Talmud Bavli · Berachot · Daf 56, lado A · Perek Tet (HaRoeh)
נו ע״א

O Imperador e Rabi Yehoshua, o rei Shabur e Shmuel, e a longa narrativa de Bar Hedya, o intérprete de sonhos que interpretava conforme quem lhe pagava

Berachot 56a · Perek Tet ("Aquele que vê")

O daf abre com dois episódios curtos: o Imperador romano pede a Rabi Yehoshua ben Chananya que lhe diga o que verá em seu próprio sonho, e recebe uma resposta sobre a humilhação futura de Roma pelos persas — que de fato se cumpre, pois ele já estivera pensando nisso o dia todo; o mesmo ocorre entre o rei Shabur da Pérsia e Shmuel, com uma predição sobre os romanos. O grosso do daf é ocupado pela extensa narrativa de Bar Hedya, intérprete de sonhos que dava interpretação favorável a quem lhe pagava e desfavorável a quem não pagava. Abaye, que lhe pagava, e Rava, que não lhe pagava, contam-lhe uma longa série de sonhos idênticos ou semelhantes — sobre um boi abatido, filhos e filhas dados a "outro povo", comer pão com alegria, semente abundante, oliveiras, o povo da terra vendo sobre eles o Nome do Eterno, alface e carne sobre a boca de barris, um barril pendurado numa tamareira, uma romã brotando, um barril caído num poço, um jumentinho zurrando junto ao cocho, e o vav de "peter chamor" arrancado dos tefilin — e Bar Hedya interpreta cada um deles de modo oposto para os dois, sempre para o bem de Abaye e para o mal de Rava, e assim se cumpre em cada caso. Segue o episódio em que Rava tenta separar dois cegos brigando e é ferido por eles, aceitando o resultado. Por fim, Rava vai sozinho a Bar Hedya com mais sonhos — sobre a porta externa caída, os dentes caindo, duas pombas voando, dois nabos arrancados —, paga-lhe, e passa a receber interpretações favoráveis, até que o livro de Bar Hedya cai de suas mãos durante uma viagem de barco e Rava descobre nele escrito que todos os sonhos seguem a boca de quem os interpreta; furioso, Rava o amaldiçoa por tê-lo atormentado sem necessidade, poupando apenas a sorte da filha de Rav Chisda, sua esposa. O daf fecha com Bar Hedya decidindo exilar-se para expiar a maldição, e o início do episódio final entre ele e o chefe do tesouro do rei romano, a quem interpreta sonhos sucessivos sobre uma agulha entrando nos dedos.

1Disse-lhe o Imperador a Rabi Yehoshua ben Chananya: dissestes que sois muito sábios, dize-me o que verei em meu sonho
Bavli · 56a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ קֵיסָר לְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בְּרַבִּי חֲנַנְיָא: אָמְרִיתוּ דְּחָכְמִיתוּ טוּבָא, אֵימָא לִי מַאי חָזֵינָא בְּחֶלְמַאי. אֲמַר לֵיהּ: חָזֵית דִּמְשַׁחֲרִי לָךְ פָּרְסָאֵי וְגָרְבִי בָּךְ, וְרָעֲיִי בָּךְ שִׁקְצֵי בְּחוּטְרָא דְּדַהֲבָא. הַרְהַר כּוּלֵּיהּ יוֹמָא, וּלְאוּרְתָּא חֲזָא.

Disse-lhe (amar leih) o Imperador (keisar) a Rabi Yehoshua ben Chananya: dissestes (amriytu) que (de) sois muito sábios (chachimtu tuva), dize-me (eima li) o que (mai) verei (chazeina) em meu sonho (bechelmai). Disse-lhe (amar leih): verás (chazeit) que (de) os persas (parsaei) te farão escravo (mishachari lach) e te porão coleiras (garvi bach), e pastorearão (raayi bach) em ti animais imundos (shiktzei) com um bastão (bechutra) de ouro (dedahava) — isto é, Rabi Yehoshua prediz ao Imperador que será humilhado a ponto de ser tratado como escravo pelos persas, forçado a trabalhos servis, e que animais impuros pastarão sobre ele, conduzidos com um bastão dourado, sinal de que os próprios opressores serão ricos e ele, aviltado. Ele meditou (harhar) nisso todo (kuleih) o dia (yoma), e à noite (uleurta) o viu (chaza) — isto é, a Guemará explica por que a predição se cumpriu exatamente: o Imperador passou o dia inteiro pensando nessas palavras, e por isso, à noite, sonhou precisamente aquilo, confirmando o princípio de que só se sonha com o que já ocupava os próprios pensamentos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
קיסר – מלך רומי והיה לו תגר עם פרסיים: מאי חזינא – מאי אראה בלילה בחלום: משחרי לך פרסאי – עושים בך עבודת המלך כמו לא חמרא דחד מנהון שחרית (תרגום במדבר יו) ולשון חכמים (ספרי פ' דברים) הדבק לשחוור וישתחוו לך: שבור – מלך פרס: ושבו לך – ישללוך בשבי: וטחנו בך קשייתא – יכופו אותך לטחון גרעיני תמרים:

"Imperador" — o rei (melech) de Roma (romi), e havia (vehaya) disputa (tigar) entre ele e os persas (parsiyim). "O que verei" — o que (mai) verei (ereh) à noite (balayla) em sonho (bechalom). "Os persas te farão escravo" — fazem (osim) em ti (bach) trabalho (avodat) do rei (hamelech), como (kemo) em "não achou um asno de um deles pela manhã (shacharit)", e a expressão (velashon) dos Sábios (chachamim): "aproxima-te (hadbek) ao trabalho servil (leshichur) e curvar-se-ão (veyishtachavu) a ti". "Shabur" — o rei (melech) da Pérsia (paras). "E te farão prisioneiro" — te despojarão (yishloch) em cativeiro (beshvi). "E moerão em ti sementes duras" — te obrigarão (yachfu otcha) a moer (litchon) caroços (garinei) de tâmaras (temarim) — isto é, Rashi identifica os dois monarcas históricos e explica cada expressão aramaica da predição, mostrando que ambas as imagens — o pastoreio com bastão de ouro e a moagem de caroços — descrevem trabalhos servis e humilhantes impostos aos vencidos.

Nota

Episódio do Imperador romano e Rabi Yehoshua ben Chananya: a predição de humilhação futura pelos persas se cumpre porque o próprio Imperador meditou nela o dia inteiro antes de sonhar à noite.

2Disse-lhe o rei Shabur a Shmuel: dissestes que sois muito sábios, dize-me o que verei em meu sonho
Bavli · 56a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ שַׁבּוּר מַלְכָּא, לִשְׁמוּאֵל: אָמְרִיתוּ דְּחָכְמִיתוּ טוּבָא, אֵימָא לִי מַאי חָזֵינָא בְּחֶלְמַאי. אֲמַר לֵיהּ: חָזֵית דְּאָתוּ רוֹמָאֵי וְשָׁבוּ לָךְ, וְטָחֲנִי בָּךְ קַשְׁיָיתָא בְּרִחְיָיא דְּדַהֲבָא. הַרְהַר כּוּלֵּיהּ יוֹמָא, וּלְאוּרְתָּא חֲזָא.

