cada um com sua fonte no Salmo 107. Segue a discussão sobre a fórmula da bênção (Birkat HaGomel) e a exigência de agradecer diante de dez pessoas, incluindo dois sábios, com a objeção de Rav Ashi; o episódio de Rav Yehuda doente que, ao receber a visita de Rav Chana de Bagdá e outros sábios que o abençoaram, considerou-se dispensado de agradecer publicamente, pois eles já eram dez e responderam amém. O daf fecha com o ensinamento de Rav Yehuda sobre os três que precisam de proteção contra os demônios — doente, noivo e noiva, com acréscimos de outras versões —, e sobre os três hábitos que prolongam os dias e anos do homem: demorar-se na oração, à mesa, e no banheiro — abrindo a pergunta, que só será respondida no início de 55a, se demorar-se na oração é de fato elogiável.

1Fizeram para eles grutas e se esconderam nelas; disseram: quando Israel passar aqui, os mataremos — mas não sabiam que a Arca ia adiante de Israel e nivelava os montes; quando a Arca chegou, os montes se juntaram e os mataram, e o sangue desceu aos ribeiros de Arnon; ao chegarem a Et-Vahev, viram o sangue saindo dentre os montes, e disseram a Israel, que entoou cântico
Bavli · 54b — Guemará
עָבְדִי לְהוֹן נְקִירָתָא וּטְשׁוֹ בְּהוֹן. אָמְרִי: כִּי חָלְפִי יִשְׂרָאֵל הָכָא — נִקְטְלִינּוּן, וְלָא הֲווֹ יָדְעִי דְּאָרוֹן הֲוָה מְסַגֵּי קַמַּיְיהוּ דְּיִשְׂרָאֵל וַהֲוָה מַמֵּיךְ לְהוּ טוּרֵי מִקַּמַּיְיהוּ. כֵּיוָן דַּאֲתָא אָרוֹן, אִדְּבַקוּ טוּרֵי בַּהֲדֵי הֲדָדֵי, וְקַטְלִינּוּן, וּנְחַת דְּמַיְיהוּ לְנַחֲלֵי אַרְנוֹן. כִּי אֲתוֹ אֶת וָהֵב, חֲזוֹ דְּמָא דְּקָא נָפֵיק מִבֵּינֵי טוּרֵי. אֲתוֹ וְאָמְרִי לְהוּ לְיִשְׂרָאֵל וַאֲמַרוּ שִׁירָה. הַיְינוּ דִּכְתִיב: ״וְאֶשֶׁד הַנְּחָלִים אֲשֶׁר נָטָה לְשֶׁבֶת עָר וְנִשְׁעַן לִגְבוּל מוֹאָב״.

Fizeram (avdi) para eles (lehon) grutas (nekiruta) e se esconderam (uteshó) nelas (behon) — isto é, retomando a narrativa de 54a, os emorreus, ao saberem que Israel passaria por aquele desfiladeiro de Arnon, escavaram grutas nos penhascos para emboscá-los. Disseram (amri): quando (ki) Israel (yisrael) passar (chalfi) aqui (hacha) — os mataremos (niktelinun), e não (vela) sabiam (havu yadei) que (de) a Arca (aron) ia (havá mesagei) adiante (kamayhu) de Israel (deyisrael) e nivelava (vahavá mameich) para eles (lehu) os montes (turei) à sua frente (mikamayhu) — isto é, os emorreus ignoravam que a Arca da Aliança, ao preceder o povo, achatava os montes para abrir caminho, o que tornaria sua emboscada inútil. Assim que (keivan) chegou (data) a Arca (aron), se juntaram (idbaku) os montes (turei) uns com os outros (bahadei hadadei), e os mataram (uketalinun), e desceu (unchat) o sangue deles (demayhu) para os ribeiros (lenachalei) de Arnon — isto é, assim que a Arca chegou e os montes, já nivelados, voltaram à sua posição original, os emorreus escondidos nas grutas foram esmagados entre eles, e seu sangue escorreu para os ribeiros. Quando (ki) chegaram (ato) a Et-Vahev, viram (chazo) o sangue (dema) que (deka) saía (nafeik) dentre (mibeinei) os montes (turei) — isto é, Israel só percebeu o milagre ao ver o sangue emergindo das rochas, sem ter presenciado o esmagamento em si. Vieram (ato) e disseram (veamri) a eles (lehu), a Israel (leyisrael), e entoaram (vaamru) cântico (shirá) — isto é, dois leprosos, testemunhas do sinal, contaram o ocorrido a Israel, que então cantou louvor pelo milagre. Isto é (haynu) o que está escrito (dichtiv): "e o declive (veeshed) dos ribeiros (hanechalim) que (asher) se inclina (natá) para o assento (leshevet) de Ar, e se apoia (venishan) na fronteira (ligvul) de Moav" (Bamidbar 21:15) — isto é, o versículo seguinte, também obscuro, é lido como referência geográfica ao mesmo evento, os montes que se inclinaram um em direção ao outro sobre o vale de Arnon.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
עבדי להון נקירותא – מערות מעברות נחל ארנון עמק עמוק בין ב' הרים גבוהים והיו ישראל צריכים לעבור באותו עמק עשו אמוריים מערות בצדי ההרים ונחבאו שם: וטשו – נחבאו: מסגי – עובר: ממיך טורי – משפיל הרים ומתפשטין זה לצד זה עד שהעמק שוה: חזו דמא – כשחזרו ההרים למקומן: ואשד – ושפך: אשר נטה לשבת ער – ההר שבעבר העמק נטה ונתפשט לצד חברו ההר אשר לצד עבר מואב ושם ארץ מואב ער:

"Fizeram para eles grutas" — grutas (mearot) nas passagens (maavrot) do ribeiro (nachal) de Arnon, um vale (emek) profundo (amok) entre (bein) dois (shnei) montes (harim) altos (gevohim), e Israel (yisrael) precisava (tzrichim) passar (laavor) por aquele vale (emek); fizeram (asu) os emorreus (emoraim) grutas (mearot) nas laterais (betzidei) dos montes (haharim) e se esconderam (venechbeu) ali (sham) — isto é, Rashi descreve a geografia do vale, explicando por que era um ponto natural de emboscada. "E se esconderam" — se esconderam (nechbeu). "Ia adiante" — passava (over). "Nivelava os montes" — rebaixava (mashpil) os montes (harim) e se estendiam (umitpashtin) um para o lado do outro (zeh letzad zeh) até que (ad she) o vale (haemek) ficasse plano (shavé). "Viram o sangue" — quando (kesheh) os montes (harim) voltaram (chazru) ao seu lugar (limkomam). "E o declive" — e o derramamento (veshefech). "Que se inclina para o assento de Ar" — o monte (hahar) que está do outro lado (sheb'ever) do vale (haemek) se inclinou (natá) e se estendeu (venitpashet) para o lado (letzad) de seu companheiro (chaveiro), o monte (hahar) que está do lado (shel tzad) além (ever) de Moav, e ali (vesham) fica a terra (eretz) de Moav chamada Ar.

Nota

Conclusão da narrativa da emboscada dos emorreus em Arnon: os montes, nivelados pela Arca à passagem de Israel, se juntaram de volta e esmagaram os emorreus escondidos, e o sinal do milagre — o sangue emergindo das rochas — foi visto pelos dois leprosos, que o relataram a Israel, levando ao cântico de louvor.

2"Pedras de granizo" — o que são pedras de granizo?
Bavli · 54b — Guemará
אַבְנֵי אֶלְגָּבִישׁ. מַאי אַבְנֵי אֶלְגָּבִישׁ?

