O daf abre com dois episódios curtos: o Imperador romano pede a Rabi Yehoshua ben Chananya que lhe diga o que verá em seu próprio sonho, e recebe uma resposta sobre a humilhação futura de Roma pelos persas — que de fato se cumpre, pois ele já estivera pensando nisso o dia todo; o mesmo ocorre entre o rei Shabur da Pérsia e Shmuel, com uma predição sobre os romanos. O grosso do daf é ocupado pela extensa narrativa de Bar Hedya, intérprete de sonhos que dava interpretação favorável a quem lhe pagava e desfavorável a quem não pagava. Abaye, que lhe pagava, e Rava, que não lhe pagava, contam-lhe uma longa série de sonhos idênticos ou semelhantes — sobre um boi abatido, filhos e filhas dados a "outro povo", comer pão com alegria, semente abundante, oliveiras, o povo da terra vendo sobre eles o Nome do Eterno, alface e carne sobre a boca de barris, um barril pendurado numa tamareira, uma romã brotando, um barril caído num poço, um jumentinho zurrando junto ao cocho, e o vav de "peter chamor" arrancado dos tefilin — e Bar Hedya interpreta cada um deles de modo oposto para os dois, sempre para o bem de Abaye e para o mal de Rava, e assim se cumpre em cada caso. Segue o episódio em que Rava tenta separar dois cegos brigando e é ferido por eles, aceitando o resultado. Por fim, Rava vai sozinho a Bar Hedya com mais sonhos — sobre a porta externa caída, os dentes caindo, duas pombas voando, dois nabos arrancados —, paga-lhe, e passa a receber interpretações favoráveis, até que o livro de Bar Hedya cai de suas mãos durante uma viagem de barco e Rava descobre nele escrito que todos os sonhos seguem a boca de quem os interpreta; furioso, Rava o amaldiçoa por tê-lo atormentado sem necessidade, poupando apenas a sorte da filha de Rav Chisda, sua esposa. O daf fecha com Bar Hedya decidindo exilar-se para expiar a maldição, e o início do episódio final entre ele e o chefe do tesouro do rei romano, a quem interpreta sonhos sucessivos sobre uma agulha entrando nos dedos.
Disse-lhe (amar leih) o Imperador (keisar) a Rabi Yehoshua ben Chananya: dissestes (amriytu) que (de) sois muito sábios (chachimtu tuva), dize-me (eima li) o que (mai) verei (chazeina) em meu sonho (bechelmai). Disse-lhe (amar leih): verás (chazeit) que (de) os persas (parsaei) te farão escravo (mishachari lach) e te porão coleiras (garvi bach), e pastorearão (raayi bach) em ti animais imundos (shiktzei) com um bastão (bechutra) de ouro (dedahava) — isto é, Rabi Yehoshua prediz ao Imperador que será humilhado a ponto de ser tratado como escravo pelos persas, forçado a trabalhos servis, e que animais impuros pastarão sobre ele, conduzidos com um bastão dourado, sinal de que os próprios opressores serão ricos e ele, aviltado. Ele meditou (harhar) nisso todo (kuleih) o dia (yoma), e à noite (uleurta) o viu (chaza) — isto é, a Guemará explica por que a predição se cumpriu exatamente: o Imperador passou o dia inteiro pensando nessas palavras, e por isso, à noite, sonhou precisamente aquilo, confirmando o princípio de que só se sonha com o que já ocupava os próprios pensamentos.
"Imperador" — o rei (melech) de Roma (romi), e havia (vehaya) disputa (tigar) entre ele e os persas (parsiyim). "O que verei" — o que (mai) verei (ereh) à noite (balayla) em sonho (bechalom). "Os persas te farão escravo" — fazem (osim) em ti (bach) trabalho (avodat) do rei (hamelech), como (kemo) em "não achou um asno de um deles pela manhã (shacharit)", e a expressão (velashon) dos Sábios (chachamim): "aproxima-te (hadbek) ao trabalho servil (leshichur) e curvar-se-ão (veyishtachavu) a ti". "Shabur" — o rei (melech) da Pérsia (paras). "E te farão prisioneiro" — te despojarão (yishloch) em cativeiro (beshvi). "E moerão em ti sementes duras" — te obrigarão (yachfu otcha) a moer (litchon) caroços (garinei) de tâmaras (temarim) — isto é, Rashi identifica os dois monarcas históricos e explica cada expressão aramaica da predição, mostrando que ambas as imagens — o pastoreio com bastão de ouro e a moagem de caroços — descrevem trabalhos servis e humilhantes impostos aos vencidos.