Disse-lhe (amar leih) o rei (malka) Shabur (shabur) a Shmuel (lishmuel): dissestes (amriytu) que (de) sois muito sábios (chachimtu tuva), dize-me (eima li) o que (mai) verei (chazeina) em meu sonho (bechelmai). Disse-lhe (amar leih): verás (chazeit) que (de) virão (atu) os romanos (romaei) e te farão prisioneiro (shavu lach), e moerão (tachani bach) em ti sementes duras (kashyayta) num moinho (berichyaya) de ouro (dedahava) — isto é, Shmuel prediz ao rei persa Shabur, em paralelo exato ao episódio anterior, que os romanos o subjugarão e o forçarão a moer grãos duros num moinho de ouro. Ele meditou (harhar) nisso todo (kuleih) o dia (yoma), e à noite (uleurta) o viu (chaza).

Nota

Episódio paralelo entre o rei persa Shabur e Shmuel: a mesma estrutura do episódio anterior, invertendo os papéis entre romanos e persas, confirmando de novo que o sonho segue os pensamentos do dia.

3Bar Hedya era intérprete de sonhos. Quem lhe dava pagamento, ele interpretava para o bem, e quem não lhe dava pagamento, ele interpretava para o mal
Bavli · 56a — Guemará
בַּר הֶדְיָא מְפַשַּׁר חֶלְמֵי הֲוָה. מַאן דְּיָהֵיב לֵיהּ אַגְרָא — מְפַשַּׁר לֵיהּ לִמְעַלְּיוּתָא, וּמַאן דְּלָא יָהֵיב לֵיהּ אַגְרָא — מְפַשַּׁר לֵיהּ לִגְרִיעוּתָא. אַבָּיֵי וְרָבָא חֲזוֹ חֶלְמָא. אַבָּיֵי יְהֵיב לֵיהּ זוּזָא, וְרָבָא לָא יְהֵיב לֵיהּ. אָמְרִי לֵיהּ: אַקְרִינַן בְּחֶלְמִין ״שׁוֹרְךָ טָבוּחַ לְעֵינֶיךָ וְגוֹ׳״. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: פָּסֵיד עִסְקָךְ וְלָא אַהֲנִי לָךְ לְמֵיכַל מֵעוּצְבָּא דְּלִבָּךְ. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: מַרְוַוח עִסְקָךְ וְלָא אַהֲנִי לָךְ לְמֵיכַל מֵחֶדְוָא דְּלִבָּךְ.

Bar Hedya era intérprete (mefashar) de sonhos (chelmei). Quem (man) lhe dava (yaheiv leih) pagamento (agra) — ele interpretava (mefashar leih) para o bem (limaliyuta), e quem (uman) não (la) lhe dava (yaheiv leih) pagamento (agra) — ele interpretava (mefashar leih) para o mal (ligriyuta) — isto é, apresenta-se o intérprete de sonhos cuja leitura dependia inteiramente do pagamento recebido, ilustrando na prática o ensinamento anterior de que todos os sonhos seguem a boca de quem os interpreta. Abaye e Rava viram (chazo) um sonho (chelma) — o mesmo sonho, ou sonhos de conteúdo idêntico. Abaye lhe deu (yaheiv leih) uma moeda (zuza), e Rava não (la) lhe deu (yaheiv leih). Disseram-lhe (amri leih): lemos (akrinan) em nossos sonhos (bechelmin): "teu boi (shorcha) será abatido (tavuach) diante de teus olhos (leeinecha), etc." (Devarim 28:31). A Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se perderá (pased), e não (vela) te aproveitará (ahani lach) comer (lemeichal) por causa da angústia (meutzba) de teu coração (delibach). A Abaye disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) prosperará (marvach), e não (vela) te aproveitará (ahani lach) comer (lemeichal) por causa da alegria (mechedva) de teu coração (delibach) — isto é, o mesmo versículo bíblico é lido de modo oposto para cada um: a Rava anuncia prejuízo tão grande que a tristeza lhe tirará o apetite, e a Abaye anuncia lucro tão grande que a alegria lhe tirará o apetite.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
פסיד עסקך – תתקלקל פרקמטיא שלך: ולא אהני לך למיכל – מתוך צערך לא יטעם לך שום מאכל: מרווח עסקך – ומתוך שמחתך לא תתאוה לאכול שתהיה שבע בשמחתך:

"Teu negócio se perderá" — se estragará (titkalkel) tua mercadoria (parkematya shelach). "E não te aproveitará comer" — por causa de (mitoch) tua angústia (tzaarcha), não (lo) terá gosto (yitam lecha) nenhum alimento (shum maachal). "Teu negócio prosperará" — e por causa de (umitoch) tua alegria (simchatcha), não (lo) desejarás (titaveh) comer (leechol), pois estarás saciado (shetehe save) por tua alegria (besimchatcha) — isto é, Rashi explica que, em ambos os casos, a emoção extrema — seja tristeza, seja alegria — tira o apetite, mas por razões opostas.

Nota

Apresenta-se Bar Hedya, intérprete de sonhos que dava leitura favorável a quem pagava e desfavorável a quem não pagava; inicia-se a série de sonhos idênticos de Abaye (que pagava) e Rava (que não pagava), interpretados de modo oposto a partir do mesmo versículo sobre o boi abatido.

4Disseram-lhe: lemos em nossos sonhos "filhos e filhas gerarás, etc."
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: אַקְרִינַן ״בָּנִים וּבָנוֹת תּוֹלִיד וְגוֹ׳״ לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: כְּבִישׁוּתֵיהּ. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: בְּנָךְ וּבְנָתָךְ נְפִישִׁי, וּמִינַּסְבָן בְּנָתָךְ לְעָלְמָא, וּמִדַּמְיָין בְּאַפָּךְ כִּדְקָא אָזְלָן בְּשִׁבְיָה.

Disseram-lhe (amri leih): lemos (akrinan): "filhos (banim) e filhas (uvanot) gerarás (tolid), etc." (Devarim 28:41) — que "não serão para ti, pois irão em cativeiro". A Rava disse-lhe (amar leih): simplesmente a leitura crua (kevishuteih) do versículo — isto é, aplicou-lhe o sentido literal e pleno do versículo, de fato ameaçador. A Abaye disse-lhe (amar leih): teus filhos (benach) e tuas filhas (uvenatach) serão numerosos (nefishi), e tuas filhas (benatach) se casarão (minasvan) com gente do mundo (lealma), e parecerão (midamyan) a teus olhos (beapach) como se (kidka) fossem (azlan) para o cativeiro (beshivya) — isto é, para Abaye, o mesmo versículo é lido de modo ameno: seus filhos e filhas serão numerosos, e as filhas se casarão com gente de fora, o que ao pai pode parecer, à primeira vista, como se elas partissem para o exílio, mas trata-se apenas do afastamento natural do casamento.

