Talmud Bavli · Berachot · Daf 54, lado A · Abertura do Perek Tet (HaRoeh)
נד ע״א

Abre-se o Perek HaRoeh com a Mishná das bênçãos sobre milagres, fenômenos naturais e ocasiões da vida; a Guemará busca sua fonte bíblica e inicia a lista das bênçãos sobre os grandes milagres de Israel

Berachot 54a · Início do Perek HaRoeh ("Aquele que vê")

Encerrado o Perek Elu Devarim em 53b com o hadran, o tratado abre aqui o nono perek, "HaRoeh" ("Aquele que vê"), com uma longa Mishná que reúne as bênçãos devidas diante de lugares e fenômenos notáveis: quem vê um lugar onde se fizeram milagres para Israel, ou de onde foi erradicada a idolatria; as bênçãos sobre meteoros, terremotos, trovões, ventos e relâmpagos, e sobre montes, colinas, mares, rios e desertos — com Rabi Yehuda acrescentando uma bênção especial para quem vê o mar Mediterrâneo esporadicamente; as bênçãos sobre a chuva e sobre boas notícias ("o Bom e o Que Faz o Bem"), e sobre más notícias ("o Juiz da Verdade"); a bênção de "sheHecheyanu" ao construir casa nova ou adquirir utensílios novos; o princípio de abençoar pelo mal como se abençoa pelo bem, e vice-versa; a advertência contra a súplica vã sobre o já ocorrido, incluindo o caso de rezar pelo sexo do filho já formado no ventre; a lei de quem entra numa cidade grande, com duas orações (ou quatro, segundo Ben Azai); o dever de abençoar pelo mal como pelo bem, fundamentado em "amarás ao Eterno teu D'us com todo o teu coração" — interpretado como os dois impulsos, toda a tua alma e todos os teus bens; as leis de respeito ao Monte do Templo — não tratar com leviandade diante do portão oriental, não entrar com bastão, sapatos, bolsa ou poeira nos pés, nem usá-lo como atalho, e menos ainda cuspir nele; a mudança na fórmula das bênçãos no Templo, de "até o mundo" para "de mundo a mundo" por causa dos hereges que negavam a ressurreição; e a instituição de saudar o próximo com o Nome Divino, ilustrada com o exemplo de Boaz e os ceifeiros. A Guemará então investiga a fonte bíblica da bênção sobre o milagre, citando a bênção de Yitro, e discute se ela vale só para milagres coletivos ou também individuais — trazendo o caso de um homem salvo de um leão além do Jordão, por instrução de Rava, e três episódios do genro de Ravina, salvo da sede no vale de Aravot, de um camelo enlouquecido e de uma muralha que se abriu para abrigá-lo — concluindo que todos devem abençoar pelo milagre coletivo, mas o milagre individual obriga apenas quem o viveu. O daf termina iniciando a baraita sobre os lugares que exigem agradecimento — as passagens do Mar, do Jordão e dos ribeiros de Arnon —, com a fonte bíblica das duas primeiras e o início da explicação da terceira, envolvendo os dois leprosos "Vahev" e "Suf".

פרק עשירי — הרואה

Abre-se aqui o Perek Tet, "HaRoeh" — "Aquele que vê" —, o nono perek de Massechet Berachot, dedicado às bênçãos recitadas diante de milagres, fenômenos naturais extraordinários, lugares notáveis da história de Israel e ocasiões marcantes da vida pessoal.

1Mishná: aquele que vê lugar onde se fizeram milagres para Israel abençoa "que fez milagres a nossos pais neste lugar"; lugar de onde foi erradicada idolatria abençoa "que erradicou a idolatria de nossa terra"
Bavli · 54a — Mishná
מַתְנִי׳ הָרוֹאֶה מָקוֹם שֶׁנַּעֲשׂוּ בּוֹ נִסִּים לְיִשְׂרָאֵל, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁעָשָׂה נִסִּים לַאֲבוֹתֵינוּ בַּמָּקוֹם הַזֶּה״. מָקוֹם שֶׁנֶּעֶקְרָה מִמֶּנּוּ עֲבוֹדָה זָרָה, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁעָקַר עֲבוֹדָה זָרָה מֵאַרְצֵנוּ״.

Mishná (matni): aquele que vê (haroeh) lugar (makom) onde (she) se fizeram (naasu) nele (bo) milagres (nissim) para Israel (leisrael), diz (omer): "Bendito (baruch) … que fez (sheasá) milagres (nissim) a nossos pais (laavoteinu) neste lugar (bamakom hazé)" — isto é, a Mishná abre o novo perek fixando uma bênção específica para quem, ao visitar um lugar da terra de Israel, reconhece que ali ocorreu um milagre histórico em favor de Israel. Lugar (makom) de onde (she) foi erradicada (neekrá) dele (mimeno) idolatria (avodá zará), diz (omer): "Bendito (baruch) … que erradicou (sheakar) a idolatria (avodá zará) de nossa terra (meartzenu)" — isto é, bênção paralela para o lugar de onde a idolatria foi removida, reconhecendo a purificação espiritual da terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
הרואה מקום שנעשו בו נסים לישראל – כגון הנך דקתני לקמן מעברות הים והירדן ונחלי ארנון כו':

"Aquele que vê lugar onde se fizeram milagres para Israel" — como (kegon) aqueles (hanach) que (deka) ensina (tanei) adiante (lekaman): as passagens (maavrot) do mar (hayam) e do Jordão (vehayarden) e dos ribeiros (venachalei) de Arnon (arnon) etc. — isto é, Rashi já antecipa que a Guemará, mais adiante, listará exemplos concretos desses lugares de milagre, retomados na baraita ao final do daf.

Nota

Abertura do Perek HaRoeh: a primeira cláusula da Mishná estabelece duas bênçãos ligadas a lugares — uma para onde ocorreram milagres a Israel, outra para onde a idolatria foi erradicada da terra.

2Sobre meteoros, terremotos, trovões, ventos e relâmpagos diz "cujo poder e força enchem o mundo"; sobre montes, colinas, mares, rios e desertos diz "que faz a obra da criação"; Rabi Yehuda: quem vê o grande mar diz bênção especial, quando o vê esporadicamente
Bavli · 54a — Mishná
עַל הַזִּיקִין, וְעַל הַזְּוָעוֹת, וְעַל הָרְעָמִים, וְעַל הָרוּחוֹת, וְעַל הַבְּרָקִים אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁכֹּחוֹ וּגְבוּרָתוֹ מָלֵא עוֹלָם״. עַל הֶהָרִים, וְעַל הַגְּבָעוֹת, וְעַל הַיַּמִּים, וְעַל הַנְּהָרוֹת, וְעַל הַמִּדְבָּרוֹת אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … עוֹשֵׂה בְרֵאשִׁית״. רַבִּי יְהוּדָה, אוֹמֵר: הָרוֹאֶה אֶת הַיָּם הַגָּדוֹל, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ שֶׁעָשָׂה אֶת הַיָּם הַגָּדוֹל״ — בִּזְמַן שֶׁרוֹאֵהוּ לִפְרָקִים.

