O daf abre com o ensinamento de Ben Azzai sobre dormir em qualquer leito, menos no chão, e sentar em qualquer assento, menos numa trave (por medo de cair), seguido do ditado de Shmuel comparando o sono e a saída ao amanhecer a um têmpera para o ferro. Bar Kapara é retratado vendendo máximas práticas por dinares — sobre comer, beber e esvaziar a panela a tempo, e sobre vender os figos do pai enquanto há compradores —, e Abaye adverte os sábios a não olhar para os lados nas veredas de Mechoza, onde mulheres costumam sentar-se. Segue-se o episódio de Rav Safra, que hesitou em deixar Rabi Aba entrar no banheiro achando perigoso o "pilar que retorna", e a longa narrativa de Rabi Elazar, empurrado por um romano para dentro do banheiro e salvo de um dragão que devorou o intestino do romano em seu lugar — ocasião para uma extensa homilia sobre Davi, Saul e a caverna de Ein Gedi, o pudor de Saul, o desprezo pelas roupas, o "sedutor" da contagem do povo, a morte de Avishai ben Tzeruiá equivalente à metade do Sinédrio, e o que D-us viu ao arrepender-se da destruição — Jacó, as cinzas de Isaac, o dinheiro do resgate ou o Templo. Passa-se então à Mishná do Monte do Templo — a proibição de nele entrar com bordão ou sandálias, de usá-lo como atalho, e de nele cuspir, e a discussão sobre se essas proibições valem também para a sinagoga —, e o daf fecha retomando o costume de madrugar e anoitecer para não precisar se afastar, o ensinamento de Ben Azzai de apalpar antes de sentar, e a fórmula em aramaico contra feitiçarias para quem se esqueceu dessa precaução.
Ensinou-se (tanya), Ben Azzai diz (omer): em qualquer (al kol) leito (mishkav) durma (shechav), exceto (chutz) no chão (min hakarka). Em qualquer (al kol) assento (moshav) sente-se (shev), exceto (chutz) numa trave (min hakorah). Disse (amar) Shmuel: o sono (sheinah) ao amanhecer (beamud hashachar) é como um têmpera (keistama) para o ferro (leparzela) (fortalece o corpo como a têmpera fortalece o ferro). A saída (yetziah) ao amanhecer (beamud hashachar) é como um têmpera (keistama) para o ferro (leparzela).
"Em qualquer assento sente-se, exceto numa trave" — para que (shema) não caias (tipol). "Como um têmpera para o ferro" — termo em francês antigo, "acier" (atzieir) em francês (belaaz); assim como (kach) a têmpera beneficia (moil) o ferro (labarzel), assim (kach) beneficia (moil) o corpo (laguf) a saída (yetziah) para se retirar (lehipanot).
Encerrado, ao final de 62a, o tema da fórmula contra feitiçaria, a Guemará abre com um novo ensinamento de Ben Azzai: pode-se dormir em qualquer leito, mas nunca diretamente no chão, e sentar-se em qualquer assento, mas nunca numa trave estreita — ambos por medo de queda ou de exposição, segundo Rashi. Shmuel acrescenta que tanto dormir quanto sair para se retirar bem cedo, ao amanhecer, fortalecem o corpo como a têmpera fortalece o ferro.
Bar Kapara vendia (havah mezaben) máximas (milei) por dinares (bedinarei) (cobrava por conselhos sábios, tamanho seu valor): enquanto (ad) tiveres fome (dechafnat) — come (echol); enquanto (ad) tiveres sede (detzachet) — bebe (shetei); enquanto (ad) ferve (deratcha) tua panela (kidracha) — despeja (shefoch) (não deixes esfriar). Um chifre (karna) apregoa (karya) em Roma (beromi): filho (bar) que vende (mezabein) figos (teenei), os figos (teenei) de teu pai (daavuch) vende (zabein) (enquanto ainda há compradores).
"Enquanto tiveres fome, come" — pois (she) se (im) demorares (tishaheh), passará (taavor) de ti (mimcha) o desejo (taavat) pela comida (hamaachal), e não (veein) a comida (hamaachal) mais te beneficiará (moil). "Enquanto ferve tua panela, despeja" — antes (kodem) que esfrie (shetitztanen); e isto (zeh) é uma parábola (mashal): quando (kesheatah) precisares (tzarich) de tuas necessidades (linkevecha), esvazia-as (shefoch) e não (veal) as demores (tishaheh otam). "Um chifre apregoa em Roma" — se (im) ouvires (tishma) o som (kol) do chifre (keren) em Roma (beromi), é sinal (siman) para os que buscam (limvakshei) figos (teenim) para comprar (liknot) e levar (uleholich) a outro lugar (lemakom acher). "Filho que vende figos, os figos de teu pai vende" — se (im) não (ein) está teu pai (avicha) em casa (babayit), cuida (hizaher) tu (atah), seu filho (beno), de vender (limkor) seus figos (teenav) enquanto (bead) há (sheyesh) compradores (tovim).
