Talmud Bavli · Berachot · Daf 63, lado A · Perek Tet (HaRoeh)
סג ע״א

Por que não se responde amém no Templo; Hilel sobre dispersar e reunir a Torá; as máximas de Bar Kapara; não multiplicar amigos nem nomear administrador em casa; quem une o Nome dos Céus à própria dor; e o relato de Chananiá, sobrinho de Rabi Yehoshua, intercalando anos fora da Terra de Israel

Berachot 63a · Perek Tet ("Aquele que vê")

O daf abre concluindo a discussão sobre atalho e cuspir na sinagoga, e passa à Mishná sobre as fórmulas de bênção no Templo, explicando por que não se responde "amém" ali e por que cada bênção recebe seu próprio louvor. Segue-se a instituição de saudar o próximo com o Nome Divino, ilustrada pelas saudações de Boaz aos seus ceifeiros e do anjo a Gedeão, e a dupla leitura do versículo "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá" — da frente para trás e de trás para frente —, com o ensinamento de Hilel, o Velho, sobre quando dispersar e quando reunir o estudo da Torá. Bar Kapara então expõe três máximas: comprar onde não há homem digno, "em todos os teus caminhos conhece-O" como princípio que resume toda a Torá, e a importância de ensinar ao filho um ofício limpo e leve. Seguem-se ensinamentos de Rabi sobre não multiplicar amigos em casa nem nomear administrador (ilustrado por José e Potifar), sobre a contiguidade das seções do nazireu, da sotá e das terumot e maasserot, e o ensinamento de que quem une o Nome dos Céus à própria dor tem o sustento dobrado, e de que quem se enfraquece nas palavras de Torá não resiste no dia da angústia. O daf fecha com o longo relato de Chananiá, sobrinho de Rabi Yehoshua, que na diáspora intercalava anos e fixava meses fora da Terra de Israel, e a delegação de dois sábios enviada para confrontá-lo, prestes a revelar o desfecho do confronto.

1E digamos: o Monte do Templo, que é proibido com calçado, aprendamos dele o calçado! Mas a sinagoga, que é permitida com calçado, já que dela aprendemos o calçado para a permissão, aprendamos dela o atalho para a proibição!
Bavli · 63a — Guemará
וְאֵימָא: הַר הַבַּיִת דְּאָסוּר בְּמִנְעָל — לֵילְפֵהּ מִמִּנְעָל. אֲבָל בֵּית הַכְּנֶסֶת דִּשְׁרֵי בְּמִנְעָל, אַדְּיָלֵיף מִמִּנְעָל וּלְהֶיתֵּר, נֵילַף מִקַּפֶּנְדַּרְיָא וּלְאִסּוּר!

E digamos (veeima): o Monte (har) do Templo (habayit), que (de) é proibido (asur) com calçado (bemineal) — aprendamos dele (leilfeih) a regra do calçado (mimineal)! Mas (aval) a sinagoga (beit hakeneset), que (de) é permitida (sharei) com calçado (bemineal), já que (ad) dela aprendemos (yalef) a regra do calçado (mimineal) para a permissão (leheiter), aprendamos (neilaf) dela também o atalho (mikapendarya) para a proibição (uleissur) (ou seja: por que aprender do calçado, que é permitido na sinagoga, e não do atalho, que é proibido, para determinar a regra de cuspir)!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
ואימא הר הבית דאסור במנעל – ילפינן רקיקה מיניה לאיסורא בקל וחומר אבל בית הכנסת דשרי במנעל לא נילף רקיקה להתירה דרקיקה מאיסא אלא ילפינן מקפנדריא לאיסורא:

"E digamos: o Monte do Templo, que é proibido com calçado" — aprendemos (yalfinan) dali (mineih) a proibição de cuspir (rekikah) para a proibição (leissura) por argumento (bekal vachomer) de menor para maior. "Mas a sinagoga, que é permitida com calçado" — não (lo) aprendamos (nilaf) a regra de cuspir (rekikah) dali para a permissão (leheteirah), pois (de) cuspir (rekikah) é repugnante (measa) (diferente do calçado), mas sim (ela) aprendamos (yalfinan) do atalho (mikapendarya) para a proibição (leissura).

Nota

A Guemará prossegue o debate final de 62b, desafiando ainda mais a analogia de Rava: por que não inverter os termos da comparação e aprender do próprio Monte do Templo — onde o calçado é proibido — a proibição de cuspir, e da sinagoga — onde o atalho é proibido, mas o calçado permitido — que cuspir também deveria ser proibido, por analogia ao atalho e não ao calçado?

2Mas disse Rava: assim como sua casa — no atalho a pessoa se importa, com escarro e calçado a pessoa não se importa; também na sinagoga, o atalho é que é proibido; escarro e calçado são permitidos
Bavli · 63a — Guemará
אֶלָּא אָמַר רָבָא: כִּי בֵיתוֹ — מָה בֵּיתוֹ, אַקַּפֶּנְדַּרְיָא קָפֵיד אִינָשׁ, אַרְקִיקָה וּמִנְעָל לָא קָפֵיד אִינָשׁ, אַף בֵּית הַכְּנֶסֶת, קַפֶּנְדַּרְיָא הוּא דַּאֲסִיר, רְקִיקָה וּמִנְעָל — שְׁרֵי.

Mas (ela) disse (amar) Rava: a sinagoga é como (ki) sua casa (beito) de cada um — assim como (mah) em sua casa (beito), com o atalho (akapendarya) a pessoa (inash) se importa (kafeid), mas com escarro (arekikah) e calçado (umineal) a pessoa (inash) não (la) se importa (kafeid), também (af) na sinagoga (beit hakeneset), o atalho (kapendarya) é que (hu de) é proibido (assir); escarro (rekikah) e calçado (umineal) — são permitidos (sharei).

Nota

Rava resolve o desafio com um princípio distinto: a sinagoga se assemelha à casa particular de cada um, onde a pessoa se incomoda quando alguém a atravessa como atalho, mas não se incomoda com escarro ou calçado. Por isso a régua correta não é o Monte do Templo (onde tudo é rigoroso) nem uma comparação mecânica entre calçado e atalho, mas o comportamento natural de um dono de casa — encerrando definitivamente a sugiá do daf anterior.

3Mishná: todos os selos das bênçãos que havia no Templo diziam "até a eternidade"; quando os hereges corromperam-se e disseram que não há senão um só mundo, instituíram que se dissesse "de eternidade a eternidade"
Bavli · 63a — Mishná
כׇּל חוֹתְמֵי בְּרָכוֹת שֶׁבַּמִּקְדָּשׁ הָיוּ אוֹמְרִים ״עַד הָעוֹלָם״. מִשֶּׁקִּלְקְלוּ הַמִּינִין וְאָמְרוּ, אֵין עוֹלָם אֶלָּא אֶחָד, הִתְקִינוּ שֶׁיְּהוּ אוֹמְרִים ״מִן הָעוֹלָם וְעַד הָעוֹלָם״.

Todos (kol) os selos (chotmei) de bênçãos (berachot) que havia (sheba) no Templo (hamikdash) diziam (hayu omrim): "até (ad) a eternidade (haolam)". Quando (mishe) os hereges (haminin) corromperam-se (kilkelu) e disseram (veamru) que não há (ein) senão (ela) um só (echad) mundo (olam) (negando o Mundo Vindouro e a ressurreição), instituíram (hitkinu) que (sheyehu) se dissesse (omrim): "de (min) eternidade (haolam) e até (vead) a eternidade (haolam)" (afirmando explicitamente dois mundos, este e o vindouro).

Nota

A Mishná retoma o tópico do Templo, mas agora quanto à fórmula das bênçãos: originalmente, cada bênção se encerrava com "até a eternidade"; ao surgirem hereges que negavam a existência de um mundo vindouro, os sábios instituíram a fórmula dupla "de eternidade a eternidade", que afirma explicitamente dois mundos e refuta a heresia.