Episódio do Imperador romano e Rabi Yehoshua ben Chananya: a predição de humilhação futura pelos persas se cumpre porque o próprio Imperador meditou nela o dia inteiro antes de sonhar à noite.
Disse-lhe (amar leih) o rei (malka) Shabur (shabur) a Shmuel (lishmuel): dissestes (amriytu) que (de) sois muito sábios (chachimtu tuva), dize-me (eima li) o que (mai) verei (chazeina) em meu sonho (bechelmai). Disse-lhe (amar leih): verás (chazeit) que (de) virão (atu) os romanos (romaei) e te farão prisioneiro (shavu lach), e moerão (tachani bach) em ti sementes duras (kashyayta) num moinho (berichyaya) de ouro (dedahava) — isto é, Shmuel prediz ao rei persa Shabur, em paralelo exato ao episódio anterior, que os romanos o subjugarão e o forçarão a moer grãos duros num moinho de ouro. Ele meditou (harhar) nisso todo (kuleih) o dia (yoma), e à noite (uleurta) o viu (chaza).
Episódio paralelo entre o rei persa Shabur e Shmuel: a mesma estrutura do episódio anterior, invertendo os papéis entre romanos e persas, confirmando de novo que o sonho segue os pensamentos do dia.
Bar Hedya era intérprete (mefashar) de sonhos (chelmei). Quem (man) lhe dava (yaheiv leih) pagamento (agra) — ele interpretava (mefashar leih) para o bem (limaliyuta), e quem (uman) não (la) lhe dava (yaheiv leih) pagamento (agra) — ele interpretava (mefashar leih) para o mal (ligriyuta) — isto é, apresenta-se o intérprete de sonhos cuja leitura dependia inteiramente do pagamento recebido, ilustrando na prática o ensinamento anterior de que todos os sonhos seguem a boca de quem os interpreta. Abaye e Rava viram (chazo) um sonho (chelma) — o mesmo sonho, ou sonhos de conteúdo idêntico. Abaye lhe deu (yaheiv leih) uma moeda (zuza), e Rava não (la) lhe deu (yaheiv leih). Disseram-lhe (amri leih): lemos (akrinan) em nossos sonhos (bechelmin): "teu boi (shorcha) será abatido (tavuach) diante de teus olhos (leeinecha), etc." (Devarim 28:31). A Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se perderá (pased), e não (vela) te aproveitará (ahani lach) comer (lemeichal) por causa da angústia (meutzba) de teu coração (delibach). A Abaye disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) prosperará (marvach), e não (vela) te aproveitará (ahani lach) comer (lemeichal) por causa da alegria (mechedva) de teu coração (delibach) — isto é, o mesmo versículo bíblico é lido de modo oposto para cada um: a Rava anuncia prejuízo tão grande que a tristeza lhe tirará o apetite, e a Abaye anuncia lucro tão grande que a alegria lhe tirará o apetite.
"Teu negócio se perderá" — se estragará (titkalkel) tua mercadoria (parkematya shelach). "E não te aproveitará comer" — por causa de (mitoch) tua angústia (tzaarcha), não (lo) terá gosto (yitam lecha) nenhum alimento (shum maachal). "Teu negócio prosperará" — e por causa de (umitoch) tua alegria (simchatcha), não (lo) desejarás (titaveh) comer (leechol), pois estarás saciado (shetehe save) por tua alegria (besimchatcha) — isto é, Rashi explica que, em ambos os casos, a emoção extrema — seja tristeza, seja alegria — tira o apetite, mas por razões opostas.
Apresenta-se Bar Hedya, intérprete de sonhos que dava leitura favorável a quem pagava e desfavorável a quem não pagava; inicia-se a série de sonhos idênticos de Abaye (que pagava) e Rava (que não pagava), interpretados de modo oposto a partir do mesmo versículo sobre o boi abatido.
Disseram-lhe (amri leih): lemos (akrinan): "filhos (banim) e filhas (uvanot) gerarás (tolid), etc." (Devarim 28:41) — que "não serão para ti, pois irão em cativeiro". A Rava disse-lhe (amar leih): simplesmente a leitura crua (kevishuteih) do versículo — isto é, aplicou-lhe o sentido literal e pleno do versículo, de fato ameaçador. A Abaye disse-lhe (amar leih): teus filhos (benach) e tuas filhas (uvenatach) serão numerosos (nefishi), e tuas filhas (benatach) se casarão (minasvan) com gente do mundo (lealma), e parecerão (midamyan) a teus olhos (beapach) como se (kidka) fossem (azlan) para o cativeiro (beshivya) — isto é, para Abaye, o mesmo versículo é lido de modo ameno: seus filhos e filhas serão numerosos, e as filhas se casarão com gente de fora, o que ao pai pode parecer, à primeira vista, como se elas partissem para o exílio, mas trata-se apenas do afastamento natural do casamento.
