Talmud Bavli · Berachot · Daf 62, lado B · Perek Tet (HaRoeh)
סב ע״ב

Ben Azzai sobre dormir em qualquer leito exceto no chão; Bar Kapara vendendo sabedoria por dinares; Rav Safra e Rabi Aba no banheiro; Rabi Elazar salvo da serpente e a homilia sobre Davi, Saul e a caverna; a morte de Avishai; o Monte do Templo e o atalho proibido; e a fórmula contra feitiçaria

Berachot 62b · Perek Tet ("Aquele que vê")

O daf abre com o ensinamento de Ben Azzai sobre dormir em qualquer leito, menos no chão, e sentar em qualquer assento, menos numa trave (por medo de cair), seguido do ditado de Shmuel comparando o sono e a saída ao amanhecer a um têmpera para o ferro. Bar Kapara é retratado vendendo máximas práticas por dinares — sobre comer, beber e esvaziar a panela a tempo, e sobre vender os figos do pai enquanto há compradores —, e Abaye adverte os sábios a não olhar para os lados nas veredas de Mechoza, onde mulheres costumam sentar-se. Segue-se o episódio de Rav Safra, que hesitou em deixar Rabi Aba entrar no banheiro achando perigoso o "pilar que retorna", e a longa narrativa de Rabi Elazar, empurrado por um romano para dentro do banheiro e salvo de um dragão que devorou o intestino do romano em seu lugar — ocasião para uma extensa homilia sobre Davi, Saul e a caverna de Ein Gedi, o pudor de Saul, o desprezo pelas roupas, o "sedutor" da contagem do povo, a morte de Avishai ben Tzeruiá equivalente à metade do Sinédrio, e o que D-us viu ao arrepender-se da destruição — Jacó, as cinzas de Isaac, o dinheiro do resgate ou o Templo. Passa-se então à Mishná do Monte do Templo — a proibição de nele entrar com bordão ou sandálias, de usá-lo como atalho, e de nele cuspir, e a discussão sobre se essas proibições valem também para a sinagoga —, e o daf fecha retomando o costume de madrugar e anoitecer para não precisar se afastar, o ensinamento de Ben Azzai de apalpar antes de sentar, e a fórmula em aramaico contra feitiçarias para quem se esqueceu dessa precaução.

1Ensinou-se, diz Ben Azzai: em qualquer leito durma, exceto no chão. Em qualquer assento sente-se, exceto numa trave. Disse Shmuel: o sono ao amanhecer é como um têmpera para o ferro; a saída ao amanhecer é como um têmpera para o ferro
Bavli · 62b — Guemará
תַּנְיָא, בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר: עַל כׇּל מִשְׁכָּב שְׁכַב, חוּץ מִן הַקַּרְקַע. עַל כׇּל מוֹשָׁב שֵׁב, חוּץ מִן הַקּוֹרָה. אָמַר שְׁמוּאֵל: שֵׁינָה בְּעַמּוּד הַשַּׁחַר כְּאִסְטָמָא לְפַרְזְלָא. יְצִיאָה בְּעַמּוּד הַשַּׁחַר כְּאִסְטָמָא לְפַרְזְלָא.

Ensinou-se (tanya), Ben Azzai diz (omer): em qualquer (al kol) leito (mishkav) durma (shechav), exceto (chutz) no chão (min hakarka). Em qualquer (al kol) assento (moshav) sente-se (shev), exceto (chutz) numa trave (min hakorah). Disse (amar) Shmuel: o sono (sheinah) ao amanhecer (beamud hashachar) é como um têmpera (keistama) para o ferro (leparzela) (fortalece o corpo como a têmpera fortalece o ferro). A saída (yetziah) ao amanhecer (beamud hashachar) é como um têmpera (keistama) para o ferro (leparzela).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
על כל מושב שב חוץ מן הקורה – שמא תפול: כאסטמא לפרזלא – אצייר בלע"ז שמועיל לברזל כך מועיל לגוף יציאה להפנות:

"Em qualquer assento sente-se, exceto numa trave" — para que (shema) não caias (tipol). "Como um têmpera para o ferro" — termo em francês antigo, "acier" (atzieir) em francês (belaaz); assim como (kach) a têmpera beneficia (moil) o ferro (labarzel), assim (kach) beneficia (moil) o corpo (laguf) a saída (yetziah) para se retirar (lehipanot).

Nota

Encerrado, ao final de 62a, o tema da fórmula contra feitiçaria, a Guemará abre com um novo ensinamento de Ben Azzai: pode-se dormir em qualquer leito, mas nunca diretamente no chão, e sentar-se em qualquer assento, mas nunca numa trave estreita — ambos por medo de queda ou de exposição, segundo Rashi. Shmuel acrescenta que tanto dormir quanto sair para se retirar bem cedo, ao amanhecer, fortalecem o corpo como a têmpera fortalece o ferro.

2Bar Kapara vendia máximas por dinares: enquanto tiveres fome, come; enquanto tiveres sede, bebe; enquanto tua panela ferve, despeja. Um chifre apregoa em Roma: quem vende figos, venda os figos de teu pai
Bavli · 62b — Guemará
בַּר קַפָּרָא הֲוָה מְזַבֵּן מִילֵּי בְּדִינָרֵי: עַד דְּכָפְנַתְּ — אֱכוֹל. עַד דְּצָחֵית — שְׁתִי, עַד דְּרָתְחָא קִדְרָךָ — שְׁפוֹךְ. קַרְנָא קָרְיָא בְּרוֹמִי, בַּר מְזַבֵּין תְּאֵנֵי, תְּאֵנֵי דַּאֲבוּךְ זַבֵּין.

Bar Kapara vendia (havah mezaben) máximas (milei) por dinares (bedinarei) (cobrava por conselhos sábios, tamanho seu valor): enquanto (ad) tiveres fome (dechafnat) — come (echol); enquanto (ad) tiveres sede (detzachet) — bebe (shetei); enquanto (ad) ferve (deratcha) tua panela (kidracha) — despeja (shefoch) (não deixes esfriar). Um chifre (karna) apregoa (karya) em Roma (beromi): filho (bar) que vende (mezabein) figos (teenei), os figos (teenei) de teu pai (daavuch) vende (zabein) (enquanto ainda há compradores).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
אדכפנת אכול – שאם תשהא תעבור ממך תאות המאכל ואין המאכל מועיל: עד דרתחא קדרך שפוך – קודם שתצטנן משל הוא זה כשאתה צריך לנקביך שפוך ואל תשהא אותם: קרנא קריא ברומי – אם תשמע קול קרן ברומי הוא סימן למבקשי תאנים לקנות ולהוליך למקום אחר: בר מזבין תאני תאני דאבוך זבין – אם אין אביך בבית הזהר אתה בנו למכור תאניו בעוד שיש תובעים:

"Enquanto tiveres fome, come" — pois (she) se (im) demorares (tishaheh), passará (taavor) de ti (mimcha) o desejo (taavat) pela comida (hamaachal), e não (veein) a comida (hamaachal) mais te beneficiará (moil). "Enquanto ferve tua panela, despeja" — antes (kodem) que esfrie (shetitztanen); e isto (zeh) é uma parábola (mashal): quando (kesheatah) precisares (tzarich) de tuas necessidades (linkevecha), esvazia-as (shefoch) e não (veal) as demores (tishaheh otam). "Um chifre apregoa em Roma" — se (im) ouvires (tishma) o som (kol) do chifre (keren) em Roma (beromi), é sinal (siman) para os que buscam (limvakshei) figos (teenim) para comprar (liknot) e levar (uleholich) a outro lugar (lemakom acher). "Filho que vende figos, os figos de teu pai vende" — se (im) não (ein) está teu pai (avicha) em casa (babayit), cuida (hizaher) tu (atah), seu filho (beno), de vender (limkor) seus figos (teenav) enquanto (bead)(sheyesh) compradores (tovim).