4Por que tudo isso? Porque não se responde "amém" no Templo. E de onde que não se responde amém no Templo? Pois foi dito: "levantai-vos, bendizei ao Eterno, vosso D-us, de eternidade a eternidade"; e diz: "e bendigam o Teu Nome glorioso, exaltado sobre toda bênção e louvor"
Bavli · 63a — Guemará
כׇּל כָּךְ לָמָּה — לְפִי שֶׁאֵין עוֹנִין ״אָמֵן״ בַּמִּקְדָּשׁ. וּמִנַּיִן שֶׁאֵין עוֹנִין אָמֵן בַּמִּקְדָּשׁ? — שֶׁנֶּאֱמַר: ״קוּמוּ בָּרְכוּ אֶת ה׳ אֱלֹהֵיכֶם מִן הָעוֹלָם עַד הָעוֹלָם״. וְאוֹמֵר: ״וִיבָרְכוּ אֶת שֵׁם כְּבֹדֶךָ וּמְרוֹמַם עַל כׇּל בְּרָכָה וּתְהִלָּה״.

Por que tudo (kol kach) isso a fórmula alterada? Porque (lefi) não se responde (ein onin) "amém (amen)" no Templo (bamikdash). E de onde (uminayin) que (she) não se responde (ein onin) amém (amen) no Templo (bamikdash)? Pois foi dito (sheneemar): "levantai-vos (kumu), bendizei (barchu) ao Eterno, vosso D-us (et Hashem elokeichem), de (min) eternidade (haolam) e até (ad) a eternidade (haolam)" (Neemias 9:5); e diz (veomer): "e bendigam (vivarchu) o Teu Nome (shem) glorioso (kevodecha), exaltado (umeromam) sobre (al) toda (kol) bênção (berachah) e louvor (utehilah)" (mesmo versículo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
ויברכו שם כבודך – בשכמל"ו עונים והמברך אומר ברוך ה' אלהי ישראל מן העולם ועד העולם מפרש בתוספתא שתקנו מן העולם ועד העולם להודיע שאין העוה"ז לפני העוה"ב כלום אלא כפרוזדור לפני הטרקלין כלומר הנהיגו ברכותיו בעוה"ז כדי להיות רגילים לעוה"ב שכולו ארוך:

"E bendigam o Teu Nome glorioso" — com a fórmula "Bendito seja o Nome da glória de Seu reino para sempre (baruch shem kevod malchuto leolam vaed)" respondem, e o que abençoa (hamevarech) diz (omer): "Bendito (baruch) é o Eterno, D-us (elokei) de Israel (yisrael), de eternidade e até eternidade (min haolam vead haolam)". Explica-se (mefaresh) na Tosefta que (she) instituíram (tiknu) "de eternidade e até eternidade" para dar a conhecer (lehodia) que (she) este mundo (haolam hazeh) não é nada (eino klum) diante (lifnei) do Mundo Vindouro (haolam haba), mas sim (ela) é como (keprozdor) um vestíbulo (prozdor) diante do salão (hatraklin); isto é (kelomar): instituíram (hinhigu) suas bênçãos (berachotav) neste mundo (baolam hazeh) a fim de (kedei) se habituarem (lihyot regilim) ao Mundo Vindouro (laolam haba), que (shekulo) é todo (aroch) eternamente.

Nota

A Guemará explica a razão da mudança: como no Templo não se respondia "amém" às bênçãos, era necessário que cada bênção contivesse, em sua própria fórmula, a afirmação da eternidade de D-us "de mundo a mundo", extraída do versículo de Neemias sobre a assembleia que abençoou ao Eterno; Rashi acrescenta, com base na Tosefta, que a expressão ensina que este mundo é apenas um vestíbulo diante do salão do Mundo Vindouro.

5Poder-se-ia pensar que todas as bênçãos teriam um só louvor; o ensinamento diz: "exaltado sobre toda bênção e louvor" — sobre cada bênção, dá-lhe louvor
Bavli · 63a — Guemará
יָכוֹל כׇּל הַבְּרָכוֹת כּוּלָּן תְּהֵא לָהֶן תְּהִלָּה אַחַת, תַּלְמוּד לוֹמַר: ״וּמְרוֹמַם עַל כׇּל בְּרָכָה וּתְהִלָּה״, עַל כׇּל בְּרָכָה וּבְרָכָה — תֵּן לוֹ תְּהִלָּה.

Poder-se-ia pensar (yachol) que todas (kol) as bênçãos (haberachot), todas elas (kulan), teriam (tehei) para elas (lahen) um só (achat) louvor (tehilah) (um único "amém" comum a todas), o ensinamento (talmud) diz (lomar): "exaltado (umeromam) sobre (al) toda (kol) bênção (berachah) e louvor (utehilah)" — sobre (al) cada (kol) bênção (berachah) e bênção (uverachah), dá-lhe (ten lo) seu próprio louvor (tehilah).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
על כל הברכות – בסוף ברכה אחרונה: תהלה אחת – שיענו פעם אחת בשכמל"ו:

"Sobre todas as bênçãos" — ao final (besof) da última (acharonah) bênção (berachah). "Um só louvor" — que (she) respondam (yaanu) uma só vez (paam achat) "Bendito seja o Nome da glória de Seu reino para sempre (bechamal)".

Nota

A Guemará precisa o alcance da expressão "exaltado sobre toda bênção e louvor": não se trata de um único louvor genérico ao final de uma série de bênçãos, mas de um louvor próprio a cada bênção individual — daí a necessidade da fórmula "de eternidade a eternidade" em cada uma delas.

6Mishná: instituíram que a pessoa saudasse seu companheiro com o Nome, e diz
Bavli · 63a — Guemará
הִתְקִינוּ שֶׁיְּהֵא אָדָם שׁוֹאֵל בִּשְׁלוֹם חֲבֵרוֹ וְכוּ׳. מַאי ״וְאוֹמֵר״?

A Mishná ensinara: instituíram (hitkinu) que (sheyehei) a pessoa (adam) saudasse (shoel bishlom) seu companheiro (chaveiro) com o Nome Divino etc. Qual (mai) é o versículo introduzido por "e diz (veomer)" na Mishná, como prova adicional?

Nota

A Guemará retoma a última cláusula da Mishná anterior, sobre saudar o próximo pelo Nome Divino (com base no versículo "o Eterno esteja convosco", dito por Boaz), e pergunta qual seria a segunda fonte bíblica, introduzida pela expressão "e diz", que a Mishná traria como reforço.

7E se disseres que Boaz falou por sua própria iniciativa — vem e ouve: "o Eterno está contigo, homem valoroso". E se disseres que foi um anjo quem falou a Gedeão — vem e ouve: "não desprezes, pois já envelheceu tua mãe"
Bavli · 63a — Guemará
וְכִי תֵּימָא בֹּעַז מִדַּעְתֵּיהּ דְּנַפְשֵׁיהּ קָאָמַר — תָּא שְׁמַע ״ה׳ עִמְּךָ גִּבּוֹר הֶחָיִל״. וְכִי תֵּימָא מַלְאָךְ הוּא דְּקָאָמַר לֵיהּ לְגִדְעוֹן — תָּא שְׁמַע ״אַל תָּבוּז כִּי זָקְנָה אִמֶּךָ״.

