Encerrado o Perek Elu Devarim em 53b com o hadran, o tratado abre aqui o nono perek, "HaRoeh" ("Aquele que vê"), com uma longa Mishná que reúne as bênçãos devidas diante de lugares e fenômenos notáveis: quem vê um lugar onde se fizeram milagres para Israel, ou de onde foi erradicada a idolatria; as bênçãos sobre meteoros, terremotos, trovões, ventos e relâmpagos, e sobre montes, colinas, mares, rios e desertos — com Rabi Yehuda acrescentando uma bênção especial para quem vê o mar Mediterrâneo esporadicamente; as bênçãos sobre a chuva e sobre boas notícias ("o Bom e o Que Faz o Bem"), e sobre más notícias ("o Juiz da Verdade"); a bênção de "sheHecheyanu" ao construir casa nova ou adquirir utensílios novos; o princípio de abençoar pelo mal como se abençoa pelo bem, e vice-versa; a advertência contra a súplica vã sobre o já ocorrido, incluindo o caso de rezar pelo sexo do filho já formado no ventre; a lei de quem entra numa cidade grande, com duas orações (ou quatro, segundo Ben Azai); o dever de abençoar pelo mal como pelo bem, fundamentado em "amarás ao Eterno teu D'us com todo o teu coração" — interpretado como os dois impulsos, toda a tua alma e todos os teus bens; as leis de respeito ao Monte do Templo — não tratar com leviandade diante do portão oriental, não entrar com bastão, sapatos, bolsa ou poeira nos pés, nem usá-lo como atalho, e menos ainda cuspir nele; a mudança na fórmula das bênçãos no Templo, de "até o mundo" para "de mundo a mundo" por causa dos hereges que negavam a ressurreição; e a instituição de saudar o próximo com o Nome Divino, ilustrada com o exemplo de Boaz e os ceifeiros. A Guemará então investiga a fonte bíblica da bênção sobre o milagre, citando a bênção de Yitro, e discute se ela vale só para milagres coletivos ou também individuais — trazendo o caso de um homem salvo de um leão além do Jordão, por instrução de Rava, e três episódios do genro de Ravina, salvo da sede no vale de Aravot, de um camelo enlouquecido e de uma muralha que se abriu para abrigá-lo — concluindo que todos devem abençoar pelo milagre coletivo, mas o milagre individual obriga apenas quem o viveu. O daf termina iniciando a baraita sobre os lugares que exigem agradecimento — as passagens do Mar, do Jordão e dos ribeiros de Arnon —, com a fonte bíblica das duas primeiras e o início da explicação da terceira, envolvendo os dois leprosos "Vahev" e "Suf".
Abre-se aqui o Perek Tet, "HaRoeh" — "Aquele que vê" —, o nono perek de Massechet Berachot, dedicado às bênçãos recitadas diante de milagres, fenômenos naturais extraordinários, lugares notáveis da história de Israel e ocasiões marcantes da vida pessoal.
Mishná (matni): aquele que vê (haroeh) lugar (makom) onde (she) se fizeram (naasu) nele (bo) milagres (nissim) para Israel (leisrael), diz (omer): "Bendito (baruch) … que fez (sheasá) milagres (nissim) a nossos pais (laavoteinu) neste lugar (bamakom hazé)" — isto é, a Mishná abre o novo perek fixando uma bênção específica para quem, ao visitar um lugar da terra de Israel, reconhece que ali ocorreu um milagre histórico em favor de Israel. Lugar (makom) de onde (she) foi erradicada (neekrá) dele (mimeno) idolatria (avodá zará), diz (omer): "Bendito (baruch) … que erradicou (sheakar) a idolatria (avodá zará) de nossa terra (meartzenu)" — isto é, bênção paralela para o lugar de onde a idolatria foi removida, reconhecendo a purificação espiritual da terra.
"Aquele que vê lugar onde se fizeram milagres para Israel" — como (kegon) aqueles (hanach) que (deka) ensina (tanei) adiante (lekaman): as passagens (maavrot) do mar (hayam) e do Jordão (vehayarden) e dos ribeiros (venachalei) de Arnon (arnon) etc. — isto é, Rashi já antecipa que a Guemará, mais adiante, listará exemplos concretos desses lugares de milagre, retomados na baraita ao final do daf.
Abertura do Perek HaRoeh: a primeira cláusula da Mishná estabelece duas bênçãos ligadas a lugares — uma para onde ocorreram milagres a Israel, outra para onde a idolatria foi erradicada da terra.