Segundo sonho idêntico, sobre "filhos e filhas gerarás": a Rava, leitura literal e ameaçadora do cativeiro; a Abaye, leitura benigna — filhos numerosos e filhas que se casam para fora, parecendo partir, mas sem mal real.
Leram-lhe (akriyun): "teus filhos (banecha) e tuas filhas (uvenotecha) serão dados (netunim) a outro (acher) povo (leam)" (Devarim 28:32). A Abaye disse-lhe (amar leih): teus filhos (benach) e tuas filhas (uvenatach) serão numerosos (nefishin); tu (at) dirás (amrat) que se casem com teu parente (lekarivach), e ela (vehi) — a esposa — dirá (amra) que se casem com o parente (lekariva) dela; e ela te vencerá (achfa lach), e tu darás (veyahavat) a eles (lehon) para o parente (lekariva) dela, o que (de) será (havei) como (ke) casar com "outro povo" (am acher) — isto é, ainda que dentro da própria família, o casamento com os parentes da esposa, e não os do marido, parecerá a este como se fossem estranhos. A Rava disse-lhe (amar leih): tua esposa (deveiteih) morrerá (shechiva), e virão (veatu) seus filhos (benei) e suas filhas (uvenatei) sob a mão (lidei) de outra (achariti) mulher (itta) — isto é, os filhos passarão a ser criados por uma madrasta, "outro povo" em relação à própria mãe, pois disse (deamar) Rava em nome de (amar) Rabi Yirmeya bar Abba em nome de (amar) Rav: o que (mai) está escrito (dichtiv) "teus filhos e tuas filhas serão dados a outro povo" — esta (zo) é a esposa (eshet) do pai (haav) — isto é, uma tradição independente já identificava esse versículo com a segunda esposa do pai, que cria os filhos de outra mulher.
"E ela" — tua esposa (ishtecha).
Terceiro sonho idêntico, sobre "filhos e filhas dados a outro povo": a Abaye, casamento com os parentes da esposa (que parecerão "outro povo" ao marido); a Rava, morte da esposa e filhos entregues a uma madrasta — identificada por tradição de Rav com a "esposa do pai".
Lemos (akrinan) em nossos sonhos (bechelmin): "vai (lech), come (echol) com alegria (besimchá) teu pão (lachmecha)" (Kohelet 9:7). A Abaye disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) prosperará (marvach), e comerás (vеachalt) e beberás (veshatet) e lerás (vekareit) o versículo (pesuka) por causa da alegria (mechedva) de teu coração (delibach). A Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se perderá (pased), abaterás (tavcht) um animal e não (vela) comerás (achalt) nem beberás (veshatet), e lerás (vekareit) o versículo para dissipar (lefakochei) teu medo (pachdach) — isto é, o mesmo versículo alegre é lido a Rava como consolo forçado, recitado apenas para tentar afastar o próprio pavor, não por real alegria.
"Para dissipar teu medo" — para afastar (lehafig) tua preocupação (deagatcha).
Quarto sonho, sobre "come com alegria teu pão": para Abaye, alegria genuína pelo lucro; para Rava, leitura forçada do mesmo versículo, apenas para tentar afastar o medo do prejuízo.
Lemos (akrinan): "muita (rav) semente (zera) produzirá (totzi) o campo (hasadeh), e pouco recolherás, pois o gafanhoto o devorará" (Devarim 28:38). A Abaye disse-lhe (amar leih) a partir de (mereisheih) seu início — isto é, aplicou-lhe apenas a primeira metade favorável do versículo, "muita semente produzirá o campo". A Rava disse-lhe (amar leih) a partir de (miseifeih) seu final — isto é, aplicou-lhe a segunda metade desfavorável, "e pouco recolherás, pois o gafanhoto o devorará".
"A partir de seu início" — a saber: "muita (rav) semente (zera) produzirá (totzi) o campo (hasadeh)".
Quinto sonho, sobre o versículo de "muita semente": a Abaye, apenas a metade favorável; a Rava, apenas a metade desfavorável do mesmo versículo.