E se (vechi) disseres (teima) que Boaz por sua própria (midaateih denafsheih) iniciativa falou (kaamar) (e não é fonte válida para a saudação com o Nome) — vem (ta) e ouve (shema): "o Eterno (Hashem) está contigo (imcha), homem valoroso (gibor hachayil)" (Juízes 6:12, resposta do anjo a Gedeão, confirmando que a saudação com o Nome é aprovada Acima). E se (vechi) disseres (teima) que foi um anjo (malach hu) quem falou (dekaamar leih) a Gedeão, e não podemos aprender dele para um ser humano comum — vem (ta) e ouve (shema): "não desprezes (al tavuz), pois (ki) já envelheceu (zakenah) tua mãe (imecha)" (Provérbios 23:22, dita por um sábio humano, mostrando que o costume vale também para pessoas comuns).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
וכי תימא בועז מדעתיה עבד – ולא גמרינן מיניה: תא שמע – דגמרינן ממלאך שאמר לגדעון: וכי תימא מלאך הוא דקאמר ליה לגדעון – כלומר לא שאל בשלומו ולא ברכו אלא בשליחות קאמר מאת המקום לבשרו שהשכינה עמו ולא גמרינן מיניה: תא שמע אל תבוז כי זקנה אמך – אל תבוז את בועז לאמר מדעתו עשה אלא למוד מזקני ישראל כי יש לו על מי שיסמוך שנאמר עת לעשות לה':

"E se disseres que Boaz por sua própria iniciativa agiu" — e não (velo) aprendemos (gamrinan) dele (mineih). "Vem e ouve" — que (de) aprendemos (gamrinan) do anjo (mimalach) que (she) falou (amar) a Gedeão. "E se disseres que foi um anjo quem falou a Gedeão" — isto é (kelomar): não (lo) perguntou (shaal) por sua paz (bishlomo) nem (velo) o abençoou (berecho), mas sim (ela) por missão (bishlichut) falou (kaamar), da parte (meet) do Onipresente (hamakom), para anunciar-lhe (levasro) que (she) a Presença Divina (hashechinah) estava com ele (imo), e não (velo) aprendemos (gamrinan) dele (mineih). "Vem e ouve: não desprezes, pois já envelheceu tua mãe" — não (al) desprezes (tavuz) a Boaz dizendo (lomar) que (she) por sua própria iniciativa (midaato) agiu (asah), mas sim (ela) aprende (lemod) dos anciãos (mizikenei) de Israel (yisrael), pois (ki) ele tem (yesh lo) em quem (al mi) se apoiar (sheyismoch), pois foi dito (sheneemar): "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (laHashem)" (o versículo seguinte).

Nota

A Guemará responde à pergunta com dois versículos: para descartar a objeção de que Boaz teria agido por conta própria, cita a resposta do anjo a Gedeão ("o Eterno está contigo"), mostrando que saudar com o Nome tem aprovação celestial; e, para descartar a objeção de que só um anjo poderia fazê-lo, cita Provérbios, onde um sábio humano usa linguagem semelhante para justificar seguir o costume dos anciãos de Israel.

8E diz: "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá". Disse Rava: este versículo, do início ao fim se interpreta, do fim ao início se interpreta
Bavli · 63a — Guemará
וְאוֹמֵר: ״עֵת לַעֲשׂוֹת לַה׳ הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ״. אָמַר רָבָא: הַאי קְרָא, מֵרֵישֵׁיהּ לְסֵיפֵיהּ מִדְּרִישׁ, מִסֵּיפֵיהּ לְרֵישֵׁיהּ מִדְּרִישׁ.

E diz (veomer): "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (laHashem), anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" (Salmos 119:126). Disse (amar) Rava: este (hai) versículo (kera), do início (mereisheih) ao fim (leseifeih) se interpreta (midrish), do fim (miseifeih) ao início (lereisheih) se interpreta (midrish) (pode ser lido em ambos os sentidos, com significados distintos).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
מסיפיה לרישיה כו' – אם באת לדרשו למקרא זה יש לך לדרשו יפה בין בכתיבתו בין בהפוך:

"Do fim ao início etc." — se (im) vieres (bata) a interpretar (lodrsho) este (zeh) versículo (mikra), tens (yesh lecha) como o interpretar (lodrsho) bem (yafeh), tanto (bein) em sua ordem escrita (bichtivato) quanto (bein) invertido (behipuch).

Nota

A Guemará cita o versículo de Salmos usado como segunda prova na Mishná, e Rava observa que ele admite duas leituras completas e opostas, conforme se toma a primeira cláusula como causa da segunda, ou a segunda como causa da primeira.

9Do início ao fim se interpreta: "é tempo de agir pelo Eterno" — qual a razão? Por causa de "anularam Tua Torá". Do fim ao início se interpreta: "anularam Tua Torá" — qual a razão? Por causa de "é tempo de agir pelo Eterno"
Bavli · 63a — Guemará
מֵרֵישֵׁיהּ לְסֵיפֵיהּ מִדְּרִישׁ — ״עֵת לַעֲשׂוֹת לַה׳״, מַאי טַעַם? — מִשּׁוּם ״הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ״. מִסֵּיפֵיהּ לְרֵישֵׁיהּ מִדְּרִישׁ: ״הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ״ מַאי טַעְמָא? — מִשּׁוּם ״עֵת לַעֲשׂוֹת לַה׳״.

Do início (mereisheih) ao fim (leseifeih) se interpreta (midrish): "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (laHashem)" — qual (mai) a razão (taam)? Por causa (mishum) de "anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" (quando a Torá é abandonada, é tempo de agir por ela mesmo violando alguns de seus preceitos formais, como saudar com o Nome). Do fim (miseifeih) ao início (lereisheih) se interpreta (midrish): "anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)" — qual (mai) a razão (taama)? Por causa (mishum) de "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (laHashem)" (às vezes é necessário anular formalmente um preceito da Torá — como o proibição de pronunciar o Nome em vão — precisamente a fim de agir pelo Eterno, fortalecendo a fé).

Nota

A Guemará detalha as duas leituras possíveis do versículo: lido do início para o fim, ele justifica agir de modo extraordinário (como saudar com o Nome Divino) precisamente porque a Torá está sendo abandonada; lido do fim para o início, ele explica que às vezes é necessário suspender formalmente um preceito da Torá justamente para poder agir pelo Eterno.

10Ensinou-se, Hilel, o Velho, diz: no momento de reunir — dispersa; no momento de dispersar — reúne. E se viste uma geração à qual a Torá é querida — dispersa, pois foi dito: "há quem dispersa e ainda acrescenta". E se viste uma geração à qual a Torá não é querida — reúne, pois foi dito: "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá"
Bavli · 63a — Guemará
תַּנְיָא, הִלֵּל הַזָּקֵן אוֹמֵר: בִּשְׁעַת הַמַּכְנִיסִין — פַּזֵּר. בִּשְׁעַת הַמְפַזְּרִים — כַּנֵּס. וְאִם רָאִיתָ דּוֹר שֶׁהַתּוֹרָה חֲבִיבָה עָלָיו — פַּזֵּר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יֵשׁ מְפַזֵּר וְנוֹסָף עוֹד״. וְאִם רָאִיתָ דּוֹר שֶׁאֵין הַתּוֹרָה חֲבִיבָה עָלָיו — כַּנֵּס, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֵת לַעֲשׂוֹת לַה׳ הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ״.

