A Guemará descreve a oração do próprio D'us — pedindo que a Sua misericórdia prevaleça sobre a Sua ira — a partir da visão do Kohen Gadol Yishmael ben Elisha no Santo dos Santos. Segue com a duração exata da ira Divina (um instante fugaz por dia) e o episódio do herege que tentou identificá-la observando o galo cantar; depois, os três pedidos que Moshé fez a D'us e obteve, a tipologia dos justos e ímpios que prosperam ou sofrem, e o ensino de que as promessas divinas de bênção, uma vez proferidas, são irrevogáveis.
Disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: de onde (se prova) que o Santo, Bendito Seja, reza? Como está dito: "e os trarei ao Meu santo monte, e os alegrarei na Minha casa de oração" (Isaías 56:7) — não está dito "casa da oração deles", mas "Minha casa de oração"; daqui (se prova) que o Santo, Bendito Seja, reza.
O que Ele reza?
Este movimento retoma diretamente o fio de 6b, onde a Guemará já havia estabelecido que D'us usa tefilin. Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yosei, agora prova, por uma leitura precisa do pronome possessivo em Isaías — "Minha casa de oração", não "a casa da oração deles" —, que o próprio D'us reza. A pergunta natural que se segue, "o que Ele reza?", abre o próximo movimento.
Disse Rav Zutra bar Tovia, disse Rav: "seja de Minha vontade que Minha misericórdia vença Minha ira, e que Minha misericórdia prevaleça sobre Meus outros atributos, e que Eu Me conduza com Meus filhos com o atributo da misericórdia, e que Eu entre com eles além da linha estrita da lei".
Rav Zutra bar Tovia, em nome de Rav, responde à pergunta do movimento anterior revelando o próprio texto da oração Divina: um pedido de que a misericórdia prevaleça sobre a ira e sobre os demais atributos de julgamento, e que D'us trate Seus filhos além do rigor estrito da lei — um paralelo direto à oração humana, mas dirigida do Criador a Si mesmo.
Foi ensinado numa baraita: disse Rabi Yishmael ben Elisha: certa vez entrei para queimar incenso no lugar mais interior, e vi a Achtariel Yah, D'us dos exércitos, que estava sentado num trono alto e elevado, e Ele me disse: "Yishmael, Meu filho, abençoa-Me!" Eu Lhe disse: "seja de Tua vontade que Tua misericórdia vença Tua ira, e que Tua misericórdia prevaleça sobre Teus outros atributos, e que Te conduzas com Teus filhos com o atributo da misericórdia, e que entres com eles além da linha estrita da lei". E Ele acenou-me com a cabeça. E isto nos ensina que a bênção de um homem comum não deve ser leve aos teus olhos.
"E Ele acenou-me com a cabeça" — como quem concorda com a minha bênção e responde "amém".
A Guemará traz um segundo testemunho da mesma oração — desta vez não por tradição transmitida, mas por experiência direta: Rabi Yishmael ben Elisha, o Sumo Sacerdote, relata ter visto D'us sentado em Seu trono no Kodesh HaKodashim e ter sido convidado a abençoá-Lo. A bênção que oferece é, palavra por palavra, o mesmo texto revelado no movimento anterior — e D'us, segundo Rashi, aceita-a com um aceno de cabeça equivalente a responder "amém". A Guemará extrai daí uma lição prática: se o próprio D'us pediu e aceitou a bênção de um homem, a bênção de qualquer pessoa comum não deve ser desprezada.
E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: de onde (se prova) que não se deve aplacar uma pessoa no momento de sua ira? Como está escrito: "Minha face irá, e te darei descanso" (Êxodo 33:14). Disse-lhe o Santo, Bendito Seja, a Moshé: espera por Mim até que passe a face de ira, e Eu te darei descanso.
Rabi Yochanan extrai uma norma de etiqueta interpessoal do próprio comportamento Divino: quando Moshé pediu que a Shechiná permanecesse sobre Israel após o pecado do bezerro de ouro, D'us respondeu que ele deveria esperar até que a "face de ira" passasse. Se o próprio D'us pede tempo antes de conceder um pedido feito em Sua ira, também o ser humano não deve tentar aplacar outra pessoa enquanto ela ainda está irada — deve aguardar que a ira passe.
Mas acaso há ira diante do Santo, Bendito Seja?
Sim, como foi ensinado: "e D'us Se ira todo dia" (Salmos 7:12).