Sobre (al) os meteoros (hazikin), e sobre (veal) os terremotos (hazevaot), e sobre (veal) os trovões (hareamim), e sobre (veal) os ventos (haruchot), e sobre (veal) os relâmpagos (haberakim) diz (omer): "Bendito (baruch) … cujo poder (kocho) e força (uguvurato) enchem (malé) o mundo (olam)" — isto é, para fenômenos que evidenciam o poder de D-us em escala cósmica, visível ou audível a longa distância, a Mishná fixa uma bênção que exalta esse poder universal. Sobre (al) os montes (heharim), e sobre (veal) as colinas (hagevaot), e sobre (veal) os mares (hayamim), e sobre (veal) os rios (haneharot), e sobre (veal) os desertos (hamidbarot) diz (omer): "Bendito (baruch) … que faz (oseh) a obra da criação (bereishit)" — isto é, para as grandes formações da natureza permanente, a bênção evoca diretamente a obra original da criação. Rabi Yehuda diz (omer): aquele que vê (haroeh) o grande mar (hayam hagadol) — o Mediterrâneo, diz (omer): "Bendito (baruch) … que fez (sheasá) o grande mar (hayam hagadol)" — quando (bizman) o vê (roehu) esporadicamente (liferakim) — isto é, Rabi Yehuda acrescenta uma bênção própria e mais elevada, específica para o mar Mediterrâneo, reservada para quando alguém o vê apenas de tempos em tempos, não regularmente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
זיקין וזועות ורעמים – מפרש בגמרא: מלא עולם – לפי שאלו נראין או נשמעין למרחוק: ברוך עושה בראשית – ובגמרא (ד' נט.) פריך אטו הנך דלעיל לאו מעשה בראשית נינהו: לפרקים – מפרש בגמרא (שם ע"ב) ולפי שהוא חשוב וגדול מכולן קבע ליה רבי יהודה ברכה לעצמו:

"Meteoros, terremotos e trovões" — explica-se (mefaresh) na Guemará (bagemara). "Enche o mundo" — porque (lefi) estes (shehalu) são vistos (nirin) ou (o) ouvidos (nishmain) a longa distância (lemerachok) — isto é, o que distingue esses fenômenos é o alcance de sua manifestação, perceptível de longe. "Bendito que faz a obra da criação" — e na Guemará (uvagemara) se pergunta (paric) (daf 59a): acaso (atu) aqueles (hanach) anteriores (delei) não são (lav) também obra da criação (maasé bereishit)? — isto é, a Guemará adiante questionará por que essa fórmula é reservada apenas às formações naturais e não também aos fenômenos atmosféricos, já que ambos são igualmente obra da criação. "Esporadicamente" — explica-se (mefaresh) na Guemará (bagemara) (ali, 59b), e porque (ulefi) ele (shehu) é importante (chashuv) e maior (vegadol) que todos (mikulam), fixou-lhe (kava leih) Rabi Yehuda uma bênção (berachá) para si mesmo (leatzmo) — isto é, por sua magnitude excepcional entre todos os mares, o Mediterrâneo mereceu, segundo Rabi Yehuda, uma bênção própria e distinta.

Nota

Distinção entre fenômenos atmosféricos passageiros (bênção sobre o poder que "enche o mundo") e formações naturais permanentes (bênção "que faz a obra da criação"); Rabi Yehuda acrescenta bênção própria para o mar Mediterrâneo, por sua grandeza singular.

3Sobre as chuvas e sobre boas notícias diz "o Bom e o Que Faz o Bem"; sobre más notícias diz "Juiz da verdade"; construiu casa nova, comprou utensílios novos, diz "sheHecheyanu"; abençoa-se sobre o mal como sobre o bem, e sobre o bem como sobre o mal
Bavli · 54a — Mishná
עַל הַגְּשָׁמִים, וְעַל בְּשׂוֹרוֹת טוֹבוֹת אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ הַטּוֹב וְהַמֵּטִיב״. עַל בְּשׂוֹרוֹת רָעוֹת אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ דַּיַּין הָאֱמֶת״. בָּנָה בַּיִת חָדָשׁ, וְקָנָה כֵּלִים חֲדָשִׁים, אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ … שֶׁהֶחֱיָינוּ וְקִיְּימָנוּ וְהִגִּיעָנוּ לַזְּמַן הַזֶּה״. מְבָרֵךְ עַל הָרָעָה מֵעֵין עַל הַטּוֹבָה, וְעַל הַטּוֹבָה מֵעֵין עַל הָרָעָה.

Sobre (al) as chuvas (hageshamim), e sobre (veal) boas (tovot) notícias (besorot) diz (omer): "Bendito (baruch) o Bom (hatov) e o Que Faz o Bem (vehametiv)" — isto é, a Mishná equipara a bênção sobre a chuva à bênção sobre boas notícias em geral, ambas expressando gratidão por um benefício que aproveita não só a quem a recebe mas também a outros. Sobre (al) más (raot) notícias (besorot) diz (omer): "Bendito (baruch) o Juiz (dayan) da verdade (haemet)" — reconhecendo a justiça divina mesmo diante do infortúnio. Construiu (baná) casa (bayit) nova (chadash), e comprou (kaná) utensílios (kelim) novos (chadashim), diz (omer): "Bendito (baruch) … que nos manteve vivos (shehecheyanu), e nos sustentou (vekiyemanu), e nos fez chegar (vehigianu) a este tempo (lazman hazé)" — a bênção de gratidão por alcançar uma ocasião nova e alegre. Abençoa-se (mevarech) sobre (al) o mal (hará) de modo semelhante (meein) a (al) sobre o bem (hatová), e sobre (veal) o bem (hatová) de modo semelhante (meein) a (al) sobre o mal (hará) — isto é, a Mishná enuncia o princípio geral, a ser desenvolvido na Guemará, de que a estrutura da bênção sobre o infortúnio replica em certo sentido a estrutura da bênção sobre o benefício, e vice-versa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
מברך על הרעה מעין על הטובה – דיין האמת: ועל הטובה מעין על הרעה – הטוב והמטיב ובגמרא מפרש היכי דמי:

"Abençoa-se sobre o mal de modo semelhante ao bem" — isto é, "Juiz da verdade (dayan haemet)" — a mesma fórmula usada para más notícias. "E sobre o bem de modo semelhante ao mal" — isto é, "o Bom e o Que Faz o Bem (hatov vehametiv)", e na Guemará (uvagemara) se explica (mefaresh) como (heichi) se entende (damei) — isto é, Rashi remete à Guemará, que adiante esclarecerá o sentido exato dessa equiparação entre as duas fórmulas.

Nota

Bênçãos sobre a chuva e as notícias, boas e más; a bênção de sheHecheyanu para casa e utensílios novos; e o princípio, a ser esclarecido na Guemará, de que a bênção sobre o mal replica em certo sentido a do bem, e a do bem a do mal.