Ensinou-se (tanya), Hilel, o Velho (hazaken), diz (omer): no momento (bishat) dos que reúnem (hamachnisin) (quando os outros ajuntam alunos) — dispersa (pazer) (tu, ensinando a muitos discípulos); no momento (bishat) dos que dispersam (hamefazrim) — reúne (kanes) (retrai-te, para não tomar autoridade sobre eles). E se viste (im raita) uma geração (dor) à qual (she) a Torá (hatorah) é querida (chavivah) a ela (alav) — dispersa (pazer) a Torá, ensinando-a amplamente, pois foi dito (sheneemar): "há (yesh) quem dispersa (mefazer) e ainda (venosaf) acrescenta (od)" (Provérbios 11:24). E se viste (im raita) uma geração (dor) à qual (she) não (ein) a Torá (hatorah) é querida (chavivah) a ela (alav) — reúne (kanes) (retém para ti o ensino, sem expô-lo ao desprezo), pois foi dito (sheneemar): "é tempo (et) de agir (laasot) pelo Eterno (laHashem), anularam (heferu) Tua Torá (toratecha)".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
בשעת המכניסים – שאין חכמי הדור מרביצים תורה לתלמידים: פזר – אתה לשנות לתלמידים: בשעת המפזרים – שהגדולים שבדור מרביצים תורה: כנס – אתה ולא תטול שררה עליהם דאף זו לכבוד שמים היא לאחוז במדת הענוה וכתיב עת לעשות לה' הפרו תורתך: ואם ראית דור שאין התורה חביבה עליו כנס – ואל תטיל דברי תורה לבזיון: הפרו תורתך – מלפזרה בשעה שהכנוס לשם שמים:

"No momento dos que reúnem" — quando (she) os sábios (chachmei) da geração (hador) não (ein) difundem (marbitzim) Torá (torah) aos discípulos (letalmidim). "Dispersa" — tu (atah), para ensinar (lishnot) aos discípulos (letalmidim). "No momento dos que dispersam" — quando (she) os grandes (hagedolim) da geração (shebador) difundem (marbitzim) Torá (torah). "Reúne" — tu (atah), e não (velo) tomes (titol) autoridade (serarah) sobre eles (aleihem), pois (de) também (af) isto (zo) é para a honra (lichvod) dos Céus (shamayim), apegar-se (leechoz) ao atributo (bemidat) da humildade (haanavah), e está escrito (uchtiv): "é tempo de agir pelo Eterno, anularam Tua Torá". "E se viste uma geração à qual a Torá não é querida, reúne" — e não (veal) lances (tatil) as palavras (divrei) de Torá (torah) ao desprezo (levizayon). "Anularam Tua Torá" — abstendo-te de dispersá-la (mefazrah) quando (bishah) reunir-se (hakinus) é para o Nome (leshem) dos Céus (shamayim).

Nota

Aproveitando a leitura dupla do versículo, a Guemará cita o ensinamento de Hilel, o Velho, sobre quando é apropriado ensinar Torá amplamente e quando é preferível conter o próprio ensino — seja por deferência aos que já a difundem (evitando tomar autoridade sobre eles), seja por prudência diante de uma geração indiferente à Torá, para não expô-la ao desprezo.

11Expôs Bar Kapara: "onde não há homem" — reúne, adquire dali. Onde não há homem digno, ali sê homem. Disse Abaye: aprende-se disso que onde há homem digno, ali não sejas tu homem
Bavli · 63a — Guemará
דָּרַשׁ בַּר קַפָּרָא: זָלַת — קְבוֹץ קְנֵה מִינַּהּ, בַּאֲתַר דְּלֵית גְּבַר — תַּמָּן הֱוֵי גְּבַר. אָמַר אַבָּיֵי: שְׁמַע מִינַּהּ, בַּאֲתַר דְּאִית גְּבַר — תַּמָּן לָא תִּהְוֵי גְּבַר.

Expôs (darash) Bar Kapara: "barato (zalat)" (se algo baixou de preço) — reúne (kevotz), adquire (keneh) dali (mina) (compra enquanto está barato). No lugar (baatar) onde (de) não há (leit) homem (gevar) digno (de decidir ou agir) — ali (taman)(hevei) homem (gevar) (assume tu a responsabilidade). Disse (amar) Abaye: aprende-se (shema) disso (mina), no lugar (baatar) onde (de)(it) homem (gevar) digno — ali (taman) não (la) sejas (tihvei) tu homem (gevar) (não te sobreponhas a quem já está capacitado).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
הכי גרסינן זלת קבוץ קנה מינה – אם ראית פרקמטיא בזול קבוץ וקנה מינה ואסוף שסופה להתיקר:

Assim (hachi) lemos (garsinan): "barato, reúne, adquire dali" — se (im) viste (raita) mercadoria (perakmatya) barata (bezol), reúne (kevotz) e adquire (keneh) dali (mina), e ajunta (veesof), pois (she) seu fim (sofah) é (lehitiker) encarecer-se.

Nota

Bar Kapara expõe um ditado com dois sentidos: um prático (comprar mercadoria enquanto está barata, prevendo alta futura) e outro moral (assumir liderança onde ninguém mais está capacitado a agir); Abaye extrai a implicação inversa: onde já existe alguém apto, não se deve tomar seu lugar.

12Isso é óbvio! Não é necessário senão quando ambos são iguais
Bavli · 63a — Guemará
פְּשִׁיטָא! לֹא נִצְרְכָה אֶלָּא בְּשֶׁשְּׁנֵיהֶם שָׁוִין.

Isso é óbvio (peshita)! Não (lo) é necessário (nitzrechah) o ensinamento de Abaye senão (ela) quando (beshe) ambos (sheneihem) são iguais (shavin) (em capacidade — mesmo assim, não te imponhas).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
פשיטא – הא דאביי למה לי פשיטא שלא יורה אדם הלכה בפני רבו למה ליה לאביי למשמע מכללא: בששניהן שוין – אם באת במקום תלמיד חכם ואינך גדול ממנו אל תטול עטרה לדרוש במקומו:

"Isso é óbvio" — este (ha) ensinamento de Abaye, para que (lamah li) me serve? É óbvio (peshita) que (she) não (lo) ensine (yoreh) a pessoa (adam) uma norma (halachah) diante (bifnei) de seu mestre (rabo) — para que (lamah lei) precisou Abaye deduzi-lo (lemishma) da implicação (mikelala)? "Quando ambos são iguais" — se (im) vieres (bata) a um lugar (bemakom) onde há um erudito (talmid chacham), e não és (veeincha) maior (gadol) que ele (mimenu), não (al) tomes (titol) a coroa (atarah) de expor (lidrosh) em seu lugar (bimkomo).

Nota

A Guemará objeta que a implicação de Abaye seria óbvia (pois é sabido que não se ensina uma norma diante do próprio mestre), mas explica que o valor do ensinamento está em estendê-lo mesmo a um erudito de nível igual — e não apenas superior — a quem já ocupa o lugar de expor a Torá.

13Expôs Bar Kapara: qual é a seção pequena da qual dependem todos os corpos da Torá? "Em todos os teus caminhos conhece-O, e Ele endireitará tuas veredas". Disse Rava: mesmo para um assunto de transgressão
Bavli · 63a — Guemará
דָּרַשׁ בַּר קַפָּרָא: אֵיזוֹהִי פָּרָשָׁה קְטַנָּה שֶׁכָּל גּוּפֵי תוֹרָה תְּלוּיִין בָּהּ — ״בְּכָל דְּרָכֶיךָ דָעֵהוּ וְהוּא יְיַשֵּׁר אֹרְחֹתֶיךָ״. אָמַר רָבָא: אֲפִילּוּ לִדְבַר עֲבֵירָה.

Expôs (darash) Bar Kapara: qual (eizohi) é a seção (parashah) pequena (ketanah) da qual (she) todos (kol) os corpos (gufei) (princípios essenciais) da Torá (torah) dependem (teluyin) nela (bah)? "Em todos (bechol) os teus caminhos (derachecha) conhece-O (daeihu), e Ele (vehu) endireitará (yeyasher) tuas veredas (orchotecha)" (Provérbios 3:6). Disse (amar) Rava: mesmo (afilu) para um assunto (lidvar) de transgressão (aveirah) (mesmo ao considerar um ato proibido, deve-se ter em mente o serviço a D-us).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
בכל דרכיך – אפילו לעבור עבירה: דעהו – תן לב אם צורך מצוה הוא כגון אליהו בהר הכרמל עבור עליה:

"Em todos os teus caminhos" — mesmo (afilu) para transgredir (laavor) uma proibição (aveirah). "Conhece-O" — dá (ten) atenção (lev) se (im) é necessidade (tzorech) de um preceito (mitzvah), como (kegon) Eliyahu no Monte (behar) Carmelo (hakarmel), que transgrediu (avor) por necessidade dela (aleha).