Lemos (akrinan): "oliveiras (zeitim) terás (yihyu lecha) em todo (bechol) o teu território (gevulecha), etc." (Devarim 28:40) — "mas com azeite não te ungirás, pois cairá a tua oliveira". A Abaye disse-lhe (amar leih) a partir de (mereisheih) seu início — a metade favorável, "oliveiras terás em todo o teu território". A Rava disse-lhe (amar leih) a partir de (miseifeih) seu final — a metade desfavorável, "mas com azeite não te ungirás, pois cairá a tua oliveira".
Sexto sonho, sobre as oliveiras: mesmo padrão do anterior — a Abaye a metade favorável do versículo, a Rava a metade desfavorável.
Lemos (akrinan): "e verão (veraú) todos (kol) os povos (amei) da terra (haaretz), etc." (Devarim 28:10) — "que o Nome do Eterno é chamado sobre ti, e temerão a ti". A Abaye disse-lhe (amar leih): sairá (nafek) para ti (lach) fama (shema) de que serás (havet) chefe (reish) da academia (metivta), e o temor de ti (eimtach) cairá (nefalat) sobre o mundo (bealma) — isto é, Abaye lê o versículo literalmente: fama e temor por ser o líder de uma academia de Torá. A Rava disse-lhe (amar leih): o tesouro (beidayna) do rei (demalka) será arrombado (itevar), e serás preso (mitefasat) junto com (begananvei) ladrões (gananvei), e todo o mundo (kulei alema) julgará (dayeni) a fortiori (kal vachomer) a partir de ti (minach) — isto é, se até Rava, homem respeitado, foi preso, quanto mais os demais suspeitos serão culpados — dessa forma "o temor de ti cairá sobre o mundo" torna-se um temor infamante. No dia seguinte (limchar) foi arrombado (itevar) o tesouro (beidayna) do rei (demalka), e vieram (vaatu) e prenderam (tafsi leih) a Rava.
"O tesouro do rei" — o cofre (otzar) onde (she) as joias (tachshitei) do rei (hamelech) estão (sham), será arrombado (yishaver) por meio de (al yedei) ladrões (gananvim), e te acusarão falsamente (yaalilu alecha), dizendo (lomar) que tu (sheata) os furtaste (genavtam). "A fortiori a partir de ti" — se (im) Rava foi suspeitado (nechshad), quanto mais (kol shekhen) suspeitarão de outros (sheyachshaduhu) — e isto (vezehu) é "e temerão (veyirú) a ti (mimcha)" — isto é, Rashi explica que o "temor" prometido no versículo se converte, para Rava, num temor causado pela infâmia de ter sido injustamente suspeitado de roubo.
Sétimo sonho, sobre "verão todos os povos e temerão a ti": a Abaye, fama como chefe de academia; a Rava, prisão por suspeita de roubo no tesouro real, que de fato se cumpriu no dia seguinte.
Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) alface (chasa) sobre (al) a boca (pum) dos barris (danei). À Abaye disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se duplicará (eif) como (kechasa) a alface — que é larga e dobrada sobre si mesma. À Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) será amargo (marir) como (ki) a alface (chasa).
"Alface" — chazeret (chazeret). "Teu negócio se duplicará" — em dobro (kaful) de lucro (berevach), como (kechazeret) a alface, que (shehi) é larga (rechava) e dobrada (uchfula). "Teu negócio será amargo" — será odiado (sanui) por todos (lakol), e amarga (mar) será (yihyeh) tua mercadoria (hasechora shelach).
Oitavo sonho, sobre a alface na boca dos barris: a Abaye, lucro dobrado por sua forma larga e dobrada; a Rava, negócio amargo e odiado, por seu sabor amargo.
Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) carne (bisra) sobre (al) a boca (pum) dos barris (danei). À Abaye disse-lhe (amar leih): será saboroso (basim) teu vinho (chamrach), e virá (veatu) todo mundo (kulei alema) comprar (lemizban) carne (bisra) e vinho (vechamra) de ti (minach) — isto é, o vinho tão bom levará as pessoas a comprar também carne junto para acompanhá-lo. À Rava disse-lhe (amar leih): será azedo (takif) teu vinho (chamrach), e virá (veatu) todo mundo (kulei alema) comprar (lemizban) carne (bisra) para comer (lemeichal) com ela (beih) — isto é, para disfarçar o gosto ruim do vinho azedo, comprarão carne para comer junto, mas Rava não venderá o vinho em si.