4E quem clama pelo passado — eis que é oração vã. Estava sua esposa grávida e diz "seja vontade que minha esposa dê à luz um homem" — eis que é oração vã. Vinha pelo caminho e ouviu voz de gritaria na cidade e diz "seja vontade que não seja em minha casa" — eis que é oração vã
Bavli · 54a — Mishná
וְהַצּוֹעֵק לְשֶׁעָבַר — הֲרֵי זוֹ תְּפִלַּת שָׁוְא. הָיְתָה אִשְׁתּוֹ מְעוּבֶּרֶת, וְאוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן שֶׁתֵּלֵד אִשְׁתִּי זָכָר״ — הֲרֵי זוֹ תְּפִלַּת שָׁוְא. הָיָה בָּא בַּדֶּרֶךְ וְשָׁמַע קוֹל צְוָחָה בָּעִיר, וְאוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן שֶׁלֹּא תְּהֵא בְּתוֹךְ בֵּיתִי״ — הֲרֵי זוֹ תְּפִלַּת שָׁוְא.

E quem clama (hatzoek) pelo passado (lesheavar) — eis que (harei) é (zo) oração (tefilat)(shav) — isto é, suplicar a D-us para mudar algo que já ocorreu é considerado uma oração fútil, pois o passado não pode ser alterado. Estava (hayta) sua esposa (ishto) grávida (meuberet), e diz (omer): "Seja vontade (yehi ratzon) que dê à luz (sheteled) minha esposa (ishti) um homem (zachar)" — eis que (harei) é (zo) oração (tefilat)(shav) — isto é, uma vez que o sexo da criança já está determinado biologicamente, rezar por um resultado específico nesse ponto é fútil, ainda que a pessoa não saiba qual é o resultado. Vinha (hayá ba) pelo caminho (baderech) e ouviu (veshama) voz (kol) de gritaria (tzevachá) na cidade (bair), e diz (omer): "Seja vontade (yehi ratzon) que não (shelo) seja (tehei) dentro (betoch) de minha casa (beiti)" — eis que (harei) é (zo) oração (tefilat)(shav) — isto é, se o evento que causou a gritaria já ocorreu, rezar para que não tenha acontecido em sua própria casa é igualmente uma súplica sobre um fato já consumado.

Nota

Três exemplos de "oração vã" — súplica sobre algo já determinado ou já ocorrido: o passado irreversível, o sexo já formado do filho no ventre, e o evento já consumado por trás de uma gritaria ouvida à distância.

5Quem entra numa cidade grande reza duas vezes, uma na entrada e uma na saída; Ben Azai diz: quatro, duas na entrada e duas na saída; dá agradecimento pelo passado e clama pelo futuro
Bavli · 54a — Mishná
הַנִּכְנָס לִכְרַךְ מִתְפַּלֵּל שְׁתַּיִם, אַחַת בִּכְנִיסָתוֹ, וְאַחַת בִּיצִיאָתוֹ. בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר: אַרְבַּע, שְׁתַּיִם בִּכְנִיסָתוֹ, וּשְׁתַּיִם בִּיצִיאָתוֹ. נוֹתֵן הוֹדָאָה עַל שֶׁעָבַר וְצוֹעֵק עַל הֶעָתִיד.

Quem entra (hanichnas) numa cidade grande (lecharach) reza (mitpalel) duas vezes (shetayim), uma (achat) na sua entrada (bichnisato), e uma (achat) na sua saída (bitziato) — isto é, ao entrar numa metrópole, onde os riscos de perigo e injustiça são maiores, reza-se ao entrar e ao sair, pedindo proteção e agradecendo por ela. Ben Azai diz (omer): quatro (arba), duas (shetayim) na entrada (bichnisato), e duas (ushtayim) na saída (bitziato) — isto é, Ben Azai duplica o número de orações, exigindo tanto a súplica quanto o agradecimento em cada uma das duas ocasiões. Dá (noten) agradecimento (hodaá) pelo (al) passado (sheavar) e clama (tzoek) pelo (al) futuro (heatid) — isto é, a Mishná explica a razão da duplicação de Ben Azai: em cada uma das duas ocasiões, entrada e saída, há tanto um agradecimento pela proteção já recebida quanto uma súplica pela proteção futura, totalizando quatro orações.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
הנכנס לכרך – המהלך בדרך וצריך לעבור כרך ושם מצויים מושלים רעים ומחפשים עלילות: אחת בכניסתו – מתפלל שיכנס לשלום: ביציאתו – מתפלל שיצא לשלום: ארבע – כדמפרש נותן הודאה על שעבר וצועק על העתיד נמצאו ארבע כדמפרש בגמרא:

"Quem entra numa cidade grande" — aquele que caminha (hamehalech) pelo caminho (baderech) e precisa (vetzarich) passar (laavor) por uma cidade grande (kerach), e ali (vesham) se encontram (metzuim) governantes (moshelim) maus (raim) que buscam (umechapsim) pretextos (alilot) — isto é, Rashi explica o motivo do risco: cidades grandes concentram autoridades hostis que procuram acusações contra viajantes. "Uma na entrada" — reza (mitpalel) que (sheyikanes) entre (yikanes) em paz (leshalom). "Na saída" — reza (mitpalel) que (sheyetzé) saia (yetzé) em paz (leshalom). "Quatro" — conforme (kedimfaresh) se explica (demafaresh): dá (noten) agradecimento (hodaá) pelo passado (al sheavar) e clama (tzoek) pelo futuro (al heatid) — encontram-se (nimtzeu) quatro (arba), conforme (kedimfaresh) se explica (demafaresh) na Guemará (bagemara).

Nota

As orações de entrada e saída de uma cidade grande, e a explicação de Ben Azai para o número quatro: agradecimento pelo passado e súplica pelo futuro, em cada uma das duas ocasiões.

6Obrigado é o homem a abençoar pelo mal como abençoa pelo bem, pois está dito "amarás ao Eterno teu D'us com todo o teu coração": com teus dois impulsos; "e com toda a tua alma": mesmo que tome tua alma; "e com todos os teus bens": com todo o teu dinheiro; outra explicação: com toda medida que Ele te mede, agradece-Lhe
Bavli · 54a — Mishná
חַיָּיב אָדָם לְבָרֵךְ עַל הָרָעָה כְּשֵׁם שֶׁמְּבָרֵךְ עַל הַטּוֹבָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָהַבְתָּ אֵת ה׳ אֱלֹהֶיךָ בְּכׇל לְבָבְךָ וְגוֹ׳״. ״בְּכָל לְבָבְךָ״ — בִּשְׁנֵי יְצָרֶיךָ, בְּיֵצֶר טוֹב וּבְיֵצֶר הָרָע. ״וּבְכׇל נַפְשְׁךָ״ — אֲפִילּוּ הוּא נוֹטֵל אֶת נַפְשְׁךָ. ״וּבְכׇל מְאֹדֶךָ״ — בְּכָל מָמוֹנְךָ. דָּבָר אַחֵר: ״בְּכָל מְאֹדֶךָ״ — בְּכָל מִדָּה וּמִדָּה שֶׁהוּא מוֹדֵד לְךָ הֱוֵי מוֹדֶה לוֹ.