"Pedras (avnei) de granizo (elgavish)" — citando a expressão da baraita em 54a. O que são (mai) "pedras (avnei) de granizo (elgavish)"? — isto é, a Guemará passa a explicar, item por item, os demais elementos da baraita sobre os lugares de milagre, começando por esta expressão que exige esclarecimento.

Nota

A Guemará inicia a explicação detalhada dos itens da baraita, perguntando primeiro o significado de "pedras de granizo".

3Ensinou-se: pedras que pararam sobre um homem e desceram sobre um homem. Pararam sobre um homem — este é Moshé; desceram sobre um homem — este é Yehoshua, na descida de Beit Choron, onde o Eterno lançou sobre eles grandes pedras
Bavli · 54b — Guemará
תָּנָא: אֲבָנִים שֶׁעָמְדוּ עַל גַּב אִישׁ, וְיָרְדוּ עַל גַּב אִישׁ. עָמְדוּ עַל גַּב אִישׁ — זֶה מֹשֶׁה, דִּכְתִיב: ״וְהָאִישׁ מֹשֶׁה עָנָו מְאֹד״, וּכְתִיב: ״וַיַּחְדְּלוּ הַקֹּלוֹת וְהַבָּרָד וּמָטָר לֹא נִתַּךְ אָרְצָה״. יָרְדוּ עַל גַּב אִישׁ — זֶה יְהוֹשֻׁעַ, דִּכְתִיב: ״קַח לְךָ אֶת יְהוֹשֻׁעַ בִּן נוּן אִישׁ אֲשֶׁר רוּחַ בּוֹ״, וּכְתִיב: ״וַיְהִי בְּנוּסָם מִפְּנֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל הֵם בְּמוֹרַד בֵּית חוֹרֹן וַה׳ הִשְׁלִיךְ עֲלֵיהֶם אֲבָנִים גְּדֹלוֹת״.

Ensinou-se (taná): pedras (avanim) que (she) pararam (amdu) sobre (al) um homem (ish), e desceram (veyardu) sobre (al) um homem (ish) — uma leitura que divide as "pedras de granizo" em duas ocasiões distintas, ligadas por uma mesma expressão bíblica, "homem". Pararam (amdu) sobre um homem — este é (zeh) Moshé, pois está escrito (dichtiv): "e o homem (vehaish) Moshé era muito (meod) humilde (anav)" (Bamidbar 12:3), e está escrito (uchtiv): "e cessaram (vayachdelu) as vozes (hakolot) e o granizo (vehabarad), e a chuva (umatar) não (lo) se derramou (nitach) à terra (artza)" (Shemot 9:33) — isto é, durante a praga do granizo no Egito, quando Moshé estendeu as mãos, o granizo cessou de cair, ficando suspenso no ar; a associação da palavra "homem" a Moshé identifica esse episódio como um dos casos de "pararam sobre um homem". Desceram (yardu) sobre um homem — este é (zeh) Yehoshua, pois está escrito (dichtiv): "toma (kach) para ti (lecha) a Yehoshua filho de Nun, homem (ish) em quem (asher) há espírito (ruach bo)" (Bamidbar 27:18), e está escrito (uchtiv): "e sucedeu (vayehi) que, ao fugirem eles (binusam) diante (mipnei) dos filhos (benei) de Israel (yisrael), estando eles (hem) na descida (bemorad) de Beit Choron, o Eterno (Hashem) lançou (hishlich) sobre eles (aleihem) grandes (gdolot) pedras (avanim)" (Yehoshua 10:11) — isto é, na guerra contra os cinco reis emorreus, ao fugirem estes pela descida de Beit Choron diante de Israel, liderado por Yehoshua, o Eterno fez cair sobre eles grandes pedras de granizo, identificando esse episódio como o caso de "desceram sobre um homem".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
שעמדו – באויר: לא נתך ארצה – לא הגיע לארץ אלא עמדו באויר:

"Que pararam" — no ar (baavir) — isto é, o granizo da praga do Egito ficou suspenso, sem cair. "Não se derramou à terra" — não (lo) chegou (higuia) à terra (laaretz), mas (ela) pararam (amdu) no ar (baavir).

Nota

Explicação das "pedras de granizo": duas ocasiões associadas à palavra bíblica "homem" — o granizo que parou suspenso no ar durante a praga do Egito, no tempo de Moshé, e o granizo que efetivamente caiu sobre os emorreus na descida de Beit Choron, no tempo de Yehoshua.

4A pedra que Og, rei de Bashan, quis lançar sobre Israel é tradição recebida: disse "quanto mede o acampamento de Israel? três parasangas; irei e arrancarei um monte de três parasangas e o lançarei sobre eles, e os matarei". Foi, arrancou o monte e o trouxe sobre sua cabeça; e o Santo, Bendito Seja, trouxe sobre ele formigas que o perfuraram, e desceu ao seu pescoço
Bavli · 54b — Guemará
אֶבֶן שֶׁבִּקֵּשׁ עוֹג מֶלֶךְ הַבָּשָׁן לִזְרוֹק עַל יִשְׂרָאֵל, גְּמָרָא גְּמִירִי לַהּ. אֲמַר מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל כַּמָּה הָוֵי — תְּלָתָא פַּרְסֵי, אֵיזֵיל וְאֶיעֱקַר טוּרָא בַּר תְּלָתָא פַּרְסֵי וְאִישְׁדֵּי עֲלַיְיהוּ, וְאִיקְטְלִינְהוּ. אֲזַל עֲקַר טוּרָא בַּר תְּלָתָא פַּרְסֵי וְאַיְיתִי עַל רֵישֵׁיהּ, וְאַיְיתִי קוּדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא עֲלֵיהּ קַמְצֵי וְנַקְבוּהּ, וּנְחֵית בְּצַוְּארֵיהּ.

A pedra (even) que (shebikesh) quis (bikesh) lançar (lizrok) Og, rei (melech) de Bashan, sobre (al) Israel (yisrael), é tradição recebida (gemara gemiri lah) — isto é, este episódio não deriva de um versículo, mas é transmitido oralmente entre os sábios como tradição. Disse (amar): o acampamento (machaneh) de Israel (yisrael) quanto (kama) mede (havei)? — três (telata) parasangas (parsei); irei (eizil) e arrancarei (veeekar) um monte (tura) de (bar) três (telata) parasangas (parsei) e o lançarei (veishdei) sobre eles (alayhu), e os matarei (veiktelinhu) — isto é, Og calculou a extensão exata do acampamento de Israel e planejou arrancar um monte do tamanho equivalente para esmagá-los de uma só vez. Foi (azal), arrancou (akar) um monte (tura) de (bar) três (telata) parasangas (parsei) e o trouxe (veaytí) sobre (al) sua cabeça (reisheih), e o Santo (kudsha), Bendito Seja (brich hu), trouxe (veaytí) sobre ele (aleih) formigas (kamtzei) que (ve) o perfuraram (nakvuh), e desceu (unecheit) o monte ao seu pescoço (betzavreih) — isto é, D-us enviou formigas que perfuraram o monte enquanto Og o carregava, fazendo com que se esburacasse e escorregasse pelo seu pescoço, em vez de atingir Israel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
מחנה ישראל כמה הוי תלתא פרסי – עוג חשב כן בלבו מחנה ישראל תלתא פרסי דכתיב ויחנו מבית הישימות עד אבל השטים ואמר רבה בר בר חנה לדידי חזי לי ההוא דוכתא והוה תלתא פרסי אורכא ותלתא פרסי פותיא: קמצי – נמלים:

"Quanto mede o acampamento de Israel? três parasangas" — Og pensou (chashav) assim (chen) em seu coração (belibo): o acampamento (machaneh) de Israel (yisrael) tem três (telata) parasangas (parsei), pois está escrito (dichtiv): "e acamparam (vayachanu) desde (mibeit) Beit Hayeshimot até (ad) Avel Hashitim" (Bamidbar 33:49), e disse Rabá bar bar Chana: eu mesmo (lididi) vi (chazi li) aquele (hahu) lugar (duchtá), e era (vehavá) três (telata) parasangas (parsei) de comprimento (orcha) e três (telata) parasangas (parsei) de largura (putya) — isto é, Rashi confirma com o testemunho de um sábio a extensão real do acampamento, tal como Og a calculara. "Formigas" — formigas (nemalim).