E quanto dura Sua ira? Um instante. E quanto é um instante? Um quinquagésimo oitavo mil oitocentos e oitenta e oito avos de hora — isto é um instante. E nenhuma criatura consegue calcular exatamente essa hora, exceto Bilaam, o ímpio, de quem está escrito: "e conhece o conhecimento do Altíssimo" (Números 24:16).
A Guemará interrompe-se com uma pergunta quase de espanto teológico: pode-se falar de "ira" diante de D'us? A resposta é afirmativa, apoiada num versículo de Salmos, mas imediatamente delimitada com precisão matemática extrema: a ira Divina dura um instante infinitesimal — uma fração de segundo de uma hora —, tempo tão curto que nenhuma criatura consegue calculá-lo com exatidão, exceto o próprio Bilaam, cuja "sabedoria" seria justamente essa capacidade de mirar o momento exato da ira para lançar sua maldição.
Ora, se ele nem sequer conhecia a mente do seu próprio animal (a jumenta), conheceria o conhecimento do Altíssimo?
Antes, isso ensina que ele sabia calcular exatamente aquela hora em que o Santo, Bendito Seja, Se ira.
E isto é o que disse o profeta a Israel: "meu povo, recorda-te agora do que aconselhou Balak, rei de Moav..." etc. (Miquéias 6:5). O que significa "para que conheçais as retidões de D'us"?
Disse Rabi Elazar: disse-lhes o Santo, Bendito Seja, a Israel: sabei quantas retidões fiz convosco, que não Me irei nos dias de Bilaam, o ímpio — pois se Eu Me tivesse irado, não teria restado dos inimigos de Israel remanescente nem sobrevivente.
E isto é o que disse Bilaam a Balak: "como amaldiçoarei a quem D'us não amaldiçoou? E como condenarei a quem D'us não condenou?" (Números 23:8) — isso ensina que em todos aqueles dias Ele não Se irou.
"Não conhecia a mente do seu animal" — no tratado Avodá Zará (2b) isso é explicado, no primeiro capítulo.
A Guemará objeta com ironia: como poderia Bilaam conhecer os pensamentos mais elevados de D'us, se nem sequer compreendia a mente da própria jumenta que montava (episódio de Números 22)? A resposta reduz o "conhecimento do Altíssimo" de Bilaam a uma técnica limitada: ele sabia apenas calcular o instante preciso da ira Divina, para maldizer exatamente naquele momento. Rabi Elazar então revela, por meio de Miquéias, que a "retidão de D'us" celebrada pelo profeta consistiu justamente em suspender essa ira durante todos os dias em que Bilaam tentou amaldiçoar Israel — o que o próprio Bilaam reconhece ao confessar a Balak que não conseguia amaldiçoar quem D'us não amaldiçoava.
E quanto dura Sua ira? Um instante [rega]. E quanto é um instante? Disse Rabi Avin — e há quem diga Rabi Avina: um instante é (o tempo) de pronunciá-lo.
E de onde sabemos que um instante Ele Se ira? Como está dito: "pois um instante há em Sua ira, uma vida há em Seu favor" (Salmos 30:6). E, se quiseres, dize daqui: "esconde-te por um breve instante, até que passe a ira" (Isaías 26:20).
"Qual é o versículo?" — de que a ira também dura apenas um instante, como está escrito: "pois um instante há em Sua ira, uma vida há em Seu favor".
Uma segunda definição de "instante" é oferecida por Rabi Avin (ou Rabi Avina) — não mais uma fração matemática precisa da hora, mas o tempo necessário para pronunciar a própria palavra "rega" (instante). Duas provas escriturísticas independentes, de Salmos e de Isaías, confirmam que a ira Divina é, por definição, algo passageiro e brevíssimo, contrastado com a permanência de Seu favor.
E quando Ele Se ira? Disse Abaye: nas primeiras três horas (do dia), quando embranquece a crista do galo, e ele fica de pé sobre uma só perna.
Mas não fica assim de pé em toda hora também?
Em toda (outra) hora há nela listras vermelhas; naquela hora não há nela listras vermelhas.
"Nas primeiras três horas" — num dos instantes das três primeiras horas (do dia).
"Listras" — "taches" em francês antigo (glosa de Rashi).