Nota

A Guemará traz uma série de máximas práticas de Bar Kapara, vendidas literalmente por dinares — comer assim que se tem fome, beber assim que se tem sede, esvaziar a panela fervente antes que esfrie (parábola para não retardar as próprias necessidades corporais) —, seguidas de dois provérbios sobre aproveitar a oportunidade no momento certo, seja para comprar figos ao ouvir o sinal do chifre em Roma, seja para vender os figos do pai ausente enquanto há compradores.

3Disse-lhes Abaye aos sábios: quando entrardes pelas veredas de Mechoza para sair ao campo, não olheis nem para um lado nem para o outro, pois talvez estejam sentadas mulheres ali, e não é conduta digna olhar para elas
Bavli · 62b — Guemará
אֲמַר לְהוּ אַבָּיֵי לְרַבָּנָן: כִּי עָיְילִיתוּ בִּשְׁבִילֵי דְמָחוֹזָא לְמִיפַּק בֵּיהּ בְּחַקְלָא, לָא תֶּחֱזוֹ לָא לְהַךְ גִּיסָא וְלָא לְהַךְ גִּיסָא, דִּלְמָא יָתְבֵי נְשֵׁי, וְלָאו אוֹרַח אַרְעָא לְאִסְתַּכּוֹלֵי בְּהוּ.

Disse-lhes (amar lehu) Abaye aos sábios (lerabanan): quando (ki) entrardes (ayeilitu) pelas veredas (bishvilei) de Mechoza (demachoza) para sair (lemifak) por ali (beih) ao campo (bechakla), não (la) olheis (techezu) nem (la) para este (lehach) lado (gisa) nem (vela) para aquele (lehach) lado (gisa), pois talvez (dilma) estejam sentadas (yatvei) mulheres (neshei) ali, e não (velav) é conduta (orach) digna (ara) olhar (lehistakolei) para elas (behu).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
בשבילי – שביל קטן שפונים בו לשדות:

"Pelas veredas" — uma senda (shvil) pequena (katan) pela qual (sheponim bo) se vira o caminho em direção aos campos (lasadot).

Nota

Abaye instrui os sábios de sua academia a manterem os olhos baixos ao caminhar pelas vielas estreitas de Mechoza que levam ao campo, pois mulheres costumavam sentar-se ali para se retirar, e olhar em qualquer direção arriscaria contemplá-las — falta de decoro que Abaye classifica, com a mesma expressão usada antes para Rav Kahana, como "não conduta digna".

4Rav Safra entrou no banheiro. Veio Rabi Aba e tossiu à porta. Disse-lhe: entre, senhor. Depois que saiu, disse-lhe: até agora não entraste a bode e já aprendeste as coisas do bode! Não ensinamos assim: havia ali uma fogueira, e o banheiro era de honra
Bavli · 62b — Guemará
רַב סָפְרָא עָל לְבֵית הַכִּסֵּא. אֲתָא רַבִּי אַבָּא, נְחַר לֵיהּ אַבָּבָא. אֲמַר לֵיהּ: לֵיעוּל מָר. בָּתַר דִּנְפַק אֲמַר לֵיהּ: עַד הַשְׁתָּא לָא עֲיַילְתְּ לְשֵׂעִיר, וּגְמַרְתְּ לָךְ מִילֵּי דְשֵׂעִיר! לָאו הָכִי תְּנַן: מְדוּרָה הָיְתָה שָׁם וּבֵית הַכִּסֵּא שֶׁל כָּבוֹד. וְזֶה הָיָה כְּבוֹדוֹ: מְצָאוֹ נָעוּל — בְּיָדוּעַ שֶׁיֵּשׁ שָׁם אָדָם, מְצָאוֹ פָּתוּחַ — בְּיָדוּעַ שֶׁאֵין שָׁם אָדָם. אַלְמָא לָאו אוֹרַח אַרְעָא הוּא!

Rav Safra entrou (al) no banheiro (leveit hakisse). Veio (ata) Rabi Aba, tossiu (nechar leih) à porta (abava) (para avisar de sua presença). Disse-lhe (amar leih) Rav Safra: entre (leil), senhor (mar). Depois (batar) que saiu (dinfak), disse-lhe (amar leih) Rabi Aba: até (ad) agora (hashta) não (la) entraste (ayalt) ao bode (leseir), e já aprendeste (ugemart lach) as coisas (milei) do bode (deseir) (já falas como quem não tem pudor no banheiro)! Não (lav) ensinamos (tenan) assim (hachi): havia (hayetah) ali (sham) uma fogueira (medurah), e o banheiro (uveit hakisse) era (hayah) de honra (shel kavod). E esta (vezeh) era (hayah) a honra (kevodo) de seu uso: encontrando-o (metzao) trancado (naul) — sabe-se (beyadua) que (she)(yesh) ali (sham) uma pessoa (adam); encontrando-o (metzao) aberto (patuach) — sabe-se (beyadua) que (she) não (ein) há ali (sham) pessoa (adam) (no Templo, ninguém anunciava sua presença tossindo). Vê-se (alma) então que não (lav) é conduta (orach) digna (ara) (anunciar-se, pois expõe a presença de quem está lá)!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
נחר ליה אבבא – לידע אם יש שם אדם נחר טושי"ר בלע"ז: אמר ליה – ר' אבא לרב ספרא: עד כאן לא עיילת לשעיר – שאינן צנועין בבית הכסא: וגמרת לך מילי דשעיר – שאינך צנוע: לאו הכי תנן – במסכת תמיד: מדורה היתה שם – בעזרה היסק גדול של אור להתחמם שם הכהנים המסיכים רגליהם בבית הכסא שצריכין טבילה כדתנן במסכת יומא (ד' כח.) כל המיסך רגליו טעון טבילה: ובית הכסא של כבוד – אלמא אין מספרים בבית הכסא ואת אמרת ליעול מר:

"Tossiu à porta" — para saber (lada'at) se (im)(yesh) ali (sham) uma pessoa (adam); "tossir" (nachar)em francês antigo, "toussir" (tushir) em francês (belaaz). "Disse-lhe" — Rabi Aba a Rav Safra. "Até agora não entraste a bode" — pois (she) eles não são (einan) pudicos (tzenuin) no banheiro (beveit hakisse) (referindo-se a povos rudes chamados de "bodes"). "E aprendeste para ti as coisas do bode" — pois (she) não és (einecha) pudico (tzanua) (por teres respondido "entre, senhor" enquanto ainda estavas dentro). "Não ensinamos assim" — no tratado (bemasechet) Tamid. "Havia ali uma fogueira" — no pátio (baazarah), uma grande (gadol) fogueira (heisek) de fogo (shel or) para se aquecerem (lehitchamem) ali (sham) os sacerdotes (hakohanim) que cobriam (hamesichim) os pés (ragleihem) no banheiro (beveit hakisse), que (shetzerichin) precisavam de imersão (tevilah), como (kedetanan) ensinamos (detanan) no tratado (bemasechet) Yomá (28a): todo (kol) aquele que cobre (hamesich) os pés (raglav) requer (taun) imersão (tevilah). "E o banheiro era de honra" — vê-se (alma) que não (ein) se fala (mesaprim) no banheiro (beveit hakisse), e tu (veat) dizes (amart) "entre (leil), senhor (mar)"!

Nota

A cena mostra um lapso involuntário de Rav Safra: ao ouvir Rabi Aba tossir à porta do banheiro para sinalizar sua chegada, Rav Safra responde em voz alta "entre, senhor" — quebrando o silêncio que o pudor exige. Rabi Aba repreende-o, citando a prática do banheiro de honra no Templo, onde ninguém falava, e a presença de alguém se comunicava apenas pelo estado da porta (trancada ou aberta), nunca por palavras.