Nota

O plano de Og de arrancar um monte do tamanho exato do acampamento de Israel para esmagá-lo, e a intervenção divina por meio de formigas que perfuraram o monte, fazendo-o descer ao pescoço de Og em vez de atingir Israel.

5Ele queria retirá-lo, mas seus dentes se estenderam para um lado e para o outro e não conseguiu retirá-lo. E isto é o que está escrito "quebraste os dentes dos ímpios" — e conforme Rabi Shimon ben Lakish, que disse: o que significa "quebraste"? não leias "quebraste" mas "estendeste"
Bavli · 54b — Guemará
הֲוָה בָּעֵי לְמִשְׁלְפֵהּ, מָשְׁכִי שִׁינֵּיהּ לְהַאי גִּיסָא וּלְהַאי גִּיסָא וְלָא מָצֵי לְמִשְׁלְפֵהּ. וְהַיְינוּ דִּכְתִיב: ״שִׁנֵּי רְשָׁעִים שִׁבַּרְתָּ״. וְכִדְרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ. דְּאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: מַאי דִּכְתִיב ״שִׁנֵּי רְשָׁעִים שִׁבַּרְתָּ״ — אַל תִּקְרֵי ״שִׁבַּרְתָּ״ אֶלָּא ״שִׁרְבַּבְתָּ״.

Ele queria (havá baei) retirá-lo (lemishlefeih) — o monte encravado em seu pescoço, mas se estenderam (mashchi) seus dentes (shineih) para este (lehai) lado (gisa) e para aquele (ulehai) lado (gisa) e não (vela) conseguiu (matzei) retirá-lo (lemishlefeih) — isto é, ao tentar puxar o monte para fora com a boca, seus dentes se alongaram descontroladamente para os lados, impedindo-o de se livrar do monte. E isto é (haynu) o que está escrito (dichtiv): "quebraste (shibarta) os dentes (shinei) dos ímpios (reshaim)" (Tehilim 3:8). E conforme (vechid) Rabi Shimon ben Lakish, pois disse (deamar) Rabi Shimon ben Lakish: o que significa (mai) o que está escrito (dichtiv) "quebraste (shibarta) os dentes (shinei) dos ímpios (reshaim)"? Não leias (al tikrei) "quebraste (shibarta)", mas (ela) "estendeste (shirbavta)" — isto é, uma leitura alternativa da mesma raiz consonantal transforma o versículo, entendido tradicionalmente como "quebraste", em referência a este episódio, em que D-us fez os dentes de Og se estenderem descontroladamente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
שרבבת – לשון אשתרבובי אשתרבוב ירדו וגדלו למטה:

"Estendeste" — expressão (lashon) de "se estender (ishtarvuvei), se estendeu (ishtarbuv)" — isto é, descreve o alongamento descontrolado: desceram (yardu) e cresceram (vegadlu) para baixo (lematá).

Nota

Continuação do episódio de Og: seus dentes se estenderam descontroladamente ao tentar retirar o monte, impedido de se libertar — leitura homilética de Rabi Shimon ben Lakish sobre "quebraste os dentes dos ímpios", lido como "estendeste".

6Quanto media Moshé? dez amot. Pegou um machado de dez amot, saltou dez amot, e o feriu no tornozelo, e o matou
Bavli · 54b — Guemará
מֹשֶׁה כַּמָּה הֲוָה — עֶשֶׂר אַמּוֹת, שְׁקֵיל נַרְגָּא בַּר עֲשַׂר אַמִּין, שְׁוַור עֲשַׂר אַמִּין, וּמַחְיֵיהּ בְּקַרְסוּלֵּיהּ וְקַטְלֵיהּ.

Moshé quanto (kama) media (havá)? — dez (eser) amot (amot) — isto é, a Guemará agora relata como Moshé venceu Og, cuja altura era imensa, segundo esta tradição. Pegou (shekeil) um machado (narga) de (bar) dez (asar) amot (amin), saltou (shevor) dez (asar) amot (amin), e o feriu (umachyeih) no seu tornozelo (bekarsuleih) e o matou (vekatleih) — isto é, mesmo com apenas dez amot de altura e um machado do mesmo tamanho, Moshé saltou dez amot no ar para alcançar o tornozelo do gigante Og, o único ponto que conseguia atingir, e assim o abateu.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
משה כמה הוי עשר אמין – שהרי הוא הקים את המשכן ודרשי' הקים את עצמו לקומת המשכן וכתיב ביה עשר אמות אורך הקרש: שוור – קפץ למעלה: בקרסוליה – קבילי"א בלע"ז:

"Quanto media Moshé? dez amot" — pois (shehei) ele (hu) ergueu (hekim) o Tabernáculo (hamishkan), e interpretamos (vedarshinan): "ergueu (hekim)" a si mesmo (et atzmo) na altura (lekomat) do Tabernáculo (hamishkan), e está escrito (uchtiv) a respeito dele (beih): dez (eser) amot (amot) o comprimento (orech) da tábua (hakeresh) (Shemot 36:21) — isto é, uma vez que Moshé pôde erguer sozinho as tábuas do Tabernáculo, que tinham dez amot, conclui-se que sua própria estatura era equivalente. "Saltou" — pulou (kafatz) para cima (lemaalá). "No seu tornozelo" — termo em francês antigo, kevilya, em לעז.

Nota

Como Moshé, de dez amot de altura, feriu Og no tornozelo com um salto de dez amot, valendo-se de um machado igualmente proporcional — a única forma de alcançar o gigante.

7E a pedra sobre a qual Moshé se sentou, pois está escrito "e as mãos de Moshé estavam pesadas, e tomaram uma pedra e a puseram debaixo dele, e ele se sentou sobre ela"
Bavli · 54b — Guemará
וְאֶבֶן שֶׁיָּשַׁב עָלֶיהָ מֹשֶׁה — דִּכְתִיב: ״וִידֵי מֹשֶׁה כְּבֵדִים וַיִּקְחוּ אֶבֶן וַיָּשִׂימוּ תַחְתָּיו וַיֵּשֶׁב עָלֶיהָ״.

E a pedra (even) sobre a qual (sheyashav aleha) se sentou Moshé — pois está escrito (dichtiv): "e as mãos (videi) de Moshé estavam pesadas (kvedim), e tomaram (vayikchu) uma pedra (even) e a puseram (vayasimu) debaixo dele (tachtav), e ele se sentou (vayeshev) sobre ela (aleha)" (Shemot 17:12) — isto é, a fonte bíblica confirma que, na guerra contra Amalek, quando as mãos de Moshé cansaram de permanecer erguidas, Aharon e Chur colocaram uma pedra sob ele para que se sentasse e mantivesse as mãos levantadas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
וידי משה כבדים – ואינו יכול לפושטן כל היום אלא אם כן תומכים בזרועותיו ויקחו אבן וישימו תחתיו:

"E as mãos de Moshé estavam pesadas" — e não (veeino) conseguia (yachol) estendê-las (lefoshtan) o dia (hayom) todo (kol), a menos que (ela im) sustentassem (tomchim) seus braços (bizroav) — isto é, por isso "tomaram uma pedra e a puseram debaixo dele" — para que se sentasse e assim resistisse a manter os braços erguidos por mais tempo.