Nono sonho, sobre a carne na boca dos barris: a Abaye, vinho saboroso que atrai compradores de carne e vinho; a Rava, vinho azedo, e as pessoas compram apenas a carne para disfarçar seu sabor.
Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) um barril (chavita) que (de) estava pendurado (telei) numa tamareira (bediklá). À Abaye disse-lhe (amar leih): se elevará (midlei) teu negócio (iskach) como (kediklá) a tamareira — alta e erguida. À Rava disse-lhe (amar leih): será doce (chalei) teu negócio (iskach) como (ketamrei) as tâmaras — isto é, doce demais, um modo de dizer que se venderá por preço vil, barato.
"Barril" — eles (hem) negociavam (mishtakrim) com vinho (beyayin). "Será doce teu negócio" — doce (matok), isto é (kelomar), que darás (shetiten) tua mercadoria (sechoratcha) por preço vil (bezol) — isto é, Rashi esclarece que Abaye e Rava eram negociantes de vinho, e que a "doçura" prometida a Rava é, na verdade, um eufemismo para vender barato demais, ou seja, com prejuízo.
Décimo sonho, sobre o barril pendurado na tamareira: a Abaye, negócio que se eleva como a palmeira; a Rava, negócio "doce como tâmaras" — eufemismo para vender por preço vil.
Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) uma romã (rumana) que (de) brotava (kadcha) na boca (apum) dos barris (danei). À Abaye disse-lhe (amar leih): será caro (ashik) teu negócio (iskach) como (kerumana) a romã — que se vende cara. À Rava disse-lhe (amar leih): será rançoso (kavei) teu negócio (iskach) como (kerumana) a romã — que estraga e azeda.
"Que brotava" — crescia (gedela). "Será caro teu negócio" — por preço alto (beyoker) o venderás (timkerenu), como (kemo) "ashik legabach" (Bava Metzia 52a). À Rava disse-lhe: "será rançoso teu negócio" — expressão (lashon) de "kehui" (kehui) — todos (hakol) o odiarão (yisnauhu).
Décimo primeiro sonho, sobre a romã na boca dos barris: a Abaye, mercadoria valiosa e cara; a Rava, mercadoria rançosa e odiada por todos.
Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) um barril (chavita) que (de) caiu (nefal) num poço (levera). À Abaye disse-lhe (amar leih): será procurado (mitbei) teu negócio (iskach), como (kidamar) se diz (deamar): "caiu (nefal) um pedaço de pão (pita) num poço (bevera) e não (vela) foi encontrado (ishtekach)" — isto é, será tão procurado que as pessoas o buscarão insistentemente, como quem procura um pão caído no poço até desistir por não encontrá-lo, ditado que denota grande procura. À Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se perderá (pased), e o lançarás (shadeit leih) ao poço (levera) — isto é, jogará fora sua própria mercadoria, sinal de perda total.
"Será procurado teu negócio" — será buscado (yitbakesh) teu negócio (iskach), e correrão (yachzeru) atrás (acharav) dele para comprá-lo (liknoto).
Décimo segundo sonho, sobre o barril caído no poço: a Abaye, mercadoria muito procurada; a Rava, negócio perdido, ao ponto de ele próprio descartar sua mercadoria.
Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazeinan) um jumentinho (bar chamara) que (de) estava junto (kaei) à cabeceira (aisadan) e zurrando (venoer). À Abaye disse-lhe (amar leih): serás rei (malka havet), e estará (vekaei) um intérprete (amora) junto a (alach) ti — isto é, tornar-se-á chefe de academia, cuja voz o intérprete transmite em voz alta à congregação, como o zurro do jumento junto à cabeceira. À Rava disse-lhe (amar leih): o vav de (vav de) "peter chamor" (peter chamor) está apagado (gehit) de teus tefilin (mitefilach) — isto é, uma peça central de teus tefilin está com defeito de escrita, invalidando-a. Disse-lhe (amar leih): eu mesmo (ledidi) os vi (chazei li) e estão íntegros (veiteih) — Rava contesta, dizendo já ter verificado seus tefilin e não haver defeito. Disse-lhe (amar leih): o vav (vav) de "peter chamor" (peter chamor) certamente (vadai) está apagado (gehit) de teus tefilin (mitefilach) — Bar Hedya insiste na interpretação negativa, apesar da objeção.