5E ele achava perigoso o "pilar que retorna". Pois ensinou-se: Rabán Shimon ben Gamliel diz: o pilar que retorna traz a pessoa à hidropisia; o cano que retorna traz a pessoa à icterícia
Bavli · 62b — Guemará
וְהוּא סָבַר מְסוּכָּן הוּא. דְּתַנְיָא, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: עַמּוּד הַחוֹזֵר מֵבִיא אֶת הָאָדָם לִידֵי הִדְרוֹקָן. סִילוֹן הַחוֹזֵר מֵבִיא אֶת הָאָדָם לִידֵי יֵרָקוֹן.

E ele (vehu) (Rav Safra) achava (savar) perigoso (mesukan hu) reter a resposta, temendo que Rabi Aba retivesse a necessidade à espera de resposta. Pois (de) ensinou-se (tanya), Rabán Shimon ben Gamliel diz (omer): o pilar (amud) que retorna (hachozer) traz (mevi) a pessoa (haadam) à (lidei) hidropisia (hidrokan). O cano (silon) que retorna (hachozer) traz (mevi) a pessoa (haadam) à (lidei) icterícia (yerakon).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
והוא סבר – רב ספרא שמהר לומר ליעול מר סבר מסוכן הוא בעמוד החוזר אם ישוב לאחוריו ויחזור העמוד: הדרוקן – כרסו צבה:

"E ele achava" — Rav Safra, que (she) se apressou (miher) a dizer (lomar) "entre, senhor", achava (savar) perigoso (mesukan hu) o retardo, por causa do risco do pilar (amud) que retorna (hachozer), caso (im) Rabi Aba voltasse (yashuv) para trás (leachorav) e retornasse (veyachzor) o pilar (haamud) (retendo a necessidade, o corpo poderia sofrer dano). "Hidropisia" (hidrokan) — o ventre (kereso) incha (tzavah).

Nota

A Guemará esclarece a motivação de Rav Safra: seu lapso não foi desatenção, mas pressa genuína, por temer que Rabi Aba, hesitando à porta, retivesse sua necessidade corporal — o que a baraita de Rabán Shimon ben Gamliel identifica como causa concreta de doença (hidropisia, no caso do intestino; icterícia, no caso da urina).

6Rabi Elazar entrou no banheiro. Veio aquele romano e o empurrou. Levantou-se Rabi Elazar e saiu. Veio um dragão e arrancou seu intestino. Recitou sobre ele Rabi Elazar: "e dei um homem em teu lugar" — não leias "homem", mas "Edom"
Bavli · 62b — Guemará
רַבִּי אֶלְעָזָר עָל לְבֵית הַכִּסֵּא. אֲתָא הַהוּא רוֹמָאָה דַּחֲקֵיהּ. קָם רַבִּי אֶלְעָזָר וּנְפַק. אֲתָא דְּרָקֹונָא שַׁמְטֵיהּ לְכַרְכְּשֵׁיהּ. קָרֵי עֲלֵיהּ רַבִּי אֶלְעָזָר: ״וְאֶתֵּן אָדָם תַּחְתֶּיךָ״, אַל תִּקְרֵי ״אָדָם״ אֶלָּא ״אֱדוֹם״.

Rabi Elazar entrou (al) no banheiro (leveit hakisse). Veio (ata) aquele (hahu) romano (romaah) e o empurrou (dachakeih). Levantou-se (kam) Rabi Elazar e saiu (unfak). Veio (ata) um dragão (derakona) (serpente enorme) e arrancou (shamteih) seu intestino (lecharkesheih) (do romano, em lugar de Rabi Elazar). Recitou (karei) sobre ele (alav) Rabi Elazar: "e dei (veeten) um homem (adam) em teu lugar (tachteicha)" (Isaías 43:4), não leias (al tikrei) "homem (adam)", mas sim (ela) "Edom" (o romano, descendente de Edom, tomou seu lugar).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
דרקונא – נחש: שמטיה לכרכשיה – חלחולת שהרעי יוצא בו שקורין טבחיא:

"Dragão" (derakona)uma serpente (nachash). "Arrancou seu intestino" — o reto (cholchelet), por onde (shehareoi) sai (yotze) o excremento, que (shekorin) se chama (tavchaya).

Nota

A Guemará narra um episódio miraculoso: um romano empurra Rabi Elazar para fora do banheiro para tomar seu lugar, mas é ele quem sofre o ataque fatal de um dragão que estava à espreita. Rabi Elazar interpreta o ocorrido à luz de Isaías 43:4, lendo "adam" (homem) como "Edom" — nome associado a Roma na tradição rabínica —, entendendo que o romano tomou literalmente seu lugar, inclusive no perigo que o aguardava.

7"E ele disse para te matar, mas ela teve compaixão de ti"
Bavli · 62b — Guemará
״וְאָמַר לַהֲרָגֲךָ וַתָּחָס עָלֶיךָ״.

"E ele disse (veamar) para te matar (laharagecha), mas ela teve compaixão (vatachas) de ti (aleicha)" (I Samuel 24:11, palavras de Davi a Saul, na caverna de Ein Gedi).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
ואמר להרגך ותחס עליך – דוד אמר לשאול כן בצאתו מן המערה שנכנס בה לפנות וכרת דוד את כנף מעילו ואמר להרגך הקב"ה התיר לי להרגך:

"E ele disse para te matar, mas ela teve compaixão de ti" — Davi disse (amar) assim (ken) a Saul, ao sair (betzeto) da caverna (min hamearah) na qual (shenichnas bah) Saul entrara (nichnas) para se retirar (lehipanot), e Davi cortou (karat) a orla (kenaf) de seu manto (meilo); "para te matar" quer dizer: o Santo, Bendito seja, (hakadosh baruch hu) permitiu-me (hitir li) te matar (leharegecha).

Nota

A Guemará passa a citar e expor, versículo a versículo, o episódio bíblico de Davi na caverna de Ein Gedi (I Samuel 24), em conexão temática com o banheiro: Saul havia entrado na caverna justamente para se retirar, e é ali que Davi, tendo a oportunidade de matá-lo, corta apenas a orla de seu manto e depois lhe declara que a Torá permitiria matá-lo — mas a compaixão o impediu.

8"E ele disse" deveria ser "e eu disse"! "Mas ela teve compaixão" deveria ser "e eu tive compaixão"! Disse Rabi Elazar: disse-lhe Davi a Saul — pela Torá, mereces a morte, pois eras um perseguidor; mas o pudor que havia em ti foi o que teve compaixão de ti
Bavli · 62b — Guemará
״וְאָמַר״, ״וְאָמַרְתִּי״ מִיבְּעֵי לֵיהּ! ״וַתָּחָס״, ״וְחַסְתִּי״ מִיבְּעֵי לֵיהּ! אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: אָמַר לוֹ דָּוִד לְשָׁאוּל: מִן הַתּוֹרָה בֶּן הֲרִיגָה אַתָּה, שֶׁהֲרֵי רוֹדֵף אַתָּה, וְהַתּוֹרָה אָמְרָה: בָּא לְהׇרְגְּךָ — הַשְׁכֵּם לְהָרְגוֹ, אֶלָּא צְנִיעוּת שֶׁהָיְתָה בְּךָ, הִיא חָסָה עָלֶיךָ.