Nota

A pedra sobre a qual Moshé se sentou durante a guerra contra Amalek, confirmada pelo versículo de Shemot 17:12.

8E a esposa de Lot, pois está dito "e olhou sua esposa por detrás dele, e se tornou uma coluna de sal". E a muralha de Yericho que foi engolida, pois está escrito "e caiu a muralha em seu lugar"
Bavli · 54b — Guemará
וְאִשְׁתּוֹ שֶׁל לוֹט — שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתַּבֵּט אִשְׁתּוֹ מֵאַחֲרָיו וַתְּהִי נְצִיב מֶלַח״. וְחוֹמַת יְרִיחוֹ שֶׁנִּבְלְעָה — דִּכְתִיב: ״וַתִּפֹּל הַחוֹמָה תַּחְתֶּיהָ״.

E a esposa (ishto) de Lot — pois está dito (shenneemar): "e olhou (vatabet) sua esposa (ishto) por detrás dele (meacharav), e se tornou (vatehi) uma coluna (netziv) de sal (melach)" (Bereshit 19:26). E a muralha (chomat) de Yericho que (shenivleá) foi engolida (nivleá) — pois está escrito (dichtiv): "e caiu (vatipol) a muralha (hachomá) em seu lugar (tachteha)" (Yehoshua 6:20) — isto é, as fontes bíblicas para os últimos dois itens da baraita: a transformação da esposa de Lot em coluna de sal, e o desabamento da muralha de Yericho exatamente em seu próprio lugar.

Nota

Fontes bíblicas para os dois últimos itens da baraita: a esposa de Lot (Bereshit 19:26) e a muralha de Yericho (Yehoshua 6:20).

9Está bem quanto a todas elas, que são milagre; mas a esposa de Lot é castigo! — Porque se diz "Bendito … Juiz da verdade"
Bavli · 54b — Guemará
בִּשְׁלָמָא כּוּלְּהוּ — נִיסָּא, אֶלָּא אִשְׁתּוֹ שֶׁל לוֹט פּוּרְעָנוּתָא הוּא! — דְּאָמַר ״בָּרוּךְ … דַּיַּין הָאֱמֶת״.

Está bem (bishlama) quanto a todas elas (kulhu), que são milagre (nisa); mas (ela) a esposa (ishto) de Lot é castigo (puranuta)! — isto é, a Guemará objeta: a baraita afirma que todos esses lugares exigem "agradecimento e louvor", mas a transformação da esposa de Lot em sal foi um castigo divino por sua desobediência, e não um milagre digno de louvor — como incluí-la, então, na mesma lista? — Porque (de) se diz (amar): "Bendito (baruch) … Juiz (dayan) da verdade (haemet)" — isto é, a resposta é que, ao ver o lugar, também se recita uma bênção — mas não a de louvor por um milagre, e sim a bênção reservada para más notícias e para reconhecer a justiça divina, mesmo diante de um castigo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
דאמר ברוך דיין האמת – תירוצא הוא:

"Porque se diz 'Bendito … Juiz da verdade'" — isto é a resposta (teirutza) — isto é, Rashi confirma que essa frase constitui a solução da objeção, não uma nova pergunta.

Nota

Objeção: a esposa de Lot representa um castigo, não um milagre — resolvida com a resposta de que, nesse caso, recita-se a bênção de "Juiz da verdade", reservada para más notícias, e não a bênção de milagre.

10Mas não se ensinou "agradecimento e louvor"?! Ensine: sobre Lot e sobre sua esposa abençoam-se duas bênçãos. Sobre sua esposa diz "Juiz da verdade", e sobre Lot diz "que se lembra dos justos". Disse Rabi Yochanan: mesmo na hora da ira do Santo, Bendito Seja, Ele se lembra dos justos, pois está dito "e sucedeu que, ao destruir D'us as cidades da planície, D'us se lembrou de Avraham, e enviou a Lot do meio da destruição etc."
Bavli · 54b — Guemará
וְהָא ״הוֹדָאָה וָשֶׁבַח״ קָתָנֵי! תְּנִי: עַל לוֹט וְעַל אִשְׁתּוֹ מְבָרְכִים שְׁתַּיִם. עַל אִשְׁתּוֹ אוֹמֵר ״בָּרוּךְ … דַּיַּין הָאֱמֶת״, וְעַל לוֹט אוֹמֵר ״בָּרוּךְ … זוֹכֵר אֶת הַצַּדִּיקִים״. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֲפִילּוּ בִּשְׁעַת כַּעֲסוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, זוֹכֵר אֶת הַצַּדִּיקִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בְּשַׁחֵת אֱלֹהִים אֶת עָרֵי הַכִּכָּר וַיִּזְכֹּר אֱלֹהִים אֶת אַבְרָהָם וַיְשַׁלַּח אֶת לוֹט מִתּוֹךְ הַהֲפֵכָה וְגוֹ׳״.

Mas não (veha) se ensinou (katanei) "agradecimento (hodaá) e louvor (vashevach)"?! — isto é, a Guemará insiste: a baraita fala de "agradecimento e louvor" para todos os itens da lista, uma expressão que não parece compatível com uma bênção de "Juiz da verdade" diante de um castigo. Ensine (teni): sobre (al) Lot e sobre (veal) sua esposa (ishto) abençoam-se (mevarchim) duas (shtayim) bênçãos — isto é, a Guemará emenda o texto da baraita: na verdade, dizem-se duas bênçãos distintas, uma para cada um dos dois. Sobre (al) sua esposa (ishto) diz (omer) "Bendito (baruch) … Juiz (dayan) da verdade (haemet)", e sobre (veal) Lot diz (omer) "Bendito (baruch) … que se lembra (zocher) dos justos (hatzadikim)" — isto é, a bênção sobre Lot, que foi salvo, é de louvor — "agradecimento e louvor" —, ao passo que sobre sua esposa recita-se a bênção de "Juiz da verdade". Disse (amar) Rabi Yochanan: mesmo (afilu) na hora (bishaat) da ira (kaaso) do Santo (hakadosh), Bendito Seja (baruch hu), Ele se lembra (zocher) dos justos (hatzadikim), pois está dito (shenneemar): "e sucedeu (vayehi) que, ao destruir (beshachet) D'us (Elohim) as cidades (arei) da planície (hakikar), D'us (Elohim) se lembrou (vayizkor) de Avraham, e enviou (vayeshalach) Lot do meio (mitoch) da destruição (hahafechá) etc." (Bereshit 19:29) — isto é, Rabi Yochanan extrai deste versículo o princípio geral de que o mérito de um justo (Avraham) pode salvar outra pessoa (Lot) mesmo no auge da ira divina contra os ímpios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
זוכר את הצדיקים – שזכר את אברהם:

"Que se lembra dos justos" — que (she) Se lembrou (zachar) de Avraham — isto é, Rashi esclarece que a bênção sobre Lot celebra, na verdade, o mérito de Avraham, por cuja lembrança Lot foi salvo.

Nota

Emenda da baraita: recitam-se duas bênçãos distintas, "Juiz da verdade" sobre a esposa de Lot e "que se lembra dos justos" sobre Lot mesmo — e o ensinamento de Rabi Yochanan de que D'us lembra dos justos mesmo em Sua ira, salvando Lot por mérito de Avraham.