Sobre (al) os meteoros (hazikin), e sobre (veal) os terremotos (hazevaot), e sobre (veal) os trovões (hareamim), e sobre (veal) os ventos (haruchot), e sobre (veal) os relâmpagos (haberakim) diz (omer): "Bendito (baruch) … cujo poder (kocho) e força (uguvurato) enchem (malé) o mundo (olam)" — isto é, para fenômenos que evidenciam o poder de D-us em escala cósmica, visível ou audível a longa distância, a Mishná fixa uma bênção que exalta esse poder universal. Sobre (al) os montes (heharim), e sobre (veal) as colinas (hagevaot), e sobre (veal) os mares (hayamim), e sobre (veal) os rios (haneharot), e sobre (veal) os desertos (hamidbarot) diz (omer): "Bendito (baruch) … que faz (oseh) a obra da criação (bereishit)" — isto é, para as grandes formações da natureza permanente, a bênção evoca diretamente a obra original da criação. Rabi Yehuda diz (omer): aquele que vê (haroeh) o grande mar (hayam hagadol) — o Mediterrâneo, diz (omer): "Bendito (baruch) … que fez (sheasá) o grande mar (hayam hagadol)" — quando (bizman) o vê (roehu) esporadicamente (liferakim) — isto é, Rabi Yehuda acrescenta uma bênção própria e mais elevada, específica para o mar Mediterrâneo, reservada para quando alguém o vê apenas de tempos em tempos, não regularmente.
"Meteoros, terremotos e trovões" — explica-se (mefaresh) na Guemará (bagemara). "Enche o mundo" — porque (lefi) estes (shehalu) são vistos (nirin) ou (o) ouvidos (nishmain) a longa distância (lemerachok) — isto é, o que distingue esses fenômenos é o alcance de sua manifestação, perceptível de longe. "Bendito que faz a obra da criação" — e na Guemará (uvagemara) se pergunta (paric) (daf 59a): acaso (atu) aqueles (hanach) anteriores (delei) não são (lav) também obra da criação (maasé bereishit)? — isto é, a Guemará adiante questionará por que essa fórmula é reservada apenas às formações naturais e não também aos fenômenos atmosféricos, já que ambos são igualmente obra da criação. "Esporadicamente" — explica-se (mefaresh) na Guemará (bagemara) (ali, 59b), e porque (ulefi) ele (shehu) é importante (chashuv) e maior (vegadol) que todos (mikulam), fixou-lhe (kava leih) Rabi Yehuda uma bênção (berachá) para si mesmo (leatzmo) — isto é, por sua magnitude excepcional entre todos os mares, o Mediterrâneo mereceu, segundo Rabi Yehuda, uma bênção própria e distinta.
Distinção entre fenômenos atmosféricos passageiros (bênção sobre o poder que "enche o mundo") e formações naturais permanentes (bênção "que faz a obra da criação"); Rabi Yehuda acrescenta bênção própria para o mar Mediterrâneo, por sua grandeza singular.
Sobre (al) as chuvas (hageshamim), e sobre (veal) boas (tovot) notícias (besorot) diz (omer): "Bendito (baruch) o Bom (hatov) e o Que Faz o Bem (vehametiv)" — isto é, a Mishná equipara a bênção sobre a chuva à bênção sobre boas notícias em geral, ambas expressando gratidão por um benefício que aproveita não só a quem a recebe mas também a outros. Sobre (al) más (raot) notícias (besorot) diz (omer): "Bendito (baruch) o Juiz (dayan) da verdade (haemet)" — reconhecendo a justiça divina mesmo diante do infortúnio. Construiu (baná) casa (bayit) nova (chadash), e comprou (kaná) utensílios (kelim) novos (chadashim), diz (omer): "Bendito (baruch) … que nos manteve vivos (shehecheyanu), e nos sustentou (vekiyemanu), e nos fez chegar (vehigianu) a este tempo (lazman hazé)" — a bênção de gratidão por alcançar uma ocasião nova e alegre. Abençoa-se (mevarech) sobre (al) o mal (hará) de modo semelhante (meein) a (al) sobre o bem (hatová), e sobre (veal) o bem (hatová) de modo semelhante (meein) a (al) sobre o mal (hará) — isto é, a Mishná enuncia o princípio geral, a ser desenvolvido na Guemará, de que a estrutura da bênção sobre o infortúnio replica em certo sentido a estrutura da bênção sobre o benefício, e vice-versa.