"E ele disse" (veamar), "e eu disse" (veamarti) deveria ter dito (mibei leih)! "Mas ela teve compaixão" (vatachas), "e eu tive compaixão" (vechasti) deveria ter dito (mibei leih)! (por que Davi fala em terceira pessoa?) Disse (amar) Rabi Elazar: disse-lhe (amar lo) Davi a Saul: pela (min) Torá (hatorah), merecedor (ben) de morte (harigah) és tu (atah), pois (sheharei) perseguidor (rodef) és tu (atah), e a Torá (vehatorah) disse (amrah): a quem vem (ba) para te matar (leharegecha) — adianta-te (hashkem) a matá-lo (leborgo); mas (ela) o pudor (tzeniut) que havia (shehaytah) em ti (becha), ele (hi) teve compaixão (chasah) de ti (aleicha).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
התורה אמרה וכו' – אם במחתרת ימצא הגנב וגו' (שמות כ״ב:א׳) וכבר פירשנוהו למעלה במעשה דר' שילא (דף נח.): צניעות שראיתי בך – שנכנס למערה בשביל הצנע ואף שם נהג צניעות כדמפרש ואזיל:

"E a Torá disse, etc." — "se (im) num assalto (bemachteret) for encontrado (yimatze) o ladrão (haganav), etc." (Êxodo 22:1), e já (kevar) explicamos isso (perashnuhu) acima (lemaalah) no episódio (bemaaseh) de Rabi Sheila (58a). "O pudor que vi em ti" — que (she) entraste (nichnas) na caverna (lamearah) a fim de (bishvil) te retirares com discrição (lehitznea), e mesmo (veaf) ali (sham) conduziste-te (nahag) com pudor (tzeniut), como (kedimfaresh) se explica (mefaresh) a seguir (veazil).

Nota

A Guemará estranha a formulação do versículo em terceira pessoa ("e ele disse... teve compaixão"), quando se esperaria a primeira pessoa, já que é o próprio Davi quem fala. Rabi Elazar explica: Davi quis dizer que, tecnicamente, ele mesmo, como vítima de perseguição, teria o direito pleno de matar Saul — mas o mérito de tê-lo poupado não foi seu, e sim do próprio pudor de Saul, que se retirou discretamente até dentro da caverna, mérito que "por si mesmo" gerou a compaixão.

9E qual foi esse pudor? Pois está escrito: "e veio aos currais de ovelhas junto ao caminho, e havia ali uma caverna, e Saul entrou para cobrir seus pés". Ensinou-se: cerca dentro de cerca, e caverna dentro de caverna, para se cobrir. Disse Rabi Elazar: ensina que ele se cobriu como uma suká
Bavli · 62b — Guemará
וּמַאי הִיא? — דִּכְתִיב: ״וַיָּבֹא אֶל גִּדְרוֹת הַצֹּאן עַל הַדֶּרֶךְ וְשָׁם מְעָרָה וַיָּבֹא שָׁאוּל לְהָסֵךְ אֶת רַגְלָיו״. תָּנָא: גָּדֵר לִפְנִים מִן גָּדֵר, וּמְעָרָה לִפְנִים מִמְּעָרָה לְהָסֵךְ. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מְלַמֵּד שֶׁסִּיכֵּךְ עַצְמוֹ כְּסוּכָּה.

E qual (umai) foi ela (hi)? Pois (de) está escrito (dichtiv): "e veio (vayavo) aos currais (gidrot) de ovelhas (hatzon) junto ao caminho (al haderech), e havia ali (vesham) uma caverna (mearah), e veio (vayavo) Saul para cobrir (lehasech) seus pés (et raglav)" (I Samuel 24:4). Ensinou-se (tana): cerca (gader) dentro (lifnim) de (min) cerca (gader), e caverna (mearah) dentro (lifnim) de (mi) caverna (mearah), para se cobrir (lehasech). Disse (amar) Rabi Elazar: ensina (melamed) que (she) ele se cobriu (sichech atzmo) como uma suká (kesukah) (cobriu-se por completo com as próprias vestes, tamanho seu pudor).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
שסכך רגליו – בבגדיו כסוכה:

"Que se cobriu como uma suká" — cobriu (sichech) seus pés (raglav) com suas vestes (bevegadav) como uma suká (kesukah) (fazendo delas um teto protetor sobre si).

Nota

A Guemará identifica o pudor de Saul no próprio texto: ele se retirou não apenas dentro de uma cerca, mas dentro de uma segunda cerca interna, e não apenas numa caverna, mas numa caverna dentro de outra caverna — redobrando o cuidado por discrição. Rabi Elazar acrescenta que ele chegou a se cobrir completamente com as próprias vestes, como uma suká, extremo de pudor que, segundo o ensinamento anterior, foi o que o salvou da morte às mãos de Davi.

10"E levantou-se Davi e cortou a orla do manto que era de Saul, às escondidas." Disse Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: todo aquele que despreza as vestes, no final não desfruta delas, pois foi dito: "e o rei Davi era velho, entrado em dias, e o cobriam com vestes, mas não se aquecia"
Bavli · 62b — Guemará
״וַיָּקָם דָּוִד וַיִּכְרֹת אֶת כְּנַף הַמְּעִיל אֲשֶׁר לְשָׁאוּל בַּלָּט״, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא: כׇּל הַמְבַזֶּה אֶת הַבְּגָדִים, סוֹף אֵינוֹ נֶהֱנֶה מֵהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהַמֶּלֶךְ דָּוִד זָקֵן בָּא בַּיָּמִים וַיְכַסֻּהוּ בַּבְּגָדִים וְלֹא יִחַם לוֹ״.

"E levantou-se (vayakam) Davi e cortou (vayichrot) a orla (kenaf) do manto (hameil) que era (asher) de Saul (leshaul), às escondidas (balat)" (I Samuel 24:5). Disse (amar) Rabi Yossei, filho de Rabi Chanina: todo (kol) aquele que despreza (hamevazeh) as vestes (habegadim), no final (sof) não (eino) desfruta (nehene) delas (mehem), pois foi dito (sheneemar): "e o rei (vehamelech) Davi estava velho (zaken), entrado (ba) em dias (bayamim), e o cobriam (vaychasuhu) com vestes (babegadim), mas não (velo) se aquecia (yicham lo)" (I Reis 1:1).

Nota

A Guemará prossegue com o versículo do corte da orla do manto, do qual Rabi Yossei bar Chanina extrai uma lição sobre a dignidade das roupas: por ter cortado, ainda que às escondidas e com propósito legítimo, a orla do manto de Saul, Davi sofreu, no fim da vida, a consequência simbólica de não conseguir se aquecer com vestes, conforme relatado em I Reis.

11"Se o Eterno te incitou contra mim, aceite Ele uma oferenda." Disse Rabi Elazar: disse-lhe o Santo, Bendito seja, a Davi: "incitador" me chamaste? Eis que te farei tropeçar numa coisa que até as crianças da escola sabem
Bavli · 62b — Guemará
״אִם ה׳ הֱסִיתְךָ בִי יָרַח מִנְחָה״, אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: אָמַר לֵיהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְדָוִד: ״מֵסִית״ קָרֵית לִי? הֲרֵי אֲנִי מַכְשִׁילְךָ בְּדָבָר שֶׁאֲפִילּוּ תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן יוֹדְעִים אוֹתוֹ. דִּכְתִיב: ״כִּי תִשָּׂא אֶת רֹאשׁ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לִפְקֻדֵיהֶם וְנָתְנוּ אִישׁ כֹּפֶר נַפְשׁוֹ וְגוֹ׳״. מִיָּד, ״וַיַּעֲמֹד שָׂטָן עַל יִשְׂרָאֵל״, וּכְתִיב: ״וַיָּסֶת אֶת דָּוִד בָּהֶם לֵאמֹר לֵךְ מְנֵה אֶת יִשְׂרָאֵל״. וְכֵיוָן דִּמְנִינְהוּ לָא שְׁקַל מִינַּיְיהוּ כּוֹפֶר. דִּכְתִיב: ״וַיִּתֵּן ה׳ דֶּבֶר בְּיִשְׂרָאֵל מֵהַבֹּקֶר וְעַד עֵת מוֹעֵד״.