11E a muralha de Yericho que foi engolida — mas acaso a muralha de Yericho foi engolida? Não caiu ela, pois está dito "e sucedeu que, ao ouvir o povo o som do shofar, e o povo gritou com grande grito, e caiu a muralha em seu lugar"?! — Uma vez que sua largura e sua altura eram iguais, por isso foi engolida em sua queda
Bavli · 54b — Guemará
וְחוֹמַת יְרִיחוֹ שֶׁנִּבְלְעָה. וְחוֹמַת יְרִיחוֹ נִבְלְעָה? וְהָא נָפְלָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי כִשְׁמֹעַ הָעָם אֶת קוֹל הַשּׁוֹפָר וַיָּרִיעוּ הָעָם תְּרוּעָה גְדוֹלָה וַתִּפֹּל הַחוֹמָה תַּחְתֶּיהָ״! — כֵּיוָן דְּפוּתְיַהּ וְרוּמַהּ כִּי הֲדָדֵי נִינְהוּ, מִשּׁוּם הָכִי אִבַּלְעָה בְּלוֹעֵי.

E a muralha (chomat) de Yericho que (shenivleá) foi engolida (nivleá). Mas a muralha (chomat) de Yericho foi engolida (nivleá)? E não (veha) caiu (naflá) ela, pois está dito (shenneemar): "e sucedeu (vayehi) que, ao ouvir (chishmoa) o povo (haam) o som (kol) do shofar (hashofar), e o povo (haam) gritou (vayariu) com grande (gdolá) grito (teruá), e caiu (vatipol) a muralha (hachomá) em seu lugar (tachteha)" (Yehoshua 6:20)?! — isto é, a Guemará questiona a própria formulação da baraita: o versículo fala em "caiu", não em "foi engolida" — por que então a baraita usou essa expressão? — Uma vez que (keivan) sua largura (putyah) e sua altura (rumah) eram (ninhu) iguais (ki hadadei), por isso (mishum hachi) foi engolida (ibalá) em sua queda (beloei) — isto é, como a muralha era tão alta quanto larga, ao cair não se estendeu para os lados como normalmente ocorreria, mas afundou verticalmente no próprio lugar, dando a impressão de ter sido "engolida" pelo chão, em vez de simplesmente desabar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
כיון דפותיה ורומה כי הדדי הוו – ואין נפילה ניכרת בה אם לא נבלעה משום הכי אבלעה והוא דרך נפילה לחומה כזו:

"Uma vez que sua largura e sua altura eram iguais" — e não (veein) há queda (nefilá) reconhecível (nikeret) nela (bah) se não (im lo) foi engolida (nivleá), por isso (mishum hachi) foi engolida (ibalá), e essa é (vehu) a maneira (derech) de cair (nefilá) para uma muralha (lechomá) como esta (kazo) — isto é, uma muralha tão alta quanto larga, ao cair, necessariamente afunda em si mesma, pois não há espaço lateral suficiente para se estender ao redor.

Nota

Explicação de por que a muralha de Yericho é chamada de "engolida": sendo sua largura igual à sua altura, ela não podia simplesmente tombar para o lado, e por isso afundou verticalmente em seu próprio lugar.

12Disse Rav Yehuda em nome de Rav: quatro precisam agradecer: os que descem ao mar, os que andam pelos desertos, e aquele que estava doente e se curou, e aquele que estava preso na casa dos prisioneiros e saiu
Bavli · 54b — Guemará
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: אַרְבָּעָה צְרִיכִין לְהוֹדוֹת: יוֹרְדֵי הַיָּם, הוֹלְכֵי מִדְבָּרוֹת, וּמִי שֶׁהָיָה חוֹלֶה וְנִתְרַפֵּא, וּמִי שֶׁהָיָה חָבוּשׁ בְּבֵית הָאֲסוּרִים וְיָצָא.

Disse (amar) Rav Yehuda em nome de (amar) Rav: quatro (arbaá) precisam (tzrichin) agradecer (lehodot) — isto é, a Guemará passa a um novo ensinamento, sobre quatro categorias de pessoas obrigadas a recitar uma bênção específica de agradecimento por terem escapado de perigo: os que descem (yordei) ao mar (hayam), os que andam (holchei) pelos desertos (midbarot), e aquele que (umi she) estava (hayá) doente (choleh) e se curou (venitrapé), e aquele que (umi she) estava (hayá) preso (chavush) na casa (beit) dos prisioneiros (haasurim) e saiu (veyatzá) — isto é, quatro situações de perigo superado que exigem uma bênção pública de gratidão: a travessia marítima, a travessia do deserto, a cura de doença grave, e a libertação da prisão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
צריכין להודות – כשיוצאין מן הסכנה:

"Precisam agradecer" — quando (kesheyotzin) saem (yotzin) do perigo (min hasakaná) — isto é, Rashi resume o denominador comum das quatro categorias: todas envolvem a superação de um risco real à vida.

Nota

Novo ensinamento de Rav Yehuda em nome de Rav: quatro categorias de pessoas que, ao escaparem do perigo, precisam recitar uma bênção pública de agradecimento — navegantes, viajantes do deserto, doentes curados e presos libertados.

13Os que descem ao mar, de onde os temos? Pois está escrito "os que descem ao mar em navios etc., estes viram as obras do Eterno"; e diz "e Ele fez levantar um vento tempestuoso, que subia aos céus, descia aos abismos"; e diz "rodopiavam e cambaleavam como um bêbado"; e diz "e clamaram ao Eterno em sua angústia, e de suas aflições os tirou"; e diz "fez calar a tempestade em silêncio"; e diz "e se alegraram porque se acalmaram"; e diz "agradeçam ao Eterno Sua bondade e Suas maravilhas para com os filhos do homem"
Bavli · 54b — Guemará
יוֹרְדֵי הַיָּם מְנָלַן? — דִּכְתִיב: ״יוֹרְדֵי הַיָּם בָּאֳנִיּוֹת וְגוֹ׳ הֵמָּה רָאוּ מַעֲשֵׂי ה׳״. וְאוֹמֵר: ״וַיַּעֲמֵד רוּחַ סְעָרָה יַעֲלוּ שָׁמַיִם יֵרְדוּ תְהוֹמוֹת״, וְאוֹמֵר: ״יָחוֹגּוּ וְיָנוּעוּ כַּשִּׁכּוֹר״, וְאוֹמֵר: ״וַיִּצְעֲקוּ אֶל ה׳ בַּצַּר לָהֶם וּמִמְּצוּקֹתֵיהֶם יוֹצִיאֵם״, וְאוֹמֵר: ״יָקֵם סְעָרָה לִדְמָמָה״, וְאוֹמֵר: ״וַיִּשְׂמְחוּ כִי יִשְׁתֹּקוּ״, וְאוֹמֵר: ״יוֹדוּ לַה׳ חַסְדּוֹ וְנִפְלְאוֹתָיו לִבְנֵי אָדָם״.

Os que descem (yordei) ao mar (hayam), de onde (mnalan) os temos (mnalan)? — pois está escrito (dichtiv): "os que descem (yordei) ao mar (hayam) em navios (baaniyot) etc., estes (hemá) viram (rau) as obras (maasei) do Eterno (Hashem)" (Tehilim 107:23-24). E diz (veomer): "e Ele fez levantar (vayaamed) um vento (ruach) tempestuoso (seará), que subia (yaalu) aos céus (shamayim), descia (yerdu) aos abismos (tehomot)" (Tehilim 107:25-26); e diz (veomer): "rodopiavam (yachogu) e cambaleavam (veyanuu) como um bêbado (kashikor)" (Tehilim 107:27); e diz (veomer): "e clamaram (vayitzaku) ao Eterno (Hashem) em sua angústia (batzar lahem), e de suas aflições (umimtzukoteihem) os tirou (yotziem)" (Tehilim 107:28); e diz (veomer): "fez calar (yakem) a tempestade (seará) em silêncio (lidmamá)" (Tehilim 107:29); e diz (veomer): "e se alegraram (vayismechu) porque (ki) se acalmaram (yishtoku)" (Tehilim 107:30); e diz (veomer): "agradeçam (yodu) ao Eterno (la Hashem) Sua bondade (chasdo) e Suas maravilhas (veniflotav) para com os filhos (livnei) do homem (adam)" (Tehilim 107:31) — isto é, toda a passagem do Salmo 107 é citada, versículo a versículo, descrevendo o perigo dos navegantes em alto-mar e sua salvação, culminando no refrão de agradecimento repetido no salmo.