Nota

Segundo sonho idêntico, sobre "filhos e filhas gerarás": a Rava, leitura literal e ameaçadora do cativeiro; a Abaye, leitura benigna — filhos numerosos e filhas que se casam para fora, parecendo partir, mas sem mal real.

5Leram-lhe "teus filhos e tuas filhas serão dados a outro povo"
Bavli · 56a — Guemará
אַקְרְיֻין ״בָּנֶיךָ וּבְנֹתֶיךָ נְתֻנִים לְעַם אַחֵר״. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: בְּנָךְ וּבְנָתָךְ נְפִישִׁין, אַתְּ אָמְרַתְּ לְקָרִיבָךְ וְהִיא אָמְרָה לְקָרִיבַהּ, וְאָכְפָה לָךְ וְיָהֲבַתְּ לְהוֹן לְקָרִיבַהּ, דְּהָוֵי כְּעַם אַחֵר. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: דְּבֵיתְהוּ שְׁכִיבָא, וְאָתוּ בְּנֵיהּ וּבְנָתֵיהּ לִידֵי אִיתְּתָא אַחֲרִיתִי. דְּאָמַר רָבָא אָמַר רַבִּי יִרְמְיָה בַּר אַבָּא אָמַר רַב: מַאי דִּכְתִיב ״בָּנֶיךָ וּבְנֹתֶיךָ נְתֻנִים לְעַם אַחֵר״ — זוֹ אֵשֶׁת הָאָב.

Leram-lhe (akriyun): "teus filhos (banecha) e tuas filhas (uvenotecha) serão dados (netunim) a outro (acher) povo (leam)" (Devarim 28:32). A Abaye disse-lhe (amar leih): teus filhos (benach) e tuas filhas (uvenatach) serão numerosos (nefishin); tu (at) dirás (amrat) que se casem com teu parente (lekarivach), e ela (vehi) — a esposa — dirá (amra) que se casem com o parente (lekariva) dela; e ela te vencerá (achfa lach), e tu darás (veyahavat) a eles (lehon) para o parente (lekariva) dela, o que (de) será (havei) como (ke) casar com "outro povo" (am acher) — isto é, ainda que dentro da própria família, o casamento com os parentes da esposa, e não os do marido, parecerá a este como se fossem estranhos. A Rava disse-lhe (amar leih): tua esposa (deveiteih) morrerá (shechiva), e virão (veatu) seus filhos (benei) e suas filhas (uvenatei) sob a mão (lidei) de outra (achariti) mulher (itta) — isto é, os filhos passarão a ser criados por uma madrasta, "outro povo" em relação à própria mãe, pois disse (deamar) Rava em nome de (amar) Rabi Yirmeya bar Abba em nome de (amar) Rav: o que (mai) está escrito (dichtiv) "teus filhos e tuas filhas serão dados a outro povo" — esta (zo) é a esposa (eshet) do pai (haav) — isto é, uma tradição independente já identificava esse versículo com a segunda esposa do pai, que cria os filhos de outra mulher.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
והיא – אשתך:

"E ela" — tua esposa (ishtecha).

Nota

Terceiro sonho idêntico, sobre "filhos e filhas dados a outro povo": a Abaye, casamento com os parentes da esposa (que parecerão "outro povo" ao marido); a Rava, morte da esposa e filhos entregues a uma madrasta — identificada por tradição de Rav com a "esposa do pai".

6Lemos em nossos sonhos "vai, come com alegria teu pão"
Bavli · 56a — Guemará
אַקְרִינַן בְּחֶלְמִין: ״לֵךְ אֱכֹל בְּשִׂמְחָה לַחְמֶךָ״. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: מַרְוַוח עִסְקָךְ וְאָכְלַתְּ וְשָׁתֵית וְקָרֵית פְּסוּקָא מֵחֶדְוָא דְלִבָּךְ. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: פָּסֵיד עִסְקָךְ, טָבְחַתְּ וְלָא אָכְלַתְּ וְשָׁתֵית וְקָרֵית לְפַכּוֹחֵי פַּחְדָּךְ.

Lemos (akrinan) em nossos sonhos (bechelmin): "vai (lech), come (echol) com alegria (besimchá) teu pão (lachmecha)" (Kohelet 9:7). A Abaye disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) prosperará (marvach), e comerás (vеachalt) e beberás (veshatet) e lerás (vekareit) o versículo (pesuka) por causa da alegria (mechedva) de teu coração (delibach). A Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se perderá (pased), abaterás (tavcht) um animal e não (vela) comerás (achalt) nem beberás (veshatet), e lerás (vekareit) o versículo para dissipar (lefakochei) teu medo (pachdach) — isto é, o mesmo versículo alegre é lido a Rava como consolo forçado, recitado apenas para tentar afastar o próprio pavor, não por real alegria.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
לפכוחי פחדך – להפיג דאגתך:

"Para dissipar teu medo" — para afastar (lehafig) tua preocupação (deagatcha).

Nota

Quarto sonho, sobre "come com alegria teu pão": para Abaye, alegria genuína pelo lucro; para Rava, leitura forçada do mesmo versículo, apenas para tentar afastar o medo do prejuízo.

7Lemos "muita semente produzirá o campo"
Bavli · 56a — Guemará
אַקְרִינַן ״זֶרַע רַב תּוֹצִיא הַשָּׂדֶה״. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ מֵרֵישֵׁיהּ, לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ מִסֵּיפֵיהּ.

Lemos (akrinan): "muita (rav) semente (zera) produzirá (totzi) o campo (hasadeh), e pouco recolherás, pois o gafanhoto o devorará" (Devarim 28:38). A Abaye disse-lhe (amar leih) a partir de (mereisheih) seu início — isto é, aplicou-lhe apenas a primeira metade favorável do versículo, "muita semente produzirá o campo". A Rava disse-lhe (amar leih) a partir de (miseifeih) seu final — isto é, aplicou-lhe a segunda metade desfavorável, "e pouco recolherás, pois o gafanhoto o devorará".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
מרישיה – זרע רב תוציא השדה:

"A partir de seu início" — a saber: "muita (rav) semente (zera) produzirá (totzi) o campo (hasadeh)".

Nota

Quinto sonho, sobre o versículo de "muita semente": a Abaye, apenas a metade favorável; a Rava, apenas a metade desfavorável do mesmo versículo.

8Lemos "oliveiras terás em todo o teu território, etc."
Bavli · 56a — Guemará
אַקְרִינַן ״זֵיתִים יִהְיוּ לְךָ בְּכׇל גְּבוּלֶךָ וְגוֹ׳״. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ מֵרֵישֵׁיהּ, לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ מִסֵּיפֵיהּ.