Nota

Bar Kapara identifica um versículo curto que resume o essencial da Torá — reconhecer a D-us em todos os caminhos da vida —, e Rava estende seu alcance mesmo a situações de aparente transgressão, quando o objetivo é um bem maior, como no exemplo de Rashi sobre Elias oferecendo sacrifício fora do Templo no Monte Carmelo por necessidade urgente daquela hora.

14Expôs Bar Kapara: sempre ensine a pessoa a seu filho um ofício limpo e leve. Qual é ele? Disse Rav Chisda: a agulha do bordador
Bavli · 63a — Guemará
דָּרַשׁ בַּר קַפָּרָא: לְעוֹלָם יְלַמֵּד אָדָם אֶת בְּנוֹ אוּמָּנוּת נְקִיָּה וְקַלָּה. מָה הִיא? אָמַר רַב חִסְדָּא: מַחְטָא דְתַלְמִיּוּתָא.

Expôs (darash) Bar Kapara: sempre (leolam) ensine (yelamed) a pessoa (adam) a seu filho (et beno) um ofício (umanut) limpo (nekiyah) e leve (vekalah). Qual (mah) é ele (hi)? Disse (amar) Rav Chisda: a agulha (machta) do bordador (detalmiyuta).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
מחטא דתלמיותא – ברושי"ד שלגבויי"ש שהתפירות עשויות שורות שורות כתלמי מענה:

"A agulha do bordador" (machta detalmiyuta)termo em francês antigo, "brosdeure" (berushid) em francês (shel gavuyish), pois (she) as costuras (hatefirot) são feitas (asuyot) fileira (shurot) a fileira (shurot), como (ketalmei) sulcos (malanah) de um campo arado.

Nota

Bar Kapara aconselha ensinar aos filhos um ofício limpo e de esforço leve, e Rav Chisda identifica esse ofício ideal com o bordado — trabalho manual delicado, feito sentado e sem esforço físico pesado.

15Ensinou-se, Rabi diz: nunca multiplique a pessoa amigos em sua casa, pois foi dito: "o homem de muitos amigos se arruína"
Bavli · 63a — Guemará
תַּנְיָא, רַבִּי אוֹמֵר: לְעוֹלָם אַל יַרְבֶּה אָדָם רֵעִים בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִישׁ רֵעִים לְהִתְרוֹעֵעַ״.

Ensinou-se (tanya), Rabi diz (omer): nunca (leolam) multiplique (al yarbeh) a pessoa (adam) amigos (reim) dentro de (betoch) sua casa (beito), pois foi dito (sheneemar): "o homem (ish) de muitos amigos (reim) se arruína (lehitroeia)" (Provérbios 18:24).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
להתרועע – להתרוצץ:

"Se arruína" (lehitroeia)significa destruir-se (lehitrotzetz).

Nota

Rabi ensina, a partir de Provérbios, que a proximidade excessiva de muitas amizades dentro do próprio lar acaba, paradoxalmente, por trazer ruína — interpretação de Rashi que lê "lehitroeia" como sinônimo de "destruir-se".

16Ensinou-se, Rabi diz: não nomeie a pessoa administrador em sua casa, pois se Potifar não tivesse nomeado a José administrador em sua casa, não teria chegado àquele assunto
Bavli · 63a — Guemará
תַּנְיָא, רַבִּי אוֹמֵר: אַל יְמַנֶּה אָדָם אַפֹּטְרוֹפּוֹס בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ, שֶׁאִלְמָלֵי לֹא מִינָּה פּוֹטִיפַר אֶת יוֹסֵף אַפֹּטְרוֹפּוֹס בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ — לֹא בָּא לְאוֹתוֹ דָּבָר.

Ensinou-se (tanya), Rabi diz (omer): não (al) nomeie (yemaneh) a pessoa (adam) administrador (apotropos) dentro de (betoch) sua casa (beito), pois (she) se não fosse (ilmalei) que não (lo) nomeou (minah) Potifar a José administrador (apotropos) dentro de (betoch) sua casa (beito) — não (lo) teria chegado (ba) àquele (leoto) assunto (davar) (a tentação da mulher de Potifar).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
אפוטרופוס – מכניס ומוציא נכסיו:

"Administrador" (apotropos) — aquele que faz entrar (machnis) e sair (umotzi) seus bens (nechasav) (gerencia integralmente sua propriedade e sua casa).

Nota

No mesmo espírito, Rabi ensina a não conferir a ninguém autoridade plena sobre a própria casa, ilustrando com o caso de José: foi precisamente por Potifar tê-lo nomeado administrador — com acesso irrestrito à casa — que surgiu a ocasião da tentação por sua esposa.

17Ensinou-se, Rabi diz: por que se justapôs a seção do nazireu à seção da sotá? Para te dizer que todo aquele que vê a sotá em sua desgraça deve fazer-se nazireu, abstendo-se do vinho
Bavli · 63a — Guemará
תַּנְיָא, רַבִּי אוֹמֵר: לָמָּה נִסְמְכָה פָּרָשַׁת נָזִיר לְפָרָשַׁת סוֹטָה — לוֹמַר לָךְ שֶׁכָּל הָרוֹאֶה סוֹטָה בְּקִלְקוּלָהּ יַזִּיר עַצְמוֹ מִן הַיַּיִן.

Ensinou-se (tanya), Rabi diz (omer): por que (lamah) se justapôs (nismechah) a seção (parashat) do nazireu (nazir) à seção (leparashat) da sotá (sotah) (a mulher suspeita de adultério, Números 5-6)? Para te dizer (lomar lach) que (she) todo (kol) aquele que vê (haroeh) a sotá (sotah) em sua desgraça (bekilkulah) deve fazer-se nazireu (yazir atzmo), abstendo-se do vinho (min hayayin) (pois o vinho conduz a tais transgressões).

Nota

Rabi explica a justaposição, na Torá, das leis do nazireu logo após as da mulher suspeita de adultério: testemunhar a degradação de uma sotá deve levar o espectador a assumir sobre si o voto de nazireu, abstendo-se do vinho como medida preventiva contra a tentação.

18Disse Chizkiá, filho de Rabi Parnach, disse Rabi Yochanan: por que se justapôs a seção da sotá à seção de terumot e maasserot? Todo aquele que tem terumot e maasserot e não os dá ao sacerdote, acaba por precisar do sacerdote por meio de sua esposa
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר חִזְקִיָּה בְּרֵיהּ דְּרַבִּי פַּרְנָךְ אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: לָמָּה נִסְמְכָה פָּרָשַׁת סוֹטָה לְפָרָשַׁת תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת — לוֹמַר לָךְ: כֹּל שֶׁיֵּשׁ לוֹ תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת וְאֵינוֹ נוֹתְנָן לַכֹּהֵן, סוֹף נִצְרָךְ לַכֹּהֵן עַל יְדֵי אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאִישׁ אֶת קֳדָשָׁיו לוֹ יִהְיוּ״, וּסְמִיךְ לֵיהּ ״אִישׁ אִישׁ כִּי תִשְׂטֶה אִשְׁתּוֹ״, וּכְתִיב ״וְהֵבִיא הָאִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ״ וְגוֹ׳. וְלֹא עוֹד אֶלָּא סוֹף שֶׁנִּצְרָךְ לָהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאִישׁ אֶת קֳדָשָׁיו לוֹ יִהְיוּ״.