Abaye localiza o instante da ira Divina dentro das três primeiras horas do dia, e oferece um sinal visível na natureza: a crista do galo embranquece e o animal fica sobre uma só perna. A Guemará objeta que o galo faz isso em qualquer hora; a resposta refina o sinal — a diferença está na ausência das listras vermelhas na crista, presentes em todas as outras horas, mas não naquele instante preciso.
Certo herege que era vizinho de Rabi Yehoshua ben Levi o afligia muito com versículos (interpretados de forma provocadora). Certo dia, (Rabi Yehoshua ben Levi) tomou um galo, colocou-o entre as pernas da cama, e o observou; pensou: quando chegar aquela hora, o amaldiçoarei. Quando chegou aquela hora, ele adormeceu. Disse: conclui-se disso que não é conduta apropriada agir assim. "E Sua misericórdia está sobre todas as Suas obras" (Salmos 145:9), está escrito.
E está escrito: "também punir o justo não é bom" (Provérbios 17:26).
"Ao justo não é bom" — punir as criaturas.
Um relato pessoal e vívido ilustra o ensinamento anterior: Rabi Yehoshua ben Levi, atormentado por um herege vizinho, tenta usar o sinal do galo para calcular o instante da ira Divina e assim amaldiçoá-lo. Mas justamente naquele instante ele adormece — um sinal, entende ele mesmo, de que tal conduta é inadequada. A conclusão é ética, não apenas prática: mesmo diante de um adversário genuíno, a misericórdia Divina se estende sobre todas as criaturas, e punir — ainda que a pessoa tenha razão e seja "justa" na disputa — não é bom.
Foi ensinado em nome de Rabi Meir: no momento em que o sol nasce, e todos os reis do oriente e do ocidente colocam suas coroas sobre suas cabeças e se prostram ao sol, imediatamente Se ira o Santo, Bendito Seja.
Depois de estabelecer a duração e o sinal da ira Divina, a Guemará revela finalmente sua causa: a idolatria solar praticada diariamente pelos reis das nações no exato momento do nascer do sol — o mesmo instante marcado pelo sinal do galo. A ira Divina, portanto, não é arbitrária, mas uma resposta direta e cotidiana a esse ato de adoração idólatra que se repete todas as manhãs.
E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: melhor é um único remorso no coração de um homem do que muitos açoites, como está dito: "e perseguirá seus amantes... e dirá: irei e voltarei ao meu primeiro marido, pois melhor me era então do que agora" (Oséias 2:9).
E Reish Lakish disse: mais do que cem açoites, como está dito: "penetra mais a repreensão no homem entendido do que cem açoites no tolo" (Provérbios 17:10).
"Um único remorso" — expressão de submissão e humilhação que o homem impõe a si mesmo, por conta própria.
"E perseguirá seus amantes" etc. — e quando ela vir que não há quem a ajude, colocará em seu coração dizer: voltarei ao meu primeiro marido.
"Sob a repreensão no entendido" — a repreensão num homem entendido é melhor do que açoitar um tolo cem vezes.
Rabi Yochanan, ainda em nome de Rabi Yosei, valoriza o remorso interior acima de qualquer castigo físico externo, ilustrando com o versículo de Oséias sobre a mulher que, abandonada por seus amantes, decide por si mesma retornar ao primeiro marido — o remorso nasce de dentro, sem coerção. Reish Lakish intensifica a comparação numericamente, apoiando-se em Provérbios: a repreensão que penetra o entendimento vale mais que cem açoites aplicados a quem não compreende.
E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: três coisas pediu Moshé ao Santo, Bendito Seja, e Ele lhe deu. Pediu que a Shechiná repousasse sobre Israel, e Ele lhe deu, como está dito: "acaso não é por Tu ires conosco..." (Êxodo 33:16).
Pediu que a Shechiná não repousasse sobre os idólatras, e Ele lhe deu, como está dito: "e seremos distinguidos, eu e o Teu povo" (Êxodo 33:16).
Pediu que lhe fossem dados a conhecer os caminhos do Santo, Bendito Seja, e Ele lhe deu, como está dito: "faze-me conhecer, por favor, os Teus caminhos" (Êxodo 33:13). Disse diante Dele: Senhor do universo! Por que há um justo a quem vai bem, e há um justo a quem vai mal; há um ímpio a quem vai bem, e há um ímpio a quem vai mal? Disse-lhe: Moshé, um justo a quem vai bem é um justo filho de justo; um justo a quem vai mal é um justo filho de ímpio; um ímpio a quem vai bem é um ímpio filho de justo; um ímpio a quem vai mal é um ímpio filho de ímpio.