Lemos (akrinan): "oliveiras (zeitim) terás (yihyu lecha) em todo (bechol) o teu território (gevulecha), etc." (Devarim 28:40) — "mas com azeite não te ungirás, pois cairá a tua oliveira". A Abaye disse-lhe (amar leih) a partir de (mereisheih) seu início — a metade favorável, "oliveiras terás em todo o teu território". A Rava disse-lhe (amar leih) a partir de (miseifeih) seu final — a metade desfavorável, "mas com azeite não te ungirás, pois cairá a tua oliveira".

Nota

Sexto sonho, sobre as oliveiras: mesmo padrão do anterior — a Abaye a metade favorável do versículo, a Rava a metade desfavorável.

9Lemos "e verão todos os povos da terra, etc."
Bavli · 56a — Guemará
אַקְרִינַן ״וְרָאוּ כׇּל עַמֵּי הָאָרֶץ וְגוֹ׳״. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: נָפֵק לָךְ שְׁמָא דְּרֵישׁ מְתִיבְתָּא הָוֵית, אֵימְתָךְ נְפַלַת בְּעָלְמָא. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: בֵּדַיְינָא דְּמַלְכָּא אִתְּבַר, וּמִתְּפַסַתְּ בְּגַנָּבֵי, וְדָיְינִי כּוּלֵּי עָלְמָא קַל וָחוֹמֶר מִינָּךְ. לִמְחַר אִתְּבַר בֵּדַיְינָא דְּמַלְכָּא וַאֲתוֹ וְתָפְשִׂי לֵיהּ לְרָבָא.

Lemos (akrinan): "e verão (veraú) todos (kol) os povos (amei) da terra (haaretz), etc." (Devarim 28:10) — "que o Nome do Eterno é chamado sobre ti, e temerão a ti". A Abaye disse-lhe (amar leih): sairá (nafek) para ti (lach) fama (shema) de que serás (havet) chefe (reish) da academia (metivta), e o temor de ti (eimtach) cairá (nefalat) sobre o mundo (bealma) — isto é, Abaye lê o versículo literalmente: fama e temor por ser o líder de uma academia de Torá. A Rava disse-lhe (amar leih): o tesouro (beidayna) do rei (demalka) será arrombado (itevar), e serás preso (mitefasat) junto com (begananvei) ladrões (gananvei), e todo o mundo (kulei alema) julgará (dayeni) a fortiori (kal vachomer) a partir de ti (minach) — isto é, se até Rava, homem respeitado, foi preso, quanto mais os demais suspeitos serão culpados — dessa forma "o temor de ti cairá sobre o mundo" torna-se um temor infamante. No dia seguinte (limchar) foi arrombado (itevar) o tesouro (beidayna) do rei (demalka), e vieram (vaatu) e prenderam (tafsi leih) a Rava.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
בדיינא דמלכא – אוצר שתכשיטי המלך שם ישבר על ידי גנבים ויעלילו עליך לומר שאתה גנבתם: קל וחומר מינך – אם רבא נחשד כל שכן שיחשדונו וזהו וייראו ממך:

"O tesouro do rei" — o cofre (otzar) onde (she) as joias (tachshitei) do rei (hamelech) estão (sham), será arrombado (yishaver) por meio de (al yedei) ladrões (gananvim), e te acusarão falsamente (yaalilu alecha), dizendo (lomar) que tu (sheata) os furtaste (genavtam). "A fortiori a partir de ti" — se (im) Rava foi suspeitado (nechshad), quanto mais (kol shekhen) suspeitarão de outros (sheyachshaduhu) — e isto (vezehu) é "e temerão (veyirú) a ti (mimcha)" — isto é, Rashi explica que o "temor" prometido no versículo se converte, para Rava, num temor causado pela infâmia de ter sido injustamente suspeitado de roubo.

Nota

Sétimo sonho, sobre "verão todos os povos e temerão a ti": a Abaye, fama como chefe de academia; a Rava, prisão por suspeita de roubo no tesouro real, que de fato se cumpriu no dia seguinte.

10Disseram-lhe: vimos alface sobre a boca dos barris
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: חֲזַן חַסָּא עַל פּוּם דַּנֵּי. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: עִיף עִסְקָךְ כְּחַסָּא. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: מָרִיר עִסְקָךְ כִּי חַסָּא.

Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) alface (chasa) sobre (al) a boca (pum) dos barris (danei). À Abaye disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se duplicará (eif) como (kechasa) a alface — que é larga e dobrada sobre si mesma. À Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) será amargo (marir) como (ki) a alface (chasa).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
חסא – חזרת: עיף עסקך – כפול בריוח כחזרת שהיא רחבה וכפולה: מריר עסקך – שנאוי לכל ומר יהיה הסחורה שלך:

"Alface" — chazeret (chazeret). "Teu negócio se duplicará" — em dobro (kaful) de lucro (berevach), como (kechazeret) a alface, que (shehi) é larga (rechava) e dobrada (uchfula). "Teu negócio será amargo" — será odiado (sanui) por todos (lakol), e amarga (mar) será (yihyeh) tua mercadoria (hasechora shelach).

Nota

Oitavo sonho, sobre a alface na boca dos barris: a Abaye, lucro dobrado por sua forma larga e dobrada; a Rava, negócio amargo e odiado, por seu sabor amargo.

11Disseram-lhe: vimos carne sobre a boca dos barris
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: חֲזַן בִּשְׂרָא עַל פּוּם דַּנֵּי. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: בָּסֵים חַמְרָךְ, וְאָתוּ כּוּלֵּי עָלְמָא לְמִזְבַּן בִּשְׂרָא וְחַמְרָא מִינָּךְ. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: תָּקֵיף חַמְרָךְ, וְאָתוּ כּוּלֵּי עָלְמָא לְמִזְבַּן בִּשְׂרָא לְמֵיכַל בֵּיהּ.

Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) carne (bisra) sobre (al) a boca (pum) dos barris (danei). À Abaye disse-lhe (amar leih): será saboroso (basim) teu vinho (chamrach), e virá (veatu) todo mundo (kulei alema) comprar (lemizban) carne (bisra) e vinho (vechamra) de ti (minach) — isto é, o vinho tão bom levará as pessoas a comprar também carne junto para acompanhá-lo. À Rava disse-lhe (amar leih): será azedo (takif) teu vinho (chamrach), e virá (veatu) todo mundo (kulei alema) comprar (lemizban) carne (bisra) para comer (lemeichal) com ela (beih) — isto é, para disfarçar o gosto ruim do vinho azedo, comprarão carne para comer junto, mas Rava não venderá o vinho em si.

Nota

Nono sonho, sobre a carne na boca dos barris: a Abaye, vinho saboroso que atrai compradores de carne e vinho; a Rava, vinho azedo, e as pessoas compram apenas a carne para disfarçar seu sabor.

12Disseram-lhe: vimos um barril pendurado numa tamareira
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: חֲזַן חָבִיתָא דִּתְלֵי בְּדִיקְלָא. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: מִדְּלֵי עִסְקָךְ כְּדִיקְלָא. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: חֲלֵי עִסְקָךְ כְּתַמְרֵי.

Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) um barril (chavita) que (de) estava pendurado (telei) numa tamareira (bediklá). À Abaye disse-lhe (amar leih): se elevará (midlei) teu negócio (iskach) como (kediklá) a tamareira — alta e erguida. À Rava disse-lhe (amar leih): será doce (chalei) teu negócio (iskach) como (ketamrei) as tâmaras — isto é, doce demais, um modo de dizer que se venderá por preço vil, barato.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
חביתא – הם היו משתכרים ביין: חלי עסקך – מתוק כלומר שתתן סחורתך בזול:

"Barril" — eles (hem) negociavam (mishtakrim) com vinho (beyayin). "Será doce teu negócio" — doce (matok), isto é (kelomar), que darás (shetiten) tua mercadoria (sechoratcha) por preço vil (bezol) — isto é, Rashi esclarece que Abaye e Rava eram negociantes de vinho, e que a "doçura" prometida a Rava é, na verdade, um eufemismo para vender barato demais, ou seja, com prejuízo.

Nota

Décimo sonho, sobre o barril pendurado na tamareira: a Abaye, negócio que se eleva como a palmeira; a Rava, negócio "doce como tâmaras" — eufemismo para vender por preço vil.

13Disseram-lhe: vimos uma romã brotando na boca dos barris
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: חֲזַן רוּמָּנָא דְּקָדְחָא אַפּוּם דַּנֵּי, לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: עֲשִׁיק עִסְקָךְ כְּרוּמָּנָא. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: קָאוֵי עִסְקָךְ כְּרוּמָּנָא.

Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) uma romã (rumana) que (de) brotava (kadcha) na boca (apum) dos barris (danei). À Abaye disse-lhe (amar leih): será caro (ashik) teu negócio (iskach) como (kerumana) a romã — que se vende cara. À Rava disse-lhe (amar leih): será rançoso (kavei) teu negócio (iskach) como (kerumana) a romã — que estraga e azeda.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
דקדחי – גדלה: עשיק עסקך – ביוקר תמכרנו כמו עשיק לגבך (ב"מ ד' נב.): לרבא א"ל קאוי עסקך – לשון קהוי הכל ישנאוהו:

"Que brotava" — crescia (gedela). "Será caro teu negócio" — por preço alto (beyoker) o venderás (timkerenu), como (kemo) "ashik legabach" (Bava Metzia 52a). À Rava disse-lhe: "será rançoso teu negócio" — expressão (lashon) de "kehui" (kehui) — todos (hakol) o odiarão (yisnauhu).

Nota

Décimo primeiro sonho, sobre a romã na boca dos barris: a Abaye, mercadoria valiosa e cara; a Rava, mercadoria rançosa e odiada por todos.

14Disseram-lhe: vimos um barril caído num poço
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: חֲזַן חָבִיתָא דִּנְפַל לְבֵירָא. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: מִתְבְּעֵי עִסְקָךְ, כִּדְאָמַר ״נְפַל פִּתָּא בְּבֵירָא וְלָא אִשְׁתְּכַח״. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: פָּסֵיד עִסְקָךְ וְשָׁדֵית לֵיהּ לְבֵירָא.

Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazan) um barril (chavita) que (de) caiu (nefal) num poço (levera). À Abaye disse-lhe (amar leih): será procurado (mitbei) teu negócio (iskach), como (kidamar) se diz (deamar): "caiu (nefal) um pedaço de pão (pita) num poço (bevera) e não (vela) foi encontrado (ishtekach)" — isto é, será tão procurado que as pessoas o buscarão insistentemente, como quem procura um pão caído no poço até desistir por não encontrá-lo, ditado que denota grande procura. À Rava disse-lhe (amar leih): teu negócio (iskach) se perderá (pased), e o lançarás (shadeit leih) ao poço (levera) — isto é, jogará fora sua própria mercadoria, sinal de perda total.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
מתבעי עסקך – יתבקש עסקך ויחזרו אחריו לקנות:

"Será procurado teu negócio" — será buscado (yitbakesh) teu negócio (iskach), e correrão (yachzeru) atrás (acharav) dele para comprá-lo (liknoto).

Nota

Décimo segundo sonho, sobre o barril caído no poço: a Abaye, mercadoria muito procurada; a Rava, negócio perdido, ao ponto de ele próprio descartar sua mercadoria.

15Disseram-lhe: vimos um jumentinho junto ao cocho, a zurrar
Bavli · 56a — Guemará
אָמְרִי לֵיהּ: חֲזֵינַן בַּר חֲמָרָא דְּקָאֵי אַאִיסָדַן וְנוֹעֵר. לְאַבָּיֵי אֲמַר לֵיהּ: מַלְכָּא הָוֵית, וְקָאֵי אָמוֹרָא עֲלָךְ. לְרָבָא אֲמַר לֵיהּ: ״פֶּטֶר חֲמוֹר״ גְּהִיט מִתְּפִילָּךְ. אֲמַר לֵיהּ: לְדִידִי חֲזֵי לִי וְאִיתֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: וָאו דְּ״פֶטֶר חֲמוֹר״ וַדַּאי גְּהִיט מִתְּפִילָּךְ.

Disseram-lhe (amri leih): vimos (chazeinan) um jumentinho (bar chamara) que (de) estava junto (kaei) à cabeceira (aisadan) e zurrando (venoer). À Abaye disse-lhe (amar leih): serás rei (malka havet), e estará (vekaei) um intérprete (amora) junto a (alach) ti — isto é, tornar-se-á chefe de academia, cuja voz o intérprete transmite em voz alta à congregação, como o zurro do jumento junto à cabeceira. À Rava disse-lhe (amar leih): o vav de (vav de) "peter chamor" (peter chamor) está apagado (gehit) de teus tefilin (mitefilach) — isto é, uma peça central de teus tefilin está com defeito de escrita, invalidando-a. Disse-lhe (amar leih): eu mesmo (ledidi) os vi (chazei li) e estão íntegros (veiteih) — Rava contesta, dizendo já ter verificado seus tefilin e não haver defeito. Disse-lhe (amar leih): o vav (vav) de "peter chamor" (peter chamor) certamente (vadai) está apagado (gehit) de teus tefilin (mitefilach) — Bar Hedya insiste na interpretação negativa, apesar da objeção.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
דקאי אאיסדן – מראשותיו כדמתרגמינן מראשותיו אסדוהי (בראשית כח): מלכא הוית – ראש ישיבה הדורש דרשות והמתורגמן עומד עליו באמורא להשמיע בקול רם לרבים כקול חמור הנוער: וי"ו דפטר חמור גהיט מתפילך – בפרשת והיה כי יביאך וכל פטר חמר תפדה בשה והוא חסר וי"ו ובתפילין של רבא כתבו הכותב מלא ואח"כ מחקו והיינו גהיט מחוק:

"Que estava junto à cabeceira" — de suas cabeceiras (merasho­tav), como (kedimtargeminan) traduzimos "merasho­tav" por "asdohi" (Bereshit 28). "Serás rei" — chefe de academia (rosh yeshivá) que expõe (hadoresh) derashot (derashot), e o intérprete (hameturgeman) fica (omed) junto a ele (alav) como amorá (beamora), para fazer ouvir (lehashmia) em voz alta (bekol ram) aos muitos (larabim), como (kekol) a voz (kol) do jumento (chamor) a zurrar (hanoer). "O vav de 'peter chamor' está apagado de teus tefilin" — na porção (beparashat) "vehaya ki yeviacha", "e todo (vechol) primogênito de jumento (peter chamor) resgatarás (tifdeh) com um cordeiro (beseh)", e ela (vehu) está sem (chaser) o vav (vav), e nos tefilin (uvitefilin) de Rava o escriba (hakotev) a escreveu (ketavuha) plena (malé), e depois (veachar kach) a apagou (mechakuha), e isto (vehaynu) é "gehit" (gehit) — apagada (machuk) — isto é, Rashi explica a base halákhica: a palavra "peter chamor" na parashá dos tefilin é escrita sem o vav, mas o escriba de Rava a havia escrito, por engano, com o vav, e depois o apagara, deixando um vestígio irregular que Bar Hedya soube identificar como defeito.

Nota

Décimo terceiro sonho, sobre o jumentinho zurrando: a Abaye, tornar-se chefe de academia; a Rava, defeito real nos tefilin — o vav apagado de "peter chamor" — que Rava a princípio nega, mas Bar Hedya confirma com precisão.

16Por fim, foi Rava sozinho ter com ele
Bavli · 56a — Guemará
לְסוֹף אֲזַל רָבָא לְחוֹדֵיהּ לְגַבֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי דַּשָּׁא בָּרָיְיתָא דִּנְפַל. אֲמַר לֵיהּ: אִשְׁתְּךָ שָׁכְבָא. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי כַּכַּי וְשִׁנַּי דִּנְתוּר. אֲמַר לֵיהּ: בְּנָךְ וּבְנָתָךְ שָׁכְבָן. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי תַּרְתֵּי יוֹנֵי דְּפָרְחָן. אֲמַר לֵיהּ: תְּרֵי נְשֵׁי מְגָרְשַׁתְּ. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי תְּרֵי גַּרְגְּלִידֵי דְלִפְתָּא. אֲמַר לֵיהּ: תְּרֵין קוּלְפֵי בָּלְעַתְּ. אֲזַל רָבָא הָהוּא יוֹמָא וִיתֵיב בֵּי מִדְרְשָׁא כּוּלֵּיהּ יוֹמָא. אַשְׁכַּח הָנְהוּ תְּרֵי סַגִּי נְהוֹרֵי דַּהֲווֹ קָמִנְּצוּ בַּהֲדֵי הֲדָדֵי. אֲזַל רָבָא לְפָרוֹקִינְהוּ, וּמְחוֹהוּ לְרָבָא תְּרֵי. דְּלוֹ לְמַחוֹיֵיהּ אַחֲרִיתִי, אֲמַר: מִסְתַּיי, תְּרֵין חֲזַאי.

Por fim (lesof), foi (azal) Rava sozinho (lechodeih) ter com ele (legabeih) — sem Abaye, e desta vez pagando-lhe. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) a porta (dasha) externa (barayta) que (de) caiu (nefal). Disse-lhe (amar leih): tua esposa (ishtecha) morrerá (shachva). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) meus dentes molares (kakai) e meus dentes (shinai) que (de) caíam (netur). Disse-lhe (amar leih): teus filhos (benach) e tuas filhas (uvenatach) morrerão (shachvan). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) duas (tartei) pombas (yonei) que (de) voavam (parchan). Disse-lhe (amar leih): duas (terei) esposas (neshei) divorciarás (megarshat). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) dois (terei) nabos (gargelidei) de nabo (deliftá) arrancados. Disse-lhe (amar leih): duas (terein) pauladas (kulfei) engolirás (balat) — isto é, sofrerá duas pancadas de bastão. Foi (azal) Rava naquele mesmo (hahu) dia (yoma) e sentou-se (yetiv) na casa de estudo (bei midrasha) todo (kuleih) aquele dia (yoma) — para evitar sair e sofrer a pancada predita. Encontrou (ashkach) aqueles (hanhu) dois (terei) cegos (sagi nehorei) que (dahavo) estavam brigando (kaminetzu) um com o outro (bahadei hadadei). Foi (azal) Rava separá-los (leparokinhu), e bateram (mechohu) em Rava duas vezes (terei). Quando ergueram (delo) a mão para bater nele (lemachoyeih) outra vez (achariti), disse (amar): basta (mistayi), duas (terein) vi (chazai) — isto é, Rava se conteve de intervir de novo, pois já havia recebido as duas pancadas que o sonho previra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
דשא ברייתא – דלת חיצון שבבית: אתתך מתה – השומרת את הבית: ככי – שינים הפנימיות שקורין משילאר"י: תרתי נשי מגרשת – שאשתו של אדם קרויה יונה דכתיב יונתי תמתי: תרין קולפי בלעת – מכת מקל עב בראשו כראשי לפתות:

"A porta externa" — a porta (delet) exterior (chitzon) da casa (shebabayit). "Tua esposa morrerá" — a que guarda (hashomeret) a casa (et habayit). "Dentes molares" — os dentes (shinayim) internos (hapenimiyot), que chamam (shekorin) "mishilarí" (mishilari). "Duas esposas divorciarás" — pois (she) a esposa (ishto) de um homem (shel adam) é chamada (keruyá) "pomba" (yoná), pois está escrito (dichtiv) "minha pomba (yonati), minha íntegra (tamati)". "Duas pauladas engolirás" — golpe (makat) de bastão (makel) grosso (av) em sua ponta (berosho), como (kerashei) cabeças (rashei) de nabos (leftot) — isto é, Rashi explica cada imagem: a porta externa como a esposa que guarda a casa, os dentes molares como os filhos internos da família, as pombas pela associação bíblica da esposa com a pomba, e os nabos pela semelhança formal entre sua cabeça arredondada e a ponta de um bastão.

Nota

Rava vai sozinho a Bar Hedya, agora pagando-lhe, e recebe interpretações desfavoráveis para cada sonho — morte da esposa, morte dos filhos, dois divórcios, duas pauladas — que se cumprem no episódio dos dois cegos que ele tenta separar e que o espancam duas vezes, exatamente como predito.