Disse (amar) Chizkiá, filho de Rabi Parnach, disse (amar) Rabi Yochanan: por que (lamah) se justapôs (nismechah) a seção (parashat) da sotá (sotah) à seção (leparashat) de terumot (terumot) e maasserot (umaasserot) (as porções destinadas ao sacerdote e ao levita)? Para te dizer (lomar lach): todo (kol) aquele que tem (sheyesh lo) terumot (terumot) e maasserot (umaasserot) e não os dá (veeino notnan) ao sacerdote (lakohen), acaba (sof) por precisar (nitzrach) do sacerdote (lakohen) por meio de (al yedei) sua esposa (ishto), pois foi dito (sheneemar): "e o homem (veish), suas coisas sagradas (et kodashav) serão suas (lo yihyu)" (Números 5:10), e está justaposto (usmich leih) a ele: "todo homem (ish ish), se se desviar (ki tisteh) sua esposa (ishto)" (início da seção da sotá), e está escrito (uchtiv): "e trará (vehevi) o homem (haish) sua esposa (et ishto)" etc. E não (velo) apenas (od) isso, mas sim (ela) acaba (sof) por precisar (shenitzrach) deles (lahen) (dos próprios sacerdotes, ficando pobre), pois foi dito (sheneemar): "e o homem, suas coisas sagradas serão suas".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
כל שיש לו תרומות ומעשרות ואינו נותנן לכהן סוף שנצרך לו על ידי אשתו – שנעשית סוטה: ה"ג ואיש את קדשיו לו יהיו וסמיך ליה איש איש כי תשטה אשתו וכתיב והביא האיש את אשתו: איש את קדשיו לו יהיו – שמעכב קדשיו אצלו ואינו נותנן לכהנים וללוים: סוף שנצרך להן – שנעשה עני וצריך לכך ליטול מעשר עני: לו יהיו – לעצמו יצטרכו:

"Todo aquele que tem terumot e maasserot e não os dá ao sacerdote, acaba por precisar dele por meio de sua esposa" — que (she) se torna (naasit) sotá (sotah). Assim (hachi) lemos (garsinan): "e o homem, suas coisas sagradas serão suas", e está justaposto (usmich leih): "todo homem, se se desviar sua esposa", e está escrito: "e trará o homem sua esposa". "O homem, suas coisas sagradas serão suas" — pois (she) retém (meakev) suas coisas sagradas (kodashav) consigo (etzlo) e não (veeino) as dá (notnan) aos sacerdotes (lakohanim) e aos levitas (velaleviyim). "Acaba por precisar deles" — que (she) se torna (naasah) pobre (ani) e precisa (vetzarich), por essa razão (lecach), de receber (litol) o dízimo (maasser) do pobre (ani). "Serão suas" — quer dizer que para si mesmo (leatzmo) as precisará (yitztarechu).

Nota

Chizkiá, em nome de Rabi Yochanan, estende o método de justaposições bíblicas: quem retém indevidamente para si as porções sacerdotais e levíticas em vez de entregá-las acaba, segundo a leitura contínua dos versículos de Números, por precisar do sacerdote por meio da própria esposa — seja pelo escândalo da sotá, seja pela pobreza que o leva a depender do dízimo do pobre.

19Disse Rav Nachman bar Yitzchak: e se os deu, acaba por se tornar rico, pois foi dito: "o homem que der ao sacerdote, seu será" — "seu será" quer dizer muito dinheiro
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: וְאִם נְתָנָן, סוֹף מִתְעַשֵּׁר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִישׁ אֲשֶׁר יִתֵּן לַכֹּהֵן לוֹ יִהְיֶה״, ״לוֹ יִהְיֶה״ — מָמוֹן הַרְבֵּה.

Disse (amar) Rav Nachman bar Yitzchak: e se (veim) os deu (netanan) (as porções sacerdotais), acaba (sof) por se tornar rico (mitasher), pois foi dito (sheneemar): "o homem (ish) que der (asher yiten) ao sacerdote (lakohen), seu (lo) será (yihyeh)" (Números 5:10), "seu será (lo yihyeh)" quer dizer muito (harbeh) dinheiro (mamon).

Nota

Em contraste, Rav Nachman bar Yitzchak lê o mesmo versículo positivamente: quem de fato entrega ao sacerdote as porções devidas acaba por enriquecer, pois a expressão "seu será" implica abundância de recursos.

20Disse Rav Huna bar Berachiá em nome de Rabi Elazar HaKapar: todo aquele que une o Nome dos Céus à sua própria dor, dobram-lhe seu sustento, pois foi dito: "e seja Shadai teu tesouro, e prata em abundância para ti"
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר רַב הוּנָא בַּר בֶּרֶכְיָה מִשּׁוּם רַבִּי אֶלְעָזָר הַקַּפָּר: כׇּל הַמְשַׁתֵּף שֵׁם שָׁמַיִם בְּצַעֲרוֹ — כּוֹפְלִין לוֹ פַּרְנָסָתוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה שַׁדַּי בְּצָרֶיךָ וְכֶסֶף תּוֹעָפוֹת לָךְ״.

Disse (amar) Rav Huna bar Berachiá em nome de (mishum) Rabi Elazar HaKapar: todo (kol) aquele que une (hameshatef) o Nome (shem) dos Céus (shamayim) à sua dor (betzaaro) (reconhecendo D-us em seu próprio sofrimento), dobram-lhe (koflin lo) seu sustento (parnassato), pois foi dito (sheneemar): "e seja (vehayah) Shadai (shadai) teu tesouro (betzareicha), e prata (vechesef) em abundância (toafot) para ti (lach)" (Jó 22:25).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
המשתף שם שמים בצערו – שמברך על הרעה דיין האמת אי נמי שמבקש רחמים מלפניו: בצריך – בצרתך: תועפות – לשון כפילה כדמתרגמינן וכפלת ותעיף (שמות כו):

"Aquele que une o Nome dos Céus à sua dor" — que (she) abençoa (mevarech) pelo mal (al hara) com "(dayan) o Juiz da Verdade (haemet)", ou também (inami) que (she) pede (mevakesh) misericórdia (rachamim) diante Dele (milfanav). "Teu tesouro" (betzareicha)lido como em tua angústia (betzaratcha). "Abundância" (toafot) — expressão (leshon) de duplicação (kefilah), como (kedematargeminan) traduzimos (vechafalta vetaif) (Êxodo 26).

Nota

Rav Huna bar Berachiá, em nome de Rabi Elazar HaKapar, ensina que aquele que, em seu próprio sofrimento, reconhece explicitamente a presença e o julgamento Divinos — bendizendo pelo mal ou suplicando misericórdia — recebe em troca o dobro de seu sustento, conforme se depreende de Jó 22:25, cuja expressão "toafot" Rashi lê como sinônimo de duplicação.

21Rabi Shmuel bar Nachmani disse: seu sustento voa até ele como um pássaro, pois foi dito: "e prata em abundância para ti"
Bavli · 63a — Guemará
רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר: פַּרְנָסָתוֹ מְעוֹפֶפֶת לוֹ כְּצִפּוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכֶסֶף תּוֹעָפוֹת לָךְ״.

Rabi Shmuel bar Nachmani disse (amar): seu sustento (parnassato) voa (meofefet) até ele (lo) como (ketzipor) um pássaro (tzipor), pois foi dito (sheneemar): "e prata (vechesef) em abundância (toafot) para ti (lach)" (lendo "toafot" como aparentado de "voar", ao invés de "duplicar").

Nota

Rabi Shmuel bar Nachmani interpreta o mesmo versículo de forma diferente, associando "toafot" à raiz de voo, e não de duplicação: quem une o Nome Divino à própria dor recebe um sustento que "voa" até ele, chegando com facilidade e rapidez.