"Abençoa-se sobre o mal de modo semelhante ao bem" — isto é, "Juiz da verdade (dayan haemet)" — a mesma fórmula usada para más notícias. "E sobre o bem de modo semelhante ao mal" — isto é, "o Bom e o Que Faz o Bem (hatov vehametiv)", e na Guemará (uvagemara) se explica (mefaresh) como (heichi) se entende (damei) — isto é, Rashi remete à Guemará, que adiante esclarecerá o sentido exato dessa equiparação entre as duas fórmulas.
Bênçãos sobre a chuva e as notícias, boas e más; a bênção de sheHecheyanu para casa e utensílios novos; e o princípio, a ser esclarecido na Guemará, de que a bênção sobre o mal replica em certo sentido a do bem, e a do bem a do mal.
Ver também no Talmud Yerushalmi: a mesma Mishná que abre aqui o Perek HaRoeh — sobre a bênção de quem vê lugar de milagre ou de idolatria erradicada, e sobre os fenômenos naturais e as notícias — é, quase palavra por palavra, a Mishná que abre o Perek Tet do Yerushalmi Berachot.
Ver Yerushalmi Berachot 9:1 →E quem clama (hatzoek) pelo passado (lesheavar) — eis que (harei) é (zo) oração (tefilat) vã (shav) — isto é, suplicar a D-us para mudar algo que já ocorreu é considerado uma oração fútil, pois o passado não pode ser alterado. Estava (hayta) sua esposa (ishto) grávida (meuberet), e diz (omer): "Seja vontade (yehi ratzon) que dê à luz (sheteled) minha esposa (ishti) um homem (zachar)" — eis que (harei) é (zo) oração (tefilat) vã (shav) — isto é, uma vez que o sexo da criança já está determinado biologicamente, rezar por um resultado específico nesse ponto é fútil, ainda que a pessoa não saiba qual é o resultado. Vinha (hayá ba) pelo caminho (baderech) e ouviu (veshama) voz (kol) de gritaria (tzevachá) na cidade (bair), e diz (omer): "Seja vontade (yehi ratzon) que não (shelo) seja (tehei) dentro (betoch) de minha casa (beiti)" — eis que (harei) é (zo) oração (tefilat) vã (shav) — isto é, se o evento que causou a gritaria já ocorreu, rezar para que não tenha acontecido em sua própria casa é igualmente uma súplica sobre um fato já consumado.
Três exemplos de "oração vã" — súplica sobre algo já determinado ou já ocorrido: o passado irreversível, o sexo já formado do filho no ventre, e o evento já consumado por trás de uma gritaria ouvida à distância.
Quem entra (hanichnas) numa cidade grande (lecharach) reza (mitpalel) duas vezes (shetayim), uma (achat) na sua entrada (bichnisato), e uma (achat) na sua saída (bitziato) — isto é, ao entrar numa metrópole, onde os riscos de perigo e injustiça são maiores, reza-se ao entrar e ao sair, pedindo proteção e agradecendo por ela. Ben Azai diz (omer): quatro (arba), duas (shetayim) na entrada (bichnisato), e duas (ushtayim) na saída (bitziato) — isto é, Ben Azai duplica o número de orações, exigindo tanto a súplica quanto o agradecimento em cada uma das duas ocasiões. Dá (noten) agradecimento (hodaá) pelo (al) passado (sheavar) e clama (tzoek) pelo (al) futuro (heatid) — isto é, a Mishná explica a razão da duplicação de Ben Azai: em cada uma das duas ocasiões, entrada e saída, há tanto um agradecimento pela proteção já recebida quanto uma súplica pela proteção futura, totalizando quatro orações.
"Quem entra numa cidade grande" — aquele que caminha (hamehalech) pelo caminho (baderech) e precisa (vetzarich) passar (laavor) por uma cidade grande (kerach), e ali (vesham) se encontram (metzuim) governantes (moshelim) maus (raim) que buscam (umechapsim) pretextos (alilot) — isto é, Rashi explica o motivo do risco: cidades grandes concentram autoridades hostis que procuram acusações contra viajantes. "Uma na entrada" — reza (mitpalel) que (sheyikanes) entre (yikanes) em paz (leshalom). "Na saída" — reza (mitpalel) que (sheyetzé) saia (yetzé) em paz (leshalom). "Quatro" — conforme (kedimfaresh) se explica (demafaresh): dá (noten) agradecimento (hodaá) pelo passado (al sheavar) e clama (tzoek) pelo futuro (al heatid) — encontram-se (nimtzeu) quatro (arba), conforme (kedimfaresh) se explica (demafaresh) na Guemará (bagemara).
As orações de entrada e saída de uma cidade grande, e a explicação de Ben Azai para o número quatro: agradecimento pelo passado e súplica pelo futuro, em cada uma das duas ocasiões.