Nota

Fonte bíblica para a obrigação dos navegantes de agradecer: a passagem completa do Salmo 107 (versículos 23 a 31), que descreve o perigo da tempestade no mar e a salvação, culminando no refrão de gratidão.

14Os que andam pelos desertos, de onde os temos? Pois está escrito "erraram no deserto, em terra deserta, caminho de cidade habitada não encontraram... e clamaram ao Eterno... e os guiou por caminho reto... agradeçam ao Eterno Sua bondade"
Bavli · 54b — Guemará
הוֹלְכֵי מִדְבָּרוֹת מְנָלַן? דִּכְתִיב: ״תָּעוּ בַמִּדְבָּר בִּישִׁימוֹן דָּרֶךְ עִיר מוֹשָׁב לֹא מָצָאוּ … וַיִּצְעֲקוּ אֶל ה׳ … וַיַּדְרִיכֵם בְּדֶרֶךְ יְשָׁרָה … יוֹדוּ לַה׳ חַסְדּוֹ״.

Os que andam (holchei) pelos desertos (midbarot), de onde (mnalan) os temos (mnalan)? Pois está escrito (dichtiv): "erraram (taú) no deserto (bamidbar), em terra deserta (bishimon), caminho (derech) de cidade (ir) habitada (moshav) não (lo) encontraram (matzau) … e clamaram (vayitzaku) ao Eterno (Hashem) … e os guiou (vayadrichem) por caminho (bederech) reto (yeshará) … agradeçam (yodu) ao Eterno (la Hashem) Sua bondade (chasdo)" (Tehilim 107:4-8) — isto é, o mesmo salmo fornece, em sua abertura, a descrição do perigo de se perder no deserto e o refrão idêntico de gratidão, servindo de fonte para a segunda categoria.

Nota

Fonte bíblica para os viajantes do deserto: a abertura do Salmo 107 (versículos 4 a 8), com o mesmo refrão de agradecimento.

15Aquele que estava doente e se curou, pois está escrito "os insensatos, por causa de seu caminho de transgressão e por causa de suas iniquidades se afligiam. Toda comida sua alma abominava etc., e clamaram ao Eterno em sua angústia... enviará Sua palavra e os curará etc., agradeçam ao Eterno Sua bondade"
Bavli · 54b — Guemará
מִי שֶׁחָלָה וְנִתְרַפֵּא, דִּכְתִיב: ״אֱוִילִים מִדֶּרֶךְ פִּשְׁעָם וּמֵעֲוֹנֹתֵיהֶם יִתְעַנּוּ. כׇּל אֹכֶל תְּתַעֵב נַפְשָׁם וְגוֹ׳ וַיִּזְעֲקוּ אֶל ה׳ בַּצַּר לָהֶם וְגוֹ׳ יִשְׁלַח דְּבָרוֹ וְיִרְפָּאֵם וְגוֹ׳ יוֹדוּ לַה׳ חַסְדּוֹ״.

Aquele que (mi she) estava doente (chalá) e se curou (venitrapé), pois está escrito (dichtiv): "os insensatos (evilim), por causa de (miderech) seu caminho (darkam) de transgressão (pisham) e por causa de (umeavonoteihem) suas iniquidades (avonoteihem) se afligiam (yitanu). Toda (kol) comida (ochel) sua alma (nafshám) abominava (tetaev) etc., e clamaram (vayizaku) ao Eterno (Hashem) em sua angústia (batzar lahem) etc.; enviará (yishlach) Sua palavra (devaro) e os curará (veyirpaem) etc.; agradeçam (yodu) ao Eterno (la Hashem) Sua bondade (chasdo)" (Tehilim 107:17-21) — isto é, o mesmo salmo descreve o sofrimento do doente que perdeu o apetite por causa de seus pecados, sua súplica e cura miraculosa "por meio da palavra" divina, seguida do mesmo refrão de agradecimento.

Nota

Fonte bíblica para o doente curado: Tehilim 107:17-21, descrevendo o sofrimento por transgressão, a súplica e a cura miraculosa, com o mesmo refrão de gratidão.

16Aquele que estava preso na casa dos prisioneiros, de onde o temos? Pois está escrito "os que habitam em trevas e sombra da morte etc., pois se rebelaram contra as palavras de D'us etc."; e diz "e Ele humilhou com trabalho penoso seu coração etc."; e diz "e clamaram ao Eterno em sua angústia"; e diz "os tirará das trevas e da sombra da morte etc."; e diz "agradeçam ao Eterno Sua bondade"
Bavli · 54b — Guemará
מִי שֶׁהָיָה חָבוּשׁ בְּבֵית הָאֲסוּרִין מְנָלַן? — דִּכְתִיב: ״יֹשְׁבֵי חֹשֶׁךְ וְצַלְמָוֶת וְגוֹ׳ כִּי הִמְרוּ אִמְרֵי אֵל וְגוֹ׳״. וְאוֹמֵר: ״וַיַּכְנַע בֶּעָמָל לִבָּם וְגוֹ׳״, וְאוֹמֵר: ״וַיִּזְעֲקוּ אֶל ה׳ בַּצַּר לָהֶם״, וְאוֹמֵר: ״יוֹצִיאֵם מֵחֹשֶׁךְ וְצַלְמָוֶת וְגוֹ׳״, וְאוֹמֵר: ״יוֹדוּ לַה׳ חַסְדּוֹ״.

Aquele que (mi she) estava preso (chavush) na casa (beit) dos prisioneiros (haasurin), de onde (mnalan) o temos (mnalan)? — pois está escrito (dichtiv): "os que habitam (yoshvei) em trevas (choshech) e sombra da morte (tzalmavet) etc., pois (ki) se rebelaram (himru) contra as palavras (imrei) de D'us (el) etc." (Tehilim 107:10-11); e diz (veomer): "e Ele humilhou (vayachna) com trabalho penoso (beamal) seu coração (libam) etc." (Tehilim 107:12); e diz (veomer): "e clamaram (vayizaku) ao Eterno (Hashem) em sua angústia (batzar lahem)" (Tehilim 107:13); e diz (veomer): "os tirará (yotziem) das trevas (mechoshech) e da sombra da morte (vetzalmavet) etc." (Tehilim 107:14); e diz (veomer): "agradeçam (yodu) ao Eterno (la Hashem) Sua bondade (chasdo)" (Tehilim 107:15) — isto é, a quarta seção do mesmo salmo descreve o cativeiro dos que se rebelaram contra D'us, sua súplica na prisão e sua libertação miraculosa, novamente seguida do refrão idêntico.

Nota

Fonte bíblica para o preso libertado: Tehilim 107:10-15, quarta e última das quatro seções paralelas do salmo que fundamentam as quatro categorias de Rav Yehuda.