"Três coisas pediu Moshé, e Ele lhe deu" — pois ao final do seu pedido está escrito: "também esta coisa que falaste farei" (Êxodo 33:17).
"Fazer-lhe conhecer Seus caminhos" — o costume do atributo de Seus julgamentos, como por que há justo a quem vai bem, ímpio a quem vai mal, justo a quem vai mal, e ímpio a quem vai bem.
Rabi Yochanan lista três pedidos de Moshé, todos atendidos por D'us, cada um provado por uma cláusula do mesmo diálogo em Êxodo 33: que a Shechiná permanecesse sobre Israel, que ela não repousasse sobre os povos idólatras, e — o mais ambicioso — que lhe fossem revelados os próprios caminhos do julgamento Divino. A resposta de D'us a essa terceira pergunta introduz uma tipologia de quatro categorias, cruzando retidão moral com destino aparente: o sofrimento ou prosperidade de cada pessoa depende não apenas de seus próprios méritos, mas também dos de seu pai.
Disse o Mestre: "um justo a quem vai bem é justo filho de justo; um justo a quem vai mal é justo filho de ímpio." Mas é assim? Não está escrito: "que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos" (Êxodo 34:7)? E está escrito: "e os filhos não morrerão pelos pais" (Deuteronômio 24:16)! E colocamos os versículos um contra o outro,
e respondemos: não é difícil. Este (versículo, que os filhos são punidos) é quando eles seguram nas mãos a obra de seus pais (isto é, continuam seus pecados); aquele (versículo, que não são punidos) é quando não seguram nas mãos a obra de seus pais.
Antes, assim Lhe disse: um justo a quem vai bem é um justo completo; um justo a quem vai mal é um justo incompleto; um ímpio a quem vai bem é um ímpio incompleto; um ímpio a quem vai mal é um ímpio completo.
A Guemará confronta a resposta do movimento anterior com uma contradição textual explícita entre dois versículos sobre a responsabilidade dos filhos pelos pecados dos pais. A primeira resolução distingue entre filhos que perpetuam os pecados paternos (punidos) e os que não os perpetuam (não punidos). Mas essa resposta é então substituída por uma reformulação mais precisa da resposta original de D'us a Moshé: o sofrimento ou prosperidade não dependem, afinal, da ascendência do pai, mas do grau de completude da própria retidão ou impiedade da pessoa — um "justo incompleto" sofre nesta vida para receber recompensa plena na próxima, e um "ímpio incompleto" prospera aqui para ser punido integralmente depois.
E isto discorda de Rabi Meir, pois disse Rabi Meir: duas (coisas) lhe deram, e uma não lhe deram, como está dito: "e serei gracioso com quem for gracioso" — ainda que não seja digno; "e terei misericórdia de quem tiver misericórdia" (Êxodo 33:19) — ainda que não seja digno.
Rabi Meir discorda diretamente da posição de Rabi Yochanan: para ele, apenas dois dos três pedidos de Moshé foram concedidos — a Shechiná sobre Israel e sua ausência entre as nações —, mas não o pedido de conhecer os caminhos do julgamento Divino. A prova é o próprio versículo que introduz a resposta de D'us: "serei gracioso com quem for gracioso... terei misericórdia de quem tiver misericórdia" é lido não como uma revelação do critério de julgamento, mas como uma recusa disfarçada — D'us concede graça e misericórdia por vontade própria, mesmo a quem não é digno, sem que Sua lógica seja verdadeiramente revelada a Moshé ou a qualquer criatura.
"E disse: não poderás ver a Minha face" (Êxodo 33:20) — foi ensinado em nome de Rabi Yehoshua ben Korchá: assim lhe disse o Santo, Bendito Seja, a Moshé: quando Eu quis (mostrar-te), tu não quiseste (ver); agora que tu queres, Eu não quero.
"Quando Eu quis" — na sarça. "Tu não quiseste" — como está dito: "e Moshé escondeu o seu rosto" (Êxodo 3:6).
Rabi Yehoshua ben Korchá interpreta com dureza a recusa de D'us em mostrar Sua face a Moshé: é uma espécie de retribuição irônica pelo fato de que, na sarça ardente, foi o próprio Moshé quem escondeu o rosto por medo de olhar para D'us. Esta leitura trata a hesitação original de Moshé como uma falha — uma rejeição da proximidade que D'us lhe oferecia — que agora se reflete de volta sobre ele.