22Disse Rabi Tavi, disse Rabi Yoshiá: todo aquele que se enfraquece nas palavras de Torá não tem força para resistir no dia da angústia, pois foi dito: "se te afrouxaste no dia da angústia, restrita é tua força". Disse Rav Ami bar Matna, disse Shmuel: e mesmo em um só preceito
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר רַבִּי טָבִי אָמַר רַבִּי יֹאשִׁיָּה: כׇּל הַמַּרְפֶּה עַצְמוֹ מִדִּבְרֵי תוֹרָה, אֵין בּוֹ כֹּחַ לַעֲמוֹד בְּיוֹם צָרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִתְרַפִּיתָ בְּיוֹם צָרָה צַר כֹּחֶכָה״. אָמַר רַב אַמֵּי בַּר מַתְנָה אָמַר שְׁמוּאֵל: וַאֲפִילּוּ מִצְוָה אַחַת, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִתְרַפִּיתָ״ — מִכׇּל מָקוֹם.

Disse (amar) Rabi Tavi, disse (amar) Rabi Yoshiá: todo (kol) aquele que se enfraquece (hamarpeh) a si mesmo (atzmo) das palavras (midivrei) de Torá (torah), não há (ein bo) nele força (koach) para resistir (laamod) no dia (beyom) da angústia (tzarah), pois foi dito (sheneemar): "se te afrouxaste (hitrapita) no dia (beyom) da angústia (tzarah), restrita (tzar) é tua força (kochecha)" (Provérbios 24:10). Disse (amar) Rav Ami bar Matna, disse (amar) Shmuel: e mesmo (vaafilu) em um só (achat) preceito (mitzvah) que se negligencia, pois foi dito (sheneemar) "afrouxaste-te (hitrapita)" — de qualquer modo (mikol makom) (mesmo um único ato de negligência já causa fraqueza).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
התרפית – מדברי תורה ביום צרה צר כחכה: ואפילו מצוה אחת – אם נתרפה ממנה כשבאה לידו ולא חש להתעסק בה צר כחו: התרפית מכל מקום – אף במצוה אחת משמע:

"Se te afrouxaste" — das palavras (midivrei) de Torá (torah), "no dia da angústia, restrita é tua força". "E mesmo em um só preceito" — se (im) se enfraqueceu (nitrapah) dela (mimenah) quando (kesheba) chegou (ba) a suas mãos (leyado) e não (velo) se preocupou (chash) em ocupar-se (lehitasek) dela (bah), restrita (tzar) fica sua força (kocho). "Afrouxaste-te, de qualquer modo" — mesmo (af) em um só (achat) preceito (mitzvah) se entende (mashma).

Nota

Rabi Tavi, em nome de Rabi Yoshiá, ensina que negligenciar o estudo da Torá deixa a pessoa sem força para os momentos de crise, e Rav Ami bar Matna, em nome de Shmuel, estende essa consequência mesmo à negligência de um único preceito que se apresentou à mão e não foi cumprido.

23Disse Rav Safra: Rabi Avahu costumava contar: quando Chananiá, sobrinho de Rabi Yehoshua, desceu à diáspora, ele intercalava anos e fixava meses fora da Terra de Israel
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר רַב סָפְרָא: רַבִּי אֲבָהוּ הֲוָה מִשְׁתַּעֵי: כְּשֶׁיָּרַד חֲנִינָא בֶּן אֲחִי רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ לַגּוֹלָה, הָיָה מְעַבֵּר שָׁנִים וְקוֹבֵעַ חֳדָשִׁים בְּחוּצָה לָאָרֶץ.

Disse (amar) Rav Safra: Rabi Avahu costumava (havah) contar (mishtaei): quando (kesheyarad) Chananiá, sobrinho (ben achi) de Rabi Yehoshua, desceu (yarad) à diáspora (lagolah), ele intercalava (hayah meaber) anos (shanim) e fixava (vekovea) meses (chodashim) fora (bechutzah) da Terra (laaretz) de Israel (prerrogativa reservada aos sábios da Terra de Israel).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
מעבר שנים וכו' – ותנן אין מעברין את השנים אלא ביהודה דכתיב לשכנו תדרשו כל דרישות שאתה דורש לא יהו אלא בשכנו של מקום בפ"ק דסנהדרין (דף יא:):

"Intercalava anos etc." — e ensinamos (utnan): não (ein) se intercalam (meabrin) os anos (hashanim) senão (ela) em Judeia (bihudah), pois (de) está escrito (uchtiv): "à Sua morada (leshichno) buscareis (tidreshu)" (Deuteronômio 12:5) — toda (kol) busca (derishot) que (she) fizeres (atah doresh) não (lo) sejam (yihyu) senão (ela) na morada (beshichno) do Onipresente (shel makom), no primeiro capítulo (befirkin) do tratado Sanhedrin (11b).

Nota

Inicia-se o longo relato final do daf: Rav Safra transmite, em nome de Rabi Avahu, que Chananiá, sobrinho de Rabi Yehoshua, ao se estabelecer na diáspora, passou a exercer a prerrogativa de intercalar o calendário hebraico (acrescentando um mês extra ao ano) e fixar o início dos meses — atribuição que, segundo a halachá citada por Rashi, pertence exclusivamente aos sábios da Terra de Israel.

24Enviaram após ele dois discípulos dos sábios, Rabi Yossei ben Kipar e o neto de Zecharia ben Kevutal. Assim que os viu, disse-lhes: por que viestes? Disseram-lhe: para aprender Torá viemos. Ele os anunciou: estes homens são os grandes da geração, e seus pais serviram no Templo
Bavli · 63a — Guemará
שִׁגְּרוּ אַחֲרָיו שְׁנֵי תַּלְמִידֵי חֲכָמִים, רַבִּי יוֹסֵי בֶּן כִּיפָּר, וּבֶן בְּנוֹ שֶׁל זְכַרְיָה בֶּן קְבוּטָל. כֵּיוָן שֶׁרָאָה אוֹתָם, אָמַר לָהֶם: לָמָּה בָּאתֶם? אָמְרוּ לוֹ: לִלְמוֹד תּוֹרָה בָּאנוּ. הִכְרִיז עֲלֵיהֶם: אֲנָשִׁים הַלָּלוּ גְּדוֹלֵי הַדּוֹר הֵם וַאֲבוֹתֵיהֶם שִׁמְּשׁוּ בְּבֵית הַמִּקְדָּשׁ. כְּאוֹתָהּ שֶׁשָּׁנִינוּ: זְכַרְיָה בֶּן קְבוּטָל אוֹמֵר: הַרְבֵּה פְּעָמִים קָרִיתִי לְפָנָיו, בְּסֵפֶר דָּנִיֵּאל.

Enviaram (shigru) após ele (acharav) dois (shnei) discípulos (talmidei) dos sábios (chachamim), Rabi Yossei ben Kipar, e o neto (uven beno) de Zecharia ben Kevutal. Assim que (keivan) Chananiá os viu (sheraah otam), disse-lhes (amar lahem): por que (lamah) viestes (batem)? Disseram-lhe (amru lo): para aprender (lilmod) Torá (torah) viemos (banu). Ele os anunciou (hichriz aleihem): estes (halalu) homens (anashim) são (hem) os grandes (gedolei) da geração (hador), e seus pais (vaavoteihem) serviram (shimshu) no Templo (beveit hamikdash). Como (keotah) a tradição que (she) ensinamos (shaninu): Zecharia ben Kevutal diz (omer): muitas (harbeh) vezes (peamim) li (kariti) diante dele (lefanav), no livro (besefer) de Daniel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
שגרו אחריו – למחות בידו:

"Enviaram após ele" — para protestar (limchot) em sua mão (beyado) (contra sua conduta).