A Guemará traz uma série de máximas práticas de Bar Kapara, vendidas literalmente por dinares — comer assim que se tem fome, beber assim que se tem sede, esvaziar a panela fervente antes que esfrie (parábola para não retardar as próprias necessidades corporais) —, seguidas de dois provérbios sobre aproveitar a oportunidade no momento certo, seja para comprar figos ao ouvir o sinal do chifre em Roma, seja para vender os figos do pai ausente enquanto há compradores.
Disse-lhes (amar lehu) Abaye aos sábios (lerabanan): quando (ki) entrardes (ayeilitu) pelas veredas (bishvilei) de Mechoza (demachoza) para sair (lemifak) por ali (beih) ao campo (bechakla), não (la) olheis (techezu) nem (la) para este (lehach) lado (gisa) nem (vela) para aquele (lehach) lado (gisa), pois talvez (dilma) estejam sentadas (yatvei) mulheres (neshei) ali, e não (velav) é conduta (orach) digna (ara) olhar (lehistakolei) para elas (behu).
"Pelas veredas" — uma senda (shvil) pequena (katan) pela qual (sheponim bo) se vira o caminho em direção aos campos (lasadot).
Abaye instrui os sábios de sua academia a manterem os olhos baixos ao caminhar pelas vielas estreitas de Mechoza que levam ao campo, pois mulheres costumavam sentar-se ali para se retirar, e olhar em qualquer direção arriscaria contemplá-las — falta de decoro que Abaye classifica, com a mesma expressão usada antes para Rav Kahana, como "não conduta digna".
Rav Safra entrou (al) no banheiro (leveit hakisse). Veio (ata) Rabi Aba, tossiu (nechar leih) à porta (abava) (para avisar de sua presença). Disse-lhe (amar leih) Rav Safra: entre (leil), senhor (mar). Depois (batar) que saiu (dinfak), disse-lhe (amar leih) Rabi Aba: até (ad) agora (hashta) não (la) entraste (ayalt) ao bode (leseir), e já aprendeste (ugemart lach) as coisas (milei) do bode (deseir) (já falas como quem não tem pudor no banheiro)! Não (lav) ensinamos (tenan) assim (hachi): havia (hayetah) ali (sham) uma fogueira (medurah), e o banheiro (uveit hakisse) era (hayah) de honra (shel kavod). E esta (vezeh) era (hayah) a honra (kevodo) de seu uso: encontrando-o (metzao) trancado (naul) — sabe-se (beyadua) que (she) há (yesh) ali (sham) uma pessoa (adam); encontrando-o (metzao) aberto (patuach) — sabe-se (beyadua) que (she) não (ein) há ali (sham) pessoa (adam) (no Templo, ninguém anunciava sua presença tossindo). Vê-se (alma) então que não (lav) é conduta (orach) digna (ara) (anunciar-se, pois expõe a presença de quem está lá)!
"Tossiu à porta" — para saber (lada'at) se (im) há (yesh) ali (sham) uma pessoa (adam); "tossir" (nachar) — em francês antigo, "toussir" (tushir) em francês (belaaz). "Disse-lhe" — Rabi Aba a Rav Safra. "Até agora não entraste a bode" — pois (she) eles não são (einan) pudicos (tzenuin) no banheiro (beveit hakisse) (referindo-se a povos rudes chamados de "bodes"). "E aprendeste para ti as coisas do bode" — pois (she) não és (einecha) pudico (tzanua) (por teres respondido "entre, senhor" enquanto ainda estavas dentro). "Não ensinamos assim" — no tratado (bemasechet) Tamid. "Havia ali uma fogueira" — no pátio (baazarah), uma grande (gadol) fogueira (heisek) de fogo (shel or) para se aquecerem (lehitchamem) ali (sham) os sacerdotes (hakohanim) que cobriam (hamesichim) os pés (ragleihem) no banheiro (beveit hakisse), que (shetzerichin) precisavam de imersão (tevilah), como (kedetanan) ensinamos (detanan) no tratado (bemasechet) Yomá (28a): todo (kol) aquele que cobre (hamesich) os pés (raglav) requer (taun) imersão (tevilah). "E o banheiro era de honra" — vê-se (alma) que não (ein) se fala (mesaprim) no banheiro (beveit hakisse), e tu (veat) dizes (amart) "entre (leil), senhor (mar)"!