E isto discorda de Rabi Shmuel bar Nachmani, que disse em nome de Rabi Yonatan: como recompensa por três (atos), (Moshé) mereceu três (coisas).
Como recompensa por "e Moshé escondeu o seu rosto" (Êxodo 3:6), mereceu o brilho do rosto (Êxodo 34:29). Como recompensa por "porque temeu", mereceu "e temeram aproximar-se dele" (Êxodo 34:30). Como recompensa por (o fato de que) "não olhou", mereceu "e a semelhança de D'us ele contempla" (Números 12:8).
"E isto discorda" — de Rabi Yehoshua ben Korchá, que o pune por isso, contra Rabi Shmuel (bar Nachmani), que disse que recebeu recompensa por isso.
"O brilho do rosto" — pois a pele do seu rosto emitia raios (de luz).
"E a semelhança de D'us ele contempla" — isto se refere à visão das costas (Divinas), como está ensinado no Sifrei, na porção de Behaalotecha.
Rabi Shmuel bar Nachmani, em nome de Rabi Yonatan, inverte completamente a leitura anterior: o gesto de Moshé na sarça não foi uma falha punida, mas um ato de humildade recompensado três vezes — o rosto que escondeu tornou-se radiante; o temor que sentiu tornou-se temor reverencial que os outros sentiam por ele; e a recusa em olhar tornou-se o privilégio único de contemplar "a semelhança de D'us", identificada por Rashi, com base no Sifrei, como a visão das costas Divinas.
"E removerei a Minha mão, e verás as Minhas costas" (Êxodo 33:23). Disse Rav Chana bar Bizna, disse Rabi Shimon Chassida: isso ensina que o Santo, Bendito Seja, mostrou a Moshé o nó dos tefilin.
"O nó dos tefilin" — está atrás (da cabeça), e já dissemos acima que o Santo, Bendito Seja, usa tefilin.
Este movimento retorna explicitamente ao tema que abriu o excurso sobre os tefilin de D'us em 6a-6b: o versículo sobre Moshé vendo "as costas" de D'us é interpretado, por Rav Chana bar Bizna em nome de Rabi Shimon Chassida, como uma visão concreta e específica — o nó dos tefilin da cabeça Divina, que fica na nuca. É o único ponto do daf 7a que fecha explicitamente o círculo com o material anterior sobre a antropomorfização da prática Divina dos tefilin.
E disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: toda palavra que saiu da boca do Santo, Bendito Seja, para o bem, mesmo (dada) sob condição, Ele não voltou atrás dela.
De onde (se prova)? De Moshé, nosso mestre, como está dito: "deixa-Me, e os destruirei... e farei de ti uma nação poderosa" (Deuteronômio 9:14). Ainda que Moshé tenha pedido misericórdia sobre esse assunto e o tenha anulado (a destruição de Israel), mesmo assim (a promessa) se estabeleceu em sua descendência, como está dito: "os filhos de Moshé: Gershom e Eliezer... e foram os filhos de Eliezer: Rechavia, o chefe..." etc., "e os filhos de Rechavia se multiplicaram grandemente" etc. (I Crônicas 23:15-17).
E ensinou Rav Yossef: "grandemente" significa mais de seiscentos mil, por analogia verbal entre "multiplicaram" e "multiplicaram": está escrito aqui "se multiplicaram grandemente", e está escrito ali: "e os filhos de Israel frutificaram, e proliferaram, e se multiplicaram" (Êxodo 1:7).
O daf se encerra com um princípio geral sobre a irrevogabilidade das promessas Divinas de bem: mesmo uma promessa condicional — como a oferta a Moshé de tornar-se, ele mesmo, uma grande nação, feita no contexto da ameaça de destruir Israel pelo pecado do bezerro de ouro — encontra cumprimento, ainda que a condição original (a destruição de Israel) tenha sido anulada pela intercessão de Moshé. A Guemará traça essa promessa até a genealogia de I Crônicas, onde os descendentes de Eliezer, filho de Moshé, através de Rechavia, "se multiplicaram grandemente" — e Rav Yossef, por analogia verbal com a multiplicação de Israel no Egito, quantifica essa expressão em mais de seiscentos mil, cumprindo à risca, ainda que tardiamente e por uma via lateral, a promessa original.