"Que estava junto à cabeceira" — de suas cabeceiras (merashotav), como (kedimtargeminan) traduzimos "merashotav" por "asdohi" (Bereshit 28). "Serás rei" — chefe de academia (rosh yeshivá) que expõe (hadoresh) derashot (derashot), e o intérprete (hameturgeman) fica (omed) junto a ele (alav) como amorá (beamora), para fazer ouvir (lehashmia) em voz alta (bekol ram) aos muitos (larabim), como (kekol) a voz (kol) do jumento (chamor) a zurrar (hanoer). "O vav de 'peter chamor' está apagado de teus tefilin" — na porção (beparashat) "vehaya ki yeviacha", "e todo (vechol) primogênito de jumento (peter chamor) resgatarás (tifdeh) com um cordeiro (beseh)", e ela (vehu) está sem (chaser) o vav (vav), e nos tefilin (uvitefilin) de Rava o escriba (hakotev) a escreveu (ketavuha) plena (malé), e depois (veachar kach) a apagou (mechakuha), e isto (vehaynu) é "gehit" (gehit) — apagada (machuk) — isto é, Rashi explica a base halákhica: a palavra "peter chamor" na parashá dos tefilin é escrita sem o vav, mas o escriba de Rava a havia escrito, por engano, com o vav, e depois o apagara, deixando um vestígio irregular que Bar Hedya soube identificar como defeito.
Décimo terceiro sonho, sobre o jumentinho zurrando: a Abaye, tornar-se chefe de academia; a Rava, defeito real nos tefilin — o vav apagado de "peter chamor" — que Rava a princípio nega, mas Bar Hedya confirma com precisão.
Por fim (lesof), foi (azal) Rava sozinho (lechodeih) ter com ele (legabeih) — sem Abaye, e desta vez pagando-lhe. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) a porta (dasha) externa (barayta) que (de) caiu (nefal). Disse-lhe (amar leih): tua esposa (ishtecha) morrerá (shachva). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) meus dentes molares (kakai) e meus dentes (shinai) que (de) caíam (netur). Disse-lhe (amar leih): teus filhos (benach) e tuas filhas (uvenatach) morrerão (shachvan). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) duas (tartei) pombas (yonei) que (de) voavam (parchan). Disse-lhe (amar leih): duas (terei) esposas (neshei) divorciarás (megarshat). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) dois (terei) nabos (gargelidei) de nabo (deliftá) arrancados. Disse-lhe (amar leih): duas (terein) pauladas (kulfei) engolirás (balat) — isto é, sofrerá duas pancadas de bastão. Foi (azal) Rava naquele mesmo (hahu) dia (yoma) e sentou-se (yetiv) na casa de estudo (bei midrasha) todo (kuleih) aquele dia (yoma) — para evitar sair e sofrer a pancada predita. Encontrou (ashkach) aqueles (hanhu) dois (terei) cegos (sagi nehorei) que (dahavo) estavam brigando (kaminetzu) um com o outro (bahadei hadadei). Foi (azal) Rava separá-los (leparokinhu), e bateram (mechohu) em Rava duas vezes (terei). Quando ergueram (delo) a mão para bater nele (lemachoyeih) outra vez (achariti), disse (amar): basta (mistayi), duas (terein) vi (chazai) — isto é, Rava se conteve de intervir de novo, pois já havia recebido as duas pancadas que o sonho previra.
"A porta externa" — a porta (delet) exterior (chitzon) da casa (shebabayit). "Tua esposa morrerá" — a que guarda (hashomeret) a casa (et habayit). "Dentes molares" — os dentes (shinayim) internos (hapenimiyot), que chamam (shekorin) "mishilarí" (mishilari). "Duas esposas divorciarás" — pois (she) a esposa (ishto) de um homem (shel adam) é chamada (keruyá) "pomba" (yoná), pois está escrito (dichtiv) "minha pomba (yonati), minha íntegra (tamati)". "Duas pauladas engolirás" — golpe (makat) de bastão (makel) grosso (av) em sua ponta (berosho), como (kerashei) cabeças (rashei) de nabos (leftot) — isto é, Rashi explica cada imagem: a porta externa como a esposa que guarda a casa, os dentes molares como os filhos internos da família, as pombas pela associação bíblica da esposa com a pomba, e os nabos pela semelhança formal entre sua cabeça arredondada e a ponta de um bastão.
Rava vai sozinho a Bar Hedya, agora pagando-lhe, e recebe interpretações desfavoráveis para cada sonho — morte da esposa, morte dos filhos, dois divórcios, duas pauladas — que se cumprem no episódio dos dois cegos que ele tenta separar e que o espancam duas vezes, exatamente como predito.