A cena mostra um lapso involuntário de Rav Safra: ao ouvir Rabi Aba tossir à porta do banheiro para sinalizar sua chegada, Rav Safra responde em voz alta "entre, senhor" — quebrando o silêncio que o pudor exige. Rabi Aba repreende-o, citando a prática do banheiro de honra no Templo, onde ninguém falava, e a presença de alguém se comunicava apenas pelo estado da porta (trancada ou aberta), nunca por palavras.
E ele (vehu) (Rav Safra) achava (savar) perigoso (mesukan hu) reter a resposta, temendo que Rabi Aba retivesse a necessidade à espera de resposta. Pois (de) ensinou-se (tanya), Rabán Shimon ben Gamliel diz (omer): o pilar (amud) que retorna (hachozer) traz (mevi) a pessoa (haadam) à (lidei) hidropisia (hidrokan). O cano (silon) que retorna (hachozer) traz (mevi) a pessoa (haadam) à (lidei) icterícia (yerakon).
"E ele achava" — Rav Safra, que (she) se apressou (miher) a dizer (lomar) "entre, senhor", achava (savar) perigoso (mesukan hu) o retardo, por causa do risco do pilar (amud) que retorna (hachozer), caso (im) Rabi Aba voltasse (yashuv) para trás (leachorav) e retornasse (veyachzor) o pilar (haamud) (retendo a necessidade, o corpo poderia sofrer dano). "Hidropisia" (hidrokan) — o ventre (kereso) incha (tzavah).
A Guemará esclarece a motivação de Rav Safra: seu lapso não foi desatenção, mas pressa genuína, por temer que Rabi Aba, hesitando à porta, retivesse sua necessidade corporal — o que a baraita de Rabán Shimon ben Gamliel identifica como causa concreta de doença (hidropisia, no caso do intestino; icterícia, no caso da urina).
Rabi Elazar entrou (al) no banheiro (leveit hakisse). Veio (ata) aquele (hahu) romano (romaah) e o empurrou (dachakeih). Levantou-se (kam) Rabi Elazar e saiu (unfak). Veio (ata) um dragão (derakona) (serpente enorme) e arrancou (shamteih) seu intestino (lecharkesheih) (do romano, em lugar de Rabi Elazar). Recitou (karei) sobre ele (alav) Rabi Elazar: "e dei (veeten) um homem (adam) em teu lugar (tachteicha)" (Isaías 43:4), não leias (al tikrei) "homem (adam)", mas sim (ela) "Edom" (o romano, descendente de Edom, tomou seu lugar).
"Dragão" (derakona) — uma serpente (nachash). "Arrancou seu intestino" — o reto (cholchelet), por onde (shehareoi) sai (yotze) o excremento, que (shekorin) se chama (tavchaya).
A Guemará narra um episódio miraculoso: um romano empurra Rabi Elazar para fora do banheiro para tomar seu lugar, mas é ele quem sofre o ataque fatal de um dragão que estava à espreita. Rabi Elazar interpreta o ocorrido à luz de Isaías 43:4, lendo "adam" (homem) como "Edom" — nome associado a Roma na tradição rabínica —, entendendo que o romano tomou literalmente seu lugar, inclusive no perigo que o aguardava.
"E ele disse (veamar) para te matar (laharagecha), mas ela teve compaixão (vatachas) de ti (aleicha)" (I Samuel 24:11, palavras de Davi a Saul, na caverna de Ein Gedi).
"E ele disse para te matar, mas ela teve compaixão de ti" — Davi disse (amar) assim (ken) a Saul, ao sair (betzeto) da caverna (min hamearah) na qual (shenichnas bah) Saul entrara (nichnas) para se retirar (lehipanot), e Davi cortou (karat) a orla (kenaf) de seu manto (meilo); "para te matar" quer dizer: o Santo, Bendito seja, (hakadosh baruch hu) permitiu-me (hitir li) te matar (leharegecha).
A Guemará passa a citar e expor, versículo a versículo, o episódio bíblico de Davi na caverna de Ein Gedi (I Samuel 24), em conexão temática com o banheiro: Saul havia entrado na caverna justamente para se retirar, e é ali que Davi, tendo a oportunidade de matá-lo, corta apenas a orla de seu manto e depois lhe declara que a Torá permitiria matá-lo — mas a compaixão o impediu.
"E ele disse" (veamar), "e eu disse" (veamarti) deveria ter dito (mibei leih)! "Mas ela teve compaixão" (vatachas), "e eu tive compaixão" (vechasti) deveria ter dito (mibei leih)! (por que Davi fala em terceira pessoa?) Disse (amar) Rabi Elazar: disse-lhe (amar lo) Davi a Saul: pela (min) Torá (hatorah), merecedor (ben) de morte (harigah) és tu (atah), pois (sheharei) perseguidor (rodef) és tu (atah), e a Torá (vehatorah) disse (amrah): a quem vem (ba) para te matar (leharegecha) — adianta-te (hashkem) a matá-lo (leborgo); mas (ela) o pudor (tzeniut) que havia (shehaytah) em ti (becha), ele (hi) teve compaixão (chasah) de ti (aleicha).