17O que se abençoa? Disse Rav Yehuda: "Bendito, Que Concede boas graças". Abaie disse: e precisa agradecer diante de dez, pois está escrito "e O exaltem na assembleia do povo". Mar Zutra disse: e dois deles devem ser sábios, pois está dito "e no assento dos anciãos O louvem"
Bavli · 54b — Guemará
מַאי מְבָרֵךְ? אָמַר רַב יְהוּדָה: ״בָּרוּךְ גּוֹמֵל חֲסָדִים טוֹבִים״. אַבָּיֵי אָמַר: וְצָרִיךְ לְאוֹדוֹיֵי קַמֵּי עַשְׂרָה, דִּכְתִיב: ״וִירוֹמְמוּהוּ בִּקְהַל עָם וְגוֹ׳״. מָר זוּטְרָא אָמַר: וּתְרֵין מִינַּיְיהוּ רַבָּנַן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְמוֹשַׁב זְקֵנִים יְהַלְלוּהוּ״.

O que (mai) se abençoa (mevarech)? — isto é, a Guemará pergunta agora qual é a fórmula exata dessa bênção de agradecimento. Disse (amar) Rav Yehuda: "Bendito (baruch), Que Concede (gomel) boas graças (chasadim tovim)" — a fórmula que se tornou conhecida como Birkat HaGomel. Abaie disse (amar): e precisa (vetzarich) agradecer (leodoyei) diante de (kamei) dez (asará), pois está escrito (dichtiv): "e O exaltem (viromemuhu) na assembleia (bikhal) do povo (am) etc." (Tehilim 107:32) — isto é, Abaie deriva do próprio salmo, em seu versículo de conclusão, a exigência de que essa bênção seja recitada perante um quórum, identificado como dez pessoas, o mínimo que a tradição chama de "assembleia". Mar Zutra disse (amar): e dois (utrein) deles (minayhu) devem ser sábios (rabanan), pois está dito (shenneemar): "e no assento (uvemoshav) dos anciãos (zekenim) O louvem (yehaleluhu)" (Tehilim 107:32) — isto é, Mar Zutra acrescenta, a partir da segunda metade do mesmo versículo, que entre os dez ao menos dois devem ser sábios versados na Torá, equiparados aos "anciãos".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
וירוממוהו בקהל עם – בסוף פרשת המזמור:

"E O exaltem na assembleia do povo" — no final (besof) da seção (parashat) do salmo (hamizmor) — isto é, Rashi localiza a citação, indicando que se trata do versículo final do mesmo Salmo 107 já citado repetidamente.

Nota

A fórmula da bênção de agradecimento (Birkat HaGomel), segundo Rav Yehuda: "Bendito, Que Concede boas graças" — e as exigências adicionais de Abaie (recitar diante de dez) e Mar Zutra (dois dos dez devem ser sábios), ambas derivadas do versículo de conclusão do Salmo 107.

18Objetou Rav Ashi: e diga-se que todos sejam sábios?! — Acaso está escrito "na assembleia dos anciãos"? "Na assembleia do povo" está escrito. E diga-se: dez do resto do povo, e dois sábios! É difícil
Bavli · 54b — Guemará
מַתְקֵיף לַהּ רַב אָשֵׁי: וְאֵימָא כּוּלְּהוּ רַבָּנַן?! — מִי כְּתִיב ״בִּקְהַל זְקֵנִים״? ״בִּקְהַל עָם״ כְּתִיב. וְאֵימָא בֵּי עַשְׂרָה שְׁאָר עַמָּא, וּתְרֵי רַבָּנַן! קַשְׁיָא.

Objetou (matkif lah) Rav Ashi: e diga-se (veeimá) que todos (kulhu) sejam sábios (rabanan)?! — isto é, Rav Ashi questiona a leitura de Mar Zutra: por que apenas dois entre os dez devem ser sábios, e não a exigência de que todos os dez sejam sábios? — Acaso (mi) está escrito (ktiv) "na assembleia (bikhal) dos anciãos (zekenim)"? "Na assembleia (bikhal) do povo (am)" está escrito (ktiv) — isto é, a resposta: o primeiro versículo fala explicitamente em "povo", não em "anciãos", de modo que a maioria do quórum deve ser composta de povo comum, e apenas o segundo versículo acrescenta a exigência de "anciãos". E diga-se (veeimá): dez (bei asará) do resto (shear) do povo (amá), e dois (utrei) sábios (rabanan) — somando doze ao todo — isto é, a Guemará propõe uma nova objeção: por que não exigir dez pessoas do povo comum além dos dois sábios, totalizando doze, em vez de apenas dez ao todo? É difícil (kashya) — isto é, a Guemará conclui que essa dificuldade permanece sem resposta satisfatória.

Nota

Objeção de Rav Ashi sobre por que apenas dois dos dez precisam ser sábios, resolvida pela distinção entre os dois versículos do Salmo 107:32 — mas uma segunda dificuldade, sobre o número exato de participantes, permanece sem solução ("kashya").

19Rav Yehuda adoeceu e se curou. Foi visitá-lo Rav Chana de Bagdá e os sábios. Disseram-lhe: Bendito o Misericordioso que te deu a nós e não te deu ao pó. Disse-lhes: vocês me dispensaram de agradecer
Bavli · 54b — Guemará
רַב יְהוּדָה חֲלַשׁ וְאִתְּפַח. עָל לְגַבֵּיהּ רַב חָנָא בַּגְדָּתָאָה וְרַבָּנַן. אָמְרִי לֵיהּ: ״בְּרִיךְ רַחֲמָנָא דְּיַהֲבָךְ נִיהֲלַן וְלָא יַהֲבָךְ לְעַפְרָא״. אֲמַר לְהוּ: פְּטַרְתּוּן יָתִי מִלְּאוֹדוֹיֵי.

Rav Yehuda adoeceu (chalash) e se curou (veitpach). Foi (al) visitá-lo (legabeih) Rav Chana de Bagdá e os sábios (vrabanan) — isto é, um caso concreto que ilustra a lei recém-ensinada. Disseram-lhe (amri leih): "Bendito (brich) o Misericordioso (rachamana) que (de) te deu (yahavach) a nós (nihalan) e não (vela) te deu (yahavach) ao pó (leafra)" — isto é, os visitantes recitaram uma bênção de gratidão por Rav Yehuda ter se recuperado e não ter falecido. Disse-lhes (amar lehu): vocês me dispensaram (petartun yati) de agradecer (millodoyei) — isto é, Rav Yehuda entendeu que a bênção pronunciada por seus visitantes já cumpria, em seu nome, a obrigação de agradecer publicamente pela cura.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
ואתפח – נתרפא: בגדתאה – שם עירו בגדד היא עיר החשובה שבבבל משחרבה בבל:

"E se curou" — se curou (nitrapé). "De Bagdá" — nome (shem) de sua cidade (iro), Bagdá, que é (hi) a cidade (ir) importante (hachashuvá) da Babilônia (shebbavel) desde que (mishe) foi destruída (charvá) Bavel — isto é, Rashi identifica Bagdá como a cidade que se tornou o centro babilônico após a decadência da antiga Bavel.

Nota

Caso concreto: Rav Yehuda, curado de uma doença, recebeu a visita de Rav Chana de Bagdá e outros sábios, que o abençoaram — e ele considerou essa bênção suficiente para dispensá-lo de agradecer separadamente.

20Mas não disse Abaie que se precisa agradecer diante de dez?! — Porque eram dez. Mas ele mesmo não agradeceu! — Não é necessário, pois respondeu depois deles "amém"
Bavli · 54b — Guemará
וְהָא אָמַר אַבָּיֵי בָּעֵי אוֹדוֹיֵי בְּאַפֵּי עַשְׂרָה! — דַּהֲווֹ בֵּי עַשְׂרָה. וְהָא אִיהוּ לָא קָא מוֹדֵה! — לָא צְרִיךְ, דְּעָנֵי בָּתְרַיְיהוּ ״אָמֵן״.