Por fim (lesof), veio (ata) Rava e deu-lhe (yehiv leih) pagamento (agra) — desta vez de fato pagando, e passando a receber interpretações favoráveis. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) uma parede (ashita) que (de) caiu (nefal). Disse-lhe (amar leih): bens (nechasim) sem (belo) limites (metzarim) adquirirás (kaneit) — isto é, terras extensas, sem fronteiras estreitas. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) o palácio (apadna) de Abaye que (de) caiu (nefal) e a poeira dele (avkeih) me cobriu (vechasyayn). Disse-lhe (amar leih): Abaye morrerá (shacheiv) e a academia dele (metivteih) virá (atya) para ti (legabach). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) meu próprio (didi) palácio (apadna) que (de) caiu (nefal), e vieram (vaatu) todos (kulei alema) e tomaram (shekul) tijolo (leventa) por tijolo (leventa). Disse-lhe (amar leih): teus ensinamentos (shmatatach) se espalharão (mibadran) pelo mundo (bealma) — isto é, cada pessoa levará consigo um ensinamento seu, tal como um tijolo do palácio. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) que se rachou (deibaka) minha cabeça (reishi) e caiu (unetar) meu cérebro (mukrai). Disse-lhe (amar leih): a lã (udra) do travesseiro (mibei sadya) sairá (nafek) — isto é, apenas o enchimento do travesseiro se soltará, sem gravidade real. Disse-lhe (amar leih): lemos (akriyun) o Halel (halela) egípcio (mitzraá) em sonho (bechelma). Disse-lhe (amar leih): milagres (nissei) te acontecerão (mitrachashi lach).
"Sem limites" — herança (nachalá) sem (belo) limites estreitos (metzarim), isto é (kelomar), terras (karkaot) largas (rechavot) e numerosas (verabot). "E sua poeira me cobriu" — a cobertura (kisui) de pó (afar) que se ergue (hapore'ach) do desmoronamento (mimapolet) da parede (hachomá). "E caiu meu cérebro" — desprendeu-se (nasher) meu cérebro (mocho). "A lã do travesseiro" — o enchimento (mochin) que sai (yotzin) do travesseiro (hakar) que fica (sheb) na cabeceira (bemerashotav). "Halel egípcio" — o Halel (hallel) que (she) lemos (korin) em Pessach (bepesach), pois (lefi) há (sheyesh) outro Halel (hallel acher) chamado (hakaruy) "o Grande Halel" (hallel hagadol), e chamam (korin) a este (lazeh) de Halel egípcio (hallel hamitzri). "Milagres te acontecerão" — pois (she) por meio de (al yedei) milagres (nissim) se chama (nikra) Nissan (nisan), pois (she) sobre (al) toda (kol) angústia (tzará) que vem (habaá) a Israel (leyisrael), dizem-no (omrim oto) por sua redenção (al geulatan) — isto é, Rashi explica cada imagem favorável: a poeira, os limites amplos, o cérebro, a lã do travesseiro, o Halel egípcio de Pessach, e o próprio nome do mês de Nissan associado a milagres.
Rava passa a pagar Bar Hedya e recebe, em série, interpretações favoráveis dos mesmos tipos de sonho antes lidos para o mal — bens sem limites, herança da academia de Abaye, ensinamentos espalhados pelo mundo, milagres — confirmando de modo cabal que a interpretação, e não o sonho em si, determina o desfecho.
Ele ia (havá kaazel) com ele (bahadeih) num barco (bearba) — Bar Hedya viajava junto com Rava. Disse (amar): por que (lema li) ir com (bahadei) um homem (gavra) a quem (de) acontecem (mitrachish leih) milagres (nisa)? — isto é, Bar Hedya, temendo por sua própria segurança junto de alguém tão favorecido, considera se deveria afastar-se dele. Enquanto (bahadei) ele subia (saleik) ao barco, caiu (nefal) um livro (sifra) dele (mineih). Encontrou-o (ashkecheih) Rava e viu (vachaza) que (dehava) estava escrito (ketiv) nele (beih): "todos (kol) os sonhos (hachalomot) seguem (holchin) a boca (achar hapeh)" — isto é, Rava descobre no próprio livro de Bar Hedya a confissão explícita de que a interpretação, não a substância do sonho, determina o resultado — comprovando que fora manipulado o tempo todo. Disse (amar): ímpio (rasha), em ti (bedidach) estava (kayma) o poder de interpretar bem, e me atormentaste (tzaartan) tudo (kulei) isto (hai)! A todos (kulhu) eu perdoo (macheilna lach), exceto (bar) a respeito da filha (beratei) de Rav Chisda — isto é, Rava perdoa Bar Hedya por tudo o que sofreu, exceto pela predição de morte de sua esposa, a filha de Rav Chisda. Seja (yehei) vontade (raava) que (delimsar) aquele (hahu) homem (gavra) seja entregue (limsar) à mão (lidei) do governo (demalchuta) que (dela) não (dela) tenha misericórdia (merachamu) dele (alei).