"Se (im) o Eterno (Hashem) te incitou (hesitecha) contra mim (bi), aceite Ele (yarach) uma oferenda (minchah)" (I Samuel 26:19). Disse (amar) Rabi Elazar: disse-lhe (amar leih) o Santo, Bendito seja (hakadosh baruch hu), a Davi: "incitador (mesit)" me chamaste (karit li)? Eis que (harei) eu (ani) te farei tropeçar (machshilcha) numa coisa (bedavar) que (she) mesmo (afilu) as crianças (tinokot) da escola (shel beit raban) sabem (yodim). Pois (dichtiv) está escrito (dichtiv): "quando (ki) levantares (tissa) a cabeça (rosh) dos filhos (benei) de Israel conforme os seus recenseados (lifkudeihem), dará (venatnu) cada homem (ish) o resgate (kofer) de sua alma (nafsho), etc." (Êxodo 30:12). Imediatamente (miyad), "e levantou-se (vayaamod) Satán contra (al) Israel" (I Crônicas 21:1), e está escrito (uchtiv): "e incitou (vayaset) Davi contra eles (bahem), dizendo (lemor): vai (lech), conta (meneh) Israel" (II Samuel 24:1). E assim que (vekeivan) os contou (demeninhu), não (la) recolheu (shekal) deles (minaiyhu) o resgate (kofer). Pois (dichtiv) está escrito (dichtiv): "e deu (vayiten) o Eterno (Hashem) peste (dever) em Israel, desde a manhã (mehaboker) e até (vead) o tempo (et) designado (moed)" (II Samuel 24:15).

Nota

A Guemará passa a outro versículo do encontro de Davi com Saul, no qual Davi já havia atribuído a D-us a possibilidade de tê-lo incitado contra Saul. Rabi Elazar interpreta que D-us reagiu a essa acusação de "incitador" fazendo Davi tropeçar justamente na lei mais elementar — a exigência de recolher o meio-shekel de resgate ao contar o povo (Êxodo 30:12) —, ao permitir que Satán o incitasse a contar Israel sem cobrar o resgate devido, trazendo como consequência a peste narrada em II Samuel 24.

12O que é "o tempo designado"? Disse Shmuel, o Velho, genro de Rabi Chanina, em nome de Rabi Chanina: desde a hora do abate do sacrifício tamid até a hora de sua aspersão. Rabi Yochanan disse: até o meio-dia exato
Bavli · 62b — Guemará
מַאי ״עֵת מוֹעֵד״? אָמַר שְׁמוּאֵל סָבָא חַתְנֵיהּ דְּרַבִּי חֲנִינָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַבִּי חֲנִינָא: מִשְּׁעַת שְׁחִיטַת הַתָּמִיד עַד שְׁעַת זְרִיקָתוֹ. רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: עַד חֲצוֹת מַמָּשׁ.

O que é (mai) "o tempo designado (et moed)"? Disse (amar) Shmuel, o Velho (sava), genro (chatneih) de Rabi Chanina, em nome de (mishmeih) Rabi Chanina: desde a hora (mishaat) do abate (shechitat) do sacrifício tamid até a hora (ad shaat) de sua aspersão (zerikato). Rabi Yochanan disse (amar): até (ad) o meio-dia (chatzot) exato (mamash).

Nota

A Guemará esclarece a duração exata do "tempo designado" da praga sofrida por Israel: uma opinião mede-o pelo intervalo entre o abate e a aspersão do sangue do sacrifício tamid diário no Templo, e Rabi Yochanan simplesmente pelo meio-dia solar.

13"E disse ao anjo destruidor que estava entre o povo: basta!" Disse Rabi Elazar: disse-lhe o Santo, Bendito seja, ao anjo: toma para mim o maior deles, que há nele para saldar deles muitas dívidas. Naquela hora morreu Avishai ben Tzeruiá, que equivalia à maioria do Sinédrio
Bavli · 62b — Guemará
״וַיֹּאמֶר לַמַּלְאָךְ הַמַּשְׁחִית בָּעָם רַב״. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: אֲמַר לֵיהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמַלְאָךְ: טוֹל לִי רַב שֶׁבָּהֶם, שֶׁיֵּשׁ בּוֹ לִיפָּרַע מֵהֶם כַּמָּה חוֹבוֹת. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה מֵת אֲבִישַׁי בֶּן צְרוּיָה, שֶׁשָּׁקוּל כְּרוּבָּהּ שֶׁל סַנְהֶדְרִין.

"E disse (vayomer) ao anjo (lamalach) destruidor (hamashchit) que estava entre o povo (baam): basta (rav)!" (II Samuel 24:16). Disse (amar) Rabi Elazar: disse-lhe (amar leih) o Santo, Bendito seja (hakadosh baruch hu), ao anjo (lemalach): toma (tol) para mim (li) o maior (rav) deles (shebahem), que (sheyesh bo) há nele o suficiente para saldar (lipara) deles (mehem) muitas (kamah) dívidas (chovot). Naquela (beotah) hora (shaah) morreu (met) Avishai ben Tzeruiá, que (she) equivalia (shakul) à maioria (kerubah) do Sinédrio (shel sanhedrin).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
שיש בו ליפרע כמה – שיש במיתתו כדי לכפר על כמה עונות:

"Que há nele para saldar muitas" — que (she)(yesh) em sua morte (bemitato) o suficiente para (kedei) expiar (lechaper) por muitas (kamah) transgressões (avonot).

Nota

A Guemará interpreta a palavra "rav" ("basta") no versículo como referência a uma pessoa — "o maior deles" —, entendendo que D-us instruiu o anjo destruidor a tirar a vida de um único homem de grande estatura, cuja morte teria valor expiatório equivalente a muitas mortes. A Guemará identifica esse homem como Avishai ben Tzeruiá, sobrinho de Davi, cuja grandeza espiritual era comparável à da maioria dos membros do Sinédrio somados.

14"E, quando destruía, viu o Eterno, e Se arrependeu." O que Ele viu?
Bavli · 62b — Guemará
״וּבְהַשְׁחִית רָאָה ה׳ וַיִּנָּחֶם״, מַאי רָאָה?

"E, quando destruía (uvehashchit), viu (raah) o Eterno (Hashem), e Se arrependeu (vayinachem)" (I Crônicas 21:15). O que (mai) Ele viu (raah)?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
ובהשחית ראה ה' וינחם – מקרא הוא באותה פרשה בדברי הימים:

"E, quando destruía, viu o Eterno, e Se arrependeu" — este é um versículo (mikra) naquela (beotah) passagem (parashah) em Divrei HaYamim (Crônicas).

Nota

A Guemará levanta a questão interpretativa central desta série de homilias: o versículo diz que D-us "viu" algo que O levou a Se arrepender da destruição e cessar a praga — mas o que, exatamente, Ele viu? A pergunta abre espaço para quatro respostas amoraítas distintas, apresentadas nas seções seguintes.

15Disse Rav: viu nosso pai Jacó, pois está escrito: "e disse Jacó quando os viu." E Shmuel disse: viu as cinzas de Isaac, pois foi dito: "D-us verá para Si o cordeiro"
Bavli · 62b — Guemará
אָמַר רַב: רָאָה יַעֲקֹב אָבִינוּ, דִּכְתִיב: ״וַיֹּאמֶר יַעֲקֹב כַּאֲשֶׁר רָאָם״. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: אֶפְרוֹ שֶׁל יִצְחָק רָאָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֱלֹהִים יִרְאֶה לּוֹ הַשֶּׂה״.

Disse (amar) Rav: viu (raah) D-us nosso pai (avinu) Jacó, pois (de) está escrito (dichtiv): "e disse (vayomer) Jacó quando (kaasher) os viu (raam)" (Gênesis 32:3, associando "raam" a "rachamim", misericórdia). E Shmuel disse (amar): as cinzas (efro) de Isaac (shel yitzchak) viu (raah), pois foi dito (sheneemar): "D-us (Elokim) verá (yireh) para Si (lo) o cordeiro (haseh)" (Gênesis 22:8).