17Por fim, veio Rava e lhe deu pagamento
Bavli · 56a — Guemará
לְסוֹף אֲתָא רָבָא וִיהֵיב לֵיהּ אַגְרָא. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי אֲשִׁיתָא דִּנְפַל. אֲמַר לֵיהּ: נְכָסִים בְּלֹא מְצָרִים קָנֵית. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי אַפַּדְנָא דְּאַבָּיֵי דִּנְפַל וְכַסְּיַין אַבְקֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: אַבָּיֵי שָׁכֵיב וּמְתִיבְתֵּיהּ אָתְיָא לְגַבָּךְ. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי אַפַּדְנָא דִידִי דִּנְפַל, וַאֲתוֹ כּוּלֵּי עָלְמָא שְׁקוּל לְבֵינְתָּא לְבֵינְתָּא. אֲמַר לֵיהּ: שְׁמַעְתָּתָךְ מִבַּדְּרָן בְּעָלְמָא. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי דְּאִבְּקַע רֵישִׁי וּנְתַר מוּקְרִי. אֲמַר לֵיהּ: אוּדְרָא מִבֵּי סָדְיָא נָפֵיק. אֲמַר לֵיהּ: אַקְרְיוּן הַלֵּלָא מִצְרָאָה בְּחֶלְמָא. אֲמַר לֵיהּ: נִיסֵּי מִתְרַחְשִׁי לָךְ.

Por fim (lesof), veio (ata) Rava e deu-lhe (yehiv leih) pagamento (agra) — desta vez de fato pagando, e passando a receber interpretações favoráveis. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) uma parede (ashita) que (de) caiu (nefal). Disse-lhe (amar leih): bens (nechasim) sem (belo) limites (metzarim) adquirirás (kaneit) — isto é, terras extensas, sem fronteiras estreitas. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) o palácio (apadna) de Abaye que (de) caiu (nefal) e a poeira dele (avkeih) me cobriu (vechasyayn). Disse-lhe (amar leih): Abaye morrerá (shacheiv) e a academia dele (metivteih) virá (atya) para ti (legabach). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) meu próprio (didi) palácio (apadna) que (de) caiu (nefal), e vieram (vaatu) todos (kulei alema) e tomaram (shekul) tijolo (leventa) por tijolo (leventa). Disse-lhe (amar leih): teus ensinamentos (shmatatach) se espalharão (mibadran) pelo mundo (bealma) — isto é, cada pessoa levará consigo um ensinamento seu, tal como um tijolo do palácio. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) que se rachou (deibaka) minha cabeça (reishi) e caiu (unetar) meu cérebro (mukrai). Disse-lhe (amar leih): a lã (udra) do travesseiro (mibei sadya) sairá (nafek) — isto é, apenas o enchimento do travesseiro se soltará, sem gravidade real. Disse-lhe (amar leih): lemos (akriyun) o Halel (halela) egípcio (mitzraá) em sonho (bechelma). Disse-lhe (amar leih): milagres (nissei) te acontecerão (mitrachashi lach).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
בלא מצרים – נחלה בלא מצרים כלומר קרקעות רחבים ורבים: וכסיין אבקיה – כסוי עפר הפורח ממפולת החומה: ונתר מוקרי – נשר מוחו: אודרא מבי סדיא – המוכין יוצאין מן הכר שבמראשותיו: הללא מצראה – הלל שאנו קורין בפסח לפי שיש הלל אחר הקרוי הלל הגדול קורין לזה הלל המצרי: ניסי מתרחשי לך – שע"י נסים נקרא ניסן שעל כל צרה הבאה לישראל אומרים אותו על גאולתן:

"Sem limites" — herança (nachalá) sem (belo) limites estreitos (metzarim), isto é (kelomar), terras (karkaot) largas (rechavot) e numerosas (verabot). "E sua poeira me cobriu" — a cobertura (kisui) de pó (afar) que se ergue (hapore'ach) do desmoronamento (mimapolet) da parede (hachomá). "E caiu meu cérebro" — desprendeu-se (nasher) meu cérebro (mocho). "A lã do travesseiro" — o enchimento (mochin) que sai (yotzin) do travesseiro (hakar) que fica (sheb) na cabeceira (bemerashotav). "Halel egípcio" — o Halel (hallel) que (she) lemos (korin) em Pessach (bepesach), pois (lefi)(sheyesh) outro Halel (hallel acher) chamado (hakaruy) "o Grande Halel" (hallel hagadol), e chamam (korin) a este (lazeh) de Halel egípcio (hallel hamitzri). "Milagres te acontecerão" — pois (she) por meio de (al yedei) milagres (nissim) se chama (nikra) Nissan (nisan), pois (she) sobre (al) toda (kol) angústia (tzará) que vem (habaá) a Israel (leyisrael), dizem-no (omrim oto) por sua redenção (al geulatan) — isto é, Rashi explica cada imagem favorável: a poeira, os limites amplos, o cérebro, a lã do travesseiro, o Halel egípcio de Pessach, e o próprio nome do mês de Nissan associado a milagres.

Nota

Rava passa a pagar Bar Hedya e recebe, em série, interpretações favoráveis dos mesmos tipos de sonho antes lidos para o mal — bens sem limites, herança da academia de Abaye, ensinamentos espalhados pelo mundo, milagres — confirmando de modo cabal que a interpretação, e não o sonho em si, determina o desfecho.

18Ele ia com ele de barco
Bavli · 56a — Guemará
הֲוָה קָא אָזֵיל בַּהֲדֵיהּ בְּאַרְבָּא. אָמַר: בַּהֲדֵי גַּבְרָא דְּמִתְרְחִישׁ לֵיהּ נִיסָּא לְמָה לִי. בַּהֲדֵי דְּקָא סָלֵיק נְפַל סִיפְרָא מִינֵּיהּ. אַשְׁכְּחֵיהּ רָבָא וַחֲזָא דַּהֲוָה כְּתִיב בֵּיהּ ״כׇּל הַחֲלוֹמוֹת הוֹלְכִין אַחַר הַפֶּה״. אֲמַר: רָשָׁע, בְּדִידָךְ קָיְימָא, וְצַעַרְתַּן כּוּלֵּי הַאי. כּוּלְּהוּ מָחֵילְנָא לָךְ, בַּר מִבְּרַתֵּיה דְּרַב חִסְדָּא. יְהֵא רַעֲוָא דְּלִמְּסַר הַהוּא גַּבְרָא לִידֵי דְּמַלְכוּתָא דְּלָא מְרַחֲמוּ עֲלֵיהּ.