Obrigado (chayav) é o homem (adam) a abençoar (levarech) pelo (al) mal (hará) do mesmo modo (keshem) que (she) abençoa (mevarech) pelo (al) bem (hatová), pois está dito (shenneemar): "e amarás (veahavta) ao Eterno (Hashem) teu D'us (Elohecha) com todo (bechol) o teu coração (levavcha) etc." (Devarim 6:5). "Com todo (bechol) o teu coração (levavcha)" — com teus dois (bishnei) impulsos (yetzarecha), com o impulso (beyetzer) bom (tov) e com o impulso (uveyetzer) mau (hará) — isto é, a Mishná interpreta a duplicação da letra bet em "levavecha" (em vez de "libecha") como alusão aos dois impulsos do homem, ambos devendo servir ao amor a D-us. "E com toda (uvechol) a tua alma (nafshecha)" — mesmo que (afilu) Ele tome (hu notel) a tua alma (et nafshecha) — isto é, o amor a D-us deve persistir mesmo diante do sacrifício da própria vida. "E com todos (uvechol) os teus bens (meodecha)" — com todo (bechol) o teu dinheiro (mamoncha) — isto é, o amor a D-us deve se estender também ao sacrifício material. Outra explicação (davar acher): "com todos (bechol) os teus bens (meodecha)" — com toda (bechol) medida (midá) e medida (umidá) que (shehu) Ele te mede (moded lecha), sê (hevei) agradecido (modeh) a Ele (lo) — isto é, uma segunda leitura relaciona "meodecha" à raiz de "medida" (midá), ensinando que se deve agradecer a D-us por toda porção que Ele determina, seja ela qual for.
"Obrigado é o homem a abençoar pelo mal etc." — explica-se (mefaresh) na Guemará (bagemara). "Outra explicação: com todos os teus bens" — medidas (midot) medidas (medudot) para ti (lecha), seja (bein) medida (midá) boa (tová), seja (bein) medida (midat) de castigo (puraanut) — isto é, Rashi resume o segundo sentido: qualquer que seja a medida — favorável ou punitiva — que D-us aplica à pessoa, cabe a ela reconhecê-la com gratidão.
Fundamento bíblico do princípio de abençoar pelo mal como pelo bem: a Mishná deriva de "com todo o teu coração", "com toda a tua alma" e "com todos os teus bens" a obrigação de amar e agradecer a D-us com ambos os impulsos, com a própria vida e com os próprios bens — e, alternativamente, por toda medida que Ele determina.
Não trate com leviandade (lo yakel) o homem (adam) sua cabeça (rosho) diante do (keneged) portão (shaar) oriental (hamizrach), que (shehu) está alinhado (mechuvan) diante do (keneged) Santo dos Santos (beit kodshei hakodashim) — isto é, o portão leste do Monte do Templo está em linha direta com o local mais sagrado, o que exige comportamento especialmente respeitoso ao passar diante dele. E não entre (velo yikanes) no Monte (lehar) do Templo (habayit) com seu bastão (bemaklo), e com seu sapato (uvemanalo), e com sua bolsa (uvefundato), e com pó (uveavak) que está sobre (sheal) seus pés (raglav) — isto é, uma série de restrições que exigem entrar no espaço sagrado de modo humilde, sem os apetrechos comuns do dia a dia. E não o faça (velo yaasenu) atalho (kapandaria) — isto é, é proibido atravessar o Monte do Templo apenas como passagem mais curta entre dois pontos externos. E cuspir (uderikiká) — por argumento a fortiori (mikal vachomer) — isto é, se já essas restrições mais leves se aplicam, com muito mais razão se proíbe cuspir dentro do espaço sagrado.
"Não trate com leviandade sua cabeça" — não se comporte (lo yinhag) com leviandade (kalut rosh). "Diante do portão oriental" — fora (chutz) do Monte (lehar) do Templo (habayit), no muro (bachomá) baixo (hanemuchá) que está aos pés (leraglei) do Templo (habayit) a leste (bemizrach), porque (lefi) todos (shekol) os portões (hashearim) estão alinhados (mechuvanim) um diante do outro (zeh keneged zeh): o portão (shaar) leste (mizrach), o portão (shaar) do pátio (ezrat) das mulheres (nashim), e o portão (shaar) do pátio (ezrat) de Israel (yisrael), e a entrada (petach) do Ulam (haulam) e do Heichal (vehaheichal) e o Santo dos Santos (beit kodshei hakodashim), nos dias (bimei) do primeiro Templo (mikdash rishon), quando (kesheeayta) havia (amá) a "amá tarksin" — uma medida específica de espessura de parede referida na tradição arquitetônica do primeiro Templo. "Com sua bolsa" — cinto (chagor) oco (chalul) onde se colocam (venotnin bo) moedas (maot). "Por argumento a fortiori" — na Guemará (bagemara) se explica (mefaresh) isto (leih).