Obrigado (chayav) é o homem (adam) a abençoar (levarech) pelo (al) mal (hará) do mesmo modo (keshem) que (she) abençoa (mevarech) pelo (al) bem (hatová), pois está dito (shenneemar): "e amarás (veahavta) ao Eterno (Hashem) teu D'us (Elohecha) com todo (bechol) o teu coração (levavcha) etc." (Devarim 6:5). "Com todo (bechol) o teu coração (levavcha)" — com teus dois (bishnei) impulsos (yetzarecha), com o impulso (beyetzer) bom (tov) e com o impulso (uveyetzer) mau (hará) — isto é, a Mishná interpreta a duplicação da letra bet em "levavecha" (em vez de "libecha") como alusão aos dois impulsos do homem, ambos devendo servir ao amor a D-us. "E com toda (uvechol) a tua alma (nafshecha)" — mesmo que (afilu) Ele tome (hu notel) a tua alma (et nafshecha) — isto é, o amor a D-us deve persistir mesmo diante do sacrifício da própria vida. "E com todos (uvechol) os teus bens (meodecha)" — com todo (bechol) o teu dinheiro (mamoncha) — isto é, o amor a D-us deve se estender também ao sacrifício material. Outra explicação (davar acher): "com todos (bechol) os teus bens (meodecha)" — com toda (bechol) medida (midá) e medida (umidá) que (shehu) Ele te mede (moded lecha), sê (hevei) agradecido (modeh) a Ele (lo) — isto é, uma segunda leitura relaciona "meodecha" à raiz de "medida" (midá), ensinando que se deve agradecer a D-us por toda porção que Ele determina, seja ela qual for.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
חייב אדם לברך על הרעה כו' – מפרש בגמרא: דבר אחר בכל מאדך – מדות מדודות לך בין מדה טובה בין מדת פורענות:

"Obrigado é o homem a abençoar pelo mal etc." — explica-se (mefaresh) na Guemará (bagemara). "Outra explicação: com todos os teus bens" — medidas (midot) medidas (medudot) para ti (lecha), seja (bein) medida (midá) boa (tová), seja (bein) medida (midat) de castigo (puraanut) — isto é, Rashi resume o segundo sentido: qualquer que seja a medida — favorável ou punitiva — que D-us aplica à pessoa, cabe a ela reconhecê-la com gratidão.

Nota

Fundamento bíblico do princípio de abençoar pelo mal como pelo bem: a Mishná deriva de "com todo o teu coração", "com toda a tua alma" e "com todos os teus bens" a obrigação de amar e agradecer a D-us com ambos os impulsos, com a própria vida e com os próprios bens — e, alternativamente, por toda medida que Ele determina.

7Não trate com leviandade o homem diante do portão oriental, que está alinhado com o Santo dos Santos; e não entre no Monte do Templo com seu bastão, com seu sapato, com sua bolsa, e com pó sobre seus pés; e não o faça atalho; e cuspir, por argumento a fortiori
Bavli · 54a — Mishná
לֹא יָקֵל אָדָם אֶת רֹאשׁוֹ כְּנֶגֶד שַׁעַר הַמִּזְרָח שֶׁהוּא מְכוּוָּן כְּנֶגֶד בֵּית קׇדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים. וְלֹא יִכָּנֵס לְהַר הַבַּיִת בְּמַקְלוֹ, וּבְמִנְעָלוֹ, וּבְפוּנְדָּתוֹ, וּבְאָבָק שֶׁעַל רַגְלָיו. וְלָא יַעֲשֶׂנּוּ קַפַּנְדַּרְיָא. וּרְקִיקָה — מִקַּל וָחוֹמֶר.

Não trate com leviandade (lo yakel) o homem (adam) sua cabeça (rosho) diante do (keneged) portão (shaar) oriental (hamizrach), que (shehu) está alinhado (mechuvan) diante do (keneged) Santo dos Santos (beit kodshei hakodashim) — isto é, o portão leste do Monte do Templo está em linha direta com o local mais sagrado, o que exige comportamento especialmente respeitoso ao passar diante dele. E não entre (velo yikanes) no Monte (lehar) do Templo (habayit) com seu bastão (bemaklo), e com seu sapato (uvemanalo), e com sua bolsa (uvefundato), e com pó (uveavak) que está sobre (sheal) seus pés (raglav) — isto é, uma série de restrições que exigem entrar no espaço sagrado de modo humilde, sem os apetrechos comuns do dia a dia. E não o faça (velo yaasenu) atalho (kapandaria) — isto é, é proibido atravessar o Monte do Templo apenas como passagem mais curta entre dois pontos externos. E cuspir (uderikiká) — por argumento a fortiori (mikal vachomer) — isto é, se já essas restrições mais leves se aplicam, com muito mais razão se proíbe cuspir dentro do espaço sagrado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
לא יקל ראשו – לא ינהג קלות ראש: כנגד שער מזרחי – חוץ להר הבית אשר בחומה הנמוכה אשר לרגלי הבית במזרח לפי שכל השערים מכוונים זה כנגד זה שער מזרח שער עזרת נשים ושער עזרת ישראל ופתח האולם וההיכל ובית קדשי הקדשים בימי מקדש ראשון כשהיה אמה טרקסין: בפונדתו – חגור חלול ונותנין בו מעות: מק"ו – בגמרא מפרש ליה:

"Não trate com leviandade sua cabeça" — não se comporte (lo yinhag) com leviandade (kalut rosh). "Diante do portão oriental" — fora (chutz) do Monte (lehar) do Templo (habayit), no muro (bachomá) baixo (hanemuchá) que está aos pés (leraglei) do Templo (habayit) a leste (bemizrach), porque (lefi) todos (shekol) os portões (hashearim) estão alinhados (mechuvanim) um diante do outro (zeh keneged zeh): o portão (shaar) leste (mizrach), o portão (shaar) do pátio (ezrat) das mulheres (nashim), e o portão (shaar) do pátio (ezrat) de Israel (yisrael), e a entrada (petach) do Ulam (haulam) e do Heichal (vehaheichal) e o Santo dos Santos (beit kodshei hakodashim), nos dias (bimei) do primeiro Templo (mikdash rishon), quando (kesheeayta) havia (amá) a "amá tarksin" — uma medida específica de espessura de parede referida na tradição arquitetônica do primeiro Templo. "Com sua bolsa" — cinto (chagor) oco (chalul) onde se colocam (venotnin bo) moedas (maot). "Por argumento a fortiori" — na Guemará (bagemara) se explica (mefaresh) isto (leih).

Nota

Regras de respeito ao Monte do Templo: não tratar com leviandade diante do portão oriental (alinhado com o Santo dos Santos), não entrar com bastão, sapato, bolsa ou pó nos pés, não usá-lo como atalho — e, por argumento a fortiori, não cuspir dentro dele.

8Todos os que selavam as bênçãos no Templo diziam "até o mundo"; desde que os hereges corromperam e disseram que não há senão um mundo, instituíram que dissessem "de mundo a mundo"
Bavli · 54a — Mishná
כׇּל חוֹתְמֵי בְּרָכוֹת שֶׁבַּמִּקְדָּשׁ הָיוּ אוֹמְרִים ״עַד הָעוֹלָם״. מִשֶּׁקִּלְקְלוּ הַמִּינִין וְאָמְרוּ אֵין עוֹלָם אֶלָּא אֶחָד, הִתְקִינוּ שֶׁיְּהוּ אוֹמְרִים ״מִן הָעוֹלָם וְעַד הָעוֹלָם״.