Nota

Rav propõe que D-us "viu" o mérito de Jacó, associando a raiz "viu" (raah) do versículo da praga à mesma raiz usada quando Jacó viu os anjos acampados (interpretada tradicionalmente como misericórdia). Shmuel propõe, alternativamente, que D-us viu as cinzas simbólicas de Isaac — o mérito da Akedá —, associando o versículo à promessa "D-us verá para Si o cordeiro", dita por Abraão a Isaac a caminho do sacrifício.

16Rabi Yitzchak Nafcha disse: viu o dinheiro do resgate, pois foi dito: "e tomarás o dinheiro do resgate dos filhos de Israel, etc." Rabi Yochanan disse: viu o Templo, pois está escrito: "no monte do Eterno se verá"
Bavli · 62b — Guemará
רַבִּי יִצְחָק נַפָּחָא אָמַר: כֶּסֶף כִּפּוּרִים רָאָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלָקַחְתָּ אֶת כֶּסֶף הַכִּפּוּרִים מֵאֵת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְגוֹ׳״. רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: בֵּית הַמִּקְדָּשׁ רָאָה, דִּכְתִיב: ״בְּהַר ה׳ יֵרָאֶה״.

Rabi Yitzchak Nafcha disse (amar): o dinheiro (kesef) do resgate (kipurim) viu (raah), pois foi dito (sheneemar): "e tomarás (velakachta) o dinheiro (kesef) do resgate (hakipurim) dos (meet) filhos (benei) de Israel, etc." (Êxodo 30:16). Rabi Yochanan disse (amar): o Templo (beit hamikdash) viu (raah), pois está escrito (dichtiv): "no monte (behar) do Eterno (Hashem) se verá (yeraeh)" (Gênesis 22:14).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
כסף כפורים ראה – שנתן במנין ראשון של ישראל למשכן והוא כפר על מנין זה שהרי לזכרון נתן כדכתיב והיה לבני ישראל לזכרון לכפר ועכשיו הוצרכו כפרתו:

"O dinheiro do resgate viu" — que (she) foi dado (nitan) na primeira (rishon) contagem (beminyan) de Israel para o (lamishkan) tabernáculo (mishkan), e ele (vehu) expiou (kiper) sobre esta (al minyan zeh) contagem também, pois (sheharei) para memória (lezikaron) foi dado (nitan), como está escrito (kedichtiv): "e será (vehayah) para os filhos (livnei) de Israel por memória (lezikaron), para expiar (lechaper)" (Êxodo 30:16), e agora (veachshav) precisaram (hutzrechu) de sua expiação (kaparato).

Nota

Duas outras opiniões completam o quadro: Rabi Yitzchak Nafcha entende que D-us viu o mérito perene do dinheiro do resgate arrecadado no primeiro recenseamento no deserto, doado como "memória" com poder expiatório contínuo; Rabi Yochanan entende que D-us viu o próprio local do futuro Templo, com base no mesmo versículo da Akedá citado por Shmuel, mas aplicado ao lugar, não ao mérito de Isaac.

17Discordam sobre isso Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Shmuel bar Nachmani. Um disse: o dinheiro do resgate viu; e um disse: o Templo viu. E é mais plausível como quem disse que viu o Templo, pois foi dito: "que hoje se dirá: no monte do Eterno se verá"
Bavli · 62b — Guemará
פְּלִיגִי בָּהּ רַבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידֵּי וְרַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי. חַד אָמַר כֶּסֶף הַכִּפּוּרִים רָאָה, וְחַד אָמַר בֵּית הַמִּקְדָּשׁ רָאָה. וּמִסְתַּבְּרָא כְּמַאן דְּאָמַר בֵּית הַמִּקְדָּשׁ רָאָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲשֶׁר יֵאָמֵר הַיּוֹם בְּהַר ה׳ יֵרָאֶה״.

Discordam (pligi) sobre isso (bah) Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Shmuel bar Nachmani. Um (chad) disse (amar) que o dinheiro (kesef) do resgate (hakipurim) viu (raah), e um (vechad) disse (amar) que o Templo (beit hamikdash) viu (raah). E é mais plausível (umistabra) como (kemaan) quem disse (deamar) que o Templo (beit hamikdash) viu (raah), pois foi dito (sheneemar): "que hoje (hayom) se dirá (yeamer): no monte (behar) do Eterno (Hashem) se verá (yeraeh)" (Gênesis 22:14).

Nota

A Guemará observa que essa mesma controvérsia — entre o dinheiro do resgate e o Templo — já havia sido travada por outra dupla de amoraítas, e conclui, com base na leitura mais direta do versículo da Akedá ("no monte do Eterno se verá"), que a opinião mais plausível é a que identifica o Templo como aquilo que D-us viu.

18"Não entre a pessoa no Monte do Templo com seu bordão, etc." O que é "kapendarya"? Disse Rava: "kapendarya" é como seu nome. E Rav Chana bar Adda, em nome de Rav Sama, filho de Rav Mari, disse: como quem diz — enquanto contorno as fileiras, entrarei por aqui
Bavli · 62b — Guemará
לֹא יִכָּנֵס אָדָם לְהַר הַבַּיִת בְּמַקְלוֹ וְכוּ׳. מַאי ״קַפֶּנְדַּרְיָא״? אָמַר רָבָא: קַפֶּנְדַּרְיָא כִּשְׁמָהּ. וְרַב חָנָא בַּר אַדָּא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב סַמָּא בְּרֵיהּ דְּרַב מָרִי אָמַר: כְּמַאן דְּאָמַר אִינָשׁ: ״אַדְּמַקֵּיפְנָא אַדָּרֵי, אֵיעוּל בְּהָא״. אָמַר רַב נַחְמָן אָמַר רַבָּה בַּר אֲבוּהּ: הַנִּכְנָס לְבֵית הַכְּנֶסֶת עַל מְנָת שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹתוֹ קַפֶּנְדַּרְיָא — מוּתָּר לַעֲשׂוֹתוֹ קַפֶּנְדַּרְיָא.

Não entre (lo yikanes) a pessoa (adam) no Monte (lehar) do Templo (habayit) com seu bordão (bemaklo), etc. (Mishná). O que é (mai) "kapendarya" (atalho que corta caminho)? Disse (amar) Rava: "kapendarya" é como seu nome (kishmah) (o próprio termo grego já indica seu sentido). E Rav Chana bar Adda, em nome de (mishmeih) Rav Sama, filho de Rav Mari, disse (amar): como (kemaan) quem diz (deamar) uma pessoa (inash): enquanto (ad) contorno (makifna) as fileiras (adarei) de casas, entrarei (eol) por aqui (behah) (para encurtar o caminho). Disse (amar) Rav Nachman em nome de (amar) Rabá bar Avuh: aquele que entra (hanichnas) numa sinagoga (leveit hakeneset) com a condição (al menat) de não (shelo) fazer dela (laasoto) atalho (kapendarya) — é permitido (mutar) depois fazer dela (laasoto) atalho (kapendarya).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
כשמה – כמשמעה פירוש שמה: אדמקיפנא אדרי איעול בהא – בעוד שאני מקיף כל שורות הבתים הללו אכנס כאן לקצר דרכי: אדרי – שורות: קפנדריא – טרי"א בלע"ז:

"Como seu nome" — conforme seu significado (kemashmauta), isto é, explica-se (perush) seu nome (shemah) (o próprio termo grego já contém a explicação). "Enquanto contorno as fileiras, entrarei por aqui" — enquanto (bead) contorno (makif) todas (kol) as fileiras (shurot) destas (halalu) casas (habatim), entrarei (ekanes) aqui (kan) para encurtar (lekatzer) meu caminho (darki). "Adrei" — fileiras (shurot). "Kapendarya" — termo em francês antigo, "trait" (teria) em francês (belaaz).