"E a Torá disse, etc." — "se (im) num assalto (bemachteret) for encontrado (yimatze) o ladrão (haganav), etc." (Êxodo 22:1), e já (kevar) explicamos isso (perashnuhu) acima (lemaalah) no episódio (bemaaseh) de Rabi Sheila (58a). "O pudor que vi em ti" — que (she) entraste (nichnas) na caverna (lamearah) a fim de (bishvil) te retirares com discrição (lehitznea), e mesmo (veaf) ali (sham) conduziste-te (nahag) com pudor (tzeniut), como (kedimfaresh) se explica (mefaresh) a seguir (veazil).
A Guemará estranha a formulação do versículo em terceira pessoa ("e ele disse... teve compaixão"), quando se esperaria a primeira pessoa, já que é o próprio Davi quem fala. Rabi Elazar explica: Davi quis dizer que, tecnicamente, ele mesmo, como vítima de perseguição, teria o direito pleno de matar Saul — mas o mérito de tê-lo poupado não foi seu, e sim do próprio pudor de Saul, que se retirou discretamente até dentro da caverna, mérito que "por si mesmo" gerou a compaixão.
E qual (umai) foi ela (hi)? Pois (de) está escrito (dichtiv): "e veio (vayavo) aos currais (gidrot) de ovelhas (hatzon) junto ao caminho (al haderech), e havia ali (vesham) uma caverna (mearah), e veio (vayavo) Saul para cobrir (lehasech) seus pés (et raglav)" (I Samuel 24:4). Ensinou-se (tana): cerca (gader) dentro (lifnim) de (min) cerca (gader), e caverna (mearah) dentro (lifnim) de (mi) caverna (mearah), para se cobrir (lehasech). Disse (amar) Rabi Elazar: ensina (melamed) que (she) ele se cobriu (sichech atzmo) como uma suká (kesukah) (cobriu-se por completo com as próprias vestes, tamanho seu pudor).
"Que se cobriu como uma suká" — cobriu (sichech) seus pés (raglav) com suas vestes (bevegadav) como uma suká (kesukah) (fazendo delas um teto protetor sobre si).
A Guemará identifica o pudor de Saul no próprio texto: ele se retirou não apenas dentro de uma cerca, mas dentro de uma segunda cerca interna, e não apenas numa caverna, mas numa caverna dentro de outra caverna — redobrando o cuidado por discrição. Rabi Elazar acrescenta que ele chegou a se cobrir completamente com as próprias vestes, como uma suká, extremo de pudor que, segundo o ensinamento anterior, foi o que o salvou da morte às mãos de Davi.
"E levantou-se (vayakam) Davi e cortou (vayichrot) a orla (kenaf) do manto (hameil) que era (asher) de Saul (leshaul), às escondidas (balat)" (I Samuel 24:5). Disse (amar) Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: todo (kol) aquele que despreza (hamevazeh) as vestes (habegadim), no final (sof) não (eino) desfruta (nehene) delas (mehem), pois foi dito (sheneemar): "e o rei (vehamelech) Davi estava velho (zaken), entrado (ba) em dias (bayamim), e o cobriam (vaychasuhu) com vestes (babegadim), mas não (velo) se aquecia (yicham lo)" (I Reis 1:1).
A Guemará prossegue com o versículo do corte da orla do manto, do qual Rabi Yossei bar Chanina extrai uma lição sobre a dignidade das roupas: por ter cortado, ainda que às escondidas e com propósito legítimo, a orla do manto de Saul, Davi sofreu, no fim da vida, a consequência simbólica de não conseguir se aquecer com vestes, conforme relatado em I Reis.