Regras de respeito ao Monte do Templo: não tratar com leviandade diante do portão oriental (alinhado com o Santo dos Santos), não entrar com bastão, sapato, bolsa ou pó nos pés, não usá-lo como atalho — e, por argumento a fortiori, não cuspir dentro dele.
Todos (kol) os que selavam (chotmei) bênçãos (berachot) no Templo (shebamikdash) costumavam dizer (hayu omrim): "até (ad) o mundo (haolam)" — isto é, a fórmula original de encerramento das bênçãos no Templo terminava com essa expressão simples, sem a duplicação usada hoje. Desde que (mishe) os hereges (haminin) corromperam (kilkelu) e disseram (veamru) que não há (ein) mundo (olam) senão (ela) um (echad) — isto é, quando surgiram hereges que negavam a existência do Mundo Vindouro, sustentando que existe apenas este mundo presente, instituíram (hitkinu) que (sheyehu) dissessem (omrim): "de (min) o mundo (haolam) e até (vead) o mundo (haolam)" — isto é, a fórmula foi expandida precisamente para afirmar, contra essa heresia, a existência de dois mundos — o presente e o vindouro.
"Todos os que selavam bênçãos no Templo diziam 'até o mundo'" — em Massechet Taanit (perek 2, 16b) dizemos (amrinan) que não se responde (ein onin) amém (amen) no Templo (bamikdash); quem abençoa (hamevarech) diz (omer) ao final (besof) de cada (kol) bênção (berachá) "Bendito (baruch) és Tu, Eterno (Hashem), D'us de Israel (Elohei Yisrael), de (min) o mundo (haolam) e até (vead) o mundo (haolam), Bendito (baruch) Que Concede (chonen) o conhecimento (hadaat)", e assim (vechen) em todas (bechulan), e os que respondem (vehaonin) dizem (omrim): "Bendito (baruch) o Nome (shem) da glória (kevod) de Seu reino (malchuto) para sempre (leolam vaed)", e derivamos (veyalfinan) isso (lah) do versículo (mikra) da oração (detefilat) de Ezra e sua comitiva (vesiato), e isso nos ensina (veashmainan) aqui (hacha) que (deve) no primeiro Templo (mikdash rishon) não se dizia (lo hayu omrim) senão (ela) "Bendito (baruch) Eterno (Hashem) D'us de Israel (Elohei Yisrael)" até (ad) "de (min) o mundo (haolam)". "Desde que os saduceus corromperam" — e disseram (veamru) que não há (ein) mundo (olam) senão (ela) este (zeh). "Instituíram" — Ezra e sua comitiva (vesiato), que (sheyehu) dissessem (omrim) "de (min) o mundo (haolam) e até (vead) o mundo (haolam)", para dizer (lomar) que dois (sheshnei) mundos (olamot) existem (yesh), para retirar (lehotzi) do coração (milev) dos saduceus (hatzedukim), hereges (hakoferim) que negam a ressurreição (bitchiyat hametim) dos mortos.
A alteração histórica na fórmula final das bênçãos no Templo, de "até o mundo" para "de mundo a mundo": Rashi identifica os hereges como os saduceus, que negavam a ressurreição dos mortos, e explica que a expansão da fórmula visava afirmar a existência de dois mundos contra essa negação.
E instituíram (vehitkinu) que (sheyehei) o homem (adam) saudasse (shoel) a paz (shalom) de seu próximo (chaveiro) com o Nome (bashem) — isto é, invocando explicitamente o Nome Divino na saudação cotidiana, pois está dito (shenneemar): "e eis (vehiné) que Boaz veio (ba) de Beit Lechem (mibeit lechem) e disse (vayomer) aos ceifeiros (lakotzrim): 'o Eterno (Hashem) esteja convosco (imachem)', e disseram-lhe (vayomru lo): 'te abençoe (yevarechecha) o Eterno (Hashem)'" (Rut 2:4). E diz (veomer): "o Eterno (Hashem) está contigo (imcha), valente (gibor) herói (hechayil)" (Shoftim 6:12, dito pelo anjo a Gidon). E diz (veomer): "não (al) desprezes (tavuz), pois (ki) envelheceu (zakná) tua mãe (imecha)" (Mishlei 23:22, citado para reforçar a importância de seguir o costume dos antigos). E diz (veomer): "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (la Hashem), anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" (Tehilim 119:126) — isto é, o versículo é lido no sentido de que, às vezes, é permitido "anular" uma norma da Torá (como evitar mencionar o Nome Divino em saudações comuns) precisamente para agir em prol do Eterno, ou seja, para fortalecer a fraternidade entre as pessoas. Rabi Natan diz (omer): "anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" por causa de (mishum) "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (la Hashem)" — isto é, Rabi Natan inverte a ordem de leitura do versículo: às vezes é necessário anular preceitos da Torá justamente porque chegou o momento de agir em prol do Eterno.