Nota

Concluída a longa série de homilias sobre Davi, Saul e as pragas, a Guemará retoma o fio da Mishná deste perek, que proíbe entrar no Monte do Templo com bordão ou usá-lo como atalho ("kapendarya"), e discute a etimologia do termo — um empréstimo do grego/latim para "atalho que corta caminho". Rav Nachman acrescenta uma sutileza legal sobre sinagogas: quem entra numa sinagoga com a intenção declarada de não a usar como atalho pode, depois de já estar dentro, decidir sair pelo outro lado, sem que isso configure violação da proibição.

19Disse Rabi Avahu: se havia ali uma vereda desde o início, é permitido. Disse Rabi Chelbo em nome de Rav Huna: quem entra numa sinagoga para orar, é permitido fazer dela atalho, pois foi dito: "e quando vier o povo da terra diante do Eterno nas festas, etc."
Bavli · 62b — Guemará
רַבִּי אֲבָהוּ אָמַר: אִם הָיָה שְׁבִיל מֵעִיקָּרוֹ — מוּתָּר. אָמַר רַבִּי חֶלְבּוֹ אָמַר רַב הוּנָא: הַנִּכְנָס לְבֵית הַכְּנֶסֶת לְהִתְפַּלֵּל, מוּתָּר לַעֲשׂוֹתוֹ קַפֶּנְדַּרְיָא. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְבֹא עַם הָאָרֶץ לִפְנֵי ה׳ בַּמּוֹעֲדִים וְגוֹ׳״.

Disse (amar) Rabi Avahu: se (im) havia (hayah) ali uma vereda (shvil) desde o início (meikaro) (antes de ali se construir a sinagoga), é permitido (mutar). Disse (amar) Rabi Chelbo em nome de (amar) Rav Huna: quem entra (hanichnas) numa sinagoga (leveit hakeneset) para orar (lehitpalel), é permitido (mutar) fazer dela (laasoto) atalho (kapendarya) (sair pelo outro lado depois de orar), pois foi dito (sheneemar): "e quando vier (uvevo) o povo (am) da terra (haaretz) diante (lifnei) do Eterno (Hashem) nas festas (bamoadim), etc." (Ezequiel 46:9, que descreve entrar por uma porta e sair por outra).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
מעיקרא – קודם שנבנה עליו בית הכנסת:

"Desde o início" — antes (kodem) que (she) se construísse (nivneh) sobre ele (alav) a sinagoga (beit hakeneset).

Nota

Duas condições adicionais flexibilizam a proibição de atalho na sinagoga: Rabi Avahu permite quando o caminho já existia como vereda pública antes da construção do edifício; Rav Huna, através de Rabi Chelbo, permite explicitamente a quem entra para orar sair pelo lado oposto, apoiando-se no versículo de Ezequiel sobre a entrada e saída do povo pelas portas do Templo futuro em dias de festa.

20E cuspir é proibido por argumento de menor para maior. Disse Rav Bivi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: todo aquele que cospe no Monte do Templo nos dias de hoje, é como se cuspisse na menina de seu olho, pois foi dito: "e estarão Meus olhos e Meu coração ali todos os dias"
Bavli · 62b — Guemará
וּרְקִיקָה מִקַּל וָחוֹמֶר. אָמַר רַב בִּיבִי אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: כׇּל הָרוֹקֵק בְּהַר הַבַּיִת בַּזְּמַן הַזֶּה, כְּאִילּוּ רוֹקֵק בְּבַת עֵינוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיוּ עֵינַי וְלִבִּי שָׁם כָּל הַיָּמִים״.

E cuspir (urekikah) é proibido ali por argumento (mikal vachomer) de menor para maior (Mishná). Disse (amar) Rav Bivi em nome de (amar) Rabi Yehoshua ben Levi: todo (kol) aquele que cospe (harokek) no Monte (behar) do Templo (habayit) nos dias (bazman) de hoje (hazeh), é como se (keilu) cuspisse (rokek) na menina (bevat) de seu olho (eino), pois foi dito (sheneemar): "e estarão (vehayu) Meus olhos (einai) e Meu coração (velibi) ali (sham) todos (kol) os dias (hayamim)" (I Reis 9:3).

Nota

Retomando a Mishná, que deriva a proibição de cuspir no Monte do Templo por argumento a fortiori a partir da proibição de entrar calçado, Rabi Yehoshua ben Levi acrescenta uma dimensão adicional: mesmo após a destruição, cuspir ali equivale a cuspir na menina do próprio olho de D-us, pois Seus olhos e coração permanecem voltados para o lugar do Templo "todos os dias", segundo a promessa feita a Salomão em I Reis.

21Disse Rava: cuspir na sinagoga é permitido, tal como se dá com o calçado. Assim como o calçado é proibido no Monte do Templo, mas permitido na sinagoga, também cuspir é proibido no Monte do Templo, mas permitido na sinagoga
Bavli · 62b — Guemará
אָמַר רָבָא: רְקִיקָה בְּבֵית הַכְּנֶסֶת — שַׁרְיָא, מִידֵּי דְּהָוֵה אַמִּנְעָל. מָה מִנְעָל בְּהַר הַבַּיִת אָסוּר, בְּבֵית הַכְּנֶסֶת מוּתָּר. אַף רְקִיקָה, בְּהַר הַבַּיִת הוּא דְּאָסוּר, בְּבֵית הַכְּנֶסֶת שְׁרֵי.

Disse (amar) Rava: cuspir (rekikah) na sinagoga (beveit hakeneset) — é permitido (sharya), tal (midei) como se dá (dehavei) com o calçado (amineal). Assim como (mah) o calçado (mineal) no Monte (behar) do Templo (habayit) é proibido (asur), mas na sinagoga (beveit hakeneset) é permitido (mutar), também (af) cuspir (rekikah): no Monte (behar) do Templo (habayit) é que (hu de) é proibido (asur), mas na sinagoga (beveit hakeneset) é permitido (sharei).

Nota

Rava estabelece uma analogia direta entre as duas proibições da Mishná: assim como o uso de calçado é proibido especificamente no Monte do Templo mas permitido na sinagoga, o mesmo vale para cuspir — a santidade especial do Templo, e não da sinagoga comum, é que gera a proibição.

22Disse-lhe Rav Papa a Rava — e há quem diga que foi Ravina a Rava, e há quem diga que foi Rav Adda bar Matna a Rava: já que aprendes a proibição de cuspir do calçado, aprendamos a permissão na sinagoga do atalho!
Bavli · 62b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְרָבָא, וְאָמְרִי לַהּ רָבִינָא לְרָבָא, וְאָמְרִי לַהּ רַב אַדָּא בַּר מַתְנָא לְרָבָא: אַדְּיָלֵיף מִמִּנְעָל, נֵילַף מִקַּפֶּנְדַּרְיָא!

Disse-lhe (amar leih) Rav Papa a Rava, e há quem diga (veamri lah) que foi Ravina a Rava, e há quem diga (veamri lah) que foi Rav Adda bar Matna a Rava: já que (ad) aprendes (yalef) a regra do calçado (mimineal), aprendamos (neilaf) a permissão do atalho (mikapendarya) (que na sinagoga é irrestrito, sem exigir intenção prévia)!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
נילף מקפנדריא – לאיסורא דתנן במסכת מגילה (ד' כח.) אין עושין בית הכנסת קפנדריא:

"Aprendamos do atalho" — para o lado da proibição (leisura), pois (de) ensinamos (detanan) no tratado (bemasechet) Meguilá (28a): não (ein) se faz (osin) da sinagoga (beit hakeneset) atalho (kapendarya) (então por que permitir cuspir sem restrição, e não como o atalho, que exige condição prévia).

Nota

Um interlocutor desafia a analogia de Rava com uma comparação alternativa: por que aprender a regra do calçado (que na sinagoga é permitido sem qualquer condição) e não, em vez disso, do próprio atalho — que, segundo outra fonte (Meguilá 28a), é proibido na sinagoga a menos que se tenha entrado com a condição explícita de não o fazer? Se assim fosse, cuspir também precisaria de condição prévia para ser permitido.