"Se (im) o Eterno (Hashem) te incitou (hesitecha) contra mim (bi), aceite Ele (yarach) uma oferenda (minchah)" (I Samuel 26:19). Disse (amar) Rabi Elazar: disse-lhe (amar leih) o Santo, Bendito seja (hakadosh baruch hu), a Davi: "incitador (mesit)" me chamaste (karit li)? Eis que (harei) eu (ani) te farei tropeçar (machshilcha) numa coisa (bedavar) que (she) mesmo (afilu) as crianças (tinokot) da escola (shel beit raban) sabem (yodim). Pois (dichtiv) está escrito (dichtiv): "quando (ki) levantares (tissa) a cabeça (rosh) dos filhos (benei) de Israel conforme os seus recenseados (lifkudeihem), dará (venatnu) cada homem (ish) o resgate (kofer) de sua alma (nafsho), etc." (Êxodo 30:12). Imediatamente (miyad), "e levantou-se (vayaamod) Satán contra (al) Israel" (I Crônicas 21:1), e está escrito (uchtiv): "e incitou (vayaset) Davi contra eles (bahem), dizendo (lemor): vai (lech), conta (meneh) Israel" (II Samuel 24:1). E assim que (vekeivan) os contou (demeninhu), não (la) recolheu (shekal) deles (minaiyhu) o resgate (kofer). Pois (dichtiv) está escrito (dichtiv): "e deu (vayiten) o Eterno (Hashem) peste (dever) em Israel, desde a manhã (mehaboker) e até (vead) o tempo (et) designado (moed)" (II Samuel 24:15).
A Guemará passa a outro versículo do encontro de Davi com Saul, no qual Davi já havia atribuído a D-us a possibilidade de tê-lo incitado contra Saul. Rabi Elazar interpreta que D-us reagiu a essa acusação de "incitador" fazendo Davi tropeçar justamente na lei mais elementar — a exigência de recolher o meio-shekel de resgate ao contar o povo (Êxodo 30:12) —, ao permitir que Satán o incitasse a contar Israel sem cobrar o resgate devido, trazendo como consequência a peste narrada em II Samuel 24.
O que é (mai) "o tempo designado (et moed)"? Disse (amar) Shmuel, o Velho (sava), genro (chatneih) de Rabi Chanina, em nome de (mishmeih) Rabi Chanina: desde a hora (mishaat) do abate (shechitat) do sacrifício tamid até a hora (ad shaat) de sua aspersão (zerikato). Rabi Yochanan disse (amar): até (ad) o meio-dia (chatzot) exato (mamash).
A Guemará esclarece a duração exata do "tempo designado" da praga sofrida por Israel: uma opinião mede-o pelo intervalo entre o abate e a aspersão do sangue do sacrifício tamid diário no Templo, e Rabi Yochanan simplesmente pelo meio-dia solar.
"E disse (vayomer) ao anjo (lamalach) destruidor (hamashchit) que estava entre o povo (baam): basta (rav)!" (II Samuel 24:16). Disse (amar) Rabi Elazar: disse-lhe (amar leih) o Santo, Bendito seja (hakadosh baruch hu), ao anjo (lemalach): toma (tol) para mim (li) o maior (rav) deles (shebahem), que (sheyesh bo) há nele o suficiente para saldar (lipara) deles (mehem) muitas (kamah) dívidas (chovot). Naquela (beotah) hora (shaah) morreu (met) Avishai ben Tzeruiá, que (she) equivalia (shakul) à maioria (kerubah) do Sinédrio (shel sanhedrin).
"Que há nele para saldar muitas" — que (she) há (yesh) em sua morte (bemitato) o suficiente para (kedei) expiar (lechaper) por muitas (kamah) transgressões (avonot).
A Guemará interpreta a palavra "rav" ("basta") no versículo como referência a uma pessoa — "o maior deles" —, entendendo que D-us instruiu o anjo destruidor a tirar a vida de um único homem de grande estatura, cuja morte teria valor expiatório equivalente a muitas mortes. A Guemará identifica esse homem como Avishai ben Tzeruiá, sobrinho de Davi, cuja grandeza espiritual era comparável à da maioria dos membros do Sinédrio somados.
"E, quando destruía (uvehashchit), viu (raah) o Eterno (Hashem), e Se arrependeu (vayinachem)" (I Crônicas 21:15). O que (mai) Ele viu (raah)?
"E, quando destruía, viu o Eterno, e Se arrependeu" — este é um versículo (mikra) naquela (beotah) passagem (parashah) em Divrei HaYamim (Crônicas).
A Guemará levanta a questão interpretativa central desta série de homilias: o versículo diz que D-us "viu" algo que O levou a Se arrepender da destruição e cessar a praga — mas o que, exatamente, Ele viu? A pergunta abre espaço para quatro respostas amoraítas distintas, apresentadas nas seções seguintes.
Disse (amar) Rav: viu (raah) D-us nosso pai (avinu) Jacó, pois (de) está escrito (dichtiv): "e disse (vayomer) Jacó quando (kaasher) os viu (raam)" (Gênesis 32:3, associando "raam" a "rachamim", misericórdia). E Shmuel disse (amar): as cinzas (efro) de Isaac (shel yitzchak) viu (raah), pois foi dito (sheneemar): "D-us (Elokim) verá (yireh) para Si (lo) o cordeiro (haseh)" (Gênesis 22:8).