Nota

Os sábios da Terra de Israel enviam dois discípulos para confrontar Chananiá, mas estes se apresentam apenas como buscando aprender Torá; Chananiá, ao reconhecê-los, anuncia publicamente sua estatura — eram os maiores de sua geração, descendentes de famílias sacerdotais que serviram no Templo, aludindo à tradição de que Zecharia ben Kevutal lia diante do próprio Sumo Sacerdote a passagem de Daniel na véspera de Yom Kipur.

25Ele começou a declarar impuro, e eles declaravam puro; ele proibia, e eles permitiam. Anunciou sobre eles: estes homens são vãos, são de nulidade. Disseram-lhe: já construíste, e não podes destruir; já cercaste, e não podes derrubar
Bavli · 63a — Guemará
הִתְחִיל הוּא מְטַמֵּא וְהֵם מְטַהֲרִים, הוּא אוֹסֵר וְהֵם מַתִּירִים. הִכְרִיז עֲלֵיהֶם: אֲנָשִׁים הַלָּלוּ שֶׁל שָׁוְא הֵם, שֶׁל תֹּהוּ הֵם. אָמְרוּ לוֹ: כְּבָר בָּנִיתָ וְאִי אַתָּה יָכוֹל לִסְתּוֹר, כְּבָר גָּדַרְתָּ וְאִי אַתָּה יָכוֹל לִפְרוֹץ.

Começou (hitchil) Chananiá a declarar impuro (metamei), e eles (vehem) declaravam puro (metaharim); ele (hu) proibia (oser), e eles (vehem) permitiam (matirim). Anunciou (hichriz) sobre eles (aleihem): estes (halalu) homens (anashim) são de vaidade (shel shav), são de nulidade (shel tohu) (retirando o elogio anterior, indignado com a contradição sistemática). Disseram-lhe (amru lo): já (kevar) construíste (banita), e não (veei) podes (atah yachol) destruir (listor) (não podes retirar o que já anunciaste sobre nós), já (kevar) cercaste (gadarta), e não (veei) podes (atah yachol) derrubar (lifrotz) a cerca.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
כבר בנית – שהגדלת שמנו לומר גדולי הדור הם:

"Já construíste" — pois (she) engrandeceste (higdalta) nosso nome (shemenu), ao dizer (lomar) que somos (hem) os grandes (gedolei) da geração (hador).

Nota

Uma vez estabelecida sua estatura, os dois discípulos passam a contradizer sistematicamente as decisões de Chananiá em matéria de pureza e proibição, provocando sua ira; mas, quando ele tenta desqualificá-los, eles lhe recordam que a própria autoridade que ele mesmo lhes conferiu publicamente já não pode ser desfeita.

26Disse-lhes: por que eu declaro impuro e vós declarais puro, eu proíbo e vós permitis? Disseram-lhe: porque tu intercalas anos e fixas meses fora da Terra de Israel
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר לָהֶם: מִפְּנֵי מָה אֲנִי מְטַמֵּא וְאַתֶּם מְטַהֲרִים, אֲנִי אוֹסֵר וְאַתֶּם מַתִּירִים? אָמְרוּ לוֹ: מִפְּנֵי שֶׁאַתָּה מְעַבֵּר שָׁנִים וְקוֹבֵעַ חֳדָשִׁים בְּחוּץ לָאָרֶץ.

Disse-lhes (amar lahem): por que (mipnei mah) eu (ani) declaro impuro (metamei) e vós (veatem) declarais puro (metaharim), eu (ani) proíbo (oser) e vós (veatem) permitis (matirim)? Disseram-lhe (amru lo): porque (mipnei she) tu (atah) intercalas (meaber) anos (shanim) e fixas (vekovea) meses (chodashim) fora (bechutz) da Terra (laaretz) de Israel.

Nota

Chananiá exige a razão da contestação sistemática, e os discípulos revelam finalmente o verdadeiro motivo de terem sido enviados: sua conduta de fixar o calendário fora da Terra de Israel — usurpando prerrogativa que não lhe pertence — invalida sua autoridade em outras matérias.

27Disse-lhes: mas Akiva ben Yossef não intercalava anos e fixava meses fora da Terra? Disseram-lhe: deixa Rabi Akiva, que não deixou seu igual na Terra de Israel. Disse-lhes: também eu não deixei meu igual na Terra de Israel. Disseram-lhe: os cabritos que deixaste tornaram-se bodes de chifres — e eles nos enviaram a ti
Bavli · 63a — Guemará
אָמַר לָהֶם: וַהֲלֹא עֲקִיבָא בֶּן יוֹסֵף, הָיָה מְעַבֵּר שָׁנִים וְקוֹבֵעַ חֳדָשִׁים בְּחוּץ לָאָרֶץ! אָמְרוּ לוֹ: הַנַּח רַבִּי עֲקִיבָא, שֶׁלֹּא הִנִּיחַ כְּמוֹתוֹ בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל. אָמַר לָהֶם: אַף אֲנִי לֹא הִנַּחְתִּי כְּמוֹתִי בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל. אָמְרוּ לוֹ: גְּדָיִים שֶׁהִנַּחְתָּ נַעֲשׂוּ תְּיָשִׁים בַּעֲלֵי קַרְנַיִם, וְהֵם שִׁגְּרוּנוּ אֶצְלְךָ, וְכֵן אָמְרוּ לָנוּ: לְכוּ וְאִמְרוּ לוֹ בִּשְׁמֵנוּ: אִם שׁוֹמֵעַ — מוּטָב, וְאִם לָאו — יְהֵא בְּנִדּוּי.

Disse-lhes (amar lahem) Chananiá: mas não (vahalo) Akiva ben Yossef intercalava (hayah meaber) anos (shanim) e fixava (vekovea) meses (chodashim) fora (bechutz) da Terra (laaretz)? Disseram-lhe (amru lo): deixa (hanach) Rabi Akiva, que (she) não (lo) deixou (heiniach) seu igual (kemoto) na Terra (beeretz) de Israel (yisrael). Disse-lhes (amar lahem): também (af) eu (ani) não (lo) deixei (hinachti) meu igual (kemoti) na Terra (beeretz) de Israel (yisrael). Disseram-lhe (amru lo): os cabritos (gediyim) que (she) deixaste (hinachta) tornaram-se (naasu) bodes (teyashim) donos de chifres (baalei karnayim) (os discípulos que deixaste amadureceram e se tornaram grandes sábios), e eles (vehem) nos enviaram (shigrunu) a ti (etzlecha), e assim (vechen) nos disseram (amru lanu): ide (lechu) e dizei-lhe (veimru lo) em nosso nome (bishmeinu): se (im) ele ouvir (shomea) — bom (mutav); e se (veim) não (lav) — que esteja (yehei) em excomunhão (benidui).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 63a
והלא עקיבא בן יוסף עשה כן – דתנן ביבמות א"ר עקיבא כשירדתי לנהרדעא לעבר שנים בפרק בתרא האשה שהלך בעלה וצרתה (דף קכב.):

"E não fez assim Akiva ben Yossef?" — pois (de) ensinamos (tenan) em Yevamot: disse (amar) Rabi Akiva: quando (keshe) desci (yaradeti) a Neharde'a para intercalar (leaber) os anos (shanim), no último (baacharon) capítulo (bifrek) de "A mulher (haishah) cujo marido (baalah) partiu (shehalach), e sua co-esposa (vetzarata)" (122a).

Nota

Chananiá tenta justificar-se citando o precedente de Rabi Akiva, que também intercalara anos fora da Terra de Israel, mas os discípulos rebatem que Rabi Akiva não deixara ninguém à altura na Terra de Israel para fazê-lo, enquanto Chananiá, ao contrário do que pensa, deixou discípulos — "cabritos" que já se tornaram "bodes de chifres" — plenamente capacitados; e revelam, por fim, que os próprios sábios da Terra de Israel os enviaram com um ultimato final: que Chananiá se conforme, sob pena de excomunhão.