Mas não (veha) disse (amar) Abaie que se precisa (baei) agradecer (odoyei) diante de (beapei) dez (asará)?! — isto é, a Guemará questiona: como ele foi dispensado, se estavam presentes apenas Rav Chana e "os sábios", sem se afirmar explicitamente que eram dez? — Porque (de) eram (havu) dez (bei asará) — isto é, a resposta é que, de fato, o grupo reunido totalizava dez pessoas, cumprindo o requisito de Abaie. Mas (veha) ele mesmo (ihu) não (la) agradeceu (ka modeh)! — isto é, nova objeção: mesmo que houvesse dez presentes, foi a bênção deles que foi recitada, e não a de Rav Yehuda — como isso pode substituir sua própria obrigação de agradecer? — Não (la) é necessário (tzarich), pois (de) respondeu (anei) depois deles (batrayhu) "amém (amen)" — isto é, a resposta final: ao responder "amém" à bênção pronunciada por seus visitantes, Rav Yehuda já cumpriu sua própria obrigação, pois responder amém equivale a proferir a bênção.

Nota

Dupla objeção resolvida: o grupo de visitantes já totalizava dez, cumprindo a exigência de Abaie; e Rav Yehuda cumpriu sua própria obrigação de agradecer ao responder "amém" à bênção deles.

21Disse Rav Yehuda: três precisam de proteção, e estes são: doente, noivo e noiva. Numa baraita ensinou-se: doente, parturiente, noivo e noiva. E há quem diga: também o enlutado. E há quem diga: também os estudiosos da Torá à noite
Bavli · 54b — Guemará
אָמַר רַב יְהוּדָה: שְׁלֹשָׁה צְרִיכִין שִׁימּוּר, וְאֵלּוּ הֵן — חוֹלֶה, חָתָן, וְכַלָּה. בְּמַתְנִיתָא תָּנָא: חוֹלֶה, חַיָּה, חָתָן, וְכַלָּה. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: אַף אָבֵל. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: אַף תַּלְמִידֵי חֲכָמִים בַּלַּיְלָה.

Disse (amar) Rav Yehuda: três (shloshá) precisam (tzrichin) de proteção (shimur) — isto é, contra os espíritos nocivos, segundo Rashi, e estes (veelu) são (hen) — doente (choleh), noivo (chatan), e noiva (vechalá). Numa baraita (bematnita) ensinou-se (taná): doente (choleh), parturiente (chayá), noivo (chatan), e noiva (vechalá) — isto é, a baraita acrescenta uma quarta categoria à lista de Rav Yehuda, a mulher que acabou de dar à luz. E há quem diga (veyesh omrim): também (af) o enlutado (avel). E há quem diga (veyesh omrim): também (af) os estudiosos (talmidei) de Torá (chachamim) à noite (balaylá) — isto é, duas opiniões adicionais estendem ainda mais a lista, incluindo o enlutado e os sábios que estudam Torá durante a noite.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
שימור – מן המזיקין: חולה – שהורע מזלו לפיכך השד מתגרה בו וכן חיה אשה שילדה וכן אבל: חתן וכלה ותלמידי חכמים – מקנאתו מתגרה בהם:

"Proteção" — dos espíritos nocivos (min hamazikin) — isto é, Rashi esclarece de que perigo trata esta lei: não de riscos físicos comuns, mas de forças espirituais malignas. "Doente" — porque (shehoraá) sua sorte (mazalo) piorou (horaá), por isso (lefichach) o demônio (hashed) se instiga (mitgareh) contra ele (bo), e assim também (vechen) a parturiente (chayá), mulher (ishá) que (sheyaldá) deu à luz (yaldá), e assim também (vechen) o enlutado (avel) — isto é, todos esses estados compartilham uma vulnerabilidade espiritual que atrai forças nocivas. "Noivo e noiva, e os estudiosos da Torá" — por causa de (mikinato) sua inveja (kinato) — do demônio, se instiga (mitgareh) contra eles (bahem) — isto é, nesses casos o perigo não vem de uma fraqueza, mas do ciúme que o próprio bem-estar ou distinção espiritual dessas pessoas desperta nas forças malignas.

Nota

Ensinamento de Rav Yehuda sobre os que precisam de proteção especial contra forças nocivas: doente, noivo e noiva, ampliado por uma baraita para incluir a parturiente, e por outras opiniões para incluir o enlutado e os estudiosos de Torá à noite.

22E disse Rav Yehuda: três coisas — quem se demora nelas, prolonga os dias e os anos do homem: quem se demora em sua oração, e quem se demora à sua mesa, e quem se demora na casa do banheiro
Bavli · 54b — Guemará
וְאָמַר רַב יְהוּדָה: שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים הַמַּאֲרִיךְ בָּהֶן מַאֲרִיכִין יָמָיו וּשְׁנוֹתָיו שֶׁל אָדָם. הַמַּאֲרִיךְ בִּתְפִלָּתוֹ, וְהַמַּאֲרִיךְ עַל שֻׁלְחָנוֹ, וְהַמַּאֲרִיךְ בְּבֵית הַכִּסֵּא.

E disse (veamar) Rav Yehuda: três (shloshá) coisas (devarim) — quem se demora (hamaarich) nelas (bahen), prolonga (maarichin) os dias (yamav) e os anos (ushnotav) do homem (shel adam) — isto é, um novo ensinamento de Rav Yehuda sobre três hábitos que trazem longevidade. Quem se demora (hamaarich) em sua oração (bitfilato), e quem se demora (vehamaarich) à sua mesa (al shulchano), e quem se demora (vehamaarich) na casa (beit) do banheiro (hakiseh) — isto é, os três hábitos específicos: prolongar a oração, prolongar a refeição à mesa (permitindo que os pobres se beneficiem), e demorar-se no banheiro (o que Rashi identificará adiante como benéfico à saúde).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54b
והמאריך על שלחנו – שמתוך כך עניים באין ומתפרנסים: והמאריך בבית הכסא – רפואה היא לו:

"E quem se demora à sua mesa" — pois (shemitoch) assim (kach) pobres (aniyim) vêm (baim) e se sustentam (umitparnesim) — isto é, prolongar a refeição dá tempo e oportunidade para que os pobres cheguem e recebam alimento da mesa do anfitrião. "E quem se demora na casa do banheiro" — é remédio (refuá) para ele (lo) — isto é, Rashi explica o benefício do terceiro hábito em termos de saúde física, sem se demorar em vão, mas permitindo que o corpo se esvazie completamente.

Nota

Terceiro ensinamento de Rav Yehuda: três hábitos que prolongam a vida — demorar-se na oração, à mesa (em benefício dos pobres) e no banheiro (por razões de saúde).

23Mas demorar-se em sua oração é qualidade louvável? E não disse Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan...
Bavli · 54b — Guemará
וְהַמַּאֲרִיךְ בִּתְפִלָּתוֹ מְעַלְּיוּתָא הִיא? וְהָאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן:

Mas demorar-se (hamaarich) em sua oração (bitfilato) é qualidade louvável (mealyuta)? — isto é, a Guemará abre uma objeção ao terceiro item recém-ensinado: será mesmo elogiável prolongar a oração, ou isso poderia sugerir falta de confiança em ser ouvido logo, ou até insinceridade? E não (veha) disse (amar) Rabi Chiya bar Abba em nome de (amar) Rabi Yochanan: — a Guemará começa a citar um ensinamento que parecerá contradizer a afirmação de Rav Yehuda, mas a citação e sua resolução prosseguem apenas no início do próximo daf, 55a.

Nota

O daf se encerra com a objeção em aberto sobre se demorar-se na oração é de fato louvável — a citação de Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan, que parece contradizer o ensinamento de Rav Yehuda, e sua resolução, prosseguem apenas em 55a.