Rav propõe que D-us "viu" o mérito de Jacó, associando a raiz "viu" (raah) do versículo da praga à mesma raiz usada quando Jacó viu os anjos acampados (interpretada tradicionalmente como misericórdia). Shmuel propõe, alternativamente, que D-us viu as cinzas simbólicas de Isaac — o mérito da Akedá —, associando o versículo à promessa "D-us verá para Si o cordeiro", dita por Abraão a Isaac a caminho do sacrifício.
Rabi Yitzchak Nafcha disse (amar): o dinheiro (kesef) do resgate (kipurim) viu (raah), pois foi dito (sheneemar): "e tomarás (velakachta) o dinheiro (kesef) do resgate (hakipurim) dos (meet) filhos (benei) de Israel, etc." (Êxodo 30:16). Rabi Yochanan disse (amar): o Templo (beit hamikdash) viu (raah), pois está escrito (dichtiv): "no monte (behar) do Eterno (Hashem) se verá (yeraeh)" (Gênesis 22:14).
"O dinheiro do resgate viu" — que (she) foi dado (nitan) na primeira (rishon) contagem (beminyan) de Israel para o (lamishkan) tabernáculo (mishkan), e ele (vehu) expiou (kiper) sobre esta (al minyan zeh) contagem também, pois (sheharei) para memória (lezikaron) foi dado (nitan), como está escrito (kedichtiv): "e será (vehayah) para os filhos (livnei) de Israel por memória (lezikaron), para expiar (lechaper)" (Êxodo 30:16), e agora (veachshav) precisaram (hutzrechu) de sua expiação (kaparato).
Duas outras opiniões completam o quadro: Rabi Yitzchak Nafcha entende que D-us viu o mérito perene do dinheiro do resgate arrecadado no primeiro recenseamento no deserto, doado como "memória" com poder expiatório contínuo; Rabi Yochanan entende que D-us viu o próprio local do futuro Templo, com base no mesmo versículo da Akedá citado por Shmuel, mas aplicado ao lugar, não ao mérito de Isaac.
Discordam (pligi) sobre isso (bah) Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Shmuel bar Nachmani. Um (chad) disse (amar) que o dinheiro (kesef) do resgate (hakipurim) viu (raah), e um (vechad) disse (amar) que o Templo (beit hamikdash) viu (raah). E é mais plausível (umistabra) como (kemaan) quem disse (deamar) que o Templo (beit hamikdash) viu (raah), pois foi dito (sheneemar): "que hoje (hayom) se dirá (yeamer): no monte (behar) do Eterno (Hashem) se verá (yeraeh)" (Gênesis 22:14).
A Guemará observa que essa mesma controvérsia — entre o dinheiro do resgate e o Templo — já havia sido travada por outra dupla de amoraítas, e conclui, com base na leitura mais direta do versículo da Akedá ("no monte do Eterno se verá"), que a opinião mais plausível é a que identifica o Templo como aquilo que D-us viu.
Não entre (lo yikanes) a pessoa (adam) no Monte (lehar) do Templo (habayit) com seu bordão (bemaklo), etc. (Mishná). O que é (mai) "kapendarya" (atalho que corta caminho)? Disse (amar) Rava: "kapendarya" é como seu nome (kishmah) (o próprio termo grego já indica seu sentido). E Rav Chana bar Adda, em nome de (mishmeih) Rav Sama, filho de Rav Mari, disse (amar): como (kemaan) quem diz (deamar) uma pessoa (inash): enquanto (ad) contorno (makifna) as fileiras (adarei) de casas, entrarei (eol) por aqui (behah) (para encurtar o caminho). Disse (amar) Rav Nachman em nome de (amar) Rabá bar Avuh: aquele que entra (hanichnas) numa sinagoga (leveit hakeneset) com a condição (al menat) de não (shelo) fazer dela (laasoto) atalho (kapendarya) — é permitido (mutar) depois fazer dela (laasoto) atalho (kapendarya).
"Como seu nome" — conforme seu significado (kemashmauta), isto é, explica-se (perush) seu nome (shemah) (o próprio termo grego já contém a explicação). "Enquanto contorno as fileiras, entrarei por aqui" — enquanto (bead) contorno (makif) todas (kol) as fileiras (shurot) destas (halalu) casas (habatim), entrarei (ekanes) aqui (kan) para encurtar (lekatzer) meu caminho (darki). "Adrei" — fileiras (shurot). "Kapendarya" — termo em francês antigo, "trait" (teria) em francês (belaaz).