Todos (kol) os que selavam (chotmei) bênçãos (berachot) no Templo (shebamikdash) costumavam dizer (hayu omrim): "até (ad) o mundo (haolam)" — isto é, a fórmula original de encerramento das bênçãos no Templo terminava com essa expressão simples, sem a duplicação usada hoje. Desde que (mishe) os hereges (haminin) corromperam (kilkelu) e disseram (veamru) que não há (ein) mundo (olam) senão (ela) um (echad) — isto é, quando surgiram hereges que negavam a existência do Mundo Vindouro, sustentando que existe apenas este mundo presente, instituíram (hitkinu) que (sheyehu) dissessem (omrim): "de (min) o mundo (haolam) e até (vead) o mundo (haolam)" — isto é, a fórmula foi expandida precisamente para afirmar, contra essa heresia, a existência de dois mundos — o presente e o vindouro.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
כל חותמי ברכות שבמקדש היו אומרים עד העולם – במסכת תענית (פ"ב דף טז:) אמרינן אין עונין אמן במקדש המברך אומר בסוף כל ברכה ברוך אתה ה' אלהי ישראל מן העולם ועד העולם ברוך חונן הדעת וכן בכולם והעונין אומרים ברוך שם כבוד מלכותו לעולם ועד וילפינן לה מקרא דתפלת עזרא וסיעתו ואשמעינן הכא דבמקדש ראשון לא היו אומרים אלא ברוך ה' אלהי ישראל עד מן העולם: משקלקלו הצדוקים – ואמרו אין עולם אלא זה: התקינו – עזרא וסיעתו שיהו אומרים מן העולם ועד העולם לומר ששני עולמות יש להוציא מלב הצדוקים הכופרים בתחיית המתים:

"Todos os que selavam bênçãos no Templo diziam 'até o mundo'" — em Massechet Taanit (perek 2, 16b) dizemos (amrinan) que não se responde (ein onin) amém (amen) no Templo (bamikdash); quem abençoa (hamevarech) diz (omer) ao final (besof) de cada (kol) bênção (berachá) "Bendito (baruch) és Tu, Eterno (Hashem), D'us de Israel (Elohei Yisrael), de (min) o mundo (haolam) e até (vead) o mundo (haolam), Bendito (baruch) Que Concede (chonen) o conhecimento (hadaat)", e assim (vechen) em todas (bechulan), e os que respondem (vehaonin) dizem (omrim): "Bendito (baruch) o Nome (shem) da glória (kevod) de Seu reino (malchuto) para sempre (leolam vaed)", e derivamos (veyalfinan) isso (lah) do versículo (mikra) da oração (detefilat) de Ezra e sua comitiva (vesiato), e isso nos ensina (veashmainan) aqui (hacha) que (deve) no primeiro Templo (mikdash rishon) não se dizia (lo hayu omrim) senão (ela) "Bendito (baruch) Eterno (Hashem) D'us de Israel (Elohei Yisrael)" até (ad) "de (min) o mundo (haolam)". "Desde que os saduceus corromperam" — e disseram (veamru) que não há (ein) mundo (olam) senão (ela) este (zeh). "Instituíram" — Ezra e sua comitiva (vesiato), que (sheyehu) dissessem (omrim) "de (min) o mundo (haolam) e até (vead) o mundo (haolam)", para dizer (lomar) que dois (sheshnei) mundos (olamot) existem (yesh), para retirar (lehotzi) do coração (milev) dos saduceus (hatzedukim), hereges (hakoferim) que negam a ressurreição (bitchiyat hametim) dos mortos.

Nota

A alteração histórica na fórmula final das bênçãos no Templo, de "até o mundo" para "de mundo a mundo": Rashi identifica os hereges como os saduceus, que negavam a ressurreição dos mortos, e explica que a expansão da fórmula visava afirmar a existência de dois mundos contra essa negação.

9E instituíram que o homem saudasse seu próximo com o Nome, como está dito sobre Boaz; e diz: "o Eterno esteja contigo, valente herói"; e diz: "não desprezes, pois envelheceu tua mãe"; e diz: "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá"; Rabi Natan diz: "anularam Tua Torá" por causa de "é tempo de agir pelo Eterno"
Bavli · 54a — Mishná
וְהִתְקִינוּ שֶׁיְּהֵא אָדָם שׁוֹאֵל אֶת שְׁלוֹם חֲבֵרוֹ בַּשֵּׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִנֵּה בֹעַז בָּא מִבֵּית לֶחֶם וַיֹּאמֶר לַקּוֹצְרִים ה׳ עִמָּכֶם וַיֹּאמְרוּ לוֹ יְבָרֶכְךָ ה׳״. וְאוֹמֵר: ״ה׳ עִמְּךָ גִּבּוֹר הֶחָיִל״. וְאוֹמֵר: ״אַל תָּבוּז כִּי זָקְנָה אִמֶּךָ״. וְאוֹמֵר: ״עֵת לַעֲשׂוֹת לַה׳ הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ״. רַבִּי נָתָן אוֹמֵר: ״הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ״ מִשּׁוּם ״עֵת לַעֲשׂוֹת לַה׳״.

E instituíram (vehitkinu) que (sheyehei) o homem (adam) saudasse (shoel) a paz (shalom) de seu próximo (chaveiro) com o Nome (bashem) — isto é, invocando explicitamente o Nome Divino na saudação cotidiana, pois está dito (shenneemar): "e eis (vehiné) que Boaz veio (ba) de Beit Lechem (mibeit lechem) e disse (vayomer) aos ceifeiros (lakotzrim): 'o Eterno (Hashem) esteja convosco (imachem)', e disseram-lhe (vayomru lo): 'te abençoe (yevarechecha) o Eterno (Hashem)'" (Rut 2:4). E diz (veomer): "o Eterno (Hashem) está contigo (imcha), valente (gibor) herói (hechayil)" (Shoftim 6:12, dito pelo anjo a Gidon). E diz (veomer): "não (al) desprezes (tavuz), pois (ki) envelheceu (zakná) tua mãe (imecha)" (Mishlei 23:22, citado para reforçar a importância de seguir o costume dos antigos). E diz (veomer): "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (la Hashem), anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" (Tehilim 119:126) — isto é, o versículo é lido no sentido de que, às vezes, é permitido "anular" uma norma da Torá (como evitar mencionar o Nome Divino em saudações comuns) precisamente para agir em prol do Eterno, ou seja, para fortalecer a fraternidade entre as pessoas. Rabi Natan diz (omer): "anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" por causa de (mishum) "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (la Hashem)" — isto é, Rabi Natan inverte a ordem de leitura do versículo: às vezes é necessário anular preceitos da Torá justamente porque chegou o momento de agir em prol do Eterno.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Mishná, Bavli 54a
שיהא אדם שואל לשלום חבירו בשם – בשמו של הקב"ה ולא אמרינן מזלזל הוא בכבודו של מקום בשביל כבוד הבריות להוציא שם שמים עליו ולמדו מבעז שאמר ה' עמכם ומן המלאך שאמר לגדעון ה' עמך גבור החיל: ואומר אל תבוז כי זקנה אמך – למוד מדברי זקני אומתך לעשות מה שראית שעשו הם ובגמר' מפרש מאי ואומר: ואומר עת לעשות לה' הפרו תורתך – פעמים שמבטלים דברי תורה כדי לעשות לה' אף זה המתכוין לשאול לשלום חברו זהו רצונו של מקום שנאמ' בקש שלום ורדפהו מותר להפר תורה ולעשות דבר הנראה אסור:

"Que o homem saudasse seu próximo com o Nome" — com o Nome (bishmo) do Santo, Bendito Seja (hakadosh baruch hu), e não dizemos (velo amrinan) que ele desrespeita (mezalzel) a honra (bichvodo) do Onipresente (shel makom) por causa da (bishvil) honra (kevod) das pessoas (haberiyot), ao invocar (lehotzi) o Nome (shem) do Céu (shamayim) sobre ele (alav); e aprendemos (velamdu) isso de Boaz, que (sheamar) disse "o Eterno (Hashem) convosco (imachem)", e do anjo (min hamalach) que (sheamar) disse a Gidon: "o Eterno (Hashem) contigo (imcha), valente herói (gibor hechayil)". "E diz: não desprezes, pois envelheceu tua mãe" — aprenda (lamud) das palavras (midivrei) dos anciãos (ziknei) de tua nação (umatecha) a fazer (laasot) o que (ma) viste (sheraita) que eles fizeram (sheasu hem), e na Guemará (uvagemara) se explica (mefaresh) o que (mai) significa "e diz (veomer)". "E diz: é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá" — às vezes (peamim) se anulam (shemevatlim) palavras (divrei) de Torá (torá) para agir (kedei laasot) pelo Eterno (la Hashem); também (af) isto (zeh), aquele que tem a intenção (hamitkaven) de saudar (lishol) a paz (leshalom) de seu próximo (chaveiro), esta (zehu) é a vontade (retzono) do Onipresente (shel makom), pois está dito (shenneemar) "busca (bakesh) a paz (shalom) e persegue-a (veradfehu)", é permitido (mutar) anular (lehafer) a Torá (torá) e fazer (velaasot) algo (davar) que (hanireh) parece (nireh) proibido (asur).

Nota

Instituição de saudar o próximo com o Nome Divino, ilustrada pelos versículos de Boaz e do anjo a Gidon, e pela exortação a seguir o costume dos antigos; e a leitura, em duas ordens possíveis (a Mishná e Rabi Natan), do versículo "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá", justificando a exceção da regra geral de não mencionar o Nome em vão.

Guemará

גְּמָרָא
10De onde essas palavras? Disse Rabi Yochanan, pois diz o versículo: "e disse Yitro: bendito o Eterno que salvou etc."
Bavli · 54a — Guemará
גְּמָ׳ מְנָא הָנֵי מִילֵּי? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר קְרָא: ״וַיֹּאמֶר יִתְרוֹ בָּרוּךְ ה׳ אֲשֶׁר הִצִּיל וְגוֹ׳״.

Guemará (gemara). De onde (mena) essas (hanei) palavras (milei)? — isto é, a Guemará abre o novo perek perguntando qual é a fonte bíblica para a obrigação de abençoar diante de um milagre. Disse (amar) Rabi Yochanan, pois diz (deamar) o versículo (kra): "e disse (vayomer) Yitro: bendito (baruch) o Eterno (Hashem) que (asher) salvou (hitzil) etc." (Shemot 18:10) — isto é, Rabi Yochanan encontra a fonte na própria reação de Yitro ao ouvir do milagre da salvação de Israel do Egito, que ele expressa como uma bênção formal a D-us.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54a
גמ' ה"ג מנלן דמברכינן אניסא אמר רבי יוחנן דאמר קרא ויאמר יתרו ברוך ה' אשר הציל אתכם וגו':

Assim (hachi) se lê (garsinan): de onde (menalan) temos que (demevarchinan) se abençoa (mevarchinan) sobre o milagre (aniysa)? Disse Rabi Yochanan, pois diz (deamar) o versículo (kra): "e disse Yitro: bendito o Eterno que salvou a vós etc." — Rashi ajusta a formulação exata da pergunta e confirma a citação do versículo completo.

Nota

A Guemará abre o Perek HaRoeh buscando a fonte bíblica para a bênção sobre o milagre: Rabi Yochanan a encontra na bênção de Yitro ao ouvir da salvação de Israel.

11Sobre milagre de muitos abençoamos, sobre milagre de um indivíduo não abençoamos?! Mas aquele homem que ia além do Jordão, caiu sobre ele um leão, foi feito para ele milagre e foi salvo dele. Veio perante Rava, e disse-lhe: toda vez que chegares lá, abençoa "que me fez milagre neste lugar"
Bavli · 54a — Guemará
אַנִּיסָּא דְרַבִּים מְבָרְכִינַן, אַנִּיסָּא דְיָחִיד לָא מְבָרְכִינַן?! וְהָא הָהוּא גַּבְרָא דַּהֲוָה קָא אָזֵיל בַּעֲבַר יַמִּינָא. נְפַל עֲלֵיהּ אַרְיָא, אִתְעֲבִיד לֵיהּ נִיסָּא וְאִיתַּצַּל מִינֵּיהּ. אֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּרָבָא, וַאֲמַר לֵיהּ: כׇּל אִימַּת דְּמָטֵית לְהָתָם — בָּרֵיךְ ״בָּרוּךְ שֶׁעָשָׂה לִי נֵס בַּמָּקוֹם הַזֶּה״.

Sobre milagre (aniysa) de muitos (derabim) abençoamos (mevarchinan), sobre milagre (aniysa) de um indivíduo (deyachid) não (la) abençoamos (mevarchinan)?! — isto é, a Guemará questiona: será que a bênção sobre o milagre se aplica apenas a milagres coletivos, como o de Yitro, e não a milagres pessoais? E não (veha) foi aquele (hahu) homem (gavra) que (dahavá) ia (azel) além (baavar) do Jordão (yamina) — isto é, uma região específica do outro lado do rio. Caiu (nefal) sobre ele (alei) um leão (arya), foi feito (itavid) para ele (leih) milagre (nisa) e foi salvo (itatzal) dele (mineih). Veio (atá) perante (lekamei) Rava, e disse-lhe (vaamar leih): toda (kol) vez (imat) que (de) chegares (matit)(lehatam) — abençoa (bareich): "Bendito (baruch) … que me fez (sheasá li) milagre (nes) neste lugar (bamakom hazé)" — isto é, a resposta prática de Rava demonstra que também o milagre pessoal exige bênção, ao menos por parte de quem o vivenciou, sempre que retornar àquele lugar.

Nota

Objeção resolvida por um caso concreto: o homem salvo de um leão além do Jordão foi instruído por Rava a abençoar sempre que voltasse ao local — confirmando que também o milagre individual gera obrigação de bênção, ao menos para quem o experimentou.

12E Mar, filho de Ravina, ia no vale de Aravot e teve sede de água; foi feito para ele milagre, foi criada para ele uma fonte de água, e bebeu
Bavli · 54a — Guemará
וּמָר בְּרֵיהּ דְּרָבִינָא הֲוָה קָאָזֵיל בְּפַקְתָּא דַעֲרָבוֹת וּצְחָא לְמַיָּא. אִתְעֲבִיד לֵיהּ נִיסָּא, אִיבְּרִי לֵיהּ עֵינָא דְמַיָּא, וְאִישְׁתִּי.