"Que o homem saudasse seu próximo com o Nome" — com o Nome (bishmo) do Santo, Bendito Seja (hakadosh baruch hu), e não dizemos (velo amrinan) que ele desrespeita (mezalzel) a honra (bichvodo) do Onipresente (shel makom) por causa da (bishvil) honra (kevod) das pessoas (haberiyot), ao invocar (lehotzi) o Nome (shem) do Céu (shamayim) sobre ele (alav); e aprendemos (velamdu) isso de Boaz, que (sheamar) disse "o Eterno (Hashem) convosco (imachem)", e do anjo (min hamalach) que (sheamar) disse a Gidon: "o Eterno (Hashem) contigo (imcha), valente herói (gibor hechayil)". "E diz: não desprezes, pois envelheceu tua mãe" — aprenda (lamud) das palavras (midivrei) dos anciãos (ziknei) de tua nação (umatecha) a fazer (laasot) o que (ma) viste (sheraita) que eles fizeram (sheasu hem), e na Guemará (uvagemara) se explica (mefaresh) o que (mai) significa "e diz (veomer)". "E diz: é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá" — às vezes (peamim) se anulam (shemevatlim) palavras (divrei) de Torá (torá) para agir (kedei laasot) pelo Eterno (la Hashem); também (af) isto (zeh), aquele que tem a intenção (hamitkaven) de saudar (lishol) a paz (leshalom) de seu próximo (chaveiro), esta (zehu) é a vontade (retzono) do Onipresente (shel makom), pois está dito (shenneemar) "busca (bakesh) a paz (shalom) e persegue-a (veradfehu)", é permitido (mutar) anular (lehafer) a Torá (torá) e fazer (velaasot) algo (davar) que (hanireh) parece (nireh) proibido (asur).
Instituição de saudar o próximo com o Nome Divino, ilustrada pelos versículos de Boaz e do anjo a Gidon, e pela exortação a seguir o costume dos antigos; e a leitura, em duas ordens possíveis (a Mishná e Rabi Natan), do versículo "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá", justificando a exceção da regra geral de não mencionar o Nome em vão.
Guemará (gemara). De onde (mena) essas (hanei) palavras (milei)? — isto é, a Guemará abre o novo perek perguntando qual é a fonte bíblica para a obrigação de abençoar diante de um milagre. Disse (amar) Rabi Yochanan, pois diz (deamar) o versículo (kra): "e disse (vayomer) Yitro: bendito (baruch) o Eterno (Hashem) que (asher) salvou (hitzil) etc." (Shemot 18:10) — isto é, Rabi Yochanan encontra a fonte na própria reação de Yitro ao ouvir do milagre da salvação de Israel do Egito, que ele expressa como uma bênção formal a D-us.
Assim (hachi) se lê (garsinan): de onde (menalan) temos que (demevarchinan) se abençoa (mevarchinan) sobre o milagre (aniysa)? Disse Rabi Yochanan, pois diz (deamar) o versículo (kra): "e disse Yitro: bendito o Eterno que salvou a vós etc." — Rashi ajusta a formulação exata da pergunta e confirma a citação do versículo completo.
A Guemará abre o Perek HaRoeh buscando a fonte bíblica para a bênção sobre o milagre: Rabi Yochanan a encontra na bênção de Yitro ao ouvir da salvação de Israel.
Sobre milagre (aniysa) de muitos (derabim) abençoamos (mevarchinan), sobre milagre (aniysa) de um indivíduo (deyachid) não (la) abençoamos (mevarchinan)?! — isto é, a Guemará questiona: será que a bênção sobre o milagre se aplica apenas a milagres coletivos, como o de Yitro, e não a milagres pessoais? E não (veha) foi aquele (hahu) homem (gavra) que (dahavá) ia (azel) além (baavar) do Jordão (yamina) — isto é, uma região específica do outro lado do rio. Caiu (nefal) sobre ele (alei) um leão (arya), foi feito (itavid) para ele (leih) milagre (nisa) e foi salvo (itatzal) dele (mineih). Veio (atá) perante (lekamei) Rava, e disse-lhe (vaamar leih): toda (kol) vez (imat) que (de) chegares (matit) lá (lehatam) — abençoa (bareich): "Bendito (baruch) … que me fez (sheasá li) milagre (nes) neste lugar (bamakom hazé)" — isto é, a resposta prática de Rava demonstra que também o milagre pessoal exige bênção, ao menos por parte de quem o vivenciou, sempre que retornar àquele lugar.