23Disse-lhe: um tanna aprende do calçado, e tu dizes do atalho?! Qual é a fonte? Pois ensinou-se: não entre a pessoa no Monte do Templo nem com seu bordão, nem com seu calçado, nem com dinheiro amarrado em seu lençol, nem com sua bolsa pendurada às costas, e não o faça atalho. E cuspir, por menor para maior a partir do calçado
Bavli · 62b — Guemará
אָמַר לֵיהּ: תַּנָּא יָלֵיף מִמִּנְעָל, וְאַתְּ אָמְרַתְּ מִקַּפֶּנְדַּרְיָא?! מַאי הִיא? — דְּתַנְיָא לֹא יִכָּנֵס אָדָם לְהַר הַבַּיִת לֹא בְּמַקְלוֹ שֶׁבְּיָדוֹ, וְלֹא בְּמִנְעָלוֹ שֶׁבְּרַגְלוֹ, וְלֹא בְּמָעוֹת הַצְּרוּרִים לוֹ בִּסְדִינוֹ, וּבְפוּנְדָּתוֹ מוּפְשֶׁלֶת לַאֲחוֹרָיו, וְלֹא יַעֲשֶׂנָּה קַפֶּנְדַּרְיָא. וּרְקִיקָה מִקַּל וָחוֹמֶר מִמִּנְעָל: וּמָה מִנְעָל, שֶׁאֵין בּוֹ דֶּרֶךְ בִּזָּיוֹן, אָמְרָה תּוֹרָה: ״שַׁל נְעָלֶיךָ מֵעַל רַגְלֶיךָ״. רְקִיקָה, שֶׁהִיא דֶּרֶךְ בִּזָּיוֹן — לֹא כׇּל שֶׁכֵּן?!

Disse-lhe (amar leih) Rava: um tanna (tana) aprende (yalef) a regra do calçado (mimineal), e tu (veat) dizes (amart) do atalho (mikapendarya)? Qual (mai) é ela (hi) (a fonte tannaítica)? Pois (de) ensinou-se (tanya): não entre (lo yikanes) a pessoa (adam) no Monte (lehar) do Templo (habayit) nem (lo) com seu bordão (bemaklo) que está em sua mão (sheveyado), nem (velo) com seu calçado (bemineallo) que está em seu pé (sheveraglo), nem (velo) com dinheiro (bemaot) amarrado (hatzerurim) para ele (lo) em seu lençol (bisdino), e com sua bolsa (uvfundato) pendurada (mufshelet) às suas costas (laachorav), e não faça dele (veal yaasenah) atalho (kapendarya). E cuspir (urekikah), por argumento (mikal vachomer) de menor para maior a partir do calçado (mimineal): se (umah) o calçado (mineal), que (sheein) não tem (bo) caráter (derech) de desprezo (bizayon), a Torá (hatorah) disse (amrah): "tira (shal) teus calçados (nealeicha) de sobre (meal) teus pés (ragleicha)" (Êxodo 3:5), cuspir (rekikah), que (shehi) tem caráter (derech) de desprezo (bizayon) — não é tanto mais (lo kol shekhen) proibido?!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 62b
תנא יליף – רקיקה ממנעל: פונדתו – אזור חלול שנותנין בו מעות:

"Um tanna aprende" — a proibição de cuspir (rekikah) a partir do calçado (mimineal). "Sua bolsa" (fundato) — um cinto (ezor) oco (chalul) em que (shenotnin bo) se guarda (notnin) dinheiro (maot).

Nota

Rava responde citando a própria baraita, que deriva explicitamente a proibição de cuspir a partir da proibição de calçado por um argumento a fortiori formal — se o calçado, que não implica desprezo algum, é proibido apenas por ordem divina explícita a Moisés, cuspir, que é intrinsecamente um gesto de desprezo, deveria certamente também ser proibido. A fonte tannaítica, portanto, elege o calçado como base da analogia, não o atalho.

24Rabi Yossei bar Yehuda diz: não é necessário esse argumento: eis que está dito: "pois não se pode entrar ao portão do rei vestido de saco." E não são as coisas um argumento de menor para maior? Se o saco, que não é repugnante, diante de carne e sangue — assim é proibido; cuspir, que é repugnante, diante do Rei dos reis dos reis — não é tanto mais?
Bavli · 62b — Guemará
רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אוֹמֵר: אֵינוֹ צָרִיךְ: הֲרֵי הוּא אוֹמֵר: ״כִּי אֵין לָבוֹא אֶל שַׁעַר הַמֶּלֶךְ בִּלְבוּשׁ שָׂק״. וַהֲלֹא דְּבָרִים קַל וָחוֹמֶר: וּמָה שַׂק, שֶׁאֵינוֹ מָאוּס, לִפְנֵי בָּשָׂר וָדָם — כָּךְ. רְקִיקָה, שֶׁהִיא מְאוּסָה, לִפְנֵי מֶלֶךְ מַלְכֵי הַמְּלָכִים — לֹא כׇּל שֶׁכֵּן?!

Rabi Yossei bar Yehuda diz (omer): não (eino) é necessário (tzarich) esse argumento a partir do calçado: eis que (harei) a Escritura diz (omer): "pois (ki) não se pode (ein) entrar (lavo) ao portão (shaar) do rei (hamelech) vestido (bilvush) de saco (sak)" (Ester 4:2). E não são (vahalo) as coisas (devarim) aqui também um argumento (kal vachomer) de menor para maior (pergunta a Guemará)? Se (umah) o saco (sak), que (sheeino) não é repugnante (maus), diante (lifnei) de carne (basar) e sangue (vadam) (um rei mortal) é proibido assim (kach); cuspir (rekikah), que (shehi) é repugnante (meusah), diante (lifnei) do Rei (melech) dos reis (malchei) dos reis (hamelachim) (D-us) — não é tanto mais (lo kol shekhen) proibido?!

Nota

Rabi Yossei bar Yehuda propõe uma segunda derivação, independente do calçado: o próprio livro de Ester relata que não se podia entrar ao portão do palácio real vestido de saco (sinal de luto), e daí se conclui, por argumento a fortiori, que se algo tão pouco repugnante como o saco já era proibido diante de um rei humano, cuspir — gesto claramente repugnante — deveria certamente ser proibido diante do Rei dos reis dos reis.

25Disse-lhe Rava: eu digo assim: digamos aqui que se aprende para o rigor, e ali também para o rigor
Bavli · 62b — Guemará
אֲמַר לֵיהּ: אֲנָא הָכִי קָאָמֵינָא: נֵימָא הָכָא לְחוּמְרָא וְהָכָא לְחוּמְרָא,

Disse-lhe (amar leih) Rava, retomando sua resposta a quem o desafiara: eu (ana) digo (kaamina) assim (hachi): digamos (neima) aqui (hacha) que se aprende para o rigor (lechumra) (do calçado, que é sempre proibido), e ali (vehacha) também para o rigor (lechumra) (do atalho, que exige condição prévia para ser permitido — ambos os casos, quando se comparam calçado e atalho, apontam para o lado mais restritivo, e não para o mais permissivo).

Nota

O daf termina com a réplica final de Rava a seu interlocutor: ao comparar duas fontes possíveis para determinar a regra de cuspir na sinagoga — o calçado (permitido sem condição) e o atalho (proibido sem condição prévia) —, deve-se sempre adotar, em caso de dúvida entre duas analogias possíveis, a leitura mais rigorosa em cada uma, e não a mais permissiva. Com esta observação metodológica sobre como comparar fontes conflitantes, encerra-se o daf 62b, e com ele o primeiro grande bloco de halachot sobre pudor, banheiro e respeito ao Monte do Templo dentro do Perek Tet.