Concluída a longa série de homilias sobre Davi, Saul e as pragas, a Guemará retoma o fio da Mishná deste perek, que proíbe entrar no Monte do Templo com bordão ou usá-lo como atalho ("kapendarya"), e discute a etimologia do termo — um empréstimo do grego/latim para "atalho que corta caminho". Rav Nachman acrescenta uma sutileza legal sobre sinagogas: quem entra numa sinagoga com a intenção declarada de não a usar como atalho pode, depois de já estar dentro, decidir sair pelo outro lado, sem que isso configure violação da proibição.
Disse (amar) Rabi Avahu: se (im) havia (hayah) ali uma vereda (shvil) desde o início (meikaro) (antes de ali se construir a sinagoga), é permitido (mutar). Disse (amar) Rabi Chelbo em nome de (amar) Rav Huna: quem entra (hanichnas) numa sinagoga (leveit hakeneset) para orar (lehitpalel), é permitido (mutar) fazer dela (laasoto) atalho (kapendarya) (sair pelo outro lado depois de orar), pois foi dito (sheneemar): "e quando vier (uvevo) o povo (am) da terra (haaretz) diante (lifnei) do Eterno (Hashem) nas festas (bamoadim), etc." (Ezequiel 46:9, que descreve entrar por uma porta e sair por outra).
"Desde o início" — antes (kodem) que (she) se construísse (nivneh) sobre ele (alav) a sinagoga (beit hakeneset).
Duas condições adicionais flexibilizam a proibição de atalho na sinagoga: Rabi Avahu permite quando o caminho já existia como vereda pública antes da construção do edifício; Rav Huna, através de Rabi Chelbo, permite explicitamente a quem entra para orar sair pelo lado oposto, apoiando-se no versículo de Ezequiel sobre a entrada e saída do povo pelas portas do Templo futuro em dias de festa.
E cuspir (urekikah) é proibido ali por argumento (mikal vachomer) de menor para maior (Mishná). Disse (amar) Rav Bivi em nome de (amar) Rabi Yehoshua ben Levi: todo (kol) aquele que cospe (harokek) no Monte (behar) do Templo (habayit) nos dias (bazman) de hoje (hazeh), é como se (keilu) cuspisse (rokek) na menina (bevat) de seu olho (eino), pois foi dito (sheneemar): "e estarão (vehayu) Meus olhos (einai) e Meu coração (velibi) ali (sham) todos (kol) os dias (hayamim)" (I Reis 9:3).
Retomando a Mishná, que deriva a proibição de cuspir no Monte do Templo por argumento a fortiori a partir da proibição de entrar calçado, Rabi Yehoshua ben Levi acrescenta uma dimensão adicional: mesmo após a destruição, cuspir ali equivale a cuspir na menina do próprio olho de D-us, pois Seus olhos e coração permanecem voltados para o lugar do Templo "todos os dias", segundo a promessa feita a Salomão em I Reis.
A Mishná de Berachot sobre o Monte do Templo — a proibição de bordão, calçado e atalho, e de cuspir ali por argumento de menor para maior — é debatida também no Talmud Yerushalmi, na última halachá do tratado.
Ver também no Yerushalmi →Disse (amar) Rava: cuspir (rekikah) na sinagoga (beveit hakeneset) — é permitido (sharya), tal (midei) como se dá (dehavei) com o calçado (amineal). Assim como (mah) o calçado (mineal) no Monte (behar) do Templo (habayit) é proibido (asur), mas na sinagoga (beveit hakeneset) é permitido (mutar), também (af) cuspir (rekikah): no Monte (behar) do Templo (habayit) é que (hu de) é proibido (asur), mas na sinagoga (beveit hakeneset) é permitido (sharei).
Rava estabelece uma analogia direta entre as duas proibições da Mishná: assim como o uso de calçado é proibido especificamente no Monte do Templo mas permitido na sinagoga, o mesmo vale para cuspir — a santidade especial do Templo, e não da sinagoga comum, é que gera a proibição.
Disse-lhe (amar leih) Rav Papa a Rava, e há quem diga (veamri lah) que foi Ravina a Rava, e há quem diga (veamri lah) que foi Rav Adda bar Matna a Rava: já que (ad) aprendes (yalef) a regra do calçado (mimineal), aprendamos (neilaf) a permissão do atalho (mikapendarya) (que na sinagoga é irrestrito, sem exigir intenção prévia)!
"Aprendamos do atalho" — para o lado da proibição (leisura), pois (de) ensinamos (detanan) no tratado (bemasechet) Meguilá (28a): não (ein) se faz (osin) da sinagoga (beit hakeneset) atalho (kapendarya) (então por que permitir cuspir sem restrição, e não como o atalho, que exige condição prévia).