E Mar, filho de (breih) Ravina, ia (havá kaazel) no vale (befakta) de Aravot, e teve sede (utzchá) de água (lemaya) — isto é, segundo episódio, dessa vez com o filho de Ravina, ilustrando outro milagre pessoal. Foi feito (itavid) para ele (leih) milagre (nisa), foi criada (ivri) para ele (leih) uma fonte (eina) de água (demaya), e bebeu (veishti) — isto é, uma fonte de água surgiu miraculosamente para saciar sua sede.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54a
בפקתא – בקעה: ערבות – שם מקום: וצחא למיא – צמא למים:

"No vale" — um vale (bikaá). "Aravot" — nome (shem) de um lugar (makom). "E teve sede de água" — teve sede (tzamé) de água (lemayim).

Nota

Segundo episódio de milagre individual: o filho de Ravina, com sede no vale de Aravot, teve uma fonte de água criada miraculosamente para ele.

13E mais, certa vez ia no mercado de Machoza e caiu sobre ele um camelo enlouquecido; abriu-se para ele uma parede, e entrou nela. Quando chegou a Aravot abençoou "que me fez milagre em Aravot e com o camelo"; quando chegou ao mercado de Machoza abençoou "que me fez milagre com o camelo e em Aravot"! Disseram: sobre milagre de muitos, todos são obrigados a abençoar; sobre milagre de um indivíduo, ele é obrigado a abençoar
Bavli · 54a — Guemará
וְתוּ, זִמְנָא חֲדָא הֲוָה קָאָזֵיל בְּרַסְתְּקָא דְמָחוֹזָא וּנְפַל עֲלֵיהּ גַּמְלָא פְּרִיצָא. אִיתְפָּרַקָא לֵיהּ אָשִׁיתָא, עָל לְגַוַּהּ. כִּי מְטָא לַעֲרָבוֹת בָּרֵיךְ: ״בָּרוּךְ … שֶׁעָשָׂה לִי נֵס בַּעֲרָבוֹת וּבְגָמָל״. כִּי מְטָא לְרַסְתְּקָא דְמָחוֹזָא בָּרֵיךְ: ״בָּרוּךְ … שֶׁעָשָׂה לִי נֵס בְּגָמָל וּבַעֲרָבוֹת״! אָמְרִי: אַנִּיסָּא דְרַבִּים — כּוּלֵּי עָלְמָא מִיחַיְּיבִי לְבָרוֹכֵי, אַנִּיסָּא דְיָחִיד — אִיהוּ חַיָּיב לְבָרוֹכֵי.

E mais (vetu), certa vez (zimna chada) ia (havá kaazel) no mercado (berastaka) de Machoza, e caiu (unefal) sobre ele (alei) um camelo (gamla) enlouquecido (peritza) — isto é, terceiro episódio, com um camelo furioso avançando sobre ele no mercado. Abriu-se (itparka) para ele (leih) uma parede (ashita), entrou (al) para dentro dela (legavá) — isto é, miraculosamente uma parede se abriu para lhe dar refúgio do camelo. Quando (ki) chegou (meta) a Aravot, abençoou (bareich): "Bendito (baruch) … que me fez (sheasá li) milagre (nes) em Aravot e com o camelo (uvegamal)" — isto é, mencionando ambos os milagres, o da fonte e o da parede, na ordem em que os experimentou originalmente. Quando (ki) chegou (meta) ao mercado (lerastaka) de Machoza, abençoou (bareich): "Bendito (baruch) … que me fez (sheasá li) milagre (nes) com o camelo (begamal) e em Aravot" — isto é, invertendo a ordem conforme o lugar em que se encontrava, mencionando primeiro o milagre local! Disseram (amri): sobre milagre (aniysa) de muitos (derabim) — todo (kulei) o mundo (alma) é obrigado (michayvei) a abençoar (levorchei); sobre milagre (aniysa) de um indivíduo (deyachid) — ele (ihu) é obrigado (chayav) a abençoar (levorchei) — isto é, conclusão final: enquanto o milagre coletivo obriga a todos a abençoar, o milagre individual obriga apenas a própria pessoa que o vivenciou.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54a
ברסתקא – בשוק: גמלא פריצא – גמל משוגע שעסקיו רעים: אתפרקא ליה אשיתא – נפלה חומת בית שהיה סמוך לו ונכנס לתוך הבית מפני הגמל:

"No mercado" — no mercado (bashuk). "Camelo enlouquecido" — camelo (gamal) louco (meshuga) cujos (sheasakav) atos (asakav) são maus (raim) — isto é, um camelo perigoso e imprevisível. "Abriu-se para ele uma parede" — caiu (naflá) a muralha (chomat) de uma casa (bayit) que (shehayá) estava próxima (samuch) a ele (lo), e entrou (venichnas) para dentro (letoch) da casa (habayit) por causa (mipnei) do camelo (hagamal) — isto é, Rashi explica o mecanismo do milagre: uma parede de uma casa próxima desmoronou, abrindo caminho para que ele escapasse do camelo entrando na casa.

Nota

Terceiro episódio (o camelo enlouquecido e a parede que se abriu) e conclusão da Guemará: o milagre coletivo obriga todos a abençoar; o milagre individual obriga apenas quem o vivenciou — e a ordem de menção na bênção varia conforme o lugar onde a pessoa se encontra.

14Ensinaram os sábios: aquele que vê as passagens do mar, e as passagens do Jordão, as passagens dos ribeiros de Arnon, as pedras de granizo na descida de Beit Choron, a pedra que Og, rei de Bashan, quis lançar sobre Israel, e a pedra sobre a qual Moshé se sentou quando Yehoshua fez guerra contra Amalek, e a esposa de Lot, e a muralha de Yericho que foi engolida em seu lugar — sobre todas elas deve dar agradecimento e louvor perante o Onipresente
Bavli · 54a — Guemará
תָּנוּ רַבָּנַן: הָרוֹאֶה מַעְבְּרוֹת הַיָּם, וּמַעְבְּרוֹת הַיַּרְדֵּן, מַעְבְּרוֹת נַחֲלֵי אַרְנוֹן, אַבְנֵי אֶלְגָּבִישׁ בְּמוֹרַד בֵּית חוֹרוֹן, וְאֶבֶן שֶׁבִּקֵּשׁ לִזְרוֹק עוֹג מֶלֶךְ הַבָּשָׁן עַל יִשְׂרָאֵל, וְאֶבֶן שֶׁיָּשַׁב עָלֶיהָ מֹשֶׁה בְּשָׁעָה שֶׁעָשָׂה יְהוֹשֻׁעַ מִלְחָמָה בַּעֲמָלֵק, וְאִשְׁתּוֹ שֶׁל לוֹט, וְחוֹמַת יְרִיחוֹ שֶׁנִּבְלְעָה בִּמְקוֹמָהּ — עַל כּוּלָּן צָרִיךְ שֶׁיִּתֵּן הוֹדָאָה וָשֶׁבַח לִפְנֵי הַמָּקוֹם.