"Ele ia" — Bar Hedya (bar hedya) com (bahadei) Rava (rava). "Num barco" — numa embarcação (bisfiná). "Disse: por que ir com um homem a quem acontecem milagres" — talvez (shema) aqui (kan) lhe aconteça (yeeraiv lo) o milagre (hanes) de que (she) a embarcação (hasfiná) afunde (shetitbá) e ele (vehu) se salve (yinatzel) — e Bar Hedya, não. "Em ti estava" — em ti (becha) estava dependendo (talui) a interpretação (hapitaron), para o bem (letová) ou para o mal (im leraá), e a viraste (vehafachta) para mim (li) para o mal (leraá). "A esposa de Rava" — era (hayta) filha (bat) de Rav Chisda.
Durante uma viagem de barco, cai do livro de Bar Hedya a frase que confirma que todos os sonhos seguem a boca de quem os interpreta; Rava, furioso, perdoa tudo o que sofreu exceto a predição sobre a morte de sua esposa, filha de Rav Chisda, e amaldiçoa Bar Hedya a cair sem misericórdia nas mãos de um governo hostil.
Disse (amar) Bar Hedya: o que (mai) farei (aavid)? Aprendemos por tradição (gemiri) que (de) a maldição (kilelat) de um sábio (chacham), mesmo (afilu) gratuita (bechinam), ela (hi) se cumpre (baá), e tanto mais (vechol shekein) Rava, que (deviedina) amaldiçoou (layeit) com justiça (bedina) — isto é, Bar Hedya reconhece que, se até a maldição imerecida de um sábio se realiza, muito mais se cumprirá a de Rava, que o amaldiçoou por um motivo justo. Disse (amar): levantar-me-ei (eikum) e me exilarei (veeglei), pois disse (deamar) o Mestre (mar): o exílio (galut) expia (mechaperet) o pecado (avon).
Bar Hedya, temendo o cumprimento da maldição justa de Rava, decide exilar-se voluntariamente, invocando o princípio de que o exílio expia o pecado.
Levantou-se (kam) e se exilou (geli) para (levei) a casa dos romanos (romaei). Foi (azal) e sentou-se (yetiv) à entrada (apitcha) do chefe do tesouro (reish turzina) do rei (demalka). O chefe do tesouro (reish turzina) viu (chaza) um sonho (chelma). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) em sonho (chelma) que (de) entrava (ayel) uma agulha (machta) em meu dedo (beetzbati). Disse-lhe (amar leih) Bar Hedya: dá-me (hav li) uma moeda (zuza), e ele não (vela) lhe deu (yehav leih). Não (la) lhe disse (amar leih) nada (velo midei) — Bar Hedya recusou-se a interpretar sem pagamento. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) que (de) caiu (nefal) uma mancha (tikla) em dois (bitartein) dos meus dedos (etzbatai). Disse-lhe (amar leih): dá-me (hav li) uma moeda (zuza), e ele não (vela) lhe deu (yehav leih), e não (vela) lhe disse (amar leih) nada. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) que (de) caiu (nefal) uma mancha (tikla) em toda (bechula) a mão (yada) — o sonho, sem que Bar Hedya o soubesse, ia se agravando em cada repetição, marcando o avanço de uma praga na mão do funcionário do tesouro real.
"Chefe do tesouro do rei" — guardião (shomer) do tesouro (otzar) do rei (hamelech). "Caiu uma mancha" — um verme (tola) — isto é, Rashi identifica o cargo do funcionário e explica que a "mancha" (tikla) é, na verdade, um verme ou infecção que ia avançando pela mão dele, prenúncio de sua morte iminente.
Bar Hedya se exila para a casa dos romanos e passa a residir junto ao chefe do tesouro real, que lhe conta três sonhos sucessivos sobre uma agulha e uma mancha (verme) avançando pelos dedos e pela mão; sem pagamento, Bar Hedya recusa-se a interpretar, deixando em aberto o desfecho, que o daf seguinte conta.