Objeção resolvida por um caso concreto: o homem salvo de um leão além do Jordão foi instruído por Rava a abençoar sempre que voltasse ao local — confirmando que também o milagre individual gera obrigação de bênção, ao menos para quem o experimentou.
E Mar, filho de (breih) Ravina, ia (havá kaazel) no vale (befakta) de Aravot, e teve sede (utzchá) de água (lemaya) — isto é, segundo episódio, dessa vez com o filho de Ravina, ilustrando outro milagre pessoal. Foi feito (itavid) para ele (leih) milagre (nisa), foi criada (ivri) para ele (leih) uma fonte (eina) de água (demaya), e bebeu (veishti) — isto é, uma fonte de água surgiu miraculosamente para saciar sua sede.
"No vale" — um vale (bikaá). "Aravot" — nome (shem) de um lugar (makom). "E teve sede de água" — teve sede (tzamé) de água (lemayim).
Segundo episódio de milagre individual: o filho de Ravina, com sede no vale de Aravot, teve uma fonte de água criada miraculosamente para ele.
E mais (vetu), certa vez (zimna chada) ia (havá kaazel) no mercado (berastaka) de Machoza, e caiu (unefal) sobre ele (alei) um camelo (gamla) enlouquecido (peritza) — isto é, terceiro episódio, com um camelo furioso avançando sobre ele no mercado. Abriu-se (itparka) para ele (leih) uma parede (ashita), entrou (al) para dentro dela (legavá) — isto é, miraculosamente uma parede se abriu para lhe dar refúgio do camelo. Quando (ki) chegou (meta) a Aravot, abençoou (bareich): "Bendito (baruch) … que me fez (sheasá li) milagre (nes) em Aravot e com o camelo (uvegamal)" — isto é, mencionando ambos os milagres, o da fonte e o da parede, na ordem em que os experimentou originalmente. Quando (ki) chegou (meta) ao mercado (lerastaka) de Machoza, abençoou (bareich): "Bendito (baruch) … que me fez (sheasá li) milagre (nes) com o camelo (begamal) e em Aravot" — isto é, invertendo a ordem conforme o lugar em que se encontrava, mencionando primeiro o milagre local! Disseram (amri): sobre milagre (aniysa) de muitos (derabim) — todo (kulei) o mundo (alma) é obrigado (michayvei) a abençoar (levorchei); sobre milagre (aniysa) de um indivíduo (deyachid) — ele (ihu) é obrigado (chayav) a abençoar (levorchei) — isto é, conclusão final: enquanto o milagre coletivo obriga a todos a abençoar, o milagre individual obriga apenas a própria pessoa que o vivenciou.
"No mercado" — no mercado (bashuk). "Camelo enlouquecido" — camelo (gamal) louco (meshuga) cujos (sheasakav) atos (asakav) são maus (raim) — isto é, um camelo perigoso e imprevisível. "Abriu-se para ele uma parede" — caiu (naflá) a muralha (chomat) de uma casa (bayit) que (shehayá) estava próxima (samuch) a ele (lo), e entrou (venichnas) para dentro (letoch) da casa (habayit) por causa (mipnei) do camelo (hagamal) — isto é, Rashi explica o mecanismo do milagre: uma parede de uma casa próxima desmoronou, abrindo caminho para que ele escapasse do camelo entrando na casa.
Terceiro episódio (o camelo enlouquecido e a parede que se abriu) e conclusão da Guemará: o milagre coletivo obriga todos a abençoar; o milagre individual obriga apenas quem o vivenciou — e a ordem de menção na bênção varia conforme o lugar onde a pessoa se encontra.
Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): aquele que vê (haroeh) as passagens (maavrot) do mar (hayam) — isto é, inicia-se aqui uma baraita que lista lugares concretos de milagre, retomando o tema com que a Mishná abriu o perek, e as passagens (umaavrot) do Jordão (hayarden), as passagens (maavrot) dos ribeiros (nachalei) de Arnon, as pedras (avnei) de granizo (elgavish) na descida (bemorad) de Beit Choron, e a pedra (veeven) que (shebikesh) quis (bikesh) lançar (lizrok) Og, rei (melech) de Bashan, sobre (al) Israel (yisrael), e a pedra (veeven) sobre a qual (sheyashav aleha) se sentou Moshé na hora (besha'á) em que (she) fez (asá) Yehoshua guerra (milchamá) contra Amalek, e a esposa (veishto) de Lot, e a muralha (vechomat) de Yericho que (shenivleá) foi engolida (nivleá) em seu lugar (bimkomá) — sobre todas elas (al kulan) precisa (tzarich) que (sheyiten) dê (yiten) agradecimento (hodaá) e louvor (vashevach) perante (lifnei) o Onipresente (hamakom) — isto é, a baraita reúne uma série de lugares específicos ligados a episódios bíblicos notáveis, todos exigindo reconhecimento e louvor a D-us.
"As passagens do mar" — lugar (makom) onde (she) passaram (avru) Israel (yisrael) pelo Mar (bayam) de Suf (suf). "E as passagens do Jordão" — nos dias (bimei) de Yehoshua. "As passagens dos ribeiros de Arnon" — adiante (lekaman) se explica (mefaresh) qual (mai) é o milagre (nisa). "Na descida de Beit Choron" — nos dias (bimei) de Yehoshua, foi (haya), no Livro (besefer) de Yehoshua. "E a pedra que Og lançou" — adiante (lekaman) se explica (mefaresh).
Início da baraita central sobre os lugares de milagre que exigem agradecimento e louvor: as passagens do mar e do Jordão, os ribeiros de Arnon, as pedras de granizo de Beit Choron, a pedra de Og, a pedra de Moshé na guerra contra Amalek, a esposa de Lot e a muralha de Yericho.
Está bem (bishlama) quanto às passagens (maavrot) do mar (hayam), pois está escrito (dichtiv): "e entraram (vayavou) os filhos (benei) de Israel (yisrael) pelo meio (betoch) do mar (hayam) em seco (bayabashá)" (Shemot 14:22) — isto é, este milagre tem fonte bíblica explícita e clara. As passagens (maavrot) do Jordão (hayarden), pois está escrito (dichtiv): "e os sacerdotes (hakohanim) que carregavam (nosei) a arca (haaron) do pacto (brit) do Eterno (Hashem) pararam (vayaamdu) em seco (becharavá) no meio (betoch) do Jordão (hayarden), firmemente (hachen), e todo (vechol) Israel (yisrael) passava (ovrim) em seco (becharavá) até que (ad asher) terminou (tamu) toda (kol) a nação (hagoy) de passar (laavor) o Jordão (hayarden)" (Yehoshua 3:17) — isto é, também este milagre tem fonte explícita, no relato da travessia do Jordão sob Yehoshua.
Confirmação bíblica direta das duas primeiras passagens listadas: a do mar (Shemot 14:22) e a do Jordão (Yehoshua 3:17).
Mas (ela) as passagens (maavrot) dos ribeiros (nachalei) de Arnon, de onde (mnalan) as temos (mnalan)? — isto é, este terceiro caso, ao contrário dos dois primeiros, não tem uma fonte tão evidente, e por isso a Guemará precisa buscá-la — pois está escrito (dichtiv): "por isso (al ken) se diz (yeamer) no Livro (besefer) das Guerras (milchamot) do Eterno (Hashem): Et-Vahev (et vahev) em (besufá) Sufá etc." (Bamidbar 21:14) — um versículo obscuro, cujo sentido a Guemará passará a explicar. Ensinou-se (taná): "Et-Vahev (et vahev) em (besufá) Sufá" — dois (shenei) leprosos (metzoraim) eram (hayu), que (dahavu) caminhavam (mehalchin) no final (besof) do acampamento (machaneh) de Israel (yisrael) — isto é, a baraita interpreta as palavras enigmáticas do versículo como referência a dois homens leprosos que, por sua impureza, eram obrigados a caminhar na retaguarda do acampamento israelita. Quando (ki) Israel (yisrael) estava (havu) passando (kachalfi), vinham (ato) os emorreus (emoraei) — isto é, o relato prossegue narrando como os emorreus aproveitavam a passagem de Israel para tentar emboscá-los, preparando uma cilada nesse ponto do caminho, cujo desfecho a Guemará continuará a narrar no próximo daf.
Início da explicação do terceiro caso, mais obscuro: o versículo do Livro das Guerras do Eterno é lido pela baraita como referência a dois leprosos na retaguarda do acampamento de Israel, dando início ao relato da emboscada armada pelos emorreus nos ribeiros de Arnon — narrativa que prossegue em 54b.