Ele ia (havá kaazel) com ele (bahadeih) num barco (bearba) — Bar Hedya viajava junto com Rava. Disse (amar): por que (lema li) ir com (bahadei) um homem (gavra) a quem (de) acontecem (mitrachish leih) milagres (nisa)? — isto é, Bar Hedya, temendo por sua própria segurança junto de alguém tão favorecido, considera se deveria afastar-se dele. Enquanto (bahadei) ele subia (saleik) ao barco, caiu (nefal) um livro (sifra) dele (mineih). Encontrou-o (ashkecheih) Rava e viu (vachaza) que (dehava) estava escrito (ketiv) nele (beih): "todos (kol) os sonhos (hachalomot) seguem (holchin) a boca (achar hapeh)" — isto é, Rava descobre no próprio livro de Bar Hedya a confissão explícita de que a interpretação, não a substância do sonho, determina o resultado — comprovando que fora manipulado o tempo todo. Disse (amar): ímpio (rasha), em ti (bedidach) estava (kayma) o poder de interpretar bem, e me atormentaste (tzaartan) tudo (kulei) isto (hai)! A todos (kulhu) eu perdoo (macheilna lach), exceto (bar) a respeito da filha (beratei) de Rav Chisda — isto é, Rava perdoa Bar Hedya por tudo o que sofreu, exceto pela predição de morte de sua esposa, a filha de Rav Chisda. Seja (yehei) vontade (raava) que (delimsar) aquele (hahu) homem (gavra) seja entregue (limsar) à mão (lidei) do governo (demalchuta) que (dela) não (dela) tenha misericórdia (merachamu) dele (alei).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
הוה קא אזיל – בר הדיא בהדיה דרבא: בארבא – בספינה: אמר בהדי גברא דמתרחיש ליה ניסא למה לי – שמא כאן יארע לו הנס שתטבע הספינה והוא ינצל: בדידך קיימא – בך הוא תלוי הפתרון אם לטובה אם לרעה והפכת לי לרעה: אשתו של רבא – בת רב חסדא היתה:

"Ele ia" — Bar Hedya (bar hedya) com (bahadei) Rava (rava). "Num barco" — numa embarcação (bisfiná). "Disse: por que ir com um homem a quem acontecem milagres" — talvez (shema) aqui (kan) lhe aconteça (yeeraiv lo) o milagre (hanes) de que (she) a embarcação (hasfiná) afunde (shetitbá) e ele (vehu) se salve (yinatzel) — e Bar Hedya, não. "Em ti estava" — em ti (becha) estava dependendo (talui) a interpretação (hapitaron), para o bem (letová) ou para o mal (im leraá), e a viraste (vehafachta) para mim (li) para o mal (leraá). "A esposa de Rava" — era (hayta) filha (bat) de Rav Chisda.

Nota

Durante uma viagem de barco, cai do livro de Bar Hedya a frase que confirma que todos os sonhos seguem a boca de quem os interpreta; Rava, furioso, perdoa tudo o que sofreu exceto a predição sobre a morte de sua esposa, filha de Rav Chisda, e amaldiçoa Bar Hedya a cair sem misericórdia nas mãos de um governo hostil.

19Disse: o que farei? Aprendemos que a maldição do sábio, mesmo gratuita, se cumpre
Bavli · 56a — Guemará
אָמַר: מַאי אַעֲבֵיד? גְּמִירִי דְּקִלְלַת חָכָם, אֲפִילּוּ בְּחִנָּם הִיא בָּאָה, וְכׇל שֶׁכֵּן רָבָא דִּבְדִינָא קָא לָיֵיט. אָמַר: אֵיקוּם וְאֶגְלֵי, דַּאֲמַר מָר: גָּלוּת מְכַפֶּרֶת עָוֹן.

Disse (amar) Bar Hedya: o que (mai) farei (aavid)? Aprendemos por tradição (gemiri) que (de) a maldição (kilelat) de um sábio (chacham), mesmo (afilu) gratuita (bechinam), ela (hi) se cumpre (baá), e tanto mais (vechol shekein) Rava, que (deviedina) amaldiçoou (layeit) com justiça (bedina) — isto é, Bar Hedya reconhece que, se até a maldição imerecida de um sábio se realiza, muito mais se cumprirá a de Rava, que o amaldiçoou por um motivo justo. Disse (amar): levantar-me-ei (eikum) e me exilarei (veeglei), pois disse (deamar) o Mestre (mar): o exílio (galut) expia (mechaperet) o pecado (avon).

Nota

Bar Hedya, temendo o cumprimento da maldição justa de Rava, decide exilar-se voluntariamente, invocando o princípio de que o exílio expia o pecado.

20Levantou-se e se exilou para a casa dos romanos
Bavli · 56a — Guemará
קָם גְּלִי לְבֵי רוֹמָאֵי. אֲזַל יְתֵיב אַפִּתְחָא דְּרֵישׁ טוּרְזִינָא דְּמַלְכָּא. רֵישׁ טוּרְזִינָא חֲזָא חֶלְמָא. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי חֶלְמָא דְּעָיֵיל מַחְטָא בְּאֶצְבַּעְתִּי. אֲמַר לֵיהּ: הַב לִי זוּזָא, וְלָא יְהַב לֵיהּ. לָא אֲמַר לֵיהּ וְלָא מִידֵּי. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי דִּנְפַל תִּכְלָא בְּתַרְתֵּין אֶצְבְּעָתִי. אֲמַר לֵיהּ: הַב לִי זוּזָא, וְלָא יְהַב לֵיהּ, וְלָא אֲמַר לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: חֲזַאי דִּנְפַל תִּכְלָא בְּכוּלַּהּ יְדָא.

Levantou-se (kam) e se exilou (geli) para (levei) a casa dos romanos (romaei). Foi (azal) e sentou-se (yetiv) à entrada (apitcha) do chefe do tesouro (reish turzina) do rei (demalka). O chefe do tesouro (reish turzina) viu (chaza) um sonho (chelma). Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) em sonho (chelma) que (de) entrava (ayel) uma agulha (machta) em meu dedo (beetzbati). Disse-lhe (amar leih) Bar Hedya: dá-me (hav li) uma moeda (zuza), e ele não (vela) lhe deu (yehav leih). Não (la) lhe disse (amar leih) nada (velo midei) — Bar Hedya recusou-se a interpretar sem pagamento. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) que (de) caiu (nefal) uma mancha (tikla) em dois (bitartein) dos meus dedos (etzbatai). Disse-lhe (amar leih): dá-me (hav li) uma moeda (zuza), e ele não (vela) lhe deu (yehav leih), e não (vela) lhe disse (amar leih) nada. Disse-lhe (amar leih): vi (chazai) que (de) caiu (nefal) uma mancha (tikla) em toda (bechula) a mão (yada) — o sonho, sem que Bar Hedya o soubesse, ia se agravando em cada repetição, marcando o avanço de uma praga na mão do funcionário do tesouro real.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 56a
טורזינא דמלכא – שומר אוצר המלך: נפל תכלא – תולע:

"Chefe do tesouro do rei" — guardião (shomer) do tesouro (otzar) do rei (hamelech). "Caiu uma mancha" — um verme (tola) — isto é, Rashi identifica o cargo do funcionário e explica que a "mancha" (tikla) é, na verdade, um verme ou infecção que ia avançando pela mão dele, prenúncio de sua morte iminente.

Nota

Bar Hedya se exila para a casa dos romanos e passa a residir junto ao chefe do tesouro real, que lhe conta três sonhos sucessivos sobre uma agulha e uma mancha (verme) avançando pelos dedos e pela mão; sem pagamento, Bar Hedya recusa-se a interpretar, deixando em aberto o desfecho, que o daf seguinte conta.