Ensinaram (tanu) os sábios (rabanan): aquele que vê (haroeh) as passagens (maavrot) do mar (hayam) — isto é, inicia-se aqui uma baraita que lista lugares concretos de milagre, retomando o tema com que a Mishná abriu o perek, e as passagens (umaavrot) do Jordão (hayarden), as passagens (maavrot) dos ribeiros (nachalei) de Arnon, as pedras (avnei) de granizo (elgavish) na descida (bemorad) de Beit Choron, e a pedra (veeven) que (shebikesh) quis (bikesh) lançar (lizrok) Og, rei (melech) de Bashan, sobre (al) Israel (yisrael), e a pedra (veeven) sobre a qual (sheyashav aleha) se sentou Moshé na hora (besha'á) em que (she) fez (asá) Yehoshua guerra (milchamá) contra Amalek, e a esposa (veishto) de Lot, e a muralha (vechomat) de Yericho que (shenivleá) foi engolida (nivleá) em seu lugar (bimkomá) — sobre todas elas (al kulan) precisa (tzarich) que (sheyiten)(yiten) agradecimento (hodaá) e louvor (vashevach) perante (lifnei) o Onipresente (hamakom) — isto é, a baraita reúne uma série de lugares específicos ligados a episódios bíblicos notáveis, todos exigindo reconhecimento e louvor a D-us.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 54a
מעברות הים – מקום שעברו ישראל בים סוף: ומעברות הירדן – בימי יהושע: מעברות נחלי ארנון – לקמן מפרש מאי ניסא: במורד בית חורון – בימי יהושע היה בספר יהושע: ואבן שזרק עוג – לקמן מפרש:

"As passagens do mar" — lugar (makom) onde (she) passaram (avru) Israel (yisrael) pelo Mar (bayam) de Suf (suf). "E as passagens do Jordão" — nos dias (bimei) de Yehoshua. "As passagens dos ribeiros de Arnon" — adiante (lekaman) se explica (mefaresh) qual (mai) é o milagre (nisa). "Na descida de Beit Choron" — nos dias (bimei) de Yehoshua, foi (haya), no Livro (besefer) de Yehoshua. "E a pedra que Og lançou" — adiante (lekaman) se explica (mefaresh).

Nota

Início da baraita central sobre os lugares de milagre que exigem agradecimento e louvor: as passagens do mar e do Jordão, os ribeiros de Arnon, as pedras de granizo de Beit Choron, a pedra de Og, a pedra de Moshé na guerra contra Amalek, a esposa de Lot e a muralha de Yericho.

15Está bem quanto às passagens do mar, pois está escrito "e entraram os filhos de Israel pelo meio do mar em seco"; as passagens do Jordão, pois está escrito "e os sacerdotes que carregavam a arca do pacto do Eterno pararam em seco no meio do Jordão etc."
Bavli · 54a — Guemará
בִּשְׁלָמָא מַעְבְּרוֹת הַיָּם, דִּכְתִיב: ״וַיָּבֹאוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל בְּתוֹךְ הַיָּם בַּיַּבָּשָׁה״. מַעְבְּרוֹת הַיַּרְדֵּן, דִּכְתִיב: ״וַיַּעַמְדוּ הַכֹּהֲנִים נֹשְׂאֵי הָאָרוֹן בְּרִית ה׳ בֶּחָרָבָה בְּתוֹךְ הַיַּרְדֵּן הָכֵן וְכׇל יִשְׂרָאֵל עֹבְרִים בֶּחָרָבָה עַד אֲשֶׁר תַּמּוּ כׇּל הַגּוֹי לַעֲבוֹר אֶת הַיַּרְדֵּן״.

Está bem (bishlama) quanto às passagens (maavrot) do mar (hayam), pois está escrito (dichtiv): "e entraram (vayavou) os filhos (benei) de Israel (yisrael) pelo meio (betoch) do mar (hayam) em seco (bayabashá)" (Shemot 14:22) — isto é, este milagre tem fonte bíblica explícita e clara. As passagens (maavrot) do Jordão (hayarden), pois está escrito (dichtiv): "e os sacerdotes (hakohanim) que carregavam (nosei) a arca (haaron) do pacto (brit) do Eterno (Hashem) pararam (vayaamdu) em seco (becharavá) no meio (betoch) do Jordão (hayarden), firmemente (hachen), e todo (vechol) Israel (yisrael) passava (ovrim) em seco (becharavá) até que (ad asher) terminou (tamu) toda (kol) a nação (hagoy) de passar (laavor) o Jordão (hayarden)" (Yehoshua 3:17) — isto é, também este milagre tem fonte explícita, no relato da travessia do Jordão sob Yehoshua.

Nota

Confirmação bíblica direta das duas primeiras passagens listadas: a do mar (Shemot 14:22) e a do Jordão (Yehoshua 3:17).

16Mas as passagens dos ribeiros de Arnon, de onde as temos? Pois está escrito "por isso se diz no Livro das Guerras do Eterno: Et-Vahev em Sufá etc."; ensinou-se: "Et-Vahev em Sufá" — eram dois leprosos que caminhavam no final do acampamento de Israel; quando Israel passava, vinham os emorreus
Bavli · 54a — Guemará
אֶלָּא מַעְבְּרוֹת נַחֲלֵי אַרְנוֹן מְנָלַן? — דִּכְתִיב: ״עַל כֵּן יֵאָמַר בְּסֵפֶר מִלְחֲמֹת ה׳ אֶת וָהֵב בְּסוּפָה וְגוֹ׳״. תָּנָא: ״אֶת וָהֵב בְּסוּפָה״ — שְׁנֵי מְצוֹרָעִים הָיוּ, דַּהֲווֹ מְהַלְּכִין בְּסוֹף מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל. כִּי הֲווֹ קָא חָלְפִי יִשְׂרָאֵל אֲתוֹ אֱמוֹרָאֵי.

Mas (ela) as passagens (maavrot) dos ribeiros (nachalei) de Arnon, de onde (mnalan) as temos (mnalan)? — isto é, este terceiro caso, ao contrário dos dois primeiros, não tem uma fonte tão evidente, e por isso a Guemará precisa buscá-la — pois está escrito (dichtiv): "por isso (al ken) se diz (yeamer) no Livro (besefer) das Guerras (milchamot) do Eterno (Hashem): Et-Vahev (et vahev) em (besufá) Sufá etc." (Bamidbar 21:14) — um versículo obscuro, cujo sentido a Guemará passará a explicar. Ensinou-se (taná): "Et-Vahev (et vahev) em (besufá) Sufá" — dois (shenei) leprosos (metzoraim) eram (hayu), que (dahavu) caminhavam (mehalchin) no final (besof) do acampamento (machaneh) de Israel (yisrael) — isto é, a baraita interpreta as palavras enigmáticas do versículo como referência a dois homens leprosos que, por sua impureza, eram obrigados a caminhar na retaguarda do acampamento israelita. Quando (ki) Israel (yisrael) estava (havu) passando (kachalfi), vinham (ato) os emorreus (emoraei) — isto é, o relato prossegue narrando como os emorreus aproveitavam a passagem de Israel para tentar emboscá-los, preparando uma cilada nesse ponto do caminho, cujo desfecho a Guemará continuará a narrar no próximo daf.

Nota

Início da explicação do terceiro caso, mais obscuro: o versículo do Livro das Guerras do Eterno é lido pela baraita como referência a dois leprosos na retaguarda do acampamento de Israel, dando início ao relato da emboscada armada pelos emorreus nos ribeiros de Arnon — narrativa que prossegue em 54b.