Um interlocutor desafia a analogia de Rava com uma comparação alternativa: por que aprender a regra do calçado (que na sinagoga é permitido sem qualquer condição) e não, em vez disso, do próprio atalho — que, segundo outra fonte (Meguilá 28a), é proibido na sinagoga a menos que se tenha entrado com a condição explícita de não o fazer? Se assim fosse, cuspir também precisaria de condição prévia para ser permitido.
Disse-lhe (amar leih) Rava: um tanna (tana) aprende (yalef) a regra do calçado (mimineal), e tu (veat) dizes (amart) do atalho (mikapendarya)? Qual (mai) é ela (hi) (a fonte tannaítica)? Pois (de) ensinou-se (tanya): não entre (lo yikanes) a pessoa (adam) no Monte (lehar) do Templo (habayit) nem (lo) com seu bordão (bemaklo) que está em sua mão (sheveyado), nem (velo) com seu calçado (bemineallo) que está em seu pé (sheveraglo), nem (velo) com dinheiro (bemaot) amarrado (hatzerurim) para ele (lo) em seu lençol (bisdino), e com sua bolsa (uvfundato) pendurada (mufshelet) às suas costas (laachorav), e não faça dele (veal yaasenah) atalho (kapendarya). E cuspir (urekikah), por argumento (mikal vachomer) de menor para maior a partir do calçado (mimineal): se (umah) o calçado (mineal), que (sheein) não tem (bo) caráter (derech) de desprezo (bizayon), a Torá (hatorah) disse (amrah): "tira (shal) teus calçados (nealeicha) de sobre (meal) teus pés (ragleicha)" (Êxodo 3:5), cuspir (rekikah), que (shehi) tem caráter (derech) de desprezo (bizayon) — não é tanto mais (lo kol shekhen) proibido?!
"Um tanna aprende" — a proibição de cuspir (rekikah) a partir do calçado (mimineal). "Sua bolsa" (fundato) — um cinto (ezor) oco (chalul) em que (shenotnin bo) se guarda (notnin) dinheiro (maot).
Rava responde citando a própria baraita, que deriva explicitamente a proibição de cuspir a partir da proibição de calçado por um argumento a fortiori formal — se o calçado, que não implica desprezo algum, é proibido apenas por ordem divina explícita a Moisés, cuspir, que é intrinsecamente um gesto de desprezo, deveria certamente também ser proibido. A fonte tannaítica, portanto, elege o calçado como base da analogia, não o atalho.
Rabi Yossei bar Yehuda diz (omer): não (eino) é necessário (tzarich) esse argumento a partir do calçado: eis que (harei) a Escritura diz (omer): "pois (ki) não se pode (ein) entrar (lavo) ao portão (shaar) do rei (hamelech) vestido (bilvush) de saco (sak)" (Ester 4:2). E não são (vahalo) as coisas (devarim) aqui também um argumento (kal vachomer) de menor para maior (pergunta a Guemará)? Se (umah) o saco (sak), que (sheeino) não é repugnante (maus), diante (lifnei) de carne (basar) e sangue (vadam) (um rei mortal) é proibido assim (kach); cuspir (rekikah), que (shehi) é repugnante (meusah), diante (lifnei) do Rei (melech) dos reis (malchei) dos reis (hamelachim) (D-us) — não é tanto mais (lo kol shekhen) proibido?!
Rabi Yossei bar Yehuda propõe uma segunda derivação, independente do calçado: o próprio livro de Ester relata que não se podia entrar ao portão do palácio real vestido de saco (sinal de luto), e daí se conclui, por argumento a fortiori, que se algo tão pouco repugnante como o saco já era proibido diante de um rei humano, cuspir — gesto claramente repugnante — deveria certamente ser proibido diante do Rei dos reis dos reis.
Disse-lhe (amar leih) Rava, retomando sua resposta a quem o desafiara: eu (ana) digo (kaamina) assim (hachi): digamos (neima) aqui (hacha) que se aprende para o rigor (lechumra) (do calçado, que é sempre proibido), e ali (vehacha) também para o rigor (lechumra) (do atalho, que exige condição prévia para ser permitido — ambos os casos, quando se comparam calçado e atalho, apontam para o lado mais restritivo, e não para o mais permissivo).
O daf termina com a réplica final de Rava a seu interlocutor: ao comparar duas fontes possíveis para determinar a regra de cuspir na sinagoga — o calçado (permitido sem condição) e o atalho (proibido sem condição prévia) —, deve-se sempre adotar, em caso de dúvida entre duas analogias possíveis, a leitura mais rigorosa em cada uma, e não a mais permissiva. Com esta observação metodológica sobre como comparar fontes conflitantes, encerra-se o daf 62b, e com ele o primeiro grande bloco de halachot sobre pudor, banheiro e respeito ao Monte do Templo dentro do Perek Tet.